top of page

O metaprotestantismo de alguns padres católicos

há 5 minutos
4 min de leitura


Por Gustavo Corção,

publicado n’O Globo em 25 de julho de 1968.


Antes de comentarmos os vários documentos originados em torno da IX Conferência dos Bispos, realizada na semana passada, convém volver a atenção para o manifesto dito de 350 padres capitaneados, ao que parece, pelo que diz o "Correio da Manhã", pelo bispo D. Valdir de Volta Redonda. Esse documento tem três partes principais. Na primeira, os redatores enumeram alguns fatos que constituirão os pontos de partida de ulteriores considerações; na segunda, especulam sobre o sentido dos fatos; na terceira finalmente formulam os padres algumas propostas ou reivindicações.


Parece-me que a parte mais interessante, e mais elucidativa dos sinais dos tempos, é aquela segunda, onde os padres tecem considerações especulativas e até teológicas. E entre os tópicos dessa parte do manifesto, parece-me especialmente digno de nota o nº 4, que vem intitulado: "A Teologia da Comunidade". Eis o seu teor integral:


"O presbítero necessariamente não é o teólogo. É tarefa de toda a comunidade interpretar teologicamente os sinais de Deus na área profissional onde todos se encontram". Ora, aí está, sem o menor disfarce, a proclamação do democratismo eclesiástico que o Papa recentemente denunciou. Até aqui todos nós católicos pensávamos que a doutrina revelada veio de cima para baixo, de Deus para os homens, e que o ensino teológico de tal doutrina tem a mesma característica de dependência do Magistério da Igreja. Pedagogicamente sabemos que tal doutrina tem de ser ensinada do mestre para o discípulo. Ao contrário de todas as ciências naturais que nascem da observação, que se alimentam de experiências, a doutrina sagrada nasce da revelação e evolui, cresce por aprofundamento do dado revelado implícito. Agora, com os padres do Manifesto temos na Comunidade a nova fonte, a nova revelação, diria até a nova divindade. Ou melhor, temos uma Igreja de pernas para o ar.


Mais adiante, nos tópicos 5 e 6, o documento acrescenta: "A fé é experiência pessoal e comunitária do mistério de Deus vivo. Essa vida teologal é múltipla (?), portanto devem ser múltiplas as formulações da mesma, deixando liberdade ao espírito criativo (sic) e às consciências iluminadas pela luz do Cristo". Este tópico, mais piedoso do que o anterior, nem por isso é mais tranquilizador por causa de expressões misteriosas que não nos são familiares. Mas o tópico seguinte é mais claro e muito menos teologal: "Em vários pontos do país devem surgir centros regionais de animação (?) e de análise crítica da realidade. Será uma pesquisa dos sinais dos tempos. Os cristãos professores do centro não substituem as reflexões da comunidade. Simplesmente as ajudam com mais abundância e profundidade". O título deste tópico é simplesmente este: Centros de Pesquisas Teológicas. No tópico n° 7, com o título Formação do Presbítero, temos mais esta dose de democratismo eclesiástico: "O novo presbítero...". Por que "novo"? Continuemos: “... forma-se na convivência com os irmãos. É decisivo que ele seja capaz de ajudar sua comunidade de vida e interpretar os sinais de Deus no ambiente profissional em que vive. Se pode ser dispensado dos cursos de teologia abstrata, deve porém entrar em contato com os centros de pesquisa teológica". Que quererá dizer tudo isto? Mais especialmente ou quereria saber o que quer dizer "comunidade", "interpretar os sinais de Deus", e principalmente o que quer dizer "centros teológicos".


Não me parece que "comunidade" queira dizer pura e simplesmente o grupo de fiéis em torno do pároco, nem quer dizer o povo que vai à missa. Essa comunidade, honra lhe seja feita, não tem demonstrado nenhum entusiasmo pela excitação do "novo" presbítero. O manso "troupeau" nunca foi tão "troupeau", diz Etienne Gilson no seu livro Les Tribulations de Sophie. Somos mansos, e fazemos com resignação o que os padres inventam que devemos fazer. Não partiram das comunidades nenhuma das novidades razoáveis e principalmente nenhuma das novidades aberrantes. O povo de Deus amava o latim e está disposto, com o correr dos anos, a amar o "contigo também" e outras fórmulas que levarão anos a ganhar sabor religioso. A crise de novidade é mais do clero que da comunidade leiga que acompanha, resmungando às vezes, as novidades que lhes inculcam. Nunca se dirigiu tanto, nunca se guiou tanto na missa e fora da missa o pobre troupeau atarantado.


Receio muito que o sentido dessa mágica palavra "comunidade" seja inteiramente aéreo ou abstrato como dizem. A menos que queira significar "passeata" ou "manifestações estudantis", que também explicariam bem o termo "sinais dos tempos". E pesquisa teológica quereria dizer simplesmente organização de passeata e discussão sobre os prédios que convém pichar. Não se queixem os senhores padres da aparente falta de seriedade de minha parte. Estou apenas tentando interpretar os sinais da falta de seriedade de sua parte. Se os senhores padres acham que podem brincar com as coisas da Igreja e inventar um novo figurino de presbítero, hão de convir que um velho leigo tem todo o direito de não mais os levar a sério. Na verdade, porém, devemos todos, a começar pelos senhores bispos, levar muito a sério esse fenômeno que dia a dia invade o mundo católico. E procurando interpretar os sinais abundantes publicados no "Correio da Manhã" somos forçados a ver uma espécie de metaprotestantismo nesse liberalismo ou democratismo religioso dos padres que mais querem ouvir a comunidade (abstrata) do que a Igreja. Sim, há no clero alvoroçado um fenômeno de protestantização que já ultrapassou os pacatos luteranos e calvinistas, e é terrível pensar que esses desatinados se julgam mais avançados e progressistas do que o cristão que continua a seguir a tradição viva da Igreja.

*Os artigos publicados de autoria de terceiros não refletem necessariamente a opinião do Mosteiro da Santa Cruz e sua publicação atêm-se apenas a seu caráter informativo.

É proibida a reprodução total ou parcial de textos, fotos, ilustrações ou qualquer outro conteúdo deste site por qualquer meio sem a prévia autorização de seu autor/criador ou do administrador, conforme LEI Nº 9.610, de 19 de fevereiro de 1998.

bottom of page