O gol e a Lua
- Mosteiro da Santa Cruz

- 13 de nov.
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Por Gustavo Corção,
publicado n’O Globo em 27 de novembro de 1969
O acontecimento mais instrutivo da semana passada foi o gol de Pelé, ou melhor, foi o contraste entre o sucesso do gol e o êxito publicitário alcançado pela viagem à Lua: o milésimo gol de Pelé foi recebido com mais estrondoso entusiasmo do que a segunda alunissagem! E não se diga que isto aconteceu aqui porque somos atrasados, subdesenvolvidos. Não: ouvi do locutor da TV que o mesmo estava acontecendo nos Estados Unidos: nos dois maiores jornais do próprio país que fazia o 2° gol na Lua, a área maior de primeira página e de manchetes era ocupada por um feito ou pronunciamento da Vice-Presidente, e a Lua estava num canto do jornal, chutada para correr.
E o que é que isto ensina? O leitor apressado, superficial, há de dizer que isto apenas ensina que o homem é inconstante e vive à cata de novidades; ora, a lição que vejo resplandecer nesses fatos é outra até contrária: o homem é constante e ama com acentuada preferência, as coisas que aguentam a repetição, sejam elas pequenas ou grandes, ou humildes ou altaneiras, rutilantes ou obscuras. E ai está o segredo do contraste entre o caso do gol e o da Lua.
O gol de Pelé pertence à ordem de coisas que não se gastam na repetição, à qual pertencem também as gracinhas das crianças, as gracinhas dos poetas, a alegria das auroras, a melancolia das tardes, as pétalas das rosas.... A descida da Lua, ao contrário, pertence à ordem de feitos de que se satura esta famosa sociedade de consumo, está na linha de um melhor liquidificador, e está por isso mesmo condenada ao muchocho e ao tédio. A primeira descida deu para todas as vozes do mundo apregoarem o marco de uma nova era; a segunda vez mal deu para resolver a paginação dos jornais. Obscuramente, sem filosofar, ou sem o fazer com clara consciência, as pessoas sentiram o enfado, o gosto de cinza, e já nesta escassa segunda vez como diria Nélson Rodrigues. Imaginem a música que só pudesse ser tocada uma vez, que nessa primeira vez marcasse uma nova era, e que logo na segunda audição atingisse o limite escatológico de sua missão histórica. Nem o vem-cá-bitu se gastou tão depressa como a alunissagem!
Há duas ordens de coisas: a primeira em graus diferentes, banha-se de eternidade e vale pela constância; a segunda fervilha com a matéria e impacienta-se por novidades. O 1000° gol de Pele é uma humílima e escura realização lúdica com base no amor que o povo tem pelo Rei; a segunda alunissagem é um feito prodigioso, maravilhoso, de uma ordem infra espiritual, que mais perturba do que conforta e exalta o coração do homem.
Admiremos essas coisas da ciência e da técnica, mas admiremo-las sem as colocar no plano indevido, e sobretudo sem esquecer as coisas que verdadeiramente interessam ao homem, ao everlasting man de Chesterton.
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O teólogo anglicano Robinson ficou rico com o livro espantosamente medíocre que escreveu: "Honest to God”. Em certa altura do livro o idiota anglicano, para justificar a necessidade de rever sua fé, fala em era espacial e diz que "o homem já vasculhou o espaço" e não encontrou Deus. Robinson ficou rico porque estamos vivendo a "era dos tolos" e não a espacial. Todos os tolos do mundo ex-cristão precipitaram-se com entusiasmo sobre o cadáver de Deus preparado pelo teólogo anglicano.
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Esse tolo anglicano em toda a sua vida de pastor não percebeu uma coisa elementar, primeira, essencial, que destaca o cristianismo de todas as experiências humanas. É a seguinte: só houve até hoje no desenrolar da história deste mundo uma Coisa verdadeiramente e absolutamente Nova, e portanto só houve uma coisa capaz de marcar a era: a descida de Deus à Terra, a Encarnação do Verbo, a união de Deus à natureza e à condição humana pela Segunda Pessoa da Trindade.
A partir desse fato único, tudo é novo. Cada vida, cada gesto, cada ato humano será novo na medida em que se banhar na essencial e única novidade do Cristo; e tudo será velho, caduco, morto, seco, na medida em que se subtrair àquele Sol, pretendendo ter luz própria de novidade própria. Nada envelhece mais depressa do que as novidades que querem demarcar os planos de Deus!
E é por causa do valor infinitamente Novo trazido pelo Cristo ao mundo que o Cristianismo é todo ele um maravilhoso desdobrar de repetições sempre reavidadas e refrescadas pela vida em que se banham. E por aí se vê a insensatez dos que pretendem erigir em marcos de novas eras as pequenas novidades com que o empenho humano quer rivalizar com a Encarnação do Verbo Divino.




