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  • Dom Marcel Lefebvre

    Por S.E.R. Dom Tomás de Aquino O.S.B.   Há certa semelhança entre Dom Lefebvre e Gustavo Corção. Ambos eram destemidos no combate e de imensa bondade no trato. Ambos nunca deixavam de receber os que batiam à sua porta e os escutavam com paciência e bondade. Vi em Dom Lefebvre, na primeira vez que ele veio ao nosso mosteiro na França, uma grande serenidade. No Sermão, ele nos falou do livro de São Luís Maria Grignion de Montfort, “O amor da Sabedoria Encarnada”, e disse que este livro era muito útil para saber o verdadeiro lugar da devoção a Nossa Senhora no conjunto da espiritualidade. Ele pregava com grande paz e foi isso o que mais me impressionou. Nesta ocasião ele conferiu as ordens menores a dois de nossos irmãos. Os modernistas não nos perdoaram por esta visita de Dom Lefebvre. Nosso superior, Dom Gérard, foi suspenso a divinis  (pena que proíbe a um sacerdote exercer atos do poder de ordem, como celebrar a missa, ouvir confissões e administrar os outros sacramentos) e a nossa comunidade foi excluída da ordem beneditina. Como dizia o grande escritor francês Louis Veuillot: “não há nada mais sectário do que um liberal”. Aproveito para dizer uma palavra sobre os católicos liberais, que Pio IX dizia serem os piores inimigos da Igreja, porque estão dentro da Igreja, possuem frequentemente a fé, mas agem de maneira contrária aos princípios que eles professam como católicos. Dom Lefebvre vê nessa psicologia dos liberais a explicação que os sedevacantistas não aceitam. Um Papa liberal pode ter a fé e agir contrariamente aos princípios da fé. Eis porque Pio IX os acusava de serem os piores inimigos da Igreja. É uma pena que os sedevacantistas não escutem Dom Lefebvre. Depois desta primeira vez em Bédoin, na França, pude ver Dom Lefebvre várias vezes na minha vida. Mas para dar uma rápida descrição de sua personalidade, não vejo nada melhor do que transcrever parcialmente o que François Brigneau escreveu e que Dom Tissier reproduziu em seu livro sobre a vida de Dom Lefebvre: A idade não afrouxou o seu passo. O pouco tempo de que dispõe para cumprir a imensa tarefa que lhe foi reservada também não o precipitou. Monsenhor tem o passo sereno dos homens que sabem o que querem e para onde vão. O que impressiona nele é a bondade. Quero dizer, a irradiação da bondade. Seu sorriso é como o calor de uma mão. Ele comove-nos. Logo, dá-nos o desejo de nos tornarmos melhores. De termos menos indulgência para com nós mesmos, para com nossas faltas e nossos defeitos. De sermos mais dignos do respeito que, perante ele, experimentamos. Um só homem me inspirou um sentimento parecido: o Marechal Pétain. Monsenhor Lefebvre e ele partilham a mesma majestade natural, a mesma autoridade bondosa e a mesma simplicidade superior. Eles são destes homens (…) que despertam espontaneamente as dedicações que podem ir, sem esforço, até ao sacrifício, porque sabemos de instinto, de convicção profunda e imediata que eles se sacrificaram, desde o início, ao seu dever. É toda a página que deve ser lida. Pétain e Dom Lefebvre são o que são porque se sacrificaram, um, pela pátria; outro, por Deus. É por isso que nós amamos e seguimos este grande bispo que muitos ignoram ou, conhecendo-o, não seguem seus ensinamentos. Que nós, ao menos, saibamos tirar todo o proveito do tesouro que Deus nos deu em sua pessoa.

  • Ateísmo contemporâneo

    Por Gustavo Corção, publicado n’O Globo em 16 de agosto de 1969 No capítulo III do Livro II da Suma Contra Gentiles , Santo Tomás ensina que "a consideração das criaturas é necessária não somente à edificação da verdade mas também à refutação dos erros sobre Deus", e logo acrescenta esta advertência de capital importância para a vida das almas e para a sorte das civilizações: "os erros que se cometem sobre as coisas criadas afastam da verdade da fé, porque contradizem o verdadeiro conhecimento de Deus." E no termo do importante capítulo repete: "nam error circa creaturas redundat in falsam de Deo sententia." E é por isso que a Escritura ameaça os que se enganam sobre as coisas da natureza: "Os que não compreenderam as obras do Senhor, o trabalho de suas mãos, vós os destruireis e não os edificareis." Ora, é precisamente nessa linha, além de outras que cooperam no mesmo lamentável resultado, que o mundo contemporâneo vem insistentemente errando, circa creaturas , e por conseguinte redundando em erros que se agigantam contra a fé. Na mesma proporção em que progrediu vertiginosamente no conhecimento fenomenológico, tecnicamente conversível em domínio sobre a natureza inferior, a civilização moderna progrediu também em enganos e equívocos no conhecimento ontológico, que remuneraria o mundo com fé e sabedoria. O materialismo, em seus vários aspectos, nutriu-se das glórias das ciências da natureza para produzir uma péssima filosofia da natureza que é oficialmente ensinada no mundo inteiro. As obras das mãos do Senhor, como diz o Salmista, na mesma medida que são exploradas para recreio ou utilidade dos homens, são contestadas como obras de Deus, e são atribuídas à maternidade de uma natureza divinizada e ao mesmo tempo inconsciente, ou são vistas como filhas bastardas do acaso. O universo seria obra dele mesmo, e as formas em graus de perfeição crescente que vemos na chamada biosfera são epifanias da matéria, ou são resultados felizes de um obscuro massacre e de uma inconsciente filtragem. Tudo é pretexto, na atmosfera do cientificismo, da falsa filosofia da natureza, para deixar no esquecimento, ou na gaveta das lembranças pueris, o santo nome de Deus. Essa soma de erros circa creaturas , que redundam em erros contra Deus, ganha maior gravidade quando abrange a criatura especialmente criada à imagem e semelhança de Deus. E aqui registramos o paradoxo brutal: a má filosofia gerada pelo orgulho do homem redunda numa teoria que rebaixa o homem e que o obriga a procurar sua grandeza perdida no poder do homem massa. Como dizia São Pio X, vejo com temor e terror o drama que se avoluma no mundo moderno: pela primeira vez na história da humanidade se esboça a tentativa de uma civilização inteira e universal baseada num sub-humanismo ateu. * * * O mundo sempre teve ateus espalhados em todas as nações. O ateu escoteiro, bissexto, avulso, é muitas vezes um homem excelente que presta um culto sincero a um dos pseudônimos de Deus. Conheço ateus que me edificam pela bondade e pela humildade. Serão realmente ateus? Ou apenas equivocados? Não creio que seja fácil alguém ser individualmente ateu, ser refletidamente, resolutamente ateu. Ateus práticos somos todos nós que tão mal servimos Nosso Senhor; mas ateu-ateu até o fundo do coração não sei se tal façanha está ao alcance do homem. O que no caso me apavora, como apavorou Pio X, não são esses pobres e talvez falsos trânsfugas amados por Deus, é a tentativa satânica de erigir em sistema civilizacional o ateísmo destilado do mau cientismo dos marx's, dos teilhard's, e de todos os que cometeram erros tão graves sobre a obra de Deus. Uma sociedade aguenta o livre ateísmo; aguenta gemendo a generalização do ateísmo prático nos costumes aberrantes; mas receio muito que não aguente, sem espantosa monstrificação, o ateísmo sistemático, o ateísmo tornado, para cúmulo da derrisão, a religião oficial do Estado em todo o mundo. E como as formas sociais são muitas vezes feitas das omissões, das capitulações e, por que não dizer?, das alienações das almas, é possível imaginar uma envoltória civilizacional, uma atmosfera de ideias e valores ateus a recobrir uma carneirada humana que não consegue ser ateia no fundo dos corações. A natureza das coisas tem muita força, a alma humana tem muitas reservas. Isto é verdade. Mas o que já se vê de degradação deixa adivinhar o que acontecerá quando a consequência dos erros amadurecer. Santo Tomás ensina, e também repetidamente ensinam todos os livros da Sagrada Escritura, que a beleza da criação é para o homem o caminho para Deus. Se por engenho do orgulho transformamos em negação e em blasfêmia o que deveria chegar à adoração, e se tal resultado se torna o azoto da nova civilização, então é fácil prever a terrível quase-irreversibilidade de tal monstrificação do mundo. E já podemos prever, com as amostras que os socialistas generosamente nos propiciam, como viverá em tal mundo a carneirada submissa que aceita para o mundo e para o lar um teto ateu sem conseguir ser ateu no fundo do coração. Ele viverá internado no planeta. Trabalhará, comerá, beberá, recrear-se-á, e sempre que entrar em ligeira colisão com a máquina-de-viver, ele terá de se reajustar logo, para comer, para beber, para viver, ainda que, em cada pequena acomodação, tenha de renegar a sombra do nome de seu Criador, e a lembrança insistente de seu Salvador.

  • O que é a SAJM?, pelo Rev. Pe. Brocard

    Caros fiéis, antes de lhes dizer algumas palavras sobre o mistério da Igreja, num dos aspectos mais graves da crise da Igreja que estamos vivendo, permitam-me apresentar-lhes, em poucas palavras, a nossa sociedade sacerdotal, a SAJM. O que é a SAJM? Em 21 de novembro de 2017, Monsenhor Christian Jean Michel Faure promulgou os estatutos definitivos da SAJM (Sociedade dos Apóstolos de Jesus e Maria), sociedade sacerdotal de vida comum sem votos. Ao fazer isso, Monsenhor desejava apenas continuar a obra de Monsenhor Lefebvre: a Fraternidade Sacerdotal São Pio X, a fim de poder dizer também o que Monsenhor desejava ver gravado em seu túmulo: Tradidi quod et accipi. Por que foi necessário separar-se da FSSPX e fundar uma sociedade - não nova nem diferente, mas outra - para continuar a obra de Monsenhor Lefebvre? Infelizmente, os sucessores de Monsenhor Lefebvre se afastaram da linha de conduta que ele lhes havia dado, em vários pontos: As relações com as autoridades conciliares. Dom Lefebvre havia estabelecido claramente, depois de ter tentado de tudo, que não poderia haver acordo prático antes de um acordo doutrinário. Em outras palavras, era preciso esperar que as autoridades conciliares se convertessem antes de se colocar nas mãos delas. A distinção entre Igreja Católica e Igreja conciliar. A dúvida sobre a validade dos sacramentos administrados pelos prelados da Igreja conciliar, devido à intenção.  Essa dúvida levou Mons. Lefebvre a reordenar os sacerdotes ordenados no novo rito, antes de enviá-los aos fiéis, a fim de não correr nenhum risco quanto à validade dos sacramentos que eles administrariam às almas. Este foi também o principal argumento que o levou a consagrar quatro bispos sem mandato pontifício. “ Vocês sabem bem, meus queridos irmãos, que não pode haver padres sem bispo. Todos estes seminaristas que aqui estão presentes, se amanhã o Bom Deus me chamar – e isso será sem dúvida em breve –, bem, de quem receberão o sacramento da ordem? Dos bispos conciliares, cujos sacramentos são todos duvidosos, porque não se sabe exatamente quais são as suas intenções. Isso não é possível.” (Homilia da missa das ordenações de 1988.) A rejeição do novo código de direito canônico (exceto as decisões disciplinares). Em todos esses pontos, a FSSPX tem agora uma nova maneira de agir. No entanto, podemos nos associar ao que costumamos chamar de Resistência? É inegável que Mons. Faure recebeu o episcopado de Sua Excelência Mons. Williamson. No entanto, diferimos em vários pontos. - A Declaração de Dom Marcel Lefebvre de 21 de novembro de 1974 é a carta da nossa resistência, a  declaração de fidelidade às posições da Fraternidade e o seu regulamento ou aplicação ; ora, vários padres da chamada Resistência se afastaram dela. Nessa declaração de fidelidade, Monsenhor pedia ao candidato ao diaconato que se comprometesse com três coisas: rezar publicamente pelo papa reinante, citá-lo no cânon da Missa ( una cum papa nostro ...), e finalmente aceitar a liturgia de 1962. - Dom Lefebvre jamais ordenou seminaristas sem que estivessem integrados em uma estrutura. Ele não queria formar sacerdotes independentes. Vários padres ou bispos da Resistência pensam que não devem seguir Monsenhor nesses pontos. O que nos motiva não é a luta contra esta ou aquela sociedade sacerdotal ou religiosa, mas permanecer fiéis à Igreja de sempre. Ora, essa fidelidade, na prática, se concretiza seguindo o exemplo e a luta de Dom Lefebvre, que a Providência nos suscitou como guia para nos mantermos fiéis. Portanto, só teremos credibilidade na medida em que formos fiéis ao pensamento e ao legado de Dom Lefebvre, à sua luta. O que os fiéis esperam de nós é que continuemos a operação de sobrevivência de Dom Lefebvre. Que Nossa Senhora nos ajude a todos a ser integralmente fiéis ao legado que Dom Lefebvre nos deixou, à sua luta, ao seu espírito. Conferência As heresias atacam sucessivamente os diferentes dogmas da nossa fé. Hoje, é a Igreja que se encontra mais especialmente atacada pelo modernismo, esse esgoto coletor de todas as heresias. Os modernistas, com seu ecumenismo, negam que exista uma única Igreja que detém a verdade e pode nos conduzir a Deus; e com sua colegialidade, atacam a própria constituição da Igreja. Devemos, portanto, estudar mais atentamente este mistério da nossa fé. É impossível esgotar o mistério da Igreja numa conferência hoje. Vejamos um aspecto que lhe interessa mais diretamente, caro fiel: a questão da jurisdição de suplência, para os padres da Tradição. Do primeiro poder da Igreja, o poder de comandar – a Jurisdição Desde o início, Deus quis que o homem fosse salvo por  e em uma sociedade, encarregada de instruí-lo, guiá-lo e oferecer sacrifícios por ele. Uma sociedade estruturada e hierarquizada, para lhe ensinar a verdade e iluminar sua inteligência; para guiá-lo e corrigir sua vontade rebelde e ajudá-lo a fazer o bem e evitar o mal; e, finalmente, para oferecer orações e sacrifícios a Deus em seu nome, a fim de obter para ele as graças de que necessita para se salvar. No início, eram os patriarcas que exerciam essas funções; depois, com Moisés, temos a tribo de Levi, com a família de Aarão como sumo sacerdote; e, finalmente, a Igreja, com a distinção entre fiéis e clérigos e, entre os clérigos, uma hierarquia. O problema que enfrentamos hoje com a crise da Igreja é que as autoridades da Santa Igreja estão imbuídas das teses modernistas já condenadas pelos papas anteriores. Não podemos mais confiar nelas nem nos submeter cegamente, pois há risco de condenação. Então, o que fazer? 1) Os fiéis devem ter noção da hierarquia da Igreja Para a existência desta Igreja conciliar, distinta da Igreja Católica, cf. o excelente artigo escrito por Mons. Tissier de Mallerais. Se quisermos ser muito simples, digamos que basta olhar para os seus frutos para ver que estamos perante duas Igrejas diferentes: quando vemos dois tipos de frutos, concluímos que eles provêm de duas árvores diferentes. As autoridades modernistas mudam tudo: têm uma nova missa (protestante), uma nova doutrina: a dignidade humana, um novo Pai Nosso, uma nova Via Sacra, um novo Rosário, um novo direito canônico, um novo tipo de santidade (Madre Teresa de Calcutá, João Paulo II), novas virtudes (a caridade é substituída pela falsa benevolência, a fé por um sentimento religioso, a esperança do Céu pela construção de um paraíso nesta terra). Elas mudam a doutrina de Cristo Rei pela liberdade religiosa, a conversão das almas pelo ecumenismo e a constituição monárquica da Igreja pela colegialidade. Ninguém de boa fé pode negar a crise que a Santa Igreja atravessa atualmente. Mas Deus quer que salvemos nossas almas, mesmo agora; e a ordem desejada e estabelecida por Deus não muda: se quisermos salvar nossa alma, devemos procurar uma autoridade católica à qual nos submeter, que nos ensine e nos guie, e da qual receberemos a graça. Infelizmente, a maioria de nós procura apenas sacramentos válidos, e nada mais! Em matéria de instrução, submetemos tudo ao julgamento de nossa inteligência limitada. Ninguém procura submeter-se a qualquer autoridade: nunca tivemos tanto espírito de independência como hoje. Ou então, submetemo-nos enquanto estamos de acordo, mas assim que nossos sentimentos são feridos, acabou! A maioria dos fiéis, quando procura uma igreja para frequentar, preocupa-se apenas em saber se os sacramentos são válidos. Como se fossem salvos ipso facto pela recepção dos sacramentos... E pensamos que podemos salvar nossa alma assim! Os adeptos do arianismo também receberam sacramentos válidos: quantos se salvaram e estão no céu? Se morreram arianos, nenhum. Absolutamente nenhum. O que nós, fiéis e padres, devemos procurar, portanto, é uma autoridade que nos ensine a verdadeira doutrina e à qual possamos nos submeter para ir para o céu. Quantos de nós realmente têm essa atitude? Sua Excelência Dom Tissier de Mallerais, na conferência que deu sobre a jurisdição de suplência (10 de março de 1991), insistiu neste ponto: “Vocês, fiéis leigos, homens e mulheres, têm o dever de pedir aos seus padres tradicionais e às suas capelas todo o ministério sacerdotal que se exerce normalmente numa paróquia. Vocês têm o dever de pedir todos os ministérios sacerdotais que eles estão em condições de lhes proporcionar. É seu dever confiar-se inteiramente aos seus padres tradicionais. Não devem contentar-se em pedir-lhes uma missa, um batismo ou um sermão, e nada mais. Se assim fosse, paralisariam o padre. Ele não pode exercer seu ministério em toda a sua plenitude nessas circunstâncias.”  e mais adiante  “Deve haver por parte dos leigos uma submissão voluntária ao clero. Eles devem sentir a necessidade de que sua alma dependa totalmente do ministério sacerdotal em toda a sua amplitude. Penso que isso é uma exigência do sentido da Igreja. Se você tem o sentido da Igreja, ou seja, o sentido da hierarquia da Igreja, você compreenderá isso” Padres e leigos, devemos fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para nos submeter à autoridade verdadeiramente católica, e não nos contentar em buscar sacramentos válidos e a doutrina católica. Quando se procura uma capela tradicional, não se deve perguntar apenas: “Os sacramentos são válidos? O sermão será católico?”, mas também, e sobretudo: “Haverá aqui um representante de Deus a quem eu possa confiar a direção da minha alma e da dos meus filhos, para que ele me conduza ao céu?” Vamos fazer uma comparação para entender melhor. E como somos soldados de Cristo Rei, vamos fazer uma comparação com a guerra. Se, em tempo de guerra, um general enviar vários comandos em missão, cada um sob o comando de um capitão, e se, durante a missão, o general os trair e passar para o lado inimigo, como os soldados devem reagir para o bem de seu país? Devem separar-se para levar a cabo a missão como entendem, mesmo que não tenham recebido qualquer formação para isso e não conheçam os planos? Claro que não, isso seria suicídio. Dirigir-se-iam ao capitão, que recebeu formação e instruções, e continuariam a obedecer-lhe para o bem da missão, a menos que ele também mostrasse sinais de traição. Se fossem ter com o capitão e lhe dissessem: “ Tudo o que lhe pedimos é que nos dê comida e munições, mas, acima de tudo, não nos dê ordens ”, qual seria o resultado da guerra? Perda. 2) A submissão: que critérios devem orientar a escolha de um católico? Mas aqui surge a seguinte questão. Como escolher o nosso superior? Submissão, sim, mas não cegamente à primeira pessoa que se apresentar. Nem todos os padres ou bispos que pretendem resistir ao modernismo podem necessariamente nos guiar para o Céu. Infelizmente, é uma triste realidade constatar que alguns padres se opuseram às autoridades da Igreja apenas por espírito de independência, a fim de poderem fazer o que querem sem restrições ou limites. Vejamos um primeiro sinal que não engana. Se o padre começa por praticar o que prega: que ele próprio se submeta primeiro a uma autoridade. Desconfiem dos padres independentes! Desconfiem especialmente dos jovens padres independentes, aqueles que frequentaram o seminário já com a ideia de serem independentes. Dom Lefebvre nunca, nunca apoiou nem ordenou esse tipo de padre; eles não têm o espírito da Igreja. Então, como escolher? Pegue as três coisas que você deve receber da Igreja e aplique-as: - A doutrina. Certifique-se de que ele lhe transmite a Tradição; e peça-lhe, se necessário, suas referências ao Magistério dos papas antes do Concílio Vaticano II. - Sacramentos válidos. Não corra nenhum risco. Os sacramentos são a principal fonte de graça. Você não tem o direito de expor seus filhos a sacramentos duvidosos, pois está em jogo a eternidade deles. Assim, por exemplo, hoje mais do que nunca, nossos filhos precisam receber o sacramento da confirmação de forma válida, a fim de serem testemunhas de Nosso Senhor neste mundo apóstata. O que se pensaria de um general que enviasse seus homens para o combate, armando-os com armas que funcionam de forma duvidosa, e que não se importasse com isso? - Uma orientação segura. Alguém que o guie com firmeza, sem se tornar um guru. Mais uma vez, quando se é um padre independente e isolado, é fácil tornar-se um guru para as almas! 3) A atitude Eu escolho à la carte  é um espírito protestante, que esteriliza todas as graças dos sacramentos Passar de capela em capela e de uma sociedade sacerdotal para outra é assumir-se como seu próprio guia nos caminhos espirituais. É certo que perderemos a santidade e, talvez, o céu. Nesta crise, tornou-se mais difícil salvar a nossa alma. Os nossos dois inimigos mais perigosos serão a nossa sensibilidade e o nosso racionalismo. Isso gera a atitude de “escolher o que nos convém”, que esteriliza todas as graças dos sacramentos. Nossa sensibilidade: uma atitude que consideramos ofensiva, uma observação que achamos ofensiva, podem nos afastar do padre – ou mesmo de uma capela – e nos empurrar para os braços de pessoas, certamente muito mais amáveis, mas que não têm o conhecimento para nos guiar e, duvidosamente, o poder de nos dar a graça. Entre um cirurgião sempre sorridente, mas que estudou pouco (ou em livros ruins), e um cirurgião, talvez mal-humorado, mas que conhece seu ofício: a quem você confiaria seu filho para ser operado? · Nosso racionalismo: como sempre, devemos evitar dois extremos: aquele que afirma que a fé do carvoeiro (¿) salva e segue cegamente, e o leigo que, depois de ler três livros de doutrina, se autoproclama doutor da Igreja e se dá a missão de criticar todos os padres e bispos e de propagar suas teses como sendo A  única posição verdadeira nesta crise da Igreja. Estudemos, sejamos humildes, supliquemos a Deus que nos dê padres e bispos bem formados que saibam nos guiar nesta crise e, quando tivermos a graça de encontrar um, permaneçamos fiéis. E se nos parecer que devemos mudar, tomemos cuidado para que não seja uma reação emocional e verifiquemos se nosso julgamento está enraizado na Tradição da Igreja. Conclusão Queridos fiéis, aqui no seminário, trabalhamos todos os dias para formar sacerdotes que os ajudem a salvar suas almas. Ajudem-nos  nesta bela obra! Esta obra es essencial para a sobrevivência da Igreja e a salvação das almas! Como você pode nos ajudar?  Rezando por nós, e também pedindo vocações ao céu por meio de orações insistentes. E, para aqueles que puderem, ajudando materialmente no funcionamento diário do seminário. Para mais informações e para mais palestras doutrinárias e espirituais, acesse o site do seminário: https://seminariodomlefebvre.com/seminario/ Rev. Pe. Brocard

  • Carta de Broadstairs - Nº 10

    Nova et vetera (Mat. 13, 52) A conversão dos judeus I - O povo judeu é o ponto central da história da humanidade, tendo recebido uma vocação divina na pessoa de Abraão. Antes de Nosso Senhor, era a raça sacerdotal por excelência, cujo estado, diz Santo Agostinho, é inteiramente profético. Dele nasceram a Santíssima Virgem e o Salvador do mundo. Ele formou o centro da Igreja nascente. Todos esses privilégios fazem do povo judeu uma raça excepcional, cujos destinos são inteiramente misteriosos. Mas, por uma estranha e deplorável inversão, desde o momento em que gerou o Salvador do mundo, a raça escolhida mereceu ser rejeitada, por ter recusado reconhecer humildemente e adorar Sua grandeza invisível. Parece que o Deus Todo-Poderoso quis assim mostrar que não há nada de carnal na vocação ao cristianismo, visto que aqueles que estão ligados a Cristo pela carne são rejeitados por seu orgulho obstinado e carnal. A rejeição deles é definitiva? Não, porque o Todo-Poderoso reservou misericórdias supremas para esse povo que outrora foi Seu. Depois de permanecer por muitos anos sem rei, sem príncipe e sem sacrifício, os filhos de Israel buscarão o Senhor seu Deus; e isso acontecerá no fim dos tempos (Oséias 3, 4-5). Elias será o instrumento desse maravilhoso retorno, como foi anunciado pelo profeta Malaquias, que restabelecerá a harmonia entre os santos antepassados do povo judeu e seus últimos descendentes. São Paulo liga a reprovação dos judeus à vocação dos gentios. Quando estes tiverem todos entrado na Igreja, então os judeus também entrarão, e isso em meio a um júbilo universal (Romanos 9, 25-27). Para compreender a profunda alegria que esse acontecimento extraordinário causará à Igreja em todo o mundo, devemos recorrer aos episódios proféticos da Sagrada Escritura que o anunciam. A entrada do povo judeu na Igreja é representada pela reconciliação de Esaú com Jacó e, sobretudo, pela aclamação de José por seus irmãos, que o haviam rejeitado (Gênesis 45). Na parábola evangélica do Filho Pródigo, os judeus são representados pelo filho mais velho, que se ressente do retorno de seu irmão à casa paterna. Finalmente, ele atende aos pedidos de seu pai e também se une à celebração. Que alegria indescritível haverá para a Santa Madre Igreja quando os filhos de Jacó reconhecerem e proclamarem Nosso Senhor bendito! II - Sem saber quando esse grande acontecimento ocorrerá, esperamos lançar alguma luz sobre o assunto. Parece certo, à luz da tradição, que o Anticristo será judeu. Ele aparecerá como produto dessa fermentação de ódio que durante séculos tem amargurado o coração dos judeus contra Cristo Jesus, seu terno Irmão e Amigo inseparável. Parece certo também que um grande número de judeus aclamará o falso messias com honra e levará o mundo a fazer o mesmo por meio da mídia corrompida e das altas finanças. Contudo, nos tempos que precederão a vinda do homem do pecado, haverá entre os judeus um movimento em direção à Igreja. Como sempre, grandes acontecimentos são anunciados por prelúdios. São Gregório Magno, em seu comentário sobre a misteriosa profecia de Ezequiel (capítulo 3), afirma que a fúria da perseguição sob o Anticristo será dirigida principalmente contra os judeus convertidos, cuja constância no sofrimento será incomparável pelo santíssimo nome de Jesus. Ele afirma também que a chegada e a pregação do profeta Elias converterão finalmente o restante de sua nação. O santo papa, em seus comentários sobre o Livro de Jó, também afirma que a conversão da maior parte de Israel ocorrerá sob os próprios olhos do Anticristo enfurecido. III - Se a Igreja desfrutará de tais consolações no tempo de grande perseguição, quanto mais no tempo de seu triunfo. Assim como o Todo-Poderoso utiliza até mesmo os anjos caídos para seus desígnios, também o Anticristo, apesar de si mesmo, será usado como instrumento do Senhor. Esse flagelo de ferro destruirá cismas, heresias, falsas religiões, paganismo, islamismo e judaísmo, preparando o reinado universal do Evangelho. Os próprios judeus serão os principais agentes no estabelecimento do reino de Deus, levando São Paulo a exclamar: “Se o pecado dos judeus enriqueceu o mundo, se os gentios foram enriquecidos por sua falta, que não devemos esperar quando essa falta for reparada? [...] Se a perda deles significou a reconciliação do mundo com Deus, o que significará sua recuperação, senão vida dentre os mortos?” (Romanos 11, 12 e 15). Rejuvenescida por essa infusão de vida, a Igreja tomará posse do mundo com a majestade de uma rainha e a ternura de uma mãe. Na próxima vez veremos se esses acontecimentos serão o prelúdio imediato do Juízo Final ou de uma nova era. Continua…

  • O Missal de 1962

    Alguns sacerdotes na Resistência se recusam a utilizar os livros litúrgicos aprovados e editados por João XXIII em 1962: Pontifical, Ritual, Breviário e Missal. Dom Lefebvre, ao contrário, adotou estes livros e deu a razão, em uma conferência: “A partir do momento em que uma reforma como a do Papa João XXIII não vai de encontro à nossa fé, não a diminui, sinceramente eu não creio... Se isto não fere a nossa fé, nós devemos reconhecer a autoridade do Soberano Pontífice que edita estes livros, este novo breviário, e nós devemos nos submeter, mesmo se nós temos alguma preferência pelo breviário ou pelo missal de São Pio X. Há uma obediência que devemos ter desde que não se toque, desde que não se diminua a nossa fé.” Com efeito, é preciso guardar não somente o princípio da fé, da doutrina, mas também o da autoridade. Quando uma autoridade legítima ordena algo que não é contra a fé, não é lícito recusá-lo por causa de uma preferência pessoal. Dom Lefebvre exigiu mesmo dos padres da Fraternidade que assinassem um compromisso afirmando que utilizariam o missal de 1962. Creio ser um erro desdenhar da posição de Dom Lefebvre. Sua posição é fundada em razões objetivas. Há, na Tradição em geral e na Resistência em particular, uma tendência a subestimar a autoridade. Isto é um grave erro. Se somos tradicionalistas, devemos ter o apreço que a Igreja sempre teve pela obediência à autoridade. Agir de outra forma é pactuar com aqueles que combatemos e que se afastaram do reto caminho da Tradição. Se Dom Lefebvre permitiu, por condescendência, durante um certo tempo, que alguns padres utilizassem o missal de São Pio X, ele voltou atrás ao ver que isto não era bom. Aliás, em Écône sempre se utilizou a liturgia de 1962. É o que fazemos em nosso mosteiro e que exortamos a todos a fazer igualmente, guardando assim a unidade da fé e a unidade da liturgia. As divisões na liturgia sempre acabam tendo tristes consequências. A rejeição dos livros litúrgicos de 1962 foi ocasião de sérias e numerosas divisões na Fraternidade. Frequentemente, ela é acompanhada por uma tendência ao sedevacantismo. Procuremos evitar estes desvios, se queremos ser verdadeiros filhos de Dom Lefebvre e, seguindo seu exemplo, ser verdadeiros filhos da Santa Igreja. +Tomás de Aquino O.S.B.

  • São Pio X

    Por Gustavo Corção, publicado n’O Globo em 21 de agosto de 1969 Todos nós temos nossos santos prediletos, mais próximos segundo não sei que espécie de afinidade, ou talvez mais favoráveis por algum decreto de Deus para a comunhão dos santos. O fato é que os temos. Depois de Deus — tu solus altissimus ... — depois da Virgem Santíssima e dos santos apóstolos, começa então a lista caprichosa dos afetos sobrenaturais de cada um. Não escondo a minha, onde o leitor em vão procurará a razão que também não encontrei de tal predileção. Ei-la: Santo Tomás, São Bento, Santa Perpétua, Santa Catarina de Sena, São João Câncio, Santa Bernadete, Santo Cura d'Ars, Santa Teresa d'Avila, São Francisco e São Pio X, o mais próximo na data de canonização e o mais importunado para que interceda no céu, como trabalhou na Terra, em defesa da Fé e da Igreja peregrina. Vou mais longe na confidência: trago sempre comigo, no bolso da camisa, em cima do coração, uma medalha do grande e santo Papa, e tenho no missal uma imagem e uma oração. Recentemente tive a ideia de escrever a todos os bispos do Brasil uma carta pedindo uma homenagem, um apelo sobrenatural ao santo em favor da igreja do Brasil. Recebi muitas cartas de apoio, e de certo modo foram elas que me deram a primeira ideia de um movimento que se chamaria instituto ou Centro Pio X. E até, se não me falha a memória, escrevi um artigo contando uma antiga dívida que eu tinha com Pio X. Em 1917 ou 18, minha mãe, que já fundara na rua do Matoso o Colégio Corção, teve uma oportunidade de desenvolvê-lo, transferindo-o para a rua Haddokk Lobo, 212, onde funcionava um Colégio Pio X que a velha diretora abandonava a qualquer preço. Em certa manhã primaveril ou estival daquele ano fabulosamente antigo, o moço disposto e ágil que fui trepou no quiosque que havia na entrada do colégio, e ajudado por seu irmão e seu padrasto arrancou o nome de Pio X e em lugar dele, vitoriosamente, plantou o novo nome "Colégio Corção”. Tento pagar hoje a dívida. E encontrei a mesma disposição nos amigos da PERMANÊNCIA. Em nossa sede, ao lado de outros santos, e de retratos de Chesterton, Péguy, Claudel, Jackson de Figueiredo e Fernando Carneiro, temos, uma bela e grande fotografia de São Pio X a nos abençoar. Tudo isto para dizer o espanto, a tristeza e o aborrecimento com que li uma página de livro... Eis o que Alceu de Amoroso Lima escreve no livro publicado recentemente. Violência ou não ? Ed. Vozes, pag. 204: "Fui reler ontem a Encíclica "Pascendi". Não pude continuar! Parece um documento escrito por um Torquemada! Comparar o que está ali escrito por um santo e, no entanto, ressumando ódio, vingança, punições, terror, condenações, expulsões, o que há de mais tipicamente inquisitorial, e confrontar com o que hoje escreve Paulo VI, ou escrevia ontem João XXIII, é como mudar... de planeta! É um documento tipicamente da Igreja policial, sem a mais remota semelhança com o Evangelho, ou mesmo com o Antigo Testamento. É um código de torturas. É a disciplina da chibata, como se aplicava na nossa Marinha, antes de 1910. De Cristianismo, nada, nada, nada". "Fiquei horrorizado e tive de deixar de ler para não extravasar no que estava escrevendo e então sim ser acusado de insurgir contra um Papa, contra um Santo, contra a Palavra da Igreja oficial e que continua de pé”. "Nunca tinha lido esta Encíclica senão muito de passagem. Só então compreendi que entre 1907 e 1965 há um abismo na história da Igreja. O autor daquele amontoado de ódio não pode ter sido o cardeal Sarto, o futuro Pio X. Foi-lhe imposto pelo entourage como sendo o ferro em brasa necessário para curar a Igreja do tétano modernista que a estava invadindo" (16-3-65). Quero lembrar ao leitor que a Encíclica Pascendi Domini Gregis , que bem merece seu nome, foi o documento fundamental em que Pio X em 08 de setembro de 1907, quatro anos depois de sua subida ao trono de São Pedro, combate os erros do "modernismo" com amorosa, heroica e santa severidade. Devo também observar que, se mudança houve na Igreja, não foi de 1907 para 1965 e sim de 1954, porque foi nessa data e não naquela que Pio X foi canonizado por Pio XII, e canonizado precisamente em razão das virtudes heroicas que demonstrou no combate ao "modernismo" e na defesa da Fé. Observo, também, que efetivamente a encíclica não poderia ter sido escrita por um futuro Papa e sim por um Papa bem assentado no seu trono. Lembro ainda que, a acreditar na explicação com que Amoroso Lima quer salvar seu desacato a um santo, a Igreja teria canonizado um idiota com critérios de ódio e de chibata. E mais não digo. Não tenho acesso ao autor acima citado já que ele, por princípio, confessa não ler nada do que escrevem seus críticos, e escora-se num provérbio árabe: "os cães ladram e a caravana passa". Suponho que um dos cães seja eu, e o autor a caravana, e por isto, dada minha incapacidade de atingi-lo, rogo a algum de seus amigos que interceda, imploro às irmãs beneditinas que tiveram parte na elaboração do volume que poupem os santos, e que, contra ele mesmo, protejam o autor que publica sua simpatia pelo "mártir Camilo Torres", pag. 148, e sua aversão pelo santo Pio X. É ainda um apelo de amizade que deixo, e continuarei a ladrar já que os domini cani aderiram à caravana.

  • Liberais e conservadores? - Parte II

    Por Gustavo Corção, publicado n’O Globo em 25 de outubro de 1969 Quais são realmente as mentalidades que se defrontam na Igreja de nossos dias, e mais especialmente no Sínodo? Já vimos que as denominações usadas no noticiário não parecem adequadas. Que denominações proporíamos nós em lugar daquelas? Parece-nos mais verdadeira esta outra divisão: De um lado estão os católicos sem adjetivos, ou então os católicos-católicos que, mal ou bem, apresentam os seguintes traços: eles creem na Igreja, e creem que a Igreja, no patrimônio de sua sabedoria e na riqueza de sua vida interior e de seus ensinamentos, dispõe de mais recursos para ensinar e conduzir o mundo do que toda a cultura da humanidade dispõe para conduzir-se a si mesma e para conduzir a Igreja. Sem deixar de reconhecer e de admirar os esforços dos homens, os católicos-católicos sabem que a cultura acumulada e prestigiada pela ida à Lua não tem unidade, nem tem profundidade para resolver os mais humanos e, portanto, os mais graves problemas do homem. O mundo, em seus registros, não sabe como é feito o homem. Possuirá mil informações preciosas a respeito das estruturas exteriores, mas não sabe de ciência certa o que convém ao homem, na vida de família, no convívio político e principalmente não sabe o que mais convém à alma humana. A Igreja sabe como o homem é, e sabe ainda mais o que Deus quer do homem. Com esta convicção, e com esta certeza de fé, os católicos-católicos se habituaram a procurar na Igreja de todos os tempos, no depósito de sabedoria acumulada pelos apóstolos, pelos santos Padres, pelos doutores e pontífices e por todos os santos, as respostas às mais altas indagações sobre os problemas humanos. Por mais forte razão, o católico-católico colocado em situação de influir e de contribuir para os negócios do Reino de Deus procurará na própria Casa de Deus, nos próprios registros da Igreja, e sempre à luz da Fé, as soluções para todas as dificuldades. Ninguém melhor do que a Igreja poderá conhecer as delicadezas dos problemas eclesiais, e nenhuma ciência do mundo poderá trazer mais do que uma subalterna ciência exterior e menor, que só será proveitosa na medida em que puder ser assimilada e norteada pelos critérios espirituais. O católico-católico sabe que a Igreja deve estar atenta ao mundo, mas não como quem está atento ao mestre, e sim como o mestre que deve às vezes aprender com o aluno, para melhor conhecer suas deficiências e para melhor ensinar, ou como o médico que ausculta, não para ser curado pelo doente, mas às vezes para ser por ele informado e para curá-lo. O católico-católico que estivesse sentado no Sínodo prestaria ouvidos ao clamor de um mundo enfermo, mas não para tirar deste clamor a ciência e o remédio. E para os grandes problemas da Igreja só à Igreja pediria critérios e normas. E em todos os rumores que lhe viessem do mundo saberia sempre vigiar, bem sabendo que haverá sempre no mundo uma corrente de ira e de inimizade que quer a destruição da Igreja. De outro lado estão os avançados, os modernistas, os progressistas ou liberais, que creem mais no mundo do que na Igreja, e que, para o suposto bem de uma nova Igreja que julgam ainda estimar, preferem não ouvir a velha antes de ouvir os jornalistas, os psicólogos, os astronautas, os economistas, e demais estudiosos da casca do mundo. Acreditam mais na Ciência, na História, no Progresso, no Mundo, do que na Igreja fundada por Jesus Cristo, vivificada por seu Sangue e mantida por seu Espírito. Daí a espantosa facilidade com que desdenham a obra de um Pio X, recentemente canonizado, e precisamente canonizado como Papa exemplar. O progressista, o avançado, o historicista, o liberal, acredita mais em Karl Marx do que em Santo Tomás, e vê valores mais apetecíveis em um Guevara do que em um Santo Cura d'Ars, porque toda a sua confiança está sempre posta no lado do mundo, e toda a sua desconfiança está sempre dirigida para este espantalho da história que é a Igreja de Cristo. Queixam-se dela com critérios e medidas pedidas ao mundo; e querem até salvá-la dela mesma, querem servi-la contra o que ela sempre quis, e para isto nada lhes convém mais do que os critérios da História, do Progresso, da Ciência e da Técnica. A convicção central desse personagem é a de que o homem está-se saindo muito bem de todas as empresas, inclusive a de se salvar, enquanto a Igreja não fez outra coisa senão tropeçar nas próprias vestes e desacertar. Debalde lhe dirá o católico que a Igreja tem sua vitória no céu, e que Jesus Cristo Nosso Senhor deixou bem claramente dito que seu Reino não é deste mundo. Debalde lhe dirá o católico que o mundo está condenado, e que a Igreja vive e sobrevive para colher os sobreviventes do naufrágio final. Jamais se entenderão esses dois homens, a não ser que o católico apóstata ou que o progressista ou o liberal se converta. E a obra comum que apresentarem será tanto pior quanto melhor imaginarem que é. Dois católicos podem divergir de mil modos em questões que se referem às coisas da Igreja, podendo ainda essa divergência ser aproveitada em benefício das almas. O entendimento torna-se impossível e inaproveitável o desentendimento quando o católico-católico percebe que esperam dele a renúncia de seu critério central que é o próprio mistério da Igreja. Temos a firme convicção de que só haverá lucro real para a Igreja se, em tais eventualidades, os católicos souberem repelir os critérios progressistas, cientificistas, historicistas, seculares, com a mesma energia com que Jesus repeliu a secularização esboçada por Pedro: "Vade retro Satana!" Realmente o que está em choque na Igreja de nossos dias é o lado católico, que tira da Igreja todos os seus critérios, e o lado progressista ou liberal, que acredita mais no Século do que na Revelação. Ainda há homens na Igreja que creem na Igreja, e creem na absoluta superioridade da Igreja sobre o mundo que precisa dela para salvar-se; mas cremos que já são mais numerosos os homens que acreditam na absoluta superioridade do Século, e que, na melhor das hipóteses, ainda desejam recuperar a vetusta organização filantrópica, se essa veneranda recalcitrante se corrigir de suas antigas intransigências e resolver aceitar a mãozinha estendida da mundanização.

  • Liberais e conservadores? - Parte I

    Por Gustavo Corção, publicado n’O Globo em 22 de outubro de 1969 À medida que avançam os trabalhos do Sínodo reunido em Roma, tem-se a penosa impressão de que se agravam e se emaranham equívocos que durante séculos e séculos hão de doer nas consciências católicas. E não nos vem tal impressão de nenhum juízo antecipado ou de nenhuma tendência gratuitamente pessimista; vem antes do critério publicado e aparentemente aceito por gregos e troianos. Os jornais do mundo inteiro apresentam o Sínodo como uma competição entre “liberais” e "conservadores'', e até agora não vimos em nenhum pronunciamento qualquer repulsa de tal qualificação, de onde deduzirmos que não desagrada ao Cardeal Suenens, e a seus companheiros de luta, o tratamento de "liberal", como também não desagrada ao Cardeal Danielou a qualificação pura e simples de "conservador". Mas a nós que não somos membros do Sínodo, e que não queremos ser mais nem menos do que filhos da Igreja, desagradem ambas as denominações e sobretudo nos desagrada o fato de não parecer que aos interessados elas desagradem. Não gostaríamos de ser classificados pura e simplesmente como "conservadores". Todo católico deve ser um enérgico guardião e defensor das verdades que constituem nosso tesouro e nosso galardão, mas o termo "conservador", principalmente quando se contrapõe a "liberal", conota uma espécie de encolhimento mental ou de predisposição ao "fixismo" que de modo algum se coaduna com o dinamismo da espiritualidade católica sempre solicitado, e até preceptivamente compelido à aspiração do mais alto e do melhor. Toda a grande tradição católica encheu os séculos com as ressonâncias de sino desta advertência: "quem não progride regride." Por onde se vê que, normalmente, um católico não deve gostar que o classifiquem pura e simplesmente de "conservador". É necessário ser conservador, mas não é suficiente. A classificação que se restringe a essa tendência, ou se limita a um superficial juízo tipológico, ou encerra uma acusação de retraimento da inteligência ou do coração. Daí por que nos pareceria perfeitamente compreensível o protesto das pessoas alvejadas por tal classificação, e nos parece inteiramente incompreensível o seu silêncio. Mais chocante, entretanto, é o título de "liberal" que tomaríamos como um insulto. Bem sabemos que o termo é equívoco e recobre uma enorme faixa de significações que se estende desde o sentido mais anódino e vulgar até os sentidos filosófica e teologicamente apurados. Para a maioria das pessoas que atravessam a Avenida Rio Branco nas esquinas mais movimentadas, o título de liberal é um vago elogio que denota uma predisposição à benevolência e tolerância, ou uma predisposição de jamais querer passar por demais apegado a alguma convicção que obriga à intolerância. Mas os membros do Sínodo não estão atravessando a Avenida Rio Branco às quatro horas da tarde, nem estão envolvidos no bolo de gente que os imperativos do trânsito tange sem lhes deixar oportunidade de meditação. Supõe-se que são pessoas aparelhadas para bem conhecer e assimilar os ensinamentos da Igreja, e portanto para saber que há mais de um século tem sido estigmatizada essa suposta "largueza" de espírito que relativiza a verdade e o bem e que troca pela complacência todas as grandes e severas exigências da verdade e do bem. Por ter procurado o exercício da liberdade exterior como um bem supremo, e por não haver enraizado essa estima da liberdade de autonomia nas exigências mais profundas da razão e da fé, o liberal típico de nosso brave new world chegou a colocar a opinião própria acima dos absolutos da verdade e do bem, tornando-se assim um cético, um descrente congênito, e por via de consequência um anarquista. A história do mundo moderno mostra a trágica contradição do liberalismo que se rende de pés e mãos atados e aos liberticidas, terminando assim por entregar aquilo mesmo que tinha por bandeira. Com aversão à ideia de autoridade, e querendo enaltecer o individualismo em que cada um é sua própria lei, o liberalismo produziu as antíteses do totalitarismo, e hoje, neste sombrio ocaso do século, produz, ao lado dos abusos de poder, o planisfério da feira universal da anarquia total. O que acontece na Igreja prova que o liberalismo conseguiu tomar a última fortaleza, que anos atrás lhe parecia inacessível. Rigorosamente, nenhum católico consciente pode comprazer-se com o título de "liberal", mas o famoso "mundo moderno" nos trouxe não apenas a proliferação como também a glorificação da monstruosidade. Rigorosamente, o liberal-católico ou o católico-liberal é algo como um círculo quadrado que andasse pelos jornais a se gabar dos ângulos retos que não tem nem pode ter. Não é de hoje, nem é produto específico do Sínodo o abstruso conúbio entre o liberalismo e o catolicismo. Nos Estados Unidos, onde o termo liberal, por uma carência filosófica da cultura esteve sempre associado às tradições de liberdade política, e sempre dissociado da clara consciência do ceticismo que se esconde sob as cores rosadas daquelas tradições, vimos que os mais exaltados liberais, e à frente deles os católicos, são os que desejam o amolecimento de todas as intransigências, e são os que, em face do comunismo, e a despeito de todas as belas tradições de liberdades cívicas, mais prontamente capitulam e mais depressa entregam tudo, a começar pelas ditas liberdades. Na grande luta que teve de enfrentar, contra a guerra-revolucionária que se alastrava no mundo inteiro, foi no catolicismo dito literal que a grande nação americana encontrou os mais cruéis adversários dispostos a entregar a própria pátria. O liberalismo tem tal horror às definições e às opções enérgicas que chega a preferir um mundo comunista a viver numa sociedade que evidencie de um modo mais profundo e verdadeiro o que há de miséria e torpeza nesta forma do orgulho tão pronta para a capitulação. Num mundo comunista o liberal católico, que hoje vocifera contra a guerra no Vietnam, sentir-se-ia profundamente infeliz, numa espécie de Inferno, mas muitíssimo mais infernal seria para ele o céu em que devesse prezar alguma coisa, acima de suas opiniões, ou onde estivesse sempre a se desdizer ou a trair a moleza essencial que lhe parece ser a substancia da própria personalidade. * * * Que poderemos nós esperar de um Sínodo em que uns católicos aceitam a qualificação pura e simples de conservador, e outros alegremente aceitem a denominação que deveria valer por uma injúria? Qual é então a linha divisória, ou o critério que define o confronto de mentalidades? Se rejeitamos os binômios "conservador-liberal" ou "conservador-progressista", que outra confrontação poderemos tomar para explicar os vários pronunciamentos? Antes de responder a essa indagação, lembremos preliminarmente uma rota. Não foi dentro da Igreja, nem foi com substância de pensamento católico que se forjaram aquelas denominações. Foi o mundo, foram os jornalistas, e até os comunistas que cunharam os vocábulos referenciais em torno dos quais, ao compasso da música que tocavam, deveriam dançar os católicos compreensivos do mundo inteiro, sem exclusão de bispos e cardeais. * * * Na próxima conversa (sábado) tentaremos descobrir as denominações que melhor convêm às faces do fenômeno. Nesse meio tempo meditemos, e peçamos ao Pai do Céu una socorro de luzes e força para os homens da Igreja.

  • A FRATERNIDADE SÃO PIO X E O VATICANO

    A Divina Providência é boa para com a Fraternidade São Pio X. Está-lhe concedendo uma boa ocasião de se recolocar no auge do combate e de fazê-lo no espírito e na letra de Dom Lefebvre. Deo gratias!  Tomara que seja realmente assim.   A carta de 18 de fevereiro do Conselho Geral da Fraternidade ao Prefeito do Dicastério para a Doutrina da Fé é boa. Ela explica, de fato, claramente, em que consiste a impossibilidade de se chegar a um acordo no plano doutrinal com a Igreja conciliar, o que demonstra o fracasso das discussões até o presente momento, já que a Roma modernista não aceita colocar em questão o último concílio nem as reformas pós-conciliares.   O Pe. Pagliarani está sendo corajoso ao manter, nessas condições, as sagrações de 1º de julho. A menção a Nossa Senhora Medianeira de Todas as Graças é muito oportuna. O apelo à caridade como único ponto sobre o qual a Fraternidade e o Vaticano poderiam se encontrar é mais discutível. Parece tratar-se de um gesto, de uma atitude diplomática que estende a mão ao inimigo, embora eu pense que Dom Lefebvre não o teria feito. Parece-me um pouco ambíguo falar de caridade com aqueles que destroem a Igreja.   Resta ver o que os próximos meses nos trarão. Cerca de 25 anos de política de aproximação com a Roma conciliar, que causaram tantos distúrbios na Tradição, não se apagam tão facilmente. Mas rezamos de bom grado para que a Fraternidade se recupere dos passos que não deveria ter dado no passado.   Que Nossa Senhora guarde a obra de Dom Lefebvre e a seus filhos, entre os quais temos orgulho de estar. Temos até vontade de dizer, como São Paulo: “E mais do que eles”, mas, bem conscientes de sermos servos indignos, não podemos dizê-lo como conviria.   Kyrie eleison.   +Tomás de Aquino O.S.B.

  • Como qualificar a atividade de Roma em relação à Fraternidade São Pio X?

    O prefeito do Dicastério para a Doutrina da Fé, Victor Manuel Fernández, recebeu o Superior-Geral da Fraternidade São Pio X no Palácio do Santo Ofício, em Roma.   O que deseja o Cardeal Fernández? Que se suspenda a decisão de sagrar bispos no dia 1º de julho, por parte da Fraternidade, como condição para continuar o diálogo. O termo “diálogo” é do Cardeal, ele é típico da linguagem e mentalidade dos progressistas.   Mas como qualificar esse diálogo? O que Roma quer dialogando? Esse diálogo com Roma é cheio de ambiguidades; por trás dele, paira uma ameaça de excomunhões. Isso nos traz de volta a 1988. Qual a validade dessas excomunhões? Nenhuma! Absolutamente nenhuma! Tal como a que o bispo Pierre Cauchon lançou sobre Santa Joana d’Arc. Excomungar os que defendem a Igreja é um ato nulo diante de Deus.   As excomunhões de 1988 eram nulas. As de 2026 também o serão, se a Fraternidade levar adiante seu propósito de sagrar no dia 1º de julho deste ano, com as mesmas razões e intenções que Dom Marcel Lefebvre teve em 1988. Mas esse diálogo contém outras ameaças e outros perigos: a escolha dos candidatos, a pressão de Roma, a ambiguidade das palavras, a noção mesma de Igreja, que não é a mesma para a igreja conciliar e para a Igreja Católica.   Acompanhamos com interesse e com nossas orações essas perigosas tratativas, desejando que a Fraternidade não se deixe vencer pela astúcia dos modernistas, a respeito dos quais Dom Lefebvre advertiu Dom Gérard Calvet com um bilhete que lhe foi entregue em mãos em 1988, que dizia: “Cuidado com a serpente romana”.   Apesar dos anos que se passaram e das pequenas ou grandes falhas possíveis de memória, lembro-me ainda da expressão de Dom Lefebvre: “a serpente romana”.   Que o padre Davide Pagliarani e seu conselho tenham cuidado. Os modernistas não querem o bem da Fraternidade nem o da Igreja. São Pio X já nos havia advertido.   Que a Fraternidade retorne às disposições e ações de seu fundador, e ela saberá vencer a serpente romana, com o auxílio d’Aquela que venceu todas as heresias.   Ipsa conteret. +Tomás de Aquino O.S.B.

  • Em torno do Sínodo

    Por Gustavo Corção publicado n’O Globo em 1º de novembro de 1969 Trava-se agora em Roma uma batalha de inimagináveis consequências. Os agentes de publicidade, sentindo no ar a notícia de uma nova e inédita flagelação da Esposa de Cristo, mobilizam todos os recursos humanos e técnicos para que o mundo insaciável não perca um só gemido da grande torturada. E a fim de dar ao espetáculo um cunho mais atraente de suicídio, ou de autoflagelação, espalha-se notícia de uma divisão da Igreja em dois times. O do Papado e o da Colegialidade, e até se murmura que em sua essência a Igreja sempre esteve atravessada por este e outros antagonismos mortais. Na verdade, porém, o conflito não vem nem pode vir do que há de mais interior na Igreja; vem antes do que, mesmo em seus membros, lhe é exterior. A Igreja, Una, Santa, Católica, sofre agressão das Potestades e do mundo que para isto se serve dos milhares de cavalos de Tróia que hoje são os filhos indóceis da Igreja. Dia a dia se avoluma a crise, a tempestade sem igual em vinte séculos de história, e agora, em Roma, o cataclismo torna bem visível a figura de seu germe principal. O que está em jogo, mais do que a aparente competição de campos de força e zonas de jurisdição, é um princípio de importância infinita, cuja contestação terá uma impensável força explosiva e deixará atrás de si uma radiatividade perto da qual foram brinquedos de criança as de Hiroxima e Nagasaki. Os observadores superficiais veem o fenômeno como se se tratasse de um atrito entre uma concepção tradicional e uma nova e progressista maneira de encarar as coisas da Igreja. As publicações de um Karl Rahner, de um Hans Küng, ou de um Suenens, prestam-se bem a essa interpretação. Cada um desses autores parece querer colocar em novos termos, ou em nova ordem, a autoridade da Igreja; mas uma análise mais profunda mostra que não é apenas a ênfase dada ao papado pelo Concílio Vaticano I, nem mesmo a estrutura da Cúria Romana, que esses contestadores pretendem ferir. O alvo mais central de todas as contestações é aquele que constitui a razão formal da autoridade da Igreja em qualquer de suas autênticas formulações: é a própria autoridade de Deus. Mais de uma vez já abordamos nesta coluna o problema da crise de autoridade, e procuramos mostrar que essa crise toma, no mundo moderno, as mais agudas e mortais formas de negação absoluta. Ninguém negará, evidentemente, os vários progressos que o homem conseguiu no domínio da natureza inferior; mas também é difícil negar o preço elevadíssimo que o mundo vem pagando por tais glórias. O Evangelho nos advertiu de que nada adianta ao homem conquistar a Terra se perde sua alma; o mundo moderno, respondendo ao Evangelho, contrapõe outro negócio: o homem vende sua alma e compra a Lua. O fato força todas as obtusas teimosias: o mundo moderno chega a um impasse de negações, de recusas, de desobediências, porque o homem retornou, neste patamar da história, à antiga soberba com que pretende dispensar os favores da paternidade divina. O homem se basta; mas para realizar esse pleno humanismo terá de revoltar-se contra todas as alienações, terá de destruir tudo o que vem de algum pai, seja na linha horizontal dos itinerários da história, seja na linha vertical de nossa destinação suprema. * * * Não se diga que os contestadores da autoridade do Papa são paladinos que defendem a colegialidade, ou participação dos bispos na autoridade da Igreja, já que não é possível defender nenhuma autoridade particular à custa da imolação do princípio que emana da autoridade primeira e suprema; nem se diga que os contestadores querem afirmar e pôr em funcionamento a doutrina do Vaticano II que os tradicionais quereriam bloquear. São aliás os próprios contestatários que, com a habitual brutalidade, dizem alto e bom tom que nenhum dos Concílios lhes agrada e lhes basta. Eis o que diz Hans Küng em artigo publicado em Le Monde : "... se o " retrato do Papa " estava em contradição com o Vaticano I, tanto pior para o Vaticano I, que já deveria ter sido corrigido à luz do Evangelho, coisa que não parece ter sido a última intenção do Vaticano II." O Carde al Suenens também acha que é preciso opor o Vaticano II ao Vaticano I, mas para isso é preciso começar por opor o Vaticano II ao Vaticano II. E aí está a estranha maneira com que os modernizantes, democratizantes, ou que outro título tenham, defendem a colegialidade começando por atacar as mais recentes e gloriosas manifestações da dita colegialidade!! Mas então o que é que na verdade defendem esses contestatários do papado? A resposta que se impõe irresistivelmente é a que revela o fundo niilista e absolutamente revolucionário do movimento em questão: eles não defendem NADA! Eles querem, como no filme Theorema , a volta ao nada, ou, como na confissão de um terrorista, o chambardement completo que na China se iniciou pelo quebra-quebra dos mais belos e veneráveis objetos de arte.

  • Lux Mundi

    No dia 2 de fevereiro a Santa Igreja celebrou a festa da Purificação de Nossa Senhora. Nesta festa, ela nos lembra que Nosso Senhor é a luz do mundo: “Ego sum lux mundi” (Jo. 12,8). As orações da bênção das velas repetem, de diversas maneiras, essa verdade. A procissão das velas nos ensina que é Nosso Senhor quem ilumina todos os homens que vêm a este mundo. Aquele que não O segue anda nas trevas.   É por isso que o mundo moderno anda nas trevas e que, por suprema cegueira, crê estar na luz. As diversas revoluções ocorridas em toda parte, mas principalmente na Europa, e sobretudo a Revolução Francesa, precipitaram a Europa e depois o mundo nas trevas exteriores do ateísmo, da heresia, do cisma e da confusão das falsas religiões. O mundo hoje está mergulhado nas trevas e ainda ousa dizer que a Idade Média é uma idade de trevas. Idade de trevas é a nossa, mas a luz de Nosso Senhor brilha e sempre brilhará na Santa Igreja. Não na Igreja conciliar, que existe como um câncer na Igreja Católica. Como discernir o que são trevas e o que é luz na Igreja? Como discernir o que vem da Igreja Católica do que vem da Igreja Conciliar? Pela Tradição, pois é ela quem nos liga a Nosso Senhor, que é a verdadeira luz. A Tradição é o critério.   No Evangelho da festa da Purificação está dito: “(...) meus olhos viram a vossa salvação, que preparastes à vista de todos os povos: Luz para iluminar as nações e para a glória de Israel, vosso povo.”   Que povo é esse? A Igreja, verdadeira filha de Abraão e fiel Àquele que Abraão anteviu pela fé e se alegrou.   Que nações são essas? As nações católicas.   Só as nações católicas? Não. Todas as nações. Todas elas devem se submeter Àquele que é a luz que ilumina a todos os homens vindos a este mundo.   “Meus olhos viram”, exclama São Simeão. A salvação começa pela pregação. Pregar é mostrar. Quem recebe a verdadeira doutrina de Nosso Senhor - a doutrina da Igreja fundada por Nosso Senhor para que a levasse a todos os povos -, quem recebe esta verdadeira doutrina do verdadeiro Deus vê como Simeão. Ele vê pela fé, que é uma luz, luz obscura, certamente; mas esta luz da ciência de Deus é o princípio da vida eterna, da visão eterna de Deus.   É pela luz da fé que Nosso Senhor começa a reinar em nossas almas. Peçamos a Nossa Senhora que nos proteja contra as trevas do mundo moderno. Estas trevas se espalham por obra dos inimigos de Nosso Senhor que trabalham sem cessar para destruir, nos seus alicerces, as instituições nascidas dos princípios do Evangelho. Entre estes inimigos, ocupa lugares de mais destaque a Maçonaria, sobre a qual esperamos expor a doutrina da Igreja que a condenou. A Maçonaria é a Sociedade, por excelência, que se opõe a esta luz que é a Lux Mundi, luz do mundo, e não há outra que possa nos conduzir ao nosso verdadeiro fim, que é justamente a visão beatífica, ou seja, a luz eterna no seio da eterna Trindade.   + Tomás de Aquino O.S.B.

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