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A ilimitada confiança do Arcebispo

  • há 4 minutos
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Por Gustavo Corção,

publicado n’O Globo em 27 de junho de 1968


Em livro recentemente publicado, o Arcebispo de Olinda e Recife, entre várias outras considerações menos interessantes, nos convida a abrirmos um CRÉDITO DE ILIMITADA CONFIANÇA... A quem? Desafiamos a sagacidade do leitor para a decifração deste enigma. A quem, a que Entidade quer o Arcebispo que abramos um CRÉDITO DE ILIMITADA CONFIANÇA?


O leitor que estivesse a dormir desde o Congresso Eucarístico, para cujo esplendor tanto contribuiu a operosidade de D. Hélder Câmara e de sua diligente equipe, e que acordasse agora, estremunhado com o arruído de nossas interpelações, responderia logo:


— Hem? Como? Ilimitada confiança? Ora essa! A Deus, homem! Só Deus merece nossa ilimitada confiança. E se a proposta vem de um Arcebispo não podemos vacilar um só instante. Eis a resposta cabal, clara ou misteriosa mas insubstituível, curta mas eterna: Deus. Já diziam as Sagradas Escrituras em Números 23, 19: “Non est Deus quasi homo, ut mentiatur”. Deus não é como os homens, que mentem. Não é outro o pensamento em Job 25, 6: “Homo putreto et filius hominis vermis”. Ninguém, evidentemente, quererá nos convidar a uma campanha de ilimitada confiança aos vermes. O Salmista não é mais indulgente: “dixi in excessu meo: omnis homo mendax”.


Poderíamos multiplicar as citações, e prolongar a sabedoria revelada com textos veneráveis de sabedoria profana, formando assim a longa ladainha de queixas com que a pobre humanidade vem gemendo e chorando, neste vale de lágrimas, por se saber tão fraca e tão inclinada à mentira. Ai de nós! Há pessoas em quem confiamos; há até pessoas por quem poríamos as mãos no fogo, mas isto quer traduzir o risco que pela amizade corremos e nunca o ilimitado de uma confiança insensata. Será injusto não ter confiança ilimitada na pessoa amiga? Há quem pensa assim, mas engana-se, se não se enganou o Espírito Santo nas passagens que ditou e que atrás transcrevemos. Na verdade, injusto seria o crédito de ilimitada confiança, porque não há ninguém nessa pobre humanidade que possa suportar tão grande carga, e sobretudo não há ninguém que possa dispensar a nossa pequena, magra mas fraterna proteção. Todos nós devemos ao próximo o reconhecimento de sua fraqueza, de nossa fraqueza, e de nossa solicitude, como também dele esperamos a mesma esmola de temor e o mesmo braço de arrimo. O namorado costuma dizer nos arroubos de amor que confia totalmente em sua bem-amada, e quer dela ouvir a mesma afirmação lírica e hiperbólica, mas ambos sabem que essa linguagem do desvario amoroso esconde a súplica gemida de uma mútua proteção. O pai que confia ilimitadamente no filho, ou o marido que confia ilimitadamente na esposa, ou o amigo que confia ilimitadamente no amigo estão pecando contra a justiça e contra a caridade, porque na verdade estão fugindo ao dever de proteção que devem ao filho, à esposa, ao amigo.


É claro que, mercê de Deus, conseguimos às vezes, nesta vida, espaços claros de amizade tranquila e de repousante confiança, mas devemos saber que o amor-próprio, cicatriz do pecado original, está sempre pronto a sangrar. Aqui e ali, por isto ou por aquilo, por um grão de areia ou por uma pluma ao vento, melindra-se o amigo, abespinha-se o irmão. Porque o amor-próprio, como sempre ensinaram os doutores da Igreja, é o foco de mentira pelo qual cada um de nós se mente a si mesmo para depois mentir aos outros com calorosa sinceridade. Aí está o mundo, amigo, aí está a vida, senhor Arcebispo: omnis homo mendax. Aproveitemos pois, humildemente, os acampamentos de amizade verídica e sem fermentos, mas não ousaremos jamais dar às coisas humanas o ilimitado e o incondicional a que somente Deus tem direito.


Voltando ao livro e à frase do Arcebispo de Olinda e Recife, na qual o autor nos pede UM CRÉDITO DE ILIMITADA CONFIANÇA..., somos obrigados a dizer que nosso estremunhado leitor se enganou quadradamente. Não é DEUS que completa a frase, é JUVENTUDE. Sim, é aos jovens que devemos abrir um crédito de ilimitada confiança.


Em primeiro lugar, talvez por deformação profissional, o que mais me surpreende nesta frase é sua completa falta de sentido. Não me pareceria menos inteligente um destes lemas:

“Devemos abrir um crédito de ilimitada confiança aos homens de quarenta e sete anos de idade”.

“Não podemos absolutamente pôr em dúvida a palavra de uma senhora de um metro e sessenta e três centímetros de altura”.

“Tenhamos confiança total nos ruivos”.


E assim por diante. O sentimento que me acomete, depois deste pequeno interlúdio, é profundamente amargo, porque vejo debaixo da aparente bondade, naquela frase convencional e oca, uma terrível crueldade, queira Deus involuntariamente praticada pelo Arcebispo. Sim, crueldade, porque é justamente nessa fase da vida que a pobre humanidade mais precisa de proteção e de veracidade, e porque é justamente nessa fase que a tal confiança ilimitada não passa de um disfarce grosseiro da capitulação e do descaso dos responsáveis. Sim, senhor Arcebispo, quem é pai de muitos filhos, e foi professor de muitos alunos de todas as classes e idades, sabe exaustivamente que é infinitamente mais trabalhoso ensinar, corrigir, encorajar sem desajudar e às vezes castigar, do que abrir os braços num gesto de quem abre mão de tudo a favor de uma confiança desmedida que os jovens não podem, e não querem suportar. Acredite-me, senhor Arcebispo, é mais fácil ser companheiro de arruaças do que ser pai, do que ser padre, do que ser pastor.


Pode ser que alguém, nesta altura, diga que estou exagerando, porque afinal de contas aquela frase não passa de uma frase como tantas se dizem, se escrevem e se imprimem. O resto do livro é feito de frases assim, tão graves ou tão gravemente irrelevantes. De qualquer modo temos o nove fora nada: em lugar da sabedoria que, como facho aceso, veio de mão em mão, por séculos e séculos, trazida pelos descendentes dos Apóstolos, temos no livro do rumoroso Arcebispo um amontoado de frases conforme a amostra que aqui oferecemos ao leitor.

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