AS NOVAS SAGRAÇÕES DA FSSPX, por S.E.R. Dom Gerardo Zendejas
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PAX
Conferência sobre o tema "As novas sagrações da FSSPX" realizada no Mosteiro da Santa Cruz no dia 14/02/26 - Três gerações de sacerdotes, três princípios, uma mesma congregação.
Apenas algumas palavras a respeito dos acontecimentos ligados às consagrações episcopais por parte da Fraternidade de São Pio X, apenas algumas reflexões.
Hoje houve uma reunião entre o Superior Geral, o Padre Pagliarani, e o Cardeal Tucho, que é argentino. O único resultado foi que se estabeleceu um acordo para dar início a um diálogo. Serão realizadas reuniões teológicas para tratar da questão das consagrações episcopais. Esse foi o fruto do encontro de hoje, realizado em Roma. Portanto, entrarão em discussão.
Um exemplo muito concreto é o seguinte: com o anúncio feito pelo Padre Pagliarani e com a data indicada — primeiro de julho deste ano — pretende-se realizar uma cerimônia de consagração episcopal. Uma das razões é que o tempo está se esgotando. A saúde de Dom de Galarreta não está tão boa. Trata-se de uma hérnia na coluna. Viajar lhe é difícil, mas ele continua.
Os sacerdotes da Fraternidade que mais pressionam por essas consagrações são aqueles ordenados entre 1988 e 2009.
Na prática, ao ouvir, percebe-se que os sacerdotes da Fraternidade São Pio X estão divididos em seu modo de pensar. Os padres ordenados antes de 1988 têm uma compreensão do que levou, naquele tempo, às consagrações episcopais.
Por exemplo, quando então se falava da posição da Fraternidade São Pio X, referia-se concretamente à posição de Dom Lefebvre. Agora não. Agora trata-se de outro ponto de vista.
É verdade que os sacerdotes ordenados depois das consagrações — de 1988 até 2009 —, alguns deles já vinham da formação e permaneceram com essa ideia da tradição.
Mas, certamente, após 2009, há um outro modo de pensar entre os sacerdotes. E por quê? Porque em 2009 houve o levantamento das excomunhões dos quatro bispos.
Com o levantamento das excomunhões dos quatro bispos, todos os sacerdotes ordenados depois disso já não possuem pena canônica. Antes de 2009, possuíam.
Quando um sacerdote é ordenado por um bispo em situação irregular, que esteja excomungado, por qualquer motivo, o sacerdote ordenado incorre em suspensão a divinis. Isso é chamado irregularidade.
É importante tornar isso conhecido porque, até 2009, embora já tivessem sido levantadas as excomunhões dos quatro bispos, subsistia a irregularidade dos sacerdotes. Ou seja, não podia haver um acordo com Roma enquanto existisse essa irregularidade.
Assim, os obstáculos naquele momento para um acordo com Roma eram, primeiro, a irregularidade dos sacerdotes.
Segundo, as irmãs da Fraternidade, a Sociedade de São Pio X, que é uma congregação distinta.
Se quisessem regularizar sua situação com Roma, deveriam tratar diretamente com Roma, não os padres.
Outro aspecto difícil naquele momento era o dos irmãos que se formam na Fraternidade São Pio X, que não constituem uma congregação. São irmãos oblatos.
Por isso mesmo, uma das soluções propostas para eles — cerca de oitenta irmãos — era enviá-los de volta às suas casas. Foi o que se propôs então, pois não são uma congregação.
Ou seja, isso fazia parte do que deveria ser acertado no eventual acordo.
As congregações que estavam ao redor — os beneditinos, os dominicanos, os franciscanos — cada uma deveria fazer seu próprio acordo com Roma, pois são consideradas congregações distintas.
Essa era a situação então existente.
Com o levantamento das excomunhões em 2009, abre-se uma nova fase.
Todos os sacerdotes jovens são, portanto, de Roma. Não estão separados de Roma.
A formação desses sacerdotes é muito clara e parte de outros princípios.
Pelas discussões que tive com eles, a ideia que possuem é que, no início, a Fraternidade São Pio X foi muito selvagem e rebelde, indiferente às leis.
Depois do levantamento das excomunhões, a geração mais jovem teria a responsabilidade de pôr ordem na Fraternidade.
Isso permaneceu sobretudo como um modo de agir, e assim se tem procedido.
A mudança mais essencial ocorreu precisamente em 2012, quando Dom Fellay afirmou que um acordo com Roma não poderia ser feito em nível doutrinal, mas deveria ser prático.
A partir daí entrou em cena outro modo de solução.
Um dos princípios que ainda permanece sobre a mesa é a declaração doutrinal de Dom Fellay, composta de 12 números, 12 princípios, apresentada a Roma em 15 de abril de 2012. E ali permaneceu.
Toda essa proposta foi objeto de conflito até que veio a recusa de Dom Williamson em participar do capítulo geral.
Conseguiram que ele não estivesse presente em 2012.
Posteriormente, Dom Williamson nunca recebeu um decreto formal de expulsão. Nunca. Foi algo mais prático: simplesmente o afastaram.
O mesmo ocorreu com Dom Faure. Não houve para eles um decreto formal propriamente dito.
Trata-se, portanto, de uma situação canônica irregular.
Em 2012 — e é isso que veremos agora, na situação atual — a figura canônica oferecida aos superiores da Fraternidade São Pio X foi a prelatura pessoal.
E o argumento é muito simples.
Dom Lefebvre fundou a Fraternidade Sacerdotal São Pio X. Ou seja, não estava previsto que houvesse bispos. Os regulamentos eram próprios de um apostolado sacerdotal.
Com o fato de se ter bispos, sobe-se então a outro nível, e por isso se fala em prelatura pessoal.
Essa estrutura só existe no direito canônico de 1983. Antes disso, não existia.
Atualmente — inclusive no presente — há apenas uma estrutura com esse nome: a da Opus Dei.
Ela foi transformada após a morte de seu fundador, Escrivá de Balaguer, e foi reorganizada com novos princípios e regras nessa forma chamada prelatura pessoal.
Assim, em princípio, já não existe apostolado como figura jurídica independente, falando tecnicamente.
Esses aspectos são importantes porque, naquele momento, essa estrutura foi oferecida como solução para o problema, a fim de permitir um acordo com os bispos da Fraternidade.
E aí surge uma questão, porque uma condição implícita era que Dom Williamson estivesse fora.
Foi isso.
Esse rumor surgiu por causa da carta que o Papa Bento XVI escreveu em março de 2009, indicando o que deveria ser feito com os sacerdotes da Fraternidade São Pio X. Trata-se de um ato público, um escrito público, uma carta longa, redigida em março, logo após o levantamento das excomunhões. As excomunhões foram levantadas em 21 de janeiro de 2009.
Como se sabe, o Papa Bento XVI renunciou. Ele deixou o cargo. E o fez num momento importante, quando se aproximava um possível acordo com a Fraternidade São Pio X. Ao sair, tudo ficou suspenso.
Uma das razões — e isso poderia ser confirmado pelo Padre de Cacqueray, então superior do Distrito da França — é que ele deixou a Fraternidade para se tornar monge franciscano em Morgon. Não quis mais interagir com essa situação.
Mas uma das coisas que fez foi enfrentar aquele momento, isto é, dizer a Dom Fellay que ele não podia modificar os estatutos da Fraternidade São Pio X. Essa era a razão secundária da reunião realizada em junho de 2012. Era o princípio necessário para dar um passo rumo a um acordo com Roma.
Tudo isso é técnico, tudo isso é jurídico. E precisamente esse aspecto jurídico permaneceu pendente.
Por quê?
Porque o aspecto das consagrações episcopais de 1988 foi um aspecto doutrinal, não jurídico.
E o aspecto doutrinal é a necessidade da salvação das almas.
E a única forma de salvar as almas é mediante a recepção dos sacramentos.
Para Dom Lefebvre havia uma dúvida quanto aos sacramentos do Novus Ordo.
Essa é a razão pela qual fundou a Fraternidade Sacerdotal São Pio X: para que não houvesse dúvida nos sacramentos, do batismo até a extrema-unção.
O fato de ter realizado as consagrações episcopais em 1988 foi para manter essa linha: sacramentos seguros.
Nas tentativas de acordo desde 2012, Dom Fellay simplesmente saltou a cerca.
Ou seja, antes estava deste lado, tradição; do outro lado, Novus Ordo.
Dom Fellay saltou a cerca.
Agora está do outro lado e afirma que todos os sacramentos do Novus Ordo são válidos, desde que realizados com a intenção tradicional da Igreja.
Com esse princípio — expresso em sua declaração doutrinal e que agora é aceito — uma prática deles passou a ser não reordenar sacerdotes do Novus Ordo.
Eles os admitem como tais.
E, com o tempo, surgem problemas.
Atualmente, por exemplo, no Distrito dos Estados Unidos da Fraternidade há mais de vinte sacerdotes do Novus Ordo que auxiliam no apostolado.
Um deles é casado.
E é aceito como sacerdote, administrando uma capela.
Como foi casado?
Não querem dizer, mas aparentemente esse sacerdote, já idoso, foi anglicano e se casou.
Depois converteu-se ao catolicismo, mas nunca deixou de ser casado.
Permaneceu casado.
Após sua conversão, não coabitou mais, mas tinha filhos. E ainda vivem.
Se alguém lhe pergunta: o senhor é casado? Ele responde: sim.
Tem esposa? Sim.
Tem filhos? Sim.
Os filhos têm quarenta, sessenta anos, algo assim.
Mas a questão está no princípio.
Por quê?
Porque, para eles agora, a intenção nos sacramentos é a intenção que a Igreja realiza, e todos os sacramentos do Novus Ordo são válidos. Todos.
Como começou esse princípio?
Após 2012, em fevereiro, quando o Papa Bento XVI renunciou e foi eleito o Papa Francisco.
Quando o Papa Francisco assumiu, pouco tempo depois anunciou o que chamou de Ano da Misericórdia.
Disse que seria um ano de misericórdia.
Todos poderiam ir à capela, e todos os pecados seriam perdoados.
Foi estabelecido por um ano.
Ao final desse ano, declarou: para recordar este Ano da Misericórdia, concederemos jurisdição universal a todos os padres da Fraternidade São Pio X.
Ou seja, delegou-lhes jurisdição.
Primeiro para a confissão.
Foi publicado o documento: as confissões deles são válidas porque estão dentro da Igreja. Nós os perdoamos.
Essa foi a notícia.
Mas o que aconteceu?
Com esse ato, eliminaram a irregularidade de todos os sacerdotes ordenados entre 1988 e 2009, sem exigir dos padres uma carta pedindo regularização.
Compreendem?
Compreendem o que estou dizendo?
Exatamente.
Utilizou-se o pretexto de uma jurisdição universal para perdoar todas as irregularidades que os padres possuíam, sem exigir arrependimento, e toda a Fraternidade entrava em comunhão com Roma.
Foi isso que ocorreu.
Isso aconteceu com o Ano da Misericórdia, especialmente com a delegação para a confissão.
No ano seguinte, o Papa Francisco concedeu que todos os matrimônios celebrados pela Fraternidade fossem aceitos pelo bispo local e que fosse dada jurisdição aos sacerdotes da Fraternidade que quisessem aceitá-la para celebrar matrimônios.
Desde então, nem todos os padres celebram matrimônios; apenas aqueles que aceitam a delegação concedida pelo bispo do lugar.
É uma distinção muito importante, porque há muitos padres que não aceitam e, por isso, não lhes é permitido celebrar matrimônios.
Houve casos bastante concretos que mostram isso.
Todos os documentos para o matrimônio vão ao prior.
O prior os apresenta ao bispo.
O bispo os chancela.
E então o matrimônio é celebrado, às vezes com um sacerdote do Novus Ordo como testemunha.
Esse é o procedimento normal.
Depois, no tempo do Padre Wegner, superior nos Estados Unidos, ele pediu o que se chama sanatio in radice.
Tudo isso é técnico, mas essa sanatio mostrava que aquelas pessoas que tinham dúvida sobre a validade de seus matrimônios, mediante esse pedido do superior, passavam a tê-los como válidos.
Mas aqui surge o problema.
Os ministros do matrimônio são o esposo e a esposa, não o sacerdote.
Isso é catecismo.
Portanto, se alguém quer a sanatio in radice, devem ser os próprios ministros que a peçam, não o sacerdote.
E o que fez a Fraternidade foi que o superior pedisse aos bispos do lugar que sanassem todos os matrimônios.
São detalhes aparentemente pequenos, mas que manifestam um fim: a união com Roma.
E tornar válidos todos os sacramentos do Novus Ordo.
E, precisamente, no ano passado, foi-se ainda mais longe.
No ano passado, os superiores de distrito, especialmente da Alemanha e da Inglaterra, enviaram uma nota circular afirmando que, a partir daquele momento, não se poderia mais conferir o sacramento da Confirmação sob condição.
De modo algum seria aceitável.
E há quinze dias, não mais que três semanas, na França, o superior de distrito enviou uma carta dizendo o mesmo, antes do anúncio das consagrações episcopais.
Ou seja, não o aceitarão.
A questão importante é por que aqueles sacramentos do Novus Ordo conferidos na confirmação seriam válidos.
Trata-se, portanto, de uma questão prática.
Se todos os sacerdotes ordenados no Novus Ordo são válidos, para que serviria a Missa tradicional?
Para quê?
Esses detalhes mostram que a posição doutrinal atual da Fraternidade São Pio X, ao realizar consagrações episcopais, é não sair do sistema.
Porque, neste momento, eles estão regularizados.
Um exemplo muito simples é o de uma vela.
Quando o Padre Pagliarani anunciou que, no primeiro de julho seguinte, fariam consagrações episcopais, apresentou o ato como acender uma vela.
Mas Roma respondeu rapidamente e acendeu a vela pelo outro lado, exercendo pressão.
Agora a vela está acesa pelos dois lados.
É uma questão doutrinal ou é uma questão jurídica?
Há quatro princípios que diferenciam a Resistência da Fraternidade.
Ainda que se celebre a Missa tradicional, ainda que se faça tudo como antes se fazia com Dom Lefebvre, há quatro pontos que, neste momento, são diferentes.
Primeiro, as confissões.
Muitos sacerdotes dizem que as confissões que nós fazemos não são válidas porque não temos delegação para realizá-las.
Não é verdade; são válidas.
Mas eles dizem que não, porque possuem delegação concedida pelos Papas.
Assim, a absolvição no sacramento da penitência eles realizam de uma maneira; nós a realizamos de outra, como antes se fazia.
Segundo, o matrimônio.
Eles o celebram com aceitação do bispo do lugar.
Nós utilizamos o princípio de que as pessoas que desejam casar-se não podem encontrar um sacerdote que pense conforme a tradição em quatro pontos fundamentais.
Para casar-se há quatro pontos.
E aqui surge um detalhe, pequeno mas muito perigoso.
O Novus Ordo permite o divórcio sob o nome de nulidade.
Nome diferente, mesmo fato.
É uma armadilha.
Então se prega que não se aceita o divórcio, que não se pode viver em união livre, que é pecado viver em união livre.
Há também a questão da castidade no ato conjugal, da abertura à vida, do uso de métodos para restringi-la.
E que o matrimônio deve ser abençoado como sacramento da Igreja, sendo os ministros os próprios esposos e o sacerdote a testemunha qualificada que celebra esse matrimônio.
Portanto, quatro pontos.
Primeiro, a confissão é diferente.
Segundo, o matrimônio é diferente.
Terceiro, os princípios pelos quais Dom Williamson consagrou bispos.
Ele o fez para manter duas coisas.
Primeiro, a sucessão episcopal, a sucessão apostólica, a nota de apostolicidade.
Foi isso que Dom Lefebvre manteve: os sacramentos.
As consagrações episcopais dos sedevacantistas são consideradas duvidosas pela forma como foram realizadas.
Sabe-se que os sedevacantistas possuem duas linhas principais.
Talvez uma terceira aqui no Brasil.
Há a linha de Thuc e a de Méndez.
E os sedevacantistas estão divididos há quase cinquenta anos, dizendo que estes não são válidos e aqueles o são, e vice-versa.
Qual é a centelha que alimenta essa batalha que já dura cinquenta anos?
O fato de terem sido feitas em segredo.
As cerimônias nunca foram públicas.
Por exemplo, Dom Méndez não queria ser excomungado e pediu que se tirassem fotografias e que, após sua morte, se revelasse quem era o bispo consagrado, que foi Kelly.
Entretanto, em todas as fotografias feitas com Kelly, nunca se vê o bispo atuando no altar; ele está sempre sentado, como posando para uma foto, mas não pontificando.
No caso de Dom Thuc, que consagrou outros, especialmente em Palmar de Troya, a situação foi diferente, mas também problemática.
Dom Thuc nunca abandonou completamente a Nova Missa.
Realizou consagrações episcopais e ordenações sacerdotais em latim, com o rito tradicional, mas continuou membro da Igreja oficial.
Sempre.
Inclusive ligado a movimentos carismáticos quando era bispo no Vietnã.
Quando foi à Espanha, a Palmar de Troya, consagrou bispos.
E esses bispos consagraram outros.
E multiplicaram-se.
Fizeram cardeais.
Depois, um conclave.
Depois, elegeram um papa.
Tudo isso causou grande confusão.
E um dos fatos graves foi que, interrogado posteriormente, atribuiu-se a ele ter dito que não teve a intenção de fazer bispos.
Crê-se ou não se crê nele?
Essa é a dúvida.
E essa dúvida se arrasta há cinquenta anos.
Por isso, para Dom Lefebvre, era essencial que as consagrações fossem públicas e claras.
Para manter a tradição e poder conferir os sacramentos tradicionais sem dúvida.
Quando consagrou quatro bispos em 1988, assegurou a continuidade do episcopado tradicional.
Agora, nas consagrações atuais, um dos aspectos importantes será o mandato, o documento escrito pelo qual irão consagrar esses bispos.
O que ali disserem mostrará a intenção.
Atualmente, Roma impulsiona fortemente a aceitação da Igreja sinodal.
Querem que a Fraternidade faça parte dessa Igreja como ala tradicional reconhecida.
Farão ou não farão?
Ver-se-á.
Mas é uma discussão teológica que eles terão de enfrentar.
Essa situação torna diferentes as consagrações que farão este ano daquelas realizadas em 1988 com Dom Lefebvre.
Dom Lefebvre queria salvar a tradição, os sacramentos como meio de salvação.
Existia um estado de necessidade, porque não havia certeza quanto aos sacramentos.
Era preciso fazer bispos para manter o sacerdócio católico tradicional.
Agora é diferente.
Agora é: não queremos ser excomungados, mas queremos estar dentro da Igreja.
Então vamos fazê-lo assim.
Sim, existe uma necessidade de atender às almas, mas busca-se como fazê-lo sem romper juridicamente.
É completamente diferente.
Completamente.
Segundo o que ouvi de segunda mão, querem consagrar vários bispos, entre cinco e sete, jovens e mais velhos.
E, aparentemente, alguns dos mais jovens colocaram como condição: se for com permissão do Papa, sim; se não for com permissão do Papa, não.
Se o Papa der permissão, quero ser bispo.
Mas, se não der, não quero ser bispo.
Há, portanto, uma diferença de princípios neste momento.
E fixaram uma data.
Se mudarem a data, enfraquecem-se.
De todo modo, Dom de Galarreta e Dom Fellay têm muitíssimo trabalho.
E os anos não passam em vão.
Cancelaram muitas cerimônias de confirmação na França.
Muitas.
Há três grupos.
Antes de 1988.
De 1988 a 2009.
De 2009 até hoje.
Desde 2009 até agora são aproximadamente 350 sacerdotes.
Do grupo intermediário, cerca de 300.
E do grupo anterior, em torno de 100.
Essa é a totalidade aproximada.
Quando falam de necessidade, falam também de necessidade interna.
Porque não há uma unidade absoluta como em 1988.
Há tensões internas.
Mas é um fato.
Faltam bispos.
É um fato.
Dom Tissier, no ano anterior à sua morte, já não conseguia concluir as cerimônias de ordenação sem pausas.
Tinha de sentar-se, beber água, descansar, continuar.
As cerimônias tornaram-se mais curtas.
O mesmo sucedeu recentemente.
Dom de Galarreta cancelou ordenações nos Estados Unidos por motivos de saúde.
Existe, portanto, uma necessidade prática.
Mas a pergunta é: a que custo?
E aqui está o ponto delicado.
O estado de necessidade que agora apresentam contradiz o que antes afirmavam.
Quando Dom Williamson consagrou Dom Faure há mais de dez anos, a Fraternidade publicou um escrito dizendo que não existia estado de necessidade.
Que, portanto, incorria em excomunhão.
E até há poucos anos alguns superiores afirmavam que, quando uma crise ultrapassa cinquenta anos, deixa de ser extraordinária e torna-se ordinária.
E, portanto, o magistério deveria ser aceito como ordinário, inclusive o do Vaticano II.
Além disso, prepararam o terreno doutrinal.
Há cerca de um ano, o Padre Pagliarani deu uma conferência aos superiores dizendo que a posição sobre a ordenação no novo rito explicada pelo Padre Álvaro Calderón não era a posição oficial da Fraternidade.
E foi pedida retratação.
E foram modificadas edições do livro Prometeo.
Em algumas traduções há diferenças significativas em relação ao original.
Isso mostra uma linha doutrinal clara.
A tese atual é que o rito é um só, em forma ordinária e extraordinária.
Isso procede do princípio formulado por Bento XVI.
E isso influenciou a mentalidade de muitos sacerdotes jovens.
Assim, veem a necessidade de bispos para sobreviver, mas ao mesmo tempo trata-se de uma aproximação com Roma, não de um afastamento.
E é isso que estamos vendo.
O fato de anunciarem consagrações episcopais não significa que se faça isso sob os mesmos princípios de 1988.
Se o fizerem, alguns dirão que isso confirma que Dom Williamson tinha razão ao preservar a sucessão.
Mas o contexto doutrinal é diferente.
É isso que está acontecendo.
Quanto à Fraternidade São Pio X e quanto a Roma, sabe-se que o Papa é americano. Foi formado em Chicago. É discípulo dessa escola, e ele próprio o afirmou. Pode-se ver isso no discurso que proferiu quando obteve o grau em direito canônico para poder ser cardeal. Fala perfeitamente espanhol. Viveu no Peru por mais de vinte anos.
Na universidade, no Peru, foi apresentado como cardeal, e sua tese trata da ética do cardeal Bernardin. O cardeal Bernardin é conhecido por toda a história ligada a uma linha progressista nos Estados Unidos. E se diz que, quando jovem, ele pertencia a esse grupo — não que tivesse participado pessoalmente de certas condutas, mas que fazia parte dessa formação intelectual.
Assim, para ele, trata-se da ética do momento e do princípio intelectual de realizar uma dialética. Esse é o modo de ação desse Papa.
Por exemplo, em termos concretos: formula um princípio à direita, formula outro à esquerda e os une no centro. Isso se chama dialética.
Então diz: os católicos tradicionalistas estão bem; os ortodoxos também estão bem. Mas nem tão à direita, nem tão à esquerda. É preciso estar no centro. Sempre os reúne no centro para evitar extremos.
Hoje é proibido ser fundamentalista em qualquer coisa. Se é fundamentalista protestante, não. Se é fundamentalista católico romano, não. Se é fundamentalista muçulmano, também não. Deve-se ser tolerante. Mas não se pode tolerar os intolerantes. Percebem?
Por exemplo, quanto à cremação: sabe-se que no Código de Direito Canônico de 1917 ela era proibida sob pena de excomunhão. No de 1983 é permitida. Mas o Papa afirma: não é bom cremar-se, porque se destrói a imagem de Deus; fomos criados à imagem de Deus. Não é bom ser queimado. Mas como todo mundo o faz, agora é preciso regulamentar bem.
Então estabelece condições: que não se comam as cinzas, que não sejam dispersas, que não sejam transportadas como objeto trivial, que sejam depositadas em lugar sagrado. Impõe condições, e ao final conclui que agora se pode cremar. Assim funciona o raciocínio.
Ele consolida os passos dados pelo Papa Francisco. E qual é a força que impulsiona isso? A Igreja sinodal.
Até agora conferiu cargos importantes em dicastérios a mulheres. Não as chama cardeais, mas funcionalmente ocupam posições de autoridade. Nomeou bispos nos Estados Unidos com perfil claramente progressista.
Dá um passo à direita e outro à esquerda.
Ordena sacerdotes na Basílica de São Pedro com ladainhas em latim, o Kyriale em latim, cantos em latim, mas dentro do rito novo. Há concelebração. As leituras podem ser feitas por mulheres.
No Novus Ordo, na ordenação sacerdotal, utiliza-se o santo crisma. No rito tradicional utiliza-se o óleo dos catecúmenos.
Na ordenação tradicional, o bispo unge as mãos traçando duas cruzes, unge os dedos, a palma, ata as mãos do novo sacerdote, e depois este toca a patena e o cálice. É uma teologia do sacrifício.
No rito novo não é assim. Unge-se com o santo crisma e a cerimônia prossegue sem esse simbolismo tão marcado.
Surge então a pergunta: por que mudar a matéria?
O crisma está propriamente reservado ao bispo; o óleo dos catecúmenos corresponde ao sacerdote.
Por que usar o crisma para o sacerdote?
Porque, no batismo do rito novo, existe a possibilidade de ungir as mãos, o que abre a porta para ministros extraordinários da comunhão.
E, como se batizam tanto mulheres quanto homens, justifica-se que mulheres distribuam a comunhão.
É outro conceito teológico. O sacerdote deixa de ser visto primariamente como homem do sacrifício e passa a ser administrador.
Segundo a teologia clássica, uma ordenação sacerdotal deve realizar-se dentro da Missa. Não fora dela.
Dom Lefebvre, quando reordenava sacerdotes provenientes do novo rito, fazia-o dentro da Missa completa, não apenas impondo as mãos.
Perguntei a sacerdotes que foram reordenados por ele. Sempre foi dentro da Missa. Completa.
E muitos desses sacerdotes permaneceram mais firmes do que aqueles que apenas receberam a imposição das mãos.
Esse era o seu modo de proceder.
Dom Lefebvre não era infalível, mas era homem de Igreja e tinha profundo senso de fidelidade.
Hoje, tanto na Fraternidade quanto na Resistência, não se segue exatamente sua linha.
Quanto à liturgia de 1950, de 1955 e de 1962: a reforma de 1955 foi em parte experimental. O missal de 1962 recolhe reformas anteriores, muitas provenientes de São Pio X.
O missal utilizado para o canto nas ordens religiosas foi impulsionado por São Pio X.
A redução dos volumes do breviário tem precedentes em reformas anteriores.
Por isso, o missal de 1962 não surge no vazio.
Traditionis Custodes, assinada pelo Papa Francisco, possui força vinculada ao Vaticano II.
É uma aplicação da reforma litúrgica iniciada pelo Concílio.
Se se aceita plenamente esse magistério como vinculante em tudo, termina-se aceitando também a estrutura sinodal.
Por isso os superiores da Fraternidade encontram-se numa situação delicada.
Estão negociando para evitar uma divisão interna que já existe.
Quatro diferenças concretas hoje:
A confissão.
O matrimônio.
As consagrações episcopais.
O conceito de estado de necessidade.
Nos Estados Unidos há grande número de anulações. Incompatibilidade de caráter e imaturidade são causas frequentes.
Muitas vezes o bispo local intervém.
A questão litúrgica implica também rubricas.
Alguns seguem estritamente o calendário de 1950.
Não celebram Missa à tarde.
Exigem jejum desde a meia-noite.
Observam as quatro têmporas sob obrigação grave.
O missal de 1950 não possui pontifical próprio; utiliza-se o anterior.
A reforma de 1962 estabeleceu que o ritual anterior é normativo para os sacramentos.
Bento XVI permitiu o uso do rito de 1962 para a Missa e do ritual anterior para os sacramentos.
A única mudança significativa foi a oração da Sexta-Feira Santa.
A Fraternidade a rejeita.
Herege significa aquele que escolhe.
E hoje existe uma mentalidade seletiva: escolher o que convém.
Dom Lefebvre sofreu divisões internas por causa da liturgia.
Estabeleceu uma carta de fidelidade que se manteve até sua morte.
Depois foi modificada.
Em 1988, quando lhe foi apresentado o protocolo, havia um documento adicional que implicava aceitação doutrinal do Vaticano II.
Ele o rejeitou.
Disse: temos as mesmas palavras, mas não os mesmos conceitos.
Esse é o problema atual.
Se se aceita plenamente a validade sem reservas dos sacramentos do Novus Ordo, desaparece o argumento do estado de necessidade.
O Padre Pagliarani sustenta que não se pode duvidar sistematicamente.
Por isso pediu retratação ao Padre Calderón.
Segundo alguns escritos, a intenção não é a intenção subjetiva do ministro, mas a intenção objetiva da Igreja.
Por isso já não aceitam confirmações sob condição.
Não reordenam sob condição.
O temor principal é a divisão interna.
As anulações são frequentes.
A pressão moderna é forte.
E as pessoas passam de um centro a outro.
Casam-se aqui, anulam ali, tornam a casar-se em outro lugar.
Dois princípios coexistindo.
Esse é o estado atual.
*
TRANSCRIÇÃO: Canal Tradtalk - Substack em <https://tradtalk.substack.com/p/as-novas-sagracoes-da-fsspx-por-ser>. Acesso em 19/05/2026.

