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Para a II Conferência Geral do CELAM

há 11 minutos
4 min de leitura


Por Gustavo Corção,

publicado n’O Globo.


Tenho diante de mim as "notas sobre o documento básico para a II Conferência Geral do CELAM", programada para 16 de julho próximo. O autor dessas notas que serão distribuídas pelos bispos é o Pe. Comblin, belga, atualmente em atividade de professor no Nordeste, sob o patrocínio de D. Helder Câmara, o conhecido Arcebispo de Olinda e Recife. Vejamos o que contêm essas notas destinadas aos senhores bispos da América Latina e, posteriormente, ao Papa se lograrem aprovação do CELAM, como provavelmente esperam o padre e o bispo do Nordeste. Depois de um tópico sobre a situação histórica da América Latina, escrito com os critérios e com o estilo progressista, que a cada instante lembra o linguajar dos pregadores marxistas, o autor entra a falar na Igreja e em suas responsabilidades, e antes de entrar na análise mais detalhada diz simplesmente isto: "Para ser sinal, ela (Igreja) deve em primeiro lugar libertar-se de seu passado". Porque o passado da Igreja é não apenas passado, não apenas superado, mas vergonhoso. Há frases assim na página 3 das notas: "Nunca a Igreja deixou tão grandes massas de homens batizados tão abandonados. A instituição da desobriga é um dos maiores blefes da história da Igreja". Creio que um maçom da belle époche, não diria coisas mais duras e mais injustas do que diz esse padre belga que pretende ensinar aos nossos bispos. Noto de passagem que ele fala de "Igreja" o tempo todo como costumam falar os homens sem fé, isto é, fala da Igreja como se ela se reduzisse a uma instituição terrena e humana, arrastada pela história e plantada no mundo. Não sei como se arranjam esses progressistas difamadores da Igreja para recitar na missa aquela parte do Credo: "Creio na Igreja, una, santa, católica e apostólica". Mas passemos. Noto ainda o termo sinal com que, mais de uma vez, caracteriza a Igreja. Suponho que se refira a uma passagem da Lumen Gentium onde ficou dito que a Igreja é "sinal e instrumento de íntima união com Deus". Já observei, aliás, que os padres progressistas gostam muito de dizer: "A Igreja é sinal!" Numa reunião de provinciais de uma congregação, em São Paulo, tive oportunidade de observar a excitação com que um jovem provincial, de camisa esporte, dizia: "A Igreja é sinal!", sem, todavia, completar a frase. Naquela oportunidade perguntei ao padre por que motivo se despojava ele da batina, do clergyman, e despojava as igrejas das imagens se tinham tanto empenho em realçar sua santa visibilidade. O dito padre, nesse meio tempo, deixou para traz não só a Igreja do passado como também a do presente.


Hoje começo a entender a que espécie de sinal se referem, e se o leitor quer participar da mesma elucidação leia com atenção as passagens que colho da página 5 das Notas. Depois de 12 itens relativos ao papel da Igreja, diz assim o padre belga:


"Qualquer programa pastoral precisa atender a esses 12 itens. Sem isso a Igreja apresentará contrassinais permanentes. (...) Quanto à doutrina social, o que falta na Constituição Gaudium et Spes e na encíclica Populorum Progressio é a consideração dos problemas relacionados com a "arrancada" do desenvolvimento, e de modo particular, a arrancada na América Latina. Não basta saber o que é o desenvolvimento humano em si: é também mister como é que se chega a esse desenvolvimento. (...) O problema é o do caminho "concreto". A Igreja não deve impor o caminho, caso o conhecesse melhor do que os especialistas. Mas a doutrina social deve retificar erros e confusões dos cristãos e dos outros que prestam atenção à posição da Igreja, afastar pré-conceitos e deixar livres os caminhos". Imagino que, neste ponto, o padre belga esteja a nos piscar o olho como quem diz: à bon entendeur, salut. Continuemos a leitura:


"Acontece que o pensamento latino-americano católico não foi acostumado a abordar problemas de urgência com uma moral de urgência. Quais são esses problemas da arrancada? Os entendidos definem uma série de condições subjetivas e objetivas. Entre as condições objetivas, a principal é a existência de um poder capaz de promover as reformas, e notadamente a revolução social indispensável, capaz de implantar o trabalho, de forçar a socialização e de juntar todas as energias. As condições subjetivas são uma mentalidade técnica e científica, de invenção e de trabalho, uma vontade de associação e uma esperança comum".


Por hoje temos aí matéria abundante para reflexão. Ora, pois, consideremos esse padre que nos vem da Bélgica, que encontra festivo acolhimento na Arquidiocese de Olinda e Recife, e que, tranquilamente, nos vem aconselhar a subversão no velho estilo marxista. E ainda por cima, como se tanta impertinência não bastasse, ainda ousa preparar o ternário para o CELAM, como se nossos bons bispos estivessem todos possuídos pela mesma estupidez revolucionária e, em razão dessa enfermidade, houvessem perdido toda a lembrança da gravidade de seu múnus.


Ai dos pobres. Além de todas as misérias que carregam têm de suportar esses maus advogados que os exploram, ou que os tomam como pretextos para suas abstrações, ou até que os procuram como trampolins para a conquista do poder. Como me atrevo a duvidar da sinceridade desses padres incendiários? Salta aos olhos a evidência dos sinais exteriores. Em primeiro lugar, vê-se a perversão da espiritualidade e da mentalidade cristã que se inclina toda para uma realização social que a Igreja repetidamente condenou como intrinsecamente má. Em segundo lugar, há a evidência do mau resultado da socialização total em todos os lugares em que foi experimentada. A Rússia, para ter o medíocre resultado que hoje ostenta (e que dois anos atrás se traduziu em falta de trigo), teve de assassinar cerca de oitenta milhões de recalcitrantes e de inocentes. Entre 1920 e 1930 a SOCIALIZAÇÃO matou mais gente do que duas guerras somadas. Como podem padres belgas e franceses ignorar ou fingir que ignoram esses fatos, depois de ignorar ou fingir que ignoram os ensinamentos pontifícios? Confesso que não sei responder a essas perguntas.

*Os artigos publicados de autoria de terceiros não refletem necessariamente a opinião do Mosteiro da Santa Cruz e sua publicação atêm-se apenas a seu caráter informativo.

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