Carta de Broadstairs - Nº 11
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Nova et vetera
(Mat. 13, 52)
A Vinda do Juiz Soberano
É supérfluo buscar a hora exata em que ocorrerá a Segunda Vinda de Nosso Senhor, pois trata-se de um segredo impenetrável, desconhecido por qualquer criatura.
Entretanto, esse momento supremo, que porá fim ao atual mundo de pecado, será precedido por sinais marcantes que chamarão a atenção tanto dos fiéis quanto dos ímpios, a saber: a perseguição do Anticristo e a aparição de Enoque e Elias. São Paulo afirma que Cristo Jesus matará o Anticristo com o sopro de Sua boca, como se o castigo do homem do pecado coincidisse com a Segunda Vinda. No entanto, essa não é a opinião geral, pois as palavras de São Paulo podem significar que a destruição do Anticristo só se consumará plenamente no dia do Juízo Final, ainda que sua morte tenha ocorrido algum tempo antes.
Além disso, os Evangelhos sugerem com bastante clareza que haverá um certo intervalo de tempo, embora relativamente breve, entre o castigo do monstro e a consumação de todas as coisas. São Tomás de Aquino [Supl. q. 81, art. 1] lança muita luz sobre o período entre a morte do Anticristo e a vinda de Nosso Senhor: “Antes do aparecimento dos sinais do juízo, os ímpios acreditarão estar em paz e segurança, porque não verão o mundo terminando como antes pensavam.” Assim, é possível formular as seguintes conjecturas plausíveis, embora permaneçam no campo das simples probabilidades.
Já falamos do triunfo retumbante da Igreja após a derrota do Anticristo e de como ela abrirá seu coração e seus braços a todos: a seus filhos, aos judeus convertidos, aos hereges convertidos, aos descendentes dos filhos de Noé (Cam, Sem e Jafé); em suma, realizando a grande unidade adquirida pelo Sangue do Cordeiro de Deus, quando haverá um só rebanho e um só pastor.
Sem dúvida ainda haverá pessoas más e ímpias mesmo nesse tempo de triunfo, mas é permitido pensar que elas permanecerão ocultas diante da imensidão da exaltação pública.
Contudo, esses dias maravilhosos durarão apenas até que os homens comecem a esquecer os acontecimentos solenes que levaram à sua felicidade; então surgirá uma certa tibieza após o fervor inicial, e essa transição acontecerá rapidamente, dado que a Igreja já não terá inimigos a combater.
O mesmo tema é desenvolvido pelo padre Arminjon em sua obra O Fim do Mundo e os Mistérios da Vida Futura. Ele escreve: “A humanidade, por um abuso criminoso da graça, voltará ao seu vômito. Voltando suas aspirações para o mundo, afastar-se-á do Deus Todo-Poderoso, deixando de ver o céu e de recordar Seus justos juízos. Toda fé se extinguirá em seus corações. A Providência divina julgará que já não há remédio.”
“Será como no tempo de Noé, quando os homens viviam ocupados com seus afazeres habituais até que veio o dilúvio e submergiu todo o mundo. Assim também a catástrofe final chegará quando o mundo se sentir totalmente seguro, com a civilização no auge, abundância de riquezas, festas nacionais e grandes exposições. A humanidade desfrutará de uma prosperidade material inédita, como o homem do Evangelho que se sente seguro com seus celeiros cheios, mas que, no meio da noite, ouvirá uma grande comoção e uma voz clamando: o Senhor está próximo, ide ao seu encontro (Mateus 25, 6).”
E o autor acrescenta que esses homens não terão tempo para se arrepender, embora nisso devamos divergir, pois a grande catástrofe será de fato precedida por sinais terríveis que constituirão, em conjunto, um apelo supremo da Misericórdia divina.
O sol se obscurecerá, a lua deixará de brilhar, e as leis do movimento dos corpos celestes parecerão suspensas. Haverá grande agitação nos mares, acompanhada de enormes ondas, e a terra será abalada por terremotos, de modo que os homens não saberão onde se refugiar. Por fim, a terra se abrirá e vomitará um inferno de chamas, enquanto nos céus aparecerá uma cruz brilhante que anunciará a vinda do Juiz Soberano.
Ninguém pode dizer quanto tempo esses sinais durarão. A Sagrada Escritura apenas afirma que os homens serão tomados de medo, mas alguns se converterão, como no tempo do dilúvio, segundo São Pedro.
Quanto aos justos, levantarão a cabeça com confiança, e a cruz resplandecente os encherá de alegria. Assim, a Igreja terá completado seu curso terrestre, e a terra terá aguardado até recolher o último dos eleitos.

