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- O Fenômeno
Por Gustavo Corção, publicado n’O Globo em 17-03-1973 ANTES de investigar a causa ou as causas eficientes, que produziram em pouco mais de 10 anos uma desfiguração dos sinais visíveis da Igreja católica convém investigar e analisar a causa formal intrínseca, isto é, convém saber em que consiste essa desfiguração. A versão progressista, que atribui a uma natural evolução e a uma benéfica abertura para o mundo a moderna figura da Igreja não se sustenta nem em sua lógica interna porque o fenômeno que temos diante dos olhos é uma decadência, até no sentido mais grosseiro expresso pela acelerada diminuição de vocações tanto no clero secular como no regular. Para quem ainda creia em tudo que críamos poucos anos atrás, isto é, para o católico sem adjetivos, a figura que tem diante dos olhos pode ser assim descrita: 1) ainda há um núcleo de pessoas que continuam a crer nas mesmas verdades de Fé, independentemente da ida do homem à Lua que em nada, absolutamente nada obriga a retocar sua crença na Santíssima Trindade, na Encarnação do Verbo, na Igreja una, santa, católica e apostólica, e na ressurreição da carne; 2) na área mais afastada desse núcleo estão os chamados "progressistas" ou secularizantes que se divide em duas nitidamente diferentes mas unidas por uma zona intermediária. Na área extrema ou mais exterior estão os clérigos que não se embaraçaram em escrever livros que já não são heréticos por serem heréticos praticamente em todos os pontos da dogmática católica, donde se conclui que não são divergentes ou desviados da Fé católica integral, são contrários ao todo: são a anti-Igreja. A zona mais dissimulada dessa faixa 2 é ocupada por eclesiásticos que, sem serem capazes de escrever desvarios poli-heréticos, todavia, toleram essa espécie. Tenho para mim que esses progressistas "prudentes" não apreciam com severidade os autores de tais obras. Se por exemplo um deles é Reitor de um seminário fará questão de colocar aqueles autores ao alcance dos noviços. Creio que eles pensam, se pensam, mais ou menos assim: — O Boff exagera... O Comblin exagera... D. Hélder é corajoso demais... MAS não dão sinais de repulsa e indignação, e até quando têm o báculo na mão não o usam jamais nessa direção. Usá-lo-ão para exonerar três professores de alguma Pontifícia Universidade que tiveram a audácia imperdoável de apoiar um escritor que num artigo disse que o sol nasce a leste, que a água molha, que o fogo queima, e que a maioria dos bispos, com algumas santas exceções, está em todo o mundo promovendo a demolição da Igreja. ANALISEMOS agora o relacionamento entre o núcleo (1) e a faixa (2) que acabamos de descrever sucintamente. Parece-me evidente que não têm o mesmo credo, logo não pertencem ambos à mesma Igreja una, católica e apostólica. A faixa (2) não esconde sua novidade, e seu empenho de enterrar a velha Igreja. Será preciso lembrar a algum bispo ou padre que a simples recusa de um só artigo de Fé atinge a razão formal e, portanto, atinge toda a Fé? DUAS palavras sobre a faixa (3) intermediária ocupada pela maioria dos leigos que estranham as novidades, mas preferem não pensar muito nisso e continuam a ir à missa de preceito quer seja ela rezada por um padre que professa a Fé Católica (faixa 1) ou por um "padre" que não recita o Credo declarando-o já superado. AGORA procuremos juntos, leitor amigo, a atitude que deve tomar um católico (faixa 1) em relação a um bispo progressista, audacioso ou prudente, da (faixa 2). Se esse infeliz católico-católico não tem suficiente doutrina não descobrirá que a faixa (2) não é apenas uma parte agitada e novidadeira da Igreja, e sim outra Igreja. E não descobrindo continuará a pensar que ainda deve respeito católico a bispos, arcebispos e cardeais anticatólicos. A MAIORIA dos católicos leigos e muitos bons padres preferem pensar assim, por falta de um critério mais lúcido, ou até por comodismo. SUPONHAMOS agora a clara tomada de consciência desse antagonismo infelizmente profundo e cruel entre a Anti-Igreja e a Igreja. Essa clara consciência se embaraçará em mil liames inferiores porque a mesma evidência não é oficialmente reconhecida pela Igreja. As autoridades eclesiásticas jogam o jogo do faz-de-conta, e os equívocos se agravam. A POSIÇÃO de um leigo consciente se tornará extremamente penosa. Ele deverá doravante escolher com todo cuidado a missa a que assiste nos dias de preceito porque já tomou consciência do fato brutal: há missas rezadas por padres evidentemente inimigos da Fé católica. A trama de certezas morais com que costuramos quase todos os atos da vida, inclusive os religiosos, está abalada e em progressiva ruína. Cada dia que passa vemos mais uma capitulação que julgáramos impossível. E nós já não sabemos onde pisar, e a quem ouvir. SE ACASO temos dons para bem aprender a doutrina e bem conhecer a voz e o cheiro da Igreja, e se além disso recebemos de Deus o dom de alinhar as frases com sentido e concatenação, que faremos nós quando vemos lá na área (2) algum figurão eclesiástico a fazer escândalos e a dizer enormidades, onerando com ambas as coisas a Santa Igreja? Parece-me claro que esse infeliz deve gritar, como gritavam os leigos simples nos tempos do arianismo: não foi esse o Evangelho que aprendemos! Deverá um soldado obedecer ao capitão que visivelmente bandeou-se para o lado inimigo? Deverá fazer-lhe continência se se encontrarem frente a frente? ACONTECE, porém, uma coisa inevitável: o infeliz católico (1) que apontar erros e escândalos de "bispos" (2) será acusado por outros católicos (1) de estar em contradição pelo fato de desrespeitar a autoridade depois de proclamar que luta pelo princípio da autoridade. PARECE-ME a mim que ainda o pior mal de nossos tempos, no que concerne à vida religiosa, é o prolongamento do equívoco e da hipocrisia: em nome da unidade da Igreja, não querem reconhecer que aqueles outros vivem a religião que inventaram e que devasta aquela de Jesus Cristo.
- Comentários Eleison nº 845
Por Dom Williamson Número DCCCXLV (845) – 23 de setembro de 2023 MENSAGEM DO CÉU? É claro que Nosso Senhor está zelando por Sua Igreja. De maneira nenhuma Ele a deixará em absoluta desordem. Desde o Concílio Vaticano II (1962-1965) – quando a mais alta Autoridade da Igreja Católica (seus Bispos de todo o mundo reunidos em um Concílio Ecumênico sob os Papas João XXIII e Paulo VI) rompeu com a Tradição Católica e com a Verdade Católica, ao impor à Igreja Universal uma nova versão humanista do catolicismo, supostamente “atualizada” para adaptar-se aos tempos modernos –, os católicos que se esforçam para permanecer fiéis a Nosso Senhor vêm tendo que adotar uma postura mais ou menos esquizofrênica. Ou eles se aferram à Autoridade Católica e deixam a Verdade de lado, ao menos em parte; ou se aferram à Verdade Católica e “desobedecem” às suas autoridades, ao menos em parte; ou escolhem qualquer uma de várias combinações possíveis, todas elas incômodas. Em 1970, o Arcebispo Lefebvre fundou na Suíça um Seminário e uma Congregação Sacerdotal para formar uma nova geração de sacerdotes a fim de proteger a Igreja das consequências do Vaticano II, que, tal como ele previu, colocou em perigo a própria sobrevivência da Igreja. As autoridades da Igreja em Roma, que continuavam empenhadas no Concílio, esperaram antes de reagir, mas quando viram que o Seminário de Écône estava prosperando sem dar sinais de desaparecer, começaram então a usar todos os meios consideráveis ao seu alcance para fechar Écône. O Arcebispo não cedeu, e então se seguiram 13 anos de conflito entre Roma e Écône, pois ele se recusava a desafiar a Autoridade romana, seguindo por conta própria fora das estruturas normais da Igreja. Quanto à Roma oficial, não poderia engoli-lo, porque aceitar a Tradição condenaria a sua falsa religião; nem poderia cuspi-lo, porque condenar a Tradição arriscaria desmascarar as suas falsas novidades. E assim, o Arcebispo presidiu o crescente êxito da sua Fraternidade ao mesmo tempo que fazia tudo o que podia para evitar infringir as normas habituais, enquanto Roma observava e esperava o momento em que finalmente seria capaz de escapar impune de despedaçar a sua obra. Esse momento chegou quando o Arcebispo, próximo da morte, sabia que teria de consagrar os seus próprios Bispos para garantir a sobrevivência da sua Fraternidade depois que partisse, pois não acreditava mais que pudesse haver alguma resistência às autoridades conciliares por parte dos demais Bispos do mundo, “obedientes” a Roma. E assim, em junho de 1988, ele consagrou quatro dos seus próprios Padres como Bispos. Foi como se fosse a consagração de todo o “movimento tradicional” dentro da Igreja, ou seja, de numerosos católicos em todo o mundo que compreendiam que, embora as autoridades devessem ser respeitadas tanto quanto possível, ainda assim a Verdade tinha de vir em primeiro lugar. Ora, em novembro do ano passado, chegou supostamente do Céu, uma mensagem de uma Irmã para um sacerdote tradicionalista na França, que estava ansioso em seguir a Verdade Católica contra a aparência da Autoridade Católica. A mensagem, celestial ou não, apresenta uma descrição admirável de respeito à Autoridade enquanto protege a Verdade; mas que os leitores destes “Comentários” julguem por si mesmos e ajam em conformidade: A Santa Igreja Católica e Apostólica atravessa atualmente uma crise profunda e dolorosa nos seus representantes, e o senhor, Padre, é uma de suas vítimas. Dom Thuc compreendeu a ruptura dentro da Igreja e, como Bispo, assumiu uma posição pessoal que não estava de acordo com as regras, porque ordenou Padres e Bispos sem incardinação, colocando assim todos numa situação irregular, mesmo que sejam fervorosos e queiram exercer um ministério de acordo com o ensinamento de Nosso Senhor Jesus Cristo. Dom Williamson, tendo sido colocado numa situação semelhante ao ser desligado da Fraternidade Sacerdotal São Pio X por seu Superior na época, sem motivo válido, deveria ser capaz de compreender a sua situação, porque ele também consagrou Bispos e ordenou Padres. Assim como o senhor, por enquanto, estes também carecem de incardinação. A situação atual dentro da Santa Igreja Católica é tão ruim que o Senhor está feliz com todos os Seus ministros que trabalham fielmente para Ele, com ou sem incardinação. Esta é a resposta do Senhor à sua pergunta. Assim que a Santa Igreja recuperar dentro de si a força da Verdade, os sacerdotes que continuam à deriva poderão reincorporar-se a ela oficialmente, embora extraoficialmente nunca a tenham deixado. O Senhor o abençoe. Fique em paz e seja fiel. Kyrie eleison.
- XXVI – Trabalho e Estudo - Os danos do ócio
Trabalho e Estudo Os danos do ócio II – Os Danos do Ócio 1 – Há ociosos Não obstante, a lei que obriga todo mundo a trabalhar, há ociosos e preguiçosos que desejariam subtrair-se a essa lei. E não é coisa nova: sempre houve ociosos. Lembrai-vos daquele homem do Evangelho, que viu na praça os desocupados e lhes disse: “Por que estais aqui todo o dia no ócio? Ide vós também à minha vinha” (Mt 20, 6-7). Quantos ainda há que andam desocupados?! Vaguear, dormir, brincar... sim; trabalhar, estudar... não! Para eles o trabalho pesa! Mas que se ganha procedendo assim? Ouvi os bens ganhos pelo ócio. 2 – Danos Espirituais O ócio abre a porta a todos os vícios. Diz o Espírito Santo: “De muitos vícios é mestra a ociosidade: Multam malitiam docuit otiositas” (Eclo 33, 29). a) Primeiro que tudo: no ócio se perde o tempo, que é tão breve, fugaz e precioso. “Vai-se-lhe o tempo, e o homem já não o tem”, diz Dante (Purg. 4,9). Foge o tempo irreparável, diz Virgílio (Geórg., III). E não volta nunca mais. “Foge o tempo e jamais retorna – aos caminhos por que passou”, diz outro sábio poeta, para advertir os jovens a não perderem tempo. E a mesma advertência nos faz o Espírito Santo: “Filho, conserva o tempo: Fili, conserva tempus” (Eclo 4, 23). Oh, como choram os condenados por não terem empregado bem o breve tempo que tiveram nesta vida! Lê-se de um santo homem que, toda vez que ouvia soar as horas, suspirava dizendo: “Ai de mim! De uma hora para outra devo prestar contas a Deus!”. São Pedro Damião conta que S. Barlaão, ao chegar a tardia velhice, foi interrogado por um príncipe sobre quantos anos tinha, e respondeu: “Se conto os anos de nascido, terei 80; mas se retiro os anos perdidos na ociosidade, terei apenas 45. Os outros não valem coisa alguma”. Como se deve, afinal, ter em conta o tempo, mormente os jovens! Disse um sábio escritor: “Os jovens e os loucos imaginam que vinte anos ou vinte moedas jamais devam acabar” (B. Franklin). E acrescentava: “O tempo é o tecido de que se faz a vida”. Queria dizer que não faltará nada na vida de quem aplica bem o tempo. b) No ócio vem, afinal, os vícios – Um solo ocioso, isto é, não cultivado, produz o quê? Sarças, espinhos e urtigas. A água que não está em movimento, como fica? Estagnada e pútrida, e dentro dela reinam répteis e insetos asquerosos. O ar confinado, e que não é agitado, faz o quê? Infecta-se e traz moléstias. O fogo não agitado, apaga-se; o ferro não aplicado, se enferruja. Assim ocorre ao coração do homem: quando o homem se entrega a uma vida ociosa, seu coração corrompe-se. Lembrarei alguns fatos da Sagrada Escritura. São tristes consequências do ócio. Eva cai em pecado, dando ouvido à serpente, porque lá estava ociosa debaixo da árvore do fruto proibido. O povo hebreu, no deserto, desconhece seu Deus, porque se dera ao ócio. Sansão manteve-se forte e virtuoso enquanto combatia os filisteus, entregando-se, afinal, à vida indolente e mole, perdeu a força e a virtude. Salomão, enquanto esteve ocupado na construção do templo, foi virtuoso; e afinal no ócio, prevaricou. Davi, ocupado nas guerras, mantém-se fiel a Deus; no ócio cede às tentações impuras e cai em gravíssimos pecados. E foi ainda por causa do ócio que os habitantes de Sodoma se entregaram a vergonhosos excessos para atraírem sobre a cidade o fogo do Céu. “Foi esta a iniquidade de Sodoma (diz Ezequiel): o luxo, a abundância e a ociosidade: Haec fuit iniquitas Sodomae: saturitas... et otium ipsius” (Ez 16, 49). 3 – Danos Materiais Além dos danos espirituais, do ócio decorrem ainda os danos materiais: e são a miséria e a desonra. Conta Plutarco que Apeles, o mais célebre por pintores gregos (+ 324 a.C.), pintou a Fortuna de pé, e interrogado sobre o porquê, respondeu: “Porque ela não sabe sentar-se”. Queria dizer com isto (acrescenta Plutarco) que a fortuna não é feita para os poltrões, e que, para alcançá-la, em vez de sentar-se, deve-se é correr-lhe atrás. Quem não corre, isto é, quem não trabalha e não cansa, ficará sempre na miséria. E Dante diz que com o estar no ócio e a dormir não se conquistará glória, mas desonra. Os jovens que, afinal, devem atender ao estudo, se não aplicam todas as suas forças para tirar proveito, escutai as calamidades que vão buscar. Tornam inúteis os cuidados de seus preceptores; traem a expectativa dos parentes que por eles fazem grandes sacrifícios: comem o pão sem ganhá-lo; frustram a esperança da pátria; iludem a sociedade que tem direito de possuir cidadãos úteis; depois, por causa da ignorância, acham trancado o acesso aos empregos honrosos. Assim se tornam desprezíveis aos olhos do mundo, e são condenados a uma vida de dificuldades. Eis o que significa evitar o trabalho quando se é jovem: significa topar mais tarde a miséria e a abjeção. Virá, afinal, o arrependimento, mas será inútil. A cigarra e a formiga – Os poetas antigos contam este apólogo, que deve ensinar os homens relativamente ao trabalho. Ia uma porção de formigas ao seu formigueiro, levando grãos de trigo para a provisão do inverno, quando uma cigarra, da árvore onde estava, ao ver aquela procissão de negros insetos, começou a mofar deles: “Oh, pobres bichinhos que sois! Danai-vos todos a arrastar pelo chão cargas como jumentos. Eu, no entanto, estais vendo? Canto todo o dia, pulando de ramo em ramo”. A estas palavras ergueu-se um formigão velho e respondeu: “Canta afinal como quiseres: ver-nos-emos depois neste inverno”. Veio realmente o inverno e a cigarra, que não havia colhido nada, foi bater à porta das formigas, pedindo socorro. Mas ouviu o formigão velho responder: “Não te disse eu que viria o inverno? No verão passado, enquanto nós formigas trabalhávamos tu cantaste: pois bem, agora dança, que nossa provisão só chega para nós”. Mas é preciso recorrer a fábulas? O próprio Espírito Santo nos diz que aprendamos a tempo das formigas, para não nos vermos mais tarde com as mãos vazias: “Vai à escola das formigas, ó preguiçoso, e considera o labor dela; e aprende a ser prudente” (Prov 6, 7). “Ela prepara no estio o seu sustento, e na época das messes recolhe o seu comer” (ib., 7). Aqueles que não fazem assim, sabeis o que acharão nas mãos? Di-lo claramente o Salmista: “Dormirão seus sonos, e nada encontrarão em suas mãos todos os homens que acumulam: Dormierunt sumnum suum; et nihil invenerunt omnes viri divitiarum in manibus suis” (Sl 75, 5). (Extraído do livro A Palavra de Deus em Exemplos, G. Montarino, Do original La Parole di Dio per la Via d’Esempi)
- Comentários Eleison nº 844
Por Dom Williamson Número DCCCXLIV (844) – 16 de setembro de 2023 DEVOÇÃO AO ROSÁRIO O Rosário existe há séculos. Não se conhece santo que o tenha desaprovado. Em outubro do ano passado, estes “Comentários”, seguindo o exemplo de um padre da FSSPX na França, apresentaram uma visão geral das 13 Cartas Encíclicas escritas pelo Papa Leão XIII (1878-1903) entre 1883 e 1898 como um remédio para uma Igreja e um mundo que estavam afastando-se de Deus em direção ao século das duas guerras mundiais. Agora estamos no século XXI, e as Encíclicas de Leão podem parecer mais valiosas do que nunca, se lhes dermos a devida atenção. Segue abaixo um breve resumo da Laetitiae Sanctae de 1893, na qual Leão mostra como os Mistérios Gozosos, Dolorosos e Gloriosos do Rosário sucessivamente nos iluminam, consolam e sustentam contra as misérias do nosso tempo. As considerações gerais de Leão podem abrir-se a muitas aplicações particulares na oração do Rosário. Mistérios Gozosos A sociedade moderna está ameaçada por um crescente desprezo pelos deveres e pelas virtudes domésticas que constituem a beleza de uma vida humilde. A esta causa podemos atribuir, no lar, a disposição dos filhos de se absterem da obrigação natural de obediência aos pais, e a sua impaciência para com qualquer forma de tratamento que não seja do tipo indulgente e efeminado. * Para males como estes busquemos remédio nos Mistérios Gozosos do Rosário. Posicionemo-nos diante desse lar terreno e divino de santidade, a Casa de Nazaré. Aqui contemplamos a simplicidade e a pureza de conduta, o respeito mútuo e o amor – não do tipo falso e efêmero, mas aquele que encontra tanto a sua vida como o seu encanto na abnegação do serviço. Mistérios Dolorosos Uma segunda característica maligna do nosso tempo reside na repugnância ao sofrimento e na ânsia de escapar de tudo o que é difícil ou doloroso de suportar. A maioria sonha com uma civilização fantástica na qual tudo o que é desagradável será eliminado, e tudo o que é agradável será suprido. Por este desejo desenfreado de viver uma vida de prazer, as mentes dos homens se enfraquecem, e se não sucumbirem totalmente, tornam-se desmoralizadas e afundam-se nas adversidades da batalha da vida. * Um meio poderoso de renovar o nosso ânimo está, sem dúvida, na contemplação sobre os Mistérios Dolorosos da vida de Nosso Senhor. Neles contemplamos Cristo imerso na tristeza, a ponto de gotas de sangue escorrerem como suor de Suas veias. Nós o vemos dilacerado pelos flagelos, coroado de espinhos, pregado na cruz e condenado pela voz da multidão como merecedor da morte. Também aqui contemplamos a dor da Santíssima Mãe, cuja alma foi trespassada pela espada da dor. Ao testemunhar estes exemplos de fortaleza, quem não sentirá o coração aquecer-se com o desejo de imitá-los? Mistérios Gloriosos O terceiro mal é aquele que é principalmente característico dos tempos em que vivemos. Os homens do nosso tempo perseguem os falsos bens deste mundo de tal modo que o pensamento sobre sua verdadeira Pátria não é apenas deixado de lado, mas banido e totalmente apagado da memória. Homens de mente carnal, que nada amam além de si mesmos, perdem completamente de vista o mundo que está por vir, e afundam nas profundezas da degradação. * É deste perigo que serão felizmente resgatados aqueles que têm diante de si os Mistérios Gloriosos. Só aqui descobrimos a verdadeira relação entre o tempo e a eternidade, entre a nossa vida na terra e a nossa vida no Céu; e é assim que se formam caracteres fortes e nobres. Conclusão de Leão: Então, entre os múltiplos males que assolam a sociedade moderna e pressionam as nossas vidas, o Santo Rosário é como se fosse feito sob medida para iluminar-nos, consolar-nos e sustentar-nos no nosso caminho para o Céu. Que Maria, Mãe de Deus e dos homens, autora e mestra do Rosário, nos proporcione a sua feliz realização. Kyrie eleison.
- Liberación
Por Gustavo Corção, publicado n’O Globo em 22-03-1973 QUANDO em 1969 os tanques soviéticos entraram em Praga esmagando patriotas tchecoslovacos, e, estrangulando a tentativa de libertação de um grande povo, os nossos bravos "intelectuais" das esquerdas, obedecendo cegamente a uma ordem emanada do comando supremo, lançaram o lema "Socialismo é Liberdade", que a todos os homens de bem pareceu ultrapassar todas as formas paroxísmicas, vistas ou sonhadas, do cinismo. Nélson Rodrigues que, como todo mundo sabe, é um colecionador de obsessões, vive até hoje hipnotizado, a repetir seu estupor diante de tão planetária desfaçatez. * * * ORA, creio estar hoje em condições de trazer uma débil luz para o mistério de tal monstruosidade, porque levo, sobre o comum dos mortais, a desvantagem de folhear e, até, às vezes ler, a caudalosa logorreia "progressista" que na infortunada América Latina nasceu das ligações do comunismo e da anti-Igreja. Neste penoso ofício pude observar que os dois vocábulos mais repetidos em todas as centenas de revistas ou livros que vejo por semana são "hoy" e "liberación". Mantenho-os em espanhol para bem assinalar a região do continente onde medram. A ILUMINAÇÃO ou estalo veio-me hoje quando li um livrinho de Ovídio Perez Morales chamado "Liberación — Iglesia Marxismo". Antes de comunicar ao leitor o que achei nessa obra, quero trazer-lhe o resultado do meu estalo ou iluminação. Compreendi. O nosso bravo mundo liberal e suicida, liderado pelos povos de língua inglesa, durante quase um século tem criticado o socialismo e o comunismo com um só critério: o das liberdades exteriores do homem. O liberalismo, como sabemos, relativiza a verdade e o bem, cujas noções entrega às baratas, para absolutizar a liberdade exterior que seria a mais alta categoria humana. Entrando no jogo dos disparates, que técnica usará o inimigo que investiu todo o seu "O Capital de Karl Marx" na Sociedade Anônima da Burrice Humana? A técnica de gritar mais alto o mesmo termo e de levá-lo até o grau extremo de saturação. Com isto logram dois proveitos: o primeiro é o de levar o termo ao mesmo grau extremo de exaustão; o segundo será o de sempre associar o termo "revolução" ao que restar de nobre e inteligível no termo "liberação". PARA fazer um teste de minha descoberta telefonei a um amigo a quem emprestara o livro do Pe. Comblin, intitulado: "Teologia da Revolução", para que ele me fizesse a caridade de partilhar comigo a dieta que Pedro sonhou em Joppe. E disse-lhe: — Você poderá agora fazer-me o favor de correr os olhos pelas páginas desse livro para verificar se o termo liberación aparece tantas ou quantas vezes por página? — NÃO é preciso, temos melhor. EFETIVAMENTE era mais do que eu pedia o que me deu o amigo: a entrevista do dito Pe. Comblin publicada em Opinião de 12-19 do corrente, intitulada: Teologia da Libertação. Lembro aqui o título de outro livro a que tempos atrás permiti, a título de ilustração dos disparates da época, a honra de figurar neste jornal, e nesta coluna: "Jesus Cristo Libertador". NO librito que tenho diante dos olhos, até onde entendi a algaravia, também é dado a Jesus Cristo o título que se costuma dar a Simon Bolivar na América Latina: libertador. Jesus veio libertar. Muito bem. Até aqui milhões de cabeças de todas as cores dão assentimento. Veio libertar do pecado. Ótimo. Os milhões de cabeças cristãs — se chegam a tanto — balançam afirmativamente com maior convicção. Mas no sol das coisas de que nos viera liberar, libertar, ou livrar, surgem logo coisas que não têm nenhuma homogeneidade com o relacionamento Homem e Deus. Jesus Cristo seria também o libertador dos marginais, dos barnabés, dos indígenas do terceiro mundo, dos funcionários não promovidos, e daí por diante, deixando a esfera econômica, delineia-se mais ampla a missão do Libertador. Ele veio libertar o homem também dos mitos, dogmas e mandamentos, e dos tabus, heterossexuais ou homossexuais. SE a minha teoria é verdadeira, já podemos tirar aqui um corolário importante. Se a difusão do termo até o limite extremo da saturação é uma defesa contra o anticomunismo liberal, será também um hotel de alta rotatividade, onde se encontrarão marxistas e "progressistas". E, com esses dois proveitos do termo lançado até a saturação, os revolucionários entram facilmente em qualquer lugar e trazem de arrastão todos os incautos. PARA não melindrar ninguém, não direi que os membros da CNBB são incautos. Abstenho-me de qualquer adjetivo e jejuo de qualquer advérbio, mas comento o fato: a última reunião da dita CNBB esteve toda embebida em liberacións, e deixou o "slogan" para a campanha da fraternidade, onde se vê que o vírus penetrou naquela assembléia. Os centros de comando revolucionário insistem no uso do vocábulo, e por isso nenhuma assembleia episcopal que queira estar bem engrenada no século não poderia ficar alheia a esta moda de usar os vocábulos, o slogan escolhido foi: "O egoísmo escraviza, e o amor liberta". É FÁCIL mostrar o inconveniente do uso de termos carregados de ambiguidades. Eu posso usar o slogan inverso, que me parece mais exato: "O egoísmo produz liberdades; o amor prende". Basta colocar as tais variadas liberdades no honrado plural para logo se evidenciar que elas são mais depressa obras da malícia que das virtudes. Quanto ao amor, convém lembrar que há o bom e o mau amor. A única coisa de comum que têm é que ambos vinculam, prendem, unem, para o bem ou para o mal. O SLOGAN da CNBB, para fugir às fórmulas tradicionais que se polarizam na Verdade e no Bem, entrou no brouhaha atordoador com que a Revolução Mundial quer destruir a Igreja e liberar os homens de sua incômoda dignidade. O QUE é realmente triste para nosso coração católico — meditemos nisto durante esta quaresma — é a subserviência dos homens da Igreja ao linguajar induzido pelos inimigos. Homens da Igreja ou da Anti-Igreja? Só Deus sabe.
- Comentários Eleison nº 843
Por Dom Williamson Número DCCCXLIII (843) – 9 de setembro de 2023 RESISTENTE LÚCIDO As crianças são inocentes, seus jogos são meigos, Mas os adultos precisam derrotar o Diabo! O chamado movimento de “Resistência” dentro da Igreja Católica atual é um assunto de pouca importância, humanamente falando, mas pode ser que essa seja a vontade de Deus, dado o estado de caos sem precedentes em que a Igreja e o mundo se encontram atualmente. Se dissermos que esta “Resistência” consiste numa união dispersa e sem estrutura de sacerdotes – cuja maioria veio da Fraternidade Sacerdotal São Pio X, depois de a terem deixado por vontade própria ou por terem sido expulsos por seus Superiores pelo fato de não estarem de acordo com a reorientação da Fraternidade em seu Capítulo Geral de 2012 –, então podemos perguntar: o que esses sacerdotes “Resistentes” conseguiram desde 2012? Humanamente falando, a resposta deve ser: não muito. As características normais de qualquer organização católica são: a estrutura, os Superiores e os súditos, a obediência interna a esses Superiores e a obediência externa às autoridades católicas locais e a Roma. E até agora os sacerdotes da “Resistência” parecem não ter conseguido nada disto, como os seus inimigos não deixam de salientar. A “Resistência” também não pode orgulhar-se de estar convencendo muitas almas de que tem a verdadeira solução para os problemas aos quais nem a Neoigreja nem a Neofraternidade dão solução. Muitas almas podem ser atraídas durante algum tempo para a “Resistência” pelos argumentos da Verdade que ela apresenta, mas um número menor ficará permanentemente, muitas vezes devido à aparente falta de Autoridade por trás desses argumentos. Os católicos precisam do seu Papa católico, e muitos, desestabilizados sem ele, seguem a sua sombra. Então, se à “Resistência” em princípio não se dá ouvidos, e mal se a segue na prática, de que ela serve? Aqui estão duas citações da Paixão de Nosso Senhor. A primeira, aos fariseus que o repreendiam pelo barulho que faziam seus discípulos: “Digo-vos que, se estes se calassem, até as próprias pedras clamariam” (Lc XIX,40). Ora, a “Resistência” é pisoteada, como as pedras na rua, mas clama, para que as pedras não precisem fazê-lo! E a segunda, a Pôncio Pilatos, quando Lhe pergunta se Ele é rei: “Para isso nasci e para isso vim ao mundo, para dar testemunho da verdade. Todo aquele que é da verdade ouve a minha voz” (Jo XVIII, 37). A “Resistência” diz verdades vitais que a FSSPX já não diz, como, por exemplo, a de que os atuais oficiais romanos perderam a Fé. Segue abaixo o que um membro da “Resistência” escreve a respeito disso. Seria desejável que houvesse muitos outros membros que vissem a realidade com tanta clareza. Caso contrário, arriscam-se a brincar com jogos infantis, algo como os capitulares da FSSPX em 2012... e 2006... e 1994... Com efeito, não se pode ser “otimista” quanto ao que se passa aqui, nem em relação a algum determinado sacerdote em particular, nem em relação à “Resistência” em geral. O Diabo está trabalhando em dobro para derrubar os últimos bastiões da Tradição. Precisamos pedir a Deus para mantermos a cabeça fria. Nicolas Gomez Davila (1913–1994) dizia: “Já que tudo o que está sendo construído hoje passa automaticamente para o inimigo, esperemos, antes de construir qualquer coisa, que o tempo nos traga materiais que não traiam”. Que Deus nos conceda paciência, bom senso e bom humor. Em outras palavras, assim como a Igreja Católica oficial passou para o inimigo no Vaticano II, e assim como a Fraternidade Sacerdotal São Pio X passou para o inimigo no seu Capítulo Geral de 2012, é bem possível, e até provável, que a “Resistência”, por sua vez, também passe para o inimigo, mesmo que isso dificilmente possa acontecer oficialmente, já que a “Resistência” tem muito pouco de oficial. Pode-se pensar se não é exatamente por isso que o Senhor Deus permitiu que a “Resistência” exista com tão pouca estrutura e organização. Em todo caso, parabéns ao filósofo colombiano, que nunca frequentou nenhuma “universidade”. E parabéns ao membro da “Resistência” que o cita. Nenhum deles está brincando de jogos infantis. Como diz São Paulo: “Quando me tornei homem, abandonei os costumes infantis” (1 Cor. XIII, 11). Alguém poderia perguntar: restou algum homem? Kyrie eleison.
- XXVI – Trabalho e Estudo - A obrigação do trabalho para todos
Trabalho e Estudo A Obrigação do Trabalho para Todos Um quadro esquisito – O escritor C. Schimd (+ 1854) conta haver visto numa igreja um quadro antiquíssimo, muito esquisito. Neles se viam pintados cinco figuras. 1- Antes de tudo se via um imperador com cetro e coroa, e sob ele estava escrito: “Eu vos governo a todos”. 2 – Ao lado havia um Papa com tiara e o pastoral, e sob ele se lia: “Eu ensino a todos”. 3 – Depois estava figurado um soldado com a espada ao lado, e embaixo da figura se lia: “Eu vos defendo a todos”. 4 – Ali perto estava pintado um camponês ao arado, e embaixo as palavras: “Eu vos alimento a todos”. 5 – Afinal, vinha um diabo com uma carreta, e embaixo dele havia a inscrição: “E eu vos levo a todos embora, se não cumpris vosso dever”. Com essas figuras o que pretendia ensinar o pintor? Que no mundo todos têm deveres a cumprir: todos devem trabalhar; e se alguém descurar os seus deveres, entregando-se à madraçaria, terá na outra vida a punição eterna. Meus caros filhos, tende também vossos deveres a cumprir, como os têm todo mundo no estado em que é por Deus colocado; também deveis trabalhar, embora ainda pequenos. Para alguns de vós o trabalho será material; para outros será atender à escola e ao estudo. De qualquer modo sempre é labor aquilo em que vos deveis exercitar mais. Ficai atentos e explicar-vos-ei: I. A obrigação do trabalho para todos II. Quais são os danos do ócio III. Quais as vantagens do trabalho I – A obrigação do trabalho para todos 1 – Como homens Como homens somos todos obrigados a trabalhar: “O homem nasce para o trabalho, como para voar os pássaros (diz Jó): Homo nascitur ad laborem, et avis ad volatum”. É condição natural nossa a de dever trabalhar, porque a lei do trabalho já foi imposta por Deus aos nossos progenitores. Já nos primeiros dias da criação do mundo, como está dito na Sagrada Escritura, “Deus colocou Adão no paraíso de delícias, a fim de que o cultivasse e o guardasse” (Gên 2, 15). Mas esse trabalho devia ser sem pena, como um divertimento; e devia servir para preservar Adão e Eva do tédio e das tentações de caírem no pecado. Mas ai de mim! Adão e Eva pecaram e seu pecado fez mudar os desígnios de Deus. Então o trabalho se tornou um castigo que Deus impôs a Adão e a todos os seus descendentes. E eis as palavras com as quais foi aplicado esse castigo: “Tu comerás o pão mediante o suor de teu rosto: In sudore vultus tui vesceris pane”(Gên 3, 19). Desde aquele momento o trabalho, que antes era alívio, se tornou a pena do pecado. E a essa penitência estamos todos sujeitos. É verdade que o trabalho não é igual para todos; mas dessa ou daquela maneira, cada qual deve trabalhar segundo sua condição; portanto, deve a tempo escolher o trabalho que mais convenha a seu estado. Há o trabalho manual e há também o trabalho intelectual, mas ninguém pode dispensar-se do trabalho. E vedes, afinal, como todos trabalham: o camponês, o operário, o industrial, o negociante, o soldado, o advogado, o engenheiro, o médico, o padre... cada qual em sua profissão e condição, porque o trabalho é penitência. Um filho que não acha emprego – Um pai queria dar uma ocupação a um filho seu que tinha 14 anos. Chamando-o, perguntou-lhe o que desejava fazer. “Serei hortelão”, respondeu o filho, “assim estarei ao ar livre”. Mas poucas semanas depois, voltou ao pai, dizendo que o ofício de cavar a terra fazia-lhe subir o sangue à cabeça. “Serei caçador, assim terei mais ar livre e menos trabalho”, acrescentou. E o pai consentiu. Passado alguns dias vem o rapaz queixar-se ao pai de que levantar-se de manhã cedinho e correr pela campanha lhe prejudicava a saúde; e então disse: “Serei pescador, a vida será mais tranquila”. E o pai: “Está bem”. Mas também esse ofício não o satisfez, e tornou a vir ao pai queixando-se de que sentia frio nos pés e lhe vinham frieiras e concluiu: “Serei cozinheiro”. “Vá lá”, disse ainda o pai, aprovando. Mas quando o rapaz se apresentou de novo a ele, para dizer que também o ofício de cozinheiro não lhe agradava, porque perto do fogão ele perdia o apetite, o pai afinal perdeu a paciência e acabou por lhe dizer: “Agora chega: já experimentastes 4 ofícios, procurando 4 elementos (terra, ar, água e fogo), e por toda parte viste que se tem de sofrer; entretanto, um ofício ou outro será preciso que tu o faças, suportando os seus incômodos, porque o trabalho, em consequência do primeiro pecado, para todo mundo se tornou um dever e uma penitência”. E tal penitência é diária e durante a vida inteira. Diz o Salmista: “Ir-se-á o homem a suas obras e a seus trabalhos até à noite” (Sl 103, 23). 2 – Como pecadores O trabalho é, por conseguinte a pena do primeiro pecado; mas é também satisfação pelos pecados que se cometem continuamente. Nós somos pecadores: precisamos por isso de expiar os nossos pecados com um pouco de penitência, e assim satisfazer a justiça divina de Deus, se pretendemos ter dele perdão. Davi, que se reconhecia pecador, dizia ao Senhor: “Vede os meus trabalhos, e perdoai todos os meus pecados” (Sl 24, 18). E se somos ricos? Que importa? Essa lei é para os ricos e nobres também, pois também estes são os filhos de Adão e são pecadores. Dizia S. Bernardo: “O homem nasceu para o trabalho, não para as honras”. Carlos Magno foi um grande imperador; nem por isso descurava o trabalho; e, como pai de família modelo, quis que todas as suas filhas trabalhassem. Elas deviam atender até aos trabalhos grosseiros, como lavar, cozinhar, etc. E o imperador só usava roupas brancas e hábitos preparados por suas filhas. Com esse exemplo Carlos Magno ensinava ao povo e aos grandes que o trabalho não só não envergonhava, mas até é uma honra, como é um dever para todos. Eu teria para citar-vos uma série de rainhas e princesas que nunca deixavam ociosas suas mãos. Julgando-se pecadoras e humildes donzelas da grande Rainha do Céu, trabalhavam com as próprias mãos no preparo de ornamentos para igrejas e altares, e de roupas para os pobres. Assim Santa Isabel, rainha de Portugal, assim Santa Cunegunda, Santa Margarida da Escócia, Santa Isabel de Hungria. São Paulo trançava cordas, e protestava que não queria nem ouro nem prata de ninguém. Dizia ele: “Cansamo-nos, trabalhando com as próprias mãos: Laboramus, operante manibus nostris” (1Cor 4, 12); e ainda: “Vós sabeis que estas mãos têm servido às minhas necessidades e às do que estão comigo” (At 20, 34). E disse claramente que para comer cada qual o deve ganhar: “Quem não quer trabalhar, que não coma” (2Tes 3, 10). 3 – Como cristãos Dizei-me: não somos nós adeptos de Jesus Cristo? Logo devemos imitá-Lo. Ele com seu exemplo nos ensinou a obrigação de trabalhar. Passou sua vida quase toda no labor e a se cansar, ora no ofício de carpinteiro que exercia junto com S. José em Nazaré, ora em sua vida pública, durante a qual percorria os rincões da Palestina, pregando e ensinando. E passando a noite na oração. O Evangelho diz que esses trabalhos e viagens O cansavam (Jo 4, 6). E trabalhava ele por necessidade? Não, porque, sendo Deus, como apascentava miraculosamente as turbas, podia apascentar a si próprio sem trabalho: ele tinha prontos às suas ordens milhares de Anjos. Mas, com sua vida laboriosa e difícil quis ensinar a nós o que devemos fazer. Que modelo para todos os cristãos, e de modo especial para os jovens! (Extraído do livro A Palavra de Deus em Exemplos, G. Montarino, Do original La Parole di Dio per la Via d’Esempi)
- Comentários Eleison nº 842
Por Dom Williamson Número DCCCXLII (842) – 2 de setembro de 2023 A MULHER NAS ESCRITURAS – III De múltiplos tesouros, Deus é o acumulador infinito, Mas o homem substituiria Deus pela própria desordem humana. O fenômeno da feminização dos homens e da masculinização das mulheres, tão difundidas no pobre mundo de hoje, é uma reviravolta tão universal e radical para a natureza humana que seriam necessários muitos números destes “Comentários” de uma página para fazer-lhe justiça. Contudo, a propaganda em favor desta guerra específica contra os seres humanos é tão pesada à nossa volta, que o bom senso precisa de toda a ajuda que puder obter, e talvez de pelo menos mais um número destes “Comentários”, para ajudar os leitores a enquadrar o problema da forma certa: em Deus. Pois, de fato, como alguns leitores já devem ter compreendido, aqui está o ponto mais importante de todos para que se possa decifrar como um mundo inteiro pode cair em insanidades como o feminismo e o antimasculinismo. Se Deus existe, e se foi Ele quem projetou todas as criaturas, espirituais e materiais, então é claro que Ele projetou os seres humanos como homem e mulher para viverem na terra como todos os outros animais materiais, macho e fêmea; mas com uma alma espiritual, com razão e livre-arbítrio, diferentemente de todos os animais puramente materiais, para que tanto ele como ela pudessem responder ao Seu amor criador e merecessem partilhar a Sua bem-aventurança eterna. Os seres humanos foram feitos para a eternidade, nada menos que isso. Assim, diante de Deus, o homem e a mulher têm um destino igual no Céu e uma dignidade espiritual igual, mas, para a nossa breve vida na terra, Deus projetou não a igualdade entre o homem e a mulher, mas funções complementares, para criar famílias, que são pequenas sociedades, que não requerem igualdade, mas sim um chefe, com autoridade para liderar e decidir por toda a família. E os dons dessa cabeça Ele dá geralmente aos homens, enquanto as mulheres Ele costuma compensar com dons do coração, pelos quais se difunde o amor e a felicidade por toda a família. Assim, uma desigualdade terrena e temporal para as mulheres tem como fim levar a uma igualdade eterna no Céu. Mas imaginemos agora que os seres humanos, em escala mundial, excluam Deus de suas vidas. Não haveria mais Criador, não haveria mais Aquele que projetou a vida humana e a natureza, não haveria mais eternidade nem vida eterna. Seríamos produtos aleatórios de uma “evolução” que descarta por completo um projeto, um destino, uma eternidade. No entanto, a humanidade aprendeu de Cristo, através da cristandade, tudo sobre a dignidade e a igualdade de todos os homens, e esta herança deu aos seres humanos um sentido aguçado do seu próprio valor. Eles gostaram deste e não querem perdê-lo. Mas sem Deus ele não tem mais qualquer respaldo do passado nem garantia para o futuro. Portanto, tentam embutir uma igualdade de dimensão divina nesta pequena vida de dimensão humana, na qual ela não pode caber, assim como um litro de líquido não cabe numa garrafa de meio litro. Daí, com todos os tipos de sintomas, a insatisfação da vida moderna. Pessoas sem Deus, mas antes piedosas, querem os frutos de Deus sem as raízes. Não funciona. Não pode funcionar. Mas os seres humanos insistem em tentar fazê-lo funcionar, para viverem a vida em seus próprios termos, em vez de regressarem a Deus para viver esta vida nos termos de Deus. Na verdade, eles estão escolhendo o Inferno, e estão transformando este mundo num vestíbulo do Inferno. Aqui está um forte argumento em favor da existência de Deus. Se excluí-Lo, como a humanidade está fazendo atualmente, pudesse tornar todos permanentemente felizes e prósperos, isso poderia confirmar que o homem não vem de Deus nem está destinado a ir para Ele. Mas, pelo contrário, se os homens de hoje estão profundamente inquietos e insatisfeitos – o que se pode constatar por meio de seus políticos, que prometem continuamente mudanças de uma maneira ou de outra, mas sempre “mudanças” –, isso não é uma indicação de que os homens não foram feitos para o liberalismo e o materialismo, para se libertarem dos Dez Mandamentos e para a busca desenfreada pelo dinheiro? Se os homens pudessem fazer com que o liberalismo e o materialismo tivessem êxito, então teríamos de desesperar da vida humana. Mas existe esse sentido natural de que deve haver algo mais na vida humana do que apenas o que é “desagradável, pobre, brutal e curto” (nas palavras de Thomas Hobbes, 1588-1679), e assim a condição desesperadora dos homens que nos rodeiam é até um sinal de esperança! As feministas e os antimasculinistas são guerreiros viscerais na grande guerra contra Deus. Mas eles não a vencerão. Kyrie eleison.
- Missões de S.E.R. D. Tomás de Aquino no Sul do Brasil
Abaixo disponibilizamos as fotos da missão em que S.E.R. D. Tomás de Aquino percorre o Sul do Brasil, no álbum abaixo em específico na cidade de Blumenau, administrando os sacramentos e realizando pregações. U.I.O.G.D.
- Um doutrinador cursilhista
Por Gustavo Corção, publicado n’O Globo em 24-03-1973 VAMOS agora ao livro de Ovídio Perez Morales, que merece certa atenção no Brasil, e especialmente nesta cidade, por tratar-se de obra doutrinal editada em Caracas pela Oficina Latino-Americana de Cursillos de Cristandad. Digo que a obra é "doutrinal" porque o autor escreve com impecável seriedade, cita textos pontifícios, dá grande destaque à Conferência Geral de Episcopado Latino-Americano em Medelin, fala frequentemente de Jesus Cristo, no Apóstolo Paulo e outros personagens. A PRIMEIRA parte do livro, composta de três capítulos, pretende apresentar um humanismo, uma cristologia e uma eclesiologia. A língua que o autor fala, com sotaque ora teilhardista ora marxista, é a de uma fenomenologia com que às vezes parece sinceramente querer exprimir a clássica transcendência do Cristianismo, sem todavia consegui-lo. Preso à ideia fixa de "liberación" que o mimetismo cultural das esquerdas lhe impõe, o autor nos apresenta um Cristo libertador, apenas um pouco menos caricato do que o do "teólogo" Boff, que é a Superstar de nossa teologia progressista, aplaudida e afagada por nossas autoridades eclesiásticas. A IDEIA central de liberação é mais um processo histórico e temporal do que uma salvação sobrenatural. Chega a inspirar dó o esforço que o autor parece fazer para exprimir sua secularização do Cristianismo sem, todavia, ousar a deslavada ou desaforada simplicidade de um Boff ou de um Comblin. E por isso mesmo o livro de Morales é mais nocivo porque está cheio das "migalhas de evangelho", de "fragmentos de ortodoxia", de "pedaços de demolição", e, portanto, como serenamente dirá D. Estêvão Bittencourt, cheio de "aspectos positivos". Um ponto importante, que o autor salienta na página 48, dizendo-se apoiado no Vaticano II, é a necessidade de bem frisar a não existência do clássico dualismo cristão, que estabelece uma distinção real de duas ordens, a natural (ou da primeira criação) e a ordem da graça (ou da segunda criação). AS POUQUÍSSIMAS vezes que fala em salvação é para dizer que ela é não somente universalmente oferecida por Deus, mas universalmente realizada pela "liberação unificante que já opera na história". Logo adiante lemos: "Hay un polo supremo de convergencia del preceso liberador unificante divino y un solo centro de referencia de toda a acción amorizante de Dios: Cristo, alfa y omega, eje de la humanidad y meta de la historia." A SUBFILOSOFIA dita "fenomenológica" só pode produzir essa espécie de subteologia de um "naturalismo" só disfarçado pelo pedantismo das construções verbais. * * * NA SEGUNDA parte, que trata do marxismo, o autor pretende fazer uma exposição serena para crítica ulterior, mas não consegue fugir à tentação de uma apologia. Eis uma amostra: "1. Posición del problema: Frente al marxismo el cristiano está llamado, hoy por hoy, a una actitud de sinceridad y lucidez. Sinceridad para aceptar la dosis de verdade que el marxismo encierra...". Desenvolve a dose sem mencionar sequer os miligramas daquilo que a Igreja já condenou como desumano, ímpio, atroz e monstruoso. Mais adiante continua: "Una posición critica frente al marxismo ha de implicar necesariamente una apreciación de los valores que presenta, das inquietudes que plantea, y de las esperanzas que suscita en tantos miembros de la comunidad humana. No se pode simplisticamente atribuir los triunfos (sic) del marxismo en nuestro mundo al puro uso de las armas (enviados em 1942 pelos norte-americanos) y a la dominación totalitaria y imperialista exercida desde centros visibles del poder político; luchas concretas contra injusticias, la cuota de sacrificio que los movimientos marxistas han sabido ofrecer en la defensa de los intereses de los trabajadores, la consciencia de solidariedad popular que ha despertado el marxismo y, sobretodo, ei optimismo mesiánico que ha sabido suscitar en milliones de oprimidos y, en general de contemporaneos nuestros expuestos a la desesneranza, son factores que deben tener-se en cuentá a la hora de jusgar adequadamente el fenomeno de la difusión de concepción del hombre y de la sociedad" (págs. 63 e 64). NESTE mesmo capítulo o autor passa gradativamente do marxismo para a liberación e o amor trazidos pelo cristianismo — amor que deve ser traduzido em serviço, e serviço que desabrocha na Revolução: "Por eso el cristiano no puede ir con las manos vacias, la consciencia puramente pasiva, a una revolución; su fe le establece presupuestos para la acción, lineamentos para la conducta; puede y ha de recibir ciertamente iluminación de la praxis misma, pero ha de imprimir en esta el sello de su "actitud cristiana" (pág. 85). * * * NÃO se diga, porém, que o doutrinador cursilhista da Venezuela não faz críticas e restrições ao marxismo. Na terceira parte ele nos mostrará, com abundante apoio na Gaudium et Spes, a superioridade da visão histórica cristã (pág. 102) por onde se vê, inequivocamente, que o marxismo é incompleto e insuficiente. Ou melhor, onde se vê que o cristianismo é o verdadeiro e completo marxismo. Na linha dessa dialética poderíamos dizer que Jesus Cristo é que foi o verdadeiro Karl Marx. * * * AOS LEITORES, que ficaram estomagados pelo que já escrevi sobre os Cursilhos, ofereço estas reflexões serenas sobre o livro de um líder cursilhista venezuelano. E più non dito... O QUERIDO leitor não precisa escrever-me para dizer que em seu Cursilho não há Pregação subliminar de marxismo, lavagem de crânio e subversão das faculdades humanas. Acredito. ASSIM como há arcebispos e bispos que se esforçam para provar que já não são católicos, também haverá cursilhos que não são cursilhistas. Quando esquecemos que é a "Verdade que liberta" e desatamos a falar em amor, amor, amor, em todos os tons, estamos prontos para engolir tudo; e para sermos engolidos pelo "Leão que ronda em torno de nós, procurando a quem devorar". SERÁ talvez por isso que Perez Morales, o doutrinador cursilhista, não falou no Demônio. É verdade que também não teve uma palavra para a Virgem Santíssima.
- Comentários Eleison nº 841
Por Dom Williamson Número DCCCXLI (841) – 25 de agosto de 2023 A MULHER NAS ESCRITURAS – II Os santos Pedro e Paulo ensinam o mesmo sobre as mulheres, Cabe aos homens guiá-las, em nome de Deus. Certamente poucos leitores destes “Comentários” haviam percebido, antes de ler os da semana passada, em quantos lugares o Novo Testamento aborda diretamente a questão, tão controversa hoje, do homem e da mulher. Quando veem essas citações reunida se dão conta do quanto dizem a mesma coisa e de até que ponto o que dizem se afasta dos ensinamentos e da prática do homem e da mulher modernos. Comentemos as citações: Gên. II, 18–24: Um adjutório Mesmo antes de a primeira mulher ser criada, ela foi projetada por Deus para ser orientada para o seu homem: ser sua esposa fiel (“dois em uma só carne”), permitir-lhe ter filhos e formar uma família (como nenhum outro homem poderia fazer), formar uma nova geração (“deixando pai e mãe”), dar continuidade à humanidade, eventualmente povoar a terra (e não despovoá-la: Gen. IX, 1, 7). Tudo isso Adão compreendeu imediatamente. Já as feministas de hoje tentam afastar-se dessa orientação para o homem; mas ela está demasiado arraigada na natureza delas, e quanto mais elas conseguem fazê-lo, maior o desastre para as mulheres e os homens. Veja-se, por exemplo, o MGTOW, uma reação dos homens ao feminismo que desnatura a mulher. O homem e a mulher foram projetados por Deus com uma complementaridade maravilhosa, e como a cabeça e o coração em um ser humano, precisam um do outro, e a natureza sempre os unirá. Gen. III, 16: A Queda: punição, submissão Mesmo antes da Queda, Eva estava subordinada a Adão, porque na Criação de Deus há ordem e hierarquia em toda parte, não igualdade e desordem. Ao homem, Deus dá dons de razão para que seja chefe da família e da sociedade; à mulher, Ele dá dons de amor para torná-la o coração da família e do lar. Mas embora antes da Queda esta subordinação natural da mulher tivesse sido indolor, depois da Queda pela qual Eva fez Adão cair, como parte do seu castigo por Deus, esta subordinação tornou-se dolorosa. Pela graça sobrenatural, em um casamento cristão essa dor é aliviada, mas pelo orgulho do feminismo, a dor só se agrava. 1 Cor. XI, 3–12: Hierarquia O ensinamento de São Paulo não poderia ser mais claro: 1 Deus. 2 Cristo. 3 Homem. 4 Mulher. Eis a chave do feminismo: se o homem livrar-se de Deus e de Cristo, a mulher naturalmente se livrará do homem. Assim, se o homem deseja restaurar a ordem no seu lar e na sociedade, deve começar por subordinar-se a Deus através de Cristo. Por isso é bastante razoável argumentar que os verdadeiros autores do feminismo desastroso atual são os homens, e não as mulheres. Ef. V, 21–33: Casamento Assim, nesta citação mais longa que serve como Epístola na Missa de Matrimônio católico, os versículos 24 e 33 lembram à futura esposa o seu dever de submissão e respeito para com o marido, mas todos os outros versículos se dirigem ao marido, para dizer-lhe que cuide de sua esposa, como Cristo cuida de Seu próprio Corpo, a Igreja. É um exemplo sublime para um casamento. Depende do homem dar a direção certa à sua esposa. Col. III, 18–21: Família Aqui está a complementaridade essencial: Maridos, amem suas esposas; esposas, submetam-se a seus maridos. 1Tm. II, 9–15: Salvação pela maternidade Quando os homens são ímpios, como acontece hoje em dia, as mulheres assumem o controle, tanto na sociedade como no lar, e às vezes têm de fazê-lo, com os muitos resultados infelizes que observamos ao nosso redor, porque as mulheres não são feitas para exercer a autoridade, mas para dar e receber amor, especialmente ao serem mães. Tito II, 4–5: Centradas no lar Assim como o homem precisa ser criativo em seu trabalho, a mulher precisa ser criativa formando uma família e um lar. 1 Pedro III, 1–7: Mais duas razões para que as esposas se submetam Primeira: a insubmissão das esposas é tão antinatural que, praticada pelos cristãos, desacreditará a Cristo. Segunda: as mulheres são mais frágeis que os homens, e por isso devem ceder, enquanto os homens devem cuidar das fragilidades delas. Kyrie eleison.
- XXV – A Oração - Condições da prece
A Oração Condições da Prece III – Condições da prece O santo rei Davi compara a oração ao perfume do incenso que se eleva a Deus. Mas para que suba o perfume odoroso, é preciso que haja brasas no turíbulo. Também a prece subirá a Deus se partir de um coração ardente de fé e de devoção, e for feita com humildade e confiança. Eis, então, o que se requer para rezar bem: 1 – Atenção e Devoção É preciso pensar que se está na presença de Deus e que se fala com ele. No entanto, como rezam tantos jovens? Com que atenção e devoção? Com a do papagaio, que diz as palavras que aprendeu, sem saber o que diz. O Senhor, por intermédio do Profeta Isaías, assim se lamentava aos hebreus que rezavam mal: “Esse povo me honra com os lábios, mas seu coração está longe de mim: Populus hic labiis me honorat; cor autem eorum longe est a me” (Is 29,13). Estas mesmas palavras Jesus as dirige aos judeus (Mt 15,8). Não teria razão o Senhor de lamentar-se também de certos jovens? Quantos merecem até a censura que fez Jesus aos Apóstolos: “Até agora não pedistes coisa alguma em meu nome: Usque modo non petistis quidquam in nomine meo” (Jo 16,24), como a dizer: “Não rezastes”. Uma visão de São Bernardo – S. Bernardo estava certa noite no coro a recitar o ofício com seus monges; e viu ao lado de cada um deles um Anjo que escrevia num papel. Mas uns Anjos escreviam com letras de ouro, outros com letra de prata, outros com tinta comum, e alguns não escreviam. Deus deu a entender ao santo que as letras de ouro significavam o fervor de quem rezava; as de prata uma devoção menos fervorosa; as de tinta apenas diligência no recitar das palavras, sem devoção e com distração. Os Anjos, afinal, que nada escreviam, demonstravam a acídia dos religiosos que não rezavam. Examine agora cada qual de vós como recita suas orações, e como as escreverá o seu Anjo bom. Atenção, pois, e devoção, permanecendo recolhidos. S. Bernardo, antes de entrar na igreja para rezar, ao se achar à porta, dizia a si mesmo: Pensamentos do mundo e das questões terrenas, ficai aqui e esperai até eu sair: tornarei então a tomar-vos. 2 – Humildade e Fervor “A oração dos humildes penetra o Céu, e vai até o trono de Deus.” (Eclo 35,21). S. Agostinho diz que quando pedimos graças a Deus, devemos aprender dos pobrezinhos que pedem esmola. Como fazem eles? “O pobre fala suplicando”, diz o Espírito Santo (Prov 18,23). Já vistes como os pobres se humilham e suplicam quando pedem a caridade? Eles vos mostram seus rostos pálidos de fome, seus membros retraídos, mutilados, ou feridos; contam-vos a história de seus males, e vos suplicam, lembrando as almas do Purgatório, o Paraíso, os padecimentos de Jesus Cristo... E com que empenho e calor” E que pedem afinal? Nada, a não ser um vintém! E se lhes dais qualquer coisa, rendem-vos mil graças e invocam sobre vós mil bênçãos. E nós, que pedimos a Deus suas graças, sua ajuda, o seu Reino, seu Paraíso, por que não faremos o mesmo? Não esperemos obter de Deus tudo o que pedimos, se nossa prece não for humilde e fervorosa. O Publicano – Lemos no santo Evangelho que o Publicano, ao entrar no Templo, não se colocou à frente; mas, ficando num cantinho e não ousando nem erguer o olhar, todo confuso e humilhado dizia: “Senhor, tende piedade de mim, pecador!” (Lc 18,13). Assim é feita a oração se deve ser por Deus ouvida. 3 – Fé e Perseverança Disse Jesus: “Quem necessita de graças, espere e peça-as a Deus sem duvidar. O que pedis na oração, tende fé de consegui-lo e obtê-lo-eis” (Mc 11,24). E São Francisco de Sales: “Quem espera pouco, obtém pouco; quem espera muito, obtém muito”. Devemos confiar muito nos méritos de Jesus Cristo, e pedir as graças em seu nome, sabendo que tudo o que ele fez e padeceu, não o fez por si mas por nós. E não devemos parar de rezar. O Senhor disse também: “Orai sem cessar: Sine intermessione orate” (1 Tes 5,17). Alguns rezam durante uns dias: depois se cansam e não rezam mais. entretanto o que sucede? Caem em pecados, e se dão vencidos pelo demônio. Não rezando, tornam-se pobres de virtudes e não têm mais força para resistir às tentações; consequentemente ei-los pecadores. Há outros afinal que deixam de rezar por não obterem logo o que desejam. Não se deve pretender que Deus nos atenda assim que abrimos a boca. Às vezes o Senhor não nos atende logo porque deseja pôr à prova a fé; e se se faz surdo às nossas preces, é sinal de que aquilo que pedimos não é para melhoria nossa. Eis um modelo de perseverança na oração. A Cananeia – Apresentou-se a Jesus uma mulher cananeia, para obter a cura de sua filha. E Jesus nem a olhou e lhe virou as costas. A mulher não se atemorizou por isso, e seguia-o tão insistente que os Apóstolos disseram a Jesus: Despacha-a que ela grita atrás de nós. Mas Ele responde que é enviado apenas por causa das ovelhas de Israel. A cananeia se põe ainda diante dEle, e Jesus: “O pão dos filhos não se dá aos cães”. “Pois bem, replica a mulher, mas também os cachorrinhos comem as migalhas que caem da mesa”. Então Jesus: “Mulher, grande é a tua fé: que te seja feito como desejas” (Mt 15, 21-28). Essa mulher foi posta à prova: perseverou na prece e foi atendida. Conclusão Fazei grande conta da oração: ela é a chave do Paraíso (S. Agostinho). Não vos deixeis enganar pelo demônio que tem tanto medo da oração, e por isso procura todos os meios para não vos deixar fazê-la, ou para fazê-la mal. Um santo pregador (Segneri) escreveu: “Eu gostaria de poder soprar uma trombeta como a que se dará ouvir em todo o mundo no dia do Juízo, e gritar forte a todos: Orai, orai, se quereis salvar-vos!”. Orai, pois, vós também, e amiúde. Não descureis nunca as orações matinais e da noite, e recorrei a Deus também durante o dia, especialmente nas tentações e nos perigos. Um ladrão apavorado pelo “Pai Nosso” – Numa cidade, em época de feira, todos os moradores de uma casa estavam fora, exceto um menino que brincava só em casa. De repente ele viu um ladrão que entrava por uma janela. Percebendo o perigo, o pequeno imediatamente se ajoelhou, e recitou em voz alta o Pai Nosso. A oração desse inocente abalou tanto o ladrão, que, apavorado e arrependido, fugiu. Vede como é útil a prece nos perigos? Fazei uso também das jaculatórias, invocando amiúde a ajuda de Deus de Maria Santíssima com as palavras: Meu Deus, ajudai-me! Mãe de Deus, assisti-me! Isto pouco custa, e podereis fazê-lo em casa, na escola, nas ruas e até nos recreios. Assim com pouco ganhareis muito. Fazei-o então e tende bem em mente as importantes palavras que disse S. Afonso: “Quem reza, certamente se salva”. Se rezardes, certamente salvar-vos-eis também. (Extraído do livro A Palavra de Deus em Exemplos, G. Montarino, Do original La Parole di Dio per la Via d’Esempi)








