A crise universitária
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Por Gustavo Corção,
publicado n’O Globo em 28 de setembro de 1968
A crise universitária, na verdade, não passa de uma das muitas manifestações de uma crise mais profunda e de nossa civilização. Nenhum de nós, professores, reitores, homens de governo, é culpado deste fenômeno, mas pode tornar-se culpado, gravissimamente culpado, se se omitir na parte da resistência que lhe cabe.
Fala-se muito de reformas da universidade, e eu acredito piamente que há necessidade de algumas, mas antes de abordar qualquer programa de reestruturação do mundo universitário ou de qualquer renovação dos métodos de ensino, eu levanto uma preliminar, e pergunto: pode-se admitir que o Reitor de uma universidade seja atirado do alto de uma passarela? Pode-se aceitar que, estatelado no chão, seja pisoteado e chutado pelos alunos que dizem constituir a vanguarda do novo mundo? Pode-se discutir reformas universitárias sem fazer a menor alusão ao fato de ter sido invadido pelos alunos o apartamento de uma professora e de ter sido incendiado o seu material de ensino? E sobretudo pergunto: pode-se admitir que, numa dessas eventualidades, nada se faça, nada se providencie, a não ser a expulsão do maltratado professor pelo fato de ser estrangeiro?
Por mim acho inteiramente impossível, absurdamente impraticável, dramaticamente irrealizável qualquer reforma universitária antes de responder a essas perguntas. E não basta que me responda um ministro ou um reitor. Se a sociedade inteira, por seus órgãos de opinião das mais diversas correntes, não reage na mesma direção, se nem esse denominador comum existe mais, ou se uma ala dita progressista da imprensa ou dos órgãos de difusão, dos grêmios e dos institutos culturais, acha que esses fenômenos “etários” são admissíveis e até representam uma alvorada de novo mundo — então lamento muito dizê-lo, estamos perdidos.
Imaginemos uma situação cultural em que uma parte dos escritores e dos jornalistas admitem, por várias razões, calcadas na leitura de algum último marcuse ou penúltimo strauss, que se comam criancinhas assadas com farofa; imaginemos uma outra em que se considere avançada a prática de obras de assistência social em que meninas sejam oferecidas em prostíbulo público em troca de donativos para o nordeste ou para o noroeste. O leitor dirá que exagero se disser que admitindo que o Reitor de uma universidade seja chutado pelos alunos estamos numa dessas situações.
Deixando de lado o plano das categorias morais desprestigiadas, dirijo-me para outro setor que me parece específico da questão universitária. Sempre pensei que existem escolas e universidades porque existem moços ignorantes e homens preparados para tirá-los de tais trevas. Vejo agora que no mundo que os revolucionários desejam é falso tal pressuposto. De Niterói chega-me a notícia de que foi criada e de que já funcionou uma “comissão paritária” onde os problemas de currículo, de métodos de ensino etc. são igualmente abordados por alunos e professores em números iguais, e decididos por votação. Ora, se isto é verdade, só me resta assinalar o absurdo de tal instituição tornada por si mesma inútil.
Sim, se os alunos podem decidir questões de ensino em pé de igualdade com o professor, desaparece instantaneamente a necessidade do ensino. Pulveriza-se toda a problemática da universidade. Resolvem-se todas as crises e todos os conflitos com o fechamento de tão inúteis e medievais instituições.
É a esta caricatura que inevitavelmente seremos conduzidos pela obscenidade cultural chamada “comissão paritária”, como é aquele humor negro, das criancinhas servidas com farofa, que nos conduz à aceitação do Reitor pisoteado. No Rio de Janeiro tivemos a crise do Instituto de Filosofia onde triunfou a “professora” Yeda Linhares, que retomou todo o prestígio que tinha no Governo Goulart. Os professores mais competentes foram bloqueados e compelidos à inatividade, mas D. Irineu não chegou a ser pisoteado e chutado. Mas em Brasília, as coisas ruins do Brasil ganham proporções surrealistas, por causa do confinamento.
E não se diga, como se disse do infeliz professor espanhol, que não conheço, que eu estou tentando desmoralizar a Universidade brasileira. Não. Estou apenas verificando que cresce dia a dia o número dos que empreendem tal tarefa com grande eficiência. E são sempre os mesmos, da mesma corrente, dirigidos pelos mesmos líderes. Enquanto isto, por causa de quatro ou cinco líderes estudantis perversos, ficam os estudantes privados do pouco que já lhes dava a universidade. Por que não são afastados esses líderes estudantis perversos e perturbadores que todos, em cada universidade, conhecem? Vejo nessa intocabilidade o início de uma nova religião: esses agitadores estudantis são as nossas vacas sagradas. E por causa dessa sacralidade da nova religião, os bons inúmeros brasileiros são privados do ensino a que têm todo o direito.




