Um movimento que começa a surgir em vários pontos
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Por Gustavo Corção,
publicado n’O Globo em 22 de agosto de 1968
Logo depois do dia de lançamento de PERMANÊNCIA, recebi de Belo Horizonte uma carta que nos trouxe grande conforto e que não posso deixar de transcrever na íntegra:
“Meu caro Corção: Andava há tempos pensando em escrever-lhe, não só para levar-lhe o meu aplauso (...) mas para sugerir-lhe a necessidade de nos arregimentarmos todos quantos, embora desejando as reformas necessárias para a Igreja, não concordamos com os excessos a que se entregaram bispos e sacerdotes. Pensava em propor-lhe que se formasse um grupo de escritores católicos, em todos os Estados, que, pela imprensa, enfrentassem, com desassombro, os atrevidos ‘progressistas’. Delgado e Nilo Coelho, no Recife, por ex.; eu, João Camilo, Melo Cansado e outros, aqui em Belo Horizonte, e assim por diante. Foi, pois, com a mais alegre surpresa que li no seu artigo de ontem em O GLOBO a formação dessa cadeia de partidários da permanência viva e atuante, e não do conservadorismo paralítico. Aliás, já tivera notícia da Sociedade Humanística que se formara. Venho, pois, trazer-lhe a minha solidariedade e colaboração. Já mandei o Fromm assinar a PERMANÊNCIA para mim. Vou propagá-la por aqui. E me ponho à sua disposição como tradutor e como autor para alguma tarefa que me queira confiar. Vamos agir, vamos trabalhar. Não podemos ficar como espectadores dessa ‘revolução’ anticristã... Deus lhe dê forças para esta grande cruzada, meu caro amigo. Disponha dos préstimos deste seu constante etc.”
Quem assina esta carta é Oscar Mendes, da Academia Mineira de Letras a quem enviamos nossos parabéns pelo merecido Prêmio Machado de Assis que acaba de receber.
Esta carta de Oscar Mendes veio confirmar a convicção de que estamos num movimento maior do que nós, que já começou em vários pontos do país, e certamente em vários pontos do mundo. Recentemente conversamos com Rui Belo, do Recife, que nos trouxe sua agonia e sua generosidade. É outro a nos dizer como Oscar Mendes “vamos trabalhar”. Bela e simples frase! Imagino não sei quantos escritores e militantes da Igreja de ontem e de hoje e de amanhã, da Igreja permanente, a arregaçarem as mangas da camisa com esta disposição excelente: vamos trabalhar.
Em São Paulo, nestes dias (mais exatamente no dia 22) está sendo lançada uma revista de cultura católica Hora Presente, do grupo de José Pedro Galvão de Sousa, Abib Casseb, Van Acker e outros. E agora esperemos que outros pontos do Brasil deem sinal de vida para este movimento conjunto contra os atrevidos a que se refere Oscar Mendes.
Mas o nosso movimento, como o próprio nome indica, não se limitará à tarefa de enfrentar os transviados. O propósito maior e principal será sempre o do testemunho pedido por Nosso Senhor no último instante de sua presença corpórea neste mundo: “Sereis minhas testemunhas...” Escrevendo sobre assuntos religiosos, mas também sobre qualquer outro tema cultural, seja ele literário ou socioeconômico, queremos sempre servir aquela “casta verdade” que deve reinar em nossos corações e em nossas inteligências. O verdadeiro testemunho católico não se cinge às coisas da Fé, mas também às coisas do dever de estado, que concernem ao bem comum temporal. Façamos com zelo e esmero tudo o que fizermos. Se ensinamos geografia ou história sejamos pontuais, assíduos, amigos dos estudantes e sobretudo, sobretudo! amigos da mesma “doce e casta verdade” que se refrata em todas as coisas. Se somos dirigentes saibamos bem conduzir a tarefa comum para o bem de todos. Se somos governantes, governemos com temor e tremor, querendo mais servir do que mandar.
Vamos todos trabalhar pelo Reino de Deus, mas também por este reino da terra tão maltratado pela cobiça e pelo orgulho dos homens ávidos de poder, de publicidade e de dinheiro. Nós somos militantes da Igreja do Verbo Encarnado, e não podemos desprezar o mundo em que vivemos sob a alegação de não ser esta a pátria verdadeira. Ao contrário, por causa de sua ordenação mais alta saibamos nós testemunhar nossa estima por esta terra onde ganhamos o céu. Estou pensando em Bernanos, e alegrando-me com o Museu Bernanos promovido em boa hora por vários admiradores do grande francês. E estou repetindo no coração a frase que ele deixou dita e que me foi transmitida por Fernando Carneiro: “Quand je serai mort, dites au doux royaume de la terre que je l’ai aimé, plus que je v’ai osé le dire.”
Nós não podemos esperar. O tempo urge, e nossa declaração de amor pelo “doux royaume de la terre” tem de ser feita já, e sobretudo tem de ser provada. Vamos trabalhar! Vamos trabalhar!




