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Ateísmo contemporâneo

  • há 11 minutos
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Por Gustavo Corção,

publicado n’O Globo em 16 de agosto de 1969


No capítulo III do Livro II da Suma Contra Gentiles, Santo Tomás ensina que "a consideração das criaturas é necessária não somente à edificação da verdade mas também à refutação dos erros sobre Deus", e logo acrescenta esta advertência de capital importância para a vida das almas e para a sorte das civilizações: "os erros que se cometem sobre as coisas criadas afastam da verdade da fé, porque contradizem o verdadeiro conhecimento de Deus." E no termo do importante capítulo repete: "nam error circa creaturas redundat in falsam de Deo sententia." E é por isso que a Escritura ameaça os que se enganam sobre as coisas da natureza: "Os que não compreenderam as obras do Senhor, o trabalho de suas mãos, vós os destruireis e não os edificareis."


Ora, é precisamente nessa linha, além de outras que cooperam no mesmo lamentável resultado, que o mundo contemporâneo vem insistentemente errando, circa creaturas, e por conseguinte redundando em erros que se agigantam contra a fé. Na mesma proporção em que progrediu vertiginosamente no conhecimento fenomenológico, tecnicamente conversível em domínio sobre a natureza inferior, a civilização moderna progrediu também em enganos e equívocos no conhecimento ontológico, que remuneraria o mundo com fé e sabedoria.


O materialismo, em seus vários aspectos, nutriu-se das glórias das ciências da natureza para produzir uma péssima filosofia da natureza que é oficialmente ensinada no mundo inteiro. As obras das mãos do Senhor, como diz o Salmista, na mesma medida que são exploradas para recreio ou utilidade dos homens, são contestadas como obras de Deus, e são atribuídas à maternidade de uma natureza divinizada e ao mesmo tempo inconsciente, ou são vistas como filhas bastardas do acaso. O universo seria obra dele mesmo, e as formas em graus de perfeição crescente que vemos na chamada biosfera são epifanias da matéria, ou são resultados felizes de um obscuro massacre e de uma inconsciente filtragem. Tudo é pretexto, na atmosfera do cientificismo, da falsa filosofia da natureza, para deixar no esquecimento, ou na gaveta das lembranças pueris, o santo nome de Deus.


Essa soma de erros circa creaturas, que redundam em erros contra Deus, ganha maior gravidade quando abrange a criatura especialmente criada à imagem e semelhança de Deus. E aqui registramos o paradoxo brutal: a má filosofia gerada pelo orgulho do homem redunda numa teoria que rebaixa o homem e que o obriga a procurar sua grandeza perdida no poder do homem massa.


Como dizia São Pio X, vejo com temor e terror o drama que se avoluma no mundo moderno: pela primeira vez na história da humanidade se esboça a tentativa de uma civilização inteira e universal baseada num sub-humanismo ateu.


* * *


O mundo sempre teve ateus espalhados em todas as nações. O ateu escoteiro, bissexto, avulso, é muitas vezes um homem excelente que presta um culto sincero a um dos pseudônimos de Deus. Conheço ateus que me edificam pela bondade e pela humildade. Serão realmente ateus? Ou apenas equivocados? Não creio que seja fácil alguém ser individualmente ateu, ser refletidamente, resolutamente ateu. Ateus práticos somos todos nós que tão mal servimos Nosso Senhor; mas ateu-ateu até o fundo do coração não sei se tal façanha está ao alcance do homem.


O que no caso me apavora, como apavorou Pio X, não são esses pobres e talvez falsos trânsfugas amados por Deus, é a tentativa satânica de erigir em sistema civilizacional o ateísmo destilado do mau cientismo dos marx's, dos teilhard's, e de todos os que cometeram erros tão graves sobre a obra de Deus. Uma sociedade aguenta o livre ateísmo; aguenta gemendo a generalização do ateísmo prático nos costumes aberrantes; mas receio muito que não aguente, sem espantosa monstrificação, o ateísmo sistemático, o ateísmo tornado, para cúmulo da derrisão, a religião oficial do Estado em todo o mundo.


E como as formas sociais são muitas vezes feitas das omissões, das capitulações e, por que não dizer?, das alienações das almas, é possível imaginar uma envoltória civilizacional, uma atmosfera de ideias e valores ateus a recobrir uma carneirada humana que não consegue ser ateia no fundo dos corações.


A natureza das coisas tem muita força, a alma humana tem muitas reservas. Isto é verdade. Mas o que já se vê de degradação deixa adivinhar o que acontecerá quando a consequência dos erros amadurecer.


Santo Tomás ensina, e também repetidamente ensinam todos os livros da Sagrada Escritura, que a beleza da criação é para o homem o caminho para Deus. Se por engenho do orgulho transformamos em negação e em blasfêmia o que deveria chegar à adoração, e se tal resultado se torna o azoto da nova civilização, então é fácil prever a terrível quase-irreversibilidade de tal monstrificação do mundo.


E já podemos prever, com as amostras que os socialistas generosamente nos propiciam, como viverá em tal mundo a carneirada submissa que aceita para o mundo e para o lar um teto ateu sem conseguir ser ateu no fundo do coração. Ele viverá internado no planeta. Trabalhará, comerá, beberá, recrear-se-á, e sempre que entrar em ligeira colisão com a máquina-de-viver, ele terá de se reajustar logo, para comer, para beber, para viver, ainda que, em cada pequena acomodação, tenha de renegar a sombra do nome de seu Criador, e a lembrança insistente de seu Salvador.

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