O sábio pronunciamento do General Álvaro Cardoso
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Por Gustavo Corção,
publicado n’O Globo em 7 de dezembro de 1968.
Dirá o leitor que estou em maré de admirações, mas os fatos são os fatos. Se duvida do que escrevi anteontem, vá a Quintino Bocaiúva ver a Fundação do Bem-Estar do Menor: se duvida de minha alegria de hoje, leia a declaração do comandante da Infantaria Divisionária da 4.ª Região Militar, General Álvaro Cardoso. A propósito da prisão dos padres franceses, que vieram preparar aqui alguma coisa como o cochonlit de Nanterre, e da infeliz reação do Bispo Auxiliar de Belo Horizonte, o General Cardoso distribuiu uma nota sábia, patriótica, oportuna, que bem merecia ser lida nos púlpitos (que aliás já não existem) em lugar do que foi lido na infortunada diocese mineira.
Lembra o General Cardoso que não há aqui Igreja perseguida, que o Governo respeita a Igreja, mas que as autoridades estão “espantadas com o espetáculo nunca visto na história: o de alguns padres que defendem a entrega de nosso país aos piores inimigos da Igreja.” Contesta que estejam presos os padres por estarem pregando o Evangelho, mas porque, depois de abandonarem a pregação do Evangelho, se dedicam à pregação política da pior espécie. Admira-se que os sacerdotes de Cristo proponham aos cristãos, em lugar dos santos, o modelo do guerrilheiro Guevara. E no tópico n.º 5 diz o que vale a pena repetir textualmente:
“5 – As autoridades policiais estão arcando com o ônus de reprimir atitudes de padres que deveriam ser controlados por seus superiores. Pretender acusar as autoridades de perseguidores da Igreja, porque prenderam padres pilhados em atividades tipicamente subversivas do tipo comunista, é consagrar como heróis aqueles que na Rússia, na China e em Cuba... assassinaram sacerdotes e freiras, acabaram com a Igreja e suprimiram qualquer tipo de liberdade religiosa. Quem é que naqueles países tem liberdade de ordenar que se reze uma missa e que se faça uma pregação como a que foi determinada? É o paradoxo do século: os que agem em defesa das liberdades, inclusive religiosas, são acusados de perseguidores, e os que trabalham pela ideologia que consagra a escravidão são proclamados como pregadores do Evangelho de paz e de justiça...”.
Creio que faltaram ao pronunciamento do General dois reparos. O primeiro é o seguinte: esses padres que propõem aos fiéis a veneração de Guevara, ou que apoiam o documento Comblin, são os mesmos padres protestantizados que querem apagar todas as marcas da sacralidade e todas as fronteiras da Igreja. Eles querem ser, em tudo, homens como outros quaisquer. Repelam a marca, o caráter do sacramento. Sem nenhum trocadilho, querem ser homens sem caráter. Querem andar em mangas de camisa, querem namorar, querem casar, querem ter ideias próprias independentes da autoridade do Papa, querem em suma ser homens comuns, sem destaque, sem tonsura na cabeça ou na alma. Mas quando são presos em agitações põem-se logo a gritar que são padres. Os de São Paulo, seguidores do ex-Frei Chico e do ex-Frei Bernardo, chegaram à torpeza de vestir os hábitos para enfrentar o DOPS e assim emocionar o público. Os de Belo Horizonte correm a pedir um pronunciamento do Bispo, que tem a fraqueza de se expor com um documento que nos entristece e nos envergonha. E o ponto onde quero chegar é o seguinte: para esses padres “progressistas”, conspiradores e imitadores de Guevara, a figura da velha Madre Igreja é a de um gueto. Riem-se, zombam da forma, da figura, das paredes da Casa de Deus, mas na hora do pega... correm todos para o pique. Sim, para eles a Igreja nessa hora é fechada, inviolável, sagrada. É o pique.
O segundo reparo refere-se à frase em que o Bispo, com espantosa infelicidade, fala em perseguição... A este descendente dos apóstolos eu diria simplesmente que não se fala assim tão levianamente do sangue dos mártires. Não se confundam os mártires, primeiras sementes do campo do Cristo, com desordeiros que querem conquistar o poder, ou realizar experiências sociais que a Igreja há cem anos condena. Com as coisas de Deus não se brinca, e com o sangue dos mártires, multiplicação humana do Preciosíssimo Sangue de nossa Salvação, não se fazem equiparações envolvendo vulgares desordeiros, que os bispos, como tão bem salienta o General Cardoso, deveriam ser os primeiros a punir.
Esperamos que o Governo tenha toda a firmeza nesse episódio, e que recambie para a França os maus franceses que querem prostituir o Brasil.




