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Violência e Não Violência

há 5 minutos
4 min de leitura

Por Gustavo Corção,

publicado n’O Globo em 18 de julho de 1968.


Sob o título um pouco pretensioso de Teologia da Violência, estão em moda, entre outras coisas, as considerações tecidas em torno das ideias de violência e não-violência. A tendência geral da ala chamada "progressista" do mundo católico é aquela que recentemente, em artigo publicado no "Jornal do Brasil", o padre Margerie analisou. Invocam-se o princípio e a legitimidade da violência em termos de um balanço de óbitos: a violência chamada branca mata pela mortalidade infantil, e de um modo geral pela fome ou pela subnutrição, mais do que mataria a violência vermelha (honni soit qui mal y pense), isto é, pela violência que faz correr o sangue pelas sarjetas. Este cômputo de mortes, brancas ou vermelhas, autorizaria a violência e conseguintemente a guerrilha, e induziria as multidões a ver nas figuras de Guevara ou Camilo Torres os Joãos Batistas do Novíssimo Evangelho.


E o curioso é que os nossos, isto é, aqueles que se obstinam em permanecer ligados ao Cristo e ao Credo que o Papa recentemente proclamou, se deixam apanhar pela malícia da retórica revolucionária e consentem em discutir com os comuno-católicos os graus de vermelhidão ou de brancura da violência. Ou então se crispam contra qualquer violência. Ou então invocam a doutrina de Santo Tomás que, em continuação a Aristóteles, aceita a ideia de sedição e de tiranicídio em casos extremos e somente em circunstâncias que tenham forte probabilidade de êxito. Nossos adversários, os progressistas do mau progresso, também invocam às vezes o Doutor Comum para lembrar que a Igreja e seus doutores não repelem a ideia de revolução.


Ora, em todas as exposições que já li nota-se uma falta principal, uma omissão total que esvazia o sentido de todas as considerações feitas. É a seguinte: discutem-se os meios, a liceidade de tal ou qual violência, deixando no esquecimento a ponderação principal, que é a do fim. Da parte dos chamados teólogos da violência a omissão é maliciosa, da nossa parte o silêncio é ingênuo, e tudo se passa como se estivesse tacitamente admitido entre nós que o fim que os progressistas e marxistas apregoam é indiscutivelmente bom. Ora, esse fim é indiscutivelmente ruim. Diríamos até, sem hesitação, que ao longo da história a humanidade ainda não conseguiu inventar nada mais tolo, mais burro, mais triste e mais torpe do que esse modelo de sociedade a que aspiram os pobres chineses de Mao Tsé-tung, e que os soviéticos julgam já ter atingido. Ninguém ignora que os comunistas exageraram um pouco demais a coloração vermelha de sua violência, a ponto de matarem mais gente pela socialização do que pelas duas guerras; ninguém ignora também que se mantém o regime de prisão de toda uma parte do planeta; como também ninguém ignora que o bem-estar material dos povos, depois de meio século de experiências, é muito inferior, nos países socialistas, ao padrão da Alemanha Ocidental, da França ou do Canadá. Para não falar nos Estados Unidos que já enviaram uma espécie de MEC-USAID para ajudar os universitários russos.

Com tudo isto, entretanto, esses regimes contém uma ideia e uma prática ainda pior e que bastariam para tornar absolutamente indesejável o famoso ideal que emociona os intelectuais de esquerda e excita o clero descomplexado. Há, portanto, uma transcendental gaiatice em estar discutindo os meios, os graus de violência admissíveis, para alcançar determinado fim, em vez de se evidenciar a espantosa indesejabilidade desse fim. Pelo amor de Deus! Não é a violência que nos repugna, é a sociedade em que a pessoa humana desaparece deglutida pelo todo social. Esse resultado é detestável ainda que seja alcançado pela suave persuasão, e pelos mais sedativos e emolientes processos. Sim, ainda que a estrada estivesse engalanada de flores, a Cidade terminal dos marxistas e dos católicos progressistas é absolutamente indesejável para um homem normal, e por muito mais razão para um homem de Fé.


A esse respeito convém dizer duas palavras da ideia muito divulgada entre alguns bispos, segundo a qual deveríamos arrebatar das mãos dos ateus e materialistas a bandeira da justiça social. Meu Deus! Será possível imaginar que a bandeira dele seja realmente a da justiça social? A mim me parece claro, claríssimo, que não devemos arrebatar a bandeira dos comunistas, que não nos servirá de nada. Seria realmente esquisito disputarmos, com lutas, com eloquência, com sacrifícios das convicções mais sagradas, a bandeira de um ideal que prende o homem no andar térreo do mundo, proibindo-lhe os sonhos, os devaneios, as contemplações, e a elevação da alma até o Deus revelado, maravilhosamente amigo e três vezes santo. Nós também temos uma bandeira. Temos até duas: uma para as lides do bem comum temporal, e outra mais solene para as batalhas do Cristo. E uma das imposições resultantes da primeira bandeira é justamente a de lutar em tempo e contra tempo contra os regimes que aviltam o homem. Violência por violência, vermelha ou rosada, deveríamos nós aconselhá-la aos pobres prisioneiros do submundo do imanentismo socialista destruidor das arestas de cristalização da alma humana. Em favor do pão? Nem isso, nem isso, já que poucos anos atrás ficaram sem o dito pão e tiveram de comprá-lo nos países onde, mal ou bem, ainda há quem diga que nem só de pão vive o homem.


Em resumo, nós não somos contra a violência. Há violências boas. Há violências santas. Deus ama os violentos e vomita os mornos. Nós somos, efetivamente, contra a estupidez.

*Os artigos publicados de autoria de terceiros não refletem necessariamente a opinião do Mosteiro da Santa Cruz e sua publicação atêm-se apenas a seu caráter informativo.

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