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Um rápido inventário

  • há 14 horas
  • 3 min de leitura


Por Gustavo Corção,

publicado n’O Globo em 02 de janeiro de 1969


O ano sessenta e oito foi incontestavelmente um ano mais bissexto do que os outros de mesma denominação. Transcorreu assinalando inovações, inaugurações, revoluções e violências. Dois homicídios brutais, bestiais e estridentes: Kennedy, o segundo, e Martin Luther King. No doce mês de Maria sublevam-se os estudantes de Nanterre que querem toda liberdade sexual, e alastra-se o mais irracional movimento revolucionário da História. Pode-se dizer talvez que os moços de Paris prestaram um serviço ao mundo: o de trazer à evidência a hediondez, infecunda e estúpida do processo revolucionário como dinâmica do progresso e da história. Ainda há quem continue a imaginar que a glória do homem consiste na revolta, ou que antes de ser sapiens, habilis ou faber, o Homem é essencialmente revolucionário. Marcuse terá também prestado ao mundo o favor de exibir a vileza intelectual a que pode chegar tal dialética. Mas não nos iludamos: os tolos subsistirão, resistirão a tudo e nos aborrecerão até o fim do mundo.


Além do cochon-lit de Nanterre-Paris, o bravo bissexto 68 registrou outra joia do mesmo hemisfério mental: o estupro da Tchecoslováquia, que permitiu às esquerdas do mundo inteiro uma oportunidade única de exibir nova faceta da mesma impostura. Queixaram-se alguns filocomunistas desse ato brutal da URSS como se até aqui o desenvolvimento histórico do comunismo tivesse sido uma troca de requintadas cortesias.


No meio do ano, e encerrando o ano da Fé, o Papa Paulo VI pronunciou na Basílica de São Pedro, com voz emocionada e quase suplicante, o Credo do Povo de Deus, que reafirma a intocável e multissecular doutrina da Igreja. É escusado dizer que esse pronunciamento de importância incomparável, sim, essa oração soleníssima, à qual estiveram associados os anjos e os santos do céu, não encontrou nenhuma ressonância no bravo mundo em que vivemos. As folhas que fazem hoje o retrospecto do ano silenciam cuidadosamente a palavra da Fé que tentou vulnerar todos os corações, naturais ou enxertados. Em compensação, pouco depois publica o mesmo Papa a sua encíclica Humanae Vitae, em torno da qual se desencadeará uma tempestade de desobediência e de publicidade. Um jornal chegou a dizer que foi essa encíclica do Papa que desencadeou a crise da autoridade da Igreja, como se já não viessem os “progressistas”, de longa data, desobedecendo e falseando os ensinamentos da Mãe e Mestra.


Em contraste com toda essa desordem, na Igreja e no mundo, produziu nosso bravo bissexto algumas novidades encorajadoras no domínio das ciências. Começou com a febre de enxertos de coração, cujo simbolismo escapou aos observadores, e terminou com a façanha dos homens norte-americanos que chegaram a ver a outra face da Lua, coisa que também tem seu lado simbólico que deixo à sagacidade do leitor. E aí temos uma magnífica ilustração do conhecido dístico de Pascal: grandeurs et misere de la condition humaine.


Em nosso Brasil tivemos de início as agitações estudantis, tão estúpidas como as do Velho Mundo, e tivemos sobretudo agitações eclesiásticas. No fim do ano estourou o furúnculo que vinha sendo cultivado em Belo Horizonte. São presos como agitadores 3 padres franceses e logo se alvoroçam muitos bispos que incompreensivelmente se julgaram obrigados a apoiar os padres faltosos e a se solidarizar com os bispos que os não corrigiam, como se o episcopado fosse um sindicato de classe. Todo mundo em Belo Horizonte, e nós aqui no Rio, sabíamos que o Padre Michel, para dar um exemplo, vivia a pregar o marxismo no Instituto Central de Filosofia e Teologia. Cartas de alunos e professores desse instituto coincidem num ponto: o Padre Michel, que já não sei se é padre, sustentou sempre a seguinte tese: só o marxismo pode salvar o Brasil. O tema para prova do exame final deste ano foi: discorrer sobre a identidade entre o Evangelho e o Marxismo. Por onde se vê o pouco caso que esse padre tem pelas condenações da Igreja, e o pouquíssimo caso que tem esse francês pelas leis do nosso país.


Agora, quase ao terminar o ano, tivemos o AI-5 que veio represar um pouco o transbordamento de anarquia que ameaça o País.


Em nosso pequeno mundo foi neste ano que iniciamos nosso movimento Permanência e lançamos nossa revista que já está em seu terceiro número, em vésperas do quarto. E foi também no princípio deste ano que comecei eu a colaborar nestas colunas de O GLOBO que têm dado uma nova dimensão à nossa luta. E agora, amigo leitor, só nos resta desejarmos uns para os outros e para todos um ano novo mais glorioso, mais pacífico e mais cristão.

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