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Voltando de viagem



Por Gustavo Corção, publicado n’o Globo em 26-05-1973


AGORA confesso: estive um mês e mais uns dias a viajar. Confesso. Eu que já resistira a uma dúzia de convites, fui desta vez arrancado de minha toca pelos amigos franceses de Office International, dirigido pelo admirável Jean Ousset, que lá na França luta o mesmo bom combate em que aqui estamos empenhados. Chegaram até lá, ao que parece, os ecos de nossas mal traçadas linhas, e o fato consubstanciou-se num convite sumamente honroso para o Brasil: o de nos designar para presidir a sessão de abertura. Assim, nesse ano, o Congresso de Lausanne, que consegue, graças a um prodígio de esganação, reunir 3700 pessoas vindas de todo o mundo, foi aberto com uma mensagem de um representante do Brasil.


JA NO ano anterior, o admirável trabalho de D. Helena Rodriguez e D. Graça Pierotti, o stand do Brasil fez um grande sucesso. Neste ano além da homenagem prestada ao Brasil, observamos o interesse crescente com que todos os católicos da verdadeira e única Igreja de Cristo veem o Brasil resistir à subversão, e o interesse crescente com que acompanham a crescente prosperidade dada ao Brasil por um Governo de mareada e nítida autoridade, em confronto com a catastrófica experiência chilena, promovida pelo espúrio conúbio da democracia-cristã e do comunismo. Neste ano éramos quatro os integrantes da representação brasileira: D. Graça Carvalho Pierotti, Dr. Gerardo Dantas Barreto, Prof., Elias Jorge Tambur e eu.


COUBE-ME a alocução de abertura e da apresentação do conferencista Marcel Clement. E aí está explicado, a força que venceu meu arraigado estilo de vida. Minha última e única viagem à Europa fora feita de navio, em 1928. Desta vez eu viajei de avião e tive a curiosa sensação de não ter tido medo nenhum. Atribuo isto à idade. O fato é que, posto dentro daquele bólido, eu me senti despojado de toda pretensão a qualquer iniciativa. Ali no meu banco, no regaço da VARIG, eu sentia a inocência e a irresponsabilidade de um recém-nascido. Não prestei a menor atenção às instruções da aeromoça para o emprego de não sei que instrumentos de emergência para conservar em toda a sua limpidez minha inerme inocência de recém-nascido.


NESTE estado de espírito fui atirado por cima do Atlântico e só recuperei a faculdade de me inquietar quando, no chão de Paris, comecei a sentir que retomava a responsabilidade e a iniciativa de meus atos.


NA VERDADE, os principais fatores de minha conversão à via aérea se devem à extrema gentileza com que D. Alice Klauz, retora da VARIG me instalou no aparelho que logo tomou, para o velho sedentário, misteriosas dimensões domésticas.


NÃO ESPERE de mim, leitor amigo, impressões de viagem, porque estive sempre tão intensamente interessado pelos problemas da civilização e da Igreja, tão intensamente interessado em ouvir, em conversar sobre a grande dor de nossa Santa Igreja, que não me sobravam olhos para os lagos da Suíça.


UMA DAS mais fortes impressões que trago do Congresso de Lausanne é a de uma densíssima fraternidade cristã apurada pelo sofrimento comum. O que eu escrevo nestas colunas e causam espanto nos meios clericais era coisa sabida pacificamente por 3 700 pessoas vindas de todos os cantos do mundo. Nas horas das refeições fazíamos sempre testes curiosos. Em mesas grandes, e sem lugares marcados, tínhamos em cada refeição vizinhos de acaso, e tivemos sempre, depois de poucos minutos de cerimônia, o mesmo resultado de um entendimento perfeito. E vimos que as queixas contra a anti-igreja, que tantos ilustres prelados não sabe distinguir da Igreja, eram sempre as mesmas quer fossem franceses, americanos, italianos, ou argentinos os comensais.


COMPREENDI a razão do caloroso aplauso de minha alocução. Não me aplaudiam por achar admiráveis minhas palavras: aplaudiram-me cem comovente calor porque simplesmente sentiam a dor da Igreja como eu a sinto e tantas vezes aqui a exprimo. E também aplaudiram o Brasil que na Europa é tão caluniado pela anti-igreja.


EM TODOS os contatos, curtos ou demorados, sistemáticos ou casuais, sentíamos sempre nossa solidariedade com a Igreja e nossa consonância em todos os problemas trazidos pelo "progressismo". Ali, entre 4.000 desconhecidos estrangeiros, sentimos verdadeiramente como é doce vivermos entre irmãos.


OUTRA impressão fortíssima foi a que tivemos na 1ª missa antes da abertura do congresso, na qual, simplesmente, reencontrávamos a missa de Pio V, a missa em latim de nosso velho missal e onde então vimos, consolar evidência, que a posição certa do padre só pode ser aquela, voltada para Deus, na proa do navio, e não aquela outra em que, numa reviravolta, o padre se transforma em conferencista, e se deslumbra com a súbita descoberta de um auditório ou de uma plateia.


NUM DOS intervalos das sessões senti-me envolvido por braços magríssimos de um ancião de cabelos compridos que me transmitia o agrado que lhe dera minha alocução. Despedi-me afavelmente sem saber quem era aquele espectral personagem. Alguém me informou que era o vivíssimo Dietrich von Hildebrand, o autor de "Cavalo de Tróia", e então foi minha vez de procurá-lo, e nossos ossos se entrelaçaram num paternal e demorado abraço. Ficamos amigos de infância.


TORNO a dizer que, para mim, a impressão dominante do congresso de Lausanne foi a alegria da convivência cristã que certamente reanimará muitas almas entristecidas pelo espetáculo que a Caricatura da Igreja oferece ao mundo, e que a mim me devolvia o júbilo dos bons tempos em que o relincho do Cavalo de Tróia não nos ensurdecia para a voz belíssima da Igreja, una, santa, católica e apostólica. Queira Deus que todos os 3.700 congressistas de Lausanne de 1973, tenham voltado aos seus postos com zelo mais fervoroso para bom combate.


NUM PONTO insisto: o congresso de Lausanne do Office International é o movimento, o fenômeno europeu que melhor tem servido para desfazer o destorcido retrato do Brasil difundido em toda a Europa pelos "progressistas". De inúmeras pessoas do mais alto nível, como Dietrich von Hildebrand e Jean Madiran (em Paris) ouvimos com grata satisfação a mesma declaração de confiança no Brasil. E eu fiquei a imaginar aproximações entre esses homens e nossos dirigentes com o fruto de uma reduplicada noção de nossa responsabilidade, não apenas em termos de prosperidade e tranquilidade internas, mas em termos universais de uma civilização periclitante.


CREIO NÃO me enganar se assim interpreto a confiança que aquela família espiritual francesa deposita no Brasil. Por cima de valores nacionais e mesmo culturais, o problema maior é o da defesa de uma civilização cristã que agoniza esmagada por um mundo estúpido e cruel. Sim, mais de uma vez ouvi na Europa este ato de confiança no papel que cabe ao Brasil na defesa dos mais altos valores. É agradável ouvir tais apreciações sobre nossa pátria, mas também é esmagador o sentimento da decorrente responsabilidade. Sempre me parecera que a luta espiritual se decidirá nas terras mais antigas da cristandade; mas se eles mesmos, com todas as suas maravilhosas catedrais, seus santos e suas tradições nos dizem que esperam o socorro de nós (de vous! nos disse Madiran), então, meu Deus, a nossa responsabilidade se torna esmagadora, e o mais inútil servidor da Igreja de Cristo poderá dizer, como o marujo de Fernando Pessoa disse ao "Mostrengo": uma vontade mais alta me ata à esferográfica, aqui nestas colunas sou mais do que eu...


E AOS QUE desejam, febrilmente, o alívio de minha ausência só posso dizer que tenham um pouco de paciência, e que esperem a hora de Deus, como também eu a espero, e quase me atrevo a dizer que a desejo.

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