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  • Boletim da Santa Cruz Nº 45

    BOLETIM DA SANTA CRUZ Nº 45 JUNHO DE 2011 Caros amigos e benfeitores. Uma terrível calamidade abateu-se sobre nossa cidade de Nova Friburgo. Teresópolis, Petrópolis, Bom Jardim e várias outras localidades também foram bem castigadas. Mas esta palavra é bem escolhida: castigada!? Devemos falar de castigo? Esta palavra é dura, e nestes momentos devemos sobretudo consolar os aflitos e não sobrecarregá-los de repreensões. Por esta razão, nós consagramos os dias que se seguiram ao flagelo em visitar algumas vítimas, em expor o Santíssimo Sacramento, em pregar e em fazer três dias de procissões suplicando a misericórdia divina. Nossos paroquianos não mediram esforços socorrendo algumas famílias, durante vários dias. Isto feito, a mesma pergunta volta à nossa mente. Por que este flagelo? Qual a razão deste mal? Em tudo devemos procurar conhecer as causas. Qual a causa de tantas mortes, de tantas famílias desabrigadas, da perda de tantos bens? Sem querer entrar nos segredos de Deus, que governa todas as coisas e cuja sabedoria é um abismo insondável, interroguemos a Revelação para vermos se ela nos diz algo sobre este enigma, ao menos de um modo geral. A Revelação está contida na Tradição e na Sagrada Escritura. Ora, uma ou outra nos falam elas das razões dos grandes cataclismos? Sim. E que dizem? A Tradição, que se manifesta principalmente nas orações contidas na liturgia, nos diz: “Protegei-nos, Senhor, já que recebemos os vossos santos mistérios, e por vossa misericórdia firmai a terra que vemos tremer com o peso das nossas iniqüidades, a fim de que os mortais saibam que tais flagelos são castigos de vossa mão e o seu termo, efeito de vossa misericórdia.” (1) E a Sagrada Escritura. Que diz ela? Ela nos diz que o dilúvio foi por causa dos pecados dos homens. Ela nos diz que a terra foi amaldiçoada por causa do pecado de Adão; que Sodoma e Gomorra foram calcinadas por causa dos seus pecados. Onde há punição, há um pecado que é a razão da pena. Mas muitos dos que morrem são inocentes e muitos dos culpados permanecem ilesos, dirão alguns. Sim. Não estamos no Juízo Final. Estamos ainda no tempo da misericórdia e estes flagelos são sobretudo avisos, advertências para que nos convertamos a Deus. “Quem poupa a vara não ama o filho” diz a Escritura. Logo, Deus ama a cidade de Friburgo e quer sua conversão. Que este aviso não fique sem repercussão nas almas de nossos concidadãos. No caso dos inocentes eles sofrem nos bens temporais, ou seja, nos bens desta vida, mas não nos bens eternos, não nos bens da alma pois eles vão para o Céu se morrem em estado de graça. E se perdem não a vida, mas casa, carro, e outros bens terrenos, eles ganham, pela paciência, grandes méritos diante de Deus. Nossos pecados são numerosos e nós não nos damos conta nem de seu número, nem de sua gravidade. Todos nós pecamos, uns mais, outros menos; uns mortalmente, outros venialmente; uns, por ignorância, outros, por malícia, outros ainda por fragilidade. Seja qual for a causa, nós devemos nos converter e combater o pecado com a oração e a penitência. Estes flagelos são um sinal de alarme salutar. Ninguém é totalmente inocente. Só Nosso Senhor e Nossa Senhora são inocentes. Oração e penitência foi o que Nossa Senhora veio pedir em Lourdes e renovou o seu pedido em Fátima. É toda uma cidade, é toda Nova Friburgo que deve se converter. É o mundo moderno que deve renunciar a seus erros, à sua mentalidade, a seu modo de vida, fruto das doutrinas liberais, veiculadas pelo protestantismo, pela maçonaria e pelo progressismo. Mas isto é impossível, dirão. O senhor não quer converter toda uma cidade e muito menos, converter o mundo? Para isso seria necessário um dilúvio de graças? Sim, converter Nova Friburgo, converter o mundo é impossível aos homens, mas a Deus tudo é possível. Aliás um raio de sol brilhou no céu nublado de nossa cidade. Um raio de sol cheio de esperanças. Após as chuvas de janeiro nós tivemos a idéia de propor ao prefeito de Nova Friburgo que consagrasse a cidade ao Imaculado Coração de Maria. Após um primeiro contato, em que expusemos as razões de tal iniciativa, nos veio a resposta. Era só marcar a data. Faltavam nove dias para o 13 de maio deste ano. Propusemos pois o 13 de maio que foi aceito. Isto nos permitiu fazer uma novena preparatória à qual o Prefeito e sua esposa se uniram. No dia marcado, no gabinete do Exmo. Sr. Dermeval Barboza Moreira Neto, por volta das oito e trinta da manhã, com a presença do Prefeito, de sua irmã Cristina Mastrângelo, chefe de gabinete da Prefeitura, de alguns monges da Santa Cruz e de quatro fiéis, a cidade de Nova Friburgo foi consagrada ao Imaculado Coração de Maria. Não podemos deixar de ver o dedo de Deus nestes acontecimentos. Que Nossa Senhora estenda a sua proteção sobre Nova Friburgo e sobre o seu Prefeito ao qual expressamos aqui toda nossa gratidão por este ato corajoso e filial. Que Nossa Senhora proteja também todos aqueles que desejam reagir contra a profunda decadência intelectual e moral de nossa pátria e de todo o mundo moderno que corre para sua ruína se ele não se voltar para Deus através do Imaculado Coração de Maria Santíssima. Ir. Tomás de Aquino, O.S.B. (1) Oração que se encontra no missal romano como pós-comunhão, a ser dita na missa, por ocasião de um terremoto. CONSAGRAÇÃO DE NOVA FRIBURGO AO IMACULADO CORAÇÃO DE MARIA Ato de Consagração Conscientes de nossa responsabilidade diante de Deus e de nossos concidadãos, conscientes de que nada acontece sem a permissão de Deus, que tempera as alegrias e as dores em vista da salvação eterna de seus filhos, conscientes de que os flagelos não têm outra razão senão os nossos pecados, conscientes, enfim, de que Deus Ele mesmo nos deu Maria Santíssima, Mãe de seu eterno Filho, por Medianeira de todas as graças e auxílio de todos os que a ela recorrem, nós, com ardente amor filial, consagramos hoje a cidade de Nova Friburgo ao Imaculado Coração de Maria, pedindo-lhe que afaste de nossa cidade toda e qualquer calamidade e, acima de tudo, nos obtenha a graça de nos afastarmos daquilo que mais ofende a soberania divina, ou seja, nossos pecados, causa dos males que sobrevieram sobre nós na terrível catástrofe do doze de janeiro deste ano de graça de dois mil e onze. Ó Mãe Santíssima, animados por um profundo amor filial, nós vos consagramos nossa cidade, nossas pessoas e nossos bens. Cuidai de uns e outros como coisa e propriedade vossa. Protegei nossas almas, nossos corpos, nossas famílias, nossos parentes e nossos amigos. Nós vos reconhecemos por nossa Mãe e por Mãe de Deus. Nós reconhecemos vossa Imaculada Conceição e todos os privilégios que Deus vos concedeu. Muitos vos desconhecem, muitos vos abandonaram, mas tende piedade de todos e estendei vossa proteção sobre toda a nossa cidade. Assim seja. DOUTRINA Expomos aqui alguns textos, reflexões e informações que nos auxiliam a compreender melhor o nexo entre os pecados dos homens e os castigos de Deus e a necessidade de recorrermos à maternal proteção de Maria Santíssima. I – A causa dos flagelos naturais segundo o ensinamento tirado da vida dos santos “Há perto de seis meses a cidade de Nocera estava enlutada porque o céu, brônzeo como nos dias do profeta Elias, não deixava cair uma gota d’água. Se a seca se prolongasse um pouco mais, seria inevitável a perda da colheita e a carestia. O povo chorava refletindo sobre o futuro, e Afonso deplorava os pecados do povo, que são a causa desses flagelos. Um domingo, a 15 de maio, empreendeu, embora muito fraco, uma procissão de penitência para abrandar a cólera divina; revestiu-se de seus hábitos roxos, cobriu-se de cinzas e, a corda ao pescoço, dirigiu-se com seus religiosos para a matriz, a fim de lá levantar uma grande cruz. Como o trajeto era demasiado longo, constrangeram-no a fazer de carro a metade do caminho; mas, a despeito de todas as insistências, fez a pé a segunda metade, amparado por dois de seus servidores. Toda a cidade assistiu a essa comovente cerimônia. Tanto a igreja como o largo estavam apinhados de pessoas. O santo ancião quis aproveitar-se da ocasião para exortar os pecadores ao arrependimento. Para que a multidão o pudesse ouvir, levaram o púlpito fora da igreja e, não podendo o santo subir, os fiéis lá o colocaram suspendendo-o em seus braços. Por mais de uma hora o santo invectivou contra o pecado mortal, que não só ofende a Deus, mas também atrai sobre uma população inteira os mais terríveis castigos. Homens, mulheres e crianças, os olhos arrasados de lágrimas, batiam no peito pedindo a Deus o perdão dos seus pecados. À tarde, todos os confessionários estavam assediados. O céu parecia insensível às preces daquele povo aflito. Oitos dias passaram sem a menor variação da atmosfera. A 24 de maio, segunda-feira de Pentecostes, Afonso voltava do seu passeio de carruagem para casa, quando, já perto da casa, ordenou ao cocheiro que voltasse e o conduzisse a uma determinada igreja dedicada à Santíssima Virgem. Vendo-o descer do carro e entrar na igreja, a multidão acorreu para rezar com ele. O santo mandou expor a imagem da Virgem e exortou os assistentes a recorrer com confiança à sua intercessão onipotente. Depois de haver rezado algum tempo em silêncio, voltando-se para a multidão disse com um tom de segurança: “Continuai a recomendar-vos à Madona, confessai-vos e comungai esta semana: domingo tereis chuva.” A predição espalhou-se logo pela cidade e redondezas. A semana inteira o céu conservou sua implacável serenidade; o domingo não apresentou a menor mudança, e já diziam todos que dessa vez o santo fora mau profeta, quando subitamente, pela tarde, uma revolução se opera na atmosfera, num instante o céu cobre-se de nuvens e a chuva cai tão copiosa que inunda todos os campos. As preces do servo de Maria foram atendidas e o hosanna popular retumbou por muito tempo, glorificando-o tanto nas cidades como nos campos.” (Santo Afonso de Ligório, pelo Rev. Pe. Berthe, pág. 646-7) II – As Modas indecentes e a Maçonaria A Maçonaria não está isenta de culpa no que diz respeito a decadência dos costumes que todos podem constatar no nosso país e, em particular, em Nova Friburgo, inundada de propagandas indecentes para alimentar o comércio da dita, para não dizer maldita, moda íntima, com seus desfiles, cartazes e tudo o mais. Num livro editado em 1931 que reúne os 100 primeiros números da antiga publicação “Raios de Sol” encontramos as seguintes informações sobre o papel da maçonaria na corrupção dos países católicos. “Persuadamo-nos intimamente de uma coisa: no dia em que tivermos o apoio e auxílio da mulher, então, e só então, seremos realmente vitoriosos das superstições; mas enquanto não tivermos conseguido arrancar e subtrair as nossas filhas aos ensinamentos da Igreja, os nossos esforços ficarão infrutíferos, condenados a um deplorável malogro.” E o que queriam estes ilustres maçons das mulheres? Eles queriam que elas não fossem mais as educadoras, mas sim as corruptoras do gênero humano. Os maçons ensinavam uma metódica progressão na diminuição das vestes para chegarmos onde chegamos hoje. O nu artístico, o nu higiênico, a beleza corporal admirada, exposta ao sol e aos olhares de todos. Não é sem razão que Gregório XVI escrevia a respeito da maçonaria: “cloaca em que estão amontoadas e amalgamadas as escórias de quanto há de mais sacrílego, infame e blasfemo nas heresias e nas mais criminosas seitas.” Leão XIII, por sua vez, vai à raiz do mal, denunciando a doutrina do naturalismo, que é o fundamento do ensinamento maçônico, que recusa a Revelação e, portanto, recusa todo o ensinamento da Igreja. Mas o pior não é ver o inimigo da Igreja atacá-la com todas as suas armas. O pior é ver os católicos marcharem sob o estandarte da maçonaria pensando que estão marchando sob o estandarte da Igreja. Este mal nos veio pelo liberalismo que é uma deserção do combate que devemos travar contra o Mundo inimigo de Deus. Este liberalismo foi promovido por Vaticano II e o resultado está diante dos nossos olhos. Mesmo as moças e senhoras católicas adotam os modos de se vestirem inspirados nos princípios do naturalismo, difundidos pelas seitas maçônicas: “Vestir o menos possível para despir o mais possível.” Eis o que poderíamos chamar de lema dos alfaiates e modistas modernos. É tempo de voltarmos aos ensinamentos da Santa Igreja cuja Tradição é imutável e inspiradora da verdadeira e única civilização que procede de Deus e a Ele conduz. Que o Imaculado Coração de Maria Santíssima esmague as seitas satânicas que corrompem o nosso povo brasileiro e faça brilhar novamente em nosso país a verdade e a santidade, e de modo especial em Nova Friburgo. #Boletins

  • O Padre Vayssière O.P.: Eremita e Provincial

    Foi um puro foco de vida espiritual que se extinguiu entre nós com o Padre Vayssière, “o santo Provincial de Toulouse”, como era muitas vezes chamado na Ordem de São domingos, onde o caráter exclusivamente sobrenatural de sua personalidade era bem conhecido. As recordações aqui narradas desejariam contribuir a prolongar o efeito dessa chama que o habitava e cujo vivo calor será insubstituível. Durante os seus últimos dias, ele não via mais, em sua longa vida, senão uma seqüência de tudo o que a Virgem Santa havia feito por ele: “Tudo tem sido misericórdia na minha vida, dizia, e misericórdia de Maria”. Ele resumia esta misericórdia em três raças essenciais das quais todas as outras tinham decorrido: graça do sofrimento, graça da solidão, graça da revelação da Virgem à sua alma. Que seja permitido aos seus filhos acrescentar a esta enumeração a graça que lhe foi dada para eles, a qual chamarei a sua graça de paternidade. Sigamos esta seqüência que nos oferece a interpretação sobrenatural de sua alma e de sua vida. GRAÇA DO SOFRIMENTO Para bem apreciá-la, é preciso compreender qual foi o arrebatamento dessa alma diante da bela e rica vida dominicana. Seminarista, era vivaz, ardente e impetuoso de caráter. Compreende-se facilmente, pois sempre permaneceu assim. Havia nele uma chama. Essa chama notava-se já no Grande Seminário; o assunto habitual de sua conversação com o seu melhor amigo era a vida sacerdotal e os meios de torná-la mais perfeita. Leu um dia a vida de Lacordaire e, chegando a uma página qualquer, ouviu dentro de si um brusco apelo: “Serás dominicano”, que o determinou para sempre. Quis, portanto, tornar-se dominicano “para pregar”; nada era mais nítido no seu espírito, e foi Lacordaire que o levou após si. Entrou com esse ardor no Noviciado de Toulouse, onde foi muito aplicado no trabalho de sua perfeição e plenamente feliz: “Estou contente demais’, dizia ele com receio ao seu Padre-Mestre, e contou muitas vezes quanta consolação encontrava ao repetir sem cessar as palavras do salmo, que aplicava ao seu estado de órfão: “Meu pai e minha mãe abandonaram-me, mas o Senhor levou-me para perto de si”. Começou brilhantemente os seus estudos. Porém esse belo início de um sujeito de elite havia de tomar outro rumo. Um profundo esgotamento cerebral tornou-o de repente incapaz de qualquer trabalho intelectual. Nunca sarou completamente, e foi a cruz íntima de sua vida. “Ainda sofro disso”, confidenciava-me algum tempo antes da sua morte. Teve de fechar os seus livros e foi enviado a Saint-Maximin, onde terminou a sua preparação ao sacerdócio. O seu Padre-Mestre ali foi o Padre Colchen, religioso de grande raça, extremamente bom, mas apaixonadamente austero e pouco comunicativo. Ele que enfrentava todas as suas enfermidades para ir a matinas de noite, qualquer que fosse o seu esgotamento, julgava impossível que um tão bom religioso pudesse permanecer privado da graça de praticar as santas observâncias monásticas por falta de saúde. Ele o fez empreender um dia uma novena preparatória à festa de S”ao José, que devia consistir em levantar-se cada noite, custe o que custar. Pensava que um tal ato de fé faria um milagre. No oitavo dia da novena o pobre noviço não tinha nem a força para confessar-se. Diante desta resposta de São José, o Padre Colchen não insistiu. Seriam fechados para sempre ao Padre Vayssière tanto as observâncias como o estudo e a predicação. Assim mesmo, e embora os amasse com fidelidade, sempre insistiu dizendo que o essencial da via religiosa e dominicana não estava ali. Mas, acrescentava, o que é de fato a sua condição essencial é a abnegação, e nisto concordava profundamente com o Padre Colchen, pelo qual sempre conservou imensa afeição. Foi nesse estado de dolorosa deficiência que foi ordenado padre. Começou então em sua vida o reino cotidiano da Missa. Guarda-se gravado em si mesmo, como um belo retrato, o rosto que tinha ao oferecer o cálice no Ofertório, esse rosto erguido com a hóstia, onde se lia uma tal expressão de oblação e de fé. Era o momento onde havia nele a maior suavidade, pureza e serenidade. No momento da comunhão esse rosto parecia verdadeiramente inflamar-se. Ele dizia: “O sacerdote deve permanecer durante todo o dia o que era no altar, deve viver a sua missa, ser imolado e dado, e dando-se doar Jesus.” Mas estou aqui falando já dos seus últimos anos. Uma vez sacerdote, após colaborar algum tempo como Sub-Mestre com o Padre Colchen, foi enviado ao convento de Biarritz, onde não pôde fazer nada. “Certo dia, contava ele, eu estava na sala comum ocupado a ler jornais e também conversando com este ou aquele Padre. O Padre Provincial veio a passar e repreendeu-me vivamente… Porém que queriam que eu fizesse? Não podia nem ler, nem confessar, nem nada: eu me aborrecia.” Esse estado de deficiência física, o Padre Vayssière chegava às vezes a considerá-lo como a maior graça de sua vida. Por que? – Porque aprendeu assim experimentalmente a necessidade de aniquilar-se para que Deus reine. Foi o fato de não poder por si mesmo fazer nada do que teria desejado que o reduziu a somente apoiar-se sobre a ação de Deus. Foi sem dúvida pouco a pouco que apareceu essa luz desprendendo-se da sua provação. Mas no fim da sua vida a virtude de abandono amadurecera nele. Ou melho9r: o estado de abandono. Ele não vivia mais senão entre as mãos de Deus e da Santíssima virgem. Todos sabemos como ele se aplicava a nunca empregar nenhuma palavra que pudesse parecer colocar em nós o princípio do nosso esforço. Não dizia: amem Deus, mas: deixem-se ser amados. “O deixar fazer, é voar como pássaro rumo à santidade”. O que, mais do que tudo talvez, fez do seu estado de deficiência uma graça foi a humildade que dele hauriu. Não é fácil falar da humildade dos santos. “Na história da minha alma, diz Santa Tereza de Lisieux, há páginas que somente no Céu serão lidas”. Efetivamente, para falar bem a respeito, precisaria mostrar as misérias que Deus deixa neles, essas faltas “que não magoam o Bom Deus”, mas que os humanos estranham. Ora, os homens não conhecem o lado interior e escondido dessas diformidades, não enxergam a humildade decorrente dessa humilhação. Na alma do Padre Vayssière esta humildade era maravilhosa. Ele mesmo considerava-se apenas para admirar a graça de Deus nas mínimas coisas de sua vida. Creio que a experiência, e sobretudo a aceitação cotidiana das suas deficiências foi a grande mestra de sua humildade. Sendo Provincial, dizia: “Colocaram-me aqui, aceito-o. É para mim humilhação contínua… Porém estou feliz de fazer a vontade do Bom Deus, que abençôo por manter-me na minha pequenez”. A GRAÇA DA SOLIDÃO Ele também a chamava a graça de sua vocação madalenense. Por si mesmo certamente não teria escolhido esse destino. Quando em 1901 os seus superiores, pensando provavelmente que ele era bom apenas para rezar, e que por outro lado podiam pedir-lhe tudo, o nomearam capelão da gruta de Santa-Maria-Madalena, na Sainte-Baume, esse jovem religioso e trinta e sete anos estremeceu. Muito mais teria estremecido se soubesse que iria permanecer ali trinta e um anos. Deus tirara-lhe o estudo, as observâncias, o apostolado da palavra. Completava agora o despojamento tirando-lhe a vida em comum e a sociedade normal dos homens. A Sainte-Baume é um lugar magnífico, um verdadeiro sítio de contemplação. Não há um dominicano da Província de Toulouse que ali não tenha vivido momentos inesquecíveis e serenidade e de plenitude, no sentimento tão benfazejo do acordo entre a voz das coisas e a oração da alma. Não se poderia descrever essa vasta e pura solidão cuja alma é ainda mais impressionante do que as formas depuradas. Porém retirar-se para viver ali vem a ser uma temível provação. Os dias de inverno podem ser sinistros, a floresta nas chuvas de outono é triste e fria de fazer chorar. O planalto do “Plan d’Aups”, quando sopra o mistral, é um verdadeiro deserto áspero e desnudado. E que isolamento em cima da alta e longa crista varrida por um vento furioso! O silêncio das coisas acaba parecendo com a morte. O problema par quem por obediência tornava-se eremita era aceitar essa solidão, desposá-la, esgotar sua graça. Foi o que ele fez e eis porque tornou-se um contemplativo. Ele contou a muitos de nós como se decidiu a sua vocação. Ia se acostumando a descer todo dia até a hospedaria dos peregrinos, onde podia achar um ouço de companhia, de conversação e de jornais. Certa vez, encontrando-se numa bifurcação, teve a intuição de que não devia continuar a descer. Uma luz súbita mostrou-lhe a nulidade daquilo que ia procurar: “Que vais fazer? Distrair-te… Pois bem, não irás!” – Foi nítido como o “Serás dominicano” da sua juventude. Desta vez queria dizer: “Viverás do espírito da gruta, será um contemplativo”. Tomou o outro caminho, o da sua nova vocação. Desde aquele dia, acrescentava, nunca me aborreci”. Teve até, durante cerca de um mês, consolações abundantes: a solidão o festejava. Depois recaiu no seu estado habitual, “seca entrecortada de raios”, segundo a sua expressão. Mas permaneceu fiel. Durante muito tempo nenhum jornal penetrou na casinha junto à gruta, onde morava com o seu fiel companheiro, o Irmão Henri, que redisse o charme de sua vida em comum. Não teve outras relações exteriores que aquelas impostas pelo seu ministério, em particular com as Irmãs de Béthanie, para as quais foi um verdadeiro pai e um apoio constante, e até durante algum tempo o capelão titular. Mais tarde os peregrinos tornando-se mais numerosos, ele não deu conta de acolher todos durante a bela estação. A casa de retiros de Nazareth, por ele fundada em 1932. Mas toda a sua ação irradiava da sua solidão. A solidão tinha penetrado tão fundo na sua alma que o formou para sempre. Mesmo diminuindo pouco a pouco em volta dele, a graça dessa solidão não pôde deixá-lo. Lá tornou-se esse homem de oração e de contemplação contínua que temos conhecido. Também aqui, estou contando a história de uma árvore que somente se deu a conhecer na plena maturação de seus frutos, mas foi na gruta de Santa Maria Madalena que criou raízes. Todo o mundo se recorda da atitude que ele tinha conservado, após tornar-se Provincial, nos conventos onde voltara a habitar. Reto, grave e pacificado, sempre parecia consciente de levar Deus. Ao envelhecer tornara-se como que diáfano. Ele tão risonho, de fisionomia tão expressiva, tão móbil, não entrava no coro ou mesmo nos lugares regulares, sem o mesmo rosto que tinha no altar. Permanecia ajoelhado durante toda a sua oração que fazia imóvel e de olhos fechados. Confidenciou certo dia a um dos seus filhos o seu método de oração: “Começo renunciando a tudo o que poderia sair de mim. A seguir coloco-me inteiramente nas mãos da Virgem Santa e fico lá”. Parece que recebeu nos seus últimos dias a de vida uma luz muito nova sobre a oração de silêncio e de passividade. Tinha-se a impressão de que esta luz o libertava, mostrava-lhe a verdadeira maneira de orar pela qual toda a sua alma ansiava havia muito tempo. A quantas almas tentou comunicar essa luz! Eis o que disse um dia a uma delas: “é preciso serem contemplativos… É preciso silêncio… mas o silêncio interior, o silêncio das potências.. É preciso ir a Deus na fé pura. Antes de tudo é preciso retirar-se de si mesmo para ser atraído por Deus… Deus não é nada daquilo que é, nem está em parte alguma… É preciso ir a ele… “Sto ad ostium et pulso”… Às vezes é duro… É preciso abrir uma passagem através de si mesmo e através das criaturas. Mas notei isto: quanto mais seca a oração, tanto mais luz há durante o dia. Quanto mais há aniquilação, tanto mais atividade divina durante o dia… Quando não percebem nada dentro de si, creiam nesta palavra de Nosso Senhor: “Meu Pai e eu agimos sem cessar”… e então, nesse vazio, em frente de Deus, que faz Deus? “Deus amou tanto o mundo que lhe dá o seu Filho único”. “É o dom supremo, o dom de Deus ao homem… Há uma objeção: e a humanidade do Cristo? Mas ela não é esquecida:: passa-se por ela. Somos tomados, somos possuídos pelo Cristo. Esta união com o Pai é o cume da alma do Cristo. Somos possuídos, somos envolvidos pelo Cristo… Isto supõe um despojamento… Porém uma tal oração não é apenas um termo. É um crisol. Ela mesma despoja a alma. “Sto ad ostium et pulso’. É preciso ir a essa porta, e bater… E nós dominicanos, devemos ser contemplativos por estado, para conhecer Deus, para conhecer as almas, a nulidade de tudo e o tudo de Deus… Essas coisas não são conhecidas, não são ditas. E agora que começo a saber… vou morrer”. Ele dizia essas coisas com um rosto iluminado, um rosto de testemunha. E que energia! Esta oração de fé não era senão a concentração forçosamente momentânea de todo o seu ser, no que fazia os sentimentos habituais de seus dias. “O meu justo vive da fé”, repetia sem cessar, “vive do espírito de fé, não de modo esporádico, em certos momentos, mas em permanência… A pessoa tem fé, mas não se serve dela, julga com o seu juízo humano, e quer com uma vontade natural. “Mas crer em que? – Crer em Deus, em Deus que é amor. “O fundo do Ser de Deus é o amor. Sois amados por Deus. O seu amor é um Oceano sem orlas… é um amor eterno! O seu amor submerge-nos, abraça-nos Eis a verdade na qual devemos crer… Crer no amor de Deus em todas as coisas, como engrandece tudo!… Somos continuamente na pulsação perpétua do seu coração… Entreguem-se ao amor, eis o seu abrigo. Lá permaneçam em cada vontade que passa… Lá não há nada a temer e tudo a esperar! Não é sempre fácil… Pois Deus é um fogo devorante que consome em nós tudo o que não é de Deus. Entreguem-se ao Amor puro por puro amor, e santificar-se-ão.” Ele não queria que a pessoa se contentasse de crer pelo espírito, queri a sua adesão pelo coração, a sua comunhão com essa Vontade de Deus, com esse “amor que nos sitia portoda a parte” e que é a última palavra de tudo o que faz gozar ou sofrer. Queria que se fizesse apenas isto: o retraimento de todo si mesmo diante do ser e da ação de Deus, abandonar-se, sabendo que isto quer dizer: deixar-se ser amado; – mas também “abraçar Deus a todo instante fazendo a sua vontade, já que a vontade de Deus é Deus”. Certa noite na Sainte-Baume estávamos fora de casa. “A vontade de Deus, meu filho, não procure outra coisa… É como para a minha reeleição. Tudo parecia humanamente contrário. Assim estou bem tranqüilo… “Adjutoriumnostrum in nomine Domini”… e depois, com um gesto largo e de grande força, que me mostrava todo o céu e todos os horizontes da Saint-Baume: “qui fecit coelum et terram”. Apoiamo-nos sobre o Todo-Poderoso que fez o céu e a terra”. Mas por que insistir, era a sua predicação constante, o espírito mesmo da sua vida que nos transmitia dizendo isso: “Digo a mesma coisa a todo o mundo, concluía ele com a sua simplicidade inimitável, não sei mais nada do que isso. E agrada a todos. Todo o mundo fica contente”. Sobretudo ele mesmo vivia isto, que tinha aprendido no livro do seu coração. Essa comunhão com o amor de Deus através de tudo o que fazia ou sofria, era a sua contemplação perpétua, “unida à ação, dizia ele, como a alma ao corpo”. Tinha chegado ao estado que assim definia: “Na alma religiosa, o passado e o porvir não contam. Somente conta o momento presente, onde ela está em comunhão com o infinito de Deus.” A GRAÇA DA INTIMIDADE MARIAL Mas tenho pressa de mostrar o espaço reservado à Virgem Santa em tudo o que acaba de ser dito. Ela era o instrumento universal, a própria atmosfera de sua vida espiritual. Era ela que o estabelecia e mantinha nesse estado de despojamento e de pura união apenas com Deus, e que assim quisera. “É a Santíssima virgem que fez tudo. Devo-lhe tudo, tudo”, dizia ele freqüentemente. Ela tinha sido a mãe exigida pelo sentimento de sua pequenez, a doçura suprema na sua mais profunda renúncia, a fecundidade de sua solidão e inspiradora de sua oração. Ele não tomava consciência de nenhuma graça de Deus sem ao mesmo tempo ser consciente da via pela qual lhe chegava. “Tudo é graça”; portanto, pensava ele, a Virgem Santa é intimamente presente em tudo. Nem todos os santos se colocam assim no Coração da Virgem Santa como no centro de sua vida espiritual. Para consegui-lo é preciso uma luz, uma revelação da Virgem Santa, que supõe da sua parte uma escolha. O Padre Vayssière a teve em grau excepcional. É próprio da alma marial, esse instinto de encontrar Deus em Maria, de até alegrar-se particularmente nesse conhecimento, de assim render-lhe glória, oferecendo-se não somente pelas suas mãos, mas antes de tudo a ela, certo de que tudo o que é dela é de Deus, que há uma total e perfeita renúncia a si mesma da mãe diante do Filho. Esse sentido da transparência de Maria explica a maneira do Padre Vayssière de falar a respeito. Tudo o que dissemos sobre a sua oração e sobre a sua vida de fé mostra suficientemente qual era o fruto de uma tal doação. Achei até muito profundo este seu pensamento…: “A Santíssima Virgem não tem mais a fé, porém ela a guarda para nós. Deve-se buscar a fé na sua fonte. Jesus Cristo não teve a fé. A fonte da fé é Maria”. – “Toda a vida espiritual está nisso, nessa doação ao amor Infinito. Mas não esqueçamos que ela se faz nos braços de Maria, na graça de seu ofício materno”… “Maria é como um grande rio que nos leva ao Cristo… Mas não se deve crer que Maria, Nosso Senhor, sejam apenas etapas para chegar ao Pai. Não é isso: Maria , o cristo, Deus, são um todo, inseparável!” Ele sentia isto instintivamente, mas o justificava também por uma doutrina marial, que bastaria desenvolver para fazer uma bela obra. “A Virgem Santa não é senão mãe… e mãe somente de Jesus, é Ele que ela gera na alma… Toda a ação de Maria leva a Jesus… Não se poderia conceber nela uma parcela sequer da sua atividade que não tivesse Jesus como objeto e como fim. É a sua missão. Ela é mãe. O seu papel de mãe é de nos dar a vida divina em troca de tudo o que ela nos ajuda a sacrificar… O próprio Espírito Santo criou e preparou o Coração de Maria, no qual cavou profundidades inefáveis. Fez dele um coração de mãe, e não de qualquer mãe, mas da mãe de Deus… É com esse coração feito para um Deus, com essas ternuras reservadas a Deus, que Maria ama a humanidade, que Maria ama cada uma das nossas almas.” Para ele o mistério de Maria era o da perpetuidade do mistério da encarnação redentora, com o qual cada alma humana pode verdadeiramente comungar. Assim como Jesus veio no mundo, assim vem viver em nós. “é a lei de Deus que desde a Encarnação renova-se através dos tempos e em todas as almas que querem ser fiéis e realizar o mesmo mistério de amor: Jesus.” É na meditação desse papel vivificador de Maria que ele tirava a sua doutrina do contato a manter sempre, da dependência a tornar todos os dias mais estreita e mais total. “Quanto mais pertencemos a Maria e à sua ação, tanto mais estamos em vias de união com Deus, de reviver Jesus… Precisamos estabelecer-nos espiritualmente em Maria como uma criança no seio de sua mãe. Quanto mais somos unidos a ela, tanto mais ela nos vitaliza. É ela, é Maria que nos forma… O caminho de fidelidade filial a Maria é o verdadeiro caminho, podem crer, é reviver a própria vida de Jesus em Nazareth.” E se alguém tivesse achado nessas considerações algo metafísico demais, ele concluía com toda simplicidade, com extraordinária e límpida ternura: “A Virgem Santa é uma (ma)mãe. Ela nos ama como um (ma)mãe. Devemos amá-la como uma (ma)mãe.” Porém o Padre Vayssière não tivera a felicidade do convívio com a sua mãe, falecida jovem. Não tinha aprendido da natureza esses sentimentos que depois é tão bom e tão belo transpor na ordem da graça e das coisas espirituais. Não tivera outra mãe a não ser a própria Virgem santa, e dela tinha aprendido tudo, até mesmas delicadezas mais humanas do seu coração. Certo dia estávamos juntos num bonde. Perto de nós estava sentada uma jovem mãe com uma criança nos braços. Após ter observado um momento, o Padre tocou-me o braço, dizendo: “Veja… Isso faz pensar no Bom Deus… Eis o que somos entre os seus braços. É curioso, quando jovem não prestava nenhuma atenção às crianças… Porém agora, isto enternece-me.” Compreende-se como a humildade do Padre tornava fácil uma tal dependência: “é preciso tornar-se criança, tornar-se pequenino.” Compreendi perto dele que a verdadeira devoção à Santíssima Virgem era inacessível aos orgulhosos. Todas as suas palavras a respeito da Virgem Santa saíam de um coração simples e despojado. Ele era consciente disto. Quanto mais tornamo-nos pequenos, dizia, tanto mais lhe permitimos ser mãe. A criança pertence mais à sua mãe na medida em que é mais fraca e pequenina… a perfeição da via de infância no plano divino, é a vida em Maria. Esta graça da intimidade marial, ele a devia primeiramente ao estado de pequenez ao qual havia sido reduzido e tinha consentido. Ma a devia também ao seu Rosário. Durante os longos dias de solidão da Saite-Baume acostumara-se a rezar diariamente vários rosários, às vezes até seis. Muitas vezes os dizia inteiramente ajoelhado. Não era uma recitação maquinal e superficial: toda a sua alma nele passava, ele o saboreava, o devorava, era convencido que encontrava lá tudo o que se pode procurar na oração. “Recitem cada dezena, dizia, menos refletindo do que comungando pelo coração com a graça do mistério, com o espírito de Jesus e de Maria tal como esse mistério o apresenta… O Rosário é a comunhão da noite (outras vezes: é a comunhão ao longo de todo o dia) e que traduz em luz e em fecunda resolução a comunhão da manhã. Não é apenas uma série de Ave Maria”. Assim vivia ele, nesse ciclo incessavelmente em ação do seu Rosário, como que “envolto” pelo Cristo, por Maria, segundo a sua expressão, em comunhão com cada um dos seus estados, com cada aspecto de sua graça, assim penetrando e permanecendo nos abismos do Coração de Deus: “O Rosário é uma corrente de amor de Maria à Trindade”. Compreende-se qual contemplação (esta oração) tornara-se para ele, que caminho para a união pura a Deus, que necessidade, semelhante à da comunhão. E quem o via constantemente manusear as contas do seu rosário podia pensar que cada uma delas tornara-se para ele como que um sinal sensível e quase falado, um memorial de todos os seus pensamentos, de toda a contemplação acumulada ao longo de tantos anos. A GRAÇA DA PATERNIDADE Afastado durante muito tempo da vida dominical normal, condenado mesmo, durante as expulsões, a vestir a batina (porém à noite somente se deitava no seu hábito branco), privado da difusão irradiante e longínqua própria ao apostolado dominicano, sempre ouvia no seu coração a voz da sua juventude: “Serás dominicano”. Eis como entendeu então o sentido de sua missão: representar a Ordem de São Domingos na gruta da penitência e da contemplação. Elevado acima de todas as realizações exteriores do seu ideal, carregou silenciosamente no seu coração a sua Ordem inteira; compreendeu a essência da vocação, compreendeu sobretudo que era uma vocação, no sentido forte da palavra, isto é, um chamado de Deus, a Vontade essencial de Deus sobre certas almas, sobre a sua. Compreendeu que essa Vontade de Deus traduzia-se numa Regra cujos mínimos detalhes tornavam-se por isso sagrados, mas que ela visava antes de tudo a realizar uma certa forma de santidade, uma certa maneira de imitar Nosso Senhor, um qualquer coisa de mais alto do que toda teoria, que havia sido realizado uma primeira vez em S”ao Domingos, e que era preciso tornar a viver em união com ele. Seria longo demais narrar e descrever o que foi nele essa graça de união filial com S”ao Domingos. Magnífico amadurecimento da graça de fidelidade à vocação. Ela tinha um sentido bastante profundo par indicar a todo religioso de que espécie deve ser a sua devoção para com o Pai da sua ordem. Ela o preparava, sem que disso pudesse ser consciente, a ser o representante de S”ao domingos entre nós. Sem dúvida somente o compreendeu, com a plenitude que nele temos conhecido, depois de nomeado Provincial. Ele mesmo contou que celebrando a missa de 4 de agosto, pouco tempo depois de sua eleição, sentira-se interiormente impelido com força “par se dar a S”ao Domingos”. Esta graça dominou todo o seu Provincialato. Não contarei aqui tudo o que ocupou esses oito anos tão plenos e tão pesados. O nosso Reverendíssimo Padre Geral escreveu-nos que não tinha visto provincialato mais fecundo em realizações. O próprio Padre Vayssière constatava com reconforto que “apesar de tudo a Virgem Santa tinha feito muito quando ele estava lá”. Todo o mundo admirava os desígnios da Providência que o tirava da sua vida tranqüila de eremita, na idade em que outros se aposentam, para mergulhá-lo nas preocupações, nas viagens, nos embaraços de toda espécie. Mas ele aceitava tudo com simplicidade. Encontrara na sua solidão o segredo de abraçar Deus em todas as coisas ao fazer em tudo a sua vontade. Podia deixar a sua Gruta. Pelo contrário, a sua graça não podia senão expandir-se, e precisava dessa missão para atingir sua forma plenária, tornando-se uma graça de paternidade. Mais do que nunca, as suas deficiências ser-lhe-iam um motivo de despojamento e de humildade; mais do que nunca iria a sua oração fazer-se pura e elevada, sua fé fortalecida no contato com as contingências que sempre vencia. Mais do que nunca sobretudo, tendo tanto a fazer e a pensar, iria refugiar-se entre as mãos da virgem santa. A sua graça marial cresceu e aprofundou-se até o fim: “A Virgem Santa é um agente essencial da vida espiritual, sobre tudo nos estados mais elevados”. Poucos dias apenas após sua primeira eleição, disse-me com expressão surpreendentemente decidida: “Já que sou Provincial, vou aproveitar para aperfeiçoar-me”. Aqui aparece bem a sua resposta imediata à própria intenção da Vontade Divina, o seu dom de enxergar o essencial de uma situação e de exprimi-lo numa só palavra. Foi fiel ao seu propósito. O seu papel foi antes de tudo de ser uma fonte, um foco espiritual na Província, um pai. Graça de paternidade, comunicação ao seu coração do dom que teve o de Maria, de dar Deus dando-se. Ele nos amava todos “com um coração de pai e de mãe”. É verdade que às vezes era retraído, “selvagem”, como dizia, com aqueles que somente viam nele o superior. “Muitas vezes, dizia, quando um Padre vem conversar comigo, estou crucificado pela minha inabilidade, minha falta de meios. Não sei o que dizer-lhe. Sofro, ofereço o meu sofrimento ao Bom Deus por aquele que ai está”. Somente estava completamente à vontade quando podia livremente falar de Deus, quando podia movimentar-se no terreno puramente sobrenatural que nunca conseguiu deixar, mesmo ao deixar a Sainte-Baume. Alguém dizia-me: “Esse homem é o coração da sua Província. Toda a Província vivia nele”. Nada mais justo: ele se apaixonara por ela. A GRAÇA DA MORTE A saúde do Padre Vayssière havia sido fortemente abalada durante a guerra. Porém como estava sempre mais ou menos doente, surpreendeu-se inicialmente ao aprender que era grave e que devia submeter-se a uma operação cirúrgica perigosa. Aceitou imediatamente a situação e decidiu ir até o fim. “É o meu cargo e a minha vida, disse, que terminam na cruz. Houve tantas deficiências no exercício do meu cargo que era necessário sofrer um pouco pela Província para reparar. E agora, minha vida, meus sofrimentos, minhas preces, tudo é pela Província para reparar. E agora, minha vida, meus sofrimentos, minhas preces, tudo é pela Província.” O Rosário no pescoço, não cessava de manuseá-lo Havia na frente dele um armário com espelho que refletia a pequena estátua da Santíssima Virgem colocada na parede: “Assim, tenho-a sempre à minha frente”, gostava de confidenciar aos seus visitantes. Deixava-se tratar como uma criança. A sua alma vivia num sentimento muitas vezes transbordante de ação de graças. Aos 15 de agosto pediu a um Padre, como ele originário de Rocamadour, que celebrasse a missa numa intenção de ação de graças por todas as graças que tinha recebido de Maria na sua vida terrestre. Tendo sido presenteado com um terço de ouro, remeteu-o ao amado santuário de sua terra natal em testemunho de gratidão. Foi depois desta festa da Assunção que o vi pela última vez. Ele me disse: “Tive grandes graças nesta festa de 15 de agosto. Compreendi claramente que devia oferecer minha vida pela Província. Não sei se vou morrer, será como o bom Deus quiser. Mas a sua vontade é que ofereça a minha vida pela Província. E agora… estou esperando… estou tranqüilo… estou contente.” A uma outra pessoa, dizia: “E como agora que vou morrer, não posso pensar na morte. Penso que vou fazer a vontade de Deus ao morrer, como quando tomava o trem para Toulouse ou que partia da Gruta para ir à hospedaria. “ – “Meu filho, dizia ele ainda, como suprema confidência de sua experiência e de sua sabedoria, o que falta ao religioso é a abnegação. Rebusca-se a si próprio nisto ou naquilo, eis porque não se une a Deus.” E continuava: “Sim, mesmo aqueles que têm virtude e mérito não renunciam a si mesmo. Assim a sua vida espiritual arrasta-se”. Ele previu o dia da sua morte: “Perdi o dia 8 de setembro e o 15 de agosto; não perderei o 15 de setembro.” De fato, não o perdeu. No dia 14 de setembro, por volta das quinze horas, teve uma crise súbita que o levou em poucos instantes. Era a hora das primeiras Vésperas de Nossa Senhora das Dores. Oito anos antes, no mesmo dia e quase na mesma hora, assinava a sua aceitação do cargo de Provincial. Ele chegava exatamente ao seu termo, bebera a última gota do cálice, tudo era consumado. Na mesma manhã escrevera em sua agenda esta frase de Santa Teresa do menino Jesus: “Minha glória será um reflexo na minha fronte da glória de minha mãe.” Foi transportado para o pequeno cemitério da Sainte Baume, ao pé da Gruta. Tivera, quem acreditaria, a tentação de pedir outro lugar de retiro e de sepultura. Porém pouco tempo antes de sua doença, andando na grande floresta que fora a confidente do seu isolamento, de seus despojamentos e de suas graças, ouviu em si mesmo uma voz o repreendendo: És um ingrato.” Que o seu humilde túmulo permaneça nesse lugar santo como testemunho de sua gratidão por tudo o que a sua alma ali recebeu com simplicidade e fidelidade. Ir. Marie Joseph Nicolas, O.P. #Espiritualidade

  • Entregar-se

    “Várias vezes, Nosso Senhor já havia me dado conhecer o quanto era útil, para o progresso de uma alma desejosa de perfeição, ENTREGAR-SE sem reserva à ação do Espírito Santo. Mas, nesta manhã, a divina Bondade dignou-se me agraciar com uma visão toda particular. Estava me preparando para começar minha meditação, quando ouvi o ressoar de vários sinos chamando os fiéis para assistir aos divinos Mistérios. Neste momento, desejei unir-me a todas as missas que estavam sendo celebradas e com este intuito, dirigi a minha intenção para que participasse de todas elas. Tive então uma visão geral de todo o universo católico e de uma profusão de altares nos quais se imolava, ao mesmo tempo, a adorável Vítima. O Sangue do Cordeiro sem mancha corria abundante sobre cada um desses altares que me pareciam envoltos numa leve fumaça que subia para o céu. Minha alma era tomada e penetrada por um sentimento de amor e de gratidão à vista dessa tão abundante satisfação a nós oferecida por Nosso Senhor. Mas também surpreendia-me muito o fato de que o mundo inteiro não se achasse santificado em conseqüência. Perguntava-me como era possível que o Sacrifício da Cruz, oferecido uma só vez, tenha sido suficiente para salvar todas as almas e que, renovado tantas vezes, não bastasse para santificá-las todas. Eis a resposta que julgo ter ouvido: – O Sacrifício é sem dúvida suficiente por si mesmo e o Sangue de Jesus Cristo mais que suficiente para a santificação de um milhão de mundos, mas às almas falta corresponder generosamente. Pois o grande meio para entrar na via da perfeição e da Santidade – é o de ENTREGAR-SE ao nosso Bom Deus. Mas que significa ENTREGAR-SE? Percebo toda a extensão desta expressão “ENTREGAR-SE”, porém não posso explicitá-la. Sei apenas que é muito extensa e abrange o presente e o porvir. ENTREGAR-SE é mais que se dedicar; é mais que se doar; é até maior que se abandonar a Deus. ENTREGAR-SE, finalmente, significa morrer a tudo e a si mesmo, não se preocupar mais com o EU a não ser para mantê-lo sempre orientado para Deus. ENTREGAR-SE é ainda mais que não se procurar a si mesmo em nada, nem no espiritual, nem no corporal; quer dizer deixar de procurar a satisfação própria, mas unicamente o bel-prazer divino. É preciso acrescentar que “ENTREGAR-SE” significa, também, esse espírito de desapego que não se prende em nada, nem nas pessoas, nem nas coisas, nem no tempo, nem nos lugares. É aderir a tudo, submeter-se a tudo. Mas, talvez se acredita que isso seja muito difícil de se conseguir. Desenganem-se, não existe nada mais fácil de se fazer e nada tão suave de se praticar. Tudo consiste em fazer uma só vez um ato generoso, dizendo com toda a sinceridade de sua alma: “Meu Deus, quero ser inteiramente seu (sua), queira aceitar minha oferenda”. E tudo será dito. Permanecer de agora em diante nesta disposição de alma e não recuar diante de nenhum dos pequenos sacrifícios que possam servir ao nosso progresso em virtude. Lembrar-se que SE ENTREGOU. Rogo a Nosso Senhor que forneça o entendimento desta expressão a todas as almas desejosas de Lhe agradar, inspirando-lhes um meio de santificação tão fácil. Oxalá fosse possível compreender de antemão toda a suavidade e toda a paz que se desfruta quando não se guarda reserva com nosso Bom Deus! De que forma Ele se comunica com a alma que O procura com sinceridade e que soube ENTREGAR-SE. Experimentem e vereis que lá é que se acha a felicidade procurada em vão alhures. A alma entregue encontrou o Paraíso na Terra, pois ali goza esta paz suave que constitui em parte a felicidade dos eleitos”. Sta. Tereza Couderc #Espiritualidade

  • Programa de santidade

    PROGRAMA DE SANTIDADE Domingo, 8 de abril – Sentido: Jesus falou-me muito das virtudes interiores. Ele deseja que não haja nem movimento, nem uma palavra sequer, por parte daquela de quem gosta tanto, que não seja regulada pela Sua Graça. Compreendi toda a extensão que ele dava às virtudes interiores, humildes, desconhecidas, escondidas. Compreendi sobre tudo que ele era a Luz e a Verdade. Inundava minha alma com seus divinos raios que lhe permitem perceber a santidade verdadeira, prática, profunda… Prometeu-me sua luz e disse-me que este era o dom maior que pudesse me dar neste mundo. Esta luz divina que ilumina, que revela a santidade, os preciosos segredos de Jesus, esta luz divina que traz o calor, o amor. Voltando às virtudes interiores, pediu-me que amasse muito essas humildes virtudes cuja existência ninguém suspeita e cuja beleza somente Ele, sozinho, pode conhecer, e acrescentou: nunca pronuncie uma palavra em teu próprio louvor, evite freqüentemente uma palavra, um gesto, um olhar; caminhe até perder de vista com essas preciosas virtudes escondidas; prefira o silêncio, ame passar despercebida, não pronuncie jamais uma palavra inútil, sempre comigo, sempre habilidosa em te esconder atrás do silêncio, da paz, do esquecimento das criaturas; caminhe, caminhe. A perfeição não tem limites – caminhe sempre mais para frente. Remova cada dia os menores grãos de poeira. Essas virtudes tão humildes, tão pequenas na aparência, são abismos que a alma pode sempre aprofundar; minha filha, essas virtudes tão humildes, tão modestas, são também tesouros que encantam meu divino Coração. Olhe para a minha divina Mãe e contemple esta obra-prima das virtudes interiores. Quero que nelas você progrida muito. Para tanto, seja amável, mas com uma suave gravidade e um tanto séria, seja paciente sem que se possa perceber tal ato de paciência de sua parte; sem que se possa descobrir se algo te contrista ou te irrita; seja tão boa que nada possa anuviar teu rosto, mas sempre com suave seriedade, seja tão caridosa que teus lábios nunca profiram a menor crítica; esteja sempre pronta a esquecer, a perdoar, a ajudar. Seja tão discreta que passe despercebida. Ao agir, faça pouco barulho; al falar, diga poucas palavras, submete tua vontade cada vez que for possível sem faltar aos deveres; aceita a opinião dos outros por condescendência, por virtude: teu Jesus dar-te-á tato, a finura necessários para agir no momento certo, sem fraqueza, sem abuso. Procura mortificar-se em cada encontro com tanta boa vontade e finura que somente Jesus seja testemunha. Procura ser esquecida, não fala de ti mesma nem bem, nem mal: tenha sempre um sorriso nos lábios e com tanta simplicidade que a própria virtude pareça natural aos olhos de todos; ficará minorada pela grandeza de sua própria perfeição. Tendo falado assim, Jesus pediu-me ainda a coragem paciente, generosa, constante, exigida por este esforço interior praticado, tão mortificante, tão escondido, tão extenso, tão perpétuo… Eu mesma notei algumas imperfeições, algumas palavras inúteis, uma precipitação exagerada numa ação, um instante de tristeza exagerada ao pensar na separação que tanto me fere. Mas procurarei fazer melhor amanhã. Jesus deu-me a entender que se tratava de um trabalho para toda a minha vida e que o importante era nunca estar satisfeita, nunca descansar. 9 de abril. Ele me pede não fazer nada que seja inútil: vou me esforçar com afinco… nada de natural, tudo com acalma, tudo sem barulho, tudo com mansidão, mesmo se for interrompida vinte vezes, tudo sem vontade própria mas unicamente pela vontade d’ Ele, de tal forma que esteja pronta a tudo deixar, tudo abandonar; enfim, um desprendimento total de modo a não me deixar cativar nem por um instante, escolher as tarefas menos atraentes. Rda. Madre Marie Cronier – 1857-1937 Fundadora e primeira Abadessa do Mosteiro de Sainte-Scholastique de Dourgne França. #Espiritualidade

  • A propósito de uma demissão

    A PROPÓSITO DE UMA DEMISSÃO Em uma cidade de um estado vizinho, uma moça foi demitida de seu emprego de recepcionista num hospital porque usava saia durante o expediente. Curiosa conduta que nos leva a fazer algumas considerações. Em todos os povos civilizados, sobretudo naqueles que receberam da Santa Igreja Católica a base de sua organização social, o papel da mulher sempre foi bem conhecido e honrado. Isso se manifestava também exteriormente, no próprio modo de se vestir. Deus ao criar o Homem, o criou homem e mulher, de tal forma que eles se completassem, assumindo funções diferentes. A função do homem é a de governar, de empreender, de estar à frente das grandes realizações. Assim na Igreja, como nas Forças Armadas e no Estado. O papel da mulher é diferente. Seu papel principal é a maternidade, tanto física como espiritual. Papéis diferentes, mas obra comum que é a família. Essa complementaridade do homem e da mulher é combatida pelo espírito revolucionário que abala a nossa civilização já há alguns séculos. Um espírito igualitário quer que a mulher tenha as mesmas atribuições que o homem. Daí a mulher sair de casa para entrar em todos os setores da sociedade, sem excluir nem mesmo o Exército, o Senado, os esportes e as atividades para as quais, evidentemente, ela não foi feita, como motorista de caminhão, lutadora de boxe e outras extravagâncias do mesmo gênero. Mas o pior não são essas extravagâncias, o pior foi tirar a mulher do seu “habitat” natural que é o lar e afastá-la da sua missão principal que é a maternidade. Assim ela perdeu a sua coroa de rainha, de dona de casa, de educadora do gênero humano. Dessa forma ela foi afastada das atividades que são como que o prolongamento da sua maternidade, como o ensino – sobretudo das crianças – , a enfermagem nos hospitais – onde, outrora, trabalhavam as Irmãs de Caridade de São Vicente de Paulo com tanto êxito e tanto proveito para os doentes físicos e espirituais – e muitas outras atividades compatíveis com a sua natureza e seus deveres. Ao retirar a mulher de dentro de casa, ao retirar-lhe o véu que a cobria de recato, de pudor e de humildade, que lhe permitia uma ação profunda na vida de família, na vida religiosa e na sociedade, ela encontrou-se na rua, competindo com o homem nos mesmos trabalhos que ele. Se não há diferença entre o homem e a mulher não há razão para que eles se vistam de maneira diferente. Se a mulher deve trabalhar nas plataformas da Petrobrás, supervisionar as grandes obras de engenharia civil, ser pedreiro, carpinteiro, taxista, soldado e Presidente da República não há mais razão para ela conservar, exteriormente, o que a distingue do homem. É claro que há exceções, mas hoje a exceção tornou-se a regra. Esta nova orientação da sociedade a respeito da mulher é um grave erro. Ele é atenuado pela própria natureza das coisas e por um resto de bom senso do povo. No entanto o mal se avoluma a cada dia. O crescimento contínuo do número de abortos no Brasil e no mundo indica que a mulher não sabe mais qual é a sua missão, ou melhor, que a nossa sociedade, por influência de idéias revolucionárias elaboradas e difundidas pela Maçonaria, não sabe mais qual é a diferença, qual é a missão nem do homem nem da mulher. Despedir uma mulher de seu trabalho de recepcionista de um hospital, só porque ela usa saia é injusto e só serve para engrossar esse turbilhão revolucionário que, com aparência de progresso, nos precipita num abismo cujo fundo é o próprio Inferno. Eis porque, como sacerdote, religioso e prior de um mosteiro beneditino, não posso senão condenar uma ação cujos fundamentos não são os da moral católica, mas sim os do mundo moderno que quer se opor ao que Deus criou e determinou. E se essa decisão foi tomada por um homem, ele foi bem covarde, sobretudo se tem o seu ganha-pão bem garantido. Ir. Tomás de Aquino (Prior) #Atualidades

  • Testemunho de Hilda da Silva

    Testemunho In Media Vita As flores da quaresmeira deitaram-se no chão. Uma coberta arroxeada de trama aberta agasalhou as pedrinhas do caminho. Os pés andam a procurar um pouco de barro para fugir das pontadas duras. Lembrei-me de um outro caminho – que me disseram – era o caminho mais curto para se alcançar Jerusalém para a festa da Páscoa. Era um caminho árido, de pedras que machucavam os pés dos viajantes. À noite, buscavam os balsameiros e extraíam deles o bálsamo para curar as feridas que as sandálias não podiam evitar. Meus pés vão em busca de um pouco de solo barrento e não precisam de nenhum bálsamo – o caminho é pouco extenso. Uma pequena e apressada caminhada, uma curva à esquerda e abrem-se à frente as araucárias e o gramado verde e, como uma linha de horizonte, de perfil, a capela do Mosteiro da Santa Cruz estende-se simples, pequenina, janelas de vidros quadriculados e um campanário, onde o sino já me avisa que o ofício está quase a começar. Alcanço a porta. Abro-a devagar. Tudo é silêncio. Os seres, que chegam e entram, deslizam como os monges. No altar, as velas acesas, grandes velas de cera acesas ladeando o sacrário, acendendo o colorido das flores envasadas em dois vasos bojudos de cobre, que brilham e brilham, a dizerem aos castiçais dourados que também eles foram polidos como um diamante para virem à Santa Missa. Tudo é recolhimento e oração. O canto gregoriano é suave, em tom baixo e, quando nos deixamos conduzir por ele e, em alguns momentos, ensaiamos acompanhá-lo em um ou outro verso, descobrimos que a missa só pode ser celebrada em latim, pois como conseguiríamos em outra língua os acentos breve e longo da língua mater? Não compreendo todas as palavras – falta-me o hábito de ouvi-las, lê-las, cantá-las, mas como me fizeram bem à alma. Nossa Senhora da Conceição, à esquerda do altar, sorri para mim. Estou em casa! Finalmente cheguei! Foram cinqüenta anos “andando pelo deserto”. Só, absolutamente só. Não conversava com os caminhantes, porque ninguém pensava ou falava das mesmas coisas que eu. Febrilmente, buscava Jesus, o Filho de Deus. Sabia que O encontraria em Belém, mas onde o caminho a conduzir-me até lá? Não havia estrelas a guiarem-me e o meu cérebro possui tortuosas vias e impenetráveis becos, e, vezes sem conta, neles me perdi. “Você não pode ser a palmatória do mundo” – dizia a mamãe dentro de mim. Ir e vir. Um passo adiante, dois para trás. Semelhança fugaz dos meus tempos de menina a brincar a cantiga. Todavia houve um começo. Implorei ajuda a Deus. “Vá à missa diariamente”. Primeiro passo: Obediência. Lá ia à igreja da paróquia onde moro, em Niterói, 06:30 hs da manhã. Calor ou frio. Chuva. Tão cansada… Dia após outro. 10 anos. Abençoado 9 de abril de 2001. Buscava ardentemente o Senhor. O que me faltava? Segundo passo: Viajei para Mendes – RJ, para assistir às bodas de ouro dos amigos Dr. Cláudio Braga e Lúcia. Lá, por breves instantes eu O entrevi numa conversa que durou ao menos meia hora. Tia Isca, como a chamo, é a Sra. Profa. Maria Thereza Ferreira da Costa, a Vó, como todos a conhecem aqui. Ela falava e sua voz trouxe-me, por um breve instante, um Jesus e uma Igreja outra. Eu olhava encantada o brilho do seu rosto: “Venha a Friburgo. Passe uns dias comigo”. Levou tempo para que fosse “porque há um tempo para todas as coisas”. Há cinco ou seis anos, vim pela primeira vez. Telefonou-me ela apressada: “Traga uma saia para irmos à missa no Mosteiro.” Desliguei e pensei: “Onde já se viu. É claro que vou levar uma saia. Jamais iria de calça assistir à missa num mosteiro”. A missa. A surpresa. A missa dos meus tempos de menina. A volta. As dúvidas. Outra vez o caminho penoso e sem ninguém para conversar. Terceiro passo: Finalmente, este ano em fins de março voltei a Friburgo, trazendo de lá um livro modesto, melhor, um opúsculo. Seu título é: Assis se Repete?, de Hirley Nelson de Souza. Esse pequenino livro de 55 páginas fez com que eu compreendesse que, amparada na palavra de Jesus e zelosa de seus ensinamentos, eu posso questionar a autoridade eclesiástica, se a razão e o conhecimento me dizem que ela está agindo de modo errado e descumprindo os ensinamentos de Jesus. Meu dever não é somente orar por essa pessoa, mas muito mais: devo empreender esforços para fazê-la recobrar a razão para bem cuidar de suas ovelhas, preservando a verdade dos ensinamentos de Cristo, tal qual ela vem sendo, cuidadosamente, guardada nestes vinte séculos. Reencontrei a Igreja verdadeira, denominada de Igreja da Tradição, porque “apegada” aos ensinamentos de Jesus discordante da Igreja pós Concílio Vaticano II, a qual modificou e reduziu a Santa Missa, dispondo-a nas diversas línguas nacionais, em vez de preservar o latim, única língua em que se pode cantar o gregoriano e na qual a missa vem sendo rezada desde o princípio. Ir à missa não é um ato social de convívio, que se faça apressadamente. Ir à missa é um ato de propósito interior, de querer encontrar Jesus na Eucaristia. É um ato que exige preparação diária, exercício da vontade para não entregar-me ao fascínio e apelos do mundo. É um ato que exige coerência entre o pensar, o falar e o agir retos. É um ato de constância. Dia após dia recomeçar o enfrentamento comigo mesmo, com minha miséria, a minha iniqüidade. Vencê-las um dia de cada vez, ancorada no único que me pode ajudar: Jesus, o Filho de Deus, que se imola sobre o altar e se reparte, a si mesmo se reparte em Pão Vivo para fortalecer-me. Ir à missa é um ato de fé. Por meio dela, eu creio naquilo que não posso compreender – o mistério eucarístico. E essa fé, renovada em cada comunhão que faço, cresce de tal modo, que me surpreende, às vezes, pela sensatez e coragem com que vivo os meus sofrimentos. Ir à missa é caminhar com Jesus, nutrir-me d’Ele na Eucaristia, para enfim, senti-lO fazendo morada no meu coração, porque “… já é tarde e declinou o dia”. (Lc XXIV, 29) Ir à missa é um ato de adoração ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo. Conclusão: Em 2010, li um livro: “Deus e os homens”, de P. Van Der Meer de Walcheren. Nele li uma carta do monge Pieterke a seu pai. Diz o jovem monge à página 152: “Você se recorda de como o nosso amigo dominicano concebe a nossa vida? Somos pastores dentro da noite: a cada um de nós Deus confiou um rebanho que deve levar a Belém! A realidade é esta, e quando estou no coro rezando sinto que é assim. Sei que sou a voz de uma multidão de desconhecidos que se calam. Este pensamento abrasa a minha alma e torna-a sedenta de amor. Quando penso em Deus, e eu creio e espero pensar n’Ele constantemente, penso ao mesmo tempo no meu rebanho. E é com o seu amor que eu penso.” Sublinhei o centro desse texto porque eu creio, firmemente, que num mosteiro se vive para orar pelos homens e que muitas almas se salvam graças a essas orações eiradas de amor, do amor de Jesus pelos homens. Eis o Mosteiro da Santa Cruz. Sinto-me salva por ele. Dentro da noite oravam por mim sem me conhecerem e, conhecendo-me, oraram mais ainda. Pacientemente, oraram para que eu despertasse e compreendesse a verdade sobre a Igreja da Tradição e a luta constante desses últimos 50 anos com o mal e a Igreja ecumênica pós-conciliar. Estou em casa. A luz das orações dos monges iluminou o caminho para Belém. Cheguei. Hilda da Silva #Atualidades

  • Santo Atanásio e a Crise da fé no século IV

    SANTO ANTANÁSIO E A CRISE DA FÉ NO SÉCULO IV Santo Atanásio (295-373) foi simultaneamente o Bispo mais amado e o mais odiado e perseguido do seu tempo. Para os seus defensores, Atanásio era a garantia da ortodoxia católica, o salvador da Fé, um autêntico sucessor dos Apóstolos; para os seus adversários, Atanásio era um orgulhoso, teimoso, intransigente, rebelde, insolente inimigo da paz e da concórdia entre os cristãos. As perseguições pagãs Desde o ano 33 houve perseguições contra a Igreja. Primeiro pelos judeus, depois pelos pagãos. Desde o ano 64, até ao 311, no Império Romano, que se estendia sobre três continentes – Europa, África e Ásia – ser cristão era digno da pena de morte, por proibição legal. Estalaram perseguições sangrentas, por vezes locais, outras vezes gerais. Milhares de cristãos: papas, bispos, sacerdotes e fiéis, depois de terem sofrido as mais espantosas privações e torturas, morreram mártires. Milhares de confessores padeceram as calúnias, a confiscação de todos os seus bens, o desterro, a fome, a sede e os trabalhos forçados. Houve também quedas lamentáveis e, inclusive, apostasias. São Cipriano reconhece-o. Foi uma luta de três séculos entre a Igreja Católica e as forças das trevas, que se serviam dos cultos pagãos, dos governos romano e persa e das seitas supostamente cristãs, que já então pervertiam a Bíblia. Nesse tempo, a Igreja cumpriu a sua missão pregando e defendendo a pureza da fé, custasse o que custasse. Não quis dialogar com os hereges nem com as autoridades pagãs que propunham o “diálogo inter-religioso”, com condição de colocar Cristo no mesmo nível dos ídolos Júpiter, Apolo, Mitra e os falsos profetas. De 303 a 311, os Imperadores Diocleciano e Galério quiseram acabar com o Cristianismo, declarando guerra total contra a Igreja. O sangue cristão foi derramado a jorros.(1) Mas Cristo triunfou pelos seus mártires. “As perseguições causaram efeito contrário ao que prosseguiam os seus instigadores. A Igreja desenvolvia-se com o sangue dos mártires.” (2) O triunfo do Cristianismo Em 311, Galério, muito doente, deu-se conta, por experiência própria, do poder divino de Cristo, e reconheceu, pela primeira vez, a existência legal do Cristianismo.(3) Em 313, os Imperadores Constantino e seu cunhado e colega Licínio, deram liberdade à Igreja. Em 324, Constantino é o único Imperador. Declara-se protetor da Igreja; manda construir basílicas em Roma, Constantinopla, Jerusalém; começa a cristianizar o Direito; declara o Domingo festa principal da semana; favorece o clero e a cristianização do Império. Será batizado antes de morrer, em 337. * * * Para salvar a fé na divindade de Cristo, Santo Atanásio sofreu calúnias, juízos iníquos, perigo de morte, cinco desterros durante 17 anos, ódios de muitos bispos e dos imperadores filiados à heresia, e finalmente a “excomunhão” pelo Papa Libério.(4) Contudo a Igreja proclamou-o santo, Padre da Igreja, Doutor e salvador da fé católica. A história reconhece que, sem a resistência e os sofrimentos heróicos de Santo Atanásio e dos seus companheiros bispos e sacerdotes, assim como do povo fiel, a fé católica teria naufragado no século IV. Naufrágio fomentado, favorecido e imposto ao povo católico por alguns teólogos, bispos e sacerdotes, intrigantes e racionalistas, que haviam tomado o poder na Igreja. Esses intrigantes, que representavam a Igreja oficial, utilizavam sem nenhum escrúpulo o poder do Direito Eclesiástico e Civil para perseguir os católicos fiéis e corromper a fé na divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo. A história de Santo Atanásio e da sua época ensina-nos que uma crise da fé pode ser provocada por alguns bispos que formem um “poderoso partido moderno” detentor do poder na Igreja. Prova, também, que lutar contra as autoridades oficiais para preservar a fé da contaminação legal, é necessário e meritório. Parte II A heresia de Ario antes do Concílio de Nicéia Mal havia terminado a mais intensa e prolongada das perseguições à Igreja (303-311), quando as forças das trevas mudaram de tática e atacaram a fé mediante a heresia. Ataque mais perigoso, porque, desta vez, os destruidores da fé serão bispos e sacerdotes. Ario (260-336), influente pároco de Alexandria, no Egito, deu início a uma heresia que negava a divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo. O herege dizia que Cristo era a primeira das criaturas de Deus e, como todas as demais, tirada do nada. Por ser a primeira criatura, chamava-se-Lhe Filho de Deus, mas não Deus verdadeiro igual ao Pai. Era uma criatura divinizada, mediante a Qual Deus criou as demais coisas, inclusive o Espírito Santo. Com essa blasfêmia, Ario destruía completamente a fé católica. “Atacava a verdadeira natureza do Cristianismo, ao atribuir a Redenção a um deus que não era verdadeiro Deus e que, por isso mesmo, era incapaz de redimir a humanidade. Assim, despojava a fé do seu caráter essencial.” (5) A Igreja condena a heresia No ano de 318, Ario começava a provocar muitas discussões por causa da sua heresia, que apresentava nos seus sermões como doutrina da Igreja. Santo Alexandre, Bispo de Alexandria (312-328), apoiado pelo seu diácono e secretário Santo Atanásio, em um sínodo de mais de cem bispos, realizado em 319, condenou a heresia de Ario como uma inovação contrária à tradição católica. A fé católica sempre afirmou: “Cristo é o Filho de Deus feito Homem para nos salvar, Cristo é consubstancial ao Pai, quer dizer, da mesma substância que o Pai. Deus é Uno em três Pessoas: Pai, Filho e Espírito Santo”. Ario rebelou-se, então, abertamente, caluniou o seu bispo e começou a propagar a sua heresia por todos os meios, e a pedir ajuda aos seus companheiros de estudos já bispos, em oposição com as regras eclesiásticas. Santo Alexandre teve que excomungar Ario e os seus partidários: dois bispos, oito sacerdotes e dez diáconos. Foi tomada essa forte medida para conjurar um grave perigo contra a fé. Ario recebeu apoio dentro e fora do Egito. Dentro apoiaram-no os seus amigos e muitas monjas seduzidas pela ciência e pela vida, aparentemente mortificada, do orgulhoso sacerdote. Fora, vários bispos seus amigos, como Eusébio de Nicomédia e Eusébio de Cesaréia, tomaram a defesa da sua heresia e propagaram-na, mas com mais astúcia, para não assustar os incautos. Uma rede de hereges dentro da Igreja Eusébio de Nicomédia era um poderoso prelado pela sua influência sobre Constância, irmã de Constantino, pela sua habilidade política e ambição. Para ter mais poder na Igreja, e apesar das regras eclesiásticas, tinha-se feito transferir do Bispado de Beirute para o de Nicomédia (Turquia), então capital imperial. Depois, fez-se nomear Patriarca de Constantinopla, troçando dos cânones da Igreja que ele mesmo havia assinado. Rapidamente formou-se em favor de Ario uma poderosa aliança, que provocou um incêndio devastador em todo o Oriente do Império Romano. Os membros da rede ariana escreviam, tratavam de ganhar influência e amigos entre os bispos e governantes, e conseguiam-no. A sua ação gerava grande desordem na Igreja. A resposta católica Santo Alexandre e o seu secretário também escreviam para advertir os bispos da situação real do herege. Os Patriarcas de Antioquia, terceira Sé da Cristandade, e de Jerusalém, apoiavam Alexandre. Mas a desordem fomentada pelos arianos crescia e debilitava a posição da Igreja perante os pagãos e judeus. Constantino, preocupado com a desordem, enviou a Alexandria Ósio, Bispo de Córdova (Espanha). Ósio apoiou Santo Alexandre, mas não logrou pacificar os espíritos. Ante semelhante incêndio, grandes medidas eram necessárias. Parte III (Continuação) O Concílio de Nicéia em 325 No ano de 325, para apagar o incêndio provocado pelos hereges e conservar a paz e a ordem pública, Constantino convocou para a cidade de Nicéia o primeiro concílio de toda a catolicidade. No Concílio, a heresia foi condenada com horror pelos representantes do Papa Silvestre e por uns 300 bispos, menos dois. A fé na divindade de Cristo, sempre crida, foi novamente proclamada: Nosso Senhor Jesus Cristo é Deus igual e consubstancial ao Pai, ou seja, é Deus tendo a mesma substância divina que o Pai (Dz. 125). Ario e os seus cúmplices repeliram o Símbolo da Fé redigido no Concílio. Constantino desterrou-os. A subversão ariana depois de Nicéia Com a proclamação do Símbolo de Nicéia, tudo deveria entrar na ordem. Mas o intrigante Eusébio de Nicomédia, se bem que tivesse sido desterrado durante uns tempos por apoiar Ario, logrou conservar a heresia e perturbar todo o mundo cristão, durante meio século no Império Romano, e durante vários séculos fora do Império, através dos povos bárbaros convertidos pelo bispo ariano Ulfilas (311-383). Com o apoio de seus amigos, ou por convicção ariana, ou por não ter entendido bem a fórmula consubstancial, o astuto Eusébio difundiu o semi-arianismo, cheio de ambigüidades que favoreciam a heresia. Agiu de tal modo que Constantino anistiou Ario em 327. No ano seguinte, Atanásio foi eleito bispo patriarca de Alexandria. Enquanto Atanásio tratava de pôr ordem na Igreja do Egito, Ario, anistiado, queria regressar ao Egito. O bispo recusou-se a entrar em comunhão com ele, como queria Constantino. Os arianos de fora (os dois Eusébios e os egípcios hereges e cismáticos) começaram a difamar o santo e seus companheiros que guardavam a pureza da fé. Nos anos de 333 e 334, trataram, sem êxito, mediante sínodos, condenar Atanásio. Mas em 335, já queriam sua cabeça a todo custo e, de fato, lograram obter do Imperador o seu desterro na Alemanha. Morte de Ario em 336 Por ordem de Constantino, enganado, Ario tinha de ser recebido na comunhão católica, desta vez em Constantinopla. O arcebispo, ameaçado de desterro, pediu ajuda ao Céu, orando e jejuando, para preservar a fé de tal contaminação. Deus atendeu sua oração. Na véspera de sua entrada triunfal na Igreja Católica, Ario morreu no banho, de morte repentina e vergonhosa. Triunfo do arianismo (337-381) Todavia, a morte do herege não afetou muito o seu partido, porque o chefe real da seita era o bispo Eusébio de Nicomédia. Depois da morte de Constantino em 337, os “católicos oficiais”, hereges de fato, puderam converter Constâncio, filho de Constantino, à sua seita, e com o apoio do Imperador, expulsar os bispos católicos, tomando seu lugar. Em grande parte da Igreja Católica, desde 335 até 381, os hereges tinham conseguido tomar posse dos templos, basílicas, catedrais e conventos. Por exemplo, Constantinopla estava nas mãos dos arianos desde o ano 351. A pequena comunidade católica sob o mando de São Gregório Nazianzeno (330-390), durante os anos 378-380, celebrava Missa numa casa particular transformada em capela. A meta dos arianos era tomar o poder da Igreja por dentro e impor a sua “fé ariana” a toda a cristandade. O próprio Papa Libério foi desterrado durante dois anos, até que assinasse uma fórmula de fé ambígua e excomungasse Santo Atanásio (Dz. 138). Os bispos católicos, os sacerdotes e fiéis importantes, foram maltratados, sobretudo caluniados como se fossem malfeitores e, finalmente, desterrados. Para ocupar o lugar dos bispos católicos desterrados, nomeavam-se sistematicamente bispos arianos ou semi-arianos (hoje dir-se-ia conservadores!), para não afugentar o povo que, todavia, guardava a fé católica. Os costumes cristãos pervertiam-se por culpa dos novos bispos, que eram indignos. Em muitos lugares, os pagãos e os judeus apoiavam os “católicos oficiais”, quer dizer, os hereges. Os bispos e imperadores arianos – Constâncio e Valente – perseguiam os verdadeiros católicos, que eram considerados como cismáticos, orgulhosos, “faltando à caridade, à obediência, à comunhão eclesiástica”, e perturbadores da paz na Igreja. A única falta dos supostos cismáticos era não aceitar umas fórmulas de compromisso, fórmulas ambíguas, fruto das novidades heréticas que punham em perigo a fé católica. A heresia apoderando-se do governo civil e religioso, tornada justiça e verdugo, atuou sem piedade contra os verdadeiros católicos. Utilizou todos os meios para destruir a fé católica no homoousios (consubstancial), definido em Nicéia. Ameaças, calúnias, mentiras, falsos testemunhos, ilegalidades, violação dos cânones e regras da Igreja: tudo isso foi utilizado contra Santo Atanásio, contra seus amigos e contra os fiéis. Mas Deus não abandona nunca nem a sua Igreja, nem os confessores da fé. Nos tempos de crise, sempre há santos varões, escolhidos por Deus, que se levantam para proclamar integralmente a fé católica, sofrer por ela e salvá-la das garras da heresia que, despudoradamente, se proclama “ortodoxia católica”. Santo Atanásio foi o maior destes homens de Deus. Parte IV Santo Atanásio e a crise da Fé no século IV SANTO ATANÁSIO, PROTAGONISTA DA RESISTÊNCIA CATÓLICA E ALVO DOS ARIANOS No século IV, a fé católica conheceu o maior perigo da sua existência. O sacerdote Ario, apoiado por bispos poderosos, negava a divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo. Esta heresia, apesar de ter sido condenada no Concílio de Nicéia (dogmático) em 325, pôde apoderar-se dos maiores bispados da Cristandade, e submeter por algum tempo o Papa Libério. Alguns bispos, “excomungados” pela seita ocupante da Igreja, salvaram a fé católica. Os condenados de ontem – Atanásio, Hilário, Eusébio de Verselli e Eustáquio – são hoje santos e os seus poderosos inimigos – teólogos em voga no seu tempo – foram declarados destruidores da fé. OS ARIANOS Os arianos, que formavam um poderoso partido dentro da Igreja, utilizavam todos os meios (ameaças, calúnias, injustiças, crimes, leis da Igreja e do Estado) para desterrar os bispos católicos. Em poucos anos, apoderaram-se dos maiores bispados do Oriente. Só restava o Egito. O perigo era grande. Fazia falta um santo para o enfrentar. SANTO ATANÁSIO (295-373) Esse santo era Atanásio, jovem bispo de 33 anos que, para salvar a fé católica, lutou durante 45 anos contra os “bispos oficiais” e quatro Imperadores. SUA FORMAÇÃO Atanásio nasceu cerca de 295 em Alexandria do Egito. Recebeu, no seio da Igreja, uma sólida formação em filosofia e teologia. Em breve a vida ascética o atraiu para junto de Santo Antão Abade. Tendo-o descoberto, Santo Alexandre ordenou-o diácono e nomeou-o secretário episcopal, por volta do ano de 318. Desde o início da crise, Atanásio opôs-se com energia à heresia que se apresentava como doutrina católica. Acompanhou seu bispo ao Concílio de Nicéia em 325, durante o qual esteve ativo nos bastidores como teólogo. Depois do Concílio foi o salvador da fé católica. PATRIARCA Em 328, apesar da sua pouca idade, foi eleito e consagrado Arcebispo e Patriarca de Alexandria, que era a segunda Sé da Cristandade. Atanásio tinha já fama de defensor intransigente da fé contra as inovações verbais destinadas a modificar a fé de Nicéia. Os poucos bispos arianos que estiveram no Concílio, tinham assinado os decretos para não serem condenados como hereges. Mas esperavam a oportunidade para anular a doutrina de Nicéia. Quando se apresentou a ocasião, mediante a calúnia e a injustiça, destituíram os bispos das cidades importantes e tomaram seu lugar. Depois, concentraram todas as suas forças contra Atanásio, que “era o defensor mais temido de Nicéia, e por isso, era necessário eliminá-lo” (6) para triunfar em todo o Oriente, antes de atacar o Ocidente. SUA PERSONALIDADE “A figura de Atanásio apresentava alguns caracteres que nos permitem descrevê-lo como um homem tremendamente enérgico e firme, que soube pôr essas qualidades do seu caráter ao serviço da verdade católica. Dos seus escritos desprende-se força e vigor; jamais recuará perante o adversário, mas, antes pelo contrário, cresce diante dele e emprega todos os recursos necessários para fazer triunfar a verdade, expressa na fé de Nicéia.(…) Quando se vê envolto em polêmica em que a fé está em jogo, é um adversário temível. “Todavia, dizer isto não é dizer tudo; Quasten, na sua Patrologia, assinala como ‘apesar da sua irreconciliável hostilidade com o erro, e não obstante o valor com que lhe fazia frente, possuía a qualidade, rara em semelhante caráter, de ser capaz, ainda que no mais árduo combate, de usar de tolerância e moderação com os que se tinham desencaminhado de boa fé’. Por outro lado, se bem que seja certo que nos seus escritos polêmicos faça gala, com freqüência, de uma força por vezes agressiva, a leitura serena das suas obras revela um homem de grande humanidade, um verdadeiro pastor, cujo principal defeito é, para desgraça de seus inimigos, a sua intransigência com o erro. “Há outro traço que não queremos deixar de assinalar, é a sua abnegação total, o enorme autodomínio que exercitou durante toda sua vida e que contribuiu decisivamente para forjar a sua personalidade de santo. Se com alguém foi violento, foi sobretudo consigo mesmo; os desmedidos ataques que sofreu durante toda a sua vida, tanto da parte dos seus irmãos no episcopado como da autoridade civil, não serviram para o fazer dobrar no seu empenho de servir a Igreja de Cristo: a sua fidelidade valeu-lhe passar quase vinte anos afastado, pela força, do exercício do seu ministério. O amor à verdade pôde mais que toda a violência sofrida diretamente no seu corpo, pelo que passou à História como Pai da Ortodoxia e Coluna da Igreja”, que “extraía a sua força de uma contemplação assídua”, disse São Gregório Nazianzeno. UM CONCÍLIO CONDENA O SANTO: 1º DESTERRO (335-337) Os chefes do partido ariano, que queriam a cabeça de Atanásio, juntaram-se em 335 no Concílio de Tiro (Líbano), com alguns bispos católicos intoxicados pelas calúnias arianas. A presença dos católicos manipulados, era mais uma segurança para o êxito da operação antiatanasiana. Os acusadores eram egípcios cismáticos, e os juízes eram os arianos e os seus títeres católicos. Quando Santo Atanásio chegou ao Concílio com 49 bispos egípcios, foi admitido como acusado e os seus companheiros foram repelidos “por não terem sido formalmente convocados”. Acusavam Atanásio dos seguintes crimes políticos e religiosos: · querer esfaimar os da capital, guardando no Egito o trigo destinado a Constantinopla; · quebrar o cálice e destruir o altar de Isquiras, um sacerdote cismático; · matar o Bispo Arsênio e fazer magia com o seu cadáver. Como prova, os arianos mostravam ao Concílio as mãos cortadas e secas de Arsênio; etc. Acerca do cálice e do altar, as autoridades civis e o próprio Isquiras reconheceram a inocência de Atanásio. O suposto defunto foi descoberto e apresentado ao Concílio com as suas duas mãos. Mas não importavam as provas de Atanásio, posto que a sua condenação estava decretada. O Santo, insultado pelo povo fanatizado e diante da injustiça episcopal, fugiu (porque o porto e os caminhos estavam guardados pelos arianos) e dirigiu-se a Constantinopla para pedir justiça a Constantino. Entretanto, Eusébio de Nicomédia enviou ao Egito bispos do seu partido para um novo “inquérito”. Ali, os testemunhos oculares e favoráveis a Atanásio foram recusados. Depois do “inquérito”, Atanásio foi condenado pelo Concílio “segundo os cânones”. Após muitas insistências do Santo, Constantino chamou bispos “juízes” à capital para um novo julgamento. Diante de Constantino, os hereges apresentaram unicamente acusações políticas, e lograram fazer condenar o Santo e desterrá-lo para Tréveris (Alemanha). O Concílio de Tiro foi qualificado de “bandidagem”. Com habilidade, os arianos lograram acusar e condenar Atanásio, com base num plano puramente disciplinar. Nunca se atreveram a atacá-lo em nenhuma questão dogmática. Este “julgamento” perseguirá Atanásio durante toda sua vida e várias vezes será desterrado por causa deste iníquo julgamento.(7) FIM DO 1º DESTERRO (337) Com a morte de Constantino, em 337, os seus três filhos, Constantino II, Constante e Constâncio, repartiram o Império e decidiram o regresso dos desterrados. Atanásio regressou como triunfador. Santo Antão saiu do deserto para ir a Alexandria apoiar Atanásio. Os bispos egípcios também apoiaram Atanásio no Concílio de 338, anulando a condenação de Tiro, confirmando a posição católica e escrevendo ao Papa São Júlio (337-352) e a todos os bispos da Igreja Católica. Em pouco tempo, Atanásio transformou outra vez o Egito em um baluarte da fé católica. Mas o intrigante Eusébio queria a todo custo afastar Atanásio de Alexandria e controlar todo o Oriente. Enviou uma delegação a Roma com os documentos do Concílio de Tiro, para acusar Atanásio e reconhecer Pisto, um ariano, como bispo de Alexandria. Atanásio também enviou a Roma uma delegação, para se defender. Em um debate contraditório na presença do Papa Júlio, os emissários arianos foram vencidos pelos de Atanásio. Depois da sua derrota em Roma, os arianos apoderaram-se do espírito de Constâncio, que governava o Oriente, e condenaram Atanásio em 339, no Concílio de Antioquia. 2º DESTERRO: ROMA (339-346) Em Antioquia, os arianos sagraram como bispo Gregório da Capadócia, e enviaram-no para Alexandria, para que tomasse o lugar de Atanásio, que tinha sido “condenado”. Supondo que a decisão da “bandidagem” de Tiro fosse justa, as regras da Igreja exigiam que o clero e o povo de Alexandria e os bispos do Egito elegessem o sucessor de Atanásio, e não os arianos de fora. Gregório foi considerado pelos católicos como intruso. Quando entrou em Alexandria, teve que ser acompanhado pelo exército. Só os poucos arianos, judeus e pagãos o aclamaram. Durante vários dias houve motins, com feridos e mortos. O governador teve que arrancar as igrejas, uma por uma, das mãos dos católicos “atanasianos” e pô-las à disposição do intruso. Atanásio, antes de ir para o desterro, escreveu uma carta a todos os bispos católicos, dizendo-lhes: “ ‘Aqui está a comédia que Eusébio representa! Aqui está a intriga que ele urdia desde há muito tempo, que ele logrou fazer triunfar, graças às calúnias com que assedia o Imperador. Mas isto não lhe basta; quer a minha cabeça; trata de assustar os meus amigos, através de ameaças de desterro e de morte. O que não é razão para me dobrar perante a iniqüidade; pelo contrário, devo defender-me e protestar contra as monstruosidades de que sou vítima. “Se, enquanto residis na vossa igreja e governais o vosso povo de maneira impecável, de repente vos chegasse um sucessor, por ordem expressa – suportá-lo-íeis vós? Não vos indignaria? Não gritaríeis vingança? Bom! Eis que chegou o momento de vos sublevardes, por medo de que, pelo vosso silêncio, este mal se estenda em pouco tempo a todas as igrejas, e que as nossas cátedras de doutrina se transformem em objeto de tráfico e comércio.’ “Santo Atanásio não se equivocava: tinha visto e denunciara o autor responsável por estas façanhas, o personagem eclesiástico mais influente de então: Eusébio de Nicomédia.”(8) Santo Atanásio logrou iludir a vigilância dos seus adversários, e foi para Roma. Ali encontrou muitos bispos desterrados; deu a conhecer aos romanos a vida dos padres do deserto, implantando na Europa a vida monástica. SANTO ATANÁSIO REABILITADO Os eusebianos tinham pedido a convocação de um Concílio. Mas, quando abriu o Concílio de Roma, em 340, não quiseram participar, porque não o podiam manipular. No Concílio, foram analisados os documentos da “bandidagem” de Tiro, e Atanásio apresentou a sua defesa. “Deram-se conta que a sua deposição foi o resultado de uma odiosa maquinação e que a eleição do seu sucessor tinha sido feita com desprezo de todas as regras canônicas.” (9) O Concílio anulou as decisões do “Concílio” de Tiro, reabilitou Atanásio e os demais bispos, vítimas da raiva herética. Contudo, Atanásio não pôde regressar ao Egito senão em 346. A VINGANÇA DE EUSÉBIO Eusébio que, violando os cânones da Igreja, se havia apoderado em 339 da Sé de Constantinopla, considerava-se como Papa do Oriente. Organizou também um Concílio em Antioquia, em 341, e fez condenar Atanásio pela terceira vez. Os bispos do partido de Eusébio não suportavam ser tratados de arianos. Eram semiarianos, ou seja, conservadores manipulados pelos hereges arianos. Na sua nova profissão de fé, repeliam com cuidado os “exageros” de Ario, mas também as fórmulas católicas. Redigiam símbolos de fé, mas com vocabulário bíblico e ambíguo. Diziam verdades católicas, mas não com o vocabulário católico, que fechava o caminho para a heresia. ATANÁSIO REABILITADO: CONCÍLIO DE SÁRDICA (342-343) Em 343 morreu Eusébio de Nicomédia, chefe da seita ocupante da Igreja do Oriente. Sob a influência do Papa Júlio e do Imperador do Ocidente, Constante, Constâncio aceitou a reunião de um Concílio em Sárdica (Sofia). Quando os bispos arianos e os manipuladores viram Atanásio no Concílio, foram para Filipólis fazer outro concílio, excomungando Atanásio, o Papa Júlio e os demais bispos. O Concílio de Sárdica voltou a promulgar o Símbolo de Nicéia e a reabilitar Santo Atanásio, que pôde regressar ao Egito somente em 346. A sua entrada solene em Alexandria teve todo o aspecto de apoteose. A cidade inteira, todos os bispos do Egito e os monges se colocaram em bloco a seu lado. De 346 a 356, Santo Atanásio pôde reorganizar a cristandade do Egito, escrever muito e enviar missionários à Etiópia. Quando Constâncio ficou como único Imperador, os arianos lograram desterrar Santo Atanásio e, inclusive, conseguiram tomar o poder em toda a Igreja, a ponto de obrigar o Papa Libério a excomungá-lo, em 357. NOTAS (1) Lactâncio, Sobre a Morte dos Perseguidores, Sevilha, Apostolado Mariano, 1990. (2) Luís de Wohl, Fundada sobre Rocha, Breve História da Igreja, Arcaduz, Madrid, 1988, p. 48. (3) Lactâncio, Sobre a Morte dos Perseguidores, cap. 33-34. ( 4) Denzinger-Hunermann, O Magistério da Igreja, Herder, Barcelona, 1999, nº 138. ( 5) Johannes Quasten, Patrologia, T. II, A Idade de Ouro da Literatura Patrística Grega. BAC Madrid, 1985, p. 11. (6) Llorca G. – Villoslada – Laboa, História da Igreja Católica, T.1, Idade Antiga, BAC, Madri, 1990, p.394. (7) L. A. Sanchez Navarro na sua introdução Contra os Pagãos de Atanásio, Cidade Nova, Madri, 1992, p.13-14. (8) Ian M. Szymusiak, Duas Apologias, Nascentes Cristãs, Paris, 1987, p.21. (9) Fiche e Martin, História da Igreja, T.III, p.120. II. “De todas as heresias que afligiram a Igreja desde sua origem até Lutero, não houve nenhuma mais grave, mais extensa, maior, mais perigosa para a fé do que a dos Arianos” (1) Com efeito, os partidários do sacerdote herege Ário tinham-se apoderado do governo da Igreja, e queriam praticar um cristianismo filosófico, sem mistérios, esvaziando a Fé de seu conteúdo, ao negar a divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo. Mas Deus suscitou santos bispos para liberar sua Igreja dessa heresia. Causas do triunfo católico O valor, a abnegação, a sabedoria e o trabalho intelectual de santo Atanásio, santo Hilário e seus companheiros prepararam o terreno para libertar a Igreja da heresia transformada em “doutrina oficial”. A liturgia, o povo e os monges desempenharam também o seu papel; e por fim os imperadores católicos subtraíram à heresia sua principal força: a do Estado. Valentia e desinteresse pessoal Frente aos bispos arianos, havia bispos decididos a morrer pela defesa da Fé Católica, proclamada no Concílio de Nicéia de 325. Estes bispos, Atanásio, Hilário, Lucífero de Cagliari, e outros, de nada tinham medo. Todos foram perseguidos e desterrados e, no ano de 357, Santo Atanásio chegou a ser excomungado pelo Papa Libério. Sem a sua heróica resistência, a heresia ter-se-ia apoderado completamente da Igreja. Santo Atanásio e seus companheiros foram os perturbadores de uma paz feita mediante fórmulas ambíguas e concessões doutrinais indevidas, que tratavam de unir arianos e semiarianos, num acordo de base a mais indeterminada possível. Estes bispos tiveram a valentia de recusar, custasse o que custasse, a falsificação da Fé Católica, realizada pelas próprias autoridades da Igreja. Devido à propaganda ariana, as afirmações trinitárias sempre cridas e reafirmadas em Nicéia contra a heresia, não foram assimiladas rapidamente. “A sua marcha vitoriosa [da ortodoxia católica] deve creditar-se, sobretudo, à tenacidade de Atanásio, que durante meio século sustentou, por vezes solitariamente, o combate a favor do Concílio. (2) (…) A forte personalidade de Santo Atanásio (…) não somente assegurou a vitória da Fé na divindade total do Filho, mas também conseguiu que ficasse fora da dúvida a Unidade d’Esse Filho com o Homem Jesus, Uno, e que Ele mesmo é o Filho eterno de Deus e o Homem Jesus”. (3) No tempo da crise ariana, ser bispo era muito perigoso. Os bispos tinham duas soluções: sofrer as maiores crueldades, ou trair a própria consciência. O valente Atanásio, que sofreu cinco desterros em dezessete anos, dizia: “Devemos imitar os Santos Padres e persuadirmo-nos de que, se os abandonarmos, não seremos dignos de comunhão com eles. Temos de seguir São Paulo, que não oferecia a carne e o sangue, mas a Fé. No dia do Juízo, cada um deverá prestar contas dos fiéis que lhe foram confiados. Devemos aconselhar segundo o Evangelho, e não segundo o mundo. Cada um deve lutar no posto em que foi colocado; porque a coroa não será dada segundo as circunstâncias, mas segundo as obras” (4). Fidelidade, valor, perseverança, misericórdia, prudência: tais foram algumas das virtudes de Santo Atanásio, que foi um “verdadeiro homem de Deus, brilhante trombeta da verdade (…) intrépido defensor do Verbo, objeto de todo gênero de ataques”, diz São Gregório Nazianzeno (5). No Ocidente, Santo Hilário de Poitiers cultivava as mesmas virtudes. Depois dos Concílios de Arles (353) e de Milão (355), quando Constâncio quis impor a heresia a todo o Império, Santo Hilário compreendeu que se impunha a resistência aberta, à custa de sua tranqüilidade e de seus interesses pessoais (6), atitude que muitos bispos não secundaram. Dizia: “Somos católicos e não queremos ser hereges; somos cristãos e não queremos ser arianos; não se pode pretender conciliar coisas contraditórias; reunir o que é oposto, juntar o verdadeiro e o falso. Fazer com que o dia e a noite, a luz e as trevas existam ao mesmo tempo (7). Além da valentia dos bispos, houve outras causas que asseguraram o triunfo da Fé Católica: A Liturgia cimentava a resistência à heresia e transmitia ao povo o dogma católico que os bispos hereges negavam de modo privado, mas que afirmavam em público, atribuindo outro sentido às palavras. Os monges, especialmente no Egito, foram os melhores aliados de Santo Atanásio para manter o povo na Fé. O povo católico, freqüentemente, rechaçava a comunhão com os bispos hereges, e permanecia fiel aos bispos desterrados. Por essa razão se ausentava de seus templos e assistia à missa em casas particulares. Os imperadores católicos Graciano e Teodósio ajudaram os católicos a libertarem-se da heresia, reconhecendo publicamente a sua Fé na Santíssima Trindade. Os hereges manifestaram o que eram, com o seu triunfo nos Concílios de Rimini e Constantinopla (359-360). Isso abriu os olhos de muitos semiarianos, que se aproximaram dos atanasianos e adotaram a Fé de Nicéia. A própria divisão dos arianos em várias seitas foi o que os debilitou. O trabalho intelectual também teve um grande papel para dissipar as trevas do erro. Santo Atanásio e Santo Hilário, pelos seus escritos, tinham demonstrado a falsidade da heresia, fortalecendo os católicos. Santo Hilário escrevera uma obra em doze tomos acerca da Trindade. Após uma luta de cinqüenta anos, o arianismo dividiu-se em diversas seitas e foi completamente superado pelos católicos, no campo teológico: São Basílio, seu irmão São Gregório de Nissa, seu amigo São Gregório Nazianzeno e Santo Efrém, no Oriente; Santo Ambrósio, São Jerônimo, São Dâmaso e Mário Victorinus, no Ocidente. O Concílio dos Confessores (362) Sabedoria e misericórdia No ano de 361 morreu Constâncio, protetor da heresia. Ficou como único Imperador Juliano o Apóstata, ex-aluno dos arianos. O Apóstata utilizou toda a força do Império para restabelecer o paganismo e debilitar o cristianismo. Para aumentar a desordem na Igreja, permitiu o regresso dos bispos católicos desterrados. Apenas regressado à Alexandria, Santo Atanásio tratou de reparar as ruínas espirituais que os arianos tinham causado. Reuniu 21 bispos em concílio. Lucífero de Cagliari fez-se representar por dois diáconos. Nesse Concílio dos Confessores (da Fé) estabeleceram-se os princípios da solução da crise, que anos depois seriam para os bispos como uma luz. Este concílio tomou decisões parecidas às que Santo Hilário havia tomado no ano de 360, no concílio de Paris. No Concílio dos Confessores houve rigoristas que pediam a excomunhão de todos aqueles clérigos que se haviam comunicado com os arianos (quase todos os bispos tinham caído no Concílio de Rímini, em 359). Santo Atanásio e a maioria dos bispos adotaram uma posição misericordiosa e realista, melhor do que a de rigor imprudente. As decisões do Concílio O Concílio tomou as seguintes decisões: (8) 1.Não repelir os semiarianos por uma questão de vocabulário, se eles admitissem a realidade da Fé Católica (esses bispos, nos Concílios arianos, acrescentavam notas para tranqüilizar a sua consciência). 2.Todos os que, por violência ou ignorância, tinham caído subscrevendo fórmulas ambíguas ou errôneas sem aceitar o arianismo, podiam ser perdoados e conservar suas funções no clero. 3.Os chefes e defensores do partido herético podiam, se arrependidos dos seus erros, ser aceitos na Igreja, mas sem esperança de fazer parte do clero. 4.A condição para que todos os hereges ou lapsi (os caídos) fossem admitidos na Igreja era que lançassem o anátema sobre a heresia de Ário e seus partidários, e reconhecessem a Fé de Nicéia como a única verdadeira e o Símbolo de Nicéia como o melhor. O papa Libério adotou as mesmas resoluções e tratou de as aplicar na Itália, mas houve rigoristas que não aceitaram as decisões de Santo Atanásio. Santo Atanásio frente aos rigoristas imprudentes Santo Atanásio, que sempre buscou o bem comum da Igreja, escreveu uma carta doutrinal aos fiéis de Antioquia para esclarecer a doutrina católica e repelir o cisma. Tinha a mesma maneira de considerar os semiarianos, adotada por Santo Hilário, o qual dizia: “Os semiarianos que querem reunir-se aos católicos devem ser tratados como homens que saem de uma grave enfermidade: não estão nem completamente enfermos, nem completamente sãos; é preciso tratá-los com mansidão e cuidado” (9). Fazia o possível para atrair os semiarianos. Multiplicavam-se as conversões. No ano de 366, por sua influência, “59 bispos semiarianos dirigiram-se ao Papa Libério e foram recebidos no seio da Igreja” (10). Aprovava São Basílio, que não exigia muito, a princípio, dos que tinham caído. Se estes aceitavam o mais importante, estava bem assim, porque depois, com a ajuda de Deus, entenderiam melhor as coisas. Tinham que aceitar a Cristo consubstancial ao Pai, e ao Espírito Santo não como uma criatura (11). Quando São Basílio foi acusado de ser misericordioso, Santo Atanásio defendeu-o: “Fiquei muito surpreendido com a audácia dos que se atreveram a caluniar o nosso mui amado Bispo Basílio, esse verdadeiro servidor de Deus”. (12) Uma consagração problemática O Bispo Lucífero de Cagliari exigia a deposição de todos os culpados, incluindo os que tinham caído por debilidade (13). Além disso, não reconhecia as ordenações dos convertidos. Não via nenhuma diferença entre hereges e vítimas de hereges. “De um caráter tão veemente como o seu, podia-se esperar qualquer sacrifício pela Fé de Nicéia. Mas ele não chegou a enxergar, depois de um exame ponderado e atento, os complexos ingredientes da controvérsia ariana. Quando foi enviado para o exílio, diferentemente de Hilário, Lucífero não pensou em aproveitar o contato com os centros principais de debate para compreender melhor os seus fins, mas exacerbou mais a sua atitude, contando, qualificando, sem mais, como ariano radical, qualquer adversário da ortodoxia nicena. Ainda mais, não poupou críticas violentas à atitude conciliatória e clarividente de Hilário, que tratava de minorar os contrastes entre os anti-arianos do Oriente (não nicenos) e os anti-arianos do Ocidente (nicenos), com o propósito de organizar uma frente comum contra a heresia (…). Há que reconhecer que, no seu conjunto, a sua atuação (de Lucífero) fez mais mal do que bem à causa da ortodoxia” (14). No ano de 362, em vez de assistir ao Concílio dos Confessores, Lucífero foi a Antioquia consagrar o sacerdote Paulino como bispo da pequena comunidade nicena, o que foi um erro, já que o bispo do lugar, Melécio, anteriormente semiariano, havia aceito a fé de Nicéia, e por isso tinha sido desterrado pelos arianos. A consagração feita por Lucífero aumentou a desordem, atrasou a reconciliação entre os católicos e envenenou a vida da Igreja durante anos. O Concílio de Constantinopla (381) Finalmente, apesar das perseguições do Imperador ariano Valente (de 364 a 376), e apesar do triunfo ariano durante meio século, aproximava-se o triunfo final do catolicismo. Santo Atanásio e Santo Hilário tinham preparado bem o caminho. São Basílio, Santo Ambrósio e São Melécio, o Papa São Dâmaso e muitos outros santos, iam dar o golpe final à mentira ariana. Com a morte de Valente, em 378, os arianos perderam o protetor de sua seita. O general espanhol Teodósio, Imperador em 379, apoiou os católicos. Em 381, o Concílio de Constantinopla reafirmou a Fé Católica proclamada em Nicéia em 325. Os princípios decididos no Concílio dos Confessores deram nesse momento os seus frutos. Em pouco tempo o arianismo, dividido em várias seitas opostas entre si e neutralizadas pelo Imperador Teodósio, desapareceu do Império Romano. Conclusão Graças a sua valentia, um grupo de bispos católicos pôde salvar a fé e a Igreja do caos da heresia. Em tempos de crise são os valentes que, com prudência e caridade, podem solucionar os problemas. Os intransigentes, sem estas qualidades, provocam mais dano do que bem. Os conservadores que não proclamam a fé tal como deve ser, são a longo prazo tão perigosos como os hereges. A história da crise ariana mostra que os bispos tíbios ou perversos podem favorecer o erro e impô-lo ao povo como doutrina católica. Ensina-nos igualmente como até um Papa, pressionado por bispos poderosos, abusando de seu poder, pode equivocar-se, excomungando o melhor defensor da Fé Católica, ainda que essa injusta condenação nada valha. Mostra, finalmente, que a resistência prudente à autoridade que se equivocou no caminho é necessária e, inclusive, meritória. Os casos de Santo Atanásio e Santo Hilário dão testemunho disso. Padre Michel Boniface (1) Jean Adan Moehler, Athanase le Grand et l’Eglise de son Temps, Bruxelas, 1841, T. 2, p.225. Adiante: Moehler, tomo e página. (2) Mysterium Salutis, Manual de Teologia como História da Salvação, Cristiandad, Madri, 1980, T. Iglesia, p. 344. Adiante, MS. (3) MS, p. 346. (4) Moehler, T. 2, p. 130-134. (5) São Gregório Nazianzeno, Panegírico de Santo Atanásio, em Moehler, T. 1, p. XVI0-XVII. (6) Dictionnaire de Théologie Catholique, artigo Hilário, T. VI, col. 2390. (7) Moehler, T. 2, p. 127. (8) Charles Joseph Heffele, História dos Concílios segundo os Documentos originais, Lertouzey et Ané, Paris, T. I, p. 964. (9) Moelher, T. 2, p. 220. (10) Lorea-G. Villoslada-Labao, História da Igreja Católica, Idade Antiga, BAC, Madri, 1996, p. 426. (11) Moelher, T. 2, p. 243-244. (12) Idem, id. Id. (13) J. M. Mayeur Ch. E I. Pietri, História do Cristianismo, Desclée, Paris, 1995, T. 2, p. 359. (14) Manlio Simonetti, Hilário de Poitiers e a crise Ariana no Ocidente: Polemistas e Hereges, in Institutum patristicum augustinianum, Patrologia, T. 3, A idade de Ouro da Literatura Patrística Latina, BAC, Madri, 1993, p. 78. #Atualidades

  • Declaração por ocasião de Assis

    Por ocasião da reunião de Assis, de 1986, Dom Marcel Lefebvre e Dom Antônio de Castro Mayer fizeram esta declaração conjunta para manifestar o caráter anti-católico daquela reunião. Hoje, quando o Papa chama novamente 250 chefes de falsas religiões para repetir o escândalo de Assis, é preciso reler estes preciosos textos dos dois grandes bispos da Tradição. DECLARAÇÃO (como conseqüência dos acontecimentos da visita de João Paulo II à Sinagoga e ao Congresso das Religiões em Assis). Roma nos mandou perguntar se tínhamos a intenção de proclamar nossa ruptura com o Vaticano por ocasião do Congresso de Assis. Parece-nos que a pergunta deveria, antes, ser esta: o sr. acredita e tem a intenção de declarar que o Congresso de Assis consuma a ruptura das Autoridades Romanas com a Igreja Católica? Porque é precisamente isto que preocupa àqueles que ainda permanecem católicos. Com efeito, é bastante evidente que, desde o Concílio Vaticano II, o Papa e os Episcopados se afastam, de maneira cada vez mais nítida, de seus predecessores. Tudo aquilo que foi posto em prática pela Igreja para defender a Fé nos séculos passados, e tudo o que foi realizado pelos missionários para difundi-la, até o martírio inclusive, é considerado doravante como uma falta da qual a Igreja deveria se acusar e pedir perdão. (nota: os dois bispos não podiam imaginar a avalanche de pedidos de perdão que viria, anos mais tarde, humilhar a Santa Igreja) A atitude dos onze Papas que, desde 1789 até 1958, em documentos oficiais, condenaram a Revolução liberal, é considerada hoje como “uma falta de compreensão do sopro cristão que inspirou a Revolução”. Donde, a reviravolta completa de Roma, desde o Concílio Vaticano II, que nos faz repetir as palavras de Nosso Senhor àqueles que O vinham prender: “Haec est hora vestra et potestas tenebrarum – Esta é a vossa hora e o poder das trevas”. (Lc. 22, 52-63) Adotando a religião liberal do protestantismo e da Revolução, os princípios naturalistas de J.J. Rousseau, as liberdades atéias da Constituição dos Direitos do Homem, o princípio da dignidade humana já sem relação com a verdade e a dignidade moral, – as Autoridades Romanas voltam as costas a seus predecessores e rompem com a Igreja Católica, e põem-se a serviço dos que destroem a Cristandade e o Reinado Universal de Nosso Senhor Jesus Cristo. Os recentes atos de João Paulo II e dos Episcopados nacionais ilustram, de ano para ano, esta mudança radical de concepção da fé, da Igreja, do Sacerdócio, do mundo, da salvação pela graça. O cúmulo desta ruptura com o magistério anterior da Igreja, depois da visita à Sinagoga, se realizou em Assis. O pecado público contra a unicidade de Deus, contra o Verbo Encarnado e Sua Igreja faz-nos estremecer de horror: João Paulo II encorajando as falsas religiões a rezar a seus falsos deuses: escândalo sem medida e sem precedente. Poderíamos retomar aqui nossa Declaração de 21 de novembro de 1974, que permanece mais atual que nunca. Quanto a nós, permanecendo indefectivelmente na adesão à Igreja Católica e Romana de sempre, somos obrigados a verificar que esta religião modernista e liberal da Roma moderna e conciliar se afasta cada vez mais de nós, que professamos a Fé católica dos onze Papas que condenaram esta falsa religião. A ruptura, portanto, não vem de nós, mas de Paulo VI e de João Paulo II, que rompem com seus predecessores. Esta negação de todo o passado da Igreja por estes dois Papas e pelos Bispos que os imitam é uma impiedade inconcebível e uma humilhação insuportável para aqueles que continuam católicos na fidelidade a vinte séculos de profissão da mesma Fé. Por isso, consideramos como nulo tudo o que foi inspirado por este espírito de negação: todas as Reformas post-conciliares, e todos os atos de Roma realizados dentro desta impiedade. Contamos com a graça de Deus e o sufrágio da Virgem Fiel, de todos os Mártires, de todos os Papas até o Concilio, de todos os Santos e Santas fundadores e fundadoras de Ordens contemplativas e missionárias, para que venham em nosso auxilio na renovação da Igreja pela fidelidade integral à Tradição. Buenos Aires, 2 de dezembro de 1986 + Marcel Lefebvre Arcebispo-Bispo emérito de Tulle + Antonio de Castro Mayer Bispo emérito de Camposque concorda plenamente com a presente declaração e a faz sua. #Atualidades

  • Anexo da carta ao Papa

    Em 21 de novembro de 1983, Dom Antônio de Castro Mayer assinou em companhia de Dom Lefebvre uma Carta ao Papa com um anexo que expunha as causas principais da «dramática situação» eclesial. Reproduzimos o anexo para que se meça o valor do “bom combate” empreendido por estes dois bispos católicos, e para demonstrar que tal “dramática situação” não só perdura até hoje mas se agravou. Por isso não podemos deixar de nos fazer a mesma pergunta (que ficou sem resposta) de um jornalista brasileiro: «Como se explica que já não tenha razão de ser a divisão entre o clero formado por Dom Antônio de Castro Mayer e a “igreja conciliar”?» «ANEXO DA CARTA AO PAPA» I. Concepção “latitudinarista” e ecumênica da Igreja. A concepção da Igreja como “povo de Deus” se encontra já em numerosos documentos oficiais. Desta concepção emana um significado latitudinarista e um ecumenismo falso. Alguns fatos patenteiam tal concepção heterodoxa: as autorizações para construir salas destinadas ao pluralismo religioso; a edição de Bíblias ecumênicas, que já não são conformes à exegese católica; as cerimônias ecumênicas, como a de Cantuária. Na Unitatis Redintegratio se ensina que a divisão dos cristãos «é motivo de escândalo para o mundo e obstaculiza a pregação do Evangelho a todos os homens… que o Espírito Santo não despreza o servir-se das outras religiões como instrumento de salvação». O mesmo erro se repete no documento Catechesi tradendae de João Paulo II. Na mesma linha, e com afirmações contrárias à fé tradicional, João Paulo II declara na catedral de Cantuária, em 25 de maio de 1982, «que a promessa de Cristo nos leva a confiar em que o Espírito Santo deterá as divisões introduzidas na Igreja já depois de Pentecostes»; como se nunca se tivesse dado na Igreja a unidade de credo. O conceito de “povo de Deus” induz a crer que o protestantismo não é mais que uma forma particular da mesma religião cristã. O concílio Vaticano II proclama «uma autêntica união no Espírito Santo» com as seitas heréticas (Lumen Gentium, 14), «certa comunhão com elas, se bem que imperfeita ainda» (Unitatis Redintegratio, 3). Esta unidade ecumênica contradiz a encíclica Satis Cognitum de Leão XIII, que ensina que «Jesus não fundou uma Igreja que abraça várias comunidades que se assemelham genericamente, mas que são diferentes e não se acham ligadas por um vínculo que forme uma igreja única». Tal unidade ecumênica é contrária também à encíclica Humani Generis de Pio XII, que condena a idéia de reduzir a mera fórmula a necessidade de pertencer à Igreja Católica; é contrária igualmente à encíclica Mystici Corporis do mesmo Papa, que condena a concepção de uma Igreja «pneumática», a qual constitui, segundo a dita concepção, o laço invisível entre as comunidades separadas na fé. Tal ecumenismo é contrário igualmente aos ensinamentos de Pio XI na encíclica Mortalium animos: «Sobre este ponto é oportuno expor e rejeitar certa opinião falsa que está na raiz do problema supramencionado e desse movimento complexo com o que os acatólicos se esforçam por realizar uma união entre as igrejas cristãs. Os que aderem a tal opinião têm sempre na boca as palavras de Cristo: ‘… que todos sejam um…; …e haverá um só rebanho e um só pastor’ (Jo 17, 21; 10, 16); e pretendem que com tais palavras Cristo expressa um desejo ou uma prece que nunca se realizou. De fato, pretendem que a unidade de fé ou de governo, que constitui uma das notas da verdadeira Igreja de Cristo, não existiu praticamente até o dia de hoje, e que ainda agora continua não existindo». Esse ecumenismo, condenado pela moral e pelo direito canônico, chega a permitir que os Sacramentos da Penitência, da Eucaristia e da Extrema-Unção se recebam de «ministros acatólicos» (cânon 844 do código novo), e favorece «a hospitalidade ecumênica» ao autorizar os ministros católicos a administrar o sacramento da Eucaristia aos acatólicos. Tudo isso é abertamente contrário à revelação divina, que prescreve a «separação» e rejeita a mistura «entre a luz e as trevas, entre o fiel e o infiel, entre o templo de Deus e o das seitas» (II Cor 6, 14-18). II. Governo colegial-democrático da Igreja Depois de ter arruinado a unidade da fé, os modernistas contemporâneos se esforçam para livrar-se tanto da unidade de governo como da estrutura hierárquica da Igreja. A doutrina, já sugerida pelo documento Lumen Gentium do concílio Vaticano II, será recolhida explicitamente pelo novo código de direito canônico ao ensinar que o colégio dos bispos unido ao Papa goza igualmente do poder supremo, e isso de modo habitual e constante (cânon 336). Esta doutrina do duplo poder supremo é contrária ao ensinamento e à prática do Magistério eclesiástico, especialmente no concílio Vaticano I (Denz. 3055) e na encíclica de Leão XIII Satis Cognitum: só o Papa goza de tal poder supremo, que comunica na medida em que o considera oportuno e em circunstâncias extraordinárias. A este grave erro se liga a orientação democrático-eclesial, que faz residir o poder no «povo de Deus», como o ratifica o direito novo. Tal erro jansenista é condenado pela bula Auctorem Fidei de Pio VI (Denz. 2602). A tendência a fazer participar a «base» no exercício do poder, se reconhece na instituição do sínodo [permanente dos bispos] e das conferências episcopais, dos conselhos presbiterais e pastorais, e na multiplicação das comissões romanas e nacionais, bem como das que há no seio das congregações religiosas (veja-se a respeito o concílio Vaticano I, Denz. 3061 — Novo Código de Direito canônico, cânon 447). A degradação da autoridade na Igreja é a fonte da anarquia e da desordem que reinam hoje por toda a parte. III. Os falsos direitos naturais do homem A declaração Dignitatis humanae do concílio Vaticano II afirma a existência de um falso direito natural do homem em matéria religiosa, contrariamente aos ensinamentos pontifícios que negam formalmente tamanha blasfêmia. Assim, Pio IX na encíclica Quanta cura e no Syllabus, Leão XIII nas encíclicas Libertas Praestantissimum e Immortale Dei, Pio XII no discurso Ci riesce aos juristas italianos negam que a razão ou a revelação fundamentem semelhante direito. O Vaticano II crê e professa de maneira absoluta que «a verdade não pode impor-se senão com a força própria da verdade», o que se opõe formalmente aos ensinamentos de Pio VI contra os jansenistas do concílio de Pistóia (Denz. 2604). O concílio Vaticano II chega ao absurdo de afirmar o direito a não aderir à verdade nem segui-la: o direito a obrigar os governos civis a já não fazer discriminações por motivos religiosos, estabelecendo a igualdade jurídica entre a religião verdadeira e as falsas. Tais doutrinas se fundam em um conceito falso da dignidade humana, que deriva dos pseudofilósofos da Revolução Francesa, agnósticos e materialistas, os quais foram condenados no passado por São Pio X no documento pontifício Notre Charge Apostolique. O Vaticano II prognostica que da liberdade religiosa nascerá uma era de estabilidade para a Igreja. Gregório XVI, em contrapartida, reputa por desfaçatez suma afirmar que a liberdade imoderada de opinião seria benéfica para a Igreja. O Concílio expressa um princípio falso na Gaudium et Spes ao considerar que a dignidade humana e cristã deriva do fato da Encarnação, a qual restaurou essa dignidade em beneficio de todos os homens. O mesmo erro se afirma na encíclica Redemptor hominis de João Paulo II. As conseqüências do reconhecimento, por parte do Concílio, deste falso direito do homem destroem os fundamentos do reinado social de Nosso Senhor, arruínam a autoridade e o poder da Igreja em sua missão de fazer reinar Nosso Senhor nos espíritos e nos corações combatendo as forças satânicas que subjugam as almas. Ao espírito missionário, por conseguinte, acusá-lo-ão de proselitismo exagerado. A neutralidade dos Estados em matéria religiosa é injuriosa para Nosso Senhor e para sua Igreja quando se trate de Estados de maioria católica. IV. Uma concepção errônea do poder do Papa Certamente, o poder do Papa na Igreja é um poder supremo, mas não pode ser absoluto nem ilimitado, dado que está subordinado ao poder divino, que se expressa na Tradição, na Escritura Sagrada e nas definições promulgadas pelo Magistério eclesiástico (Denz. 3116). O poder do Papa está subordinado ao fim para o qual lhe foi conferido, e limitado por este. Tal fim é definido claramente pelo Papa Pio IX na constituição Pastor Aeternus do concílio Vaticano I (Denz. 3070). Seria um abuso de poder intolerável modificar a estrutura da Igreja e pretender apelar para o direito humano contra o direito divino, como se faz na liberdade religiosa, na “hospitalidade” eucarística autorizada pelo direito novo, na afirmação de dois poderes supremos na Igreja. Salta aos olhos que, nestes casos e em outros semelhantes, é um dever para todo e qualquer sacerdote e para todo e qualquer fiel católico resistir e negar obediência. A obediência cega é uma absurdidade, pois ninguém está isento de responsabilidade por ter obedecido aos homens antes que a Deus (Denz. 3115), ao passo que a resistência em questão deve ser pública se o mal é público e constitui motivo de escândalo para as almas (Suma Teológica II-II, q. 33, a. 4). São princípios elementares de moral que regulam as relações dos súditos com todas as autoridades legítimas. Por outro lado, esta resistência acha uma confirmação no fato de que há tempo só são penalizados os que se atêm firmemente à Tradição e à fé católica, ao passo que não são molestados os que professam doutrinas heterodoxas ou cometem autênticos sacrilégios: é a lógica do abuso de poder. V. Concepção protestante da missa A nova concepção da Igreja, a julgar pela definição que deu dela o Papa João Paulo II na constituição preliminar do Novo Código de Direito Canônico, comporta uma mudança no ato principal da Igreja, integrado pelo sacrifício da missa. A definição da nova eclesiologia define com exatidão a nova missa: um serviço e uma comunhão colegial ou ecumênica. Não se pode definir melhor a nova missa, a qual, como a nova ‘igreja’ conciliar, rompe abertamente com a Tradição e o Magistério da Igreja. Trata-se de uma concepção mais protestante que católica, e que explica tanto tudo o que se exaltou indevidamente quanto o que se diminuiu. Contrariamente aos ensinamentos do concílio de Trento na sessão XXII, contrariamente à encíclica Mediator Dei de Pio XII, exagerou-se o papel dos fiéis na hora de participar da missa e rebaixou-se o do presbítero, reduzido a mero presidente; exagerou-se o papel da liturgia da palavra e diminuiu-se a importância do sacrifício propiciatório; exaltou-se a ceia comunitária, secularizando-a — tudo isso à custa da fé na presença real operada pela transubstanciação e do respeito devido a ela, ao passo que com a supressão da língua sagrada se pluralizaram os ritos até ao infinito, profanando-os com acréscimos mundanos ou pagãos, e difundiram-se traduções falsas, em detrimento da fé verdadeira e da piedade autêntica dos fiéis. E, no entanto, os concílios de Florença e de Trento haviam anatematizado todas essas mudanças e afirmado que o cânon da missa remontava aos tempos apostólicos. Os Papas São Pio V e Clemente VIII insistiram na necessidade de evitar alterações e mudanças, conservando perpetuamente este rito romano consagrado pela tradição. A dessacralização da missa, sua “secularização” preparam a “secularização” do sacerdócio ao modo protestante. A reforma litúrgica de corte protestante é um dos maiores erros da igreja conciliar, e uma das mais daninhas para a fé e a moral. A situação da Igreja, posta em estado de busca, introduz na prática o livre exame protestante, resultado da pluralidade de “credos” no seio da Igreja. A supressão do Santo Ofício, do Índex, do juramento antimodernista suscitaram nos teólogos modernos uma necessidade de novas teorias, que desorientam os fiéis e os empurram para o movimento carismático, o pentecostalismo, as comunidades de base… É uma autêntica revolução, dirigida francamente contra a autoridade de Deus e da Igreja. Os graves erros modernos, condenados constantemente pelos Papas, desenvolvem-se agora sem travas no seio da Igreja: 1. As filosofias modernas, antiescolásticas, existencialistas, antiintelectualistas, são ensinadas nas universidades católicas e nos seminários maiores. 2. O humanismo é favorecido pela necessidade das autoridades eclesiásticas de fazer eco ao mundo moderno e considerar ao homem o fim de todas as coisas. 3. O naturalismo — a exaltação do homem e dos valores humanos — faz esquecer os valores sobrenaturais da redenção e da graça. 4. O modernismo evolucionista causa a rejeição da Tradição, da Revelação, do Magistério de vinte séculos. Já não existem verdades imutáveis nem dogmas. 5. O socialismo e o comunismo: a negativa por parte do concílio a condenar estes erros foi escandalosa e induziu a crer com toda a razão do mundo que hoje o Vaticano é favorável a um socialismo ou a um comunismo mais ou menos cristão. A atitude da Santa Sé durante estes últimos quinze anos, tanto além como aquém da cortina de ferro, confirma esta crença. Por fim, os acordos com a maçonaria, com o conselho ecumênico das igrejas e com Moscou reduzem a Igreja ao estado de prisioneira, fazem-na de todo incapaz de cumprir livremente sua missão. Trata-se de autênticas traições que clamam vingança ao céu, como os elogios tributados nestes dias ao heresiarca mais escandaloso e mais nocivo para a Igreja: Lutero. É hora de a Igreja recuperar a liberdade de realizar o reino de Nosso Senhor Jesus Cristo e o reino de Maria sem se preocupar com seus inimigos». #Atualidades

  • O que senti

    Gustavo Corção “O Globo” – 04/07/1974 Compelido a voltar a um assunto que seria apenas ridículo sem os altos valores que envolve e sem as centenas de pessoas respeitáveis que compromete, e depois de ter discorrido amenamente em torno de puerilidades que ao menos me descansaram das falsas seriedades que poluem o século, começo hoje por confessar que foi, nesse episódio, o meu principal sentimento, e a minha dor mais difícil. À primeira vista parecerá um simples lugar comum dizer que a carta do “Presidente” da Congregação Beneditina do Brasil não me atingiu em ponto algum. Não me senti picado, mordido, arranhado, envenenado. Nada. Rigorosamente, e diante de Deus o digo, mal percebi que alguém empostava a voz e alçava-se no bico dos pés para chegar a produzir este guincho de grilo: – “Em nome de 424 religiosos, eu Basílio Penido, Presidente da Congregação dos Beneditinos do Brasil, venho declarar que o Sr. G. C., escritor de 77 anos, há muito tempo levanta-se como um energúmeno de maneira irresponsável e caluniosa, contra as tentativas da Igreja em adaptar-se aos tempos modernos.” A ordem das palavras e a pontuação pode ser outra, que no momento não posso verificar. Mas na revista VEJA leio a condensação essencial da página inteira do “Jornal do Brasil” que pode ser esta: “Em nome dos 424 beneditinos do Brasil, o Presidente Penido injuria o Sr. G. C. como a Palma Cavalão do Eça de Queiroz.” Mas a mão que queria esbofetear G.C. resvalou e esbofeteou 424 monges beneditinos. E é precisamente nessas faces amigas, de pessoas sérias e nobres a quem devo o que não poderia jamais resgatar, mas felizmente já encontrei amigo que com o próprio Sangue resgatasse. Enquanto estamos na pauta dos sentimentos não procurarei esconder a dor que senti no melhor de mim mesmo, isto é, na doce gratidão sentida por tantos e tão bons amigos que durante tantos anos me trouxeram consolo e sabedoria. Lembro-me como se fosse ontem do dia em que pela primeira vez subi a ladeira do São Bento à procura de um Dom Gerardo, e fui atendido por um moço de óculos escuros que parecia estar à minha espera, sabendo por uma conversa de anjos, que o bisonho indivíduo esperado era propenso a enganar-se de portas, janelas e esquinas a dobrar. Não exageraria se dissesse que sempre me lembro dele a me levar pela mão. Antes disso acodem-me à memória as que sempre me encontravam em casa as portas abertas. As portas e o coração. Lauro e Nélson; Haroldo e Weimar; Rocha e Fábio, o austero Fábio que o Presidente Basílio diz ter entrevistado numa sessão espírita. Todas essas gratíssimas recordações me trouxeram uma intensa aflição quando imaginei o que deveriam estar sentindo meus bons amigos beneditinos quando viram publicamente enxovalhada a honra da Igreja, a venerável glória de 14 séculos de colheitas de Nosso Pai São Bento, e até, pelo que imaginassem estar eu também sofrendo. Tentei confortá-los com o que de mim já disse, não apenas por ser ridículo demais o ataque, mas sobretudo porque esse episódio tolo nos espicaça e nos obriga a procurar as causa profundas de tudo isso que ultimamente me colocou numa berlinda que será uma variante moderna, avançada, da Cruz de Nosso Senhor na qual, caríssimos amigos, todos nós nos gloriamos, e ainda nos reunimos a despeito de divergências maiores ou menores. A primeira reflexão de capital importância, para qual chamo a atenção e quase digo convosco todas as energias dos verdadeiros filhos de São Bento é para a abismal divergência que separa hoje dois tipos de “beneditinos” ambos “presididos” pelo mesmo personagem, e designados pelo mesmo título. E, entretanto, diferentes como o cristianismo de qualquer das religiões africanas agora professadas em torno do Abade Beneditino de Salvador. Quantos beneditinos verdadeiros Dom Basílio efetivamente preside? Não sei. A revista VEJA fala de um total bruto de 424. Como não tenho ultimamente freqüentado nenhum dos mosteiros do Brasil não tenho idéia da profundidade da degradação do espírito beneditino e da proporção dos dois tipos que se contrapõem. A primeira coisa a considerar e a enfrentar com coragem, com amor à verdade, e com uma derradeira prova de dedicação ao Patriarca do Ocidente, é a realidade de uma divisão grave, de dois espíritos incompatíveis. A segunda idéia a alimentar e a robustecer é a da necessidade de rejeitar o falso ideal de unidade que vem sendo pregado. Voltaremos insistentemente à atitude que convém diante desta dolorosa constatação. Posta a coisa nesses termos, forçoso é reconhecer três coisas que em nossas primeiras aproximações pareciam insuportáveis: na medida em que os 424 beneditinos já não se dão acordo da duas “figuras” em que se dividem, e aceitam tranqüilamente a idéia de “presidência” recentemente inventada, D. Basílio representa efetivamente 424 “beneditinos”; segunda: nesta hipótese terá efetivamente desonrado, magoado, envergonhado uma minoria de beneditinos católicos; mas também terá trazido a maior satisfação à maioria que se torce de prazer na leitura de seu português. Terei eu errado quando em meu primeiro artigo tomei a iniciativa da discriminação? Competirá aos injustamente ofendidos (não eu!) a rejeição de seu direito de dizer tudo o que quer em nome dos que não querem. Na verdade, a única relação verdadeira estabelecida pela carta de D. Basílio é a que se estabelece entre ele e mim: aí, descontadas as inexatidões dos títulos e das frases atribuídas aos mortos, é essencialmente verdadeira a afirmação central da carta: nela, diz o Presidente que é meu inimigo, o que é verdade. Eu o sou; dele e de sua espécie. E, em nome da glória da Igreja, da Caridade e do zelo da salvação das almas hei de combater com todos os dons que Deus para isto me deu. E ai de mim se os não usar. Voltaremos ainda a essa oportunidade de reflexões que o tolo episódio nos oferece, e convidamos os amigos a esta boa cruzada, sim CRUZADA: e riam-se os demônios desta denominação. A única coisa que não podemos aceitar um só minuto é a repugnante idéia de unir o verdadeiro ao falso para compor o cômodo. P.S. Este artigo foi escrito no dia do Preciosíssimo Sangue de Cristo, e eu peço a MEU DOCE CRUCIFICADO que ponha uma gota de seu Sangue nestas linhas que escrevo misturada às minhas lágrimas. Gravo esta data para evitar qualquer equívoco entre o que hoje escrevo e o que vier acaso a acontecer até o dia da publicação deste artigo, o de quinta e o de sábado. #GustavoCorção

  • Um otimismo descabido

    O que deseja Roma? É a restauração da Tradição ou repetir a história de D. Gérard e do mosteiro do Barroux? Cabe a pergunta: o otimismo de Campos é justificado ou descabido? Corção, trinta anos atrás, já nos dava elementos para responder a essa candente questão. Gustavo Corção “O Globo” – 02/12/1972 Acabo de ler um artigo de meu bom amigo Gladstone Chaves de Melo, que andou a correr terras de Europa em missão diplomática e agora se acha em Lisboa como adido cultural. O autor do artigo intitulado “Depois de procelosa tempestade” conta o que viu e ouviu nas missas e nos meios católicos que visitou, e concluiu com palavras de Camões que Depois de procelosa tempestade, Noturna sombra e sibiliante vento, Traz a manhã serena claridade, Esperança de porto e salvamento; Aparta o sol a negra escuridade Removendo o temor ao pensamento. Gladstone Chaves de Melo conclui que as tolices já se desgastaram e que já se vê por toda a parte o que Guerra Junqueiro chamaria “um rosicler d’aurora”. Ora, a mim me parece, tranqüila e objetivamente, que nosso colaborador se engana, talvez pelo fato de ter corrido muitos lugares e por dar excessivo valor ao que viu por onde passou, como viajante, como estranho, para não dizer como turista. Nós outros que ficamos imóveis pudemos apreciar melhor o agigantado volume de estupidez que invade a América Latina vindo de Roma e de toda a cristandade, e a mim me parece que, para tais ponderações, vale mais a leitura repousada do que as locomoções. Há certa semelhança entre o que diz Gladstone e o que diz Maritain em Le Paysan de la Garonne (p. 79), onde afirma que este erro de hoje é menos perigoso que o primeiro (o maniqueísmo larvado (?)) e que “terá duração menos longa… porque, quando a tolice se excede no meio cristão, é preciso que ela se dissolva depressa, ou que se destaque decididamente da Igreja”. Parece-me mais sensato pensar que quanto maior for a onda de sottise maior será a devastação, e mais difícil será a recuperação. Descambando na ladeira dos reformismos acelerados, os eclesiásticos se entregam à lei da matéria, e à famosa lei da entropia crescente a que tantas vezes já aludi e que se exprime pela improbabilidade extrema de passar a matéria do estado menos diferenciado para o mais diferenciado e organizado. É claro que se desgastam com certa rapidez os erros e as fantasias feitos com o sangue de nosso Salvador; mas é claríssimo que logo terá substituta a asneira encalhada por falta de freguesia; porque a calamidade básica permanece. E qual é essa calamidade básica? Salta aos olhos que é a ausência de autoridade, e até a complacência que em seus diversos escalões a hierarquia manifesta pelos heréticos, pelos atrevidos, pelos propagandistas de uma nova religião. Aqui no Brasil um Boff é festejado por bispos e cardeais. Na América Latina ensinam-se descaradamente o marxismo e o socialismo, e são bispos e arcebispos que promovem tal revolução. Em Saragoza, os padres que tiveram a ingênua idéia de se unirem para um integral apoio à tradição e ao Papa não receberam do Papa o menor sinal de agrado, e só encontraram nas amaldiçoadas conferências episcopais a mais agressiva oposição. Na Igreja e na Civilização alastram-se os erros mais funestos. As casas religiosas se desagregam, as vocações desaparecem, e nos seminários ainda existentes o que se ensina já não é o cristianismo, é outra religião que usa o nome de Jesus Cristo que ainda tem mercado. Onde estão os sinais de “serena claridade”, onde a brisa amena, onde o “rosicler d’aurora”? Além disso ponderemos uma coisa que escapou aos dois otimistas, Gladstone e Maritain, esperançosos ambos na passagem rápida da tempestade de asneiras e na volta à normalidade. Ponderemos a irreversibilidades das demolições, das degradações, dos desmoronamentos individuais e coletivos. Como se processará, por exemplo, a recuperação do Colégio Sacré Coeur destruído e vendido? Como se recuperarão as religiosas que rolaram até a prostituição? E como se deterão os efeitos dos erros entregues à lei da matéria e da inércia? Por mim, e diante de Deus o digo com a maior convicção, não me parece acertada nem generosa essa pregação em que o pregador tão evidentemente se engana a si mesmo para depois poder enganar os outros. Não creio que nossa santa religião se nutra da mentira vital de Ibsen, ou da filosofia da autotapeação. A verdade incontornável é a do processo de alargamento da conspiração mundial contra a Igreja de Cristo, promovida com o apoio de seus levitas que não abandonam oportunidade tão propícia para os profissionais do sensacionalismo e do escândalo. Que figuras quereriam os otimistas que a Igreja imitasse? Que itinerário esperariam que ela copiasse? O dos negociantes prósperos? O dos generais vitoriosos? A história da Igreja será necessariamente uma imitação da história de Cristo. Teve sua infância obscura, teve o massacre dos inocentes, teve um período de construção e consolidação da doutrina da Salvação. Teve durante mil anos o domingo de Ramos. Entrou depois em quatro séculos de Gethsemani. E agora terá não sei quantos milênios de flagelação. Estamos no começo do segundo mistério doloroso. O Corpo Místico de Cristo é insultado, chicoteado, cuspido. E a mais bela das casas expõe aos viandantes um deplorável aspecto de desolação e ruína. Virão depois os milênios da coroa de espinhos, os milênios do caminho da cruz e os milênios da crucificação. O que não é admissível – mas foi longamente admitido por equívoco – é a confortável e rotineira instalação da Igreja no Mundo. E o que também não é admissível é que a promessa de que não prevalecerão as portas do Inferno se aplique aos Suíços do Vaticano, aos paramentos e à cor das meias dos prelados. Entre as notas essenciais da Igreja sabemos que sua santa visibilidade foi desde o início concebida por Deus, mas também sabemos que a Igreja não é visível em todas as suas partes, nem é sempre visível em todos os momentos naquelas partes em que se concentra o fulgor de sua visibilidade. Preparemo-nos, sem ilusões, sem apegos, e sem medo, ao dia do grande eclipse. Não nos enganemos, não nos iludamos, não nos esquivemos: a idéia de uma restauração a breve prazo nos compele à fantasmagoria grotesca que certamente Gladstone e Maritain não subscreveriam. Eu vejo uma procissão de arrependidos, de frades descasados, de filhos de padres involuídos ao útero e ao nada, vejo milhões de lúmens se restaurarem, e vejo, num paroxismo de esperanças drogadas, uma abadessa a criticar severamente os ensaios da “grande reverence” que as noviças deveriam fazer no claustro cada vez que cruzassem com a abadessa. Não estou com nenhuma vontade de rir. Por vários motivos tudo hoje me inclina mais depressa à lágrima, mas não posso deixar de achar engraçado esse otimismo que tanto subestima a energia nuclear da burrice humana hoje aplicada com zelo às coisas santas. Amigos, unamo-nos, agarremo-nos à cruz de Nosso Senhor, à Igreja essencial, ao cerne, ao Corpo Místico, e às cinco chagas de Cristo. Com toda a força de nossa Esperança repilamos as esperanças enganosas e esperemos no cerne da Igreja, in medio Ecclesiae, o verdadeiro despontar da aurora de um Novo Mundo. E resistamos fortes na fé, como tantas vezes nos disse o mesmo amigo distante Gladstone Chaves de Melo. #GustavoCorção

  • A Vida Religiosa III

    Gustavo Corção “O Globo” – 10/08/1974 Foi num dos anos 40 . A pedido de Alceu Amoroso Lima formulado em abril de 1941, no Mosteiro de São Bento, no dia do Batismo de minha filha Maria Luisa – já assumira eu a vice-presidência do centro Dom Vital e a direção da revista A Ordem, com o apoio de Fábio Alves Ribeiro. Poucos anos depois tive a sorte de adoecer, creio que uma inflamação de vesícula biliar, que me obrigou a ficar meio acamado, e forçado a interromper por alguns dias a cadeia tirânica de aulas e aulas. Benditas cólicas, naquele tempo já nos abríramos, Fábio e eu, sobre o mal-estar que nos causavam certas singularidades do movimento litúrgico, que não nos soavam como de bom quilate católico . Nessa semana de resguardo, Fábio trouxe-me diversos livros, entre os quais dois volumes de Garrigou Lagrange: Perfection Chrétiene et Contemplation, que me abriram as portas da luminosa síntese do tomismo e do carmelo, colunas místicas católicas erguidas por tão grandes santos: Santo Tomás, Santa Catarina de Sena, São João da Cruz, Santa Teresa d’Ávila, Santa Teresinha do Menino Jesus, lado a lado, e com o mesmo embasamento da grande tradição beneditina que está na base de todo arcabouço místico que se diferenciou naquelas correntes que deram à Igreja o grande esplendor de santidade que até hoje orienta as almas que se gloriam na Cruz de Nosso Senhor. Aprendi e passei a ensinar durante vinte anos no Centro Dom Vital, que a vida de mais amorosa procura da perfeição é a contemplação, pela qual a alma se deixa conduzir “pela modo dos dons, mais do que pelo trabalho e esforço, no modo das virtudes”. E é nas casa religiosas fechadas em torno do único Necessário, que se realizou melhor esta entrega total que Cristo mesmo define: ‘Maria escolheu a melhor parte “. E hoje retomando o velho livro do mestre querido, que durante vinte anos ensinou no grande movimento de Meudon, animado por Jacques e Raíssa Maritain, leio a belíssima epígrafe que, deste a primeira página, ilumina a obra inteira: “Optavi et datus est mihi sensus; et invocavi et venit in me spiritus sapientiae” Sab. VIII, 7). “Optei (escolhi, quis) e foi-me dado o senso, o gosto ; invoquei, pedi, e sobre mim desceu o espírito de sabedoria”. Onde se vê que o dom da sabedoria, que pareceria diretamente e antes de tudo ligado à inteligência das coisa mais altas, aparece-me aqui, antes de tudo e diretamente ligado a um ato de vontade, ato de amor, opção primeira e decisiva da alma. Daí, desse vértice supremo, o dom do dons comandará todos os outros que harpejam as cordas da alma agraciada: dom da inteligência para a mais espontânea e fulmíneo entendimento da palavra de Deus, o dom da esperança, para avivar o gosto das promessas e adestrar a alma no desapego das coisas deste mundo, e lembrar vivamente que “o meu Reino não é deste mundo”, o dom da ciência ligado à Fé e à Esperança que realça o tudo de Deus contra o nada da criatura; e os demais que contemplam a obra do Espírito que em nós opera. O dom dos dons que o termo do livro santo, optavi, prende diretamente à vontade, é aquele mesmo a que se refere Jesus, quando disse que Maria escolheu a melhor parte. Se no frontão de todos os conventos ou na porta de todos os religiosos devêssemos escrever uma só palavra, creio que nenhuma mais seria mais própria do que esta: OPTAVI. #GustavoCorção

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