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“O Sacerdote, um Homem Apartado”

11 de set.
4 min de leitura

Por Gustavo Corção,

publicado n’O Globo em 1º de junho de 1968


Não sou eu quem o diz. Mais de uma vez insisti neste ponto fundamental da estrutura de nossa Igreja. Para começo de consideração, a própria Igreja, vista pelos seus membros como povo de Deus, é um povo apartado, e não como tanto pretendem hoje os protestantizadores, um povo-como-outro-qualquer. Se as fronteiras da Igreja, em lugar dos riscos convencionais ou das linhas visíveis, são meridianos que passam por dentro de nossos corações, conforme a fórmula admirável do Cardeal Journet, nem por isso são menos separadoras. O cristão é um homem marcado, que não tem outro desejo senão o de transmitir aos outros essas benditas marcas sacramentais que o prendem às chagas do Salvador. E dentro da Igreja, entre os membros desse povo marcado, há aqueles que além de assinalados para a salvação trazem a marca mais terrível e separadora, que é a do sacerdócio. Por essa marca, além de assinalados pelo anjo de Deus, além de protegidos e salvos, seus portadores são agentes da redenção e da salvação, e estão no mundo para repetir o sacrifício e para distribuir seus frutos.


Contra a tendência protestantizante, e democratizante, da Igreja, o Papa Paulo VI, recentemente, falando a diversas comunidades por ocasião da festa da Apresentação de Jesus ao templo, discorreu longamente sobre a crise de obediência na Igreja, e terminou por dizer: “A Igreja é hierárquica, e não inorganizada, e muito menos democratizada, no sentido que atribui à comunidade uma prioridade em matéria de fé e de autoridade sobre aqueles que o Espírito Santo colocou na cabeça da Igreja de Deus.” (At. XX, 28). Vê-se assim que o Senhor quis que certos irmãos tivessem, de modo irrecusável (1 Cor. IV, 4), o mandato de prestar aos outros irmãos o serviço da autoridade e do governo, como princípio de unidade, de ordem, de solidariedade e de eficácia, sempre em vista de formar o patrimônio de verdade e de caridade de sua Igreja”.


Refere-se o Papa à hierarquia de jurisdição que tem por objetivo o governo e o magistério da Igreja; referimo-nos nós aqui à hierarquia de ordem ou do sacerdócio. Em ambas as perspectivas é doutrina assentada e inabalável aquela em que insiste nas marcas e que se opõe ao igualitarismo democratizante e protestantizante. A democracia tem seu lugar na sociedade temporal, mas aí mesmo deve defender-se do democratismo que pretende fazer da mediocridade um ideal e da autoridade um defeito.


Volto a dizer que o padre é um ser separado, um apartado, um segregado, e não um homem como outro qualquer. E agora quem o diz é o episcopado norte-americano. Num memorável documento que La Documentation Catholique vem publicando. Eis o que lemos no n.º 1.513, de 17 de março:


“3. O padre, homem apartado.

“...A ordenação do padre lhe vem do sacerdócio do bispo; o sacerdócio dos fiéis espera do padre ordens e o seu desenvolvimento e sua perfeição pessoal nos sacramentos, e, antes de tudo, pela Eucaristia.


“Considerar as distinções sacramentais como diferenças de classe, ou interpretá-las à luz do momento numa perspectiva sociológica ou cultural, é sempre um sinal de confusão do pensamento e dos princípios cristãos. E quando o clero e o laicato não querem mais ver no padre um homem destacado profundamente dos outros homens, embora deva permanecer unido aos homens seus irmãos, temos uma situação de uma atitude que não deixam bem compreender a vocação sacerdotal.


“Por mais que possa o coração do padre se unir e se identificar com os seus fiéis, haverá sempre uma diferença essencial entre o padre e os leigos. O padre consagra e é uma maneira categórica um homem de Igreja, se torna sinal da Igreja como nenhum outro cristão, e exprime no seu sacerdócio os ministérios especiais de Jesus Cristo, único grão-sacerdote. E finalmente ele é responsável não apenas em relação a seu povo — por maiores que sejam seus deveres nesse sentido — mas em relação a si mesmo, ou a qualquer casta sacerdotal, mas em relação a Deus, que o chamou.”


O que diz o episcopado norte-americano, neste doloroso ano de 1968, em que parece que a loucura ameaça alastrar-se pelo mundo inteiro, é o que a Igreja sempre disse e ensinou. Nós somos um povo nítido e não uma legião que não sabe o que quer, nem sabe a direção que deve tomar em sua vida. Somos um povo de assinalados que conhece o seu Pastor e sabe bem o endereço de sua Casa. E por isso somos o único povo capaz de salvar o mundo na própria ordem do bem comum temporal, não pelo apagamento de nossas marcas, não pela inversão das nossas prioridades. Ao contrário, a grande lição que trazemos ao mundo, e o único remédio para a sua loucura, é a lição do interesse pelas coisas e do desprendimento das coisas. Queremos marcar com sinais de dignidade e decência o nosso transcurso pelo planeta habitado, mas sabemos que não é aqui a nossa pátria verdadeira e última.


Vejam o que está acontecendo na Europa. Os franceses tinham tudo. Eram ricos, e eram desenvolvidos, eram cultos, tinham boa moeda, bom produto nacional, boa renda per capita, razoáveis universidades, maravilhosos centros de cultura. Tudo. Tudo, menos a lembrança da razão de ser da vida, do trabalho, da cultura e da riqueza. O resultado medonho, humilhante, deprimente, está diante de nossos olhos, e eu penso que a responsabilidade dos católicos que vêm protestantizando a Igreja é terrível. O leitor talvez não veja imediatamente a conexão, mas ouso dizer que, num mundo em que o padre perde a noção do caráter sacerdotal, os outros homens, de todas as religiões, perdem o caráter simpliciter. “Vós sois o sal da terra”, disse o Senhor, e eis o que acontece quando o sal perde a força.

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