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São Pio X

  • há 2 horas
  • 4 min de leitura


Por Gustavo Corção publicado n’O Globo em 21 de agosto de 1969

Todos nós temos nossos santos prediletos, mais próximos segundo não sei que espécie de afinidade, ou talvez mais favoráveis por algum decreto de Deus para a comunhão dos santos. O fato é que os temos. Depois de Deus — tu solus altissimus... — depois da Virgem Santíssima e dos santos apóstolos, começa então a lista caprichosa dos afetos sobrenaturais de cada um. Não escon-do a minha, onde o leitor em vão procurará a razão que também não encontrei de tal predileção. Ei-la: Santo Tomás, São Bento, Santa Perpétua, Santa Catarina de Sena, São João Câncio, Santa Bernadete, Santo Cura d'Ars, Santa Teresa d'Avila, São Francisco e São Pio X, o mais próximo na data de Canonização e o mais importunado para que interceda no céu, como trabalhou na Terra, em defesa da Fé e da Igreja peregrina. Vou mais longe na confidência: trago sempre comigo, no bolso da camisa, em cima do coração, uma medalha do grande e santo Papa, e tenho no missal uma imagem e uma oração. Recentemente tive a ideia de escrever a todos os bispos do Brasil uma carta pedindo uma homenagem, um apelo sobrenatural ao santo em favor da igreja do Brasil. Recebi muitas cartas de apoio, e de certo modo foram elas que me deram a primeira ideia de um movimento que se chamaria instituto ou Centro Pio X.


E até, se não me falha a memória, escrevi um artigo contando uma antiga dívida que eu tinha com Pio X. Em 1917 ou 18, minha mãe, que já fundara na rua do Matoso o Colégio Corção, teve uma oportunidade de desenvolvê-lo, transferindo-o para a rua Haddokk Lobo, 212, onde funcionava um Colégio Pio X que a velha diretora abandonava a qualquer preço. Em certa manhã primaveril ou estival daquele ano fabulosamente antigo, o moço disposto e ágil que fui trepou no quiosque que havia na entrada do colégio, e ajudado por seu irmão e seu padrasto arrancou o nome de Pio X e em lugar dele, vitoriosamente, plantou o novo nome "Colégio Corção”.


Tento pagar hoje a dívida. E encontrei a mesma disposição nos amigos da PERMANENCIA. Em nossa sede, ao lado de outros santos, e de retratos de Chesterton, Péguy, Claudel, Jackson de Figueiredo e Fernando Carneiro, temos, uma bela e grande fotografia de São Pio X a nos abençoar.


Tudo isto para dizer o espanto, a tristeza e o aborrecimento com que li uma página de livro...


Eis o que Alceu de Amoroso Lima escreve no livro publicado recentemente. Violência ou não? Ed. Vozes, pag. 204:


"Fui reler ontem a Encíclica "Pascendi". Não pude continuar! Parece um documento escrito por um Torquemada! Comparar o que está ali escrito por um santo e, no entanto, ressumando ódio, vingança, punições, terror, condenações, expulsões, o que há de mais tipicamente inquisitorial, e confrontar com o que hoje escreve Paulo VI, ou escrevia ontem João XXIII, é como mudar... de planeta! É um documento tipicamente da Igreja policial, sem a mais remota semelhança com o Evangelho, ou mesmo com o Antigo Testamento. É um código de torturas. É a disciplina da chibata, como se aplicava na nossa Marinha, antes de 1910. De Cristianismo, nada nada, nada".

"Fiquei horrorizado e tive de deixar de ler para não extravasar no que estava escrevendo e então sim ser acusado de insurgir contra um Papa, contra um Santo, contra a Palavra da Igreja oficial e que continua de pé”.


"Nunca tinha lido esta Encíclica senão muito de passagem. Só então compreendi que entre 1907 e 1965 há um abismo na história da Igreja. O autor daquele amontoado de ódio não pode ter sido o cardeal Sarto, o futuro Pio X. Foi-lhe imposto pelo entourage como sendo o ferro em brasa necessário para curar a Igreja do tétano modernista que a estava invadindo". (16-3-65).


Quero lembrar aio leitor que a Encíclica Pascendi Domini Gregis, que bem merece seu nome, foi o documento fundamental em que Pio X em 8 de setembro de 1907, quatro anos depois de sua subida ao trono de São Pedro, combate os erros do "modernismo" Com amorosa, heroica e santa severidade. Devo também observar que, se mudança houve na Igreja, não foi de 1907 para 1965 e sim de 1954, porque foi nessa data e não naquela que Pio X foi canonizado por Pio XII, e canonizado precisamente em razão das virtudes heroicas que demonstrou no combate ao "modernismo" e na defesa da Fé. Observo, também, que efetivamente a encíclica não poderia ter sido escrita por um futuro Papa e sim por um Papa bem assentado no seu trono. Lembro ainda que, a acreditar na explicação com que Amoroso Lima quer salvar seu desacato a um santo, a Igreja teria canonizado um idiota com critérios de ódio e de chibata.


E mais não digo. Não tenho acesso ao autor acima citado já que ele, por princípio, confessa não ler nada do que escrevem seus críticos, e escora-se num provérbio árabe: "os cães ladram e a caravana passa". Suponho que um dos cães seja eu, e o autor a caravana, e por isto, dada minha incapacidade de atingi-lo, rogo a algum de seus amigos que interceda, imploro ás irmãs beneditinas que tiveram parte na elaboração do volume que poupem os santos, e que, contra ele mesmo, protejam o autor que publica sua simpatia pelo "mártir Camilo Torres", pag. 148, e sua aversão pelo santo Pio X.


É ainda um apelo de amizade que deixo, e continuarei a ladrar já que os domini cani aderiram à caravana.

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