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Humanae Vitae

  • há 14 horas
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Por Gustavo Corção publicado n’O Globo em 8 de agosto de 1968


A encíclica recente do Papa sobre a regulação da natalidade não constitui retrocesso algum, como tem sido dito em todos os tons no mundo inteiro. Diríamos antes que é um avanço, no sentido de ser, pela sua reafirmação, um revigoramento da doutrina assentada e especialmente formulada quase quarenta anos atrás na Casti Connubii, de Pio XI. Pode-se também dizer que houve uma abertura maior na parte que se refere à licitude da regulamentação pela continência periódica. E assim a Igreja parece indicar que é nessa direção, e não na da contracepção, que deve a ciência procurar o verdadeiro progresso da regulação da natalidade.


Os critérios principais em que se baseia o documento pontifício são os mesmos que sempre nortearam a Igreja na sua dupla atuação sobre o mundo: o respeito aos desígnios de Deus e o respeito à dignidade da pessoa humana. Qualquer observador, ainda que pouco atento, terá visto que o frenesi do anticoncepcionalismo que se apoderou do mundo, e que não se deteve nos limites do povo de Deus, resulta numa banalização terrível de um ato criador em que Deus mesmo está diretamente envolvido por modo de criação. Paulo VI recorda as palavras de João XXIII (o mais caluniado dos Papas): "A vida humana é sagrada porque, desde o seu alvorecer, compromete diretamente a ação criadora de Deus."


Realmente, quando pensamos que em cada geração de vida humana Deus comparece, quase como se estivesse no sexto dia do Gênesis, para a criação da alma espiritual, o encontro dos sexos ganha uma dimensão que o destaca de todo o universo físico e de todo o processo biológico, psicológico ou afetivo. Ao contrário, quando esquecemos essa dimensão do homem, mesmo sem falar em sua vocação sobrenatural, não há como evitar a aceleração do aviltamento que já se observa a olho nu em nossos costumes.


Torna-se ainda mais grave o problema quando, dentro da própria Igreja, por um processo de secularização degradante, observa-se que estão esquecidas todas as notas essenciais da dignidade humana, e estão todos os problemas reduzidos a programas zootécnicos de engorda de uma subumanidade.


Mesmo quando o mundo indiferente e ateu se desumaniza, ainda haverá um centro de resistência, um cristal catalisador, enquanto a Igreja de Cristo permanece visível, sinal, e enquanto a voz de seus pastores não é abafada pelo vozerio dos mercenários.


Todos nós vimos a violência com que o mundo reagiu à voz de Roma. E por quê? Não vamos imaginar que estejam preocupados com o uso ou não uso da pílula, nem seremos ingênuos a ponto de supor que os protestos vêm das pessoas que se sentem tolhidas, moralmente atadas, pela encíclica de Paulo VI.


Longe disso: as pessoas que clamam continuarão tranquilamente a usar os mesmos processos, e a venda de pílulas não diminuirá 1% no mês de agosto. Na verdade, o que irritou profundamente o mundo inteiro não foi a desaprovação dos métodos anticoncepcionais; foi uma coisa mais profunda e mais aterradora: o mundo, que já imaginava ter deglutido a Igreja, que já imaginava ter conjurado o espectro que obriga a toda uma revisão de valores, e não apenas a uma prática sexual, vê de repente surgir, num ângulo da história, a mesma visão, a mesma Torre, o mesmo Palácio de Sangue e Fogo, como diria Santa Catarina de Sena. E é esse espetáculo que espicaça a opinião pública no mundo inteiro. Daí o quererem exorcizá-lo com uma das fórmulas conhecidas: "Isto é um retrocesso", "não somos medievais", e outras.


O Papa previu esta reação e traduziu o sentimento e o amor da Igreja nestas palavras comoventes:


"É de prever que estes ensinamentos não sejam acolhidos facilmente: muitas vozes, amplificadas pelos meios modernos de propaganda, estarão em contraste com a da Igreja. Em verdade, a Igreja não se surpreende de ser, à semelhança de seu divino Fundador, 'sinal de contradição'; mas nem por isso ela deixa de proclamar, com humilde firmeza, a lei moral inteira, tanto a natural como a evangélica. A Igreja não foi a autora dessa lei e não pode, portanto, ser árbitra da mesma; mas somente depositária e intérprete, sem nunca poder declarar lícito aquilo que o não é, pela sua íntima e imutável oposição ao bem comum do homem. Ao defender a moral conjugal na sua integridade, a Igreja sabe que está a contribuir para a instauração de uma civilização verdadeiramente humana; (...) Fiel aos ensinamentos e ao exemplo do Salvador, ela se mostra amiga sincera e desinteressada dos homens, aos quais quer ajudar, agora já, no seu itinerário terrestre, 'a participarem como filhos na vida de Deus vivo, Pai de todos os homens.'"

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