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Anarquismo

há 15 horas
4 min de leitura

Por Gustavo Corção,

publicado n’O Globo em 25 de maio de 1968.


Sinto-me incapaz de imaginar, de esboçar sequer uma hipótese sobre o que vai acontecer em Paris e no mundo. A razão é muito simples: o que está em jogo nas desordens, nas greves, nas correrias estudantis que chegaram ao vergonhoso disparate de pendurar um retrato de Guevara nas paredes da Sorbonne, não tem nenhuma configuração doutrinária, nenhum plano. nenhum objetivo definido. Ao contrário, o que vemos é uma explosão anárquica marcada pelo profundo desencanto de um mundo cansado de ser humano. Ou melhor, cansado de ser um mundo diferenciado, hierarquizado, ordenado, ainda que assaz imperfeitamente. Escrevíamos, na semana passada, sobre a crise de autoridade. Escrevemos hoje sobre suas imprevisíveis consequências.


Os próprios comunistas franceses estão vacilantes e desnorteados, sem saberem o que fazer de seus dogmatismos, de seus princípios, de suas estruturas que só podem funcionar à base da reconhecida autoridade dos chefes. O fato de usarem retratos de Mao Tsé-tung ou Guevara não prova que os agitadores são comunistas da linha chinesa, prova apenas que eles querem contrariar a ordem estabelecida, a tradição, e até o hemisfério. Poderá o fantástico personagem de opereta que dirige a França dominar o tumulto e restabelecer a ordem? Poderá o Partido Comunista apoderar-se do movimento, canalizar as energias e estabelecer a petrificada desordem marxista? Será concebível, nesta altura da história, uma França comunista? Por mim, não consigo admitir, aceitar essa ideia, por mais irritado que esteja pelas inépcias do atual Governo francês, e pelas correntes esquerdistas que estiveram, nos últimos anos, a difamar o Governo brasileiro. Le Monde bem merece um castigo pelo mal que fez, mas custa-me admitir que a França inteira, o mais belo país do mundo, mereça tal castigo. A semana próxima é imprevisível, mas em compensação é sobejamente explicável, com os elementos que temos da história passada, a crise de anarquia que ameaça o mundo. Há quatro séculos se avolumam no mundo ocidental as correntes que confluem hoje na erige de autoridade. São vários os fatores que trabalharam inequivocamente nessa direção, sendo apenas discutível a distribuição de quotas de responsabilidade.


O humanismo renascentista, pretendendo ser autônomo, concentrado no próprio homem, desligado de qualquer instância mais alta, foi um desses fatores. Na mesma época o protestantismo trazia não apenas a bofetada na Igreja, mas também, no plano cultural, as sementes do individualismo e do liberalismo.


A legítima aspiração de um Governo de maior participação se deixa levar pela corrente que chamamos democratismo, que tende a desvalorizar as estruturas hierárquicas e a apresentar como máxima perfeição o nivelamento pelo nível mais baixo. Juntemos a essas correntes a utopia do progresso necessário que valoriza as conquistas científicas e técnicas em detrimento das seculares conquistas da experiência política e moral. Surge no meio do século passado o marxismo, que é um paradoxo monstruoso ou um aleijão ideológico que solda no mesmo composto o mais brutal dogmatismo ao mais dissolvente anarquismo. O ideal utópico procurado é o da "administração das coisas em lugar do governo dos homens". Essa esperança perversa nasceu do ressentimento, que é o azoto da atmosfera de nossa civilização. Já escrevi longamente a esse respeito (Dois Amores Duas Cidades, AGIR), mas tornarei a dizer as mesmas coisas com outras palavras e outras ilustrações. O ressentido julga que a a autoridade e a obediência diminuem o homem, e conclui que só a si mesmo, aos seus humores, aos seus nervos, aos seus impulsos instintivos deva obedecer. O psicologismo derivado da ciência dos grandes psicólogos do século traz uma contribuição final: é dentro do próprio psiquismo que lutam, em instâncias antagônicas, o Pai e o Filho. E aí está a desordem em Paris como exemplo didático de todas essas considerações filosóficas.


O que se desencadeou é o espírito do anarquismo, da desobediência em estado puro. Os imbecis talvez encarem o fenômeno como um progresso, ou como um degrau da famosa marcha do mundo para a socialização, mas as pessoas que não se atolaram nos lugares-comuns inexpressivos, e que ainda pensam, e que ainda amam, choram hoje como choraram vinte e tantos anos atrás diante da notícia da queda de Paris.


Ouso dizer que a ameaça de hoje é terrivelmente mais grave do que a do nazismo, que na própria violência trazia um espírito de suicídio. E nós? Que repercussão terá no Brasil a desordem da Europa e depois dos Estados Unidos? Aqui já chegamos a uma situação em que os problemas de educação e ensino não são mais apenas imperativos de ascensão humana, fórmula de desenvolvimento, condição de segurança. Vou mais longe: a problemática da educação e cultura ganhou vulto de salvação nacional. E agora, como se não bastassem nossos embaraços, chegam-nos os péssimos exemplos de fora. Que fazer? Que precauções tomar? Creio que antes de tudo é preciso lembrar que os movimentos estudantis do Brasil não se somam, como na França, com movimentos operários: aqui, as desordens estudantis se somarão a desordens do clero dito progressista. Com esta convicção, eu pediria, eu suplicaria aos senhores bispos que suspendessem momentaneamente o zelo que demonstram pela pecuária, pela agricultura, pela economia, pela sociologia, zelo aliás nem sempre colocado em bases de boa informação, e cuidassem dos padres, e todos juntos se compenetrassem de que é outro o testemunho que o momento histórico está a pedir angustiosamente.


Sim, tenho medo de que os padres ditos progressistas (estranho progresso!) estejam a esfregar as mãos diante do noticiário que nos vem de Paris: agitações estudantis, ondas de jovens, de jovens, de jovens...


Todos nós já observamos que a regra geral dos pronunciamentos clericais reformistas de nosso tempo coloca toda a ênfase no reformismo e silencia misteriosamente o objeto, a direção, o claro objetivo de tais reformas. Pergunte o Governo aos senhores bispos o que eles querem mais exatamente quando assinam tais manifestos e terão sempre a resposta do mesmo silêncio. E por quê? Porque não sabem exatamente o que querem. Os padres progressistas também não sabem exatamente o que querem. Os instigadores da juventude disponível também não sabem o que desejam. O movimento estudantil francês também não sabe o que quer. Ou melhor, esses progressistas não sabem o que querem para o futuro, mas sabem perfeitissimamente o que querem em relação ao passado, ao Pai, à Igreja: querem romper. Em suas bandeiras deveriam bordar a ouro estas palavras: "NON SERVIAM".

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