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Assembleia Ordinária da conferência Nacional dos Bispos do Brasil

há 11 minutos
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Por Gustavo Corção,

publicado n’o Globo em 13 de julho de 1968.

Prepara-se a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil para a reunião em assembleia que se instalará no dia 16 do corrente no Rio de Janeiro, e todos os católicos adultos e conscientes do país adivinham, ou desejam que essa reunião tenha uma importância maior e um resultado mais decisivo do que as anteriores de mesma denominação. E em que direção colocamos nós esse ardente desejo? Apesar das subversões dos tempos não somos adeptos do democratismo eclesiástico graças ao qual os leigos poderiam sugerir ou até pressionar o episcopado. Não nos compete sequer lembrar-lhes a infinita responsabilidade que carregam como portadores do Sagrado Depósito e como pastores do Povo de Deus. Para nosso próprio uso lembremos, com os Evangelhos, que os Apóstolos receberam de Cristo a missão de ensinar, de governar, de batizar em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, por todos os séculos e séculos. Com a tradição patrística, evocada na Lumen Gentium, lembremos que "entre os vários ministérios que desde os primeiros tempos se exerciam na Igreja, ocupa o primeiro lugar o ofício daqueles que, constituídos no episcopado, por uma sucessão que surge desde o princípio (Tertuliano) conservam a sucessão da primeira semente apostólica (ib.); e assim, segundo Santo Irineu, por meio daqueles que foram estabelecidos pelos apóstolos como bispos e como sucessores seus até nós se guarde e se manifeste a tradição apostólica." Assim, pois, os bispos são da linhagem santa dos apóstolos, com os mesmos encargos de pastorear e ensinar que aos primeiros deu o próprio Cristo Jesus.


Diante de tão elevada investidura e de tão transcendente responsabilidade, que poderemos nós outros dizer sem impertinência e sem desrespeito? Atrás perguntamos e tornamos a perguntar: em que direção se projeta nosso desejo, nossa ansiedade?


Creio que podemos formular nosso ardente desejo em termos de um apelo que é quase uma súplica filial. De início lembremos que estamos no mundo sujeitos a todas as forças que contrariam a vida do espírito, e que ninguém ignora que a plenitude do sacerdócio não confere automaticamente todas as perfeições naturais e sobrenaturais. Um bispo vive um estado de perfeição que o obriga prodigiosamente, que o ajuda maravilhosamente, mas nem por isso lhe confere impecabilidade. Desde o primeiro colégio, em torno do mesmo Jesus, observamos com pasmo como eram imperfeitos os apóstolos, a começar por Pedro, e sem falar no traidor. Ao longo da história repetiu-se o drama, a tenebrosa intriga que chegou ao seu máximo suspense na Quinta-Feira Santa em torno da Ceia. E agora, no Brasil, como em toda a parte, nós sabemos que os bispos estão divididos, e que essa divisão é mais profunda do que as simples divergências culturais ou políticas, já que chega a atingir o depósito sagrado o desencontro de mentalidades. Nessas condições, que desejamos nós de nossos pastores? Diplomacia? Solidariedade superficial que disfarce aos olhos indiscretos as clivagens profundas? Moderação que evite o choque da franqueza candente? Lubrificação que contorne as asperezas das divergências? Creio poder afiançar por uns e por outras que a grande sede e fome de toda a Igreja de Cristo só pode ser fome e sede de Verdade. Sim, com o soberano critério das verdades de Fé, que estão compendiadas no Credo que o Santo Padre tão solenemente recitou para todo o orbe no dia do encerramento do ano da Fé, é urgente e imperioso que os bispos do Brasil, como sucessores dos apóstolos, deem aos seus rebanhos um belo espetáculo de sobrenatural sinceridade, ainda que essa sinceridade venha obrigar cada bispo a prestar seu testemunho, no governo de sua diocese, sem vinculações forçadas com a assembleia, ou com a conferência que não é instituição de transcendência e de valor igual à do episcopado. Será preciso repetir o que já disse com melhores palavras o Doutor Comum, isto é, que a falsa união é pior do que a cisão?


O mundo de hoje agoniza com fome de Verdade e de Amor, mas de verdade e de amor genuínos como somente Deus por sua Igreja nos podem proporcionar. Rezemos para que nossos pastores tenham constantemente diante dos olhos a Cruz de Nosso Senhor, e dentro dos ouvidos, em lugar dos pruridos do século, as palavras do Apóstolo: "Quanto a mim me glorio na Cruz de Nosso Senhor". Há muitas tarefas a realizar no mundo para a organização mais decente da vida temporal. Muitas instituições podem trabalhar por esse Ideal de melhor vida neste vale de lágrimas, e a Igreja pode, melhor do que ninguém, dar os critérios supremos que mesmo neste mundo nos proporcionarão uma convivência menos insensata. Mas há uma tarefa mais alta que só a Igreja pode realizar: é a do bem comum eterno, ou da vida eterna desde já começada nesta interseção maravilhosa de dois mundos, que é a Igreja na terra. Praza a Deus que esses valores mais altos tenham o lugar principal em todas as cogitações da assembleia de bispos, ou então, na hipótese de divergências infinitamente indesejáveis, prazo a Deus que ao menos tenhamos a Verdade das chagas se não pudermos ter a Verdade inteira de uma concórdia perfeita.


Todo o mundo, por muitas bocas, grita reivindicações, reclamações, protestos. Esse vozerio certamente chega aos céus como um imenso choro de crianças que não sabem dizer o que querem, e choram sem saber por que choram. No fundo de toda esta aflição há um anseio fundamental que o cristianismo veio atender, ou melhor, há um desejo central que o cristianismo veio orientar. Não estamos aqui, nesta vida e neste mundo, primordialmente para realizar os nossos pequeninos desejos, nem para bondosamente realizarmos os desejos de nosso vizinho e irmão. Estamos aqui, primordialmente, para um ereto e vertical testemunho, para um primeiro e fundamental louvor. Mas para isto, e para não nos desgarrarmos, precisamos de bons e diligentes pastores que coloquem acima de todas as coisas deste mundo a Doutrina de que são zeladores e inventariantes e o Testemunho de que são continuadores. Peçamos a Deus a confirmação dos nossos bons pastores, e a conversão dos que se deixaram levar por novidades enganosas. E em qualquer caso, roguemos a Deus para que nos deem a Verdade.

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