"E muitas outras coisas diziam contra ele blasfemando” (Lucas XXII, 65)
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Por Gustavo Corção,
publicado n'O Globo em 28 de dezembro de 1968
A rigor, nós não fazemos outra coisa, no mundo, senão colaborar com aqueles que esbofeteavam Jesus, como se lê no mesmo versículo de Lucas de onde tiramos o título deste artigo. Sim, todos nós, com nossos pecados, com nosso desamor ou com os nossos esquecimentos, que às vezes são mais cruéis do que as formas mais agressivas do pecado, não fazemos outra coisa senão prolongar na história a paixão de Cristo. “Jesus será em agonia até o fim do mundo”. E até o fim do mundo será flagelado, será desprezado, será desfigurado.
Há entretanto alguns que se esmeram, e que requintam o flagelo e a blasfêmia. No ano passado tivemos um caderno inteiro do “Jornal do Brasil” inspirado pelo zelo dos flageladores de Jesus, e tivemos também nas vésperas de Natal. Antigamente era anedota dizer que um jornalista brasileiro era capaz de escrever o artigo de Natal contra Jesus Cristo. Agora tornou-se realidade e até já posso dizer que se tornou sistema.
Refiro-me ao último número de Manchete, onde se lê um intolerável artigo intitulado “Quem era Jesus”. Com citações de ciência requintada dos racionalistas do século passado, e até com citações de Teilhard de Chardin, que julga ser um cientista sério, ignorando as arrasadoras críticas do zoólogo inglês P. B. Medawar que ridicularizou ponto por ponto o “Phenomenon Humain”, o autor do artigo de Manchete pretende demonstrar a figura cristã de Jesus Cristo, e reduzi-la à de um curandeiro da seita dos essênios, ou à de um agitador social que tentou um putsch contra os vendilhões do Templo. Para agravar o requinte dessa publicação feita às vésperas do Natal, a revista Manchete entremeia as blasfêmias e as tolices do texto com as figuras produzidas pela imensa e piedosa tradição de arte cristã. Consegue assim a revista ferir a religião, a cultura e até os tradicionais sentimentos de nossa gente. E aqui, muito a contragosto, assinalo uma estranha coincidência: em ambas as publicações, a do “Jornal do Brasil” do ano passado e a de Manchete deste ano, há responsabilidade de um ou mais judeus. E eu lhes pergunto: por que nos provocam, a nós que os recebemos de braços abertos quando outros povos e outros governos os perseguiam? E antes que me apontem como antissemita eu venho lembrar os títulos de amizade publicados em meu livro “Dez Anos”, e sou forçado a dizer que tenho hoje meu nome em cem árvores piedosamente plantadas em terras de Israel por uma judia que assim fez questão de provar sua amizade. Por que nos provocam? Por que nos injuriam?
A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil distribuiu pelos escritores católicos e não católicos um pedido relativo aos tempos de Natal, e à necessidade de acentuar o espírito de Natal que tem sido obscurecido, e vem sendo substituído (sou eu agora quem o diz) por festas pagãs. A revista Manchete certamente recebeu o apelo, o pedido, e aqui está a bofetada com que os Bloch e os Dines respondem à cordialidade brasileira.
Vem-me agora à memória a vaga lembrança de uma reportagem pedida por Manchete para seu primeiro número. Tratava-se também de assunto religioso, e foi publicada em tom que me obrigou a escrever-lhes recusando a remuneração combinada e qualquer outra posterior colaboração. Vejo agora que permanece no espírito dos diretores de Manchete a mesma inimizade pelo cristianismo e o mesmo desprezo pela cultura brasileira que os recebeu.
Não julgue o leitor que eu esteja aqui invocando a espada de Carlos Magno ou as fogueiras da inquisição para castigar os maus hóspedes de nossa terra e os inimigos de nossa religião. Posso escrever livremente por saber com convicção que nenhum perigo correm os mais ativos flageladores de Jesus, que nisto não estão sozinhos, mas há uma espécie de punição que posso pedir ao meu leitor: o inocente e indolor bloqueio dessa malfazeja revista. E estou certo que meus queridos amigos judeus vivos e mortos concordarão com o protesto que lavro aqui e que se tornou especialmente imperativo pelo pedido que a Igreja faz na semana do Natal.



