top of page

A Necessidade Dos Contrastes

  • há 12 minutos
  • 3 min de leitura

Por Gustavo Corção publicado n’O Globo em 7 de setembro de 1968


Escrevi anteontem sobre a Revolução Preto e Branco e sobre o seu inevitável desenlace: o cinzento universal. Esta é a tendência do progressismo católico que se manifesta pelo apagamento de todos os sinais que exprimiam a visibilidade da Igreja. “A Igreja é sinal e instrumento de nossa salvação.” Encontrei tempos atrás, numa casa religiosa, diversos padres excitados que só diziam a propósito de tudo e de nada: “A Igreja já é sinal.” Mas esses padres andavam em manga de camisa, peito aberto, sem a menor preocupação de serem sinal. Nunca na história do mundo se falou tanto sem pensar. O planeta teve um derrame, ou padece de uma estranha disenteria que se manifesta por todos os meios de expressão e comunicação. E uma das consequências, como já assinalei, é o apagamento das diferenças.


Tempos atrás, dez anos apenas, havia uma sensível diferença entre o ambiente de um botequim e o de um templo católico na hora da missa. A diferença atenuou-se, e certos padres jovens estão caprichando para tornar desprezível a diferença. Já me queixei, mais de uma vez, da vulgarização do linguajar usado nos sermões dos “novos padres”. Eles pensam que, para ir ao povo, devem usar gíria e rebaixar a liturgia, sem perceberem que o povo vai à Igreja para buscar nobreza e beleza, para alcançar alguma elevação, e não para se encontrarem todos como no botequim. Não tenho nenhuma aversão a botequins, e até costumo frequentar alguns com prazer e proveito, mas isto não contraria o que disse atrás, e apesar da falta de qualquer prevenção continuo a notar que existe uma forte diferença entre um botequim e uma igreja na hora da missa.


Ora, essa essencial diferença tem sido ignorada por alguns padres que promovem uma nova e estranha experiência: a missa com debates. Sim, leitor, a missa com debates. Não me enganei, e você não leu errado. É isto mesmo: missa com debates. Creio que por enquanto o debate se cinge à hora da pregação, em que o “novo padre”, com horror ao paternalismo, permite que os jovens o aparteiem. Domingo passado o debate girou em torno de quem deveria ter a primazia de nosso amor, Deus ou o próximo. A quem devemos amar em primeiro lugar e acima de tudo, a Deus ou ao próximo. Esse interessante debate ocorreu entre padre jovem e leigos jovens, e creio ter entendido que a chave do curioso fenômeno reside justamente neste ponto: são jovens. Ora, um jovem, como hoje ninguém ignora, não é simplesmente um indivíduo que desfruta momentaneamente o fato de contar uma vintena de anos. Não, o jovem é algo mais substantivo e mais específico. É um ser destacado de toda a comum humanidade e dotado de estranhos privilégios.


Comecei por queixar-me da uniformização de tudo e do cinzento para o qual tende a humanidade, e agora queixo-me da segregação dos jovens que querem viver com regras próprias um mundo à parte. Na verdade, não há contradição, porque os ditos jovens proporcionam o mais impressionante espetáculo de mimetismo do mundo moderno. Todos se imitam, todos se empurram, e ninguém consegue saber quem é o perverso e quais são os patetas.


Por enquanto os debates se limitam à hora da pregação, mas já ouvi dizer que em uma igreja o debate começou na leitura dos evangelhos.


Por enquanto não se usam palavrões nem se injuria a mãe do sacerdote. Isto virá com o tempo. As freiras já leem Marcuse e já vão ao teatro ouvir os palavrões de Roda Viva. O que é comovente e assustador é o desarmamento com que certos padres moços começam a fazer certas coisas sem saber onde irão parar. Eles não conhecem o mecanismo da erosão acelerada. Começam a rasgar a integridade da disciplina, da liturgia, da decência, da dignidade, e de repente, como aconteceu em Ipanema anos atrás, ficam estupefatos com os resultados.


Estou prevendo debates sobre o amor livre e sobre a pílula em plena missa, ou explosão de ódio contra os Estados Unidos na hora em que o padre falar em paz.


Eu só vejo uma vantagem em toda essa confusão: um aumento progressivo de nitidez. Dentro de algum tempo será bem clara, bem visível a linha que separa da Igreja Católica esse novo protestantismo difuso e vulgar, que nem sequer tem o vigor da desobediência de Lutero. Em vez de ruptura e clivagem, haverá deliquescência generalizada. E no meio de uma paisagem de cinza poderemos sempre distinguir, pelas suas cores vivas, o azul e o vermelho, o verdadeiro Sinal de nossa redenção.

*Os artigos publicados de autoria de terceiros não refletem necessariamente a opinião do Mosteiro da Santa Cruz e sua publicação atêm-se apenas a seu caráter informativo.

É proibida a reprodução total ou parcial de textos, fotos, ilustrações ou qualquer outro conteúdo deste site por qualquer meio sem a prévia autorização de seu autor/criador ou do administrador, conforme LEI Nº 9.610, de 19 de fevereiro de 1998.

bottom of page