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A alguns leitores


Por Gustavo Corção,

publicado n’O Globo em 05 de outubro de 1972


O ÚNICO meio de que disponho para corresponder aos bondosos e numerosos leitores que me escrevem palavras de encorajamento é o de permanecer nestas colunas, duas vezes por semana, a tempo e contratempo. Suplico aos meus missivistas que vejam nestas palavras atiradas por cima dos telhados uma resposta particular, pessoal e agradecida. Aqui estou, aqui fico. Não imagine, porém, o amado leitor que as bondosas palavras de encorajamento me tenham incutido a ideia de estar aqui fazendo obra de valor e importância que os unborn leitores do século XXI aplaudirão de pé, como os espectadores do princípio deste desvairado século aplaudiram Caruso. Com o risco de me comprometer com a grande imprensa, que milagrosamente e misteriosamente me atura e me sustenta, direi que dia a dia mais me convenço de duas coisas complementares embora aparentemente disparatadas. A primeira é a da inutilidade de meu serviço; a segunda é a da necessidade imperativa de fazê-lo. Diante de Deus sei, um pouco melhor de que meus adversários, que não passo de um inútil servidor, mas também sei que não posso deixar de trazer ao meu Senhor a palha de minha inutilidade. Como os namorados, que doidamente creem imprimir numa pétala de rosa o sinal de um coração transbordante, o velho apaixonado das belezas de Deus põe todo o seu ridículo e inútil amor nesta palha que oferece com temor e tremor. Deus meu!


* * *


NEM por isso é menor a minha gratidão pelos amigos que pela milésima vez me escrevem; "clama ne cesses!"


HOJE, com grande atraso, leio a carta do Padre Teodoro Ferrenato que de Santa Catarina me grita a palavra de Isaías. Pelo Pax et Bonum! da saudação inicial depreendo que se trata de um bom filho de São Francisco de Assis, cuja festa, no dia 4 deste bravo 72, transcorrerá no meio de uma sinistra orgia de falsos franciscanos que não têm a elementar lealdade de publicar a evidente apostasia. Caríssimo Frei Teodoro, festejemos nós com a Igreja, com a verdadeira e única Igreja de Cristo, o dia em que o Poverello nu, recém-nascido nos céus, foi enfaixado com tiras de luz do manto de Nossa Senhora; e assim, o pobre que se pôs nu para desprender-se de todos os vínculos da carne e do sangue se achou vestido com o linho da Glória. Imitemo-lo, caríssimo irmão Teodoro, e não queiramos nós, como os ébrios, ataviarmo-nos com a triste glória inventada por nosso delírio.

OUTRO amistoso missivista, o Sr. António C. V. de Azevedo, escreve-me para um desabafo e para enviar-me um recorte onde se lê parte do infeliz documento com que os peritos, ou — quem sabe? — as máquinas de escrever da CNBB trouxeram sua contribuição às festas do Sesquicentenário. Consolemo-nos, amigo paulista, com o infarto que fulminou São Paulo e que de certo modo desagrava a clamorosa injustiça praticada na Guanabara contra o Sr. Holanda, infatigável batalhador, cuja A CRUZ se transformou numa verdadeira cruz do mesmo santo madeiro lavrado por Jesus. Deus lhe pague, amigo Azevedo.


OUTRO leitor, agora de Porto Alegre, julgou-se na obrigação de me enviar uma soma de documentos para provar que ainda existem muitos padres bons. A certa altura esse leitor afiança que a maioria deles "não se enquadra no âmbito de repetidas críticas que, quase sempre em sentido genérico, tem V. Sª escrito a respeito do Clero brasileiro". Ora, aqui o amigo leitor tresleu. Eu nunca escrevi em sentido genérico contra o Clero, e desde já desafio quem queira provar o contrário. Mas também não posso deixar sem resposta o tom tranquilo com que meu missivista de Porto Alegre abre tão grande crédito para a "maioria absoluta". Vejo claramente que meu leitor Antônio Américo quer tranquilizar-me a qualquer preço. Não sei como explicará tão calamitosa situação para a Igreja com essa "maioria absoluta" de bons padres, bons bispos e evidentemente também de bons leigos. Estranha bondade majoritária e absoluta que não se manifesta, que não dá testemunho de sua força!


OUTRO leitor, a propósito de meu artigo sobre o "boffismo", também quer tranquilizar-se e tranquilizar-me. Diz que essas coisas são estúpidas demais para durar. Em um ou dois meses estará enterrado e esquecido esse moedeiro falso.


SEM dúvida! Sem dúvida! Mas em lugar dele estará na ribalta, a colher aplausos de um mundo estupidificado, outro boff ainda pior do que o anterior. Agradeço a boa intenção do amigo leitor que receando o meu desgaste teve a carinhosa ideia de tranquilizar-me. Agradeço mas não posso aceitar essa espécie de tranquilizador. Aparentemente, esse sedativo protegeria nossa Fé e nossa Esperança contra as decepções do mundo católico. Na verdade, porém, esse tipo de autoengano mais molesta do que vivifica as virtudes teologais. Apego-me eu ao meu cansaço, à tristeza, às lágrimas, porque é com essa matéria — e não com o otimismo — que se alimenta a esperança verdadeira.


FAÇO minha — e ofereço-a aos bons leitores — esta resposta ardente dada por Bernanos a Mauriac, que o acusava de pessimismo: "Não! Não é por pessimismo que repilo todo esse "mundo moderno": eu o repilo com todas as forças de minha Esperança!"


NO QUE concerne à sorte da Igreja neste mundo, não duvido um só minuto de uma coisa. Estamos sendo provados, joeirados, insultados por Satã, mas Deus ainda aqui na sua Igreja Militante e peregrina certamente tirará de todas essas ondas de mal uma superabundância de santidade. Não chegarei à ingenuidade excessiva de dizer que a maioria absoluta dos católicos dá sinais de santidade; mas creio firmemente que neste mesmo instante milhares e milhares de almas santas maravilhosamente trabalham para completar na paixão do Corpo Místico de Cristo o que falta para sua perfeita conformação. E é certamente desses obscuros e invisíveis heróis de Deus que nos vêm os melhores alentos com que conseguimos, sem desespero, suportar nossa triste inutilidade.


TALVEZ seja para acelerar o Advento da Justiça, talvez seja a amorosa impaciência de Deus que hoje, diante de nossa consciência boquiaberta, permite tamanha audácia aos servidores de Satã, e permite esses estridentes prestígios que nos aparecem como batalhas ganhas pelo inimigo.


TRANQUILIZEMO-NOS na verdadeira Esperança: "No mundo tereis tributações, mas tende confiança em mim, eu venci o mundo." (Jo XVI, 33)

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