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Aberrações ensinadas pelos ISPAC em Belo Horizonte

  • há 4 horas
  • 4 min de leitura


Por Gustavo Corção,

publicado n’o Globo em 08 de junho de 1968


O episódio brasileiro conta com muitos bispos sábios e veneráveis. Posso até afiançar, e poderia provar, que é uma pequena minoria a famosa ala de bispos esquerdistas ou progressistas que se inculcam como interessados pela melhoria de condições sociais, e que insinuam que todos os que deles discordam só o fazem para defender o status quo e para impedir as ditas melhorias sociais do Brasil. Torno a dizer: graças a Deus constituir minoria e só não digo inexpressiva minoria porque esses poucos excessivamente expressivos são a parte do episcopado que mais se interessava pela promoção de suas ideias do que pelo zelo da boa doutrina. A grande parte do episcopado continua, do imenso interior, permanece onde o Cristo Jesus recomendou que permanecesse (Jo. XV). Mas depois dessa sincera e consoladora declaração, não vejo como explicar e como ocultar a inquietação diante do que se faz atualmente no Brasil sob o olhar aprovador da Conferência Nacional dos Bispos e, portanto, sob a mesma aprovação dos bispos que não são modernistas e transviados.


Como exemplo dou abaixo duas transcrições de que se insinua no ISPAC de Belo Horizonte. Em cursos de formação de catequistas, começados em 2 de março, foram abordados vários assuntos, e distribuídas as apostilas respectivas. A que tenho diante dos olhos oferece-se como uma “secularização” e constitui uma das novidades dentro de apostasia que corre o mundo. Eis as duas passagens que colhemos entre os outros equivalentes, e que transcrevemos pedindo ao leitor desculpas pelo mau português que não é nosso:


“DESPEDIDA DO CRISTIANISMO TRADICIONAL”


- Notamos, nos nossos dias, uma deseclesialização; cada vez mais a gente fica por fora da Igreja com suas práticas tradicionais. Uns porque não concordam com o cristianismo, em sua forma tradicional. Esta é por demais estranha ao mundo de hoje. Outros são mais indiferentes: não apenas o cristianismo tradicional está ultrapassado, mas também a religião como tal (pois pertence a uma forma de cultura anterior). Mais outros dizem: sei que creio, mas sei também que a fé se torna discutível. Vamos procurar! Parece que a última posição é a mais comum: procurar uma resposta, uma nova forma de cristianismo. Isto é um sinal feliz. Pois enquanto há procura há também esperança. Os melhores livros atuais não são aqueles que já têm a resposta pronta, mas os que partem da realidade e sua problemática e tentam descobrir de que é que se trata afinal. As respostas antigas não satisfazem, pelo menos nos formam tradicional. Novas respostas ainda não há. Estamos numa fase de transição. Em tudo isto trata-se, em primeiro lugar, de cristianismo tradicional. Acabou! Existem várias opiniões a respeito deste fenômeno...”


“A expressão “Deus morreu, nós o matamos”, não é nova. Já a encontramos na obra de Nietzsche. A expressão ‘Deus morreu’ significa: rejeitar a imagem tradicional de Deus, feita à imagem do homem, projetada a partir da incapacidade de dominar o mundo e a natureza; pode ser rejeitar o cristianismo tradicional, de um cristianismo estranho à vivência atual do mundo; pode ser também aceitar uma atitude ateia na qual o homem se responsabilize pelo mundo... e este modo de pensar é a tentativa de refletir sobre a fé, não na maneira de adaptá-la, mas na base da ruptura total com a tradição, para fundar a vida cristã, mas salvando a plena responsabilidade intramundana pelo mundo, pela história. Nestas tentativas nem tudo mostra maturidade de pensamento. Há também disparates. Aliás, nem todos esses teólogos conheciam entre si. Combateu-se mutuamente. Mas em todo o caso trata-se de uma séria tentativa, geralmente de jovens (está dito tudo!) para situar o cristianismo no futuro próximo.”


Agora eu. Torno a pedir desculpas ao leitor pelo mau português e pelo bestialógico. Feitos esses descontos, o que sobra é simplesmente o seguinte: o ISPAC, Instituto Superior de Pastoral Catequética, em Belo Horizonte, como aliás no Rio e em outros pontos do país, está ensinando os caminhos da apostasia, da blasfêmia e da negação de Deus, da recusa do cristianismo, a umas pobres freiras e catequistas, ou a uns jovens inebriados pelo incenso com que são adorados. Bem sei que esses professores são, antes de tudo, uns pobres idiotas que talvez não saibam o que fazem.


O movimento modernista que aflige a Igreja e perde as almas se compõe, como é regra nestes casos, de uma pequena parte de perversos e uma multidão de idiotas. Seja como for, o resultado bruto é uma monstruosidade que me leva a exclamar, a gritar aos ouvidos dos bispos do Brasil. Onde estão? Como podem admitir que tais coisas se ensinem com o apoio, às bênçãos e as verbas da Conferência Nacional dos Bispos? Como entender que os descendentes dos apóstolos se tenham tornado tão insensíveis à Sagrada Doutrina que têm por assinatura o preciosíssimo sangue de nosso Salvador? Onde está a Fé de nossos Bispos? Onde a autoridade? Onde o amor pela Igreja? Onde a devoção pelas palavras de vida?


O pobre imbecil que ditou as palavras acima transcritas acaba de descobrir que a tradição católica terminou, e que agora a única posição válida é a da partida para novas procurações, porque onde há procura há esperança. De onde eu concluo que, na doutrina desse frade franciscano de Divinópolis, só há esperança onde faltar a fé. Veja bem o leitor: nenhum de nós ignorará que a vida seja uma procura perpétua, um esforço contínuo. Todos nós procuramos os caminhos para melhor servir à vontade de Deus. Às vezes entendemos mal a irrepreensível Providência. Nenhum de nós se gaba de ter chegado a uma forma, a um padrão de vida satisfatório. Mas o que esse frade apóstata nos diz é que a própria palavra de Deus não é de Deus. Estivemos iludidos até aqui. Foi falso o ensinamento da Igreja durante vinte séculos. Sim, durante vinte séculos. Sim, a Igreja ensinou a um povo boboca uma história parecida com a do Papai Noel que traz brinquedos à noite de 24 de dezembro. Agora, depois do concílio, abrimos os olhos, descobrimos os pelos do corpo, somos adultos, e podemos tranquilamente deitar pela janela os algodões e os cetins da fantasia do pobre Papai Noel. Há ainda uns bobos que creem, mas o ISPAC está atento e pronto para soerguer do chão da crença elementar esses pobres retardatários...


Detenho-me aqui exausto, sem saber continuar este artigo. Provavelmente hão de achar que sou eu quem está fazendo o escândalo dentro da Igreja.

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