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Em torno do Sínodo



Por Gustavo Corção publicado n’O Globo em 1º de novembro de 1969


Trava-se agora em Roma uma batalha de inimagináveis consequências. Os agentes de publicidade, sentindo no ar a notícia de uma nova e inédita flagelação da Esposa de Cristo, mobilizam todos os recursos humanos e técnicos para que o mundo insaciável não perca um só gemido da grande torturada. E a fim de dar ao espetáculo um cunho mais atraente de suicídio, ou de autoflagelação, espalha-se notícia de uma divisão da Igreja em dois times. O do Papado e o da Colegialidade, e até se murmura que em sua essência a Igreja sempre esteve atravessada por este e outros antagonismos mortais.


Na verdade, porém, o conflito não vem nem pode vir do que há de mais interior na Igreja; vem antes do que, mesmo em seus membros, lhe é exterior. A Igreja, Una, Santa, Católica, sofre agressão das Potestades e do mundo que para isto se serve dos milhares de cavalos de Tróia que hoje são os filhos indóceis da Igreja. Dia a dia se avoluma a crise, a tempestade sem igual em vinte séculos de história, e agora, em Roma, o cataclismo torna bem visível a figura de seu germe principal. O que está em jogo, mais do que a aparente competição de campos de força e zonas de jurisdição, é um princípio de importância infinita, cuja contestação terá uma impensável força explosiva e deixará atrás de si uma radiatividade perto da qual foram brinquedos de criança as de Hiroxima e Nagasaki.


Os observadores superficiais veem o fenômeno como se se tratasse de um atrito entre uma concepção tradicional e uma nova e progressista maneira de encarar as coisas da Igreja. As publicações de um Karl Rahner, de um Hans Küng, ou de um Suenens, prestam-se bem a essa interpretação. Cada um desses autores parece querer colocar em novos termos, ou em nova ordem, a autoridade da Igreja; mas uma análise mais profunda mostra que não é apenas a ênfase dada ao papado pelo Concílio Vaticano I, nem mesmo a estrutura da Cúria Romana, que esses contestadores pretendem ferir. O alvo mais central de todas as contestações é aquele que constitui a razão formal da autoridade da Igreja em qualquer de suas autênticas formulações: é a própria autoridade de Deus.


Mais de uma vez já abordamos nesta coluna o problema da crise de autoridade, e procuramos mostrar que essa crise toma, no mundo moderno, as mais agudas e mortais formas de negação absoluta. Ninguém negará, evidentemente, os vários progressos que o homem conseguiu no domínio da natureza inferior; mas também é difícil negar o preço elevadíssimo que o mundo vem pagando por tais glórias. O Evangelho nos advertiu de que nada adianta ao homem conquistar a Terra se perde sua alma; o mundo moderno, respondendo ao Evangelho, contrapõe outro negócio: o homem vende sua alma e compra a Lua.


O fato força todas as obtusas teimosias: o mundo moderno chega a um impasse de negações, de recusas, de desobediências, porque o homem retornou, neste patamar da história, à antiga soberba com que pretende dispensar os favores da paternidade divina. O homem se basta; mas para realizar esse pleno humanismo terá de revoltar-se contra todas as alienações, terá de destruir tudo o que vem de algum pai, seja na linha horizontal dos itinerários da história, seja na linha vertical de nossa destinação suprema.


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Não se diga que os contestadores da autoridade do Papa são paladinos que defendem a colegialidade, ou participação dos bispos na autoridade da Igreja, já que não é possível defender nenhuma autoridade particular à custa da imolação do princípio que emana da autoridade primeira e suprema; nem se diga que os contestadores querem afirmar e pôr em funcionamento a doutrina do Vaticano II que os tradicionais quereriam bloquear.


São aliás os próprios contestatários que, com a habitual brutalidade, dizem alto e bom tom que nenhum dos Concílios lhes agrada e lhes basta. Eis o que diz Hans Küng em artigo publicado em Le Monde: "... se o "retrato do Papa" estava em contradição com o Vaticano I, tanto pior para o Vaticano I, que já deveria ter sido corrigido à luz do Evangelho, coisa que não parece ter sido a última intenção do Vaticano II." O Carde al Suenens também acha que é preciso opor o Vaticano II ao Vaticano I, mas para isso é preciso começar por opor o Vaticano II ao Vaticano II.


E aí está a estranha maneira com que os modernizantes, democratizantes, ou que outro título tenham, defendem a colegialidade começando por atacar as mais recentes e gloriosas manifestações da dita colegialidade!! Mas então o que é que na verdade defendem esses contestatários do papado? A resposta que se impõe irresistivelmente é a que revela o fundo niilista e absolutamente revolucionário do movimento em questão: eles não defendem NADA! Eles querem, como no filme Theorema, a volta ao nada, ou, como na confissão de um terrorista, o chambardement completo que na China se iniciou pelo quebra-quebra dos mais belos e veneráveis objetos de arte.

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