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  • A Igreja na França

    Por Gustavo Corção, publicado n’O Globo em 24 de abril de 1971. QUARENTA anos atrás começava, ou melhor, ganhava corpo na França, a torrente revolucionária da esquerda católica. Pode-se dizer sem exagero que foi lá, desde o princípio do século, que começou ISTO que hoje nos enche de estupefação e tristeza. Estou terminando um livro onde procuro mostrar as várias correntes, as várias linhas-de-história que compõem o fenômeno que o Papa Paulo VI, num grito de angústia, chamou de Autodestruição da Igreja, e onde procuro evidenciar o triste, o diabólico papel da esquerda católica francesa, que aproveitou como pôde a infortunada crise da Action Française . HOJE podemos afiançar que está ainda na França o maior volume de apostasia e de revolta, a maior força de depravação e de corrupção da Fé; mas também — louvado seja Deus! é ainda na Franca, sempre viva e sempre católica, que se encontra a mais vigorosa, a mais ortodoxa, a mais inteligente e organizada defesa da Fé. COMECEMOS pelo pior. A crise religiosa na França, que exuma e amplifica todos os erros do "modernismo" combatido por Pio X, agrava-se com a adulterina ligação que entretém com a revolução anarquista e marxista. Mas o aspecto mais grave da crise religiosa na Franca consiste na conivência e até na iniciativa de um episcopado que quer ser mais jovem e mais anárquico do que os padres contestários. Colhemos alguns exemplos de decomposição da Fé enumerados pelo Pe. Louis Coache: a) Os novos métodos catequistas com suas "fichas catequéticas" que aconselham a não falar em Deus nos primeiros meses! b) O Batismo é um sinal que faz a pessoa tomar consciência da vida de filho de Deus; Na Eucaristia "os fiéis exprimem sua Fé a fim de que o Cristo esteja presente para eles"; o sacramento da Penitência é "sinal de reconciliação para aqueles que sentem a necessidade ". O MODERNISMO de 1970 é na realidade muito mais funesto que o do princípio do século, é mais profundo, mais extenso, agravado pelo conúbio com o marxismo, e superagravado com a promoção que lhe dão os bispos de França. "O OBJETIVO da Nova Igreja é o de tudo destruir; e já não sobra muita coisa intacta. Querem uma religião do homem, uma liturgia deísta a caminho de se tornar ateia (...) As instituições são assaltadas, seminários, conventos, congregações, tudo desmorona. Todo um patrimônio maravilhoso de vida religiosa e mística na presença de Deus tende a desaparecer. Eles só creem na presença do Mundo. E nossos bispos (na França) impassíveis ou entusiastas permitem tudo quando não são eles mesmos que promovem a demolição." EXEMPLOS de atos da Anti-Igreja de França comandada pelos seus Bispos: a) Advertência grave do Santo Ofício contra Teilhard em 1963. Os Bispos de França não movem um dedo para deter a maior onda publicitária do século. b) Encíclica Humanae Vitae . A Nota Pastoral dos bispos em Lourdes admite como lícito o que o Papa denuncia como expressamente proibido. c) Instrução pontifícia de 28 de maio de 69 sobre a Comunhão na boca . Na prática veem-se todos os abusos com o consentimento dos Bispos. E em alguns casos são eles que incentivam a comunhão na mão. EM RESUMO, a lei é transgredida a cada instante, a moral é desprezada e ridicularizada, o tesouro da Revolução é dilapidado. E a Conferência dos Bispos, que aliás não tem jurisdição canônica, impõe aos fiéis e aos padres o contrário do pensamento e da vontade da Santa Sé, pretendendo hipocritamente "interpretar" ou "precisar": e todo o mundo se inclina em nome da obediência. E AINDA há quem diga que tudo vai bem, que as renovações são admiráveis "apesar de alguns excessos". MAS nesse meio tempo desaparecem os seminários, ou são substituídos pelo que nós aqui chamaríamos de "aparelhos". Num constrangido e tímido depoimento ( La Croix 13 de março de 1970), o Cardeal Danielou diz seu "desgosto de ver os jovens entrarem cheios de fé e saírem com uma fé vacilante, abalada ou destruída pela formação recebida". Há 25 anos o Bispo de Vannes ordenava cerca de 40 padres por ano em seu seminário Hoje: zero. A PARÓQUIA também desaparece e é substituída por "equipes". Na revista Pelerin (tiragem de 500 mil!), o Pe. Gallay diz: "No que concerne ressurreição imediata depois da morte, penso que é óbvia... Para existir depois da morte o homem precisa de uma corporeidade qualquer, isto é, de um corpo espiritual que, por ser espiritual, não é menos real. Com efeito, um espirito humano sem um lugar, sem um corpo para se exprimir, é ideia derivada de um dualismo escolástico empobrecedor..." ESSE padre nega ostensivamente a doutrina católica em favor de uma espécie de espiritismo, que é um materialismo vaporizado. E esta brutal ofensa à Igreja é feita para 500 mil leitores. Os bispos não deram nenhum sinal de aflição. Na Rádio Luxemburgo o Pe. Jossua, professor do Saulchoir, negou a existência da graça, e riu-se da doutrina clássica. A hierarquia não se abalou. * * * E AGORA ponderemos uma coisa: é nessa parte corrompida do catolicismo francês que mais se multiplicam os ataques feitos ao Brasil. Essa campanha difamadora, para a qual leigos, padres e arcebispos brasileiros emprestam seu apoio, é honrosa para nós, e indicadora da irritação que produz, em meio dominado pela subversão, o exemplo de um grande País que soube repelir, e com a ajuda de Deus há de varrer a onda anarquista e comunista que devasta a civilização e ousa querer destruir a Igreja de Cristo. TUDO isto sem falar na Revolução anarco-comunista que se avoluma. Amigos chegados recentemente de Paris resumiram nestas palavras a aterradora impressão: "cheiro que lembra o nosso março de 1964". Resta saber o que fará " l'armée française ", mas os mesmos observadores dizem que, graças ao glorioso governo da " Place de l'Etoile, l'armée française n'eyiste plus ".

  • Resposta

    Por Gustavo Corção, publicado n’O Globo em 17 de junho de 1971 LEIO n'O GLOBO de 5 do corrente esta carta de D. Ivo Lorscheider dirigida ao Sr. Cândido Mendes de Almeida: "Exatamente no dia em que V. regressa de uma laboriosa e fecunda viagem à Europa tenho o desprazer de vê-lo atacado despudoradamente em alguns órgãos da imprensa por um conhecido colunista católico. Obviamente não é o caso de refutar as costumeiras e facciosas investidas contra o Papa e contra a CNBB. Mas não quero deixar de reafirmar a V. toda minha confiança e meu profundo reconhecimento por aquilo que V. representa para o ensino e a cultura desta cidade, para o trabalho de assessoria da CNBB, para a Comissão Brasileira de Justiça e Paz, para numerosos Organismos e Movimentos Internacionais. Sua rara competência e sua edificante dedicação merecem a admiração de todos os homens de boa-vontade. Receba neste ensejo, prezado amigo, o meu abraço de integral solidariedade." — (a) Dom Ivo Lorscheider, Secretário-Geral da CNBB." * * * AGORA respondo eu: o “conhecido colunista católico" sou eu. Fui eu que manifestei o desagrado e a tristeza de ver a indicação do Sr. Cândido Mendes de Almeida para a elaboração de um roteiro para os trabalhos da CNBB relativos à "Justiça no Mundo". E antes de explicar as razões de meu protesto gostaria de entender por que é que Dom Ivo Lorscheider o qualifica de "despudorado". Gostaria também de saber se Dom Ivo Lorscheider, como Secretário-Geral da CNBB, tem poderes e delegação para escrever e publicar em nome da CNBB cartas polêmicas e agressivas como a que transcrevi. E desde já aproveito o ensejo para dizer que minhas queixas da... CNBB, que bem quisera nunca ser compelido por dever de consciência a formular, são sempre motivadas por episódios deste tipo, onde se vê claramente que um pequeno grupo ou até um só pratica um ato que claramente se configura como exorbitação de competência, ou como abuso de confiança. NO CASO presente, por ex., não estou respondendo à CNBB, estou apenas respondendo à agressão recebida de Dom Ivo Lorscheider, que, no afã de defender o Secretário da famosa Comissão de Justiça e Paz, usa ou abusa da... CNBB (desde o título do tópico distribuído aos jornais "pela CNBB") para classificar de "despudorada" a minha "investida" contra o Sr. Cândido Mendes de Almeida. RESPONDENDO ainda a Dom Ivo Lorscheider (e não à CNBB) digo que é falsa e caluniosa sua afirmação de que faço "costumeiras e facciosas investidas contra o Papa". Aponte-me uma só passagem de um só artigo onde eu tenha "investido contra o Papa". Tenho realmente criticado atos e pronunciamentos de personagens eclesiásticos, todos eles evidentemente ligados à Hierarquia e, portanto, ao Papa, mas nunca escrevi nenhuma "investida contra o Papa", a não ser na imaginação ou na memória infiel de quem me acusa. Insisto em protestar contra a caluniosa imputação formulada por Dom Ivo Lorscheider e mal atenuada pelo fato de não ter escrito meu nome com todas as letras, til e cedilha. COM a franqueza pós-conciliar, que costumo usar, não hesito nunca em dar os nomes às coisas, aos bois e às pessoas. No meio de tantos "aggionarmentos" permitam-me este do sim-sim, não-não, ou do pão-pão, queijo-queijo. E VAMOS ao queijo, isto é, ao Sr. Cândido Mendes de Almeida, de quem só disse, no citado artigo, que é um falso valor, ou um "Pacheco" do Eça de Queiroz. Direi hoje mais alguma coisa para reavivar as memórias. Dom Ivo Lorscheider nunca soube talvez, ou já esqueceu o papel destacado que o Senhor Cândido Mendes de Almeida teve no grupo do famigerado ISEB dirigido por Roland Corbisier e ativado por notórios comunistas como o Coronel Nélson Werneck Sodré, o Professor Vieira Pinto, e outros. O Sr. Cândido Mendes de Almeida teve nesse tempo atuação na PUC onde rivalizava com o Padre Vaz na tarefa de mistificar os moços e na de transformar em comunistas as moças de melhores famílias egressas dos melhores colégios católicos (hoje desmoronados ou degradados). Convém também lembrar a atuação do mesmo personagem no Metropolitano , órgão oficial da agitação estudantil da UNE entregue aos comunistas. Várias vezes o Professor Cândido Mendes de Almeida contribuiu para a algaravia comunista com suas impenetráveis reflexões que a muitos néscios devem dar uma impressão de insondável profundidade. O Secretário Geral da CNBB talvez não se lembre bem do que acontecia no ISEB e no MEC entregue ao Sr. Paulo de Tarso, porque nesse tempo estava no Sul assistindo ao desmoronamento do Seminário do Viamão também tomado de assalto pelos comunistas. Eu tenho lembrança nítida das eleições em que os seminaristas apoiaram em bloco os comunistas, como tenho lembrança das muitas cartas que recebia de mães de seminaristas. Dom Ivo Lorscheider talvez não se lembre da grosseira agressão feita a Dom Jaime Câmara em fins de abril de 1961 pelo ISEB. Em repulsa a tão insólita agressão do companheiro do Sr. Cândido Mendes de Almeida, falaram na Assembleia Legislativa o Deputado Gladstone Chaves de Melo e o Deputado Raul Brunini. Falando como líder da Maioria, o Sr. Afonso Arinos Filho também revidou energicamente as agressões feitas ao Cardeal-Arcebispo do Rio de Janeiro pelo líder da esquerda isebiana. O MOVIMENTO de 64 dispersou o ISEB e cassou os direitos de todos os seus membros, com uma só exceção: o Sr. Cândido Mendes de Almeida, graças a sua conhecidíssima maleabilidade, escorregou entre os dedos da Revolução de 64, e à sombra do nome vegetou algum tempo. SUA nova chance de carreirismo surgiu com o progresso vertiginoso da Esquerda Católica, ou, como diz Paulo VI, com a autodestruição da Igreja. E com esse "progresso" do sofrimento da Igreja, e da infiltração comunista sem freios, o Sr. Cândido Mendes de Almeida se achou num pique seguro e confortável. Pode ser nomeado ao lado de D. Branca Melo Franco Alves, Exma. Sra. mãe do famigerado Marcito, para representar o Laicato Católico na Assembleia da CNBB, Brasília, 1970. Agora temo-lo na Comissão de Justiça e Paz , onde novamente se cruza com D. Branca Melo Franco Alves, que integrou uma "União da Senhoras Brasileiras" portadoras de farto material para a campanha contra o Brasil. D. Branca Melo Franco Alves, que é a pessoa mais aparentada do Brasil, também, se destacou pela entrevista dada aos jornais, com foto e manchete, na qual contestava a Humanae Vitae , com grande desembaraço. Nessa mesma comissão de Justiça e Paz figuram Alceu Amoroso Lima, mutacionado em socialista-com-liberdade, e D. Marina Bandeira, militante do I-DOC, que não esconde suas convicções comunistas nem disfarça muito suas atividades. E AÍ ESTÁ. Tendo eu a límpida evidência do papel que todos esses personagens representam na promoção da anti-Igreja, e estando eu ainda com a caneta na mão até o dia e a hora marcada por Deus, sinto-me na obrigação de lutar contra eles. “Quem põe a mão no arado, e olha para trás, não é digno do reino de Deus." (Luc. 9, 62). * * * AS CONVICÇÕES de Dom Ivo Lorscheider diferem sensivelmente das minhas. Certamente para ele o Seminário de Viamão progrediu e produziu frutos excelentes; certamente, pelo que se lê na carta transcrita acima, para Dom Ivo Lorscheider o Sr. Cândido Mendes de Almeida, em vez de ser um carreirista e um falso valor, é uma coluna da Igreja; D. Branca será outra, D. Marina Fiandeira, outra; e o pobre autor destas mal traçadas linhas não passa de um "despudorado" oficialmente desqualificado pela CNBB. TAMBÉM diferem das minhas as apreciações que D. Ivo Lorscheider fez da Humanae Vitae , e que estão no JB [Jornal do Brasil] de 17/08/68, 1º cad., pág. 7. Ei-las: "O Secretário-geral da CNBB, Dom Ivo Lorscheider, manifestou-se ontem favorável à pílula anticoncepcional "PORQUE SE DEVEMOS LEALDADE AO PAPA DEVEMO-LA TAMBÉM AO POVO DE DEUS." JAMAIS em meus artigos encontrará o leitor tão desembaraçada "investida" contra a autoridade do Sumo Pontífice. Dom Ivo, seguindo a tendência democratizante da anti-Igreja, nivela o Papa com o povo de Deus, reduz toda a obediência a uma "lealdade", e será capaz de dizer que não investe contra o Papa já que o trata lealmente como um qualquer membro da Igreja. E o que nos dói de modo particularmente agudo é a desenvoltura com que, em cada opinião emitida por este ou aquele eclesiástico, é envolvida a... CNBB inteira. E depois eles vêm dizer, mais uma vez em nome da CNBB, que sou eu quem despudoradamente faz costumeiras e facciosas investidas contra a... CNBB e contra o Papa. O leitor de bom-senso decidirá quem é que efetivamente maltrata a CNBB e desacata o Papa.

  • Santa Catarina de Sena

    Por Gustavo Corção, publicado n’O Globo em 02 de maio de 1974 ANTES DO FURACÃO pós-conciliar, a Igreja comemorava em 30 de abril a data do nascimento no céu de Catarina de Sena que, nos tempos tormentosos do grande cisma do Ocidente, quando os papas eram exemplos de fraqueza, foi ao contrário um exemplo de santidade. Nas terras de Itália daqueles dias de obscuridades e fraquezas, foi um sulco, um risco de fogo, um jato de sangue. Um século antes de Jeanne d'Arc, Catarina Bennicasa, 25ª filha de um tintureiro de Sena, iluminava a história do heroísmo cristão representando na graça do sexo dito frágil maravilhoso modelo de Força. Não deixa de ser gracioso paradoxo essa escolha que Deus faz de tais flores para nos serem exemplo de bravura, resistência, coragem até os mais altos graus de heroísmo. Nossos grandes atletas, nossos grandes soldados, nossos grandes heróis foram meninas e moças, lírios transformados em louças, virgens integradas em guerreiros. EM CATARINA DE SENA esse contraste glorioso não se exprimiu apenas num só ato fulgurante de testemunho, como Perpétua quando se ergueu no meio do circo romano com a túnica dos mártires, ereta, frágil, invencível, "matrone du Christ, mignone de Dieu", nem se traduziu em gloriosos combates para enfrentar os inimigos da pátria e os mais pérfidos inimigos da Igreja como Jeanne d'Arc. O testemunho da Força cristã foi durante toda a vida de Catarina empregado no cuidado constante de encorajar os padres tíbios de incitar ao combate os bispos pusilânimes, de denunciar os pérfidos como "demônios encarnados", e junto a dois papas indecisos e fracos foi zelo quotidiano de ensinar a serem homens. Seu diretor espiritual, Frei Raymundo Capua, nessa direção da coragem foi sempre seu discípulo maternalmente dirigido e revigorado. A virgem senense, que aos 21 anos celebrou as bodas místicas com Jesus, passando desde então da fase virginal à fase maternal e fecunda de sua extraordinária vida, coube a missão de difundir coragem, de revigorar os ânimos, de despertar o brio das almas cristãs amolecidas. Seus mais notáveis milagres foram vitórias sobre covardias de papas, de religiosos, de leigos. Transfusora do Sangue vivo da Salvação, ela reerguia os vencidos, os medrosos, e trazia sempre em seus conselhos a cor viva do Sangue. Dificilmente escrevia duas linhas nas milhares de cartas sem que jorrasse a palavra Sangue. FOI UMA MENINA pobre, 25ª filha de um homem simples e de uma boa italiana que ao cabo de muito falatório converteu-se em sua filha e passou a dar-lhe o nome de Mama Caterina que a moça de 24 anos recebia com toda a naturalidade da fileira de gente de todas as idades e condições sociais que não a largava dia e noite. Vale a pena ler e reler histórias, anedotas, fioretti de Santa Catarina de Sena para reaprender a ser gente, coisa que dia a dia vai se tornando difícil no bravo mundo moderno, e penoso no moderno mundo católico. O QUE NOS FALTA hoje, depois do furacão pós-conciliar, é a presença viva e catalisadora da santidade que comece por realizar o primeiro milagre de acesso ao Vaticano, que em nossos tempos tem sido regularmente bloqueado a qualquer clarão que de longe lembre o rubro vivo do Sangue de Santa Catarina de Sena. Vivemos uma época de desfibrados, de emasculados, e de convertidos ao culto duma espécie de pacifismo que consiste essencialmente no horror ao combate, sobretudo se na razão desse combate se entrevê algo de elevado e de heroico. São Catarinas como a de Sena que nos fazem falta hoje em Roma, e no resto do mundo. TRAGO NESTAS LINHAS minha contribuição anual de uma devoção que anos atrás me unia aos frades do Convento Dominicano do Leme, que mais de uma vez me convidavam para lhes dizer minha veneração pela grande "mantellata". Passaram-se os anos. Muitos daqueles frades passaram. Evoluíram. Estão a convergir para o "ponto ômega" ou, como tanto dizia Catarina de Sena, estão ocupados em comer o próprio vômito. Os que resistem, os que sofrem, os que permanecem, não terão coragem de falar em Catarina de Sena, porque lhes falta a própria Catarina, viva, ereta, eloquente, a lhes ensinar a serem homens. A última notícia relativa a Santa Catarina de Sena, vinda de dominicanas, que me chegou às mãos, foi uma carta escrita por uma religiosa brasileira de um convento na Itália. Foi há cerca de oito ou dez anos. Eu escrevera contando a história do jovem Tuldo, cuja cabeça decepada Catarina recebe no regaço elevando ao céu um grito de quem tem direito de reclamar do Esposo a recíproca de seu amor: Io voglio! ESSA HISTÓRIA de fim de idade média, história de santidade e de sangue, chegou-me de Itália comentada por uma religiosa moderna que tentava dizer frases irônicas de minha devoção. Admirava-se a jovem moderna dominicana que eu, tão estudioso, não tivesse compreendido o fundo de paranoia visível naquele "lo voglio!". Essa religiosa assinava nitidamente a sua carta, e então eu pude ver com assombro que a pobre pateta, num instante de evidente assomo paranoico, tivera anos atrás a coragem de escolher para a vida religiosa este nome que hoje a esmagava: Catarina de Sena.

  • Carta de Broadstairs - Nº 02

    Nova et vetera (Mat. 13, 52) O Padre Emmanuel (1826 – 1903) re-cristianizou sua pequena aldeia francesa de Mesnil-Saint-Loup numa época em que a maçonaria trabalhava intensamente para implementar a revolução, mesmo nos cantos mais remotos do país. Ele chegou até a fundar um pequeno mosteiro ao lado de sua igreja paroquial, para que seu ministério, que durou 54 anos, fosse o mais frutífero possível. As armas preferidas dos maçons eram as modas, a opinião pública e a política partidária — contra as quais ele resistiu com coragem. Homem de inteligência e estudo, imerso nas obras de São Tomás de Aquino, ele publicou em seu boletim paroquial Notre-Dame de la Sainte Espérance , de 1883 a 1886, uma série de artigos de estudo sobre a história da Igreja. Estava convencido de que cada alma precisava ser mergulhada em todas as verdades, pois essa é a obra do Espírito Santo na alma. A última parte dessa obra trata do Drama do fim dos tempos  e está em harmonia com os escritos de outros eclesiásticos notáveis da época, como Monsenhor Gaume e Monsenhor de Ségur. Falar sobre o fim dos tempos hoje parece ser algo reservado às seitas ou aos filmes sensacionalistas, mas, como esse tema é tratado várias vezes nas Sagradas Escrituras, é importante que sejamos instruídos sobre a segunda vinda de Cristo e a desolação que a precederá. Como afirma o próprio autor: “Não temos a intenção de assustar ninguém ao tratar deste assunto. Pelo contrário, os grandes ensinamentos vêm acompanhados de grandes consolações.” Os erros do tempo presente e a aceleração de sua aplicação devem nos levar a refletir seriamente sobre esse tema antes que o Anticristo entre em cena no palco mundial. Adiar essa reflexão seria imitar a atitude dos contemporâneos de Noé, que não estavam preparados para o dilúvio. Evitar esse tema é colocar-se em perigo. Também é perigoso não compreender o significado dos acontecimentos dos quais somos testemunhas e dos que ainda enfrentaremos no tempo devido. Há ainda o risco de escandalizar-se diante do aparente triunfo do mal, de perder a fé em Cristo e de deixar de observar os Mandamentos diante da crise apocalíptica. A introdução trata do futuro da Igreja , após as considerações anteriores sobre seu passado e seu presente. Deus Todo-Poderoso quis que o destino da Igreja e de Seu Divino Filho fosse descrito antecipadamente nas Sagradas Escrituras — e é lá que estão os documentos sobre esse assunto. A Igreja deve, antes de tudo, assemelhar-se a Nosso Senhor e, por isso, antes do fim do mundo, ela passará por uma Paixão suprema que manifestará seu imenso amor por seu Divino Esposo. É certamente um espetáculo triste ver a humanidade, seduzida e invadida pelo espírito do mal, tentando sufocar e destruir a Igreja — sua mãe e guardiã divina. Enquanto os homens trabalham para esse fim na terra, são guiados por forças que não são deste mundo. É a fé que nos permite compreender os acontecimentos da história e ver como o espírito impuro tenta constantemente entrar na casa da qual Nosso Senhor o expulsou. No fim, ele entrará e tentará eliminar Nosso Senhor. Então os véus se rasgarão, e o sobrenatural se manifestará num drama exclusivamente religioso que envolverá todo o mundo — e no qual o caráter divino da Igreja se revelará de modo maravilhoso. Todas essas profecias têm por objetivo fortalecer a alma dos fiéis  nos dias de grande provação: “Vigiai e orai para que sejais tidos por dignos de escapar de todas essas coisas que hão de acontecer, para que não entreis em tentação, para que conserveis a fé, para que não adormeçais, mas para que possais estar de pé diante do Filho do homem” (Mateus 26; Lucas 21). Se o mal estará, então, solto por toda parte, ao mesmo tempo estará mais do que nunca nas mãos de Deus. Assim como Nosso Senhor foi entregue nas mãos de Seus inimigos, mas sem que nenhum osso lhe fosse quebrado , o mesmo acontecerá com os membros da Igreja — os eleitos, os verdadeiramente humildes — por amor aos quais os dias da provação serão abreviados. O tempo da provação terminará com um grande triunfo da Igreja , comparável a uma ressurreição. Naqueles dias, entre os prelúdios da crise suprema, todas as nações se converterão, assim como os judeus — seja antes, seja durante a vitória da Igreja. Assim, se aplicam à Igreja as palavras do salmo: “Depois da multidão de aflições que encheram meu coração, Vossas consolações, Senhor, alegraram minha alma.”

  • As três imagens

    Por Gustavo Corção, publicado n’O Globo em 05 de junho de 1971   AFASTADA a figura, digo melhor, a caricatura progressista que nos apresenta uma Igreja caduca e esclerosada, outras imagens e alegorias se propõem para representar a situação Igreja-Mundo de nosso tempo. Uma delas, de que todos já nos valemos em várias ocasiões, é a do "Cavalo de Tróia", lançada por Dietrich von Hildebrand. Tempos atrás, a propósito do desastrado tópico VII da Introdução ao Novo Ordo , escrevi artigos que pareceram descabidos e irreverentes aos que não compreenderam que minhas apóstrofes se dirigiam ao Cavalo e não à Igreja. É claro que, em tempos normais, essa alegoria, e o uso que dela fiz, eram desaconselhados, e efetivamente feriam a prudência, mas a singularidade e a gravidade dos tempos que correm reside precisamente na existência de um cisma que não é cisma, ou na intromissão de um corpo estranho e inassimilável na Cidade de Deus, reside em suma numa impressão de dupla personalidade que (se possível fora) afetaria a própria unidade da Igreja. E o fiel atento, lúcido e amorosamente submisso à Igreja, fica sem saber, às vezes, se tal ou qual pronunciamento é relincho do Cavalo, ou verdadeiro conselho da Mãe e Mestra. N0 CASO do famigerado ponto VII, qualquer católico alfabetizado e atento logo percebeu o embuste; mas infelizmente não são raras as situações equívocas, confusas, que dão vertigens, e que nos privam dos tradicionais recursos com que, durante vinte séculos, se valeram os católicos para descobrir as verdadeiras pegadas de Jesus, e para segui-las. Mas a imagem do corpo estranho e adverso dentro da Igreja tem o defeito de não resguardar a absoluta impenetrabilidade que o núcleo, o centro, o "dentro" da Igreja oferece aos seus inimigos, que lhe são sempre exteriores. A Igreja, no sentido próprio do termo, é una  e santa . Admite em seu divino núcleo os membros fiéis, justos e pecadores; mas não admite os infiéis heréticos que, embora ainda pretendendo usar o nome de Jesus, não usam seu Sangue, sua Doutrina, como Ele a deixou sob a custódia da Igreja; e muito menos admite os infiéis apóstatas que se afastaram dos Dogmas e dos Mandamentos para viverem suas próprias leis. A FIGURA que hoje temos diante dos olhos é a de uma Igreja circundada de inimigos orbitais, heréticos e apóstatas, que já não pertencem à Igreja, mas aparecem ligadas a Ela para efeitos publicitários e para confusão do mundo. Santo Tomás, com meridiana claridade (S. T. IIa IIae, q. 11, a. 3) diz que a heresia não deve ser tolerada: "Depois da primeira e segunda advertências, como ensina o apóstolo, a Igreja não pode mais esperar, em atenção à salvação dos outros, e deve excomungar o herético." E nós tornamos a dizer: essa severidade é um ato de mãe, um ato de amor pelos fiéis que seriam arrastados na perdição, e ato de amor para o próprio excomungado que assim, entregue ao mundo, irá comer bolota com os porcos, e terá saudades da casa do Pai. A CONFUSÃO que turva a figura da Igreja vem de um enfraquecimento do exercício da autoridade que tolera demais, tolera indefinidamente as mais agressivas e insolentes infidelidades. E até os apóstatas, que por sua própria tendência se afastam de Deus e da Igreja, permanecem indefinidamente em situação orbital, em torno da Igreja, para ainda mais escurecer e caricaturar sua face. Por uma estranha e pervertida paixão, bem característica de nossos tempos, os apóstatas e heréticos não se contentam com a infidelidade própria que os encastela no individual orgulho, e querem numerosa companhia, querem "comunidade", querem "passeata", como se pudesse haver comunhão onde comanda o orgulho. Esses infelizes já se esqueceram que, no itinerário que seguem, há legião, mas não há comunhão. A FIGURA deformada e irreconhecível do mais belo dos filhos do homem foi apontada por seu carrasco: "ecce homo". A Igreja também é flagelada e agoniza até o fim do mundo. Não são as chagas que lhe fazemos, nós mesmos que a sobrecarregamos com a tristeza infinita de não sermos santos, não são nossos pecados que a desfiguram, que a mascaram, que a tornam irreconhecível. Tudo isto compõe a imagem da mãe-dolorosa, que misteriosamente completa o que Cristo deixou por completar em sua Paixão. Tudo isto é normal dentro da tragédia divino-humana. O gemido, o sangue e a enfermidade são normais na Casa de Saúde, na Santa Casa da Misericórdia de Deus. O que ultrapassa os limites da Paixão e nos deixa entrever uma intromissão diabólica é esta situação em que a própria fisionomia da mãe flagelada nos aparece com deformações caricaturais que causam repulsa e pavor.   NÃO está apenas invadida e filtrada a Igreja de Cristo: está cercada, encoberta, fuliginosamente eclipsada para que as almas aflitas não vejam mais sua santa visibilidade. E já que a Igreja da Terra, por seus próprios levitas deixou de ser militante, para ser dialogante, marchante ou dançante, invoquemos nós os militantes do Céu, os santos anjos, comandados por São Miguel, poderosíssimo Príncipe dos exércitos do Senhor. *** NESSE meio tempo, torno a dizer, a legião de todos os demônios está interessada em sugerir ideias de tolerância, de complacência, de negligência, de indiferença — tudo isto adornado com nomes pomposos — porque é nesse oceano de amolecimentos que o naufrágio será maior. *** POR tudo isto estou convencido de que nosso tempo está sedento de uma espiritualidade forte de combate. Mas essa espiritualidade pode assumir dois aspectos, ao sabor de cada vocação. Para uns a luta será diretamente voltada, com dardos e chamas, contra os inimigos; para outros a luta tem a forma secreta e interior de agonia e de sofrimento. Esses se oferecerão como vítimas propiciatórias; aqueles exporão às flechas o coração de soldados de Cristo. E creio ouvir um rumor de preparos festivos, de esperanças viris, provocados por essa mobilização geral dos exércitos do Senhor.

  • Nova edição de Vencedores e Vencidos, de S.E.R. Dom Tomás de Aquino

    Após o esgotamento completo da primeira edição, lançamos a segunda edição da obra Vencedores e Vencidos , de autoria de S.E.R. Dom Tomás de Aquino. Nesta autobiografia, D. Tomás analisa as realizações e os perfis de doze grandes personalidades ligadas ao movimento de resistência ao Concílio Vaticano II, fazendo-o de forma única através de uma perspectiva pessoal baseada em fatos densamente documentados. A visão impressa por nosso superior religioso é aquela de quem observou de perto, na França e no Brasil, os desdobramentos deste árduo combate iniciado de dentro do Concílio Vaticano II: basta recordar que S.E.R. Dom Marcel Lefebvre e Dom Castro Mayer participaram daquilo que mais tarde chamarão de "Terceira Guerra Mundial". Não menos importante, os anexos deste livro trazem, de forma inédita, documentos fundamentais de portadores como a Santa Sé e D. Marcel Lefebvre dirigidos ao Mosteiro da Santa Cruz. Através deles, o leitor poderá tomar ciência da importância desta pequena casa religiosa, encravada nas montanhas de Nova Friburgo, perante o universo católico, bem como da obra seminal de D. Lefebvre e D. Castro perante a história da Santa Igreja no século XX. CARACTERÍSTICAS DO LIVRO: Capa dura 195 Páginas Papel Avena 80g 2ª Edição (2025) Valor promocional de 2022 mantido por tempo limitado. Adquira o seu exemplar clicando no link:  https://livrariasantacruz.com/vencedores-e-vencidos/p

  • O BRASIL E "LE MONDE"

    Por Gustavo Corção, publicado n’O Globo em 19 de junho de 1971 RECEBI um curioso recorte de Le Monde datado de 27 de março e referente, como de costume, às torturas praticadas no Brasil. Desta vez a testemunha, ou melhor, a acusadora é uma advogada brasileira, D. Anita de Carvalho, que diz horrores da completa arbitrariedade do sistema penal existente no Brasil, onde a Justiça está inteiramente corrompida e qualquer pessoa é presa por qualquer denúncia. "Alguns procuradores — diz D. Anita de Carvalho a Le Monde — sabem muito bem e às vezes reconhecem diante de nós (...) que eles acusam e levam inocentes à condenação. Mas a Justiça está totalmente corrompida no Brasil." ATÉ aqui não vemos nada de especialmente curioso e original. D. Anita de Carvalho certamente já encaminhou a mesma história à Comissão Pontifícia de Justiça e Paz , que, como todos sabemos, é o reduto da festiva esquerda católica e o repositório de todas as queixas de todos os marcitos alves contra o Brasil. Onde, neste recorte, se encontra matéria nova para um fugaz divertimento é no tópico em que D. Anita diz que, tendo compreendido que a Justiça no regime militar do Brasil é uma farsa, conclui que não mais poderia exercer seu ofício, e então "deixou marido e filhos em São Paulo para ir à Europa e correr mundo a fim de dar seu testemunho sobre o regime que fabrica leis para uso externo, leis que ele mesmo todos os dias viola." RECEIO que meu distraído ou sonolento leitor não tenha apreciado o sabor picante desse testemunho de D. Anita de Carvalho. Ela diz que deixou marido e filhos em São Paulo exatamente no mesmo tom que diria tê-los deixado na Suíça. Esquece-se que está apontando ao mundo um pobre grande país entregue a facções cruéis e arbitrárias, como estavam os judeus na Alemanha Nazista, e como estão todos na União Soviética, e, com a maior naturalidade, diz que vai correr mundo, para dar seu testemunho, e com naturalidade ainda mais assombrosa diz a Le Monde que deixou marido e filhos em São Paulo. IRRESISTIVELMENTE veio-me à memória uma cena de Conde e Barão representada há cerca de mil anos pelo inesquecível Chaby, onde o novo-rico, ontem vendeiro e hoje Conde e Barão, diz cerimoniosamente a uma senhora distintíssima da qual queria divergir: "Homem, parece-me que a senhora está bêbada:" ESSA D. Anita de Carvalho parece-me que não está em seu juízo perfeito; ou então, como diziam minhas tias, também de mil anos atrás, essa D. Anita é esposa e mãe desnaturada. COISA comparada com esse testemunho de Dona Anita, só conheço os artigos em que Tristão de Athayde regularmente escreve contra o Governo brasileiro para provar aos povos das quatro rosas dos ventos que, no Brasil, não se pode escrever artigos contra o Governo. AGORA o colunista do JB está vivendo um momento de grande expectativa: está ansiosamente desejando que a "experiência Allende" do Chile dê os esperados frutos. E o colunista, num minuto de abatimento, chega a entrever a possibilidade de um fracasso da experiência Allende e logo acrescenta que tal coisa será um desastre para a América Latina, porque, a seu ver, a melhor ou última esperança da América Latina está num socialismo marxista-com-liberdade, coisa que me soa como um socialismo à milanesa. NESSE meio tempo um jornalista francês, admiradíssimo, descobre que Cuba fracassou. Toda a varredura, ou a borra do canalhismo da intelligentzia francesa, com Jean-Paul Sartre (o nauseabundo) à frente, anos atrás dizia da experiência cubana os mesmos delirantes disparates que Tristão de Athayde diz hoje da "experiência" chilena. E A IMPRESSÃO penosa que colhemos de toda essa algaravia de clérigos e "intelectuais" é a de estarmos vivendo num tempo essencialmente e visceralmente indócil. Sim, nosso fim de século tem essa marca sinistra de uma estupidez obsessiva e granítica. O mundo pagou para ver o socialismo, pagou com duas guerras. Na União Soviética, além das perdas da guerra, os russos pagaram para ver e sofreram, com a NEP e a Reforma Agrária, e as sucessivas "experiências", uma perda que se avalia em cerca de 100 milhões de vidas. Até hoje a URSS ainda é um enorme campo de concentração. Mas conseguiu, graças a uma concentração de verbas num setor da cultura, progressos quase iguais aos dos Estados Unidos na astronáutica — e em mais nada. Não conseguiu até hoje resolver satisfatoriamente o problema da produtividade agrícola; não conseguiu realizar a terça parte do que fazem os canadenses e os neozelandeses; não conseguiu no seu imenso território de vinte milhões de quilômetros quadrados resolver a socialização agrícola; não conseguiu o modesto ideal chestertoniano de "três alqueires e uma vaca" para cada família socialista: mas parece que vai conseguir colocar uma vaca em três metros quadrados de uma estação interplanetária. ORA, diante de todos esses fracassos do socialismo, tantas vezes condenado pela Igreja e há mais de cem anos repelido por católicos lúcidos e virtuosos, como Ozanam e Donoso Cortez, diante do malogro sucessivo de todas as experiências socialistas , um século hemiplégico e esclerosado insiste em esperar um socialismo novo, com liberdade; ou insiste em se decepcionar diante dos malogros. O velho professor, que passou a vida inteira empenhado na belíssima aventura de acender lumes de entendimento e flashes de evidências provadas nas inteligências que a ele recorriam, tem a dolorosa impressão de viver agora num século que ainda aprende a mexer com as moléculas, os átomos e os corpúsculos infra-atômicos, mas emperradamente, obstinadamente nada pode ou quer aprender do mundo e da vida. E PARA maior tristeza e vergonha nossa é no meio de um povo farto de dons de Deus, cercado de pretensões doutrinais, norteado há vinte séculos por toda uma Conferência-Universal de santos papas e santos doutores, é nesse povo escolhido, nessa multidão de homens e mulheres mais insistentemente chamados, que vemos surgir uma sub-raça de obstinados indóceis que ainda esperam alguma coisa dos Allende, dos Tupamaros, e de outros estrumes do século.

  • DESAGRAVO

    Por Gustavo Corção, publicado n’o Globo em 05 de agosto de 1971 A SEMANA atrasada o hebdomadário O Pasquim apareceu nas bancas ostentando na capa uma figura convencional de Jesus Cristo, e em letras garrafais o anúncio: Jesus é a Salvação. Mas logo na página 2 descobre-se a chave da pilhéria. Ao lado de outra figura convencional anuncia-se que o humour deve ter nascido da graça divina. E à esquerda, abaixo, lê-se uma entrevista com o Padre Ítalo Coelho sobre o movimento "turn on to Jesus", surgido nos Estados Unidos entre "hippies". O Pasquim pergunta: "A revolução com Jesus pode ser levada a sério?" E o Padre Ítalo, agachado, responde com todo respeito (pelo O Pasquim): "Acho que ela encerra algo de existencial muito profundo (...). Acho que esse novo encontro com Jesus é a única busca válida " (grifo nosso). ESTAMOS no nível da sarjeta. Na página 3 temos um convencional e fingido respeito para desnortear os padres e bispos da anti-Igreja. Nas páginas 6 e 7 temos uma entrevista de Rogéria anunciando que suas (dela? dêle?) memórias de alcova abalariam o Brasil. Este "Rogéria" é um travesti destinado a inculcar na mente dos moços brasileiros a ideia de que a pederastia é uma atitude "válida" como diria o Padre Ítalo. O redator de O Pasquim , de passagem, explica que Rogéria(o) é apenas "um garoto que trabalha para ajudar a família". NA PÁGINA 10 novamente encontramos o mesmo truque: ao lado de uma figura convencional outra de escárnio sobre Jesus e seus discípulos. Na página 15 prepara-se a blasfêmia contra a Ceia do Senhor. Nas páginas 18 e 19 temos finalmente o "Pif-Paf" de Millor Fernandes sobre a Ceia do Senhor. E a explicação da Graça Divina: "Cristo, no meio da refeição, diz alguma coisa irresistível e todos os apóstolos caem na mais desbragada gargalhada." Quero ainda crer que Millor Fernandes não sabe que na Santa Ceia Jesus anunciou a sua Paixão e celebrou antecipadamente o sacrifício de seu corpo e seu sangue, derramado para nossa redenção. NESTE ponto, recusando-me a acompanhar as intenções dos humoristas de O Pasquim , que já resvalavam para os esgotos, perdi-me em perplexidades. Ora parecia-me que não devia tomar conhecimento do fenômeno; ora parecia-me inadmissível deixar tamanho agravo sem nenhum protesto. No começo do século um personagem de Chesterton em A Esfera e a Cruz , quebra a bengaladas as vidraças do jornal que ofendia Nossa Senhora. Na Action Française , como "camelot du Roi", antes de espancar meio mundo com a pena, Bernanos usou generosamente a bengala. Mas os tempos passaram, a bengala saiu de moda, como estão saindo o pudor, o caráter e o respeito. E eu mesmo, que há 50 anos fui esgrimista, só posso hoje gemer com o alexandrino de Corneille: "Ó rage, ó desespoir, ó vieillesse ennemie." ESTAVA nesse estado de espírito, imaginando um apelo patético aos autores da torpeza, no qual lhes pediria que evocassem um ser amado e venerado vivo ou morto, sombra de mãe a desvanecer-se na memória, ou figura em flor de criança inocente a nos pedir a forma mais profunda de respeito; estava eu quase a pedir-lhes, a rogar-lhes, a suplicar-lhes que se detivessem numa linha divisória, que tirassem as sandálias antes de pisar um chão sagrado, quando me ocorreu um versículo do Novo Testamento relativo a pérolas e a porcos. Imaginei então dirigir um apelo às autoridades eclesiásticas, e estava a imaginar os termos quando vi na última página esta INACREDITÁVEL declaração: Todo o material publicado neste número de O PASQUIM sobre a redescoberta de Jesus Cristo pela juventude de nosso tempo — fenômeno que a Igreja Católica está estudando com o maior cuidado — foi lido pelas Autoridades Eclesiásticas da Guanabara e considerado matéria jornalística que não atenta contra os princípios cristãos de nosso povo. J. A. de Castro Pinto Rio. 19/7/71. Bispo Auxiliar do Rio de Janeiro. VEJO então que O Pasquim tem assistente eclesiástico, e nihil obstat , para fazer chalaças com a Ceia do Senhor, e portanto com o Sangue de nosso Salvador. DOM Castro Pinto fala ostensivamente em nome das AUTORIDADES ECLESIÁSTICAS para aprovar a blasfêmia, e para injuriar a juventude brasileira, cuja sensibilidade julga e mede pela sua própria. Não tendo ele sentido nenhuma repulsa, nenhuma cólera diante do escárnio feito a Nosso Senhor Jesus Cristo, imagina que ninguém o sentiu. E julga falar em nome da Autoridade para cobrir de vergonha e tristeza os católicos do Brasil, e especialmente os da Guanabara. Valho-me eu de autoridade maior para dizer a Dom Castro Pinto que repilo sua declaração e que me subtraio do domínio em que julga ter jurisdição para afirmar tranquilamente que estão erradas as Sagradas Escrituras onde dizem: "Deus non, irridetur." NÃO fiz nenhum voto de "estupidez e de hipocrisia", e não posso aceitar de nenhum degrau da hierarquia quem me venha dizer que "é válido" blasfemar, que não há nenhum mal em zombar das coisas santas, já, que tudo, uma vez impresso, vira "material jornalístico". E lembro a epístola de São Paulo aos Gálatas: "Ainda que eu mesmo, ou um anjo descido dos céus, vos anunciasse outro Evangelho, e não este que vos anunciei, seja anátema." * * * NUMA de suas alocuções no programa A VOZ DO PASTOR, o Cardeal Eugênio Salles, em tom de advertência, lembra que devemos todo o respeito e acatamento à CNBB. Eu perguntaria respeitosamente a Sua Eminência se este tópico se refere a mim ou aos membros da CNBB que a desmoralizaram. Conheço um que em sensacional entrevista nunca desmentida declarou admirar e amar com carinhoso fervor os rapazes que assassinam e roubam sob o pretexto de uma revolução que hoje só engana os imbecis. Conheço outro que celebrou o 450° aniversário da apostasia de Lutero, comparando-a "à Independência do Brasil!!!", e que agora diz que as Autoridades Eclesiásticas da Guanabara aprovam o material jornalístico de O Pasquim . * * * A CONCLUSÃO que tiro de tudo isto é que somente A Cruz e o autor destas linhas escrevem coisas reprováveis contra a Fé e os costumes. Esmague-se A Cruz, silencie-se o escritor Gustavo Corção, e reinará na Guanabara a desejada paz dos pântanos, onde, a perder de vista, se espraiará uma multidão de respeitosos e respeitosas, entremeados de muitos travestis "que trabalham para ajudar a família".

  • CARTA DE DESABAFO

    Por Gustavo Corção, publicado n’o Globo em 07 de agosto de 1971 FOSSEM outras as circunstâncias, eu preferiria guardar no coração e entregar a Deus as tantas cartas de desabafo que recebo de padres, cônegos e até de bispos de todo o Brasil. Acho-me no dever de transcrever esse desabafo de uma alma sacerdotal, para conforto do missivista que, mesmo sob o anonimato, que guardo por motivos óbvios, assim se aliviará. Além disso proporciono às autoridades eclesiásticas informações mais importantes e profundas do que aquelas que costumam estampar nos seus boletins. Aí vai a carta, com alguns cortes: MEU prezadíssimo e fidelíssimo irmão em Xto. Professor Gustavo Corção: "CLAMA, NE CESSES, QUASI TUBA EXALTA VOCEM TUAM! (Isaías, LVIII, 1.) De há muito, meu caríssimo Prof. GC, venho nutrindo ardente desejo de lhe dirigir algumas palavras para, embora pequenino como realmente sou, prestar-lhe o meu mais INCONDICIONAL apoio nesta terrível luta que vem travando não só contra os inimigos externos da Igreja nossa Mãe, mas SOBRETUDO contra aqueles que tendo recebido o formidando múnus do pastoreio das almas remidas com o precioso Sangue do Divino Cordeiro, traindo ministério tão divino e santo, estão à testa desta imensa pátria brasileira. QUERO compartilhar de sua dor, de suas lágrimas ante o tamanho descalabro! Esta gente hoje se preocupa com todos os problemas do Brasil, mete o nariz onde não foi chamada nem por Deus nem pelo Governo; as obrigações próprias estão postas de lado ou entregues aos famigerados "peritos" que vão levando o rebanho de Deus para a ruína total, pois não são pastores mas MERCENÁRIOS. Estes estão já definidos por Nosso Senhor no Santo Evangelho: por isto tanto se lhes dá do que possa acontecer às ovelhas; nunca as viram, nem elas os conhecem, nem eles as conhecem e por isso não entendem as suas vozes. Querem apenas a sua lã e o seu leite, quando não a sua carne... E teimam, em ministrar às ovelhas pastagens envenenadas, como muitíssimo bem o senhor tantas vezes tem alertado, mas com completo desprezo daqueles a quem incumbiria, por direito divino, vigiar e resguardar e nada fazem e ainda querem impedir os que querem fazer alguma coisa em bem das almas... ESTAMOS vivendo dias maus, Prof. Corção! Nunca se pôde imaginar esta autêntica demolição da nossa Mãe a Santa Igreja por seus próprios filhos! Quantos deles, antes pobres diabos que não tinham onde cair mortos, que se meteram em seminários e conventos para ali, estudando às custas da Santa Igreja, e galgando os postos de que hoje desfrutam, agir de modo desnaturado contra sua Mãe! Perderam a fé ou nunca a tiveram! Não largam a Igreja para não perderem o uso e o abuso que fazem de seus bens, e das posições que gozam nela: colocados fora da Igreja, postos no olho da rua, ver-se-iam reduzidos ao que realmente são: a simples NINGUÉM. Já pensou no que seriam aqueles frades das "VOZES", postos fora dali, cada qual tendo que ganhar a sua própria subsistência?... Acabou-se o espírito sacerdotal, o espírito de oração, o espírito de renúncia ao mundo, à carne, aos prazeres, o amor às mortificações, à entrega total de si a Deus, às almas ao apostolado! Disso não mais se trata. Cuida-se de como os padres possam arranjar empregos leigos para poderem ganhar mais dinheiro; só podem trabalhar nas Igrejas, vários deles, só para dizer Missas remuneradas, sendo que para vários, tantas quantas aparecerem há padres rezando 5 e 7 missas por dia! Pior ainda, há Bispos que sabem disso e nada dizem e mantém o pleno uso de ordens a estes heróis e até os têm promovido! Ó tempora, ó mores... Há os que estão morando abertamente em apartamentos e casas com suas concubinas com pleno conhecimento da autoridade diocesana e não só não são incomodados mas até têm sido promovidos com melhoria de paróquias mais rendosas. Os abusos inomináveis contra a liturgia! Não há mais barreira capaz de conter esta gente. Nem a antes inconteste autoridade papal! Tudo ruiu diante deles! Sei duma senhora paralítica que toda vez que tem chamado um frade da N. S. da Paz, aí no Rio, fica traumatizada na consciência, pois o frade vai em mangas de camisa sacramentá-la e na hora de dar-lhe o Corpo de Nosso Senhor o retira do fundo duma sacola ou bolsa onde coloca os demais objetos: Nosso Senhor Sacramentado, Prof. Corção, foi rebaixado a simples COISA. Ah! se São Francisco de Assis pudesse pegar este filho espúrio e renegado que assim trata Nosso Senhor! Ele que recusou se deixar ordenar por não se achar digno de tocar o Corpo de Deus, vendo hoje um seu filho fazer assim com Jesus Sacramentado! — E... tudo vai muito bem, obrigado, na Santa Igreja de Deus! A CNBB vê tudo em tamanha tranquilidade que se pode dar ao luxo de fiscalizar o Governo e ver como ele anda cumprindo com suas obrigações para com os pobres brasileiros! Vai até ver como anda esse negócio da TRANSAMAZÔNICA!... Entretanto, o REINO DE DEUS, a Santa Igreja, a vida espiritual, a piedade, a devoção, o verdadeiro apostolado sacerdotal, a maneira como o povo de Deus vem sendo assistido, como vêm sendo administrados os sacramentos etc. etc. etc., isto não é mais assunto para a CNBB (...) A Igreja no momento parece que está acéfala, pois quando se diz que há lei e não existe sanção o que acontece é desconhecimento da mesma lei ou o seu completo desprezo! O Direito Canônico está relegado ao mais supremo desprezo e esquecimento! O QUE resta das Ordens religiosas e demais Congregações, antes a glória e o apanágio da Santa Igreja! Estão reduzidas a simples agrupamentos de aproveitadores dos seus patrimônios, pois os membros antigos, "soboles sancta" que teimam em viver o espírito das suas Regras, dos seus Fundadores, estes estão postos de lado, destituídos de qualquer cargo de direção, permitindo-se lhes apenas a acabarem seus dias assistindo a esta desolação e a esta profanação do Lugar Santo, conforme lamentava o Profeta... Tudo está profanado, tudo secularizado, tudo mundanizado! Satanás conseguiu penetrar na Cidade de Deus e conseguiu um número grande de apóstatas e renegados, energúmenos a seu diabólico serviço! E como são diligentes, espertos, ativos e vivos estes filhos das trevas! Já Nosso Senhor nos alertou no Santo Evangelho! SÓ mesmo DEUS poderá pôr um "basta" a tudo isto! Creio que é chegada a hora de clamarmos, sem descrer do poder e da misericórdia de Nosso Senhor: "Domine, salva nos, perimus!"... LEIO e devoro os seus artigos, verdadeiros látegos de fogo na face destes renegados! Continuais, meu bom amigo! — CLAMA, NE CESSES!!! Como me vejo possuído duma santa inveja ao ver um atleta de Cristo, já sentindo o peso dos anos sobre os seus ombros fatigados de tantas lutas gloriosas, pelejando o bom combate, de modo viril, indefeso!... Ao contemplar a nossa OMISSÃO deveríamos nos cobrir de vergonha, pois deveríamos escutar o eco das palavras do grande Apóstolo da Gentes ao seu discípulo, e na pessoa dele a nós dirigidas: "Labora sicut bonus miles Christi Jesu!", e, também, aqueloutra que diz: "Non coronabitur nisi qui legitime certaverit!" FELIZ e mil vezes feliz, meu venerando amigo, a que DEUS houve por bem entregar a defesa de seus direitos, já que nós nos OMITIMOS, nós que fomos colocados especificamente para este mister! O grande Apóstolo afirma: — "Non coronabitur nisi qui legitime certaverit!" Esta sentença nos deve encher de sérios receios pelas nossas OMISSÕES enquanto deve dar indizível consolação ao seu coração indomável nas pelejas pelo SENHOR! Sei avaliar, meu querido irmão, o seu grande sofrimento nesta hora de tão terrível provação! Sei do seu grande amor e devotamento a DEUS, à Santa Igreja nossa Mãe! Vejo sua dor ao vê-lo assim traído por nós que deveríamos ser seus amigos e defensores! Com quanto amargor Ele se queixa: "Si inimicus meus maledixisset mihi sustinuissem utique, sed tu...", mas nós que com Ele nos assentamos à sua mesa e com Ele comemos o seu doce manjar... a sua carne e o seu sangue divinos, nós os seus padres, os seus bispos! Ah, meu bom Prof. Corção, se fosse possível era o caso de ter pena de Nosso Senhor! Mas nós, sim, nós que somos tremendamente dignos de pena, de muita compaixão, pois o traímos tanto e tão continuamente com nossas multiformes [...], com nossas acomodações; com nossa maldita [...] em sairmos de nosso [...] para defendê-LO, por nossa sórdida COVARDIA, para não nos tornarmos alvo dos dardos destes que hoje, NÃO PODENDO RESPONDER-LHE, procuram dizer que não querem manter polêmicas com o senhor. É que não podem e NADA TEM QUE RESPONDER, pois que ninguém tapa o sol com peneira. Sem provas, sem nenhum argumento, negam simpliciter a veracidade devida aos seus escritos e às suas afirmativas, não se pejando de assim baterem em retirada da arena de combate como verdadeiros sendeiros! Como é humilhante e vergonhoso! Castigo dos que fogem da verdade! Dos que vivem a vergonha de sua traição a Nosso Senhor! SOU um pequenino pároco, no Estado do Rio, onde venho lutando para manter a verdade de nossa Fé e os sãos princípios que sempre nortearam os caminhos de nossa Mãe, a Santa Igreja, nestes vinte séculos de sua já longa existência! PARA terminar, Prof. Corção, a causa causarum de tantos males que presenciamos reside na indiferença, na apatia, na desídia, numa palavra, na incompreensível OMISSÃO do nosso Episcopado! Na verdade estamos sem Pastores . Lobos devoradores, lupi rapaces , travestidos em pele de ovelha estão dizimando o rebanho do Senhor. Não se vê uma única atitude dum Pastor contra os escândalos de certos padres! Eles se repetem... os lobos às soltas... entre os rebanhos, nos apriscos, sem serem incomodados. Já disse mais de uma vez a alguns Bispos que não desejo estar na pele deles quando do "REDE MIHI RATIONEM VILIVATIONIS TUAE!" Lembrei-lhes a terrível advertência divina pela Mica do grande Isaías: "CANES MUTI, NON VALENTES LATRARE, VIDENTES VANA, DORMIENTES, ET AMANTES SOMNIA, IPSI PASTORES IGNORAVERUNT INTELLIGENTIAM: OMNES IN VIAM SUAM DECLINAVERUNT, UNUSQUISQUE AD AVARITIAM SUAM A SUMMO USQUE AD NIVISSIMUM... (Isaías, LVI, 10 e 11). O QUE tenho feito é rezar e pedir muitas orações para que Deus nos ajude em meio de tamanhas necessidades: sempre que posso celebro Missas nesta intenção para que Nosso Senhor abrevie estes dias ominosos e tristes. E quero que o bom amigo saiba que aqui se reza e muito por si, para que Nosso Senhor lhe dê toda energia, força, coragem e destemor para dizer sempre e sempre, bem alto e a bom som TODA VERDADE em defesa dos direitos de DEUS, de sua IGREJA, da FÉ e da MORAL. Que em sua destemerosa pena, em seus candentes artigos se possa dizer como São Paulo dizia de si mesmo: "VERBUM DEI NON EST ALLIGATUM", quando se dirigia ao seu discípulo Timóteo, (2 Tmot. II, 9), escrevendo-lhe do fundo das masmorras de Roma, pés agrilhoados, punhos algemados... PROF. Corção, reze por mim! PERDOE-ME o tempo que lhe roubei. Não tinha direito a isso! Leia como puder e perdoe-me, também, os erros e senões muitos que apontam a cada passo nestas "mal traçadas linhas", pois somente fiado na sua imensa caridade e bondade e porque o admiro MUITÍSSIMO em Nosso Senhor (de Quem sei ser tão amigo), tomei a liberdade de lhe fazer esta que é mais um desabafo que outra coisa. Queira desculpar-me, pois. QUE Deus nos abençoe, nos guarde e nos guie e queira nos salvar até o seu grande dial... Ele será a sua recompensa infinita! "EGO ERO MERCES TUA MAGNA NIMIS!, PROTECTOR TUUS SUM, ET MERCES TUA MAGNA NIMIS!" (Gên. XV, 1.) MACTE ANIMO! Do humílimo serve e Irmão in Christu Jesu, * * * JÁ agradeci diante do altar as bondosas palavras desse cônego amigo que nunca vi e que conto encontrar no céu com tantos outros, no dia do Senhor. Nesse meio tempo ofereçamos nossa vida e nossos sofrimentos e rezemos muito pelos que não rezam. Que Deus tenha compaixão de todos nós.

  • Singularidade do Cristianismo

    Por Gustavo Corção, publicado n’O Globo em 12 de agosto de 1971 NUM de seus mais belos livros The Everlasting Man , que o editor com toda a razão diz ser "more thrilling than any novel", Chesterton, no apogeu de seu gênio rutilante e explosivo, deixou-nos um acervo de ideias onde cada uma parece responder com suas cintilações à soma de espantosos disparates e tolices com que o mundo, sai século, entra século, pretende empoeirar, esconder ou destruir o Cristianismo. Com sobeja razão disse desse livro um crítico: "É um poderoso e belo livro. Para realizá-lo assim, formoso e poderoso, o poeta e o soldado em Mr. Chesterton se coligaram, e juntos conseguiram dar-lhe as cores, a fúria e a fé romântica das cruzadas". * * * UMA das tolices de todos os tempos que tentou atravessar-se no caminho do poeta-soldado e cruzado foi a que hoje tem calorosa acolhida no mundo católico, e especialmente nas casas religiosas que, por isso mesmo, deixaram de ser religiosas. Eu a definiria assim: ideia da não singularidade do cristianismo. E Chesterton a derruba num só golpe: "aqueles que veem Cristo lado a lado com outros mitos similares, e sua religião lado a lado com outras religiões, estão apenas repetindo desgastadas e sujas fórmulas que são desmentidas pela fulgurante evidência dos fatos". EM outro lugar Chesterton retoma esta ideia que anima toda a sua estratégia apologética: "escrevi este livro apenas para mostrar que o Cristianismo, surgida em certa altura da história, tem todas as características de uma coisa única. Não se parecia com nenhuma outra coisa; e quanto mais o estudamos menos se parece ele com outras coisas". No sentido mais absoluto do termo, o cristianismo foi uma coisa nova na história; é a única coisa nova, não apenas no seu surgimento histórico mas em cada momento em que o considerarmos. EM torno de mim, no meu escritório, estão os objetos familiares, os livros amados e os livros detestados, as cartas lidas e ainda não respondidas. E diante de mim a mesa desarrumada dá-me boa imagem das coisas velhas que seguem a lei da matéria, a lei do envelhecimento. Se me adornarem a jarra com uma rosa insolentemente jovem e formosa, ainda assim já adivinho atrás da seiva a corrupção e atrás do viço o desbote. Tudo em torno de nós envelhece irresistivelmente. Sobre todas as coisas desce a névoa crepuscular de um desgaste universal. A grande e bela criação de Deus segue sua sorte de criatura sujeita a todas as vicissitudes. Mas suas abóbadas fechadas sobre si mesmas, econômicas, zelosas de suas causas segundas, de seus ciclos e epiciclos, um dia foram atravessadas, e um dardo de luz trouxe a esta criação a notícia de uma nova criação, e o anunciador desta boa-nova é o Verbo Divino que se encarnou para nossa salvação e que estará sempre entre nós, na sua Igreja, no meio de nós como o Novo absoluto e perpétuo que levou São Paulo a exclamar, ébrio de graça divina: quem está em Cristo se torna nova criatura... Vede! Tudo é novo! (II Cor. V, 17.) * * * A LEITURA, mesmo distraída, do Antigo Testamento revelará a chave, o segredo que troveja pela voz dos profetas, e que grava nas pedras: Ele é Um, e não admite outros deuses diante de sua Face. Mas é no Novo Testamento que eclode, explode, o Novo absoluto, o Novo eterno; mas também é aqui que, por um paradoxo da Encarnação, se torna mais velada a face de Deus. A Trindade é, sem dúvida alguma, o mais majestoso, o mais profundo dos mistérios; mas a Encarnação é o mais perturbador, o que mais induziu a heresias e erros que, no fundo, querem sempre a mesma coisa: reduzir o Cristianismo a um humanismo. Jesus passou três anos a ensinar que o cristianismo não é um humanismo. Todas as suas respostas têm sempre o mesmo cunho de quem não aceita o plano e os termos em que é feita a pergunta. Ao longo de vinte séculos a história do cristianismo oscila sempre entre dois acervos, dois modos de capitalizar e de guardar o tesouro das palavras de Cristo. De um lado está o cabedal de sabedoria e de santidade guardada no seio, no interior, no lado de dentro da Igreja, e de outro lado estão todas as tentativas feitas, no exterior da Igreja, por homens que se julgavam tanto mais eclesiais quanto originais. A TENDÊNCIA natural do homem, o peso do corpo e as feridas da alma levam-no sempre a querer fazer do cristianismo um humanismo, e do candente amor de Deus uma filantropia. QUANDO os homens, num relance, desconfiam da absoluta e insólita novidade do cristianismo, duas reações opostas e violentas podem surgir: a violência de um vislumbre de amor divino precipita a alma agradecida e maravilhada, no meio da Igreja, in media Ecclesia ; a outra violência, ditada ao orgulho por Satã, fará dessa alma um rebelde que sairá pelo mundo a anunciar que o cristianismo é não somente um humanismo, mas também, e sobretudo, um humanismo ávido de cooperar com o desumaníssimo que não admite sequer o Nome de Deus, nem admite que seus membros humanos queiram ser especificamente humanos. * * * PENSANDO na explosão de imbecilidades que encheu nosso século graças aos tão festejados meios de comunicação, repassando na memória as frases infinitamente tolas que foram pronunciadas dentro do chamado catolicismo "progressista", vêm-me à memória, irresistivelmente, as palavras com que Jesus diz que não foi para dirimir estas questões que Ele nasceu de Maria Virgem, padeceu sob Pondo Pilatos, foi morto e crucificado. Através dos abismos ouço esta resposta de Jesus aos desajustes humanos: "Homem, quem me constituiu juiz ou partidor entre vós outros?" (Luc, XII, 13).

  • [Álbum] Solenidade de Corpus Christi

    + PAX Disponibilizamos abaixo uma seleção de fotografias da solenidade de Corpus Christi, presidida por S.E.R. Dom Tomás de Aquino no último dia 19 de junho de 2025. Na presente ocasião, também, registramos a tomada de batina dos seminaristas Sr. Joandry Chiaro e Sr. Caio Arleo, pertencentes ao Seminário Imaculado Coração de Maria (Nova Friburgo - RJ). U.I.O.G.D.

  • O cristianismo que não morrerá

    Por Gustavo Corção, publicado n’O Globo em 14 de agosto de 1971 AS REFLEXÕES que no artigo de quinta-feira andamos fazendo, despertadas pela releitura de uma página de Chesterton, levam-nos à conclusão de que haverá arrefecimento do cristianismo todas as vezes que os homens se afligirem, se envergonharem ou se cansarem de o sentir tão incôngruo em relação ao curso da história, e daí tirarem a intenção de afeiçoá-lo àquele andamento. A CRISE de nossos dias, a mais ampla e profunda de toda a história da Igreja, começou por um propósito de aggiornamento . O cristianismo estava envelhecido, a Igreja esclerosada, e o bravo mundo moderno passou a interessar-se prodigiosamente por sua renovação. Reformas... reformas... reformas... O pastor anglicano John Robinson, que andou por aqui a fazer conferências, escreveu um volume inteiro para explicar que hoje , na era espacial, não é possível ter a mesma ideia de Deus "fora de nós" tida e mantida pelos antigos. Eis o que diz na tradução portuguesa esse tipo bem representativo de nossa época: "Enquanto não tinham sido explorados, ou era possível explorar (por meio de radiotelescópios, se não com foguetões) os últimos recantos do Cosmos, ainda se podia localizar Deus mentalmente nalguma terra incógnita . Mas agora parece não haver lugar para ele, não apenas na estalagem, mas em parte alguma do universo: é que já não há lugares vazios." É DIFÍCIL, em tão poucas linhas, dizer mais densa coleção de asneiras sobre a presença de Deus que, para esse notável anglicano, ao que se vê, sempre esteve no limbo das primeiras imagens infantis. O reverendo (que o Prof. Cândido Mendes Almeida importou quando por aqui é abundantíssimo o similar nacional), fascinado por leituras de vulgarizações, e esquecido da presença de Deus em todas as coisas como causa primeira, e como sustentador de todas as existências, pensa que o homem já explorou todos os recantos do universo! O LEITOR encontrará no livro Progresso e Progressismo , AGIR, p. 130, e seguintes, considerações mais desenvolvidas sobre o autor anglicano e sua obra Honest to God que foi best-seller em vários idiomas. NO momento quero deter a atenção do leitor diante deste bonzo "a atualidade" que tem mais adoradores do que todos os Budas do oriente. Passou pelos seminários, pelas salas de capítulo, pelos claustros mais serenos e austeros um frenesi de atualização, um furor indecente de se prosternarem todos diante de um Hoje tornado suprema divindade. Ninguém percebe, nem tenta demonstrar as vantagens da substituição de tais fórmulas por tais outras. Não são mais claras, não são mais belas, mas são reformadas e nisto consiste sua suprema nobreza. * * * HA MIL maneiras de tentar banalizar o cristianismo. A mais ampla mas também mais humilde e mais triste é aquela produzida pelo fato de não sermos santos, ou de serem tão poucos os que realizam desde já, aqui e agora, ao menos em algumas cintilações, a maravilhosa e permanente novidade que é Cristo Jesus; mas a mais espessamente estúpida é aquela que, não vendo a supernal, a transcendental Novidade, quer submeter o cristianismo à tirânica frivolidade das pequeninas coisas novas com que o homem tece e borda sua frágil atualidade que já nasce em processo de envelhecimento. NUNCA se falou com tanto garbo no "mundo moderno" e em suas terríveis exigências, mas ninguém se dá ao cuidado de especificar essa modernidade, nem ao cuidado de esconder suas espetaculares misérias. Ninguém, evidentemente, contestará que os veículos hoje são muito mais rápidos do que o cavalo de Carlos Magno, ou o burrico que São Bernardo montou para ir aonde o chamavam, e onde confundiria o bom mas trêfego Abelardo. Eu não preciso fazer malabarismos de imaginação para rever a figura do Santo abade de Claraval, e para imaginar as santas cogitações com que se preparava para defender a Sagrada Doutrina enquanto o bom burrico o ia levando no mesmo doce ritmo com que um outro irmão burro mil anos atrás levara, ao Egito, Nossa Senhora e o Menino Jesus. O que preciso fazer esforço para imaginar é o quadro atualizado de um São Bernardo a sair de seu mosteiro, num Fusca, a 120 quilômetros por hora. Não digo que seja impossível. Metafisicamente é possível que um grande santo de hoje dirija um carro; mas tudo parece contraindicar que esse veículo possa proporcionar ao hipotético santo o mesmo lazer para a meditação, como também tudo leva a crer que a velocidade do veículo não possa modificar o bom fundamento da argumentação que venceria Leonardo. CURIOSO progresso! O que hoje se vê todos os dias são revoadas de Abelardos, de sub-Abelardos, que a mil, quilômetros por hora atravessam os oceanos para se reunirem em congressos, sínodos, conferências, onde serão propostas mil pequenas e efêmeras renovações por dia. E é com esse frenético ativismo que querem atualizar o cristianismo; e é com essa submissão ao século que querem vitalizá-lo. Depressa se desencantam de correr e voar. E então, para reduzir o cristianismo a um puro humanismo, resolvem anunciar a morte de Deus. MAS o menino Jesus, no mesmo ritmo lento de outrora, contínua a nascer virginalmente todas as manhãs nas almas submissas, e continua a ressuscitar triunfalmente todas as manhãs para deixar em nós o anúncio de nossa própria ressurreição. E nisto pomos todo o fervor de nossa Fé: passarão os impérios, as máquinas do mundo, mas esse cristianismo sempre pequenino, manso, único e eterno não passará.

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