Carta de Broadstairs - Nº 08
- Mosteiro da Santa Cruz

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Nova et vetera
(Mat. 13, 52)
Enoque e Elias
[extraído de The drama of the end times, do Père Emmanuel, 1885]
Os acontecimentos maravilhosos que estamos prestes a recordar não são cenários imaginários; são verdades retiradas da Sagrada Escritura, e seria temerário negá-las.
Antes do fim dos tempos, e durante a perseguição do Anticristo, dois personagens extraordinários reaparecerão: Enoque e Elias.
I - O patriarca Enoque é um dos descendentes de Set, filho de Adão. É o chefe da sexta geração dos homens. O livro do Gênesis diz que ele viveu 365 anos e andou nos caminhos do Senhor, antes de ser levado ainda vivo pelo Todo-Poderoso a um lugar conhecido somente por Deus.
Quanto a Elias, sua história é mais conhecida, pois viveu no tempo do reino de Israel menos de mil anos antes de Nosso Senhor. É o grande profeta da nação judaica. Sua vida dramática, conforme relatada no terceiro e quarto Livro dos Reis, é uma profecia em ação acerca do estado da Igreja no tempo da perseguição do Anticristo.
Ele está constantemente em movimento, ameaçado de morte, mas sempre protegido pela mão de Deus. Ora escondido no deserto, onde é alimentado por corvos, ora apresenta-se diante do rei Acab, que treme diante dele. O Todo-Poderoso lhe dá poder para abrir os céus à chuva ou ao relâmpago; concede-lhe uma visão misteriosa no monte Horeb, como a um novo Moisés, com quem acompanhará Nosso Senhor no monte Tabor.
O desaparecimento de Elias corresponde à singularidade de sua vida. Caminhando com seu discípulo Eliseu, ele abre passagem pelo rio Jordão ferindo as águas com seu manto, e então anuncia que será levado ao céu. De repente, um carro de fogo puxado por cavalos de fogo separa os dois, e Elias é arrebatado por um redemoinho a uma região misteriosa dos céus, onde se junta a Enoque, seu antepassado.
Ninguém pode dizer onde se encontra essa região oculta, seja em algum lugar inacessível da terra ou nos céus acima. Pode-se apenas afirmar que eles estão, por ora, fora das limitações da condição humana, não afetados pela passagem do tempo.
II - Sua reaparição no cenário do mundo é tão certa quanto seu desaparecimento, como descrito no livro do Eclesiástico segundo toda a tradição judaica: “Enoque agradou a Deus e foi transportado para o paraíso, para pregar a penitência às nações” (cap. 44). No livro de Jó lemos: “Quem poderá igualar-se a ti, ó Elias? Tu que foste arrebatado no redemoinho de chamas e no carro de fogo; estás inscrito nos juízos dos séculos futuros para aplacar a ira do Senhor, para reconduzir o coração do pai ao filho e para restabelecer as tribos de Israel” (cap. 48).
Essas palavras da Sagrada Escritura afirmam claramente que Enoque e Elias têm uma última missão a cumprir. Enoque deve pregar penitência às nações para levá-las à conversão, enquanto Elias deve restabelecer as tribos de Israel em seu lugar próprio na verdadeira Igreja.
Os doutores da Igreja entendem unanimemente que essa dupla missão será realizada no fim do mundo. Elias, em particular, é considerado o precursor de Nosso Senhor que virá dos céus como juiz, conforme afirmam os próprios Evangelhos (Mt 17; Mc 9).
Assim virá o tempo em que os homens verão, e não sem terror, Enoque e Elias descendo em seu meio com extraordinário esplendor para pregar a conversão. São João os chama de duas testemunhas de Deus e os descreve no capítulo 11 de seu Apocalipse: “Profetizarão por 1.260 dias, vestidos de saco. São as duas oliveiras e os dois candelabros que estão diante do Senhor. Se alguém quiser fazer-lhes mal, fogo sairá de suas bocas e devorará seus inimigos. Terão poder de fechar o céu para que não chova durante o tempo de sua pregação. Além disso, terão poder de converter as águas em sangue e de ferir a terra com toda sorte de pragas sempre que quiserem.”
Vemos nessa descrição o Elias do Antigo Testamento, que fechou os céus por cerca de três anos e fez cair fogo sobre os soldados enviados para prendê-lo.
Os 1.260 dias indicam a duração da perseguição final; portanto, a vinda das duas testemunhas coincidirá com a perseguição do Anticristo. Mais uma vez se vê que a assistência prometida à Igreja será proporcional à gravidade dos perigos.
Vestidos como austeros penitentes, as duas testemunhas irão por toda parte com invulnerabilidade, pregando com plena liberdade mesmo na presença do próprio Anticristo enfurecido.
Continua...


