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Relembrando fatos

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Publicado por Gustavo Corção,

n’O Globo em 13 de novembro 1969


A infiltração comunista no clero brasileiro é um fato relativamente recente, ou melhor, é um fato que nos últimos anos acelerou-se graças à incompreensível tolerância das autoridades eclesiásticas.


Em 1964, quando a infiltração comunista nas estruturas do poder civil chegara ao auge graças à traição de Juscelino e de Goulart, as autoridades eclesiásticas ainda reagiam no estilo clássico. Tenho diante dos olhos uma página de jornal de 18-1-64 mostrando a reunião de bispos que desaconselhou aos jovens o ingresso na Ação Popular. Nessa mesma página o "intelectual" Amoroso Lima via a Ação Popular como um grupo de função paralela à Ação Católica e dizia que era "menos perigoso o católico mal formado que possa ser deformado na A.P. do que o católico bem formado que não queira participar de movimentos sociais por farisaísmo". E com essa hiperbólica asneira concluía-se que, elas por elas, era menos perigoso para o moço católico entrar no movimento A.P. reconhecidamente comunista.


Em 1965 em A UNE em foco, 2ª edição, pág. 24 e seguintes, o Pe. Henrique Vaz S. J. é citado pelo seu artigo publicado na revista francesa Perspectives de Catholicité, e apresentado como a pessoa mais qualificada para falar sobre a Ação Popular. Naquela revista francesa o Pe. Henrique Vaz S.J. diz que “em dezembro de 1963 a comissão episcopal divulgou uma nota oficial em que condenava a A.P.. Quanto aos membros da PUC, foi-lhes proibido fazer parte da A.P., a não ser quando, munidos de sólida preparação doutrinal, entrassem nela para transformá-la”. E o Pe. Vaz comenta: “Estranha recomendação se levarmos em conta que a A.P. tinha sido fundada por jucistas e era por eles liderada”.


Nós hoje podemos rir tanto da ingenuidade dos senhores bispos como da esperteza do Pe. Vaz, porque sabemos que os pobres jucistas mal orientados por Dom Candido Padim foram pobres títeres nas mãos comunistas.


Em fins de 1967, quando todos nós já sabíamos que a AP fora o órgão principal de comunicação de católicos e que seu Documento-Base se parecia muito com as ideias do Pe. Vaz, o caso AP ganhou de repente dimensões sensacionais.


Uma noite, por acaso, um agente da polícia de segurança vê num Peg-Pag um monte de papéis amarrados. Examinando-os viu que se tratava de volantes e cartazes de incitamento revolucionário. Preso e interrogado, o inocente dono do Peg-Pag informou que um rapaz de uma empresa de ônibus ali deixara aquele material, dizendo que viriam mais tarde apanhá-lo. Enquadrado, o rapaz da empresa de ônibus informou de quem recebera tais papéis em S. Paulo. Identificado e preso, o paulista remetente dos papéis informou que os recebera do Convento Dominicano.


A diligência evoluiu com o convite e interrogatório do provincial frei Chico.


Daí por diante veio a lume o caso e tornou-se escândalo de dimensões internacionais. Os religiosos de várias casas, incluindo os beneditinos de Curitiba, fizeram a famosa passeata diante do DOPS, onde era interrogado o famigerado frei Chico que hoje já é protestante ou budista. Tenho diante dos olhos a página de um jornal comunista de 4-8-67 onde se lê a cômica manchete: "Padres Perseguidos Dispostos a Morrer". Hoje nós sabemos que a maior parte, se não a totalidade daqueles religiosos que só retomavam o hábito para a passeata, já o abandonaram de vez, e também sabemos que dispostos para morrer estavam Marighela e a moça Esteia. Os padres revolucionários traíram e fugiram.


Infelizmente para todos, as autoridades eclesiásticas demonstraram, nessa ocasião, uma total ausência de discernimento. Quando o procedimento de frei Chico e as declarações demagógicas de Dom Jorge Marcos recomendavam desconfiança e cautela, o senhor arcebispo de São Paulo, em carta ao governador Abreu Sodré, protestou energicamente contra as "arbitrariedades" do DOPS.


Dom Jorge Marcos declarou que "nenhum padre dominicano recuará um milímetro da atitude assumida em conformidade com a doutrina de Cristo". E acrescentou: "a prisão de frei Chico foi uma glória para o Clero brasileiro".


As autoridades civis e militares sabiam com exatidão que estava no Convento Dominicano o foco e a direção do movimento comunista, e estavam dispostos a forçar a porta, quando do alto, creio que do próprio presidente da República, veio a ordem de recuarem.


Agora explodiu finalmente o escândalo. E a única esperança que nos resta no meio de tanta tristeza e tanta vergonha é a de que alguns dos responsáveis aprenda que com o comunismo não se brinca. Não posso sequer imaginar o que estará pensando Dom Jorge Marcos. Não sei também o que estará pensando Dom Helder Câmara. Provavelmente estará pensando na entrevista que dará a Le Monde para, mais uma vez, difamar o Governo brasileiro. Minha única esperança é a de que a dura lição seja proveitosa para os bons prelados que ainda amam a Igreja de Cristo.

*Os artigos publicados de autoria de terceiros não refletem necessariamente a opinião do Mosteiro da Santa Cruz e sua publicação atêm-se apenas a seu caráter informativo.

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