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Liberais e conservadores? - Parte I

  • 18 de fev.
  • 5 min de leitura

Atualizado: 11 de mar.




Por Gustavo Corção,

publicado n’O Globo em 22 de outubro de 1969


À medida que avançam os trabalhos do Sínodo reunido em Roma, tem-se a penosa impressão de que se agravam e se emaranham equívocos que durante séculos e séculos hão de doer nas consciências católicas. E não nos vem tal impressão de nenhum juízo antecipado ou de nenhuma tendência gratuitamente pessimista; vem antes do critério publicado e aparentemente aceito por gregos e troianos. Os jornais do mundo inteiro apresentam o Sínodo como uma competição entre “liberais” e "conservadores'', e até agora não vimos em nenhum pronunciamento qualquer repulsa de tal qualificação, de onde deduzirmos que não desagrada ao Cardeal Suenens, e a seus companheiros de luta, o tratamento de "liberal", como também não desagrada ao Cardeal Danielou a qualificação pura e simples de "conservador".


Mas a nós que não somos membros do Sínodo, e que não queremos ser mais nem menos do que filhos da Igreja, desagradem ambas as denominações e sobretudo nos desagrada o fato de não parecer que aos interessados elas desagradem.


Não gostaríamos de ser classificados pura e simplesmente como "conservadores". Todo católico deve ser um enérgico guardião e defensor das verdades que constituem nosso tesouro e nosso galardão, mas o termo "conservador", principalmente quando se contrapõe a "liberal", conota uma espécie de encolhimento mental ou de predisposição ao "fixismo" que de modo algum se coaduna com o dinamismo da espiritualidade católica sempre solicitado, e até preceptivamente compelido à aspiração do mais alto e do melhor. Toda a grande tradição católica encheu os séculos com as ressonâncias de sino desta advertência: "quem não progride regride."


Por onde se vê que, normalmente, um católico não deve gostar que o classifiquem pura e simplesmente de "conservador". É necessário ser conservador, mas não é suficiente. A classificação que se restringe a essa tendência, ou se limita a um superficial juízo tipológico, ou encerra uma acusação de retraimento da inteligência ou do coração. Daí por que nos pareceria perfeitamente compreensível o protesto das pessoas alvejadas por tal classificação, e nos parece inteiramente incompreensível o seu silêncio.


Mais chocante, entretanto, é o título de "liberal" que tomaríamos como um insulto. Bem sabemos que o termo é equívoco e recobre uma enorme faixa de significações que se estende desde o sentido mais anódino e vulgar até os sentidos filosófica e teologicamente apurados. Para a maioria das pessoas que atravessam a Avenida Rio Branco nas esquinas mais movimentadas, o título de liberal é um vago elogio que denota uma predisposição à benevolência e tolerância, ou uma predisposição de jamais querer passar por demais apegado a alguma convicção que obriga à intolerância. Mas os membros do Sínodo não estão atravessando a Avenida Rio Branco às quatro horas da tarde, nem estão envolvidos no bolo de gente que os imperativos do trânsito tange sem lhes deixar oportunidade de meditação. Supõe-se que são pessoas aparelhadas para bem conhecer e assimilar os ensinamentos da Igreja, e portanto para saber que há mais de um século tem sido estigmatizada essa suposta "largueza" de espírito que relativiza a verdade e o bem e que troca pela complacência todas as grandes e severas exigências da verdade e do bem.


Por ter procurado o exercício da liberdade exterior como um bem supremo, e por não haver enraizado essa estima da liberdade de autonomia nas exigências mais profundas da razão e da fé, o liberal típico de nosso brave new world chegou a colocar a opinião própria acima dos absolutos da verdade e do bem, tornando-se assim um cético, um descrente congênito, e por via de consequência um anarquista. A história do mundo moderno mostra a trágica contradição do liberalismo que se rende de pés e mãos atados e aos liberticidas, terminando assim por entregar aquilo mesmo que tinha por bandeira. Com aversão à ideia de autoridade, e querendo enaltecer o individualismo em que cada um é sua própria lei, o liberalismo produziu as antíteses do totalitarismo, e hoje, neste sombrio ocaso do século, produz, ao lado dos abusos de poder, o planisfério da feira universal da anarquia total. O que acontece na Igreja prova que o liberalismo conseguiu tomar a última fortaleza, que anos atrás lhe parecia inacessível.


Rigorosamente, nenhum católico consciente pode comprazer-se com o título de "liberal", mas o famoso "mundo moderno" nos trouxe não apenas a proliferação como também a glorificação da monstruosidade. Rigorosamente, o liberal-católico ou o católico-liberal é algo como um círculo quadrado que andasse pelos jornais a se gabar dos ângulos retos que não tem nem pode ter.


Não é de hoje, nem é produto específico do Sínodo o abstruso conúbio entre o liberalismo e o catolicismo. Nos Estados Unidos, onde o termo liberal, por uma carência filosófica da cultura esteve sempre associado às tradições de liberdade política, e sempre dissociado da clara consciência do ceticismo que se esconde sob as cores rosadas daquelas tradições, vimos que os mais exaltados liberais, e à frente deles os católicos, são os que desejam o amolecimento de todas as intransigências, e são os que, em face do comunismo, e a despeito de todas as belas tradições de liberdades cívicas, mais prontamente capitulam e mais depressa entregam tudo, a começar pelas ditas liberdades. Na grande luta que teve de enfrentar, contra a guerra-revolucionária que se alastrava no mundo inteiro, foi no catolicismo dito literal que a grande nação americana encontrou os mais cruéis adversários dispostos a entregar a própria pátria.


O liberalismo tem tal horror às definições e às opções enérgicas que chega a preferir um mundo comunista a viver numa sociedade que evidencie de um modo mais profundo e verdadeiro o que há de miséria e torpeza nesta forma do orgulho tão pronta para a capitulação. Num mundo comunista o liberal católico, que hoje vocifera contra a guerra no Vietnam, sentir-se-ia profundamente infeliz, numa espécie de Inferno, mas muitíssimo mais infernal seria para ele o céu em que devesse prezar alguma coisa, acima de suas opiniões, ou onde estivesse sempre a se desdizer ou a trair a moleza essencial que lhe parece ser a substancia da própria personalidade.


* * *


Que poderemos nós esperar de um Sínodo em que uns católicos aceitam a qualificação pura e simples de conservador, e outros alegremente aceitem a denominação que deveria valer por uma injúria?


Qual é então a linha divisória, ou o critério que define o confronto de mentalidades? Se rejeitamos os binômios "conservador-liberal" ou "conservador-progressista", que outra confrontação poderemos tomar para explicar os vários pronunciamentos?


Antes de responder a essa indagação, lembremos preliminarmente uma rota. Não foi dentro da Igreja, nem foi com substância de pensamento católico que se forjaram aquelas denominações. Foi o mundo, foram os jornalistas, e até os comunistas que cunharam os vocábulos referenciais em torno dos quais, ao compasso da música que tocavam, deveriam dançar os católicos compreensivos do mundo inteiro, sem exclusão de bispos e cardeais.


* * *


Na próxima conversa (sábado) tentaremos descobrir as denominações que melhor convêm às faces do fenômeno. Nesse meio tempo meditemos, e peçamos ao Pai do Céu una socorro de luzes e força para os homens da Igreja.

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