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Por Gustavo Corção publicado n’O Globo em 9 de maio de 1968
Recebi nestes dias, com certo atraso, dois números de Documentation Catholique onde tive a satisfação de ler quatro cartas pastorais publicadas respectivamente pelo episcopado alemão, pelo episcopado italiano, pelo norte-americano e pelo polonês. Cada um desses documentos tem sua perspectiva própria, seus vários estilos e vários temas, mas em todos se observam duas constantes de enorme significação.
A primeira constante, positiva e alvissareira, consiste na reação contra a onda de insânia que parece quer destruir, se possível fosse, a Igreja de Cristo. No documento alemão, essa boa reação se coloca nitidamente no plano da dogmática, e começa por enfrentar as fantasias mais difundidas na Alemanha e diríamos também na Holanda, como por exemplo a pretensão de "desmitizar" o cristianismo para dar-lhe uma feição mais condizente com a moderna ciência e com os critérios derivados desse setor da cultura. Eis o que diz o notável documento: "Uma corrente teológica atual muito influente atribui à visão moderna do mundo um papel de critério. Em razão das aquisições da ciência moderna, a visão bíblica do mundo estaria definitivamente superada e as afirmações da Bíblia concebidas na perspectiva dessa visão do mundo não estariam menos afetadas. Ninguém duvida que a visão científica do mundo que se tira dos textos bíblicos esteja ultrapassada. Mas a verdadeira questão consiste em saber se essa concepção científica do mundo tem (na Bíblia) somente valor ilustrativo ou se, ao contrário, pertence também ao conteúdo do texto." (29)
Mais adiante, no tópico (34) o documento dá um exemplo de esvaziamento do conteúdo da Fé produzido pela chamada "desmitização". A afirmação "o Cristo ressuscitou", por exemplo, seria o resultado de uma tentativa de explicação produzida pela reflexão piedosa da comunidade primitiva sobre o tema de um acontecimento pascal destituído de confirmação histórica. Ora, se o Cristo não ressuscitou realmente, é vã a nossa Fé, como diz o Apóstolo, e nós somos as mais desgraçadas criaturas. Mais adiante ainda, no tópico (37) a carta pastoral alemã aborda o tema da Eucaristia e retoma o que o Papa já disse na encíclica Mysterium Fidei a que o mundo católico deu tão pouca atenção. E entre muitas outras sábias considerações sobre o grande mistério de nossa Fé, o documento em questão insiste na necessidade de restabelecer a ideia e a prática da adoração do Santíssimo Sacramento, que tem sido abandonada em todo o mundo.
O documento do episcopado italiano, muito menos denso em ensinamentos doutrinais, versa sobre a relação dos cristãos com a vida pública e os aparelhos de promoção do bem comum temporal. Frisa bem a diferença entre laicidade própria do Estado e o laicismo, doutrina funesta que pretende separar as duas ordens de atividades e subtrair ao reinado de Cristo alguma coisa da vida humana. A grande originalidade deste documento pastoral italiano está em lembrar as partes da Constituição Gaudium et Spes que cuidam da defesa da integridade da família. Há não sei quantos meses ou anos não lia ou não ouvia falar em família nos meios católicos.
Como ninguém ignora, há toda uma onda de promoção de jovens feita na base da quebra do princípio de autoridade e da afronta ao Quarto Mandamento. Agora mesmo um Bispo auxiliar da minha diocese se prepara para levar ao Ministro da Educação um grupo de estudantes onde predominam esmagadoramente os comunistas escolhidos a dedo. Esses precoces aventureiros querem arrancar de um governo atarantado a restauração da UNE. Mas isto é outra história a que voltaremos oportunamente. O documento, norte-americano gira todo em torno do tema central: O Mistério da Igreja, e reafirma energicamente as posições clássicas do Magistério com base na Lumen Gentium. E finalmente o documento polonês, com firmeza não menor, e com sensibilidade maior do que os outros para a grande chaga de nosso tempo, aborda a tragédia do ateísmo moderno. A originalidade desse documento consiste em citar a citadíssima Gaudium et Spes, mas em citá-la num dos tópicos mais enérgicos e por isso mesmo mais silenciados.
E qual será a constante, digamos assim, negativa que creio ter encontrado em todos os documentos, principalmente no alemão e no italiano? Sem nenhuma intenção de criticá-los, eu diria que os redatores parecem cautelosos, cerimoniosos, quase medrosos. Por exemplo, para dizer que a vida cristã é principalmente voltada para Deus — Dieu premier servy — os senhores bispos usaram os seguintes panos quentes: "Convém entretanto salientar que, se a vida cristã deve manifestar-se sempre numa atitude reta em relação ao mundo e ao próximo, ela, a vida cristã, NÃO SE LIMITA A ISSO (realce meu). A penosíssima impressão que se colhe desse tom, dessa precaução não é, de modo nenhum, a de uma indecisão do episcopado. É antes a de um estranho sentimento de intimidação diante do FENÔMENO moderno. Eles falam como quem se dirige a um doente grave, quase como quem fala a um louco.
Para confortar-me dessa impressão penosa que pode ser explicada de várias maneiras sem deixar de ser penosa, chegou-me às mãos, nos mesmos dias, uma pastoral de nosso bom Dom José Maurício da Rocha, Bispo de Bragança. Nesta pastoral, desde a primeira linha, e apesar dos muitos erros de revisão infelizmente inseridos no texto, eu tornei a ouvir a grande voz secular da Igreja sempre moça, sempre virgem e sempre mãe. O Bispo de Bragança, sem nenhuma cerimônia, começa por falar num vento de insânia, e termina com a transcrição de uma impressionante carta escrita por um sacerdote americano ao Papa. Feitas as contas, e apesar dos bispos que lideram os jovens complexados, e que desejam pressionar o governo para aproximar mais o Brasil do regime cubano ou chinês, creio que é amplamente positivo o saldo da semana. Digo isto, é claro, sem falar nas "linhas tortas" de Deus que são sempre infinitamente positivas.




