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XXVII – Fé e Incredulidade - A incredulidade e suas causas



Fé e Incredulidade


A incredulidade e suas causas


II – A incredulidade e suas causas


1 – Como se dão os incrédulos?


Vistes os argumentos e os testemunhos que provam a divindade da Fé e da Religião. Ora, como é que, diante de provas tão convincentes, decisivas e incontestáveis, há os que não creem, os que zombam da Fé, e até os que, nascidos e criados no catolicismo, renunciam à sua Fé? Antes de tudo é de se recordar que a Fé é um dom de Deus: e devemos ter presente o que disse Jesus Cristo: “Ninguém se pode chegar a mim (com a Fé) a não ser trazido pelo Pai: qui misit me traxerit eum” (Jo 6, 44). Para crer é preciso ter a luz da graça divina: senão, fica-se cego mesmo ante a luz do sol. As causas, pois, da incredulidade, são:


a) A ignorância;

b) O orgulho;

c) A corrupção do coração.


2 – A ignorância


Digamo-lo, afinal, claramente: são muitíssimos os que, relativamente à religião, sabem-na menos que uma criança que haja frequentado alguns meses a Doutrina. E quando se ignoram os dogmas com as provas que lhes demonstram a verdade, quando todo o pensamento está voltado para as coisas frívolas e danosas, que admira se falta a Fé?


Uma senhora ignorante – Viajava um douto sacerdote francês num trem com uma senhora que se gabava de ser incrédula em matéria de religião. O sacerdote, com toda calma, lhe perguntou: “A Sra. Já estudou a religião?”. Responde ela: “Certamente. Li a enciclopédia, Voltaire, Diderot...”. “E as obras de Bossuet, de Fénelon e de Wiseman, e as conferências de Frayssinous... leu-as?”. “Que acha? Tais livros eu nem sei se existem”, disse a senhora. “Mas pelo menos um Catecismo, tê-lo-á estudado?”. “Realmente! Eu tenho mais o que fazer, para ocupar-me com essas coisas!”. “Então, perdoe-me – conclui o sacerdote – não diga que a senhora é uma incrédula, diga antes que é uma ignorante. Estude a religião e as verdades da Fé parecer-lhe-ão claras; e a senhora convencer-se-á da divindade da religião católica”.


Quantos se gabam de serem incrédulos e são ignorantes! Também encontram, mormente entre os jovens, quem com facilidade de covardia crê em seus discursos contra a Fé! Mas terão lido algum dia um só livro de religião? Abriram algum dia o Catecismo?


Incrédulos doutos? Dir-se-á: Entre os incrédulos também se encontram homens de ciência. Não se nega: mas se têm cultura noutras disciplinas, não a tem em matéria de religião. Esta, ou não a estudaram nunca, ou então só leram obras em que ela é combatida. Por conseguinte, são também ignorantes na Fé. Aliás, nós sabemos que os maiores sábios de todos os séculos foram crentes e favoráveis ao Catolicismo.


La Harpe – O famoso literato francês La Harpe († 1803), poeta dos bacanais parisienses, professou de início os princípios da Revolução, ligado por amizade aos enciclopedistas. Preso como suspeito, no cárcere ele se corrigiu. De que modo? Começou a perguntar a si mesmo: “Estou com a verdade?”. O coração respondeu-lhe que não. E La Harpe se entregou à meditação e ao estudo da Religião; e, ajudado pela graça divina, chegou à Fé. Ao sair do cárcere, a quem lhe perguntava: “Como mudaste de opinião?”, respondia: “Cri, porque examinei; examinai também vós, e crereis”.


3 – O orgulho


Eis outra causa da incredulidade, que amiúde está unida à ignorância. O soberbo de inteligência julga-se capaz de penetrar tudo, de submeter tudo a exame, até as obras de Deus. Desdenha seguir os outros na crença, por isso rejeita a Fé como coisa vulgar. Parece-me estar vendo esse miserável, com uma balança entre as mãos. Num dos pratos deveria ele pôr a voz da Sagrada Escritura, a palavra de Jesus Cristo, o ensinamento dos Apóstolos, a doutrina de 263 Pontífices, a crença de milhões de mártires, a profissão de milhares de escritores e doutores da Igreja, a fé de tantos milhões de católicos, a convicção de mais de mil dentre os mais doutos homens da história. Se esse tal fosse como os outros, bastar-lhe-ia esse acúmulo de autoridades. Mas como? Ele se sente de uma superioridade mais do que humana: no outro prato pôs ele a sua cabeça de escrevinhador, de janota, de trabalhador... que importa? E ela deve ter todo o peso e fazer pender a balança! E tanta autoridade divina e humana? Para ele não vale nada. Ouça,


“Mas tu quem és, que, em tribunal sentado,

Julgas, de léguas em milhões distante,

Se mal vês o que a um palmo é colocado?”

(Par. XIX, 79,81)


Não crê coisa alguma e crê mais do que todos – Num trem viajavam umas pessoas de volta de uma peregrinação, acompanhadas de um padre. Estando no trem um janota, começou este a zombar da sua fé, declarando não crer em nada. O padre a ele: “Caro Sr., V. S., entretanto, crê muito mais do que nós”. “Diga-me, pois, em que creio”. O padre calava-se, mas como o outro insistisse por fazê-lo falar, deu ele esta resposta: “Por exemplo, caro Sr., crê V. S. ser uma grande inteligência; e, no entanto, esteja certo, nós não acreditamos nisso absolutamente”. Puseram-se todos a rir, e o incrédulo, confuso, na primeira estação mudou de vagão. Os zombadores da Religião, creem ser grandes cérebros, e amiúde são grandes ignorantes. Como diz a Escritura: “estes blasfemam de tudo o que ignoram: Quaecumque quidem ignorant, blasphemant” (Jud 10).


4 – A corrupção do coração


Esta é a principal fonte da incredulidade, o maior obstáculo à Fé. O Cristianismo é inimigo dos prazeres sensuais e de todas as paixões: como podê-lo-ão amar os corações corruptos? “Deixai as vossas paixões, e crereis”, dizia Pascal. E S. Paulo já havia dito, falando dos primeiros apóstatas: “Repelida a boa consciência naufragaram na Fé” (1 Tim 1, 18). O grande Apóstolo diz depois algures: “Por isso enviará Deus a estes o sacrifício do erro, de sorte que acreditarão na mentira” (2Tes 2, 10).


Eis em que acreditarão os corruptos de coração, que repeliram a Fé: crerão na superstição, em feitiçarias, em sonâmbulos, em charlatães... no erro em suma e na mentira. Confirma-se nesses cegos o divino oráculo: “Ocultaste (ó Senhor) essas coisas dos sábios e prudentes, e as revelastes às crianças” (Mt 11, 25). Logo a incredulidade não é resultado de maiores conhecimentos, mas de desordens morais. E a prova disso é a emenda de muitíssimos incrédulos nos extremos da vida.


Os famosos descrentes Montaigne, La Metrie, Montesquieu, Boulanger, e seu próprio mestre Voltaire, na hora da morte se voltaram para o crucifixo, e fizeram publicamente sua profissão de Fé. Verificou-se neles uma justa sentença de Voltaire: “O momento da morte é aquele em que os mentirosos dizem a verdade”. E não só na morte, mas também no perigo, muitos incrédulos têm demonstrado que tinham fé.


O Rosário de Volney – Constantin Volney, literato e filósofo incrédulo francês († 1820), achava-se num navio em viagem para a América. De repente se armou uma grande borrasca, pelo que o barco estava quase se afundando. O filósofo, tremebundo, retirou-se num cantinho e se pôs a rezar, passando as contas de um rosário que lhe fora dado por uma piedosa senhora. Passada a tempestade, foi-lhe perguntado: “Como? Vós que vos dizeis ateu, rezaste?”. Responde o sofista: “Uma coisa é ser filósofo incrédulo, e outra é achar-se diante da morte!”.


5 – Como comportar-se com os zombadores da Fé


a) Desses desgraçados quase sempre se deve desconfiar


Um barbeiro incréu – Um barbeiro, livre pensador, costumava fazer sua profissão de incredulidade com os fregueses, zombando da Fé. Mas uma vez topou quem lhe retrucasse no mesmo tom. De um senhor chegado a sua oficina obteve esta terrível resposta: “A um homem que não crê em Deus, nem em sanção futura alguma, não confiaria eu nem o meu cão, muito menos confiarei o meu pescoço”. E se foi embora logo; e nunca mais voltou àquela barbearia.


b) Não se deve cuidar deles; ou, então, se se tem espírito, dar resposta breves e resolutas.


(Extraído do livro A Palavra de Deus em Exemplos, G. Montarino,

Do original La Parole di Dio per la Via d’Esempi)

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