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Sem Respeito e Sem Pudor

26 de ago.
4 min de leitura

Por Gustavo Corção,

publicado n’O Globo em 29 de junho de 1968.


Perdoe-me o leitor se volto à frase do Arcebispo que foi glosada em meu último artigo. Confesso que me sinto fascinado por ela. Ei-la em todo o seu esplendor: “Abra-se, enquanto é tempo, um corajoso e ilimitado crédito de confiança à juventude. Os jovens não admitem meia confiança”.


Em nosso artigo último comentamos diversos aspectos dessa frase, mas esquecemos uma coisa muito importante. Sim, esquecemo-nos de levá-la a sério. E é isto que vamos agora tentar. Vejamos: um arcebispo da Igreja Católica nos convida insistentemente a abrirmos um crédito de ilimitada confiança aos jovens. De antemão parece-nos que seria mais razoável, mais prudente, mais católico, e infinitamente mais pastoral, aconselhar os jovens a terem confiança em seus pais e em seus mestres. Bem sabemos, bem sabemos que há pais indignos, como há mestres indignos, e que até arcebispos indignos podem existir. Mas já vai bastante mal o mundo por causa de tais indignidades para que ainda por cima delas instilemos nos jovens corações o generalizado descrédito da paternidade e da autoridade. Ora, é isto, salvo engano colossal, que vem fazendo o senhor Arcebispo de Olinda e Recife e todos os que espicaçam os jovens contra os pais e os mestres.


Voltemos à frase do Arcebispo: devemos abrir um crédito ilimitado de confiança aos moços. Mas como? Eu gostaria que o Arcebispo desdobrasse seu pensamento com alguns exemplos concretos. Quererá, por exemplo, Sua Excelência, que os exames vestibulares nas universidades sejam substituídos pela palavra de honra? Ou quem sabe (tremo de pensar) se o senhor Arcebispo não deseja que os moços de vinte anos, mal formados e deformados, influam diretamente na difícil problemática do ensino e da educação? Todos nós sabemos que os moços mal orientados pelas perspectivas familiares, e pelos professores, andaram pelas ruas a combater o acordo MEC-USAID, e a reivindicar o privilégio de terem os universitários uma refeição custeada pela parte mais pobre da população. Achará o senhor Arcebispo que o Brasil entraria numa fase de grande prosperidade e progresso, e de correlato bem-estar material e espiritual, se as autoridades passassem a governar segundo as sugestões dos líderes estudantes? Há, entretanto, um pequeno obstáculo que não sei remover e que não sei como o senhor Arcebispo o removeria: todos nós estamos cansados de saber que os pobres jovens que não obedecem em casa aos pais vêm obedecer nas ruas a vários indivíduos que já ultrapassaram de muito a faixa da infalibilidade etária. Deveremos abrir um crédito de ilimitada confiança ao Sr. Hélio Peregrino, ao Sr. Otto Maria Carpeaux que nem sequer é Otto nem Carpeaux e muito menos Maria? Devemos abrir um crédito de ilimitada confiança ao Frei Chico? Aos marmanjos da Ação Popular, ou da ACI que agora reuniu-se em concubinato com a AP para produzir o híbrido estéril POLOP? E por que não levar um pouco mais longe a experiência? Eis a minha sugestão: Dom Hélder Câmara, autor da frase pela qual deveríamos todos abrir créditos de ilimitada confiança aos jovens, já ultrapassou, há muito tempo, a faixa privilegiada. Pergunto eu: por que não se aposenta e não passa o báculo a algum jovem de dezenove ou vinte anos?


Tudo isto parece gracejo, mas na verdade é sinistro. Os progressistas católicos e marxistas estão pretendendo formar uma curiosa e monstruosa sociedade privada de dois elementos que até hoje, em todas as civilizações, desde a mais remota antiguidade, nunca faltaram na atmosfera da humana convivência. Refiro-me ao respeito e ao pudor. Eles querem transistorizar o mundo, querem construir uma cidade povoada por animais mansos em amena convivência destituída de qualquer dimensão vertical. E para a realização desse ideal zootécnico é preciso abolir o respeito e o pudor. Com a abolição do respeito consegue-se a ruptura completa que permita a edificação da nova cidade sem transcendências e alienações; com a abolição do pudor quebra-se o último fio de mistério que faz de nosso corpo, de nosso pobre corpo, um punhado de moléculas espiritualizadas e empenhadas na mesma vertiginosa aspiração de uma vida mais alta. Quebradas as duas coisas teremos o mais abjeto dos mundos de onde conseguiremos expulsar a sombra de um Deus que nos quer transfigurados. A especialidade de Dom Hélder se cinge à destruição da autoridade, e cá está sua contribuição inegável, indiscutível, nesta frase em que entregamos o mundo à imaturidade e depois de tê-la inflado de orgulho. Dom Hélder não trabalha na destruição do tabu do sexo, ao menos de modo ostensivo e direto, mas não ignora que seus companheiros de progressismo, no Rio, em São Paulo, em Belo Horizonte, em todo o Brasil, estão ativamente trabalhando para conseguir o prodígio que o mundo até hoje não viu: uma humanidade sem pudor. Há colégios religiosos em que as madres, que ainda anteontem se confessavam tremendo quando viam um mosquito no banheiro, mostram bondosamente, a meninas de seis anos, com figuras de bonecos plásticos, como é que fazem o papai e a mamãe.


Há neste fenômeno um aspecto que me intriga profundamente. Os comunistas conseguiram animalizar o pobre povo russo a ponto de usarem alegremente latrinas coletivas em anfiteatro. Mas nunca tiveram a ideia de ensinar a função sexual a meninas de cinco e seis anos: esta tarefa estava reservada aos progressistas que ainda se dizem católicos para nossa infinita vergonha.

*Os artigos publicados de autoria de terceiros não refletem necessariamente a opinião do Mosteiro da Santa Cruz e sua publicação atêm-se apenas a seu caráter informativo.

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