top of page

Jackson de Figueiredo desfigurado

  • há 18 minutos
  • 4 min de leitura


Por Gustavo Corção,

publicado n’O Globo em 21 de novembro de 1968.


Parece-me que o professor Amoroso Lima, em artigo publicado no “Jornal do Brasil” em 15 do corrente, levou um pouco longe demais, mesmo em relação a si mesmo, o desembaraço que há anos vem mostrando em relação às pessoas e aos fatos. Sim, exagerou. Em regra geral, quem escreve tem de se isolar das pessoas e das coisas na hora de escrever. Trazida à pressa, amontoado o botim, o salteador de ideias e fatos fecha-se no seu covil para inventariar achados e conquistas; escreve só, precisa escrever só e não admitirá que lhe peguem o braço.


Mas nesse mesmo isolamento há sempre, tem de haver sempre a vaga presença, a consciência oblíqua, não de todo apagada, daqueles a quem deve prestar contas. Em torno da mesa do escritor, por mais protegida que esteja, erguem-se fantasmas: é o leitor invisível, inumerável, inevitável, conhecido ou desconhecido. Às vezes, desse ajuntamento confuso, destaca-se uma figura mais próxima e mais exigente que obriga o escritor a uma espécie de diálogo com sombras. Torno a dizer: o escritor escreve só, isolado, protegido, mas nunca, jamais poderá levar esse isolamento até o esquecimento completo dos rostos, dos vultos, das vozes que estão recuadas, mas prontas para lembrar aquilo de que nenhum de nós se pode desligar, e que antigamente se chamava RESPONSABILIDADE.


Ora, leio no citado jornal a seguinte apreciação de Tristão de Athayde sobre o seu amigo Jackson Figueiredo morto há quarenta anos em condições trágicas: “Foi o insubmisso que teria vibrado com os enragés da Sorbonne, embora discordando de muitas de suas posições, como se insurgiu contra o tenentismo de 1920.” Assinalo o flagrante ilogismo: Jackson teria vibrado com os insubmissos de 68 como vibrou contra os insubmissos de 20. Mas passemos, porque a própria falta de lógica aqui atenua a injustiça praticada contra a memória do amigo. Adiante lemos: “... escrevendo do coração do Quartier Latin, em cujas ruelas ou avenidas ainda ressoa o clamor da mocidade de Maio nas barricadas, onde Jackson se sentiria tão à vontade ao lado dos contestatários...”.


Durante trinta anos ouvimos todos no Centro Dom Vital, especialmente nas comemorações de 4 de Novembro, conversas, conferências, evocações, testemunhos sobre a figura de Jackson Figueiredo que assim aprendemos a conhecer e a venerar. Na variedade de pinturas e de circunstâncias lembradas, mantinham-se nítidos os traços essenciais do retrato: caráter forte, senso vivo de ordem e de autoridade, aversão a todas as deliquescências e faltas de envergadura moral. Um homem marcado, um homem marcante. Um homem que queimava os que passavam por perto de seu coração.


Na pouca obra que deixou, na revista chamada A Ordem, hoje desaparecida, na instituição que fundou, na correspondência que manteve com o amigo que quis arrancar da disponibilidade, nas anedotas de intransigência e de bravura física, em tudo Jackson deixou um retrato vivo na lembrança de todos os que o conheceram, e dos que pela lenda o adivinharam. Tinha eu esse retrato no coração, mas hoje, com surpresa e aflição leio no “Jornal do Brasil” que Jackson estaria à vontade com os contestataires marcianos de 1968!!! Pode-se reformar assim a figura de um morto? Tremo só de pensar num Jackson à vontade no chienlit de Paris começando nos outros lits de Nanterre.


Pelo que ouvi durante trinta anos, do próprio professor Amoroso Lima e de outros amigos de Jackson, que o fundador do Centro Dom Vital veria com horror o obsceno espetáculo que enfeou a França e entristeceu todos os homens de bom senso no mundo inteiro. Tenho certeza de que Jackson veria com náusea o grupo portador do cartaz com estes dizeres: “Comité des Fédérations de Paris”. Das duas uma, ou me mentiram durante trinta anos, e com especial requinte nas comemorações de 4 de Novembro, ou então delira agora o amigo que ressuscita Jackson para envolvê-lo nas desordens de rua, e sobretudo na desordem total de critérios.


Não conheci Jackson de Figueiredo a não ser pelo que dele me disseram os amigos, e desafio todos os poucos amigos sobreviventes a dizerem o contrário do que digo aqui.


Tenho a penosíssima impressão de que o professor Alceu Amoroso Lima, na hora de escrever seu artigo, esqueceu-se demais de mim e do que me disse seu amigo, descuidou-se demais dos outros amigos que foram amigos de Jackson, abstraiu a família, não se deu conta da presença invisível e contestatória de todas as pessoas que durante quarenta anos ouviram dizer que Jackson era um homem de caráter forte, marcado e marcante.


Voltando ao que disse atrás sobre a condição do escritor, que se deve a todos, sou irresistivelmente e desagradavelmente compelido a dizer que o colunista do “Jornal do Brasil” esqueceu-se demais de si mesmo, do próprio Jackson, e daquilo que antigamente se chamava responsabilidade.


Ainda uma palavra de explicação ao meu invisível leitor. Escrevo este artigo a contragosto; preferiria por três ou quatro motivos não o fazer, mas acontece que no último 4 de novembro, na sede de PERMANÊNCIA, sendo dia de minha aula de religião, não pude deixar de dizer algumas palavras de gratidão em homenagem a Jackson de Figueiredo. Disse aos meus ouvintes quem fora Jackson, e o que todos nós devíamos a esse grande varão. Agora, vendo-me desmentido no “Jornal do Brasil” por Tristão de Athayde não posso me desvencilhar da obrigação penosa de oferecer ao meu leitor este penoso artigo.

*Os artigos publicados de autoria de terceiros não refletem necessariamente a opinião do Mosteiro da Santa Cruz e sua publicação atêm-se apenas a seu caráter informativo.

É proibida a reprodução total ou parcial de textos, fotos, ilustrações ou qualquer outro conteúdo deste site por qualquer meio sem a prévia autorização de seu autor/criador ou do administrador, conforme LEI Nº 9.610, de 19 de fevereiro de 1998.

bottom of page