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Reformas e Reformas

  • 29 de jul.
  • 4 min de leitura


Por Gustavo Corção,

publicado n’O Globo em 03 de agosto de 1968


A palavra "reforma" sempre teve, sobretudo na cultura católica, a significação primeira de restauração; isto é, de recuperação ou volta ao estado de integridade do qual alguma coisa se afastara por degradação de seus elementos. Nos séculos XIV e XV, fervilharam na Igreja projetos e ideias de reformas em vista dos abusos praticados pelos clérigos e do relaxamento geral dos costumes. O Concílio de Viena (1311-1312) declarava que sua principal missão era a recuperação da moralidade eclesiástica. Depois do Grande Cisma (1378-1417), só se falava em corrigir, em livrar a Igreja dos abusos praticados pela própria hierarquia. Nicolau de Clemanges escreveu De corrupto Ecclesiae statu, seu Ruina Ecclesiae; Dietrich de Niem, Monita de necessitate reformationis Ecclesiae; Henri de Langenstein, Consilium pacis sive de unione ac reformatione Ecclesiae in concilio universale quaerenda (1381). Em 1418, o Concílio de Constança decretou, sem muito sucesso, várias medidas, entre as quais a seguinte:


"As antigas prescrições da Igreja, relativas à veste e à tonsura dos clérigos, assim como à modéstia de seus padrões de vida e à proibição de usarem roupas mundanas, são renovadas."


Vê-se, assim, que a ideia principal desses reformadores não era a de uma transformação, mas sim a de uma reformação, como também se vê que o sentimento principal não era o de confiança no presente, mas o de descontentamento com o presente, de inquietação com o futuro e de confiança no passado. Não se tratava, pois, de procurar outra forma, mas de recuperar a forma primitiva alterada pela corrupção de alguns de seus elementos.

A Igreja, ao longo da história, pode recobrir-se de muito pó e muita lama que não chegam a atingir o cerne de sua intocável santidade, mas conseguem desfigurar sua face visível, para escândalo e perdição das almas. Reforma, nesses casos, como a queria Savonarola, designa uma operação de limpeza, purificação e restauração exterior que devolva à Igreja sua figura primeira e essencial.


Na própria Reforma Protestante, apesar da grave ruptura com a Igreja, não se vê o desejo insensato de romper com o passado. Ao contrário, embora por caminhos gravemente errados, o que desejava o desequilibrado reformador era buscar aquela diritta via que, em sua opinião, fora abandonada pela Igreja.


A originalidade de nossos tempos consiste em querer fazer do processo reformador não uma restauração com critérios assegurados por um padrão básico, não uma purificação dos defeitos para o prosseguimento e progresso de determinada instituição, mas uma transformação e até uma substituição desta forma por outra, diversa e heterogênea. Nem poderia agir de outra maneira uma cultura tão violentamente empenhada em romper com o passado.


Em tal atmosfera, o termo "reforma" já não soará como soou aos ouvidos dos padres tridentinos ou de Santa Teresa d'Ávila. Ao contrário, passa a designar um ideal oposto ao do Concílio de Constança: os eclesiásticos, em vez de voltarem à tonsura e às vestes clericais, deverão vestir-se ou pentear-se cada vez mais como entenderem. A reforma do vocabulário moderno rejeita qualquer padrão preexistente, rejeita a significação primitiva do vocábulo, despreza o prefixo e volta-se para futuras transformações.


Tudo isso seria mera questão de palavras se não houvesse, no moderno reformismo, um defeito essencial que deveria bastar para que as pessoas de bem ou de bom senso o rejeitassem energicamente.


Vejamos. O termo "reforma", no sentido antigo, podia ser usado sem complementação, pois o padrão e o critério estavam claramente subentendidos. O mesmo não acontece quando abrimos mão desse critério e desse padrão. Se reforma quer dizer transformação, então é indispensável completar a ideia. Quando se diz, se grita e se vocifera que é preciso reformar as estruturas, é igualmente indispensável dizer qual é o modelo e qual é a direção que essa transformação deverá tomar. Do contrário, o grito ou a vociferação ficam sem sentido, o que, aliás, já não surpreende tanto.


O que realmente causa admiração é que pessoas da Igreja tenham o atrevimento ou a leviandade de aderir a esse clamor de quem pede uma transformação sem indicar a forma que deseja.


Compreende-se que um estudante saia às ruas gritando que é preciso "mudar as estruturas"; compreende-se menos que um bispo, ou mesmo vinte bispos, façam o mesmo sem declarar quais estruturas desejam mudar e qual a nova forma que pretendem estabelecer. Em casos assim, devemos exigir imediatamente essas duas determinações. Se nenhuma resposta for dada, estaremos autorizados a supor que esse grito vago e indeterminado não passa de um despistamento da malícia ou de um disfarce da estupidez.

Ambas as coisas, aliás, conduzem ao mesmo desaguadouro da revolução universal, que leva o homem a uma condição cada vez mais desumana ou sub-humana, assim como, no universo físico, ocorre um desmoronamento das formas a que chamamos entropia crescente.


É de lamentar que padres e bispos católicos, que deveriam estar prontos a dar a vida pela integridade da Igreja, entrem nessa conspiração universal e sejam os primeiros a tentar dissolvê-la no mundo. Pretendem, com isso, servir aos pobres, como se a salvação temporal deles pudesse ser alcançada pela conspurcação das coisas santas. Nunca, em tempo algum, se cometeu tamanha injustiça contra os pobres.

*Os artigos publicados de autoria de terceiros não refletem necessariamente a opinião do Mosteiro da Santa Cruz e sua publicação atêm-se apenas a seu caráter informativo.

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