A Infiltração Comunista no Mundo Católico

Por Gustavo Corção,
publicada n’O Globo em 17 de agosto de 1968.
Se os comunistas possuíssem um pouco mais de flexibilidade mental, e não tivessem sufocado a imaginação, teriam de desconfiar seriamente do enorme sucesso que alcançaram na infiltração que promoveram no mundo católico. Todos nós sabemos que foi durante a guerra, e mais especialmente na famosa resistência francesa, que os comunistas começaram a penetrar nos meios católicos. Dizem que muitos fizeram curso de seminário e que atualmente existem puros comunistas nas ordens religiosas e no clero secular. É possível, mas o que nos espanta é a ausência de espanto dos marxistas e dos ateus. Estarão eles tão desinformados do que seja a Igreja para achar natural o que está acontecendo no mundo? Serão tão estúpidos que atribuam tal resultado à própria sagacidade? Receio que assim seja, pois de outro modo não se explica o fato de não se registrarem conversões sensacionais no mundo comunista. Sim, se eles tivessem um pouco mais de lucidez, já estariam começando a crer que tamanho resultado não se explica satisfatoriamente com as fórmulas do marxismo, e só se explicam com o pecado original e com a colaboração do Demônio. De outro modo não há como conciliar os vinte séculos de Igreja, os santos, as ordens religiosas, os doutores, as virgens, os mártires de um lado, e de outro lado - a entrevista de um estúpido cinismo dada pelo Cardeal Alfrink, da Holanda. Se não mentem os jornais, disse ele que não haverá cisma porque quem recebeu boa formação teológica sabe que não pode permanecer na Igreja, legalmente, sem o Papa. E acrescentou: “Apesar da encíclica, a consciência individual deve permanecer como árbitro final do que é bom ou mau no controle da natalidade." Ora, qualquer pessoa que tenha rudimentos de teologia moral sabe que a consciência individual é a regra próxima do ato moral mas não pode nunca ser vista como regra última em problema nenhum, maximé quando o critério da regra última está publicado em todos os jornais. É difícil dizer maior amontoado de asneiras em tão pouco espaço telegráfico. Até sob o ponto de vista da economia usada nesse meio de comunicação parece-nos que o cardeal holandês exagerou.
Outro telegrama interessante nos vem do Chile. Parece que o ar oceânico está produzindo perturbações e que esses países muito expostos ao sal em vez de se conservarem se decompõem. Em Santiago alguns jovens padres e leigos tomam de assalto a catedral, declaram aos berros que a Igreja tem andado ao serviço das classes dominantes (tal e qual lhes ensinaram os manuais de primeiro catecismo marxista), protestam contra a aristocrática organização do Congresso Eucarístico em Bogotá, e contra a "forma" da visita do Papa, e depois de todas essas coisas declaram que assim fazem "movidos por um grande carinho pela nossa Igreja"!
Lembro-me de meu velho professor de hidráulica, cético, anatoliano, espirituoso, mas de repente intolerante e excitado quando o aluno ultrapassava excessivamente aquela linha permissível do mais incontestável dos direitos humanos: o de dizer besteiras.
— Tudo tem limites, meu amigo, tudo tem limites!
As declarações eclesiásticas ultrapassaram todos os limites até hoje conhecidos. Os meios de comunicação, o microfone, a paciência do papel, as entrevistas, tudo multiplica, tudo exponencializa a natural e a preternatural tendência à estupidez. Mais adiante os mesmos chilenos dizem que desejam reunir na catedral assaltada a "família de operários, estudantes e profissionais". Lembrei-me de um artigo que escrevi anos atrás, inspirado em Chesterton, e em toda a tradição católica, no qual dizia que na casa de família o carpinteiro deixava de ser carpinteiro e recuperava o nome de batismo, e com ele recuperava a integridade comprometida na aventura profissional. Não há família de estudantes porque em casa os estudantes são filhos, netos ou sobrinhos. Ninguém está na família segundo um desses títulos profissionais e sim segundo a totalidade de sua pessoa. Além disso será preciso dizer que o verdadeiro marxista s'en f... da família como da primeira camisa que vestiu?
Nunca me pareceu que um chileno tivesse muitos traços comuns com os holandeses, mas agora vejo um dos efeitos curiosos da onda que corre mundo: ela nivela e equaliza os tipos mais diferentes. A situação universitária na França é bastante diferente da nossa, entretanto foi com reações musculares absolutamente iguais que jogaram pedras iguais e com uma igual falta de qualquer razão.
E diante de tão fascinante espetáculo o comunista continua a pensar que foi por sua habilidade que o mundo ficou assim, e em vez de se converter continua a perverter católicos sem sentir a sinistra colaboração em que está empenhado. Há um traço comum entre essa atitude mental do comunista e a atitude mental do cardeal Alfrink: ambos pensam que são deuses. O mundo ainda assistirá a espetáculos terrivelmente divertidos proporcionados por esses deusezinhos infinitamente miseráveis que fazem barulho com a boca julgando que estão falando, e garatujas no papel crendo que estão escrevendo. Veremos boas, veremos boas, como dizia um velho tio que chegava em casa esfregando as mãos e os olhos acesos nos dias da famosa gripe espanhola. E vimos boas nos caminhões de defuntos que, nas portas das casas, discutiam e trocavam defuntos mais frescos pelos que já fediam demais. Pode-se dizer sem sombra de ironia que os da esquerda estão caprichando.




