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Sermão do 5º domingo após a Páscoa - Pe. Marie-Laurent, O.P.

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Pelo Pe. Marie-Laurent, O.P., em 10 de maio de 2026.


Ut cogitémus, te inspiránte, quæ recta sunt; et, te gubernánte, eadem faciámus – que, pela vossa inspiração, pensemos o que é reto, e que, sob a vossa condução, realizemos essas mesmas coisas.


Caros fiéis,

A oração deste quinto domingo depois da Páscoa, como muitas outras orações das missas dos domingos do ano, lembra-nos que as gerações passadas — aquelas que escreveram estas tão belas orações — tinham uma noção certamente diferente daquela que prevalece há alguns séculos.


Com efeito, segundo o Padre Emmanuel du Mesnil-Saint Loup, que foi pároco de uma pequena aldeia de França no século XIX e aí fundou um mosteiro beneditino do qual se tornou Padre Abade, a oração das almas cristãs já não tem a mesma qualidade que se encontrava outrora.


Ele faz um diagnóstico verdadeiramente alarmante. Permitam-me citá-lo longamente:


"Quando se considera atentamente o estado das almas, ficamos impressionados com a fraqueza, para não dizer mais, com a fraqueza das suas orações. Reza-se pouco, reza-se mal, ou não se reza absolutamente nada. A grande maioria não reza, isso é evidente; muitos cristãos rezam mal, porque o fazem ou sem fé, ou sem inteligência, ou sem desejo de receber algo de Deus. Aqueles mesmos que rezam, rezam muito pouco. A soma das orações parece-nos, portanto, muito longe, bem longe de corresponder à soma das necessidades; só isto pode fazer-nos compreender porque vemos incessantemente o bem enfraquecer-se e o mal crescer. Outrora, os cristãos rezavam mais e melhor. As igrejas eram casas de oração, e os domingos, dias de oração. Hoje vemos as igrejas quase desertas, e os dias santos profanados. O mal é grande: seria possível encontrar-lhe uma causa? O problema é difícil, e contudo vamos tentar procurar a solução."


Eis o constat alarmante que fazia o Padre Emmanuel. É muito difícil contradizê-lo quando vemos o estado do mundo em que vivemos, e ainda mais grave, o estado das almas, desses bilhões de almas que correm a lançar-se nos braços da morte eterna. O Padre Emmanuel tenta depois encontrar uma causa a este estado de coisas tão deplorável no que diz respeito à oração.


Por volta do final do século XV, viram-se introduzir na Igreja muitas novidades, e mesmo doutrinas novas que ainda hoje permanecem e que nos parecem não ser alheias à situação que deploramos. Outrora, todos os cristãos rezavam para pedir a Deus a sua graça: graça de O conhecer, de O servir, de O amar; graça da fé, da esperança e da caridade; graça de guardar os seus divinos mandamentos, graça da perseverança para os bons, da conversão para os pecadores, graça da perseverança final. A Igreja reza sempre no mesmo sentido, e com as mesmas orações.


É a oração deste dia: Ut cogitémus, te inspiránte, quæ recta sunt; et, te gubernánte, eadem faciámus – que, pela vossa inspiração, pensemos o que é reto, e que, sob a vossa condução, realizemos essas mesmas coisas.


O Padre Emmanuel continua:


"Mas outrora os cristãos tinham o sentido das orações da Igreja, sua mãe. Hoje já não o têm, mas têm o sentido das doutrinas modernas, largas, fáceis: tão largas e tão fáceis que

com elas já não é preciso rezar. Como se diz: basta querer. Quando outrora se acreditava com São Paulo que a fé não é dada a todos, non enim omnium est fides (2 Ts 3, 2), compreendia-se o seu preço, rezava-se a Deus para agradecer Lhe por a ter dado, rezava-se para Lhe pedir que a desse àqueles que não a tinham.


Quando Santo Agostinho ensinava «que a graça não é dada a todos, e quando é dada, não é dada segundo os nossos méritos, mas por pura misericórdia, e quando não é dada, é por um justo juízo de Deus», os cristãos que ouviam esta doutrina aprendiam a rezar, a humilhar-se e a reconhecer os dons de Deus.


Hoje ouviu-se outra linguagem; disse-se que Deus dá a sua graça a todo o mundo, e quem quiser tomá-la não tem mais que querê-lo. A consequência destas opiniões novas foi fácil de deduzir: já não se dá ao trabalho de pedir, uma vez que Deus dá tão abundantemente.

Aqui o Padre Emmanuel aborda um ponto que pode concernir a todos nós.


Há sobretudo um ponto, e um ponto capital, sobre o qual as opiniões novas lançaram muitas almas no erro: queremos falar da graça necessária à vontade.


Imagina-se hoje que Deus, tendo dado tão largamente a sua graça a todos os homens, já não é necessário pedir-Lhe a graça de querer o bem. A boa vontade, cada um dá-a a si mesmo: cada um, se lhe aprouver e quando lhe aprouver, aceita a graça que Deus dá a todos, fá-la por assim dizer sua, e caminha depois, tendo-se feito a si mesmo homem de boa vontade. Com isto, não há necessidade de rezar; basta que a vontade humana se ponha em movimento.


Os nossos pais não pensavam assim; pediam a Deus a graça de querer o bem. As orações da Igreja no-lo testemunham, e testemunham-no fielmente. Entre todas as que poderíamos citar, eis algumas:

«Ó Deus, que unistes a diversidade das nações na confissão do vosso nome: dai-nos querer e poder o que nos mandais…»

«Ó Deus, dai aos vossos povos amar o que mandais e desejar o que prometeis…»

«Ó Deus, força dos que esperam em vós, escutai favoravelmente as nossas invocações, e porque, sem vós, a fraqueza humana nada pode, concedei-nos o socorro da vossa graça, a fim de que, na obediência aos vossos mandamentos, vos agrademos tanto pela vontade como pela ação.»


E a oração deste domingo está bem na mesma linha. Seria preciso citar todas as orações da Igreja, pois todas pedem a Deus tanto a graça da inteligência que ilumina como a graça da vontade que fortalece.


Na última das orações que acabamos de citar, a Igreja pede a Deus que Lhe agrademos tanto pela vontade como pela ação. Assim, a Igreja ensina-nos a pedir a Deus não só as graças de saber, de poder e de querer, mas a graça especial de realizar a ação agradável a Deus. Quão longe estão de pensar assim muitos cristãos que imaginam que só depende deles fazer o bem, e que, tendo feito alguma coisa por Deus, se aplaudem a si mesmos pelo pouco que fazem, como se o bem fosse obra sua e como se pudessem gloriar se dele, não só aos seus próprios olhos, mas diante do próprio Deus!


É necessário recordar aqui que todos temos as feridas do pecado original, entre as quais se encontram o erro na inteligência e a malícia na vontade. Mesmo que nem todos os nossos atos estejam marcados pelo erro ou pela malícia, é impossível, se não rezarmos, estarmos isentos deles, especialmente da malícia: querer fazer uma coisa sabendo que é contrária à vontade de Deus, só pelo prazer de fazer a sua própria vontade, de ser o próprio senhor da sua vida.


O Padre aborda agora outra razão que nos mostra a necessidade da oração: a impossibilidade de observar em todo o tempo e sempre todos os mandamentos de Deus.


Eis o seu raciocínio:


«De o facto de Deus não mandar o impossível, não há motivo para concluir que a oração não é necessária. O Concílio de Trento diz: «Deus não manda coisas impossíveis, mas ao mandar-vos, adverte-vos de fazer o que podeis e de pedir o que não podeis, e ajuda-vos para que possais.»


O Concílio pensa, portanto, que se pode não ter sempre um socorro suficiente, e aquele que se encontra a faltar desse socorro sabe a Quem pedir o que lhe falta. Resulta desta doutrina que a oração é necessária para chegar a cumprir os mandamentos de Deus.


«Mas —diz um sábio autor—, se alguns pedem porque não podem, quanto menos poderão aqueles que não pedem, e aqueles que não querem pedir ou que não reconhecem Aquele a quem é preciso pedir!»


No mesmo pensamento que o Concílio de Trento, São Agostinho dizia: «Os pelagianos julgam saber uma grande coisa quando nos dizem que Deus não mandaria o que soubesse ser impossível ao homem. Quem o ignora? Mas Ele nos ordena certas coisas que não podemos, para que saibamos o que Lhe devemos pedir.»


O mandamento é-nos dado, pois, para que procuremos o socorro d’Aquele que no-lo manda. Daí a necessidade da oração, necessidade tão grande que, sem a oração, é impossível a um cristão resistir às tentações, obedecer aos mandamentos e alcançar a sua salvação.


É certo, diz ainda São Agostinho, que guardamos os mandamentos se quisermos, mas porque é o Senhor quem prepara a vontade, é preciso pedir-Lhe que queiramos tanto

quanto é necessário para que, querendo, façamos o que é mandado.


O bom Padre Emmanuel conclui: e isto mostra-nos a necessidade da oração para a salvação.

Que seja o mesmo para nós, que compreendamos a absoluta necessidade da oração, tanto vocal como mental. O nosso rosário, se fizermos o esforço necessário de o meditar,

ajudar-nos-á a pedir a Deus e à sua Santa Mãe esta graça de não agir senão para Deus e de desconfiar como da peste de tudo o que cheira a vontade própria, ao juízo próprio, tão contrário…

 
 

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