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  • Doutrina monástica

    A DOUTRINA MONÁSTICA DE DOM ROMAIN BANQUET FUNDADOR E PRIMEIRO ABADE DE EN-CALCAT Tradução do original francês. ÍNDICE INTRODUÇÃO CAPÍTULO I: A herança do Pe. Muard 1. O DIÁRIO DE DOM ROMAIN 2. NOTAS DE MADEMOISELLE MARIE CRONIER TESTAMENTO DE DOM ROMAIN CAPÍTULO II: A família monástica 1. – O ESTADO MONÁSTICO 2. – A REGRA 3. – O ABADE 4. – A COMUNIDADE 5. – O NOVICIADO 6. – OS VOTOS 1. Estabilidade 2. Conversão de Costumes 3. Obediência 4. Pobreza 5. Castidade CAPÍTULO III: A vida monástica 1. – O OPUS DEI A .  A salmodia B.  O canto C.  As cerimônias D.  O ofício da noite E.  Pensamentos esparsos 2. – A ORAÇÃO 3. – A LEITURA A.  Sagrada Escritura B.  Evangelho C.  Documentos da Santa Sé D.  Santo Tomás E.  Estudos 4. – O TRABALHO MANUAL 5. – A ESCOLA MONÁSTICA 6. – AS MISSÕES 7. – O REFEITÓRIO 8. – A CELA CAPÍTULO IV: O espírito monástico 1. – ESPÍRITO DE HUMILDADE 2. – ESPÍRITO INTERIOR Espírito de silêncio 3. – ESPÍRITO DE IMOLAÇÃO 4. – ESPÍRITO DE POBREZA 5. – O SAGRADO CORAÇÃO Conforme o decreto de Urbano VIII, declaramos que, se no curso desta obra, damos a certas pessoas o título de santo ou falamos de revelações, não é de nenhum modo querendo nos antecipar às decisões da Santa Igreja, à qual nos submetemos inteiramente. INTRODUÇÃO ÍNDICE A maior parte das pessoas que conheceram Dom Romain Banquet vêem nele um homem de Deus. As almas que se confiaram a ele aprenderam, escutando-o ou simplesmente olhando-o, o que é a autoridade sacerdotal. Ele falava, decidia, dirigia “tanquam auctoritatem habens”, como um homem que acredita na autoridade que recebeu de Deus e que faz uso dela segundo a necessidade das almas. Tudo, nas suas maneiras, tinha o caráter real da autoridade divina. Não era alto, mas sua dignidade se impunha. Sentia-se estar diante de uma alma elevada, forte e simples como um bloco de cristal. Nada o interessava fora de Deus. Quando a conversa se desviava para outro assunto, ele não escutava mais. Procurava somente a Deus. Achava-se que ele não teria lido nenhum livro por curiosidade nem por lazer. Ele parecia feito para agir, para combater, para construir e governar. Não se atrapalhava com sutilezas, análises ou cálculos. Ia direto a Deus. Para isso ele tinha necessidade de alguns princípios indiscutíveis. A Revelação, a Igreja, a Regra de São Bento lhos ofereciam. Ele discerniu os que são essenciais e apegou-se a eles  duma maneira absoluta. Qualquer que fosse o problema que se apresentasse, num rápido olhar, ele captava a relação deste com o princípio e decidia. Nenhuma incerteza dividia o seu espírito. Sua ação era rápida, contínua, irresistível. Nas suas cartas e nos textos de suas conferências para as monjas de Santa Escolástica de Dourgne, que foram piedosamente guardados, a apresentação da doutrina parece dominada pela afirmação desses princípios. É um chefe que ensina em vista da ação. Não faz demonstrações. Ele dá palavras de ordem, encontra expressões concisas, ardentes, inesperadas, que tocam o espírito, comunicam suas convicções e inflamam o coração. O sucesso da obra de Dom Romain prova a eficácia desse ensinamento. A comunidade de En-Calcat tinha somente treze anos quando foi expulsa de seu mosteiro. Depois de vários anos de exílio na Espanha, ela recomeçava a prosperar em Besalu, quando a guerra de 1914 disseminou seus monges pelos campos de batalha. Dez deles foram mortos. Essas provações não aniquilaram a fundação de Dom Romain. A comunidade, por humilde e fraca que fosse, sabia bem o que queria, a que aspirava e com que meios podia atingir o seu fim. Qualquer coisa que acontecesse, não havia hesitação nenhuma, nem divisão. Ela tinha unidade pela sua concepção da vida monástica, pelos princípios muito simples, práticos e elevados sobre os quais seu fundador a tinha solidamente estabelecido. Em todas as circunstâncias, ficou  inabalável. O ensinamento de Dom Romain Banquet foi comprovado. Encontrar-se-ão nas páginas seguintes esses princípios, recolhidos de conferências, cartas e de alguns escritos, tais como ele os ensinava a seus filhos. Esses fragmentos inigualáveis datam, os mais antigos, de 1883 e os mais recentes de dezembro de 1928. Algumas perguntas e reflexões que foram inseridas nos diversos textos, a fim de lhes dar uma unidade, formam com eles uma espécie de diálogo A DOUTRINA MONÁSTICA DE DOM ROMAIN BANQUET CAPÍTULO I: A herança do Pe. Muard ÍNDICE Para conhecer os projetos de Dom Romain Banquet quando, em 27 de fevereiro de 1890, ele abençoava a primeira pedra da abadia de São Bento de En-Calcat, basta consultar sua correspondência e, em seguida, as conferências nas quais ele expôs suas idéias. As folhas já envelhecidas guardam intactas suas palavras, o torneado de suas frases, suas expressões; e tudo parece ganhar vida novamente. Escutamos sua voz, revemos seus gestos, ele está aqui, de pé, diante de nós, seus olhos azuis fitando os nossos. Nos fala com a autoridade de um chefe e de um pai. À  pergunta que lhe fizemos: “Fundando En-Calcat, o senhor tinha um plano bem preciso, bem definido? Qual era sua idéia?” Ele respondeu: “Fazer uma verdadeira casa do Pe. Muard.” O Pe. Muard era um sacerdote da diocese de Sens que, depois de ter sido pároco de Joux-la-Ville e de Saint-Martin-d’Avallon, fundou uma sociedade de missionários diocesanos em Pontigny, e depois, em 1850, o mosteiro beneditino de “La Pierre-qui-Vire”. Ele faleceu em 1854. “Cheguei a La Pierre-qui-Vire nove anos após a sua morte. Respirei com toda a minha alma o perfume vitorioso de santidade que o servo de Deus tinha deixado nesse deserto. O Padre Muard tornou-se o ideal da minha vida interior.” “É o São Bento do século XIX. A caraterística de sua santidade é, ao mesmo tempo, a caraterística mais direta, mais larga e mais segura de toda santidade cristã: o amor divino. Basta olhar os detalhes da sua existência para chegar a essa conclusão. É a caraterística de todas as fases da sua vida. Seu desejo ardente do martírio desde criança, que o acompanha durante sua adolescência, sua juventude, no seminário maior e durante seu ministério sacerdotal, o revela… seu desejo das missões estrangeiras e, depois, o sacrifício total feito a Deus de todas as suas aspirações para fundar, primeiro, a Congregação dos Missionários de Pontigny e, por fim, o mosteiro beneditino de “La-Pierre-qui-Vire”… Enfim, ele morre consumido pelo amor de Deus.” “Esta santidade está acompanhada de sinais que afastam qualquer equívoco: a imolação constante de si mesmo, a engenhosidade dos seus sacrifícios  pelas almas e por Deus. Ele só pensa no seu próximo e no seu Deus.” “A grandeza do seu amor por Deus faz pressentir a pureza da sua vida: É uma vida angélica do começo ao fim. Todos diziam: – É um santo! É um pequeno santo! Um santo padre! O santo pároco! O santo missionário! Conheci padres que viveram com ele no seminário maior de Auxerre e que declaravam: “É um santo, da santidade mais autêntica.” Esta característica de santidade foi notada por todos os que se aproximaram dele. Ele comunicava o seu amor. Não era possível aproximar-se dele sem se deixar levar por esse amor. Contava com igual prestígio entre as comunidades que o ouviam e entre seus discípulos. O soberano pontífice Pio IX ficou impressionado pela irradiação daquela santidade e, no entanto,  o Pe. Muard se apresentou em trajes mais que modestos diante do Santo Padre; muito pobre, miserável, um pouco como São Bento Labre. Assim foi recebido em audiência em Gaeta.” Como ele se tornou beneditino? – O Pe. Muard tinha o espírito de São Bento antes de chegar a São Bento, de tal maneira que assim que travou conhecimento com a Regra, pensou: “Eis o que Deus me pede”. “Um dia estava andando e rezando, de repente Deus mostrou-lhe o plano da ordem religiosa que seria preciso estabelecer: uma ordem penitente, pobre, retirada na solidão, consagrada sobretudo à oração a fim de tornar o apostolado mais eficaz. Ele viu essa ordem dividida em categorias, umas  dedicadas à oração e ao estudo, outras mais aplicadas ao trabalho manual, de tal maneira que a comunidade pudesse ser auto-suficiente. Era a visão da ordem monástica tal como ela era no início. Não havia então diferença entre os irmãos conversos e os religiosos de coro. Ao mesmo tempo, o Pe. Muard sentia um impulso irresistível no sentido de que devia fazer aquilo, que devia estabelecer uma família monástica daquele tipo. Deus assim o queria.” “O Pe. Muard dirigia nesse tempo uma fundação de missionários que acabava de estabelecer em Pontigny. Ele rezou, resistiu e dizia a si próprio: “Não, isso é impossível, é uma loucura!” Ele fez retiros, consultou os homens mais distintos que conhecia, entre eles o Pe. de Ravignan e o Pe. Lacordaire, o abade da Trapa de Sept-Fonts e, ainda, seus diretores. Fez um retiro após outro. Quanto mais ele pensava e rezava, mais sentia que devia por mãos à obra. Mas nenhuma regra lhe foi apresentada com precisão, e sua intenção era de  não compor, ele próprio, nenhuma: “É preciso que eu escolha entre as regras antigas “, dizia consigo mesmo.” “Ele tinha pedido, como sinal da vontade de Deus, dois companheiros: um padre e um leigo. Um dia  ele se achava no seminário maior de Sens onde, através de um grande portão, via-se até o fundo do jardim. Um jovem diácono passava pela ala central. O Pe. Muard disse ao padre que o acompanhava: “Ah! Aí está o meu sacerdote!” Nunca o havia visto antes. O jovem diácono queria ser religioso. Ele fora suplicar ao padre que o levasse consigo: este o aceitou e lhe disse: “Está bem.” “Estava passando um outro dia na rua duma aldeia. Encontra um carpinteiro  no seu caminho. A conversa começa, e o padre lhe diz: “O senhor irá comigo. – Sim, senhor.” E o irmão Mauro se entendeu com sua família, deixou seu trabalho, tudo, e foi para Pontigny. O Pe. Muard já tinha seu programa definido. Ele sabia que naquele momento não poderia deixar Pontigny. Ninguém sabia de nada. O irmão Mauro pensava em entrar lá, mas o padre lhe disse: “Não, não é para aqui. Se quiser, é outra coisa. – Quero o que o senhor quiser.” E adotaram um regime de vida nada fácil, a fim de se prepararem para partir para a Itália.” “O Pe. Muard compreendeu que devia ir a Roma, onde as tradições religiosas estavam mais bem conservadas. Estava com seus companheiros. Eis como lhes impôs suas condições: “Meus irmãos, vamos fazer a vontade de Deus. Se quiserem saber aonde estamos indo, não sei dizer. A Roma, mas muito pobremente. O que faremos? Não sei de nada. Como voltaremos? Sei menos ainda. Se não têm coragem de ir, não vão. Irei sozinho.” É realmente a maneira  de proceder dos grandes fundadores.” “Partem então a pé até Ars. Ali se detêm para consultar o cura d’Ars, que lhes diz: “Oh! Sim! É a vontade de Deus. Deus o quer certamente. É a vontade de Deus.” O irmão Bento se aproxima e o cura d’Ars, com sua voz fraca, lhe diz: “Vá, meu filho, siga-o. Deus os cumulará de graças. É a vontade de Deus.” “A iniciativa pessoal do Pe. Muard o levava para a Regra de São Francisco de Assis, porque ele amava a pobreza. Mas, em Roma, os franciscanos o mandaram embora, contrariamente ao costume deles. Tomaram-no por louco. Todos os franciscanos o puseram para fora: tratavam-no como a um aventureiro. E cada vez que era despedido, ele entrava na primeira igreja que encontrava e dizia: “Te Deum laudamus.” “Um dia no Vaticano, um arquiteto francês lhe indica Subiaco. O abade o recebe como um enviado do céu. Vendo-o, aquele beneditino, de espírito largo porém preciso, inclina-se diante do Pe. Muard, cheio de veneração e considera a vinda dele como um dom de Deus. Ele se tornou o diretor do Pe. Muard. Foi, pois, a um beneditino da velha cepa que Deus o dirigiu.” “Nosso Pe. Muard tomou a Regra de São Bento, porque Deus a pôs na sua mão. Ele a leu. Ele não a conhecia ou a conhecia duma maneira confusa, e à medida em que ia lendo ele se dizia: “É isso. Eis o que Deus quer.” “Fez uma apresentação completa de tudo o que desejava a Pio IX e este lhe disse as seguintes palavras: “Vá, meu filho, faça tudo isso. Mas não acabe com o “irmão asno”[1]. Depois, quando voltar, acertaremos tudo. Faça isso.” Pio IX tinha sido conquistado por seus argumentos e sua santidade.” “No começo não havia nada em La Pierre-qui-Vire. A característica marcante, a mais incontestável era, sem dúvida alguma, o sobrenatural. Havia unicamente o sobrenatural, nada de humano.” “O Pe. Muard não é um gênio. Seus primeiros discípulos eram  simplesmente  pessoas de bem. Nenhum deles fez qualquer descoberta notável. Se alguém era despretensioso era  o próprio Pe. Muard. “Não sou fundador.” – Quais são seus últimos desejos? perguntavam-lhe seus discípulos. – “Não sou fundador, repetia: O fundador é o Sagrado Coração.” “Quanto aos recursos: nada! Foi dado ao Pe. Muard o essencial para construir uma casa.  A primeira construção de La Pierre-qui-Vire? Um casebre. Seus filhos precisavam de um alojamento e havia somente troncos no chão. Fizeram um barracão de madeira e palha. Uma parte servia de capela. A casa tinha de quinze a dezesseis metros de comprimento. A capela ficava na extremidade. Um cômodo servia de refeitório e de sala de conferência. Do outro lado, estava a cozinha. Uma espécie de sótão servia de dormitório para o irmão Mauro, que dormia na palha. O Pe. Muard dormia sobre a bancada de ferramentas. Viveram lá de 2 de julho até o mês de outubro de 1850.” “Edificaram com suas próprias mãos seu mosteiro, e não é brincadeira construir em La Pierre-qui-Vire. Era necessário retirar rochedos e aplainar os terrenos íngremes. O Pe. Muard havia profeticamente marcado com seu bastão o lugar que Deus queria. No lugar exato marcado por ele se acha hoje o altar-mor da grande igreja de La Pierre-qui-Vire. Conservamos aquele projeto a fim de obedecer à vontade de nosso santo fundador.” “Eles tinham somente as pequenas coisas que lhes eram dadas. Um dia sobravam dois tostões. Passa um pobre. Ficaram encantados em oferecer-lhe sua moeda de dois tostões. Acharam que sua fortuna estava completa. Tinham tudo o que era necessário para dizer missa: tinham um cálice, que foi usado por nós durante muito tempo: a copa de prata dourada, o pé de cobre dourado. O vestuário não era nada opulento. Um só hábito de reserva para todo mundo. Quando era preciso consertar algum, aquele hábito deveria servir para todos os tamanhos. Para alguns, ele era demasiadamente comprido; para outros, demasiadamente curto. Os hábitos eram lavados e costurados no mosteiro. Isso se fazia como se podia sem recorrer a ninguém de fora. Irmão Mauro era homem que sabia fazer de tudo.” “As pessoas da redondeza eram camponeses. Eles traziam legumes, nabos e couves. Não era difícil cozinhar: para a sopa, punha-se água e sal numa panela, e ali se colocavam os legumes nesse caldo, e mergulhava-se o pão. Uma vez a sopa foi feita com maçãs silvestres.” “Assim viveu aquela santa gente! E os mais fortes ainda pregavam missões!” “Havia pessoas que vinham a La Pierre-qui-Vire. Montalambert, que ficava na vizinhança, no castelo de La Roche, era um admirador e um amigo dos beneditinos de La Pierre-qui-Vire. Monsenhor Dupanloup também. Vi os dois lá. Os castelões dos arredores vinham também. O espetáculo que tinham diante dos olhos os transportava a séculos passados. Deus queria que as coisas fossem assim ao começo de La Pierre-qui-Vire. Sem dúvida eles ficaram profundamente edificados.” Esses começos tão pobres e tão austeros foram conformes à Regra de São Bento? – “O Pe. Muard começou como nosso Pai São Bento, como São Bernardo, como todos os grandes fundadores.” “O Pe. Muard não inovou nada em relação à Regra, não fez nada mais que São Bernardo, que São Bernardo Ptolomeu, nada mais que os santos que adotaram a Regra de Nosso Pai São Bento e que se serviram dela com um fim determinado. Tomou a Regra tal como ela é e, por causa de sua preocupação com a penitência e a austeridade, quis praticá-la, na medida do possível, no seu rigor primitivo.” “Estabeleceu um horário de levantar noturno que permitia  não se deitar novamente. Fazendo isso não inovava nada, pois a ordem de Cister praticou assim o horário noturno. Levantava-se às três horas, deitava-se às oito horas. Ele era discreto tanto quanto podia, tendo em vista os desígnios de Deus. Deus lhe pedia penitências pelas almas e pelos crimes que se cometem. Adotou a média de sono da Trapa. Os trapistas têm sete horas de sono contínuo durante o inverno. No verão, eles se deitam às oito horas e se levantam às duas horas da madrugada. O Pe. Muard havia estabelecido levantar às três horas.” “Ele abrandou o jejum, pois em seu regulamento havia uma colação todas as noites. É mais brando que nos trapistas que tinham uma refeição de vinte e quatro em vinte e quatro horas, às duas horas da tarde, desde o dia 14 de setembro até o começo da Quaresma; e durante a Quaresma, às dezesseis horas. Nosso Pe. Muard coloca a refeição ao meio dia, a colação à noite sempre, e quando alguém estava com fome de manhã, comia um pedaço de pão e tomava uma sopa leve. Era uma mitigação. Dever-se-ia seguir o jejum em qualquer parte, no mosteiro ou enviado em Missão.” “A respeito da abstinência, Nosso Pai São Bento não exclui nenhum alimento, a não ser a carne de quadrúpedes. O Pe. Muard queria que se fizesse abstinência de tudo a não ser de pão, de ovos, de sal, de frutas, de legumes. Onde ele punha discrição era em conceder mitigações. O pão dá muita energia e se comia muito pão.” “O Pe. Muard estabeleceu o apostolado. Realmente quem acha espantoso ver os beneditinos pregarem, está fechando os olhos para os sete primeiros séculos de nossa ordem. O monge sacerdote fica à disposição para fazer apostolado se a Igreja lho pedir. Ora, quando o Pe. Muard estabeleceu a Regra, a necessidade de missões era mais importante que nunca. Ele não inovou realmente nada.” “De resto, não excluía nada. Quando perguntavam-lhe: “Mas o que é que o senhor fará? – Todas as obras que podem servir a Deus e à Igreja, exceto as que sejam incompatíveis com a Regra de São Bento.” Falando assim, ele resumia os séculos mais fervorosos de nossa ordem.” “Ele estabeleceu um silêncio perpétuo. Inovação? De maneira alguma. Ele tomou a Regra palavra por palavra. Alguns vão dizer: mas e Cluny? Cluny não é o primeiro modelo da Regra. Os cistercienses adotaram o silêncio perpétuo. Os cartuxos o praticaram durante muito tempo. Agora, por razões sábias, a Santa Igreja lhes impôs momentos de recreação. Em La Pierre-qui-Vire tínhamos os sinais monásticos, e posso lhes dizer que o silêncio não é uma privação. Tive a felicidade, durante quatro anos, de não ter de me acusar de  uma só palavra contra o silêncio. Eram raras as acusações de faltas contra o silêncio. Éramos fustigados em público. Jogava-se uma disciplina para o culpado, um círculo se formava, ele apanhava a disciplina e se batia com ela. É um erro deixar cair essa sanção em desuso. Agora temos o silêncio, mas não perpétuo. O silêncio não era um constrangimento, ele dava uma grande facilidade para o trabalho intelectual.” “A pobreza! Gostaria de saber em que estilo Nosso Pai São Bento construía os mosteiros. Não se pareciam certamente com a torre de Babel. Vê-se que a mais austera pobreza presidiu o nascimento da Ordem de São Bento. Houve dias em que os monges não tinham absolutamente nada para comer. Ia-se ao refeitório, dizia-se o “Benedicite”, o celeireiro não tinha nada para dar aos irmãos, São Bento os consolava, e, milagrosamente, Deus mandava víveres. Isso mostra uma pobreza extrema. E ainda reprovaram o Pe. Muard por causa de sua pobreza: “É um exagerado! Vejam como é ridículo!” “O Pe. Muard foi onde Deus o guiou. Não se guiou a si mesmo. Não fez uma obra humana. Não é uma nuance da Ordem de São Bento que ele quis estabelecer.” “Quanto ao trabalho manual, havia, e era feito com seriedade. Durante as férias, a tradição era de deixar a pele das mãos no cabo das picaretas. Era necessário trabalhar seriamente, pois o solo era granítico. Tínhamos picaretas com pontas terríveis. e mesmo assim com uma forte pancada, arrancávamos pedaços bem pequenos. Honrar o trabalho manual não é inovar. É a Regra.” O Pe. Muard tinha o espírito beneditino? “Tinha o espírito de São Bento. Praticou, num grau heróico, todas as virtudes que nosso bem-aventurado Pai ensina na sua Regra. Como o espírito beneditino consiste nisso, ninguém, neste século, demonstrou duma maneira mais viva e mais evidente o que é um filho de São Bento. É difícil  definir o espírito do Patriarca dos monges. Lemos que São Bento era cheio do espírito de todos os justos: “Omnium justorum spiritu plenus fuit”. O espírito de todos os justos pode-se definir assim: uma adesão total, permanente à vontade divina. São Bento simplesmente recebeu ordens do Céu e as cumpriu. Nosso Pe. Muard simplesmente recebeu ordens do Céu e as cumpriu. Sabem onde encontro a exata definição do espírito do Pe. Muard? No texto do prefácio de Nosso Pai São Bento. “Ducem et magistrum coelitus edoctum”[2]. É a característica deste grande beneditino: receber, experimentar, fazer controlar pela Igreja e executar as ordens do Céu.” “O Pe. Muard faz parte dos maiores beneditinos do século XIX. De todos os beneditinos contemporâneos, é um dos maiores santos, um dos mais autênticos enviados de Deus, um dos mais semelhantes a São Bento, o patriarca dos monges. E entre os restauradores da Regra, um dos mais ousados e completos.” “Olhando para trás, até as origens de nossa ordem, encontro a santidade brilhando sozinha com seu mais forte brilho na pessoa de nosso glorioso Pai, de Santa Escolástica e dos seus primeiros filhos. Mais tarde, a ordem brilhou por sua ciência, seu poder e suas riquezas, mas foi também por essas coisas secundárias que ela pereceu, quando os monges deram a elas uma importância dominante e relegaram a santidade ao segundo plano. Sendo essa consideração histórica inexpugnável, quem não vê logo a gloriosa semelhança entre nosso Pe. Muard e nosso Pai São Bento, entre as origens da ordem e as de La Pierre-qui-Vire?” Foi o Pe. Muard quem atraiu o senhor a La Pierre-qui-Vire? – “Foi unicamente a fama da sua santidade que me fez ultrapassar os obstáculos que estavam diante de mim e que tornavam moralmente impossível minha entrada em La Pierre-qui-Vire.” Sem ele o senhor não se tornaria beneditino? – “Entrei na ordem de São Bento, porque os seus exemplos me encantaram.” – O senhor, portanto, só pôde conceber sua fundação de En-Calcat  segundo o espírito do Pe. Muard. – “Devemos fazer de nosso Mosteiro de São Bento de En-Calcat uma verdadeira casa do Pe. Muard, que traz a sua marca e a sua efígie e vive de seu espírito e de suas idéias, modificando no entanto quanto ao exterior, alguns pontos da observância que ele mesmo teria modificado.” Dois documentos nos fazem conhecer a origem desse pensamento de Dom Romain: 1. uma página de seu diário íntimo. 2. uma nota manuscrita de Mademoiselle Marie Cronier, uma jovem favorecida por graças extraordinárias e que Dom Romain dirigia desde 1877. 1. O DIÁRIO DE DOM ROMAIN 23 – 31 de janeiro de 1883 ÍNDICE “Marie começou no dia 28 a ouvir da boca do Mestre bem-amado instruções relativas ao futuro, muito claras e precisas.” “No dia 29 de manhã, na santa comunhão, elas se tornaram mais claras ainda.” “No dia 29 à noite, durante uma prolongada oração, elas me foram comunicadas: “Jesus disse à sua esposa as palavras de Deus a Abraão: “Egredere de terra tua et de cognatione tua et de domo patris tui, et veni in terram quem monstravero tibi, faciamque te in gentem magnam et benedicam tibi…”[3] “Jesus quer que se retome a obra do Pe. Muard a fim de lhe dar o seu pleno e verdadeiro desenvolvimento. Jesus diz que as filhas e os filhos da sua pequena esposa e de seu pai espiritual serão numerosos, que eles terão a forma e o espírito desejados por São Bento, mas na sua unidade e simplicidade primitivas: que será necessário, de certa forma, suprimir as tradições dos séculos posteriores a Nosso Pai São Bento, fazer como se estivéssemos recebendo a Regra de sua mão, sem intermediário, retomar a obra do Pe. Muard tal como ele a explica nas suas constituições e  restabelecê-la sem nenhuma outra influência que a de Nosso Pai São Bento na sua Regra.” “Jesus faz entender que essa dupla família de filhos e filhas de São Bento e do Pe. Muard vai se constituir, dentro de alguns anos, sobre as ruínas amontoadas pelas catástrofes que nos ameaçam. O começo será muito pobre e pequeno. As duas almas, que vão ser as pedras fundamentais, terão muito que sofrer para realizar a obra do Bem-Amado.” “Jesus nos mostrou a necessidade de realizar esse projeto para reparar os ultrajes feitos à sua infinita bondade, para pôr em vigor novamente o verdadeiro e primitivo espírito monástico livre das misturas modernas, para reservar para si almas escolhidas nas quais ele poderá encontrar suas delícias.” 2. NOTAS DE MADEMOISELLE MARIE CRONIER Colóquios de Jesus a respeito da Obra ÍNDICE Santa Catarina, 25 de novembro de 1883. “Durante a ação de graças, Jesus me falou acerca de pensamentos próprios ao Prefácio das Constituições das Beneditinas do Sagrado Coração de Jesus e do Imaculado Coração de Maria, das filhas do Pe. Muard e, sobretudo, tendo como título no seu Coração “suas esposas bem-amadas”, pois começando essa espécie de ditado para a introdução de nossas Constituições, Ele disse: “Jesus às suas esposas bem-amadas.” “Lembrando-me de seus diferentes apelos à Obra, Ele os mostrou a mim numa só luz, depois, de novo, Ele me repetiu as memoráveis palavras do dia 29 de janeiro: “Sai do teu país e da casa do teu pai e vem para a terra que te mostrarei, edifica-me uma morada espiritual, dá-me almas que se multiplicarão e se tornarão uma raça escolhida, um povo de eleitos.”[4] “O que Ele quer, acrescentou, é um jardim fechado, isto é, uma comunidade de almas interiores, de almas generosas que renovem e lembrem o fervor das primeiras virgens da Igreja.  Queixou-se dolorosamente, tristemente de não ser amado e, do mesmo modo que nos primeiros tempos, no meio da corrupção geral, chamou Noé, mandando-lhe construir a arca para abrigar-se nela com a sua família, assim, neste século de iniqüidade, Ele, o Deus forte e poderoso, sente a necessidade de ordenar uma arca espiritual que será sua própria morada, onde Ele virá se consolar, onde na terra as almas esforçar-se-ão por amá-Lo, servi-Lo, à maneira dos Anjos, onde, apesar das iniqüidades crescentes, haverá almas que viverão d’Ele e O servirão com toda a fidelidade que Ele delas espera, onde será o Bem-Amado, o Mestre absoluto. Esse será seu lugar escolhido, se as almas chamadas tiverem a felicidade de  entender isso e de responder a esse chamado. “Não é uma novidade, disse-me Ele, não é uma nova congregação, não são novas práticas, uma nova devoção, é um rebento das mais belas e antigas devoções da Santa Igreja, da vida religiosa em comum, da prática da vida interior, do despojamento de si mesmo para fazer viver e resplandecer Jesus Cristo, seu modelo, seu esposo, seu tesouro: é um novo elã, uma nova floração na antiga Regra de São Bento. Nenhuma inovação: a Regra, somente a  Regra. Mas estudada, amada, traduzida em ações, a fim de atingir o cume da perfeição.” “Jesus quer almas interiores. A Obra terá por finalidade única  formar almas interiores, viver em união íntima com Jesus. Ele promete derramar bênçãos escolhidas, mas Ele quer almas generosas que se apliquem à contemplação, que não regateiem, que sejam grandes e nobres na virtude, que delineiem as virtudes religiosas dos primeiros discípulos de São Bento e cuja única sede seja a santidade. “Deixando às almas uma grande liberdade e confiança, eu lhes dou por código a Regra por excelência, por meio a Oração, a vida recolhida que as ensinará a se despojarem alegremente, a serem humildes, mortificadas, a subirem de grau em grau até a união completa com Deus. Na oração, elas acharão tudo: pobreza, castidade, obediência, fidelidade, amor, sacrifícios amados. Minha via é simples. O que quero são almas. Quero-as minhas íntimas. A minha finalidade é de lhes pedir a vida interior, é de ter um edifício espiritual.” “1) Jesus quer a aplicação da Santa Regra.” “2) Que como filhas do Pe. Muard, conformemo-nos a seus pensamentos e adotemos seu plano e sua vida. Homem de oração, de prece… suas filhas devem ser particularmente fiéis à oração. Jesus quer a verdadeira santidade. Ele ma representou generosa, larga, alegre, confiante para com Ele, que é tão bom. Era muito belo. Era mesmo a verdadeira santidade.” “Já existem comunidades beneditinas, disse-me, mas Ele quer este ramo. Ele quer este pequeno jardim fechado, Ele quer este oásis de seu Coração. Ele me disse que se uma só alma verdadeiramente fiel lhe traz muita glória, quanto mais um canteiro de Virgens fiéis. Ele me disse que ninguém pode nos impedir de nos consagrarmos totalmente a Ele e levarmos uma vida celeste.” “Ele me disse que está ansioso para ver seu desejo realizado, que está acumulando tesouros para no-los prodigalizar, que o Pai e a Mãezinha devem pôr todo o cuidado em bem formar essas almas, a fim de torná-las enérgicas e viris. Ele insiste sobre a necessidade de aumentar o fervor viril, a energia no bem, o espírito de oração e de prece, que uma só comunidade assim regrada teria grande poder junto a Deus, seria a glória de Jesus e, para essas almas bem-aventuradas, a felicidade eterna. Deve-se rezar nesta época de impiedade, e compreenderíamos como importa rezar, consagrar-se a Ele, viver para Ele, ah! se víssemos com o olhar de Jesus.” “Jesus então abençoa de novo a Obra e chama as bênçãos de seu Pai, as luzes do Espírito Santo, a fim de que ela siga o objetivo divino, que seja preservada do erro, e que se torne o santo templo no qual muitas almas virão buscar a pura santidade.” “Não traduzo bem tão admiráveis palavras. Sofri o dia inteiro pela impossibilidade em que me encontrava para traduzir a visão da manhã, sobretudo para explicar a perfeição tal como Jesus a pintou. Mas sinto que esse quadro permanecerá e que olhando-o sempre, ele me guiará e esclarecerá sem cessar. O que vejo nele sobretudo, é uma grande pureza de ação, o desapego de si mesmo, para seguir todos os conselhos da vida regular. Se isso não for bastante completo, pedirei a Jesus que me faça escrever suficientemente.” “A Obra é simples e imensa ao mesmo tempo. A Obra pede somente a santidade, mas ela a quer sem limites, de tal maneira que as almas se esforcem sem cessar para subir. A Obra não as limita, ela lhes diz: Eis o objetivo. É preciso atingi-lo. A Obra, na boca de Jesus, é bela, divina, grande, santa e abençoada.” Segundo esses dois textos, Nosso Senhor mesmo pediu que a fundação de En-Calcat e Dourgne fossem conformes às idéias do Pe. Muard e, segundo a idéia deste último, ao espírito primitivo da Regra. Ir ao Pe. Muard é ir a São Bento por um caminho direto. “O Pe. Muard tomou a Regra tal como ela era na origem, diz-nos Dom Romain. Era a volta pura e simples à Regra.” Mas a Regra de São Bento basta? Satisfaz a todas as questões? – “Há quinze séculos, as mais graves autoridades da Igreja ensinaram que a Regra, inspirada por Deus, basta-se a si própria e que não se deve subtrair nada dela, nem acrescentar nada. Na Regra há tudo o que é necessário para agradar a Deus e servir utilmente à Igreja.” “Escrita para os séculos, sob a inspiração divina, ela bastará sempre e em toda parte, com a simplicidade do seu texto ao mesmo tempo imutável e largo, universal e particular, grandioso e simples, antigo e muito atual, ascético e prático, levando ao Céu, mas esclarecendo as vias terrenas com um bom senso invencível e especial. São Bento conhece duma maneira admirável a natureza humana. Ele a toma tal como ela é, mas sem as suas fraquezas. Sua Regra convém ao século vinte como ao século quinto da Igreja, a todas as fases da vida espiritual, a todas as condições físicas e mesmo morais. A Obra dos santos não desaparece nunca.” A Regra tem suas provas, com efeito! – “Contam-se cerca de trinta e cinco papas saindo dessa milícia monástica. Quanto aos bispos , não é possível contá-los. E os mártires, os confessores da fé, os escritores! Quantos rios de ciência saíram da Ordem beneditina! Não se sabe na verdade quantos monges e monjas se puseram a imitar São Bento desde Subiaco e Monte Cassino, em todos os países do mundo. Mas pôde-se estabelecer o número de mosteiros durante a época de maior desenvolvimento da Ordem: chegaram a trinta mil!” Como disse o Pe. Muard, o autor dessa Regra foi “um dos maiores santos do qual a Igreja se honra, um dos maiores legisladores que existiu”[5] – “São Bento tem o gênio da ordem, da administração. A Igreja, adotando uma palavra de São Gregório Magno, no-lo apresenta como “cheio do espírito de todos os justos”. Segundo essa palavra, os dons de Deus, diversificados em cada um dos santos, encontram-se todos no Patriarca dos monges. Do ponto de vista histórico, é isso que explica como a Ordem Beneditina, no decorrer dos séculos, chegou a servir a Igreja através das mais variadas obras. Na seqüência da missa própria em honra de nosso bem-aventurado Pai, a Igreja o compara aos profetas, aos mais famosos personagens do Antigo Testamento. Ele pode rivalizar também com todos os santos do Novo Testamento, que encontram nele algo de si próprios.” Todos os fundadores de Ordem, que vieram depois dele, basearam-se nele? – “Todos proclamaram estar sob a proteção de São Bento e de sua Regra. Temos a ventura de possuir a Regra mais fundada na tradição, a mais aprovada pela Igreja. A Regra por excelência.” Qual foi a missão do Pe. Muard em relação à Regra de São Bento? – “Nosso Pe. Muard foi suscitado por Deus: 1) para mostrar em sua pessoa a pobreza, a humildade, a penitência, a oração e o amor a Jesus crucificado dos monges dos primeiros séculos; 2) para dar à Igreja uma família de monges beneditinos fortemente marcados pelas mesmas características e animados de um grande zelo pelo serviço da Igreja e pela salvação das almas.” Não se encontra tudo isso nos Cistercienses? – “O Espírito de Deus que conduzia o Pe. Muard também o conduziu à Trapa para lá haurir a melhor e mais autêntica maneira de praticar a Regra. Tenho, pela observância Cisterciense, o gosto e o atrativo do Pe. Muard. Ser-me-ia muito agradável se Deus me quisesse encerrar na Trapa. Que profunda solidão! Que silêncio celeste! Que salmodia grave, solene e tão piedosa!” E Solesmes? – “Em Solesmes há por toda parte uma notável característica de superioridade intelectual, de antigüidade, de sobrenatural e de toque monástico. Lá não falta a santidade. Ela se parece a São Pedro pela arquitetura. Não há luxo, mas grandeza. É um ponto de afluência e, atualmente, é a capital da ordem beneditina na França. É a glória de Deus, da Igreja e da França. Amo esta família e quero-lhe bem e muito.” – Já que o senhor gosta tanto da Trapa e de Solesmes, por que o senhor fez outra obra? – “Jesus deu-nos o seu programa, o espírito do seu Coração e seu servo o Pe. Muard. É isto o que devemos conservar, amar e querer dar aos que amamos e que tiverem confiança em nós.” Este programa foi exposto pelo Pe. Muard em suas Constituições: “Sendo a finalidade de nossa sociedade trabalhar para a glória de Deus, para a nossa santificação e a do próximo, pela humildade, pela pobreza, pela penitência e pela pregação, tomamos por princípio que nosso espírito particular seria um espírito de humildade, de pobreza, de expiação e de zelo (mas particularmente de humildade, porque o orgulho é o vício dominante de nosso século que pode-se bem chamar o século do orgulho). Ademais, pusemos nossa sociedade sob o patrocínio do Sagrado Coração de Jesus e do Imaculado Coração de Maria, porque as virtudes que devem constituir o espírito de nossa sociedade são as virtudes por excelência do Sagrado Coração de Jesus e do Coração de sua Santa Mãe.”[6] “É necessário que sejamos filhos do Pe. Muard, quanto ao espírito de uma maneira profunda, marcada, absoluta. É também necessário, que o sejamos quanto às observâncias, no que elas têm de possível para os temperamentos contemporâneos.” “Na época presente, é necessário, creio, conformar-se em estabelecer observâncias de acordo com a fraqueza dos temperamentos e, em compensação, fazer o que o Bem-Amado pede com tão vivas instâncias: orientar inteiramente as almas para a vida interior, para a união com Jesus, para as pequenas virtudes quotidianas. A imolação que Jesus pedia a nosso Pe. Muard será talvez menos aparente, mas será mais íntima e eficaz.” – São Francisco de Sales não falava diferentemente! – “Devemos amar São Francisco de Sales, porque o espírito com que ele esteve animado e que ele imprimiu tão bem à Visitação é precisamente o espírito de nossa Ordem. Seria fácil prová-lo pelo estudo da Regra e pela história de nossos primeiros santos. Dá-se muita atenção às suas austeridades, necessárias em seu tempo, para subjugar a natureza vigorosa que eles possuíam. Não se dá bastante atenção ao espírito interior e de oração dos quais eles estavam cheios.” – Mas o senhor mesmo, em sua juventude, acaso não imitou as austeridades dos antigos? – “Tive o erro de considerar demais as virtudes exteriores, não considerando as virtudes interiores  na mesma proporção.” Em suma, o senhor quer orientar os seus monges para a vida interior – “Deus, no programa do dia 29 de janeiro de 1883, pede-nos uma casa cuja característica fundamental, cujo ponto de partida e cuja força primeira sejam o espírito interior com tudo o que se lhe refere.” Mas, diminuindo as austeridades, o senhor não introduz o relaxamento? – “Quanto mais, em princípio, queremos as grandes observâncias, tanto mais, na prática, devemos e podemos impor atenuações àqueles nossos filhos que disso têm necessidade. É o próprio espírito da Regra: os princípios intactos, e as atenuações dadas com uma atenção e cuidado maternais.” Esses princípios, aos quais Dom Romain dava uma grande importância, foram-nos deixados por ele em seu testamento.– “A falta de princípios solidamente estabelecidos é um terrível obstáculo ao desenvolvimento pacífico e sério de uma comunidade.” TESTAMENTO DE DOM ROMAIN ÍNDICE Viva o Coração de Jesus! Primeira sexta-feira do mês 5 de junho de 1914. Meus filhos muito amados, Os homens da minha idade desaparecem em grande número. Só Deus conhece minha hora e meu dia. Após longas hesitações, parece-me que devo deixar algumas linhas, que, com a bênção do Sagrado Coração, poderão vos servir. I. Meu Sucessor. É de vossa honra e de vosso interesse escolhê-lo dentre vós e elegê-lo unanimemente. Chegareis a tal sem dificuldade, se vos preparardes com fé e pelas sessões preliminares que vos parecerem úteis. Sede bastante fortes para não haver necessidade de nenhuma intervenção estranha à Comunidade. Não vos lanceis nem vos percais em conjecturas. Durando o período indicado é o que tendes de melhor a fazer. Agrupada ao redor de um chefe, a Comunidade prosperará. II. O que é importante. É acima de tudo a vida cenobítica segundo a Regra, com o Opus Dei, razão de ser de nossa vocação, dando preferência à vida claustral, com apego fiel à autonomia e à estabilidade, com a constante aplicação à Escritura, à Teologia, à Patrologia, com o zelo das Observâncias, sobretudo com a profunda e suave caridade. Nossos missionários só serão abençoados na proporção em que se mantiverem monges segundo os princípios. No dia em que eles viverem mais do exterior que do interior, eles estarão em perigo. Não esqueçais que, para constituir uma Abadia, é necessário um mínimo de cinqüenta padres. Solicitude extrema pelo Noviciado e seu recrutamento e a formação dos indivíduos. Manter constantemente o Alunato e fazê-lo progredir sempre. Independentemente dos motivos de ordem geral, é em virtude da Justiça que devemos nossa assistência e nosso devotamento à Abadia de Santa Escolástica. Nosso Senhor que ama essa comunidade abençoar-nos-á proporcionalmente. Um profundo e religioso respeito, um devotamento infatigável, a dignidade sacerdotal e o desapego devem caracterizar esse ministério. A Obra Beneditina pela Igreja Padecente adquiriu direito sobre nós. Nosso Senhor a guarda e não devemos negligenciar nada para mantê-la e desenvolvê-la. III. Saídas da Comunidade. Nossos superiores não as imporão. Os que crerem dever pedi-las para ir para outros lugares são livres de o fazer. Mas é necessário não esquecer que o voto de estabilidade, que é característico da profissão beneditina, é obrigatório como os outros e que ele traz consigo graças e vantagens das quais é melhor não se despojar facilmente. IV. Fundações. Há cinqüenta anos que vejo desmoronar um grande número delas. Outras se debatem na agonia. A explicação está na maneira como estas empresas foram começadas. Meus Filhos, sede mais que prudentes nesta matéria. Dai tempo ao tempo, rezai, interrogai a vontade de Deus. Uma fundação monástica difere totalmente da fundação de um simples posto ou de uma obra. V. O Temporal. Nada de dívidas, nada de empréstimos. A pobreza sempre. Esperar na Providência. Saber suportar as privações. Fazer caridade com ordem, discrição, amplidão. VI. Ortodoxia. Exatidão severa em seguir todas as condutas e indicações da Sé Apostólica em tudo e por tudo. Tomai cuidado com a imprensa e as publicações que se multiplicam. Se se revelam em nossas fileiras espíritos dissidentes e temerários, não os sigamos. Invoco sobre cada um de vós, meus Filhos muito amados, as bênçãos do Sagrado Coração de Jesus que vos serão obtidas no instante de minha morte através do Imaculado Coração de Maria. Sua presença e assistência ser-vos-ão sensíveis. Chegando lá em cima, velarei por vós com mais poder e afeição. Ir. Romain O.S.B. Natal de 1914. Meus Filhos, tomai muito cuidado. Sede Franceses católicos. Franceses monges. Franceses em filosofia tomista. Franceses em teologia tomista. Franceses em toda a ordem intelectual, literária, artística. É o meio de servir à Igreja. CAPÍTULO II: A família monástica 1. – O ESTADO MONÁSTICO ÍNDICE Procurei como São Bento define a vida monástica. No Prólogo, ele concebe o mosteiro como “UMA ESCOLA DO SERVIÇO DO SENHOR”[7]. No primeiro capítulo,  anuncia que, “COM O AUXÍLIO DO SENHOR”, ele vai “DISPOR SOBRE O PODEROSÍSSIMO GÊNERO DOS CENOBITAS”, “ISTO É, DOS MONGES QUE MILITAM EM UM MOSTEIRO SOB UMA REGRA E UM ABADE”[8]. É esta a definição exata e completa da vida monástica? “A vida monástica é a consagração total da existência humana ao serviço solene de Deus.” Em que ela difere da vida religiosa? – “O estado religioso é o do cristão que se consagra de uma maneira exclusiva ao serviço de Deus. Ele faz profissão pública de perfeição, renuncia aos bens passageiros, desfaz-se de todos os laços da carne e faz abnegação total de si mesmo sob o jugo da obediência, em conformidade a uma regra aprovada pela Igreja.” – Como o senhor define o estado religioso? – “A profissão pública da perfeição cristã…” “Que mais ainda é o estado religioso? Uma participação da Cruz e dos sofrimentos de Nosso Senhor. – São Bento escreve, com efeito, no Prólogo da Regra: “DE MODO QUE, PERSEVERANDO NO MOSTEIRO ATÉ A MORTE, PARTICIPEMOS, PELA PACIÊNCIA, DOS SOFRIMENTOS DO CRISTO A FIM DE TAMBÉM MERECERMOS SER CO-HERDEIROS DE SEU REINO.” – No serviço de Deus é necessário ser bravo e não aspirar ao repouso.” “Por sua natureza, o estado religioso é um estado de conversão. “NOVITER VENIENS AD CONVERSIONEM.”[9] Parece-me que esta definição é a mais exata. É necessário cada dia recomeçar o trabalho de nossa conversão.” – Esta idéia de obrigação ao progresso está contida na palavra “ESCOLA” escolhida por São Bento para designar o mosteiro: “ESCOLA DO SERVIÇO DO SENHOR”[10] – “DOMINICI SERVITII SCHOLA.” Poderíamos traduzir sem temeridade por esta outra palavra: “Dominici schola amoris”, escola do amor de Deus. É isso o que o glorioso Patriarca quis dizer. Ele explica isso no começo e no fim do capítulo sétimo, quando faz brilhar acima do décimo segundo grau de humildade o esplendor “DAQUELE AMOR QUE, QUANDO PERFEITO, AFASTA TODO TEMOR”[11] –  Logo, somos religiosos para aprender a amar a Deus. “O fundo íntimo do estado religioso é a prática contínua e mais perfeita possível do primeiro mandamento: “Adorar a Deus e amá-Lo de todo coração.” Nisto o estado monástico não se distingue do estado religioso. – “A vida monástica é o exercício contínuo, pleno e inteiro do estado religioso.” No entanto, a vida monástica acrescenta algo às condições da vida religiosa. – “Ela acrescenta a separação do mundo, a reclusão voluntária no claustro, o ofício divino de noite e de dia, o silêncio, a penitência, uma dependência que envolve todos os detalhes e, enfim, a estabilidade sob um mesmo superior num mesmo mosteiro.” – Sobretudo a clausura e a estabilidade: “A OFICINA” onde o monge deve exercitar-se é, diz-nos São Bento, “O CLAUSTRO DO MOSTEIRO ASSIM COMO A ESTABILIDADE NA COMUNIDADE.”[12] “A vida monástica é o campo entrincheirado, como que a fortaleza inexpugnável do estado religioso.” 2. – A REGRA ÍNDICE “A maior necessidade de uma alma consagrada a Deus é a de ser governada. O monge milita sob uma Regra, lei escrita, e sob um Abade, lei viva.” “A Regra de São Bento… “Haec est via”, é o caminho pelo qual Nosso Pai São Bento entrou no céu, o caminho pelo qual devemos aí chegar também e que nos oferece a maior segurança.” “O texto da Regra não é o texto de um livro qualquer, é o programa de perfeição que devemos realizar; é o programa de Deus. É o verdadeiro programa do amor que devemos a Nosso Senhor. É o código dos direitos de Deus e de nossos deveres.” Este código é suficientemente detalhado? – “A Regra trata de nossa vida de modo detalhado. Desafio qualquer um a descobrir no dia beneditino um quarto de hora que não esteja em comunicação, em união com a Regra. Nosso Pai São Bento não deixou nada de lado, nem mesmo as coisas mais transitórias! A refeição? Pensa que ele a esquece? De maneira alguma! Ele lhe fixa a hora, a disposição. Ele fixa o acordar, o deitar, o trabalho, o que ele chama de leitura e que é em realidade a meditação da Sagrada Escritura. Ele não esquece nada. Quando aparecermos diante de Deus, seremos indesculpáveis, porque não há nenhum detalhe de nossa vida que não esteja previsto na Regra, sobre o qual a Regra passe em silêncio. Todos os assuntos que possam ocorrer a nosso espírito, que interessem à salvação, à santificação de nossa alma, são tratados na Regra, e de modo admirável. Não há um minuto no dia que possa escapar à Regra.” “Trate-a com respeito. Diga a si mesmo: Serei julgado por esta Regra. Convém que me esforce por praticá-la. É necessário que eu seja uma alma de Regra. A Regra será a medida com a qual serei medido no juízo final.” “A Regra, para um filho de São Bento, é, então, preferível mesmo à Bíblia.” Por quê? “O código monástico é para ele a explicação da Sagrada Escritura.” Qual a finalidade da Regra? “São Bento, sua Regra e sua Ordem estão na Igreja  para formar verdadeiros adoradores de Deus. Todos os detalhes de nossa vida monástica a isso se referem como a um fim dominante e único. Esta visão é a única que pode explicar toda a Regra em seu conjunto, em seus detalhes e sobretudo em seu espírito.” “O cume da Regra é o amor perfeito.” Como ela nos conduz até aí? “São Bento começa-o desde o Prólogo: “APRESSAI-VOS, CORREI, diz ele, NÃO TENDES TEMPO A PERDER.”[13] Não se trata de dissertar, de discorrer, de apreciar, de saborear, mas de combater e de marchar. É necessário marcar cada etapa do caminho por vitórias, por obras positivas. Seu estilo eminentemente marcial denota quanto o espírito dos Cecilii, seus ancestrais, havia passado para ele. Essa maneira ardente e guerreira de nos mostrar a virtude prova também que para ele a santidade consiste não em sentimentos, não em palavras, não em projetos, mas somente em atos, sempre em atos. Aí não há lugar para a fantasia. São Bento põe em destaque a ação, a ação militante aplicada ao trabalho que é ao mesmo tempo o mais necessário, o mais decisivo e o mais custoso: o trabalho contra o eu humano, contra a vontade e o julgamento próprios. “A TI, AGORA, QUEM QUER QUE SEJAS QUE, RENUNCIANDO ÀS PRÓPRIAS VONTADES… QUERES MILITAR SOB O CRISTO SENHOR…”[14] “A Regra, eis a verdadeira Paixão do religioso, o verdadeiro martírio do religioso. Porque o martírio não é uma improvisação, exceto em certas circunstâncias particulares. O martírio é a doação total de si mesmo, de modo algum segundo a vontade do homem, mas segundo o programa de Deus: esse programa, Ele o consignou para nós na Regra de São Bento. A Regra pode pois ser para nós um martírio, não uma Paixão exuberante, mas uma Paixão silenciosa, modesta, muito ignorada, quotidiana, pela prática de virtudes obscuras, da humildade que consiste sobretudo em se apagar para deixar a Deus toda a glória.” Ela nos mantém na humildade. “A Regra bem compreendida é um remédio contra o germe de loucura que todos os homem herdaram de Adão e Eva. O capítulo sétimo com seus doze graus de humildade, torna o espírito sadio e o põe em equilíbrio. Põe-se a cabeça no lugar submetendo-a a esse jugo abençoado da humildade obediente e da obediência verdadeiramente humilde, que nos faz abdicar do juízo próprio para acatar em tudo o dos superiores.” Esse equilíbrio favorece nossos dons naturais… “Eles adquirem todo seu valor e todo seu poder. A Regra de São Bento, em sua simplicidade, fez germinar os talentos mais variados. O homem, sob a Regra, torna-se verdadeiramente “um homem”. Posso dizê-lo após uma tão longa experiência: a Regra possui, mais do que qualquer outro sistema, o segredo de formar homens, “viros”. Ela forma o caráter, dá equilíbrio e energia sob a orientação da graça, forja homens que são verdadeiros homens.” A Regra torna o homem apto para todas as obras. “Quando compreendida e praticada em toda sua extensão, ela forma verdadeiros soldados de Cristo, aptos a auxiliar a Igreja e as almas, através de todo tipo de ministério e obras, capazes de prosseguir o trabalho de sua santificação pessoal em meio aos trabalhos do apostolado.” De onde ela tira essa maravilhosa eficácia? “Nenhuma Regra apresenta o Código da doutrina cristã como a de São Bento: é o livro mais simples e, ao mesmo tempo, o mais importante. Sua superioridade vem de que é toda orientada para a santidade, através dos meios mais diretos e infalíveis. A Regra de São Bento é essencialmente um código de santidade.” 3. – O ABADE ÍNDICE São Bento escreveu em sua Regra: “CRÊ-SE QUE O ABADE OCUPA NO MOSTEIRO O LUGAR DE CRISTO, POIS QUE SE LHE DÁ SEU NOME: “ABBA”, QUER DIZER PAI.”[15] No pensamento de nosso Santo Legislador, o chefe da comunidade representa a divina paternidade do  Cristo Senhor e é investido dela. Os monges devem pois ver em seu Abade a realeza, o sacerdócio e a paternidade pastoral do Filho de Deus.” Quão grande é o Abade aos olhos da fé! “A autoridade é Deus.” “Numa época e num país em que o princípio da autoridade está completamente abalado e quase derrubado, devemos a todo preço elevá-la entre nós e considerá-la, segundo a doutrina de nossos Padres e da Igreja, como a base mais indispensável e mais sagrada de nossa ordem social e de nossa santificação pessoal. Eis um princípio no qual não se toca jamais impunemente. Se a autoridade é abalada, por qualquer motivo que seja, a comunidade é abalada. O princípio da autoridade é fundamental.” É necessário então habituar-se a ver Deus em seus superiores. “Os superiores são o sacramento da autoridade de Deus. Deve-se considerar a autoridade como o Santíssimo Sacramento:  “Fracto demum sacramento, ne vacilles, sed memento tantum esse sub fragmento quantum toto tegitur”. “Quando a hóstia é quebrada, não te perturbes. Lembra-te que Ele está tanto na parte como no todo”[16]. É necessário não se enganar sobre isso: na Igreja, a menor parcela de autoridade exercida por um superior de casa religiosa é a autoridade de Jesus Cristo Rei. É Ele.  Não é tal ou tal pessoa.  Daí vem o texto do Evangelho que São Bento cita no capítulo quinto da Regra[17], aplicando-o aos Superiores:  “Quem vos ouve, a mim ouve. Quem vos despreza, a mim despreza.”[18] Como fazer na prática? – “Habituar-se a respeitar Nosso Senhor presente no Sacramento da autoridade, como se respeita Nosso Senhor no Santíssimo Sacramento. Durante ao menos quatro anos, no começo de minha vida religiosa, a cada manhã, durante a ação de graças, eu adorava a Deus na pessoa de meus superiores ao mesmo tempo que O adorava na Eucaristia. Isso me foi muito salutar.” – Mas se formos tentados a ver o homem em nosso superior? – “Na pessoa dos superiores só temos a considerar uma coisa:  a autoridade vinda de Deus através da Igreja.” É necessário então estar sempre do lado da autoridade. – “Os membros da comunidade são mais ou menos religiosos na medida em que são mais ou menos intransigentes quando se trata de sustentar a autoridade.” – Não se tem às vezes boas razões para se afastar dela? “O religioso que se afasta da autoridade aproxima-se do demônio. Se numa comunidade, algumas almas se desviam da autoridade, tornam-se estranhas à autoridade, elas não o fazem nunca, nunca, impunemente. É um começo de suicídio; a alma mata, começa a matar sua vocação. O resultado é infalível. Quando a alma perde a fidelidade à autoridade, ela perde tudo.” – Por quê? – “A autoridade tem Deus em si. Quem está contra a autoridade está pois com Satanás. O senhor despreza seu Superior; não é tal homem que é desprezado, mas a autoridade de Nosso Senhor.” E a comunidade fica dividida – “A autoridade é um bem comum. Devemos todos conservá-la, sem exceção. Se todos os indivíduos concorrem para manter a autoridade, eles firmam a comunidade.” “A autoridade deve ser soberanamente respeitada. Tudo, na comunidade, deve ser sacrificado para mantê-la.” Quais são as características da autoridade do Abade? – “Ela é pastoral, monárquica, paternal. Pastoral, pois que ela tem por finalidade dirigir as almas: “Pasce agnos meos, pasce oves meas”[19]. Monárquica, porque ela emana de Deus. Paternal, porque a autoridade de Deus é paternal e a da Igreja também. Tais são as três características sobre as quais repousa o estado religioso e toda comunidade religiosa.” O Pe. Muard explica em suas Constituições que nada deve escapar à autoridade do Abade, porque ele é “a cabeça de um corpo do qual todos os irmãos são os membros. E como o próprio da cabeça no corpo humano é governar, conduzir, formar todos os movimentos e todas as ações, e que, tudo se referindo a ela, não se passa nada de que ela não seja a origem e o princípio, é necessário também, numa comunidade bem regrada, que tudo se faça pelas ordens e na dependência do Superior, que ele disponha de todas as coisas para a utilidade geral e o bem dos particulares, designando a cada um suas ocupações e seus exercícios, que ele dirija suas consciências, que ele regule sua piedade, e que não haja nada sobre o qual não se estenda sua vista e direção. É isso que pensava São Bento quando declarou que o superior deve ocupar o lugar de Cristo no mosteiro, que ele tem tudo à sua disposição e que não há nada que não esteja submisso às suas ordens.”[20] “…São Bento concebe e define o Abade como a alma, a vida, o centro, o árbitro e o motor da família monástica.” Conseqüentemente ele está obrigado a residir sempre no mosteiro. – “E permanecendo no mosteiro, ele deve se mostrar sempre acessível; a fim de que a toda hora do dia e da noite as almas que lhe são confiadas possam abordá-lo sem temor algum, com a confiança de encontrar sempre uma acolhida paternal e atenciosa.” Seus irmãos abrir-lhe-ão também com facilidade suas almas. “O Abade só terá sobre cada um deles conhecimentos conjeturais e incertos, observa o Pe. Muard, se eles não tiverem o cuidado de lhe mostrar o fundo de seus corações, de lhe descobrir todos os movimentos e de lhe expor até suas menores dobras”. E ele estabelece que “todos os meses, os beneditinos darão conta ao Abade do estado de sua consciência, de sua mortificação, de seu trabalho intelectual e manual, do estado de sua saúde e das necessidades que eles possam ter.”[21] – “Não se verá nunca um monge sinceramente humilde e desejoso de adquirir a santidade que não seja fiel ao quinto grau da humildade assim como à constante direção.” – “O QUINTO GRAU DA HUMILDADE CONSISTE, diz São Bento, EM QUE POR UMA HUMILDE CONFIDÊNCIA NÃO SE ESCONDA A SEU ABADE NENHUM DOS MAUS PENSAMENTOS QUE SOBREVENHAM AO CORAÇÃO OU AS FALTAS COMETIDAS OCULTAMENTE”[22]. A seu Abade? Por que não a um padre de fora? – “Quando se sente desejos de fazer a direção fora, arrisca-se muito a agir por amor próprio. Temos necessidade de nos conhecermos a nós mesmos e de sermos conhecidos pelas pessoas encarregadas de nos dirigir. E para ser conhecido, é necessário viver junto.” É obrigatório dizer tudo na direção? – “Se uma falta é secreta, pode-se dizê-la ou não. Há inteira liberdade. O direito dos Superiores é de servi-lo. O senhor não querendo; eles não o servirão. O senhor não a diz, ninguém lhe perguntará a respeito. Se é de seu interesse ter uma grande abertura de coração, os Superiores devem ser também extremamente delicados e eles o são! Eles devem respeitar a sua liberdade, como o próprio Deus a respeita. Mas diga tudo, tudo, a seu Pai. Seja para com ele como uma criança ingênua e simples, e faça isso por espírito de fé, vendo nele a autoridade do próprio Deus. Torne-se perfeito na abertura de alma e na simplicidade infantil para com ele. É um ponto da mais alta importância e do qual depende em grande parte sua santificação. Deus o quer.” – Podemos ficar incomodados, intimidados – “Quando experimentamos timidez, é a nós que devemos acusar.” – Ele brigou comigo, e eu sou susceptível – “Quanto mais os homens estão errados, mais são susceptíveis… e menos eles são capazes de suportar a verdade acerca deles mesmos. É duro advertir surdos voluntários, mostrar a luz a cegos voluntários!” – Temos, entretanto, necessidade de sermos repreendidos – “Em todas as personalidades há remendos a fazer”. – O senhor vai até esse ponto, decididamente, com seus filhos? – “O costume foi mantido quase unanimemente de se poder dizer a cada um o que lhe convém sem rodeios, nem precauções. Isso é proveitoso para eles.” De outra parte, a unidade de direção faz a unidade da comunidade – “Se todos os indivíduos passam pela mesma direção, eles terão uma mesma formação, e a comunidade inteira será encaminhada na via que lhe convém melhor. O quinto grau da humildade basta, através da direção, para inculcar a unidade na marcha da comunidade. É um princípio de coesão. É o vínculo de coesão da comunidade. Que pode afinal fazer uma comunidade na qual a direção espiritual está ausente ou se reduz a nada? É um corpo desprovido de coesão e de homogeneidade, privado do vínculo mais necessário que é o vínculo espiritual. Este se estabelece, se mantém e dá frutos suaves de união, de paz e de harmonia pela prática assídua do quinto grau.” Como o Abade deve exercer sua autoridade? – “Nenhuma hesitação possível na escolha entre a autoridade exercida com vigor e a autoridade exercida com fraqueza. A fraqueza é um princípio de ruína para a comunidade. O vigor, um princípio de incômodo e de sofrimentos para algumas pessoas (de caráter delicado, sensível; de espírito difícil de governar), mas o conjunto da comunidade ganha com isso. Porque sendo fundamental o princípio da autoridade, à medida que ela é exercida, mesmo com uma nuance de energia um pouco acentuada demais, a marcha da comunidade se mantém. À frente de cada grupo de monges e de monjas, é necessário haver chefes que não temam fazer uso da autoridade, pois a autoridade não é deles, mas de Deus. São Bento acreditava em sua autoridade, dela se servia segundo as necessidades de seus discípulos.” – E Nosso Senhor? – “Nosso Senhor não instituiu o sistema de cautelas. Ele não poupou nada. Os Apóstolos seguiram suas pegadas. Eles não esconderam nada, não diminuíram nada, não atenuaram nada. Ora, veja o que aconteceu: o mundo foi convertido.” “É, portanto, necessário haver chefes que conduzam o combate da mesma maneira que nosso bem-aventurado Pai; que saibam orientar o combate, orientar a comunidade, orientar cada cabeça da maneira mais direta em direção à finalidade única: conquistar a semelhança com Jesus Cristo, estabelecer o império da graça sobre a natureza, da humildade sobre o orgulho e o amor próprio, da mortificação e da penitência sobre a sensualidade.” 4. – A COMUNIDADE ÍNDICE São Bento organizou a comunidade de acordo com o modelo da família – “Em sua constituição íntima, a vida monástica apresenta um ambiente inteiramente familiar, com a paternidade, a fraternidade, a expansão e a estabilidade. A reunião dos monges forma uma sociedade completa e autônoma. Os monges são como filhos em volta do pai. Não são nem estrangeiros, nem pensionistas, nem hóspedes, mas verdadeiros filhos de família. O mosteiro não é, portanto, uma simples residência, nem uma custódia[23], nem um convento transitório, mas uma verdadeira casa paterna, uma igreja estável por natureza e uma família completa. Quando uma alma entra em religião, ela só deixa a família natural para entrar numa família sobrenatural.” A comunidade deve ser numerosa? – “Temos necessidade de ser numerosos e dispostos em abadias poderosas para cumprir dignamente o serviço do Opus Dei e o Apostolado. Aproveito todas as ocasiões para gravar este princípio no espírito de meus filhos: permanecer juntos, formar uma abadia de escol, muito disciplinada, muito solícita, muito monástica, numerosa, podendo fornecer homens para o exterior sem correr o risco de se deixar deformar no interior; um mínimo de cinqüenta padres, e um esforço constante para chegar a uma boa centena com cerca de quarenta irmãos conversos” – Se outra fundação se apresenta… – “Que as comunidades renunciem a toda fundação e a todo empreendimento até que elas tenham cada uma um colégio de cinqüenta padres ao menos, um noviciado sério e uns vinte conversos conhecendo diversos ofícios.” Comunidades tão numerosas podem manter a unidade? – “Não negamos que não haja nunca pequenas divergências. As divergências, a variedade, Deus as quer. Cada um de nós tem seu temperamento, seu caráter; ninguém está isento de defeitos, de faltas.” – Como unir esses elementos diversos? – “Deve-se realizar a união dos espíritos quanto à maneira de conceber o respeito à autoridade, a prática da Regra, quanto às verdades de fé, quanto às apreciações gerais que devem dirigir o movimento intelectual da comunidade. Além da união dos espíritos, é necessária a união dos corações e das vontades, é necessário o entendimento com a autoridade e o entendimento fraterno.” – E se os corações, as vontades estivessem unidos sem que os espíritos o estivessem? – “Então, a graça que se deveria pedir a Deus é que Ele estabelecesse a união dos pensamentos como Ele já estabelecera a união dos corações e das vontades. Do contrário, haveria aí um fermento escondido e sempre pronto a irromper em críticas, recriminações, disputas, murmurações e, finalmente, em graves divisões.” Na prática, como realizar esta união? – “Não há nem mal, nem perigo, nem conseqüências a temer, quando, numa questão suscetível de quatro ou cinco soluções diversas, colocamo-nos inteiramente de acordo com a autoridade na solução que ela escolheu.” “O que fará a força e a beleza da comunidade, é a união de espírito, de vontade e de sentimentos que reinará entre todos. Mas esta união só será profunda e durável  se todos estiverem muito forte e sobrenaturalmente unidos a seu Abade.” 5. – O NOVICIADO ÍNDICE Esta união depende, em parte, da escolha e da formação dos indivíduos.  Eis porque S. Bento recomenda: “QUE NÃO SE CONCEDA FÁCIL INGRESSO” ao postulante.[24] – “A facilidade das entradas faz a facilidade das saídas e prepara a multiplicação destas.” Mas se se deseja o número… – “Os superiores e a comunidade devem desejar bem mais a qualidade que o grande número dos indivíduos.” – É necessário então “PROVAR OS ESPÍRITOS” como o recomenda São Bento.[25] – “A Igreja exige que os candidatos sejam provados, não sejam poupados, nem solicitados para ficarem.” Que qualidades deve ter o postulante? – “Prestar-se-á a maior atenção ao espírito e ao julgamento do postulante, mas sobretudo dos que se apresentam para o coro, e ainda mais daqueles que são brilhantes e distintos. A experiência mostra que esse é um ponto capital.” O senhor exige uma saúde forte? – “Os indivíduos com uma saúde débil, sobretudo em nossos dias, não devem ser rejeitados à primeira vista. Em nenhuma parte nosso Glorioso Pai indica a saúde robusta como uma condição indispensável para a admissão em nossa Ordem. No entanto, é necessário exigir o equilíbrio orgânico e, sobretudo, uma cabeça calma e sólida.” O senhor leva em conta as aptidões? – “A questão das aptidões é tão supérflua como secundária. Hoje em dia preocupa-se demais com isso. Em lugar de perguntar com simplicidade a Deus o que Ele quer, muitas almas consultam principalmente seus gostos pessoais, científicos e artísticos e a isso subordinam, como a uma coisa muito importante, a escolha de sua vocação e de seu gênero de vida. Para uma alma cristã essa questão é simplesmente secundária. Ademais, atualmente como no passado, os trabalhos de todo gênero não abundam nos claustros beneditinos?” Nosso Pai São Bento quer somente que se examine se o postulante “PROCURA VERDADEIRAMENTE A DEUS, SE É SOLÍCITO PARA COM O OFÍCIO DIVINO, A OBEDIÊNCIA E OS OPRÓBRIOS”[26]. – “Ele compreende que se entra na vida religiosa para se humilhar, para servir e não para ser servido? Se ele o compreende é um sinal de vocação. Se ele não o compreende, convém admiti-lo? Sim, mas por misericórdia, desde que ele queira se converter acerca desse ponto importante. Se se percebe que suas pretensões são calculadas e mostram alguma tendência a se realizarem na prática, evitem recebê-lo. Admitir em comunidade um orgulhoso que quer alimentar seu amor próprio, seria introduzir algo de satânico na comunidade.” A piedade é um sinal de vocação ? – “Pode-se temer tudo de uma alma que se diz piedosa, mas que é escrava de sua vontade e de seu julgamento próprio .” E a obediência ? – “A boa e verdadeira obediência basta, apesar de disposições imperfeitas, para denotar a vocação.” 6. – OS VOTOS ÍNDICE Um ano de noviciado permite julgar acerca das disposições do indivíduo. Então, se a comunidade o admite, ele pronuncia, por três anos, os três votos de religião: pobreza, castidade e obediência. À expiração desse prazo, tendo sido a comunidade novamente consultada, ele pronuncia os votos solenes que o consagram definitivamente a Deus e o tornam membro da família monástica. A fórmula desses votos se encontra na Regra de São Bento: “PROMITTO STABILITATEM, CONVERSIONEM MORUM MEORUM ET OBEDIENTIAM SECUNDUM REGULAM”. “PROMETO A ESTABILIDADE, A CONVERSÃO DE MEUS COSTUMES E A OBEDIÊNCIA SEGUNDO A REGRA.”[27] “Desde o século VI, essa fórmula tão breve em seus termos, tão profunda e tão absoluta em seu sentido, não sofreu nenhuma modificação.” 1. Estabilidade ÍNDICE “Em primeiro lugar a estabilidade, pela qual, no que depende de si mesmo, o monge está fixado na comunidade que ele escolheu e adotou.” “A família repousa sobre a estabilidade. O Pai e a Mãe são pai e mãe sempre. Só a morte pode romper o exercício de sua autoridade. Os filhos serão filhos sempre. O voto de estabilidade nos fixa sob a autoridade do Abade até a morte. Ele une para sempre o soldado de Cristo aos chefes e aos companheiros de armas uma vez escolhidos.” Quais são as vantagens da estabilidade? – “Mantendo-se as mesmas pessoas em presença umas das outras, a estabilidade lhes dá  uma implacável penetração mútua dos menores defeitos, que é pouco cômoda para o amor-próprio, mas preciosa  para o bem de cada um e para a ordem geral. Assim se acham corrigidas duas tendências que se revelam quando falamos de nós mesmos: primeiramente, consiste em atenuar, disfarçar o melhor possível, tudo o que é contra nós; em segundo lugar, fazer sobressair artisticamente tudo o que é a nosso favor. São Bento estabeleceu o voto de estabilidade contra essas duas tendências. É um remédio contra as ilusões.”- E contra a inconstância… – “Tira as ocasiões de variação, de inconstância. Concentra as diferentes fases do combate num mesmo lugar, sob o mesmo comando, diante das mesmas testemunhas, no manejo das mesmas armas, todas escolhidas por um mestre como São Bento. Assim, pela estabilidade, o combate espiritual é reduzido a uma espécie de duelo em campo cerrado, e este se prosseguirá sem descanso, o que é necessário, pois durará toda a vida; é necessário conduzi-lo com perseverança. Ora, se nas obras importantes e trabalhosas, a estabilidade dá o seguimento indispensável, ela é bem mais necessária num trabalho de santificação, que deve durar a vida inteira. Do ponto de vista instrumental, ela é decisiva. Ela fixa, prolonga, une à ação do tempo e da continuidade, a ação da graça. A perseverança é a melhor tradução do voto de estabilidade.” Esse engajamento não é difícil de manter ? – “Não. A estabilidade produz, pouco a pouco, o equilíbrio das faculdades, a paz da consciência, uma visão muito mais clara de si mesmo. Ela estabelece as almas na calma e no silêncio interior, num estado que as mantém sem cessar à disposição do Espírito Santo. “Non in commotione Dominus”[28]. É por isso que ela é praticada sem dificuldade.” Então, ela é necessária? – “Tocar no voto de estabilidade, é demolir a Regra. Pode-se notar através do curso da história monástica que onde a estabilidade não existe, os desenvolvimentos são muito difíceis e, ainda assim, momentâneos. Ao contrário, logo que essa virtude intervém, tudo é possível. Mosteiros, pouco numerosos aliás, não compreendendo a importância da estabilidade, não a aplicando, ficaram em situações incertas, e foi preciso que o conjunto de religiosos de uma província interviesse para remediar a situação. Os mosteiros isolados se esgotaram. Mas, onde se manteve a estabilidade com toda a sua força, os mosteiros floresceram, apesar das cegueiras do período contemporâneo dos séculos XVIII e XIX.” 2. Conversão de Costumes ÍNDICE “É incontestável que o voto de conversão de costumes é mais elevado que o de estabilidade. “Não é pouca coisa, diz a Imitação, viver no Mosteiro e aí perseverar fielmente até a morte.”[29] E, no entanto, é coisa bem maior ainda exercer, durante esse tempo de perseverança, seu voto de conversão de costumes.” Que significa esta expressão? – “Discutiu-se muito sobre o alcance desta expressão “conversão de costumes”. Pouco importa! Tomemo-la na simplicidade do termo. É a obrigação de tender sem cessar a afastar-se do mal e aperfeiçoar-se no bem.” Na prática, a que obriga esse voto? – “1- Ele exclui, com mais força do que o decálogo, o pecado mortal, o pecado venial, o apego ao pecado, a negligência em relação aos defeitos.” “2- Ele pede o uso mais perfeito possível do sacramento da penitência e, por conseqüência, o exame de consciência sem ilusão, o zelo em combater as pequenas faltas, o conhecimento exato do que  exige a pobreza, a castidade, a obediência, a estabilidade, a fim de praticar as virtudes que são o objeto desses votos com todas suas delicadezas.” Esse voto é então diretamente oposto ao pecado. – “Desviar-se do pecado é o começo da conversão.  A conversão de costumes é pois, antes de tudo, a abolição do pecado. Ela começa na consciência que deve ser regrada, esclarecida sobre os verdadeiros princípios e que não deve confundir o mal com o bem, desculpar suas faltas. Que não haja ilusões.” É a primeira etapa. Em seguida… “Ela obriga a tender à perfeição, a progredir todos os dias. 1- Para não se lhe opor, é suficiente ser fiel à Regra em geral. 2- Para atingir o fim desse voto, devemos nos compenetrar não somente da letra, mas do espírito da Regra, não podemos nos contentar somente por não estarmos recuando, mas devemos avançar e trabalhar positivamente para eliminar os defeitos. Não se trata aqui de uma veleidade de combate contra os defeitos, de algumas resoluções abandonadas logo: a luta deve ser determinada (não há compatibilidade entre a  conversão de costumes e tudo o que se chama negligência, tibieza, à vontade, espírito do mundo e procura de si: a primeira conversão consiste em separar-se de si mesmo), a luta deve ser determinada, começada, continuada com perseverança até a eliminação dos defeitos.” “O ponto em que é necessário colocar o esforço inicial: as disposições interiores; as intenções em primeiro lugar; em seguida, os movimentos tão variados que se passam no íntimo de nossa alma e que só Deus pode discernir. A escolha dos pensamentos, das idéias que é necessário entreter ou afastar, o desaparecimento das incertezas, das hesitações, das vontades que não estão suficientemente definidas (nossa marcha para Deus deve ser direta, firme, simples e contínua). Oh! sim, a conversão de costumes assegurada na região dos pensamentos, dos sentimentos, das disposições em relação a Deus primeiramente e, em seguida,  em relação ao próximo.” Chega-se assim à eliminação dos defeitos... “E a eliminação dos defeitos prepara a aquisição das virtudes, na qual consiste a construção do edifício espiritual.” Chega-se à conversão perfeita? – “A conversão simples e perfeita é, com o ódio e a expiação do pecado, a adesão perpétua a Deus num estado de luta para manter o seu reino e reagir contra tudo que a isso se oponha. Assim entendida, a conversão designa e pede a prática de toda a Regra.” De modo que esse voto tende a nos introduzir na vida mística. – “Há uma conexão íntima de natureza entre a vida mística e o voto de conversão de costumes. Na vida mística a alma move-se e deixa-se mover principalmente pela iniciativa divina. A alma se entregou sem reserva, e Deus, encontrando essa fidelidade, a conduz aonde Ele quer. O voto de conversão de costumes é o estímulo às almas a nunca parar, a não pôr limites à ação da graça.” “Ora, à medida que ela avança, ela vê, da maneira mais clara, que ela é indigna, que  não fez nada, que Deus é muito bom por suportá-la. Ela adquire d’Ele um conhecimento de tal modo resplandecente que, à luz da santidade divina, ela vê, nos seus atos de virtude, sobretudo o que não é e o que deveria ser, o que seria conveniente para que ela pudesse apresentar-se diante da face do Senhor. E com essa visão que lhe dá a aproximação de Deus, nascem estímulos poderosos para fazer sempre mais.” “Na vida mística, chega sempre um momento onde a alma está menos preocupada, por assim dizer, em se santificar, do que em se imolar a Deus. Mas ela já sabe que a imolação, para ser digna de Deus, deve ser acompanhada de uma grande santidade. Como querer que a alma deixe de progredir nessa escola do calvário? O voto da conversão de costumes, considerado desse ponto de vista, à luz da vida mística, aparece como a mais bela homenagem que uma criatura pode prestar a seu Deus. Assim considerado, ele ornamenta com seu reflexo magnífico os outros votos, que então são elevados ao seu grau mais alto. O voto de obediência é praticado de tal maneira que a vontade do homem se funde completamente na de Deus. A pobreza é vivida à maneira de Nosso Senhor Jesus Cristo: a mais completa indiferença com relação aos bens desse mundo. A castidade é observada a ponto de espiritualizar o que há de mais material.” “Assim realizado, o voto de conversão de costumes reflete-se, resplandece no amor. Ele se confunde, de certo modo, com o amor. O amor conduz a alma a desejos cada vez mais vivos de virtude e de santidade: o voto de conversão de costumes mantém no coração, na vontade, um desejo insaciável de combate e de vitória. A alma se lança seguindo Nosso Senhor. “Exsultavit ut gigas ad currendam viam.”[30] Existem, pois, vários graus na conversão. – “Converter-se do mal ao bem, eis o voto no grau inicial. Depois, converter-se do bem ao melhor, do melhor ao perfeito, do perfeito ao heróico.” “Desse caminho luminoso a percorrer, todas as etapas são distintas, determinadas, descritas no texto da Regra e por um dos maiores Doutores e Diretores de Santidade prática, o Bem-Amado de Deus, Bento. Esta Regra, obra-prima de legislação monástica e social, é também o código mais bem combinado, o mais simples e o mais completo do ascetismo cristão. A conversão que ela exige, em virtude do voto, ela a toma no seu grau inicial, que é a ruptura com o pecado, para conduzir “ ÀQUELE AMOR DE DEUS QUE, SENDO PERFEITO, EXPULSA O TEMOR”. “CARITATEM ILLAM QUAE PERFECTA FORAS MITTIT TIMOREM.”[31] 3. Obediência ÍNDICE “Na prática e no detalhe, a conversão de costumes se resume na obediência que é o objeto do terceiro voto e que conduz à abnegação total de si mesmo.” “Não há nenhum estado em que a obediência não deva interferir, visto que é ela que resume a vida de Nosso Senhor e que é a lei fundamental da Igreja e de todas as almas que caminham nas vias da salvação. Mas, no próprio seio da Igreja, o gênero de vida mais concentrado na obediência é incontestavelmente o estado monástico com a Regra que lhe é própria. Veja-se somente o capítulo cinco da Regra. É a fusão do “eu” humano com a vontade de Deus manifestada pela autoridade legítima, nos limites de suas atribuições e sempre segundo a Regra.” “A santidade se resume nisto: nossa vontade se submetendo tão bem e com tanta constância à vontade de Deus, que não se possa encontrar mais nada em nós fora dessa vontade dominando a natureza, em todos os seus detalhes. É a realização desta palavra de Isaías: “Vocaberis: Voluntas mea in ea”[32]. O termo da santidade é a obediência. É preciso que tudo se faça na obediência. A obediência é Deus em nós e nós em Deus.” – O grau de santidade mede-se, pois, pelo grau de obediência. – “Um beneditino vale o que vale sua obediência.” Se pensássemos nisso, seríamos exatos na obediência. – “É preciso ser muito delicado na obediência. A vontade do religioso constitui a matéria do holocausto que ele põe sobre o altar quando faz profissão. Logo, por pequenas que sejam as faltas contra a obediência, elas se tornam uma rapina no holocausto.” No entanto, a obediência custa! – “Nossa vontade própria é tão pegajosa! Trazemos em nós uma coleção de resistências que é preciso sacrificar a Nosso Senhor até o nosso último suspiro.” É preciso ainda querer obedecer com sinceridade. – “Quer-se obedecer, pretende-se obedecer, mas, por mil voltas e com belas e piedosas invenções, pensa-se enganar a Deus e retoma-se para si toda a vontade e todo o julgamento dos quais lhe havíamos feito um holocausto eterno. Esses são fantasmas de religiosos, aparências de pessoas que querem a santidade, mas que a querem em poesia, em imaginação.” – É acaso possível tornar-se um religioso dessa espécie? – “É suficiente, para isso, entrar na via dos “mas” e dos “se”. Perde-se tempo conversando consigo mesmo. Cansa-se a bondade dos melhores superiores que não compreenderão mais nada, que decidirão dizer: “Faça como quiser!” Que tristeza haver entrado em religião para obedecer e não obedecer.” É preciso obedecer sem demora. – “Pensar dez vezes antes de obedecer não é olhar para trás e começar já a sua própria derrota? O atraso transforma-se, muitas vezes, em omissão.” – Mas, e se tivermos uma razão para demorar? – “Por que esperar quando Deus fala, senão porque nos preferimos a Ele?” – “O PRIMEIRO GRAU DA HUMILDADE, escreve com efeito S. Bento, É A OBEDIÊNCIA SEM DEMORA. ESTA CONVÉM ÀQUELES QUE ESTIMAM NÃO HAVER NADA MAIS CARO QUE  CRISTO.”[33] – “Não se tem a virtude da obediência, senão quando os atos dela são feitos com prontidão. Se há prontidão da obediência, a alma é fervorosa.” Isto supõe uma grande renúncia. – “A obediência é a espada da renúncia penetrando até o mais íntimo do nosso ser, para nos retirar de nós mesmos.” “A obediência é o dom da alma a Deus. De outro modo, dê quantos presentes quiser a Deus e não lhe terá dado nenhum. Quando Nosso Senhor nos diz: “Fili, praebe cor tuum mihi”. “Meu filho, dá-me o teu coração”[34], é como se nos dissesse: “Dá-me tua vontade”, pois o fundo mais íntimo do coração consiste na vontade. A própria virgindade é pouca coisa diante de Deus quando não é coroada pela obediência e pela humildade.” – Nada vale mais que nossa obediência, porque nada mostra melhor a Deus o nosso amor. – “Deus nos pede o amor provado pela submissão.” É preciso então oferecer-lhe uma obediência sem limites. – “Todo o esforço da santificação consiste em sacrificar sua vontade profunda por uma obediência universal, constante, tanto interior como exterior.” O voto nos pede tudo isso. – “Para guardar estritamente o voto, é suficiente não elevar-se deliberadamente contra uma ordem formal e expressa. Mas deve-se desejar mais. Não desejemos guardar somente o princípio da obediência, é preciso abraçar toda a obediência; não obedecer somente a uma ordem, mas também a um conselho, a um desejo expresso ou simplesmente adivinhado, pensando que é mais perfeito obedecer a um conselho do que a uma ordem, a um desejo do que a um conselho, a um desejo adivinhado do que a um desejo expresso. O religioso que compreende sua vocação não deve se limitar a guardar o princípio da obediência, mas aplicar-se a ser fiel a ela nas menores nuances. O monge deve formar seus pensamentos, suas apreciações interiores, seus sentimentos sobre os princípios estabelecidos e deles se penetrar totalmente.” Os dons naturais são apagados pela obediência assim compreendida? – “O esplêndido relevo com que se destacam através da história as personalidades tão variadas dos santos e santas da Ordem Beneditina prova bem que a obediência, longe de anulá-los, leva a seu mais alto grau de perfeição os dons naturais recebidos de Deus. Se o grão de trigo humano cai em terra de obediência para aí morrer em honra de Deus, torna-se então capaz de frutificar com maravilhosa abundância.” – Como ela opera essa maravilha? – “A obediência tem uma recompensa imediata: a tranqüilidade de espírito.” – O espírito tranqüilo é lúcido. – “Nós já não somos muito esclarecidos nesta terra. E quando nos pomos a seguir nosso próprio espírito, então, é a noite completa.” – Ao contrário, há luz quando seguimos o espírito de Deus. – “Quem abdica da sua própria sabedoria encontra a de Deus.” O sacrifício do julgamento é difícil de realizar? – “O sacrifício do julgamento não consiste em aniquilá-lo, nem em suprimi-lo, mas em submetê-lo para servir-se dele com mais segurança, conformando-o com o de Deus, manifestado pelos superiores.” Deixar-se conduzir por Deus. – “Se os homens quiserem ser justos, que eles se deixem conduzir. Nada é tão temível como a iniciativa humana pessoal em todo tipo de coisas e, sobretudo, na maneira de se conduzir. Ora, assim começam todas as suas faltas: eles resolvem conduzir-se a si mesmos.” – Então as paixões os conduzem. – “Nosso escudo contra as paixões é a docilidade. A sã e verdadeira liberdade acha-se na obediência sem demora, a qual exclui todas as escravidões, quaisquer que sejam.” “Com a obediência, não há nada a temer: a alma fica numa fortaleza protegida de todos os lados. Por quê? Porque a obediência é a vontade de Deus posta em prática sem condições, sem discussão, sem “se”, sem “mas”: Vós quereis isto, meu Deus? então será isto!” É suficiente querer? – “É fácil dizer ‘a obediência’; mas que grande virtude! É necessário todo o tempo da vida religiosa para adquiri-la. A obediência e a santidade são uma coisa só.” “Obedecer a Deus, mas como a um Deus.” 4. Pobreza ÍNDICE Os beneditinos não mencionam a pobreza  quando pronunciam seus votos solenes… “porque a pobreza é essencial ao estado de perfeição.” Pelo fato de se estar no estado de perfeição, está-se obrigado à pobreza. – “O voto de pobreza tem a importância de um alicerce;  sem ele, o estado religioso não existe, é impossível chegar à perfeição. Por quê? “Si vis perfectus esse, vade, vende omnia et da…”[35] Em que ele consiste? – “É o engajamento sagrado pelo qual nos despojamos de toda liberdade na disposição dos bens deste mundo. Doravante não se tem mais a propriedade deles. Não se dispõe de nada, “NIHIL OMNINO NIHIL”[36], diz São Bento, NEM MESMO DO SEU PRÓPRIO CORPO. É a nudez do crucifixo.”[37] 5. Castidade ÍNDICE O voto de castidade é igualmente essencial ao estado religioso; sem ele não há vida religiosa. Como o voto de pobreza, ele está pois implicitamente compreendido no voto de estabilidade, de conversão de costumes e de obediência. Veja-se a sobriedade de Nosso Pai São Bento: “CASTITATEM AMARE”[38]. Essa sobriedade é um ensinamento para os monges. A castidade é talvez antes uma resultante do que uma virtude distinta, uma resultante da humildade e, sobretudo, da obediência. São Pedro diz: “Animas vestras castificantes in obedientia caritatis”. “Tornai vossas almas castas pela obediência”[39]. As três fontes da castidade são pois: a humildade, a obediência, mas, antes de tudo, a Obra de Deus (Ofício Divino). O Opus Dei, desde a primeira palavra até a última, no seu texto, nas suas cerimônias, nas suas próprias melodias, é uma semente de pureza angélica: tudo nele vem do mundo angélico, tudo nele faz voltar a esse mundo. A castidade não é um duro sacrifício? – “A castidade é um cativeiro de tal modo doce que após tê-lo experimentado não se pode viver sem ele, sem querer que ela impere cada vez mais. Essa felicidade da castidade é: 1 – para a inteligência: a pureza, a acuidade, a penetração do olhar. 2 – para a vontade: o vigor, a força, uma têmpera especial. 3 – para o coração: a independência. O coração é terno, penetrado de humildade, dotado de uma sensibilidade muito especial. A natureza humana é violentada, desonrada, ela não é mais ela mesma, quando falta a castidade, pois a castidade é o domínio da alma sobre os sentidos.” “Estejamos dispostos a dar nossa vida antes do que cometer, nesse ponto, a mais leve falta. Ela é ou não é. É preciso que ela apareça em sua integridade, que reine sobre a alma, sobre o corpo, na conduta interior.” São Bento recomenda: “CASTITATEM AMARE”[40]. “Amar a castidade como Deus a ama. Amá-la de uma maneira absoluta.” CAPÍTULO III: A vida monástica 1. – O OPUS DEI ÍNDICE “São Bento chama “Opus Dei” – “Obra de Deus”[41] – a celebração do louvor divino.” “O fundo íntimo do estado religioso é a prática contínua e a mais perfeita possível do primeiro mandamento: “Adorar a Deus e amá-Lo de todo o coração.” É a razão pela qual São Bento escreve em sua regra que “NADA SE ANTEPONHA AO OFÍCIO DIVINO”, “NIHIL OPERI DEI  PRAEPONATUR”[42]. São Bento traduz simplesmente a vontade de Deus e da Igreja quando coloca o Ofício Divino acima de tudo. Tudo, no plano divino, se relaciona com a celebração da glória de Deus.” O mundo esqueceu essa verdade. É por isso que o Pe. Muard escreveu em suas Constituições: “Neste século que não reza, é preciso homens que, como outros Moisés, elevem as mãos na montanha”[43]. “Portanto, antes de tudo, o Ofício Divino.” “A homenagem do louvor é uma necessidade social. Toda a razão de ser da vida monástica é a celebração do Ofício Divino.” “Todos os detalhes de nosso dia são preparação ao Ofício Divino. Assim, longe de sacrificá-lo por causa de nossas outras obrigações, nós estabeleceremos a ordem e a prática delas de tal maneira que todas se relacionem para facilitá-lo, melhorá-lo, deixar-lhe as horas determinadas desde a antigüidade e dar-lhe o maior  esplendor.” Contudo, existem as necessidades da vida… – “O Ofício Divino não será nunca um obstáculo nem um entrave às obrigações secundárias indispensáveis, seja para a vida da comunidade, seja para o bem do próximo. É a razão pela qual São Bento, quando ordena o ofício da noite durante o verão, sem tocar nos salmos, simplifica e abrevia todos os outros detalhes, “POR CAUSA, diz ele, DA BREVIDADE DA NOITE”. [44]– Essas obrigações secundárias não poderiam invadir o dia do monge e tomar, pouco a pouco, o primeiro lugar? Por exemplo, as obras sociais… – “Obras de caridade, humanitárias, sociais, familiares de todo tipo: sim, mas com a condição de que em seu cume brilhe, para vivificá-las e mantê-las em equilíbrio, a grande Obra primordial, a Mãe de todas, a “OBRA DE DEUS”. E se a comunidade não for suficientemente numerosa? – “Que toda fundação monástica seja projetada, desde o início, de maneira a poder-se estabelecer aí, o mais cedo possível, a celebração, com toda a solenidade, do Ofício Divino. Como é triste ver monges agrupados em minúsculas brigadas, ou, o que é pior, condenados ao isolamento: eles estão privados da alma de sua vida.” “O ponto culminante da vida monástica é o serviço, a intimidade e o gozo de Deus através da oração multisecular da Igreja.” O monge penetrado desses pensamentos deve, alegremente, se apressar ao toque do sino que o chama ao coro… “O coro é o encontro misterioso de Deus e de sua Igreja”. Como chegar atrasado a tal encontro? – “A falta de pontualidade se dirige aqui à majestade divina”. – Deus se encontra no coro… “Na estação[45], nossa reunião em nome de Nosso Senhor torna-O presente no meio de nós”. Porém mais ainda no coro… “Deus está na sua Obra.” O Ofício Divino é fácil? – “Nossa pobre alma, pelo peso que lhe é natural, tende a descer. Ela não se eleva facilmente para Deus. Mas quando ela é ajudada durante o Ofício, por todos os símbolos exteriores, pelo canto, pelas palavras, é menos difícil. Se então ela se aplica, ainda que pouco, ela sobe com as palavras da oração, ela sobe até Deus.” O demônio não atrapalha? – “Quando tomamos lugar no coro, os demônios nos observam, eles nos combatem com todas as suas forças… Se nos colocamos do ponto de vista infernal, o Ofício é uma provocação. Satanás odeia a oração, ele nos estrangularia se Deus não o detivesse.” “O Ofício Divino não é um repouso, mas um combate, e um combate vitorioso. O culto que prestamos a Deus tem por conseqüência imediata o combate da fé, o combate da esperança, o combate do espírito contra o poder das trevas. Nós somos os soldados de Deus, seu exército em linha de batalha.” Nossos Anjos, felizmente, não nos abandonam. – “Eles velam mais do que nunca, e Deus nos concede sua graça, seu socorro, a fim de que possamos celebrar o Ofício com o fervor conveniente. “CONSIDEREMOS, diz São Bento,  DE QUE MANEIRA CUMPRE ESTAR NA PRESENÇA DA DIVINDADE E DE SEUS ANJOS…”[46] Nossa postura no coro é modelada na dos anjos diante do trono do Eterno, e eles cantam de uma extremidade do paraíso à outra.” Por que celebramos o Ofício na igreja? – “É no templo e em torno do altar que a Igreja coloca seus cantores do louvor divino, porque Jesus é Eucaristia, e o Ofício Divino só pode ser dignamente celebrado com Jesus, em Jesus, por Jesus. Jesus Cristo, presente na igreja na Eucaristia, quer ser a alma, o centro, o móvel, a chave, o tudo do Ofício Divino.” “E sendo a Eucaristia primeiramente um sacrifício, é o ato sagrado da Missa que constitui o coroamento quotidiano do Ofício Divino. Com a Missa se relacionam, portanto, todos os detalhes do Ofício do dia e da noite, textos, notas, cerimônias, determinação e escolha das horas. Assim, de acordo com sua natureza e tudo aquilo que lhe dá sua fisionomia exterior, o Ofício Divino é o culto eucarístico ao mesmo tempo o mais antigo, o mais racional e o mais completo. Quando falamos do Ofício, falamos da Missa, uma vez que o Ofício se relaciona com a celebração do divino sacrifício.” – É dela que ele tira o seu poder . – “A oração litúrgica concerne a toda extensão da crucificação de Nosso Senhor e da Redenção.” Separado de Jesus, nosso louvor não seria nada. – “Deus eterno sendo o único que se conhece a si mesmo, só Ele próprio pode dignamente dar-se glória. A geração do Verbo, tal é o cântico por excelência do Ofício. O Ofício Divino é Deus mesmo celebrando sua glória pelo ministério de seu Verbo encarnado e da Igreja, sua esposa… O Ofício Divino é a compenetração mútua do Esposo e da Esposa (“Vox sponsi et sponsae”)[47] para dizer a Deus sempre e em toda parte, aqui em baixo e no céu, o hino da glória: Sanctus, Sanctus, Sanctus.”[48] Deus não é pois indiferente a nenhum detalhe do Ofício Divino – “Não somente Ele inspira em segredo a oração, mas a dita, com as fórmulas, as modulações e as cerimônias de sua escolha.” A .  A salmodia ÍNDICE “O texto sagrado dos salmos é um ditado de Deus. Nós salmodiamos sob o ditado de Deus. Nossa alma não precisa senão se conformar a ele. Nós temos a certeza de dizer a Deus aquilo que Ele quer ouvir. Na  oração particular não podemos ter a mesma garantia.” “Que honra para o homem cuja boca se abre dessa maneira para apregoar a palavra de Deus! Quando recitamos os salmos, o que dizemos é infinitamente superior àquilo que pensamos. Nunca, fora da salmodia, chegaríamos a compor um semelhante discurso. Deus nos eleva acima de nós mesmos fazendo-nos cantores de sua glória.” Mas ficamos muito abaixo dessas palavras divinas. – “Há de um lado a palavra de Deus que, pronunciada por Ele, é magnífica, grande como Ele mesmo, e do outro lado, nossas pobres e pequenas inteligências cuja visão é limitada e cuja maneira de ver as coisas é muito imperfeita. Apesar das repetições, apesar do poder da inspiração divina, os salmos não podem deixar em nossa alma senão uma imagem muito incompleta das realidades que somos destinados a contemplar.” São Bento a este respeito não recomenda menos que “SALMODIAR DE MODO QUE NOSSA MENTE CONCORDE COM NOSSA VOZ”[49]. “Como? Pela união com Nosso Senhor que vive no verdadeiro cristão, de maneira que, rezando este, é Jesus Cristo que reza nele e por ele.” – Santo Agostinho afirma com efeito que, “nos salmos, é Cristo que fala”[50]. – “Nossa voz só exprime uma coisa, Cristo, chave de todos os salmos, de todas as profecias, de todos os hinos: ela só exprime Cristo, porque Cristo é o único mensageiro de Deus, o único intermediário entre as criaturas e Deus.” – Santo Agostinho diz também: “Sempre, ou quase sempre, é preciso ouvir num salmo a voz de Cristo inteiro, a cabeça e o corpo”[51]. – “O salmo é uma reprodução da vida de Cristo e da vida das almas. Seu texto se relaciona sempre com Cristo, a Igreja, ou com as almas que compõem seu corpo, pois os salmos são feitos para a alma.” – Acha-se sempre aí, portanto, alguma coisa para nós? – “Mesmo para um iniciante, há um sentido.” Que é necessário fazer para descobrí-lo? – “São Bento indica o único meio: a fé profunda e atual na presença de Deus, e é tudo. “CONSIDEREMOS, POIS, DE QUE MANEIRA CUMPRE ESTAR NA PRESENÇA DA DIVINDADE”[52], escreve São Bento. Esse meio é suficiente para produzir todas as outras disposições da oração íntima, com suas variadas nuances.” – Como é isso? – “Quando cantamos um salmo na presença de Deus, nossa alma fica atenta; então somos assistidos pelo Espírito Santo que nos comunica os dons de Sabedoria e de Entendimento.” – Por isso São Bento recomenda: “SALMODIAI SABIAMENTE”, “PSALLITE SAPIENTER”[53] – “Este pequeno advérbio, “SABIAMENTE”, indica de que maneira é necessário celebrar o Ofício Divino. Cantamos o Verbo Eterno. Cantemo-lo com sua nota, com o seu timbre. A nota do Verbo é a Sabedoria do Verbo. Portanto, a salmodia é a obra mais elevada de todas, aquela à qual se deve levar mais sabedoria. E esta sabedoria consiste no que diz Nosso Pai São Bento: “SIC STEMUS AD PSALLENDUM UT MENS NOSTRA CONCORDET VOCI  NOSTRAE”[54]. Importa que a inteligência tome parte, que ela se aplique a conhecer o sentido do texto sagrado. Nosso amor deve saborear os salmos. Nossa piedade deve nutrir-se deles. Se é verdade que não podemos nos demorar meditando cada versículo, é também verdade que uma só idéia bem penetrada pode nos ser suficiente para meditar todo tempo do Ofício.” O senhor distingue o trabalho da inteligência e o trabalho do coração? – “Eles devem efetuar-se ao mesmo tempo. A inteligência deve se aplicar a conhecer o sentido do texto sagrado. Não poderíamos deixar de seguir as verdades que irradiam das palavras pronunciadas pelos lábios. Isso se faz com maior ou menor profundidade, mas o dever é de se exercitar nisso com método e perseverança. Esse trabalho preserva do vago e dos desvios. Para cada um dos textos, mesmo os mais elevados, encontra-se uma grande variedade de interpretações. Pode-se escolher a seu gosto. É necessário adotar o sentido que dá satisfação à verdade, às inspirações da alma. Que não se tenha preocupação, além da medida, com as circunstâncias exteriores às quais eles fazem alusão.” Qual deve ser a parte do coração? – “É necessário meditar com o coração, quer dizer, com afeição. O texto do Opus Dei é estimulante para a consciência e para a vontade se a alma procura a Deus com retidão. Como as centelhas do amor sagrado não jorrariam com abundância, se Nosso Senhor só veio a este mundo e só canta nele sua Obra para inflamar os corações nobres? “Ignem veni mittere in terram, et quid volo nisi ut accendatur?”[55] Para cantar dignamente os louvores divinos, é preciso a plenitude do coração humano santificado pela graça, com todo o poder que ele tem de amar, de admirar e de agradecer ao Senhor.” Então a salmodia é uma prece? – “Ela torna-se um diálogo com Deus. É a oração. Deixe-se envolver; é a substância da oração, da alma verdadeiramente fundida em Deus. É a oração mais completa, mais substancial, mais luminosa, mais concludente. A oração jorra das entranhas do Ofício Divino.” “O Ofício Divino não consiste em articular sílabas, nem em um cerimonial: essas coisas exteriores são condutoras da alma às coisas interiores. A alma do Ofício é a contemplação, a vida mística, a substituição da nossa vida pela vida de Nosso Senhor. É Jesus vivendo em nós.” B.  O canto ÍNDICE “Executado sem canto ou mal cantado, o Opus Dei fica incompleto para nós e não temos o direito de dizer que ele está da maneira que Deus quis. “Cantate Deo”[56], “Psallite in cithara”[57]. Deus destinou nossa voz para cantá-Lo na eternidade. Deus quer que se O cante.” Por isso os monges cantam. – “Se os monges amam, se cultivam com um zelo cuidadoso o canto gregoriano, é primeiramente para se conformar à Regra: “SICUT PSALLIT ECCLESIA ROMANA”[58]. É também porque cada vez mais a experiência lhes demonstra que o canto litúrgico é parte integrante do culto que eles devem a Deus.” Eles sempre cantaram… “Foi um Papa, filho de São Bento, São Gregório Magno, quem redigiu de uma maneira definitiva a notação dos hinos e da salmodia para a Igreja Romana. Ele foi obedecido admiravelmente, mas em nenhuma parte com tanta fidelidade como nos mosteiros.” “Em nossos dias, Dom Guéranger e os monges de sua Congregação de França restabeleceram a versão e a execução do canto de São Gregório. Pio X o impôs a toda a Igreja.” O que o canto acrescenta à palavra? – “O canto é como uma palavra acrescentada à palavra para exprimir as mais altas verdades. Pelas modulações da voz, exprime-se não somente o sentido substancial dos textos, mas as nuances do pensamento, a variedade dos sentimentos, todos os acentos da alma em comunicação com o céu. Há acentos íntimos da alma que, traduzidos pelo texto, só se exprimem completamente pelas modulações da voz. Os neumas completam o sentido das palavras.” – Não é o sentido objetivo de uma palavra que o canto traduz…. “O que o canto deve dizer é a nota íntima da alma. Nosso Pai São Bento escreve no sétimo grau da humildade que “DEVEMOS CRER NO ÍNTIMO PULSAR DO CORAÇÃO”[59]. Esta palavra, aplicamo-la ao canto. É necessário que nossa voz exprima o que vem do mais íntimo de nossas almas, é necessário que estejamos penetrados pelo sentimento de Deus. Então, um sopro leva nossa alma até Deus.” “A salmodia é a exigência da mais pura vida interior e da união adquirida.” O canto gregoriano responde bem a essa exigência? – “A arte gregoriana procede de Deus e de sua contemplação.” – É uma arte difícil! – “Na vida monástica, há lugar para aulas de canto, às quais se dá uma atenção particular.” – Não há um risco de que se veja somente o lado estético? – “Monges e monjas, que Deus vos preserve sempre de ser executantes, quando deveis ser somente orantes. Se não houver o lado sobrenatural, o canto não dirá o principal que ele deveria dizer.” – O estudo do canto não favorece uma atenção exclusiva à forma externa do canto? – “O estudo, a teoria lógica demonstram com uma perfeita evidência o acordo que reina entre o sentido dos textos e os movimentos da notação gregoriana. Então, a execução torna-se fácil, simples, como que natural, e as almas que contemplam e rezam pelas palavras, cantam através dos neumas e do ritmo tudo que elas saboreiam e experimentam de mais íntimo.” C.  As cerimônias ÍNDICE “Eu desejo o restabelecimento das melhores tradições concernentes a todos os detalhes do culto.” “As cerimônias e os ritos inspirados pelo Espírito Santo e conservados em seguida pela Igreja intervêm para acompanhar, com a atitude do corpo, toda a celebração do Opus Dei. Pelos seus gestos na cerimônia e por seu canto, o monge exerce o ministério exterior e a tradução visível do culto divino, enquanto que, em sua alma, ele oferece ao Senhor a homenagem de todas suas faculdades presididas pelo Espírito Santo, recolhidas, prosternadas e vibrantes em uníssono com os salmos e cânticos. As cerimônias feitas com perfeição acabam de dar à Missa e ao Ofício Divino toda sua fisionomia e assim ajudam a alma a perceber e transmitir o sentido íntimo das palavras.” É o homem inteiro, interior e exterior, que celebra o louvor divino… “Todo o seu ser se expande e vibra na oração. É necessário para nós, e Deus o quer para sua glória.” D.  O ofício da noite ÍNDICE “A noite não é feita principalmente para o sono, mas sobretudo para favorecer as misteriosas relações de Deus com as almas e das almas com Deus, e para a procura da verdade sob todos os seus aspectos. Suas trevas, seu silêncio, um encanto puro e secreto que vem do alto, convidam a alma e a levam às ascensões interiores, luminosas e santificantes.” – É o momento mais favorável para recitar o ofício. “Entre as observâncias que caracterizam o estado monástico, o Ofício da noite é, sem dúvida, a mais digna, a mais augusta e a mais importante. Depois da Missa, é a parte do Opus Dei mais solene e mais sagrada. É preciso estabelecê-la com firmeza e ser-lhe fiel. Os monges se sacrificarão, se necessário, para manter sua celebração durante a noite; ou se, para manter esta observância, for preciso amenizar as outras, é melhor fazê-lo, seja em favor da comunidade, seja em favor de certos particulares.” “O Ofício da noite é a primeira e a mais essencial das grandes observâncias.” E.  Pensamentos esparsos ÍNDICE “É preciso celebrar o Ofício Divino de maneira a ser ouvido por Deus…” “É preciso ter bem claras no espírito as intenções que nos são mais caras; nós rezamos pela Santa Igreja inteira, pelo gênero humano, por cada um de seus membros, por nós mesmos.” “Quando colocamos uma intenção na oração, não é para limitá-la, mas para estimular nosso zelo e também para atrair mais eficazmente a misericórdia de Deus sobre tal ou tal pessoa.” “Quer-se obter uma graça especial: o melhor momento para implorá-la é o do Ofício Divino. O melhor meio, a celebração da Obra de Deus.” “Às vezes fazemos novenas; a melhor novena porém é a celebração do Ofício Divino.” “Deus está disposto a nos visitar no íntimo de nossos corações. Ele vem. Mas, e se Ele nos encontra ausentes?” “Um simples olhar para o lado dos fiéis prova que não se pensa em Deus nesse momento.” “No Ofício Divino só há três coisas a olhar: o altar, seu livro e, para seguir os movimentos do coro, aqueles que estão a seu lado.” “A postura ajuda muito a atenção.” “A mortificação exterior e interior, em todos os detalhes da vida, é o melhor remédio contra as distrações.” “As faltas mais duramente castigadas no Purgatório para os monges serão as faltas cometidas durante o Ofício. Ver-se-á então o que é o primeiro mandamento!” 2. – A ORAÇÃO ÍNDICE “É uma grande aberração pensar que o Opus Dei termina. Ele não termina. Mesmo quando nossos lábios estão imóveis, uma palavra interior ressoa, e é essa que Deus ama. O Ofício deve nos pôr em oração.” São Bento recomenda a oração no capítulo quatro: “Entregar-se freqüentemente à oração”[60]. – “O fundo da vida monástica é a oração. Nós devemos considerar a oração segundo a Regra, não como um exercício que começa e acaba em momentos determinados, mas como algo que não se interrompe nunca. O que Deus quer de nós é a freqüência que faz da oração a ocupação habitual e, de certa maneira, a respiração de nossa alma.” O Pe. Muard fala da mesma forma: “Segundo o preceito de Nosso Senhor, a oração do monge beneditino deve ser contínua. Ele deve rezar em todo tempo e em todo lugar, de dia, de noite, durante seu trabalho; mesmo no meio do mundo, quando ele for obrigado a estar aí, seu espírito e seu coração devem estar aplicados em Deus por uma contínua e amorosa oração, pois é nisso sobretudo que consiste o espírito de oração tão recomendado pelos santos.”[61] – “Não há oração verdadeira nem frutuosa se ela não for assídua. As riquezas e a força da oração estão prometidas à assiduidade perseverante.” Como se faz oração? – “Quando eu faço oração mental, dirá alguém, fico com a cabeça cansada! – Você não fez oração, você não sabe fazê-la! Faz-se oração com a cabeça? Especula-se na oração como nos cálculos matemáticos?” “Também não se trata de ir sonhar, dormir diante do Santíssimo Sacramento. É preciso, ao contrário, que a alma esteja bem desperta, que ela tenha um assunto determinado, que ela escute Deus.” “Fazer oração mental é procurar Deus no santuário íntimo de nossa alma. Pouco importa a maneira pela qual procedemos. Pouco importa a forma. Na vida espiritual, a oração é o que há de mais subjetivo[62] É como o temperamento, o caráter. Se se pudesse tornar visíveis as orações, compará-las, o fundo seria idêntico, mas a fisionomia muito variada. A oração vem do alto, mas ela se individualiza, se adapta e toma necessariamente características subjetivas em cada um de nós.” “O segredo da oração é bem simples: “Gustate et videte”[63], “Provai e vede”. A oração só é complicada quando os homens querem intrometer-se nela. Eles fazem tratados sobre cada um dos pontos que a tocam. Hoje todo o mundo quer escrever. Há revistas ascéticas, místicas. Na antigüidade e até o século XVI, só havia um método de oração: o método de Deus. No século XVI aparece o método do homem. Este último dominou tudo e, pode-se acrescentar, desfigurou o ascetismo beneditino. Cabe a nós voltar a ele de velas soltas. Madame Cécile Bruyère não fez senão demonstrar isso no seu livro ‘Oraison’.” Mas é necessário um método?[64] – “A Regra monástica é toda ela, no seu conjunto e nos seus detalhes, um método de oração, o primeiro e o melhor de todos os métodos de oração. Examinada em seus detalhes com relação à oração e à vida interior, ela aparece como uma via luminosa, arrebatadora e fácil, que leva unicamente a esse encontro da alma com Deus.” – Como assim? – “Aqueles que cumprem seus preceitos e tomam seu espírito, adquirem a PUREZA DO CORAÇÃO, A COMPUNÇÃO DAS LÁGRIMAS E A HUMILDADE indicadas pelo Santo Patriarca como fontes íntimas e fecundas da oração.”[65] São Bento descreve na sua Regra o monge em oração: “SE TAMBÉM OUTRO, PORVENTURA, QUISER REZAR EM SILÊNCIO, ENTRE SIMPLESMENTE E ORE, NÃO COM VOZ CLAMOROSA, MAS COM LÁGRIMAS E APLICAÇÃO DO CORAÇÃO”[66]. A que ele aplica seu coração? – “AUSCULTA, O FILI.”[67] “Escute Jesus. Onde? Como? Quando? No seu próprio coração, num coração onde reina o silêncio interior, na oração. Como é raro o silêncio, a atenção verdadeira e contínua! Nós costumamos nos dispersar com aquilo que está em torno de nós e, dentro de nós, guardamos simpatias por todo o tipo de ruído. Muito depressa fazemos em nós eco das coisas exteriores. É preciso voltar suavemente desse exterior, de todo esse barulho, de todo esse ruído ao silêncio interior.” – Como afastar nossas distrações? – “Sirvamo-nos de nossas distrações para fazer oração. Se não for um pensamento ruim, nós sempre podemos encontrar aí um primeiro grau de colóquio com Deus. De ordinário, aliás, a alma não está impedida pelas distrações, mas está, antes, sob o peso do torpor, da preguiça espiritual. É preciso despertá-la.” “AUSCULTA, O FILI”. Jesus só pode fazer suas confidências à alma atenta, à alma mergulhada no recolhimento da oração. O que é preciso fazer, o que a Regra pode fazer é, pois, purificar nossos corações. Assim que o coração estiver suficientemente purificado para ver a Deus, a inteligência fica iluminada. Então a oração é bem simples. Tão simples assim? Perfeitamente: “Provai… e esquecei todo o resto.” Qual é o tema da oração? – “A oração tal como a concebe São Bento tem por tema o próprio texto do Ofício Divino. Ela brota das entranhas do Ofício Divino. Ela deve ser simplesmente a degustação e a digestão da liturgia.” “O Ofício Divino é, portanto, a fonte inesgotável, o alimento sempre renovado da oração. A Regra é o modelo dela. O Missal e o Breviário são os verdadeiros livros de meditação e de oração. Que diferença! Tomar um tema de oração na própria palavra de Deus ou dos santos aprovados pela Igreja, ou tomá-lo numa palavra piedosa, mas que, por seu lado humano, é só um comentário enfraquecido, um eco bem longínquo do pensamento divino. Nossa oração deve, pois, primeiramente tirar toda sua substância dos esplendores espirituais do Missal e do Breviário e, em segundo lugar, fazer saborear à alma consagrada as delícias escondidas que aí estão.” “Durante o Ofício, deixe-se envolver por ele. Em seguida, continue a saborear o que foi recolhido durante o Ofício e no silêncio, interrogue as idéias assim semeadas. A oração, que é a nota íntima do Ofício Divino, torna-se em seguida o seu eco prolongado, o perfume precioso, o fruto pessoal apropriado às disposições e às necessidades de cada um segundo a conduta do Espírito Santo.” “Como o Ofício Divino recomeça sete vezes ao dia e uma à noite, o rio da oração corre sem cessar entre os filhos de São Bento, e a alma que sempre permanece à sua margem abençoada pode aí se dessedentar abundantemente de maneira a sentir seu frescor salutar da manhã à tarde e da tarde à manhã.” “Emanando de todos os detalhes da vida monástica, a oração dos monges é uma oração que impregna progressivamente toda a alma do monge fiel. Ela não é uma oração de teoria metódica e raciocinada, mas de prática, colhida sem cessar nas inúmeras e divinamente perfumadas flores da Liturgia. Ela circula nas nossas fileiras, guarda os corações, alegra os semblantes, afasta toda sombra, ornamenta o claustro, é o contato perpétuo das almas com Jesus e entre elas.” “No fundo, a oração dos monges consiste em se manter, como faziam os santos, constantemente na presença de Deus.” Como saber se a oração tem sido bem feita? – “A única marca da boa oração é a obediência com humildade, o culto do dever e o sacrifício de si mesmo.” Quais são os efeitos da oração? – “Se a alma regulasse todo seu interior pela influência da oração, ela se divinizaria, ela se simplificaria e tornar-se-ia um verdadeiro soldado da Regra e de Cristo. Conheço pessoas que ganhariam em argumentar e raciocinar um pouco menos, economizando tempo e trabalho e que veriam mais claro e mais certo.” “Uma alma de oração adivinha a verdade. Ela tem o instinto da verdade. Por que se espantar? Ela está em contato com a própria verdade. A oração dá o senso das verdades práticas. A mais contemplativa das almas é ao mesmo tempo a mais prática e eficaz na vida ativa, a mais fecunda.” “Uma alma de oração é uma alma de Deus, ela pertence a Deus e só existe para Deus.” 3. – A LEITURA ÍNDICE “Nosso Pai São Bento estabelece a leitura nos intervalos dos ofícios.”[68] É um exercício importante? – “Sem dúvida a alma vive de Deus, através da comunicação direta que Ele se digna nos fazer dEle mesmo pelo Sacramento da Eucaristia. Mas é preciso que ela viva de Deus do ponto de vista da verdade.” – Poucas almas vivem assim dEle! – “Só há um infortúnio nesta terra, é o de estar fora da verdade. O mundo está doente por causa da diminuição das verdades e do medo do sobrenatural.” Qual é a causa dessa diminuição das verdades? – “Desde a invenção da imprensa, o palavrório tornou-se um flagelo. Uma olhada nos jornais mostra que todas as inteligências foram mais ou menos atingidas. Em todas as esferas sente-se a oscilação e a incerteza. Desconfie de todas as publicações novas, mesmo das que se dizem piedosas e católicas, mesmo que muito recomendadas. O liberalismo, o racionalismo, o naturalismo, o modernismo, essas várias deformações do espírito cristão se infiltram em toda parte. É como uma vertigem universal e contagiosa.” Como escapar do contágio? – “Nosso Senhor suscita e quer reservar para si novos mosteiros não somente para dar a idéia da santidade, mas como campos entrincheirados de ortodoxia pura e de santa razão. Ainda que não sejamos gênios, quero que sejamos de uma ortodoxia imaculada.” O que se deve ler? – “O que é necessário não é a quantidade nem o volume, mas a qualidade. Pouco, bom, seguro. 1. de preferência, a palavra de Deus; 2. em seguida, os livros santos escritos pelos santos, indicando os meios de adquirir a santidade; 3. a vida dos Apóstolos, dos Mártires, dos Confessores e das Virgens e 4. livros que mostrem de que maneira é preciso praticar a vida interior, a vida ascética, a vida espiritual.” “Aí estão os livros de preferência. Se pensarmos bem, são os únicos que devem ser lidos nos mosteiros.” A.  Sagrada Escritura ÍNDICE “Acima de todas as leituras está a leitura da Sagrada Escritura. A Bíblia está acima das elucubrações humanas, como o céu está acima da terra. Ela deve ser a matéria do trabalho intelectual dos monges e das monjas. A Sagrada Escritura, Verbum Dei, é o centro de nosso movimento intelectual. Os exemplos que nos dá toda a antigüidade, que nos dão sobretudo os monges, se resumem nisto: o recurso à Sagrada Escritura, o estudo insaciável da Sagrada Escritura, a busca de Cristo na Sagrada Escritura.” Como ela deve ser lida? – “Há duas maneiras de ler a Escritura: 1. Ler a Sagrada Escritura materialmente e compreendê-la de uma maneira muito limitada, o que é o caso dos que criticam e esmiúçam o texto sagrado. Esmiuçar: sim. Mas não como modo de conhecer bem o pensamento de Deus, porque em vez de se penetrar no âmago da sua palavra, fica-se no exterior, perde-se tempo a considerar opiniões diferentes do ponto de vista acessório dessa palavra divina, da perspectiva pela qual ela se liga ao tempo decorrido e até à literatura.” 2. Ou então ler a Sagrada Escritura de modo a compreender o sentido que Deus quis realmente colocar nela para cada um de nós. Os Livros Santos têm um sentido universal que se dirige à multidão e um sentido particular que se dirige à cada alma. Há aí alguma coisa para nós. Lemos uma carta de Deus endereçada a nós. Uma simples palavra saída dos lábios divinos visa inumeráveis almas, as almas de todos os que passam nesta terra de geração em geração. Deus se dirige a cada um de nós como se fôssemos únicos no mundo. É por isso que é raro que um texto da Sagrada Escritura não seja resposta a um pensamento de nossa alma, a um desejo de nosso coração. Se nós procuramos Deus, é ainda mais verdadeiro que Deus nos procura; se nossa alma estiver voltada para Ele, há um encontro: o olhar de Deus e o olhar da criatura, o movimento da alma e o movimento do Senhor se encontram.” “É uma temeridade pegar os Livros Santos e lê-los como se leria uma obra qualquer; é, do ponto de vista espiritual, uma grande inépcia: decifraríamos os caracteres, soletraríamos as sílabas e não compreenderíamos o que Deus nos concede compreender. Se, ao contrário, rezamos com humildade, Ele fará a nossa alma recolher por meio do texto algo que lhe foi destinado desde toda eternidade. Nossa leitura torna-se bem pessoal, absolutamente como a oração. Ela se adapta ao nosso estado atual de alma, à nossa capacidade de compreensão, às disposições de nosso coração, e nos coloca em oração.” Como ela faz isso? – “A própria vida de Deus circula nessa palavra. As palavras humanas são cadáveres de palavras. As palavras divinas são palavras vivas; elas são vivas da vida de Deus, pois Deus quer se esconder sob a letra para se comunicar à nossa alma. Se ela nos comove, é Deus que, na sua bondade, se esconde sob a casca da letra a fim de nos falar.” “Nada é comparável à palavra divina! Ela dá um impulso para o bem. Ela nos inebria da santidade infinita, nos dá a idéia do que pode nos fazer adquirir a santidade, ela tem um grande poder de persuasão, de atração pelas virtudes mais difíceis.” B.  Evangelho ÍNDICE “O Evangelho! Eis o livro dos livros! Ele é por excelência o livro dos padres e das almas que aspiram à perfeição, das almas consagradas. Todas as questões que interessam à nossa salvação, ao bem dos nossos irmãos, à nossa vida pessoal, se encontram resolvidas no Evangelho. Antes de procurar neste ou naquele livro, ou nas academias a solução dos problemas que se relacionam com nossa perfeição, recorramos ao Evangelho. Que a sua leitura seja uma leitura atenta, assídua, refletida, continuamente recomeçada. Com a leitura do Evangelho, quanto tempo ganho, quanto proveito para a reflexão pessoal, para a oração, para a glória de Deus! Que grande campo para a ação divina! Deixemos tudo e vamos ao Evangelho, interroguemos o Evangelho! O Evangelho não é menos que o Corpo de Nosso Senhor Jesus Cristo. O Senhor nos espera nele. Ele está aí, bem perto de nós, ao longo de todos os textos do Evangelho, a cada proposição, a cada palavra; Ele está vivo, presente, pronto a nos conduzir, a nos manifestar cada vez mais sua bondade, sua misericórdia e seu amor!” Em 1917 Dom Romain dá como leitura de Quaresma para todos os seus monges “o Evangelho integral de São João, em reparação das iniqüidades de Loisy e para conhecer mais intimamente Nosso Senhor. Essa leitura deve ser feita não de uma maneira exegética e sob forma de estudo, esclarecia ele , mas com a fé simples de Abraão e em oração.” Ele queria que seus monges se tornassem “encarnações do Evangelho, almas evangélicas”. C.  Documentos da Santa Sé ÍNDICE “É preciso ler assiduamente os documentos da Santa Sé. No mundo não há mais verdade senão em Nosso Senhor, em seu Vigário e nas almas que aderem íntima e incondicionalmente a esse sol e a esse refletor estabelecido por Ele mesmo.” Como se deve lê-los? – “Para entender o Papa, é preciso desembaraçar sua palavra das variadas combinações pelas quais cada um se esforça por interpretá-la segundo seu sentido privado.” “Que pelo menos no claustro se compreenda o que é ser verdadeiramente filho da Igreja, sem variante, inteiramente, ou então não seremos dignos de São Bento. Procurem-se as concessões que Nosso Pai São Bento fez ao espírito do mundo! Ou se é católico ou não se é! Tudo ou nada! É preciso não ser católico sob condição, mas católico ao pé da letra: católico com a Santa Sé, com o Soberano Pontífice, com os Bispos, os padres que estão encarregados de nos dirigir; católico em toda parte, em toda circunstância. Inútil tentar escapar: a palavra de Deus não suporta o contrário. Tudo ou nada na Santa Igreja. Se comprometemos alguma de suas leis, comprometemos tudo.” D.  Santo Tomás ÍNDICE “É preciso colocar todo nosso ensino, tudo, tudo, sob a proteção do Doutor Angélico. Pio IX, Leão XIII, Pio X tanto o recomendaram! E em certo Seminário Maior se tem um tão perfeito desdém pelo príncipe da filosofia católica e da teologia! Como é lamentável! Aqui, somos cada vez mais tomistas.” Que pensa o senhor de Santo Tomás? – “É um espírito de tal modo correto, de tal modo razoável! Ele esclareceu tanto a doutrina da Igreja e também a doutrina da vida monástica! Nós devemos, no íntimo de nossa alma, ter uma lembrança bem especial, permanente, desse grande santo; devemos merecer receber dele auxílios preciosos. Que ele nos conserve na virgindade da ortodoxia da fé católica. “Casta veritatis virginitas”[69], em linguagem católica é a ortodoxia, isto é, a inflexibilidade da verdade.” E.  Estudos ÍNDICE “Só há uma ciência, a que vem diretamente de Deus. O objeto da ciência é Ele. Trata-se de conhecer a Deus, depois nós mesmos e nosso destino. Deus não quer que se prejudique a integridade da verdade que Ele revelou. Ele é extremamente cioso dela.” Por quê? – “Deus se identifica com sua doutrina.” Fora da Sagrada Escritura, dos documentos da Santa Sé e de Santo Tomás, onde encontraremos essa doutrina? – “Na Patrologia.” – Em nenhuma outra parte? – “Sim, mas a segurança só se encontra nos livros escritos pelos santos.” O senhor quer a ciência para os seus monges? – “Creio que eu seria capaz de fazer grandes sacrifícios para adquiri-la e transmiti-la à comunidade. Mas o que ambiciono não é o brilho, nem a fama, nem o renome, nem obras publicadas, mas a doutrina bem ortodoxa, uma medida razoável de erudição, uma literatura antiga, sobretudo latina e francesa, não decadente, mas do autêntico século XVII, o culto e o amor do trabalho por Deus. Tudo isso acompanhado da mais sincera humildade. Que se vá ao fundo das questões. Os princípios continuam princípios. Se nós os acolhemos em sua plenitude, somos discípulos da verdade.” Como se deve estudar? – “Em forma de oração. Ler-se-á muito mais com o íntimo da alma do que com a cabeça.” – O que o senhor quer dizer? – “É preciso que sejamos sensatos, calmos, fiéis às nossas obrigações, almas interiores. Então Jesus-Verdade falará no segredo de nossos corações. A verdade não faz barulho. Ela não é turbulenta. Ela não se prodigaliza. É preciso procurá-la no fundo do coração, controlá-la com a ajuda das virtudes. O estudo é uma ocasião que se dá ao Senhor de falar à alma. É uma audiência que Deus nos dá. É uma oração que nós fazemos.” “Se não se ler assim os livros espirituais, não se encontrará nada, não se tirará daí nenhum proveito.” O estudo assim feito é saboroso. – “Aquele que é de Deus põe suas delícias em ouvir a palavra de Deus. Os doutores e a experiência mostram que é assim. Essa solicitude se mostra em tudo quando a conversão é sincera e consumada. O afastamento e o desdém das santas leituras indicam, com certeza, uma decadência da alma ou um obstáculo secreto à graça. Saber é incômodo quando não se quer conformar sua conduta ao que se sabe.” O senhor quer, portanto, que se seja assíduo ao estudo? – “A ciência que não é mantida pela assiduidade se desvanece rapidamente. Ao contrário, quanto mais se demora no estudo, mais se é cativado por ele, porque Deus se revela e se dá pela virtude escondida das santas leituras.” 4. – O TRABALHO MANUAL ÍNDICE “A OCIOSIDADE É INIMIGA DA ALMA”, diz São Bento [70]. “A ociosidade é um pântano para nossa natureza; quando a natureza cai nesse pântano, apodrece. Nossa alma foi criada para agir, ela tem necessidade de ocupação.” “POR ISSO, EM CERTAS HORAS, DEVEM OCUPAR-SE OS IRMÃOS COM O TRABALHO MANUAL E, EM OUTRAS HORAS, COM A LEITURA ESPIRITUAL.”[71] “A comunidade é uma sociedade de trabalhadores que fazem não um trabalho qualquer e de amador, mas esse trabalho a que recorrem os bons pobres para ganhar, com o suor de seu rosto, o pão de cada dia.” São Bento quer que o mosteiro produza “TODO O NECESSÁRIO”; ele prevê “MOINHO, HORTA E OS DIVERSOS OFÍCIOS QUE SE POSSAM EXERCER DENTRO DO MOSTEIRO, PARA QUE NÃO HAJA NECESSIDADE DOS MONGES VAGUEAREM FORA”[72]. “SERÃO VERDADEIROS MONGES, diz ele, SE VIVEM DO TRABALHO DE SUAS MÃOS.”[73] O Pe. Muard queria igualmente que “o trabalho dos membros da comunidade servisse para sua manutenção”[74]. “O exemplo de Nosso Senhor pobre e vivendo do trabalho de suas mãos – as mãos do Salvador do mundo eram mãos calejadas! – nos impõe essa grande lei do trabalho. O trabalho é uma parte da pobreza… O trabalho, a ferramenta e o ofício são os mais nobres e os mais verdadeiros instrumentos de penitência… O abandono e, com mais forte razão, o desdém do trabalho manual é um prejuízo para a Regra e para a observância monástica.” “Conduzido com discrição, o trabalho agrícola e da horta de toda a comunidade fortificará os fracos, saneará os cérebros e dará excelentes resultados. Se for útil, nada se opõe a uma mudança temporária das horas, à supressão de conferências ou leituras de menos importância, num caso de necessidade urgente.” “O trabalho e a piedade estão intimamente ligados. O trabalho serve para ver o que vale a piedade. Não tenho confiança numa piedade que, sob pretexto de devoção, se afasta do trabalho. O trabalho é uma excelente preparação à vida interior. Quanto mais nos entregarmos à vida interior, mais teremos a compreensão da lei do trabalho.” Como se deve escolher seu trabalho? Primeiro princípio: “Em comunidade é indispensável que o trabalho seja indicado somente pela obediência. Que vale um trabalho fora da obediência? Ele merece o castigo. Ele o terá segundo esta palavra de São Bento no capítulo VII: “A VONTADE MERECE O CASTIGO.” Segundo princípio: “Não escolhamos nosso trabalho. Que não me consultem, que não cuidem dos meus gostos.” O Pe. Muard diz com efeito: “O monge não será livre para escolher o gênero de ocupação que lhe agrada mais. Cabe ao superior indicar a cada religioso o gênero de trabalho ao qual ele deve se aplicar.”[75] Terceiro princípio: “Sejamos constantes. Não nos contentemos de tentar. Permaneçamos na tarefa até vir a ordem de parar… Como é raro o verdadeiro devotamento! O devotamento que consiste em se dar continuamente, apesar das dificuldades, do desgosto, com o sentimento de que se é o servidor dos outros.” O Pe. Muard recomenda também rejeitar “todo pensamento de desgosto, de preguiça ou de amor próprio” e se consagrar ao trabalho de “todo seu coração.”75 O que o senhor chama um encargo? “O encargo é um trabalho confiado a um monge de modo permanente. É uma bela maneira de se renunciar. Encontrei pessoas bastante singulares para dizer: “Ah! Enfim! Agora eu tenho um encargo, vou fazer o que bem me entende!” Falar dessa maneira é uma estupidez. Na realidade, ter um encargo é pertencer à comunidade. Há dois lados no encargo: o lado de Deus e o lado pessoal. Ora, os tolos, e eles são muitos, voltam-se para o lado deles mesmos e, então, ficam presos como moscas no mel; quando elas pousam suas patas nele, não podem mais voar. Seria preciso, ao contrário, abandonar tudo o que é pessoal, sobretudo quando se é chefe de encargo. Pois, ser chefe de encargo é ser servidor do encargo e de todos aqueles que fazem parte dele.” “Ele se proporá como fim único de seu trabalho, diz o Pe. Muard, a glória de Deus, a salvação das almas e sua própria santificação.”[76] “O trabalho não é senão um meio de salvação e de perfeição, um meio de santificação.” 5. – A ESCOLA MONÁSTICA ÍNDICE O senhor quis, desde o começo da fundação de En-Calcat, que seus monges, a exemplo de São Bento, educassem crianças, e o senhor abriu uma pequena escola monástica. “Uma escola de santidade!” Quantos alunos os senhores têm? – “Nós só admitimos um número restrito de meninos a fim de poder escolhê-los com mais severidade e cuidar melhor deles.” O que o senhor recomenda aos seus professores? – “Que eles façam convergir para Deus, a religião e a piedade todo o trabalho intelectual das crianças. Tanto quanto possível, a fim de atingir esse objetivo, eles tirarão dos livros santos e dos escritores eclesiásticos a matéria das lições e das tarefas.” Os meninos cantam nos ofícios do domingo. – “Que se cultivem suas vozes, que lhes ensinem o canto gregoriano.” O senhor está satisfeito com os resultados obtidos? – “Nem em um colégio, nem em casa seria possível obter o que nos dão as crianças aqui. Menos brio vão e fútil, com o qual o mundo se contenta e se inebria e mais seriedade, solidez, perenidade. Quem sabe se o desmoronamento moderno não chamará os monges para reconstruir pela base a educação antiga? Fazer homens que sejam homens e que, então, possam tornar-se cristãos completos. Seja como for, a Regra formou a cavalaria, seus guerreiros de ferro e suas grandes damas, mães do espírito francês. Os sistemas modernos engendraram os operários da revolução e as damas da frivolidade universal com uma lamentável diminuição da fé, da razão, do caráter e da robustez corporal por toda a parte.” 6. – AS MISSÕES ÍNDICE A obra inspirada por Nosso Senhor ao Pe. Muard tinha por fim “a pregação da penitência”[77]. Mas nem todos os monges pregam: eles são “distribuídos cada um segundo sua aptidão, uns na pregação, outros na oração e no estudo, outros no trabalho manual.” Se alguns “saem de seu deserto como outro João Batista”[78], a maior parte permanece no mosteiro “para fazer descer graças de conversão sobre os pecadores pelo fervor de sua oração, enquanto os missionários se esforçam por trazê-los de volta a Deus por suas instruções”[79]. Pois, “neste século que não reza, que só sabe maldizer e blasfemar, os homens de oração não são menos necessários que os pregadores”[80]. A que gênero de apostolado se destinam seus monges? – “O monge deve preferir os ministérios humildes e obscuros que se exercem no campo ou junto aos pobres. Sem excluir nenhum gênero de apostolado autorizado pela Igreja, devemos nos ater, ordinariamente, às missões populares e aos retiros dados seja nas paróquias, seja nas comunidades religiosas.” Como os monges se preparam para a pregação? – “Eles devem se aplicar, principalmente, ao estudo da Sagrada Escritura, da Teologia dogmática, moral e mística, dos Padres e da História da Igreja, dos autores sagrados, sobretudo os mais antigos e mais ortodoxos. Quanto mais eles se concentrarem no círculo da lei divina, mais estarão em condições de dar à sua pregação a qualidade primordial que é o ensino da doutrina católica. Quanto à liturgia, ela é o pão de sua piedade e, freqüentemente, dará a seu discurso um sabor todo divino.” O que eles devem pregar? – “Se todos os pregadores só fizessem ouvir o Evangelho, as trevas da ignorância estariam menos profundas, a fé estaria menos ameaçada. Mas lhes repugna dar a palavra de Deus na sua simplicidade.” Como voltarão a essa simplicidade? – “Que eles tenham fé na sua missão. Eles devem estar bem convencidos de que, quando falam, Deus está com eles e vivifica sua palavra.” Durante seus ministérios, devem continuar sua vida de oração. – “No dia em que viverem mais do exterior que do interior eles estarão em perigo.” O monge deve procurar a santidade no exterior tanto quanto no mosteiro… “O monge em missão está obrigado à santidade por causa do socorro extraordinário que o povo e o clero esperam dele.” Para isso basta continuar monge. “Os monges missionários só serão abençoados na proporção em que continuarem monges.” 7. – O REFEITÓRIO ÍNDICE “Nos mais antigos mosteiros, a arquitetura do refeitório imita fielmente a arquitetura tão imponente e religiosa da igreja. Para que essa imponência, se o refeitório só servisse para aí se tomar os alimentos tão pobres da austeridade monástica? Não é por causa da palavra de Deus e das orações especiais que precedem e seguem as refeições? Eu penso que sim.” No princípio da refeição se canta, solenemente, uma passagem da Sagrada Escritura. – “Sem dúvida, por essa leitura pública, fazemos um ato de grande reverência para com a Sagrada Escritura. É preciso, entretanto, ser realmente senhor de si mesmo para, num momento como esse, apreender não digo toda a leitura, mas mesmo alguma coisa da leitura, algo que se recolhe e que permanece. Que se conseguisse uma frase, já estaria bom! Se fôssemos atentos, não digo com uma atenção de contemplação (não é possível durante a refeição), mas com uma atenção suficientemente desperta – “O que se lê? Qual o sentido do texto?” – se fôssemos atentos o suficiente para recolher a cada leitura da Sagrada Escritura uma migalha, uma frase, Deus o veria bem. Ele veria que nós O procuramos, que queremos encontrá-Lo, que desejamos receber dEle uma luz. Ele não deixaria de corresponder à nossa disposição interior.” Em seguida, faz-se uma leitura durante toda a refeição. “ÀS MESAS DOS IRMÃOS NÃO DEVE FALTAR A LEITURA”, diz São Bento[81]. Quais livros escolher? 1º Eliminar tudo o que for medíocre, simplesmente curioso ou moderno demais; 2º Ater-se rigorosamente aos bons livros, de preferência aos antigos, de uma ortodoxia virginal, referindo-se à Igreja, ao nosso santo estado e capazes de se impor por estas quatro características: instrução, edificação, interesse, valor literário; 3º Certos artigos de jornal não estarão deslocados, desde que: 1) sejam de interesse geral; 2) essa leitura não seja freqüente; 3) o jornal seja de um catolicismo realmente puro e romano. Como se deve ler no refeitório? – “É preciso edificar os ouvintes, que devem entender o que está sendo lido. Nada fica audível sem uma articulação bem clara. A condição para que a leitura interesse é que ela penetre no espírito e que ela leve a ele o sentido que lhe é próprio. Somente a articulação dá às palavras o tom que lhes convém.” De que modo come o monge? – “A vontade eficaz de se mortificar em alguma coisa, juntamente com a oração, formam a condição indispensável para que um monge não deixe de ser monge cada vez que é obrigado a tomar seu alimento.” – A que horas toma sua refeição? – “O horário do claustro para as refeições se aproxima bastante do horário do mundo.” Antigamente, durante a Quaresma, os monges ficavam em jejum até a tarde. Até os próprios trapistas tiveram que renunciar a esse jejum. “Há muito tempo já, apesar de seu zelo pela observância, eles não podiam mais, exceto em número muito pequeno, observar completamente o horário antigo. Chamado várias vezes para lhes pregar retiros, tive a felicidade de ver os últimos que mantinham um horário de jejum que, ao que parece, não deverá voltar, estando as forças hoje em dia tão diminuídas. De certa forma, com meios diferentes mas equivalentes, os discípulos da Regra encontram e praticam o jejum. O espírito da Regra impõe e faz aceitar, de bom grado, a privação de muitas coisas supérfluas e a refeição em horas bem determinadas.” São Bento estabeleceu que todos seus monges “ABSTENHAM-SE COMPLETAMENTE DE CARNES DE QUADRÚPEDES, EXCETO OS DOENTES DEMASIADAMENTE FRACOS”[82]. “Na vida monástica, esse preceito de abstinência é fundamental.” O Pe. Muard assegurava que é o “mais possante meio de conservar o espírito de sua congregação”. Mas ele levava a abstinência mais longe que São Bento, decidindo que seus filhos se contentariam com “legumes, verduras ou hortaliças e frutas”, excluindo “todo tipo de carne, peixe, ovos, manteiga, queijos e laticínios, óleo, açúcar e mel”83 . “Pio IX pediu que os Beneditinos de La Pierre-Qui-Vire se contentassem com o texto da Regra.” – Os senhores mantêm a abstinência dessa forma? – “Nós proclamamos e queremos, para sempre, em nosso mosteiro, a lei da abstinência tão claramente e tão discretamente instituída por Nosso Glorioso Pai, sempre renovada pelos santos reformadores, tão amada pelo nosso Pe. Muard, enfim, conservada em nossos dias, com a bênção da Igreja, no seio de todas as ordens que retomaram a observância antiga. Seria uma falta capital tocar no princípio da abstinência e estabelecer que a comunidade comeria carne “tantas vezes” por semana. Não se poderia criticar as comunidades que, em razão da debilidade bastante evidente do temperamento atual, praticam a dispensa geral durante uma parte do ano. Mas é preferível manter o princípio da abstinência tal qual ele está formulado na Regra.” Entretanto, em suas cartas, percebe-se que o senhor estava preocupado em melhorar o regime de sua comunidade. – “Para facilitar a prática da abstinência, a fim de que um número maior possa mantê-la.” 8. – A CELA ÍNDICE São Bento fazia dormir seus monges, “NUM MESMO LUGAR”,[83] em dormitório[84]. “Ele queria que os irmãos de armas não se separassem nem mesmo durante as horas de sono.” Atualmente o dormitório é dividido em celas. “É uma mitigação da austeridade primitiva, mas também um meio de favorecer o silêncio e a contemplação.” Como são mobiliadas as celas? – “Que o mobiliário das celas respire a mais estrita pobreza: uma pequena mesa para escrever, um banco ou uma cadeira comum, uma bacia e um jarro para água e, como ornamento, uma cruz sem imagem, pintada de vermelho. Três tábuas sobre cavaletes ou numa armação de cama de ferro, com um acolchoado fino, um travesseiro de palha, lençóis e cobertores de acordo com o clima, tal é o leito composto segundo o texto da Regra.” É uma cama dura! – “É preciso que um monge possa dormir. Mas é preciso que o seu sono seja o de um trabalhador e de um combatente, não o de um preguiçoso e de um sensual. É preciso que o monge, se tiver inspiração e força para isso, possa se imolar até no seu sono. A noite deve ser marcada por essa nota de penitência e de imolação quanto à maneira de tomar a medida indispensável de sono.” Quem cuida das celas? – “Cada um limpa a sua. Isso se faz corretamente, sem lentidão, sem cuidado excessivo. Uma vez adquirida a experiência desse pequeno movimento, é preciso que em dois ou três tempos esteja feito e bem feito.” Não se fala nas celas… “Quando tiverem necessidade e permissãol de conversar, os monges o farão exclusivamente nos lugares designados para tal.” “Devemos considerar nossa cela como um santuário.” “Todas as vezes que a obediência e nossas ocupações nos derem a liberdade para isso, devemos fazer nossas delícias em permanecer nas nossas celas sob o olhar de Deus. É preciso estarmos aí com uma grande dignidade. Não há ninguém? Há Deus. A cela é o vestíbulo do céu, é um segundo santuário.” CAPÍTULO IV :O espírito monástico ÍNDICE “O espírito monástico? É o espírito de Deus, o puro espírito católico; um espírito de oração, de humildade, de solidão e de silêncio, de dileção fraterna no interior e de zelo no exterior! Aí está nossa verdadeira fortuna, nossa vida, nossa força do presente e do futuro.” “Ele é principalmente a perfeição do espírito cristão, sem nada acrescentar e sem nada retirar, tal qual Jesus no-lo deu, tal qual a Igreja no-lo ensina. Amplo, largo e simples como Deus mesmo, ele não destrói nada do que a natureza fez, somente o toma, o eleva e o sobrenaturaliza.” “A característica mais relevante do espírito de São Bento é o “Christi Amor”[85]. Isso brota da Regra, como da vida de nosso Pai São Bento e também da vida do Pe. Muard.” “Nos seus atos e em seu pensamento, nosso Pe. Muard se considerou como o último de todos. Ele quis que estivéssemos nessa posição e, como nosso Santo Patriarca, ele se consumiu de oração, de amor divino, de penitência, de pobreza. Ele viveu e morreu com Jesus crucificado. Tenhamos atenção! Aí está o que Jesus nos pediu em 1883: algo de muito humilde, de muito interior, de muito imolado, de muito pobre também, sem afetação é verdade, mas sem mistura. Reservemos o melhor de nossas forças para Jesus crucificado. Eu lhes asseguro que a maioria raramente pensa nisso. Quanto a nós, é nossa vocação especial.” 1. – ESPÍRITO DE HUMILDADE ÍNDICE O Pe. Muard escreveu em suas Constituições: “Nós estabelecemos a divina e santíssima humildade como fundamento de nossa sociedade, como princípio constitutivo de nosso espírito e queremos que ela seja o caráter distintivo de nossa Congregação, cujo fim principal é combater o orgulho, vício dominante deste século, pela prática dessa virtude.”[86] São Bento estabelece com efeito a humildade, à qual consagra um longo capítulo, como fundamento de sua Regra[87] . “Este capítulo é o sumário sucinto e o desenvolvimento total da Regra. O mosteiro é uma verdadeira academia de humildade. Falar, agir e se mostrar com ares de grandeza: eis a peste e o antípoda do espírito beneditino.” Queria também o Pe. Muard que seus monges se considerassem “como os últimos dos religiosos, tendo sempre pouca estima por eles mesmos, como miseráveis pecadores dignos de todos os opróbrios, e sua sociedade como a última de todas as sociedades religiosas. Da mesma maneira que é para os lugares mais baixos que vão as águas dos esgotos, dizia ele, nós devemos estar tão baixo que todos os desprezos do mundo venham cair sobre nós.”[88] Essas palavras são um eco desta de São Bento: “CRER NO ÍNTIMO DO CORAÇÃO QUE SE É INFERIOR A TODOS E O MAIS VIL”.[89] “A humildade é o esplendor da verdade. Se vós sois mediocremente humildes, sereis mediocremente verdadeiros.” Mas a humildade verdadeira é rara… “Cada vez mais constato como é rara essa virtude entre as almas consagradas a Deus. Como, ao contrário, o amor próprio se desenvolve livremente, estraga as melhores virtudes, interrompe todo progresso sério e origina até, aqui e ali, verdadeiros pequenos escândalos.” É porque não é fácil tornar-se humilde! “Em razão de nossa queda original, a humildade é a mais difícil de todas as virtudes. Cada um de nós só pensa em si. “Eu! eu!” é nossa suprema atividade; “eu!” nós estamos presos a isso por todos os lados. No entanto, Deus não pode fazer nada de grande a não ser sobre o fundamento da humildade.” É preciso que sejamos humildes… “Sem a humildade forte e profundamente estabelecida não faremos nada de bom, tornaremos estéril a fundação.” Por quê? – “O que é preciso para conhecer os caminhos de Deus? É preciso a humildade, a verdadeira humildade. A humildade nos desapega cada vez mais, nos desprende da terra. Ela equilibra e pacifica a alma. Ela dá um maravilhoso instinto da verdade, dissipa as ilusões e, enfim, dita palavras justas e medidas. A humildade dá constância, continuidade. O orgulho gera a instabilidade, a agitação, a incoerência. Um monge verdadeiramente humilde está contente com tudo o que é vil e extremo. A humildade e a confiança andam juntas. A humildade dilata nossa alma. O orgulho a contrai. Diz-se inchar de orgulho? Dê uma espetada no balão e ele se torna um trapo! Quando cessamos de pensar em nós mesmos, é então que cuidamos melhor de nossos interesses. Quando não pensamos em nós mesmos, Deus pensa em nós. Quanto mais nos afastamos de nós, mais Ele cuida de nossos interesses. Deus não pode resistir ao encanto da humildade. A humildade atrai suas graças.” Como adquirir a humildade? – “Deus nunca deu gratuitamente a humildade. Se a desejamos seriamente, procuremos as humilhações, esperemos as humilhações – Por acaso existe humildade sem humilhação? – e quando vierem, façamos-lhes bom acolhimento. Do contrário, Deus nos poupará.” É suficiente aceitar bem as humilhações? – “É preciso amá-las. Se somos humildes amemos, amemos as humilhações! Indispensáveis quando as merecemos, elas são também excelentes e desejáveis quando não as merecemos.” – Como se chega a amá-las? “O orgulho só é possível no esquecimento ou desprezo de Deus. Deus conhecido, meditado, procurado é o orgulho enfraquecido, exterminado.” “Apliquemo-nos à humildade verdadeira e sólida. Sejamos humildes de espírito, de coração, de vontade e de conduta. É principalmente por um grande cuidado e culto da humildade que devemos nos distinguir na Ordem.” 2. – ESPÍRITO INTERIOR ÍNDICE “Deus, no programa de 29 de janeiro de 1883, nos pede uma casa cuja característica fundamental, o ponto de partida e a forma primeira sejam o espírito interior com tudo o que se lhe relaciona.” “O instinto secreto da natureza é a vida selvagem, é fugir de Deus, viver fora de Deus, na independência que permite ir para onde se quer. A vida interior, ao contrário, é a vida do espírito, segundo o espírito. Ela se relaciona com a obediência e resulta necessariamente dela. A obediência é até mesmo a pedra de toque com a ajuda da qual se reconhece o valor da vida interior numa alma: ela vive somente nas profundezas da renúncia; onde a renúncia é completa, aí se encontra a vida interior. A vida interior vale o que vale nossa renúncia. Ela é Jesus se reproduzindo em nós. Nossa vida interior é Jesus, é o Verbo que se comunica. A vida interior é o amor, o amor santificante, vivificante, o amor que transforma. Somente chegam ao martírio as almas que viveram e vivem de vida interior. O sangue que corre, então, é a abundância da vitalidade divina escondida nelas.” “Instituindo as ordens religiosas após a era dos mártires, Deus se propôs um objetivo: conservar em sua Igreja até o fim dos séculos o tesouro da vida interior. É verdade que Deus pode conservar esse tesouro mesmo no tumulto do século, mas em via ordinária, Ele precisa para isso separar as almas da multidão, atraí-las à solidão e ao silêncio para lhes falar ao coração.” “Ela não deve ser tomada como meio secundário na economia monástica, nem na economia cristã. Ela deve dominar todo resto: ela é soberana. Todo o resto deve ser colocado, hierarquizado sob sua dependência.” E se o mosteiro não é fiel à vida interior… “ele não é mais útil, ele desaparece. A causa que determinou a queda, o desaparecimento de certas ordens e de certos mosteiros: o exterior tomou a frente; relaxou-se insensivelmente o interior. Como se procedeu à reforma? Retornou-se ao ponto de partida, à vida interior. Uma comunidade que quer se manter, se firmar, garantir seu futuro, que meio deve tomar? A vida interior.” Espírito de silêncio ÍNDICE “Tudo o que há de mais nobre no homem é interior: o pensamento, o julgamento, a sabedoria, a vontade… A língua, os lábios, são os únicos instrumentos capazes de dar uma vida aparente, externa, a esses segredos que só Deus pode penetrar e que nossa consciência revela, os segredos do pensamento, do sentimento… Mas a tendência de todas as almas dominadas pela influência da vida interior é se calar. “Sedebit solitarius et tacebit”[90]. Elas desconfiam da língua… “É o instrumento mais ativo do bem, mas também do mal, do progresso no bem e do progresso no mal. A língua, esse pequeno instrumento pérfido, numa pequena volta rápida, nos faz cometer numerosas faltas. Procure e verá que ela é sempre o grande instrumento do mal: ela excita a todos os crimes. Todos os caminhos das paixões que carregamos em nós chegam na língua. Se fosse possível isolá-la… mas ela se relaciona com todo o resto! Todas as paixões têm licença de tomá-la para seu serviço.” São Bento põe na boca de seu discípulo, “A FIM DE QUE ELE NÃO PEQUE PELA LÍNGUA”, uma guarda, uma sentinela, “CUSTODIAM”[91], e o torna mudo como o salmista[92] . “Desde a primeira até a última linha da Regra, São Bento é desconfiado contra os abusos, os estardalhaços da língua. A Regra tem por objetivo nos estabelecer no silêncio. No seu capítulo seis, ele dá uma dupla volta de chave na língua. Ele tem toda razão.” Ele impõe um silêncio perpétuo? – “Alguns pretendem que nosso Pai São Bento prescreveu a prática do silêncio absoluto, outros acham que o Santo Legislador concedeu atenuações. A verdade não está nem de um lado, nem de outro; ele ficou num meio termo. Ele não prescreve o silêncio como é entendido nos trapistas, não impõe o mutismo. Ele deseja somente fazer compreender que temos a obrigação de saber o que nós queremos dizer e a que momento devemos dizê-lo, a obrigação de prever, de escolher os termos com que nos serviremos ao invés de deixar o acaso e as circunstâncias no-los ditar.” “Nosso Pe. Muard estudou longamente a questão. E, depois de orações, de penitências, de jejuns, com a autoridade da qual dispunha, ele compreendeu que era preciso, fora do Ofício Divino, da confissão, das aulas, o silêncio perpétuo. Ele o estabeleceu e era assim que se o observava em nossa primeira Comunidade de La Pierre-qui-Vire. Se não o tivesse experimentado, eu acreditaria como todo mundo que é impossível. Mas o experimentei e direi sempre que é um regime admirável. Não há nada de melancólico, nada que leve à tristeza. Ele mantém o contato da alma com Deus.” “Os membros da comunidade”, por meio “de conferências”, “de passeios” semanais e da reunião da noite antes de Completas que é “verdadeiramente de família”, “se conhecem, compreendem e se entretêm numa doce caridade, ao mesmo tempo que conservam as vantagens tão preciosas do silêncio beneditino.” Como os monges se comunicam entre si? – “Eles pedem por meio de sinais as coisas necessárias. Os que necessitam de conversar pedem permissão e só o fazem em voz baixa, cuidando de não sair do assunto que têm a tratar. Os chefes de oficio terão o maior cuidado de não sair de suas atribuições, falando somente nos lugares de seu trabalho, a respeito das coisas do trabalho e a seus subalternos. Se se pega o costume de falar muito nas celas e em toda parte, é impossível que a comunidade não acabe por se dissolver. Não se remedia a perda de uma observância dessa natureza.” O silêncio é penoso? – “O silêncio não é uma prisão, nem um aborrecimento, quando é guardado para Deus e sob seu olhar. Ele acalma, harmoniza, eleva, faz rezar, ele atrai Deus para a alma e a alma para Deus, que é seu centro.” Entretanto, poucos são fiéis a isso… “É coisa rara, muito rara, achar um homem dizendo somente o que é preciso, o necessário e o útil.” Pois é difícil se calar… “Não se consegue o silêncio sem um esforço, sem observar-se a si mesmo com a maior atenção. Para evitar as faltas da língua, são necessários uma grande mortificação adquirida, uma verdadeira humildade, o sentimento íntimo e constante da presença de Deus e a dependência das faculdades da alma e das paixões em relação a Deus. Enfim, o domínio completo da língua só se encontra na humildade”.Como fazer para guardar o silêncio? – “ESPERE QUE VOS INTERROGUEM”[93], nos diz Nosso Pai São Bento. Se permanecermos em silêncio, teremos ao menos a aparência de sábios.” “Obrigado ao silêncio pela sua Regra, todo beneditino deve ser tão sóbrio em cartas como em palavras. É realmente lamentável gastar tempo e trabalho escrevendo, para agradar, cartas que são lidas num piscar de olhos e que não produzem, ordinariamente, outro efeito que o de distrair por um momento o leitor, e que são em seguida atiradas ao fogo ou encerradas para sempre numa gaveta qualquer. É preciso que nos façamos antigos nesse ponto e deixar que nossos amigos reclamem dos nossos atrasos e do nosso laconismo.” “Duas palavras que nunca podem ser colocadas uma ao lado da outra: conversador e beneditino.” 3. – ESPÍRITO DE IMOLAÇÃO ÍNDICE O Pe. Muard queria que seus filhos se considerassem como “homens votados por estado à prática da penitência, encarregados de satisfazer a justiça de Deus por suas próprias iniqüidades e pelas de seus irmãos, por conseguinte, cuja vida seja uma contínua imolação de sua vontade, de seu julgamento, de seu corpo e de todas as satisfações dos sentidos pelo duplo gládio da mortificação interior e exterior”[94]. “É preciso que na Obra nós sejamos todos hóstias vivas inteiramente consagradas. O mosteiro é uma casa de penitência. As observâncias, os artigos fundamentais da Regra têm por base a penitência. A Regra é uma regra de mortificação e penitência: ela doma a nossa natureza com uma destreza, com uma ordem, uma suave e inexorável perseverança. Em vão se procurará num dia beneditino o que a nossa natureza ferida pelo pecado original pode encontrar de satisfação para as suas vis inclinações.” “Mas nenhum detalhe da penitência regular ultrapassa a medida das forças ordinárias. Os atos de penitência devem ser regrados pela discrição. Nosso Pai São Bento foi mais admirável nesse ponto do que São Bernardo. Este só se tornou imitável, porque se aproximou pouco a pouco da moderação do grande Patriarca. Quando os santos não fazem o que é preciso, o espírito de Deus a isso os conduz pouco a pouco com o tempo.” – Sob pretexto de discrição não se introduziria o relaxamento? – “Devemos temer menos a alteração e a perda de nossa saúde do que o relaxamento da austeridade e da penitência. Devemos nos exercitar mais a nos mortificar do que a cuidar de nós mesmos. Poupar-se é prejudicar-se. Sem penitência, nada de vida interior, nem de perfeição, nem de santidade. Nosso Senhor não mudou o molde da santidade; esse molde é a Cruz sobre a qual se imolou por nós.” O estado monástico é um estado de penitência “pelo fato de seguir mais de perto Nosso Senhor Jesus Cristo carregando sua Cruz.” Como falar, depois disso, de discrição? – “Há o espírito de penitência e os atos de penitência.” O Pe. Muard diz que “o espírito de penitência é constituído pela mortificação interior que consiste em combater nossas inclinações, nosso amor próprio, nosso humor, todos nossos defeitos e, acima de tudo, a nossa paixão dominante. Sem esse espírito não se saberia ser verdadeiramente religioso. A mortificação corporal é, sem dúvida, muito útil para nos manter no fervor; ela é mesmo obrigatória para todos. Mas ela é pouca coisa, ou melhor, não é nada, se não for vivificada pela mortificação interior que é sua alma. É o sacrifício que agrada ao Senhor, o holocausto de suave odor que Ele ama receber da criatura.”[95] “Jesus nos pede, sobretudo, uma imolação íntima nas pequenas virtudes quotidianas, o martírio de uma vida sem mancha e inteiramente devotada. Numa tal vida, o sofrimento se acha seguramente na medida em que determine a sábia vontade de Deus, e pode acontecer que o martírio da vida quotidiana seja mais difícil e mais doloroso do que o martírio da morte.” A Regra tende a nos dar esse espírito de penitência… “A vida monástica é estabelecida de maneira a provocar a espontaneidade da penitência. Sem a espontaneidade, nós oferecemos a Deus uma penitência sem brilho. Ele não pode ficar satisfeito. A penitência espontânea, cheia de ânimo, de ardor, é essa que se oferece convenientemente a Deus.” 4. – ESPÍRITO DE POBREZA ÍNDICE “Beneditino” e “pobre”, são termos que se atraem mutuamente e nunca deveriam ficar separados.” “Não se pode conceber a pobreza prática com mais rigor do que o faz São Bento[96]. Com sua costumeira discrição, ele não impõe nenhuma prática singular nos detalhes aparentes dessa virtude, e várias passagens mostram que os monges devem evitar ostentá-la. Mas ele quer todos os seus santos rigores, e o gênio da Regra a imprime em todos os detalhes materiais relacionados à comunidade ou às pessoas. Em algumas palavras inspiradas, ele desapega o monge de todo bem visível, seja ele qual for, e o põe num estado de dependência que lembra de maneira tocante o estado em ficou o divino crucificado. Quando Deus suscitou na Igreja a ordem franciscana, esta só teria que imitar São Bento, se seus discípulos tivessem querido observar o capítulo trinta e três da Regra.” Por que essa pobreza? – “Os bens deste mundo quando possuídos, possuem também. A virtude de pobreza é o sacrifício de todos os bens exteriores feito com o desapego do coração e da vontade. O que há nesta terra que seja digno da alma humana? Nada que aparece, nada que é criado, nada que pertence à ordem sensível é digno da alma, mas unicamente e acima de tudo Deus, Deus conhecido, amado, possuído pela esperança até que seja possuído na beatitude. A pobreza cristã é o desprendimento de tudo o que não é Deus.” Se nos apegamos a uma criatura, fazemos injúria a Deus… “Não há nada pequeno em matéria de pobreza, como não há nada pequeno em matéria de castidade.” “O Pe. Muard queria que a pobreza em espírito e interior fosse uma das características marcantes de sua família religiosa. Sejamos pobres: 1. “Pobres em nossa maneira de apreciar, de julgar, de administrar a si mesmo. O que pede a pobreza? O sacrifício do supérfluo, a restrição do útil; ela tende a se limitar ao necessário e indispensável. Aí está o espírito de pobreza. Impossível carregar o peso da pobreza procurando as comodidades da vida. Quando nos encontramos diante de uma privação, que nosso primeiro movimento seja: “Em boa hora! Deo gratias!”[97] É Deus que no-la dá para sua glória. Se Ele quer que careçamos de tudo, ainda melhor! Os bons monges devem amar a pobreza especialmente quando ela vem acompanhada de privações e de desconforto. Onde está o mérito de um pobre a quem não falta nada?” 2. “Pobres em nossas relações com as pessoas da comunidade encarregadas de prover as nossas necessidades. O domínio do pobre, segundo São Bento, se reduz somente à esperança em Deus e em seu Abade. Um pobre só tem direito à sua pobreza. “TODAS AS COISAS NECESSÁRIAS DEVEM ESPERAR DO PAI DO MOSTEIRO, lê-se na Regra. NÃO SEJA LÍCITO A NINGUÉM POSSUIR O QUE O ABADE NÃO TIVER DADO OU PERMITIDO”[98]. “Esperar, aguardar da autoridade o que é indispensável: alimentação, vestuário, alojamento… mas como convém a pobres. Esperar o necessário daquele que é o pai do mosteiro não exclui absolutamente o pedido; ao contrário, pois o pedido é um ato de indigência, de dependência e de humildade.” – Pode-se pedir tudo o que se deseja? – “Sob pretexto de permissões obtidas pode-se ter a seu uso muitas coisas; ao útil segue o agradável, o supérfluo leva ao luxo. Isso não é espírito de pobreza!…” “Mostrar-se delicado, difícil, é isso a pobreza? São exigentes, logo não são pobres. O verdadeiro pobre está sempre contente com o que lhe é dado. Dão-lhe tal coisa: muito bem! Perfeito! Não é novo? Que importa! Não está bom? Coma sempre com a bênção de Deus! Aí está o espírito de pobreza.” “É preciso lembrar que somos pobres e querer ser tratados como pobres.” “É graças a uma multidão de pequenas circunstâncias que se reconhecem os verdadeiros pobres. É fácil discerni-los!” O Pe. Muard dizia que a santa pobreza seria “o verdadeiro tesouro dos beneditinos do Sagrado Coração”, que ela devia “brilhar por toda parte”[99]. “Todo o edifício religioso repousa sobre a pobreza. Os Padres da Igreja, os Doutores diziam que a pobreza alimenta a vida religiosa, porque a vida interior se apóia necessariamente sobre a penitência, e a penitência não poderia subsistir sem a pobreza.” 5. – O SAGRADO CORAÇÃO ÍNDICE O Pe. Muard escreveu em suas Constituições: “As virtudes que devem constituir o espírito de nossa Sociedade são as virtudes por excelência do Sagrado Coração de Jesus e do Imaculado Coração de sua Mãe.” É o motivo pelo qual ele coloca sua sociedade “sob o patronato do Sagrado Coração de Jesus e do Imaculado Coração de Maria”[100]. “É preciso que nos lembremos como de algo essencial que fomos consagrados pelo nosso fundador ao Sagrado Coração de Jesus, sob a proteção de Santa Margarida Maria. Somos filhos do Sagrado Coração de uma maneira muito especial, por sua vontade, pela vontade de nosso santo fundador. Nós lhe pertencemos para sempre e temos, assim, direito às suas riquezas. Devemos usufruir delas.” Para o senhor, o que é o Sagrado Coração? – “O Sagrado Coração? Mas é Nosso Senhor Jesus Cristo! Digo Sagrado Coração, porque desde minha entrada em religião tomo sempre como referência o Pe. Muard e Santa Margarida Maria… Mas é a devoção a Nosso Senhor Jesus Cristo! La Pierre-qui-Vire foi fundada sob a proteção obrigatória do Sagrado Coração de Jesus. É realmente Nosso Senhor Jesus Cristo, é seu Coração. E para nós, filhos do Pe. Muard, não há em que hesitar.” As duas comunidades de En-Calcat e de Santa Escolástica são especialmente consagradas ao Sagrado Coração… “Foi num movimento de seu Coração, por um apelo bem distinto, que Ele fez surgir as duas comunidades. Sim, nós somos do Sagrado Coração. Foi Ele quem dirigiu as duas fundações. Ele quem, até hoje, nos protegeu sem cessar, como Ele sabe fazer. Sem a sua assistência, não somente não teríamos podido começar, mas seríamos incapazes de continuar. E, a esta altura, o que nos teríamos tornado?” “Somos mesmo os filhos do Coração de Nosso Senhor, sob a Regra de São Bento. Quando se é chamado, como o fomos, à honra de professar a Regra de São Bento numa casa que o próprio Sagrado Coração edificou, é preciso não negligenciar nada para manter-se nas fileiras desta falange dos verdadeiros amigos do Coração de Jesus. Oh! que o Coração de Jesus dê a cada um de nós o dom mais precioso que Ele pode dar, o dom do amor verdadeiro. Compreender o que é o amor, nos dispor a amar. Que Ele nos conceda concentrar neste amor por Ele toda nossa vida espiritual. A vida espiritual se subdivide, se distingue em virtudes, ela tem inúmeros graus, mas é tirada do amor que Nosso Senhor nos tem e do amor que Ele espera de nós. Que bela vocação, meus caros filhos, e que meio Deus nos dá de corresponder a ela pela Regra de São Bento e por toda ordenação de nosso estado monástico! Não é de se admirar que as primeiras manifestações do Sagrado Coração de Jesus, as menos conhecidas talvez, mas as mais antigas e as mais autênticas se tenham operado à sombra do claustro beneditino. Não é de se admirar que Nosso Senhor tenha escolhido um dos seus servidores mais obscuros e mais desprezados ainda, para colocar sob a Regra e na Ordem de São Bento toda uma falange de beneditinos e de beneditinas. O Coração de Jesus quer manifestar seu amor até a consumação dos séculos. Consagremo-nos a Ele, cada um em particular e de todo o coração. Mas este não deve ser um ato passageiro de nossa piedade; é preciso que em nossa consagração haja uma espécie de contrato entre o Coração de Jesus e os nossos corações.” Que recebemos neste contato permanente com o Coração de Jesus? – “O amor… O amor quer o amor. O amor procura o amor!” Então tornamo-nos um perfeito beneditino, um monge vivendo sua Regra. “O coração se lança vigorosamente para seu amor principal, as aspirações e as esperanças vêm em seguida… Deus não põe limites às graças que Ele quer nos dar. Por que colocamos limites às nossas esperanças, aos nossos desejos? Somos pequenos, pequenos por essência, mas grandes por pertencer à Igreja, pelo batismo, pela confirmação, pelos sacramentos, pelas graças recebidas, e é preciso fazer o que diz o profeta: “Dilata os tuum et implebo illud”[101]. “Dilatai vosso coração!” Que ele não seja trêmulo, pusilânime, mas que exulte de esperança sobrenatural por causa dos méritos infinitos de Nosso Senhor. Mais uma vez, Nosso Senhor nos impõe limites? Absolutamente. Ele nos impele a receber.” “Nossa vocação é a santidade. A santidade adquirida, resposta necessária ao Amor divino, é isso o que nos foi pedido e que devemos dar sem limites. É a lição quotidiana de Jesus às nossas almas. Ele nos espera no Cenáculo da vida interior que é “Ele em nós e nós n’Ele”, noite e dia, em companhia e na solidão, no meio das ocupações ou no vagar, através das palavras ou no bem-aventurado silêncio. Se Ele permanece conosco e nós com Ele, isto basta. O Amor está presente, Ele reina e comunica sua vida, e esta vida é de Deus e se eleva sem cessar para Deus. Ela permanece e se comunica. A vida interior é Jesus presente, conhecido, amado e nunca suficientemente servido, na calma, na paz, numa morte aparente e numa vida muito intensa.” “Mas, se a vida de Jesus quer realmente se esconder nas aparências da nossa, ela não quer ser limitada, nem desfigurada, nem alterada, nem constrangida, nem interrompida, nem condicionada. Essa vida divina e humana quer pouco a pouco absorver, elevar e divinizar a nossa.” – Como fazer para não atrapalhá-la? – “Peçamo-la e deixemos Jesus realmente livre para nos conduzir. Ele sabe que por nossas próprias forças não poderíamos nos dar a santidade, e Ele se encarrega disso.” Ele quer que sejamos santos… “Nosso Senhor necessita de santos e de santas para renovar o mundo e divinizar a terra.” – É por isso que Ele chama certas almas à vida monástica… “É preciso santos e santas entre nós, ou então a Obra não durará. Há uma proporção entre a santidade e a duração dos mosteiros. Vi muitas fundações. Quando não há o puro espírito de Deus e a santidade, não há êxito. O que conduziu tantos mosteiros ao fundo do abismo foi a predominância do natural em relação ao sobrenatural, da sabedoria humana sobre a divina.” “Nossos mosteiros devem ser casas de santidade. Jesus quer a santidade para as duas famílias. Ele só as abençoará na proporção dos esforços nesse sentido. Nossa divisa é: “sint sancti aut non sint.”[102] [1] Alusão à expressão que S. Francisco de Assis usava ao se referir ao corpo (N. do T.). [2] “Guia e mestre divinamente instruido”. [3] Gên. XII, 1. [4] Gên. XII, 1. [5] Pe. Muard. Constituições. Introdução. [6] Pe. Muard. Constituições, Introdução. [7] Regra. Prólogo [8] Regra. Capítulo I. “Dos gêneros de monges” [9] Regra. Capítulo 58. “Da maneira de proceder à recepção dos irmãos” (“Apresentando-se alguém para a conversão dos costumes.”) [10] Regra. Prólogo [11] Regra. Capítulo 7. “Da humildade” [12] Regra. Capítulo 4. “Quais são os instrumentos das boas obras” [13] Regra. Prólogo [14] Regra. Prólogo [15] Regra. Capítulo II. “Como deve ser o Abade” [16] Seqüência da Missa de Corpus Christi [17] “Da obediência” [18] Luc. X, 16 [19] Jo. XXI, 16: “Apascenta meus cordeiros, apascenta minhas ovelhas”. [20] Pe. Muard. Constituições. Capítulo 2. [21] Pe. Muard. Constituições. Capítulo II [22] Regra. Capítulo VII. “Da humildade” [23] Subdivisão de província, entre religiosos (N. do T.). [24] Regra.Capítulo LVIII. “Da maneira de proceder à recepção dos irmãos.” [25] Ibidem [26] Regra. Capítulo LVIII. [27] Regra. Capítulo LVIII.Ibidem [28] III Livro dos Reis 19, 11: “Deus não se encontra na perturbação”. [29] Imitação de Cristo. Livro I Cap.XVII. [30] Salmo XVIII, 6: “Dá saltos como gigante a percorrer o seu caminho”. [31] Regra, Capítulo VII “Da Humildade”. [32] Isaías, LXII, 4: “Serás chamada: Minha vontade está nela”. [33] Regra, Capítulo V. “Da obediência” [34] Provérbios, XXIII, 26 [35] S. Mateus, XIX, 21: “Se queres ser perfeito, vai, vende tudo e dá o seu valor aos pobres”. [36] Regra. Capítulo XXXIII. “Se os monges devem possuir alguma coisa de próprio”: “absolutamente nada”. [37] Ver adiante, capítulo IV, 4. “O espírito de pobreza”, p. [38] Regra. Capítulo IV. “Quais são os instrumentos das boas obras”. 63º instrumento: “amar a castidade”. [39] I S. Pedro, I, 22. [40] Idem à nota 38 [41] Regra. Capítulo XLIII. “Dos que chegam tarde ao Ofício Divino ou à mesa”. [42] Ibidem [43] Père Muard. Constituições. Introdução, p. 6. – Alusão ao episódio em que Moisés orava sobre a montanha enquanto os hebreus lutavam na planície. Quando Moisés abaixava os braços, os hebreus começavam a perder a batalha e quando Moisés os mantinha elevados, os hebreus levavam a melhor sobre os seus inimigos (N. do T.). [44] Regra. Capítulo X. “Como será celebrado no verão o louvor divino”. [45] Estação – reunião dos monges em formação de procissão antes de entrar no coro para os ofícios (N. do T.). [46] Regra. Capítulo XIX. “Da maneira de salmodiar.” [47] Jeremias, XXXIII, 11 [48] Isaías, VI, 3. [49] Regra. Capítulo 19. “Da maneira de salmodiar” [50] Santo Agostinho. Enarrationes. P. L. XXXVII. 1817. [51] Santo Agostinho. En. P. L. XXXVI. 693. Trata-se aqui da Igreja, Corpo Místico de Cristo (N. do T.). [52] Regra. Capítulo 19. “Da maneira de salmodiar” [53] Ibidem. Salmo XLVI, 8. [54] Ibidem: “Tal seja a nossa presença na salmodia, que nossa mente concorde com nossa voz”. [55] Lucas, XII, 49: “Eu vim trazer fogo à terra; e o que quero eu, senão que ele se acenda?”. [56] Salmo LXVII, 33: “Cantai a Deus”. [57] Salmo XCVII, 5: “Cantai salmos com cítara”. [58] Regra. Capítulo XIII. “Como serão realizadas as Matinas…”: “Como canta a Igreja Romana”. [59] Regra. Capítulo VII. “Da humildade”. [60] Regra. Capítulo IV. “Quais são os instrumentos das boas obras”. [61] Pe. Muard. Constituições. Capítulo XII, p. 74. [62] Subjetivo aqui não se opõe a objetivo ou a realista, mas significa “o que pertence ao sujeito”. É sinônimo de pessoal (N. do T.). [63] Salmo XXXIII, 9. [64] Os métodos dizem respeito sobretudo ao primeiro grau da oração, que é a meditação. Em seguida é necessário deixá-los pouco a pouco, na medida em que a alma chega a uma maior simplicidade. Seria um erro obrigar os contemplativos a nunca deixarem a meditação e os métodos. Isto iria de encontro à ação de Deus nas almas (N. do T.). [65] Regra. Capítulo XX. “Da reverência na oração”. [66] Regra Capítulo LII “Do Oratório do Mosteiro” [67] Regra. Prólogo: “Escuta, filho”. [68] Regra. Capítulo XLVIII. “Do trabalho manual cotidiano”. [69] Casta virgindade da verdade. [70] Regra. Capítulo XLVIII. “Do trabalho manual cotidiano”. [71] Ibidem. [72] Regra. Capítulo LXVI. “Do porteiro do mosteiro”. [73] Regra. Capítulo XLVIII. [74] Pe. Muard. Constituições. Capítulo VI. [75] Pe. Muard. Constituições. Capítulo IX, p. 52 [76] Ibidem, p. 53 [77] Pe. Muard. Constituições. Introdução, p.4. [78] Ibidem, p.5. [79] Ibidem, p.6. [80] Ibidem, p.5. [81] Regra. Capítulo XXXVIII. “Do leitor semanário”. [82] Regra. Capítulo XXXIX. “Da medida da comida”. [83] Pe. Muard. Constituições. Capítulo VIII, p.50 [84] Regra. Capítulo XXII. “Como devem dormir os monges“. [85] Amor de Cristo [86] Pe. Muard. Constituições. Capítulo IV. [87] Regra. Capítulo VII. “Da humildade”. [88] Pe. Muard. Constituições. Capítulo IV. [89] Regra. Capítulo VII. “Da humildade”. [90] Lamentações de Jeremias III, 28: “Sentar-se-á solitário e ficará em silêncio”. [91] Regra. Capítulo VI. “Do silêncio”. [92] Salmo XXXVIII,2. [93].Capítulo VII. “Da humildade”. [94] Pe. Muard. Constituições. Capítulo VII. [95] Pe. Muard. Constituições. Capítulo VII. [96] Regra. Capítulo XXXIII. “Se os monges devem possuir alguma coisa de próprio”. [97] Demos graças a Deus. [98] Regra. Capítulo XXXIII. “Se os monges devem possuir alguma coisa de próprio”. [99] Pe. Muard. Constituições. Capítulo VI. [100] Pe. Muard. Constituições. Introdução. [101] Salmo LXXX ,11. [102] “Ou sejam santos ou não sejam monges”. #DoutrinaMonástica

  • Quas Primas

    CARTA ENCÍCLICA QUAS PRIMAS DO SUMO PONTÍFICE PIO XI SOBRE CRISTO REI aos Veneráveis Irmãos Patriarcas, Primazes, Arcebispos, Bispos e Outros Ordinários em paz e comunhão com a Sé Apostólica: sobre Cristo Rei. Veneráveis Irmãos, saúde e bênção apostólica. INTRODUÇÃO. 1. Na primeira Encíclica, dirigida, em princípios do nosso Pontificado, aos Bispos do mundo inteiro, indagamos a causa íntima das calamidades que, ante os nossos olhos, avassalam o gênero humano. Ora, lembra-nos haver abertamente declarado duas coisas: uma — que esta aluvião de males sobre o universo provém de terem a maior parte dos homens removido, assim da vida particular como da vida pública, Jesus Cristo e sua lei sacrossanta; a outra — que baldado era esperar paz duradoura entre os povos, enquanto os indivíduos e as nações recusassem reconhecer e proclamar a Soberania de Nosso Salvador. E por isso, depois de afirmarmos que se deve procurar “a paz de Cristo no reino de Cristo”, manifestamos que era intenção nossa trabalhar para este fim, na medida de nossas forças. “No reino de Cristo”, — dizíamos; porque, para restabelecer e confirmar a paz, outro meio mais eficiente não deparávamos, do que reconhecer a Soberania de Nosso Senhor. Com o correr do tempo, claramente pressentimos o raiar de dias melhores, quando vimos o zelo dos povos em acudir, — uns pela primeira vez, outros com renovado ardor, — a Cristo e à sua Igreja, única dispensadora da salvação: sinal manifesto de que muitos homens, até o presente como que desterrados do reino do Redentor, por desprezarem sua autoridade, preparam, ainda bem, e levam a efeito sua volta à obediência. PREPARAÇÃO PROVIDENCIAL DA NOVA FESTA. O ANO SANTO. 2. Quanto, ao depois, sobreveio, quanto aconteceu no decorrer do “Ano Santo”, digno, na verdade, de eterna memória, porventura não concorreu eficazmente para a honra e glória do Fundador da Igreja, de sua soberania, de sua suprema realeza? Exposição Missionária. Realizou-se, primeiro, a “Exposição Missionária”, que, nos corações e nos espíritos dos homens, produziu tão profunda impressão. Ali vimos os incansáveis trabalhos empreendidos pela Igreja, para dilatar cada vez mais o reino de seu Esposo, em todos os continentes, em todas as ilhas, até nas mais longínquas, perdidas no oceano. Vimos quantos países nossos heroicos e destemidos missionários conquistaram ao catolicismo à custa de seus suores, de seu sangue,. Vimos as imensas regiões que ainda ficam por sujeitar ao domínio benfazejo de nosso Rei. Peregrinações jubilares. Realizaram-se, em seguida, romarias, vindas a Roma, durante o Ano Santo, de todas as partes do mundo, e guiadas por seus Bispos ou sacerdotes. Que motivos impeliam esses peregrinos, senão o desejo de purificarem suas almas e de proclamarem, junto ao Sepulcro dos Apóstolos e em Nossa presença, que estão e querem permanecer sob a autoridade de Cristo? Canonizações. Por fim, conferimos a seis Confessores ou Virgens as honras dos Santos, depois de cabalmente provadas suas admiráveis virtudes. Não brilhou, nesse dia, com novo fulgor, o reino de Jesus? Que gozo, que consolação não foi para Nossa alma, depois de proferirmos os decretos definitivos, ouvir, no majestoso recinto de S. Pedro, a imensa multidão dos fiéis aclamar com uma só voz, entre cantos de ação de graças, a realeza gloriosa de Cristo — “Tu Rex gloriae, Christe!” Num tempo em que indivíduos e estados, joguetes das sedições nascidas do ódio e discórdias civis, se precipitam para a ruína e a morte, a Igreja de Deus, prosseguindo a dar ao gênero humano o alimento da vida espiritual, gera e continua a educar para Cristo gerações sucessivas de Santos e Santas, e Cristo, por sua vez, não cessa de chamar à eterna felicidade do seu reino celeste quantos se Lhe demonstraram súditos fiéis e submissos de seu reino terrestre. Centenário do Concílio de Nicéia. Com o grande jubileu coincidiu o 16.° centenário do Concílio de Nicéia. Mandamos festejar este aniversário secular, e Nós mesmo o comemoramos na Basílica Vaticana, com tanto melhor grado, que este Concílio definiu e proclamou dogma de fé católica a “consubstancialidade” do Unigênito de Deus com seu Pai, e, inserindo em sua fórmula de fé, ou “Credo”, as palavras: “cujo reino não terá fim — cujus regni non erit finis” — com isto mesmo afirmou a dignidade real de Cristo. Súplica em favor de Cristo-Rei. 3. Portanto, já que este ano jubilar, em mais de uma ocasião, contribuiu para pôr em realce a realeza de Cristo, julgamos cumprir um dos atos mais próprios do Nosso ofício apostólico, acedendo às súplicas, assim individuais como coletivas, de numerosos Cardeais, Bispos ou fiéis, e encerrar este ano com introduzir na liturgia da Igreja uma festa especial em honra de Nosso Senhor Jesus Cristo Rei. Este argumento temo-lo tanto a peito, Veneráveis Irmãos, que desejamos entreter-nos dele convosco alguns instantes. Empenho vosso será, depois, tornar acessível à inteligência e aos sentimentos populares quanto dissermos sobre o culto de “Cristo-Rei”, de modo que a nova festa anual produza agora e no porvir múltiplos frutos. FUNDAMENTO DOUTRINAL DA NOVA FESTA. Cristo-Rei no sentido metafórico. 4. Muito há que a linguagem corrente dá a Cristo o nome de “Rei em sentido metafórico e transposto”. “Rei” é Cristo, com efeito, atenta a eminente e suprema perfeição com que sobrepuja a todas as criaturas. Assim, dizemos que “reina sobre as inteligências humanas”, por causa da penetração do seu espírito e da extensão de sua ciência, mas sobretudo porque é a própria Verdade em pessoa, de quem, portanto, é força que recebam rendidamente os homens toda verdade. Dizemos que “reina sobre as vontades humanas”, porque n’Ele se alia a indefectível santidade do divino querer com a mais reta, a mais submissa das vontades humanas; e também porque suas inspirações entusiasmam nossa vontade livre pelas causas mais nobres. Dizemos, enfim, que é “Rei dos corações”, por causa daquela inefável “caridade que excede a toda humana compreensão” (Ef 3, 19); e porque sua doçura e sua bondade atraem os corações: pois nunca houve, no gênero humano, e nunca haverá quem tanto amor tenha ateado como Cristo Jesus. Cristo Deus-Homem Rei da Humanidade em sentido próprio. 5. Aprofundemos sempre mais o nosso argumento. É manifesto que o nome e o poder de “Rei”, no sentido próprio da palavra, competem a Cristo em sua Humanidade, porque só de Cristo enquanto homem é que se pode dizer: do Pai recebeu “poder, honra e realeza” (Dan 7, 13-14). Enquanto Verbo, consubstancial ao Pai, não pode deixar de Lhe ser em tudo igual e, portanto, de ter, como Ele, a suprema e absoluta soberania e domínio de todas as criaturas. Testemunho do Antigo Testamento. 6. Que Cristo seja Rei, não o lemos nós na Escritura? Ele é o “Dominador oriundo de Jacob” (Num 24, 19), Ele o “Rei, dado pelo Pai a Sião, sua Santa Montanha, para receber em herança as nações, e dilatar seu domínio até os confins da Terra” (Sl 2, 6. 8), Ele o verdadeiro “Rei vindouro” de Israel, que o cântico nupcial nos representa sob os traços de um soberano opulento e poderoso, a quem se dirigem estas palavras: “O teu trono, ó Deus, subsistirá por todos os séculos: a vara de retidão é a vara de teu reino” (Sl 44, 7). Omitindo muitos passos análogos, em outro lugar, como para delinear com maior nitidez a fisionomia de Cristo, vem predito que seu reino desconhecerá fronteiras e desfrutará os tesouros da justiça e da paz. “Nos dias d’Ele, aparecerá justiça e abundância de paz… E dominará de mar a mar, e desde o rio até os confins da Terra” (SL 71, 7-8). A esses testemunhos, juntam-se mais numerosos ainda os oráculos dos Profetas, e notadamente a tão conhecida profecia de Isaías: “Já um Pequenino se acha nascido para nós, e um filho nos foi dado, e foi posto o principado sobre o seu ombro; e o nome com que se apelide será Admirável, Conselheiro, Deus, Forte, Pai do futuro século, Príncipe da Paz. O seu império se estenderá cada vez mais, e a paz não terá fim; assentar-se-á sobre o trono de David e sobre o seu reino, para o firmar e fortalecer em juízo e justiça, desde então e para sempre” (Is 9, 6-7). 7. Não é outro o modo como se expressam os demais Profetas. Assim fala Jeremias, quando prenuncia à descendência de David “um germe de justiça”, esse filho de David, que reinará como Rei, “será sábio e obrará segundo a equidade e justiça na Terra” (Jer 23, 5). Assim Daniel, quando prediz a constituição por Deus de um reino “que não será jamais dissipado… e que durará eternamente” (Dan 2, 44). E pouco depois acrescenta: “Eu considerava estas coisas numa visão de noite, e eis que vi um, como o Filho do Homem, que vinha com as nuvens do Céu, e que chegou até o Antigo dos dias; e eles o apresentaram diante d’Ele. E Ele Lhe deu o poder, e a honra, e o reino; todos os povos, e tribos e línguas o servirão: o seu poder é um poder eterno, que Lhe não será tirado, e o seu reino tal, que não será jamais corrompido” (Dan 7, 13-14). Assim Zacarias, quando profetiza a entrada em Jerusalém, entre as aclamações do povo, do “Justo e Salvador”, do Rei cheio de mansidão “montado sobre uma jumenta, e sobre o potrinho da jumenta” (Zac 9, 9). E não apontaram os Evangelistas o cumprimento desta profecia? Testemunho do Novo Testamento. 8. Esta doutrina de “Cristo Rei”, que acabamos de esboçar segundo os livros do Antigo Testamento, bem longe de apagar-se nas páginas do Novo, vem ali, ao invés, confirmada do modo mais esplêndido e em termos admiráveis. Bastará lembrar apenas a mensagem do Arcanjo à Virgem, a anunciar-lhe que dará à luz um Filho; a este Filho, Deus outorgará “o trono de David, seu pai, e reinará eternamente na casa de Jacob, e seu reino não terá fim” (Lc 1, 32-33). Ouçamos agora o testemunho do próprio Cristo no tocante à sua soberania. Sempre que se Lhe oferece ensejo, — em seu último discurso ao povo, sobre a recompensa e os castigos que, na vida eterna, aguardam os justos e os maus; em sua resposta ao governador romano que Lhe perguntara se era Rei; depois de sua ressurreição, quando confia aos Apóstolos a missão de instruírem e batizarem todas as nações, — reivindica o título de “Rei” (Mt 25, 31-40), e publicamente declara que é “Rei” (Jo 18, 37) e que “todo poder Lhe foi dado no Céu e sobre a Terra” (Mt 28, 18). Que entende com isto, senão afirmar a extensão de sua potência, a imensidade do seu reino? À vista disto, deverá fazer-nos estranheza que S. João o proclame “Príncipe dos reis da terra? (Apoc 1, 5) ou que, aparecendo o próprio Jesus ao mesmo Apóstolo em suas visões proféticas “traga escrito no vestido e na coxa: Rei dos reis e Senhor dos senhores”? (Apoc 19, 16). O Pai, com efeito, constituiu a Cristo “herdeiro de todas as coisas” (Heb 1, 1). Cumpre que reine até o fim dos tempos, quando “arrojará todos os seus inimigos sob os pés de Deus e do Pai” (1 Cor 15, 25). Testemunho da Liturgia. 9. Desta doutrina comum a todos os livros santos, naturalmente dimana a seguinte conseqüência: justo é que a Igreja Católica, reino de Cristo na Terra, chamada a estender-se a todos os homens, a todas as nações do universo, multiplicando os preitos de veneração, celebre, no ciclo anual da Liturgia Santa, a seu Autor e Instituidor como a Rei, como a Senhor, como a Rei dos reis. Com admirável variedade de fórmulas, estas homenagens expressam um e o mesmo pensamento; desses títulos servia-se a Igreja outrora no divino ofício e nos antigos sacramentados; repete-os ainda agora, nas preces públicas, que todos os dias dirige à Infinita Majestade e na oblação da Hóstia Imaculada. Nesse louvor ininterrupto de Cristo-Rei, nota-se para logo a formosa harmonia dos nossos ritos com os ritos orientais, verificando-se aqui também a verdade, do prolóquio: “as normas da oração confirmam os princípios da Fé”. Argumento teológico. 10. O fundamento sobre que pousa esta dignidade e poder de Nosso Senhor, define-o exatamente S. Cirilo de Alexandria, quando escreve: “Numa palavra, possui o domínio de todas as criaturas, não pelo ter arrebatado com violência, senão em virtude de sua essência e natureza” (In Lucam, 10). Esse poder dimana daquela admirável união que os teólogos chamam de “hipostática”. Portanto, não só merece Cristo que anjos e homens O adorem como a seu Deus, senão que também devem homens e anjos prestar-Lhe submissa obediência como a Homem. E assim, só em força dessa união, a Cristo cabe o mais absoluto poder sobre todas as criaturas, posto que, durante sua vida mortal, renunciasse ao exercício desse domínio. — Mas haverá, outrossim, pensamento mais suave do que refletir que Cristo é nosso Rei não só por direito de natureza, mas também a título de Redentor? Lembrem-se os homens esquecidos de quanto custamos a nosso Salvador. “Não fostes resgatados a preço de coisas perecíveis, prata e ouro, mas com o sangue precioso de Cristo, como de cordeiro sem mancha nem defeito” (1 Ped 1, 18-19). Já nos não pertencemos, pois que deu Cristo por nós “tão valioso resgate” (1 Cor 6, 20). Até nossos corpos são “membros de Cristo” (1 Cor 6, 15). ÍNDOLE DA REALEZA DE CRISTO A Cristo-Rei cabe o poder legislativo, judicial, executivo. 11. Para dizer, em poucas palavras, a importância e índole desta realeza, será apenas necessário asserir que abrange um tríplice poder constitutivo, essencial de toda realeza verdadeira. Provam-no de sobejo os testemunhos de toda a Escritura no tocante à dominação universal de nosso Redentor, e é artigo de fé católica: Cristo Jesus foi dado aos homens não só como Redentor, que lhes merece toda confiança, mas também como Legislador, a quem devemos prestar obediência (Conc. Trid., Sess. 6, can. 21). E com efeito, não dizem os Evangelhos tão só que promulgou leis, mas no-lo representam no ato de promulgar as leis. A quantos observarem os seus preceitos, declara o Divino Mestre, em várias ocasiões e de diversos modos, que com isto mesmo Lhe hão de provar o seu amor e permanecer em sua caridade (Jo 14, 15); 15, 10). — Quanto ao “poder judicial”, declara o próprio Jesus havê-lo recebido de seu Pai, em resposta aos judeus, que o haviam acusado de violar o descanso do sábado, curando milagrosamente, neste dia, a um paralítico. “O Pai, disse-lhes o Salvador, não julga a ninguém, mas deu todo juízo ao Filho” (Jo 5, 22). Esse poder judicial igualmente inclui o “direito”, — que se não pode dele separar, — de “premiar” e “punir” aos homens, mesmo durante a vida. — A Cristo compete o “poder executivo”, porquanto devem todos sujeitar-se ao seu domínio, e quem for rebelde não poderá evitar a condenação e os suplícios, que Jesus prenunciou. Realeza espiritual. 12. Esta realeza, porém, é principalmente interna e respeita sobretudo a ordem espiritual. Provam-no com toda evidência as palavras da Escritura acima referidas, e, em muitas circunstâncias, o proceder do próprio Salvador. Quando os judeus, e até os Apóstolos, erradamente imaginavam que o Messias libertaria seu povo para restaurar o reino de Israel, Jesus desfez o erro e dissipou a ilusória esperança. Quando, tomada de entusiasmo, a turba, que O cerca, O quer proclamar rei, com a fuga furta-se o Senhor a estas honras, e oculta-se. Mais tarde, perante o governador romano, declara que seu reino “não é deste mundo”. Neste reino, tal como no-lo descreve o Evangelho, é pela penitência que devem os homens entrar. Ninguém, com efeito, pode nele ser admitido sem a fé e o batismo; mas o batismo, conquanto seja um rito exterior, figura e realiza uma regeneração interna. Este reino opõe-se ao reino de Satanás e ao poder das trevas; de seus adeptos exige o desprendimento não só das riquezas e dos bens terrestres, como ainda a mansidão, a fome e sede da justiça, a abnegação de si mesmo, para carregar com a cruz. Foi para adquirir a Igreja que Cristo, enquanto “Redentor”, verteu o seu sangue; para isto é, que, enquanto “Sacerdote”, se ofereceu e de contínuo se oferece como vítima. Quem não vê, em conseqüência, que sua realeza deve ser de índole toda espiritual, e participar da natureza deste seu duplo ofício? 13. Todavia, fora erro grosseiro denegar a Cristo Homem a soberania sobre as coisas temporais todas, sejam quais forem. Do Pai recebeu Jesus o mais absoluto domínio das criaturas, que Lhe permite dispor delas todas como Lhe aprouver. Contudo, enquanto viveu sobre a Terra, absteve-se totalmente de exercer este domínio temporal, e desprezou a posse e regimento das coisas humanas, que deixou — e deixa ainda — ao arbítrio e domínio dos homens. Verdade graciosamente expressa no conhecido verso: “Não arrebata diademas terrestres, quem distribui coroas celestes. — Non eripit mortalia, qui regna dat caelestia” (Hino Crudelis Herodes, of. da Epif.). Realeza universal. 14. Assim, pois, a realeza do nosso Redentor abraça a totalidade dos homens. Sobre este ponto, de muito bom grado fazemos Nossas as palavras seguintes de Nosso Predecessor Leão XIII, de imortal memória: “Seu império não abrange tão só as nações católicas ou os cristãos batizados, que juridicamente pertencem à Igreja, ainda quando dela separados por opiniões errôneas ou pelo cisma: estende-se igualmente e sem exceções aos homens todos, mesmo alheios à fé cristã, de modo que o império de Cristo Jesus abarca, em todo rigor da verdade, o gênero humano inteiro” (Encícl. Annum Sacrum, 25 de Maio de 1899). E, neste particular, não cabe fazer distinção entre os indivíduos, as famílias e os estados; pois os homens não estão menos sujeitos à autoridade de Cristo em sua vida coletiva do que na vida individual. Cristo é fonte única de salvação para as nações como para os indivíduos. “Não há salvação em nenhum outro; porque abaixo do Céu nenhum outro nome foi dado aos homens, pelo qual nós devamos ser salvos” (At 4, 12). Dele provêm ao estado como ao cidadão toda prosperidade e bem-estar verdadeiro. “Uma e única é a fonte da ventura, assim para as nações como para os indivíduos, pois outra coisa não é a cidade mais que uma multidão concorde de indivíduos” (S. Aug., Epíst. ad Macedonium, c. 3). Não podem, pois, os homens de governo recusar à soberania de Cristo, em seu nome pessoal e no de seus povos, públicas homenagens de respeito e submissão. Com isto, sobre estearem o próprio poder, hão de promover e aumentar a prosperidade nacional. BENEFÍCIOS SOCIAIS DESTA REALEZA Crise da autoridade. 15. Ao subirmos à cátedra pontifical, deplorávamos o lastimável decaimento em que vemos abatido o prestígio do direito e a reverência à autoridade. Quanto então dizíamos não é hoje menos atual ou oportuno. “Excluídos da legislação e dos negócios públicos Deus e Jesus Cristo, e derivando, os que regem, o seu poder, não já do alto, mas dos homens, aconteceu que ruiu o próprio fundamento da autoridade, em conseqüência de estar removida a razão fundamental do direito que a uns assiste de mandar, e da obrigação conseqüente que têm outros de obedecer. Seguiu-se daí forçosamente um abalo na humana sociedade inteira, falha assim de amparo e sustentáculo firme” (Encícl. Ubi arcano, DP 19). Se soubessem resolver-se os homens a reconhecer a autoridade de Cristo em sua vida particular e pública, para logo deste ato dimanariam em toda a humanidade incomparáveis benefícios: —: uma justa liberdade, a ordem e o sossego, a concórdia e a paz. No interior dos estados. 16. Com dar à autoridade dos príncipes e chefes de governo certo caráter sagrado, a dignidade real de Nosso Senhor enobrece com isto mesmo os deveres e a sujeição dos cidadãos. Tanto assim que o Apóstolo S. Paulo, depois de prescrever às mulheres casadas e aos escravos de reconhecerem a Cristo na pessoa de seus maridos e senhores, lhes recomendava, ainda assim, de obedecerem não servilmente, como a homens, mas tão só em espírito de fé como a representantes de Cristo, porque ,é indigno de uma alma resgatada por Cristo obedecer com servilismo a um homem. “Fostes resgatados com grande preço: não estejais sujeitos já como escravos a homens” (1 Cor 7, 23). Se os príncipes e governos legitimamente constituídos tivessem a persuasão de que regem menos no próprio nome do que em nome e lugar do Rei Divino, é manifesto que usariam do seu poder com toda a prudência, com toda a sabedoria possíveis. Em legislar e na aplicação das leis, como haveriam de atender ao bem comum e à dignidade humana de seus súbditos! Então floresceria a ordem, então víramos difundir-se e firmar-se a tranquilidade e a paz; embora o cidadão reconhecesse nos príncipes e chefes de governo homens iguais a si pela natureza ou mesmo, por algum respeito, indignos ou repreensíveis, não deixaria por isto de lhes obedecer, por depreender neles a imagem e autoridade de Cristo, Deus-Homem. Vantagens sociais para as nações. 17. Pelo que respeita à concórdia e à paz, é manifesto que, quanto mais vasto é um reino, quanto mais largamente abraça o gênero humano, tanto é maior a consciência em seus membros do vínculo de fraternidade que os une. Esta consciência, assim como remove e dissipa os frequentes conflitos, assim também atenua e suaviza os amargores que dos conflitos nascem. E se o reino de Cristo abarcara de fato, como de direito abarca, as nações todas, porque deveríamos perder a esperança dessa paz que à Terra veio trazer o Rei pacífico, esse Rei que veio “para reconciliar todas as coisas” (Col 1, 20), “que não veio para ser servido, mas para servir aos outros” (Mc 10, 45) e que, embora “Senhor de todos” (Gál 4, 1), deu exemplo de humildade e principalmente inculcou esta virtude, de envolta com a caridade, acrescentando: “Meu jugo é suave, e é leve minha carga” (Mt 11, 30). Oh! que ventura não pudéramos gozar, se os indivíduos, se as famílias, se a sociedade se deixasse reger por Cristo! “Então, finalmente — para citarmos as palavras que, há 25 anos, Nosso Predecessor Leão XIII dirigia aos Bispos do mundo inteiro — então fora possível sanar tantas feridas; o direito recobrara seu antigo viço, seu prestígio de outras eras; então tornaria a paz com todos os seus encantos e cairiam das mãos armas e espadas, quando todos de bom grado aceitassem o império de Cristo, Lhe obedecessem, e toda língua proclamasse que “Nosso Senhor Jesus Cristo está na glória de Deus Padre” (Ene. Annum Sacrum). A FESTA DE JESUS CRISTO-REI 18. E a fim de que a sociedade cristã goze largamente de tão preciosas vantagens e para sempre as conserve, é mister que se divulgue quanto possível o conhecimento da dignidade real de Nosso Salvador. Ora, nada pode, pelo que Nos parece, conseguir melhor este resultado, do que a instituição de uma festa própria e especial em honra de Cristo-Rei. Influência da liturgia na vida cristã. 19. Com efeito, para instruir o povo nas verdades da fé e levá-lo assim às alegrias da vida interna, mais eficazes que os documentos mais importantes do Magistério eclesiástico são as festividades anuais dos sagrados mistérios. Os documentos do Magistério, de fato, apenas alcançam um restrito número de espíritos mais cultos, ao passo que as festas atingem e instruem a universalidade dos fiéis. Os primeiros, por assim dizer, falam uma vez só, as segundas falam sem intermitência de ano para ano; os primeiros dirigem-se, sobretudo, ao entendimento; as segundas influem não só na inteligência, mas também no coração, quer dizer — no homem todo. Composto de corpo e alma, precisa o homem dos incitamentos exteriores das festividades, para que, através da variedade e beleza dos sagrados ritos, recolha no ânimo a divina doutrina, e, transformando-a em substância e sangue, tire dela novos progressos em sua vida espiritual. Origem histórica e providencial das festas na Igreja. 20. Além disso, ensina-nos a própria história, que estas festividades litúrgicas foram introduzidas, no decorrer dos séculos, umas após outras, para responder a necessidades ou vantagens espirituais do povo cristão. Foram-se constituindo para fortalecer os ânimos em presença de algum perigo comum, para premunir os espíritos contra os ardis da heresia, para mover e inflamar os corações a celebrar com mais ardente piedade algum mistério de nossa fé ou algum benefício da divina graça. Assim é que, desde os primeiros tempos da era cristã, quando, acossados das mais cruentas perseguições, os fiéis começaram, com sagrados ritos, a comemorar os mártires, para que — como diz S. Agostinho — “as solenidades dos mártires fossem exortação ao martírio” (Sermo 47, de Sanctis). As honras litúrgicas, mais tarde decretadas aos confessores, às virgens, às viúvas, contribuíram singularmente para promover nos fiéis o zelo pela virtude, indispensável mesmo em tempo de paz. Especialmente as festas em honra da Virgem Beatíssima fizeram com que o povo cristão não só tributasse à Mãe de Deus, sua Protetora por excelência, culto mais assíduo, senão que ao mesmo tempo fosse de contínuo crescendo seu amor filial à Mãe que o Redentor lhe deixara como que em testamento. Dentre os benefícios que dimanaram do culto público e legitimamente prestado à Mãe de Deus e aos Santos do Céu, não é o menor a vitória constante com que a Igreja se cobriu de louros, ao debelar e repelir a heresia e o erro. E nisto devemos admirar os desígnios da Divina Providência, que, segundo costuma, tira o bem do mal. Permitiu que, de tempos a tempos, entibiasse a fé e a piedade popular; permitiu que doutrinas errôneas armassem insídias à piedade católica, mas sempre com o intuito de fazer finalmente fulgir a verdade com novo esplendor e mover os fiéis, despertos da tibieza, a tenderem com novo zelo a graus mais elevados de santidade e perfeição cristã. Idêntica é a origem, idênticos os frutos que produziram as solenidades recentemente introduzidas no calendário litúrgico. Tal é a festa do “Corpus Christi”, instituída quando se esfriava a reverência e o culto para com o SS. Sacramento; celebrada com brilho singular, protraída por oito dias de suplicações coletivas, a nova solenidade devia reconduzir os povos à adoração pública do Senhor. Tal é a festa do Coração Santíssimo de Jesus estabelecida na época em que, abatidos e desalentados pelas tristes doutrinas e o rigorismo sombrio do jansenismo, os fiéis sentiam seus corações regelados e com escrúpulo, deles excluíam todo sentimento de amor de Deus e a esperança de conseguirem a eterna salvação. Oportunidade da festa. 21. Para Nós também soou a hora de provermos às necessidades dos tempos presentes e de opormos um remédio eficaz à peste que corrói a sociedade humana. Fazemo-lo, prescrevendo ao universo católico o culto de Cristo-Rei. Peste de nossos tempos é o chamado “laicismo”, com seus erros e atentados criminosos. Excessos do laicismo. 22. Como bem sabeis, Veneráveis Irmãos, não é num dia que esta praga chegou à sua plena maturação; há muito, estava latente nos estados modernos. Começou-se, primeiro, a negar a soberania de Cristo sobre todas as nações; negou-se, portanto, à Igreja o direito de doutrinar o gênero humano, de legislar e reger os povos em ordem à eterna bem-aventurança. Aos poucos, foi equiparada a religião de Cristo aos falsos cultos e indecorosamente rebaixada ao mesmo nível. Sujeitaram-na, em seguida, à autoridade civil, entregando-a, por assim dizer, ao capricho de príncipes e governos. Houve até quem pretendesse substituir à religião de Cristo um simples sentimento de religiosidade natural. Certos estados, por fim, julgaram poder dispensar-se do próprio Deus e fizeram consistir sua religião na irreligião e no esquecimento consciente e voluntário de Deus. Frutos perniciosos do laicismo. 23. Os frutos sobremodo amargos que, tantas vezes e com tanta persistência, produziu esta apostasia dos indivíduos e dos estados, que desertam a Cristo, lamentamo-los na Encíclica “Ubi arcano”. Tornamos a lamentá-los hoje. Frutos desta apostasia são os germes de ódio esparsos por toda parte, as invejas e rivalidades entre nações, que alimentam as discórdias internacionais e dificultam ainda agora a restauração da paz; frutos desta apostasia as ambições desenfreadas, que muitas vezes se encobrem com a máscara do interesse público e do amor da pátria, e suas tristes consequências: dissensões civis, egoísmo cego e desmedido, sem outro fito nem outra regra mais que vantagens pessoais e proveitos particulares. Fruto desta apostasia a perturbação da paz doméstica, pelo esquecimento e desleixo das obrigações familiares, o enfraquecimento da união e estabilidade no seio das famílias, e por fim o abalo na sociedade toda, que ameaça ruir. Pusilanimidade de certos católicos. 24. A festa, doravante anual, de “Cristo-Rei” dá-nos a mais viva esperança de acelerarmos a tão desejada volta da humanidade a seu Salvador amantíssimo. Fora, com certeza, dever dos católicos, apressar e preparar esta volta com diligente empenho; a muitos deles, contudo, pelo que parece, não toca, na sociedade civil, o posto e a autoridade que conviriam aos apologistas da fé. Talvez deva este fato atribuir-se à indolência e timidez dos bons que se abstêm de toda resistência, ou resistem com moleza, donde provém, nos adversários da Igreja, novo acréscimo de pretensões e de audácia. Mas, desde que a massa dos fiéis se compenetre de que é obrigação sua combater com valentia e sem tréguas sob os estandartes de Cristo-Rei, o zelo apostólico abrasará seus corações, e todos se esforçarão de reconciliar com o Senhor as almas que o ignoram ou dele desertaram; todos, enfim, se esforçarão por manter inviolados os direitos do próprio Deus. Protesto e reparação. 25. Mas não basta. Uma festa, anualmente celebrada por todos os povos em homenagem a Cristo-Rei, será sobremaneira eficaz para condenar e ressarcir, de algum modo, esta apostasia pública, tão desastrada para as nações, gerada pelo laicismo. Com efeito, quanto mais vergonhosamente se passa em silêncio, quer nas conferências internacionais, quer nos Parlamentos, o nome suavíssimo do nosso Redentor, tanto mais alto o devemos aclamar, tanto mais devemos reconhecer os direitos que a Cristo conferem sua dignidade e poder real. CONVENIÊNCIAS ATUAIS DA INSTITUIÇÃO DA FESTA. Precedentes da festa de Cristo-Rei. 26. E quem não vê que, desde os últimos anos do século passado, se ia, de modo admirável, preparando o caminho à instituição desta festa? Ninguém, com efeito, ignora como, com livros que se escreveram nas várias línguas do mundo inteiro, este culto foi explicado e doutamente defendido. Sabem todos que a autoridade e realeza de Cristo foi já reconhecida pela piedosa prática de se consagrarem e dedicarem ao Sagrado Coração de Jesus famílias inumeráveis. E não só famílias, mas também estados e reinos praticaram o mesmo ato. Antes, por iniciativa e direção de Leão XIII, o universo gênero humano foi felizmente consagrado a este Coração Santíssimo, no correr do Ano Santo de 1900. Não se deve passar em silêncio que, para confirmar solenemente esta soberania de Cristo sobe a sociedade humana, serviram de modo maravilhoso os frequentíssimos Congressos eucarísticos que costumam celebrar-se em nossos tempos, e cuja finalidade é convocar os fiéis de cada uma das dioceses, regiões, nações e mesmo do mundo inteiro, para venerar e adorar a Cristo Rei, escondido sob os véus eucarísticos; e por meio de discursos nas assembleias e nas igrejas, da adoração em comum do augusto Sacramento publicamente exposto e de soleníssimas procissões, proclamar a Cristo como o Rei que nos foi dado pelo céu. Este Jesus, que os ímpios recusaram acolher quando veio a seu reino, pode-se dizer, com toda a verdade, que o povo cristão, movido de uma inspiração divina, vai arrancá-l’O ao silêncio e, por assim dizer, à obscuridão dos templos, para levá-l’O, qual triunfador, pelas ruas das grandes cidades e reintegrá-1’O em todos os direitos de sua realeza. Excelentes disposições dos fiéis ao saírem do jubileu. 27. Para a realização deste Nosso desígnio, de que acabamos de falar, oferece-Nos ensejo sumamente oportuno o “Ano Santo” que finda. Este ano veio relembrar ao espírito e ao coração dos fiéis os bens celestes que sobrepujam todo sentimento natural. Em sua bondade infinita, Deus restitui a uns a sua graça, e confirma a outros no bom caminho, infundindo-lhes novo ardor para aspirarem a dons mais perfeitos. Quer atendamos às numerosas súplicas que nos foram dirigidas, quer consideremos os acontecimentos que se deram no correr do “Ano Santo”, sobeja razão nos assiste de pensarmos que deveras para Nós soou a hora de proferirmos a sentença tão ansiosamente de todos aguardada e que decretemos uma festa especial em honra de Cristo, Rei de todo o gênero humano. Durante este ano, com efeito, como a princípio dissemos, este divino Rei, deveras admirável em seus Santos, conquistou novos triunfos, com a elevação às honras dos altares de mais um manípulo de soldados seus. Durante este ano, uma exposição extraordinária pôs ante os olhos do mundo as fadigas e, de algum modo, os próprios trabalhos dos arautos do Evangelho, e todos puderam admirar as vitórias ganhas por esses campeões de Cristo, para a extensão do seu reino; durante este ano, finalmente, com o centenário do Concílio de Nicéia, comemoramos, contra os seus detratores, a defesa e definição do dogma da consubstancialidade do Verbo Humanado com seu Pai, verdade na qual descansa, como em fundamento, a soberania de Cristo sobre todos os povos. Data e modalidade da festa. 28. Portanto, em virtude de Nossa autoridade apostólica, instituímos a festa de “Nosso Senhor Jesus Cristo Rei”, mandando que seja celebrada cada ano, no mundo inteiro, no último domingo de Outubro, isto é, no domingo que antecede imediatamente à solenidade de Todos os Santos. Prescrevemos igualmente que, cada ano, se renove, nesse dia, a consagração do gênero humano ao Coração de Jesus, que já Nosso Predecessor de saudosa memória Pio X ordenara se fizesse anualmente. Contudo, queremos que, neste ano, a renovação se faça a 31 de Dezembro; nesse dia, celebraremos missa pontifical em honra de “Cristo-Rei”, e mandaremos proferir, em Nossa presença, o ato de consagração. Quer parecer-Nos que não pode haver melhor encerramento do “Ano Santo”, e que destarte daremos a “Cristo, Rei Imortal dos séculos”, o testemunho mais eloquente de nossa gratidão e do reconhecimento do universo católico, de quem Nos fazemos intérpretes, pelos benefícios que, neste período de graças, concedeu a Nós mesmo, à Igreja, à cristandade toda. Objeto formal da nova festa. 29. É escusado, Veneráveis Irmãos, explicar-vos longamente os motivos de uma festa especial em honra de “Cristo-Rei”. Pois, conquanto outras festas, já existentes, enalteçam e de algum modo glorifiquem sua dignidade real, basta, contudo, observar que, se todas as festas de Nosso Senhor têm a Cristo, segundo a linguagem dos teólogos, por “objeto material”, de modo algum é o poder e apelativo de Rei “objeto formal” das mesmas. Seu lugar no ciclo litúrgico. 30. Fixando a nova festa em um domingo, quisemos que o clero não fosse o único em prestar suas homenagens a “Cristo-Rei”, com a celebração do Santo Sacrifício e a reza do Santo Ofício, mas que o povo, desimpedido de suas ocupações ordinárias, e animado de santa alegria, pudesse dar a Cristo, como a seu Senhor e Soberano, um manifesto testemunho de obediência. Finalmente mais apropriado Nos pareceu o último domingo de Outubro, porque este domingo, em certo modo, encerra o ciclo do ano litúrgico; destarte, os mistérios da vida de Jesus Cristo, comemorados no decorrer do ano que finda, terão na solenidade de “Cristo-Rei” seu como termo e coroa, e antes de celebrar a glória de todos os Santos, a liturgia proclamará e enaltecerá a glória d’Aquele que em todos os Santos e em todos os eleitos triunfa. É dever, é direito vosso, Veneráveis Irmãos, fazer preceder a festa por uma série de instruções que se deem, em dias determinados, nas diferentes paróquias, para instruir acuradamente o povo da natureza, significado e importância desta festa, por onde os fiéis regulem a sua vida em modo a torná-la digna de súbditos leais e submissos de coração à soberania do Divino Rei. Esperanças e augúrios. 31. Ao encerrarmos esta carta, quiséramos ainda, Veneráveis Irmãos, expor-vos brevemente os frutos, que, tanto para a Igreja e a sociedade civil, como para cada um dos fiéis, esperamos deste culto público prestado a Cristo-Rei. Melhor compreensão dos direitos da Igreja. 32. A obrigação de tributar à soberania de Nosso Senhor as homenagens, a que nos referimos, relembra, juntamente, aos homens os direitos da Igreja. Instituída por Cristo, que lhe deu a forma orgânica de sociedade perfeita, exige, em virtude deste direito, que dimana de sua origem divina e que ela não pode abdicar, a plena liberdade, a independência absoluta do poder civil. No desempenho de sua divina missão, de ensinar, reger e conduzir à eterna felicidade todos os membros do reino de Cristo, não pode, de modo algum, depender de vontade estranha. Antes, idêntica liberdade deve o estado conceder às ordens e congregações religiosas de ambos os sexos, pois são os auxiliares mais firmes dos Pastores da Igreja, os que mais eficazmente se empenham em difundir e confirmar o reinado de Cristo, primeiro debelando em si, com a profissão religiosa, o mundo e sua tríplice concupiscência, e depois, pelo fato de haverem abraçado uma profissão de vida mais perfeita, fazendo resplandecer aos olhos de todos, com fulgor contínuo e cada dia crescente, esta santidade de que o divino Fundador quis fazer uma nota distinta de sua Igreja autêntica. Restauração do culto público e oficial. 33. Com a celebração anual desta festa hão de relembrar-se, outrossim, os Estados que aos governos e à magistratura incumbe a obrigação, bem assim como aos particulares, de prestar culto público a Cristo e sujeitar-se às suas leis. Lembrar-se-ão também os chefes da sociedade civil do juízo final, quando Cristo acusará aos que o expulsaram da vida pública, e a quantos, com desdém, o desprezaram ou desconheceram; de tamanha afronta há de tomar o Supremo Juiz a mais terrível vingança; seu poder real, com efeito, exige que o Estado se reja totalmente pelos mandamentos de Deus e os princípios cristãos, quer se trate de fazer leis, ou de administrar a justiça, quer da educação intelectual e moral da juventude, que deve respeitar a sã doutrina e a pureza dos costumes. Grande impulso à piedade dos fiéis. 34. Que energias, além disso, que virtude não poderão os fiéis haurir da meditação destas verdades, para amoldar seus espíritos aos princípios verdadeiros da vida cristã! Se todo o poder foi dado ao Senhor Jesus, no céu e na terra, se os homens, resgatados pelo seu sangue preciosíssimo, se tornam, com novo título, súditos de seu império, se, finalmente, este poder abraça a natureza humana em seu conjunto, é claro que nenhuma de nossas faculdades se pode subtrair a essa realeza. É mister, pois, que reine em nossas inteligências: com plena submissão, com adesão firme e constante, devemos crer as verdades reveladas e os ensinos de Cristo. É mister que reine em nossas vontades: devemos observar as leis e os mandamentos de Deus. É mister que reine em nossos corações: devemos mortificar nossos afetos naturais, e amar a Deus sobre todas as coisas. É mister que reine em nossos corpos e em nossos membros: devemos transformá-los em instrumentos, ou, para falarmos com S. Paulo (Rom 6, 13), “em armas de justiça, oferecidas a Deus”, para aumento da santidade de nossas almas. Eis os pensamentos que, propostos à reflexão dos fiéis e atentamente ponderados, hão de facilmente levá-los a mais elevada perfeição. Augúrio final. 35. Praza a Deus, Veneráveis Irmãos, que os homens, afastados da Igreja, procurem e aceitem, para salvação de suas almas, o jugo suave de Cristo. Quanto a nós todos, por divina misericórdia, súbditos e filhos seus, queira Deus que levemos este jugo, não de má vontade, mas com prazer, mas com amor, mas santamente. Assim, no decorrer de uma vida pautada pelas leis do reino do céu, recolheremos, alegres, grande cópia de frutos, e mereceremos que Cristo, reconhecendo-nos por bons e fiéis servidores de seu reino terrestre, nos admita, depois, a participar com Ele da eterna felicidade e da glória sem fim em seu reino celeste. Aceitai, Veneráveis Irmãos, ao decorrerem as festas natalícias do Senhor, este presságio e este augúrio, como prova de Nosso paternal afeto, e, como penhor de divinos favores, recebei a bênção apostólica, que, com toda a alma, vos concedemos a Vós, Veneráveis Irmãos, ao vosso clero e à vossa grei. Dada em Roma, junto a S. Pedro, aos 11 de Dezembro do Ano Santo de 1925, quarto do Nosso Pontificado. PIO PP. XI #DoutrinadosPapas

  • Expulsão de Dom Williamson

    Expulsão de Dom Williamson Dom Williamson está expulso da Fraternidade São Pio X. Uma tal medida só pode ser ou um ato de justiça ou de injustiça. Quem está em melhores condições de julgar é a autoridade competente. Não duvidamos disto. Esta autoridade é a autoridade máxima na Fraternidade São Pio X. Logo, em princípio, ela é justa e ortodoxa. Se a autoridade que condena Dom Williamson é justa, então Dom Williamson é culpado. Mas os acontecimentos destes últimos meses, para não dizer anos, nos dá o direito de nos perguntar. Culpado de quê? De ter aderido ao Vaticano II? Muito pelo contrário. Culpado de ter desobedecido a Dom Fellay? É o que dizem. Examinemos, pois esta acusação, se para tanto tivermos alguma competência. Creio que temos uma competência externa fundada nos fatos públicos. Não é um veredicto da autoridade competente, mas é um alarme, uma indagação, uma perplexidade fundada em fatos reais e controláveis, como no caso de Dom Lefebvre, condenado por Paulo VI e João Paulo II. Os fiéis também julgaram que aquela condenação era injusta. Eles não eram juízes competentes, mas a fé estava em jogo. E eles julgaram e acertaram. Façamos como eles, honestamente, procurando a verdade, pois é disto que se trata: da verdade, da fé católica, da honra de Deus. Quando há desobediência? Quando, por espírito de revolta, se recusa a obedecer a uma ordem legítima de um superior. Toda desobediência é motivo de expulsão? Quando ela é pertinaz e sem fundamento, fruto de má vontade, ela merece penas cada vez maiores que podem culminar numa expulsão. Sem entrar na vida interna da Fraternidade São Pio X e em tudo o que se passou entre Menzingen e Dom Williamson ao longo dos anos, vou me ater ao que é de domínio público e que, aparentemente, é a causa da sua expulsão. Dom Williamson criticou a conduta de Menzingen. Dois outros bispos também. Alguns membros da Fraternidade também. Comunidades amigas também. Muitos fiéis também. E criticaram o que? Criticaram uma aproximação desastrosa com a Roma modernista, seguida de uma diminuição notável na defesa pública da fé e no combate aos erros do Vaticano II e do governo atual da Igreja. E isto por quê? Porque nesta luta contra o liberalismo nós lutamos juntos e tudo o que diz respeito a este combate nos diz respeito também. E qual foi a resposta de Menzingen? Os senhores não têm espírito sobrenatural nem realismo. Quais foram as decisões de Menzingen? Dom Williamson excluído do Capítulo Geral. Dominicanos e capuchinhos excluídos das ordenações de Ecône. Padres da Fraternidade ameaçados de expulsão. Em seguida, o superior da Fraternidade São Pio X declarou: “Enganei-me e fui enganado”. E os que não se enganaram, nem enganaram Menzingen? O que é feito deles? São honrados? Louvados pela sua clarividência? Reabilitados? Não. Alguns não são inquietados, mas outros são ameaçados ou expulsos. Curiosa maneira de se agir com os que acertaram. Mas talvez Menzingen não considera que os três bispos e os padres e algumas comunidades amigas e alguns fiéis tenham acertado. Talvez o que Menzingen lamenta é outra coisa. Talvez seja o fato de que Roma enganou Menzingen. Mas confiar na Roma modernista, não é precisamente falta de realismo? Talvez, mas Menzingen não concorda com a carta dos três bispos e, sobretudo, não concorda com Dom Williamson. E Dom Williamson? Tem ele direito de não concordar com Menzingen? Tem ele direito de falar publicamente de sua discordância? Tem ele direito de vir ao Brasil administrar a crisma no mosteiro do Pe. Jahir Britto e no mosteiro da Santa Cruz, assim como em Vitória e em Maringá? Muitos dirão que não. Dom Williamson tem que se calar e não sair de Londres. Qualquer outra atitude é contrária à obediência. Aqui fazemos uma pergunta: Dom Williamson deve ficar calado, vendo o que lhe parece ser a destruição progressiva do espírito de Dom Lefebvre no seio da Tradição? Em outras palavras: Dom Williamson deve se calar diante do progressivo crescimento da ala liberal da Tradição? Mas que ala é essa? Isto existe na Tradição? Isto é um insulto, dirão alguns. Mas se esta ala não existe, então por que Menzingen quer tanto um acordo com Roma sem que Roma tenha se convertido? Se esta ala não existe, por que o Capítulo Geral de 2012 não confirmou as decisões do Capítulo Geral de 2006? Se esta ala não existe, por que o livro do Pe. Cellier “Bento XVI e os Tradicionalistas” foi massivamente difundido? Se esta ala não existe, por que os três bispos a denunciam, de certa forma, na sua carta a Dom Fellay e seus assistentes? Se esta ala não existe, por que os Padres Cardozo, Pfeiffer, Chazal, Trincado estão expulsos ou em via de expulsão da Fraternidade? Por pura desobediência, dirão alguns. Pura desobediência? E as razões dadas por estes padres? E as razões dadas por Dom Williamson? E as declarações de Dom Fellay que contrastam tão fortemente com as de Dom Lefebvre? Que refutação tiveram estes argumentos? Que reparação tiveram as declarações de Dom Fellay? Mas Dom Lourenço refutou os argumentos de D. Williamson no seu artigo “O dia em que a Terra parou”. Infelizmente as razões de Dom Lourenço não são consistentes. Dar seis condições para um acordo é desejar um acordo. Desejar um acordo é diferente da posição de Dom Lefebvre que exigia depois de 1988, antes de sentar-se de novo à mesa das negociações, que o Papa desse sua inteira adesão às encíclicas de seus predecessores que condenaram os erros modernos. São os princípios que regem nossa ação. Abandonar este princípio é entrar na via das ambiguidades, típicas dos liberais. Acordo é uma palavra que não tem direito de cidadania na situação atual. Não se faz acordos em matéria doutrinal, em matéria de fé. A palavra certa é conversão. Sim, para isto nós rezamos e trabalhamos, para a conversão do Santo Padre, de Dom Fellay, e de todos os que, por falta de espírito sobrenatural, ou realismo, tomam caminhos que não são aqueles que nossos mestres nos ensinaram e que as palavras de Nosso Senhor resumem tão bem: sim, sim; não, não, o resto vem do maligno. Este artigo já estava escrito quando saiu a carta aberta de Dom Williamson. Ela explica tudo isto muito melhor do que qualquer outro texto. É esta carta que deve ser lida e meditada por todos que não têm nada mais caro neste mundo do que a honra de Nosso Senhor e o seu reino sobre a sociedade e sobre cada um de nós. Que os sofrimentos desta crise sirvam para a propagação deste reino. Ir. Tomás de Aquino 24 de outubro de 2012 #Atualidades

  • A Visibilidade da Igreja e a Situação Atual

    A VISIBILIDADE DA IGREJA E A SITUAÇÃO ATUAL Apresentamos aqui alguns extratos de uma conferência de Dom Marcel Lefebvre. A dita conferência tem várias qualidades. Além de tratar com profundidade da questão da visibilidade de Igreja em meio à crise terrível que atravessamos, traz o pensamento autêntico de Dom Marcel Lefebvre, tal como ele o expôs aos seus padres pouco tempo depois de Dom Gérard Calvet ter feito seu acordo com o Vaticano, respondendo a alguns argumentos teológicos que este desenvolveu numa publicação do jornal Présent do dia 18 de agosto de 1988. Mesmo se em determinadas cartas, como é natural, S. Exa. tenha falado com maiores cuidados na esperança de mover os adversários a compreender e aceitar a Tradição, não resta dúvida de que seu pensamento estava longe de aceitar o Vaticano II ou a Missa de Paulo VI. Dom Lefebvre responde, assim, com antecedência aos argumentos que tentam justificar a atual posição de Campos. Nossa tradução é tirada da revista Fideliter 66 de novembro/dezembro de 1988, p. 27-31). Dom Marcel Lefebvre Meus caros Padres, Penso que vós que saístes dos seminários e que, estais agora exercendo o ministério e que desejastes guardar a Tradição, vós que desejastes ser padres para sempre, como foram os santos padres de outrora, todos os santos vigários e os santos sacerdotes que nós mesmos pudemos conhecer nas paróquias. Vós continuais e representais verdadeiramente a Igreja Católica. Acredito que é necessário convencer-vos disso: “representais verdadeiramente a Igreja Católica”. A Igreja Visível Não quero dizer que inexista Igreja fora de nós; não se trata disso. Mas há pouco tempo, disseram-nos que é necessário que a Tradição entre na Igreja visível. Penso que se comete aí um erro muito grave. Onde está a Igreja visível? A Igreja visível é reconhecida pelos sinais que ela sempre deu de sua visibilidade: ela é una, santa, católica e apostólica. Eu vos pergunto: onde estão os verdadeiros sinais da Igreja? Estão eles na Igreja oficial (não se trata de Igreja visível, mas da Igreja oficial) ou conosco, no que representamos, no que somos? É evidente que somos nós que guardamos a unidade da fé, que desapareceu da Igreja oficial. Um Bispo acredita nisso, outro já não acredita, a fé é diversa, seus catecismos abomináveis estão cheios de heresias. Onde está a unidade da fé em Roma? Onde está a unidade da fé no mundo? Fomos nós que a guardamos. A unidade da fé espalhada no mundo inteiro é a catolicidade. Ora, esta unidade da fé no mundo inteiro, não existe mais, não existe mais catolicidade. Existem tantas Igrejas católicas quantos Bispos e Dioceses. Cada um possui sua maneira de ver, de pensar, de pregar, de fazer seu catecismo. Não existe mais catolicidade. E a Apostolicidade? Eles romperam com o passado. Se eles fizeram algo, foi exatamente isso. Eles não desejam mais o que é anterior ao Concílio Vaticano II. Vede o Motu proprio do Papa que nos condena, ele diz muito bem: “a Tradição viva é o Vaticano II”: não se deve reportar mais a fatos anteriores ao Vaticano II, isso não significa nada. A Igreja guarda a Tradição de século em século. O que passou passou, desapareceu. Toda a Tradição encontra-se na Igreja de hoje. Qual é esta Tradição? A que ela se liga? Como ela se liga ao passado? É o que lhes permite dizer o contrário do que foi dito outrora, sempre pretendendo que somente eles guardaram a Tradição. É o que nos pede o Papa: que nos submetamos à Tradição viva. Nós possuiríamos um conceito equivocado de Tradição, visto que ela é viva e evolutiva. Mas, isto é o erro modernista: o Santo Papa Pio X, na encíclica Pascendi, condenou estes termos: “Tradição viva, Igreja viva, fé viva”, etc, no sentido que os modernistas os entendem, ou seja, da evolução que depende das circunstâncias históricas. A verdade da Revelação, a explicação da Revelação, dependeria das circunstâncias históricas. A Apostolicidade: nós nos vinculamos aos Apóstolos pela autoridade. Meu sacerdócio vem através dos Apóstolos; vosso sacerdócio vem através dos Apóstolos. Nós somos filhos daqueles que nos deram o episcopado. Nosso episcopado descende do Santo Papa Pio V e através dele chegamos até aos Apóstolos. Quanto à Apostolicidade da fé, nós cremos na mesma fé que foi a dos Apóstolos. Nós não mudamos nada e nem queremos mudar nada. E enfim, a santidade. Não nos faremos louvores e cumprimentos. Se não quisermos considerar a nós mesmos, consideremos os outros, e consideremos os frutos de nosso apostolado, os frutos vocacionais, de nossas religiosas e também dentro das famílias cristãs. Boas e santas famílias cristãs germinam, graças a vosso apostolado. É um fato, ninguém o pode negar. Mesmo nossos visitantes progressistas de Roma constataram a boa qualidade de nosso trabalho. Quando Mons. Perl disse às irmãs de Saint-Pré e às irmãs de Fanjeaux que é com base como a delas que se deverá reconstruir a Igreja, não é um pequeno elogio. Tudo isso mostra que somos nós que possuímos os sinais da Igreja visível. Se ainda existe uma visibilidade da Igreja hoje em dia, é graças a vós. Estes sinais, não se encontram mais nos outros. Não existe mais neles unidade da fé; ora, é precisamente a fé que é a base de toda a visibilidade da Igreja. A catolicidade é a fé no espaço. A Apostolicidade é a fé no tempo, e a santidade é o fruto da fé, que se concretiza nas almas pela graça do bom Deus, pela graça dos sacramentos. É completamente falso considerar-nos como se não fizéssemos parte da Igreja visível. É inacreditável. É a Igreja oficial que nos rejeita, não somos nós que rejeitamos a Igreja, longe de nós. Ao contrário, nós estamos sempre unidos à Igreja romana e mesmo ao Papa, evidentemente, ao sucessor de Pedro. Penso que devemos ter esta convicção para não cair nos erros que estão sendo espalhados agora. Sair da Igreja? Evidentemente, poderão objetar-nos: “Deve-se, obrigatoriamente, sair da Igreja visível para não perder sua alma, sair da sociedade dos fiéis unidos ao Papa?” Não somos nós, mas os modernistas que saíram da Igreja. Quanto a dizer “sair da Igreja VISÍVEL” é equivocar-se assemelhando Igreja oficial e Igreja visível. Nós pertencemos à Igreja visível, à sociedade dos fiéis sob a autoridade do Papa, pois, não recusamos a autoridade do Papa, mas o que ele faz. Nós reconhecemos que o Papa tem autoridade, mas quando ele a usa para fazer o contrário daquilo que lhe é facultado fazer, é evidente que não podemos segui-lo. Sair, portanto, da Igreja oficial? Em uma certa medida, sim, evidentemente. Todo o livro de Jean Madiran, A Heresia do século XX, é a história das heresias dos Bispos. É necessário, portanto, que saiamos do meio destes Bispos, se não desejamos perder nossa alma. Mas isso não é suficiente, posto que é em Roma que a heresia se instalou. Se os Bispos são heréticos (mesmo sem tomar este termo no sentido e com as conseqüências do direito canônico), não é sem a influência de Roma. Se nós nos distanciamos deste tipo de gente, é com a mesma precaução que se toma para com as pessoas que estão com AIDS. Não queremos nos contaminar. Ora, eles estão com AIDS espiritual, uma doença contagiosa. Se quisermos guardar a saúde, não devemos aproximarmo-nos deles. Sim, o liberalismo e o modernismo se introduziram no Concílio e no interior da Igreja. São idéias revolucionárias e a Revolução, que encontrávamos na sociedade civil, passou para dentro da Igreja. O Cardeal Ratzinger não mais esconde esse fato: eles adotaram as idéias não da Igreja, mas do mundo e eles acham que devem fazê-las entrar na Igreja. Ora, as autoridades não mudaram sequer uma vírgula de suas idéias sobre o Concílio, o liberalismo e o modernismo. Eles são a anti-Tradição, Tradição como a Igreja compreende e como entendemos. Essa noção não entra no conceito deles. Pois sendo o conceito deles evolutivo, eles são contra essa Tradição fixa, na qual nós nos mantemos. Estimamos que tudo aquilo que nos ensina o catecismo nos vem de Nosso Senhor e dos Apóstolos e que nada mudou. Isto é claro. As três partes do catecismo nos vêm de Nosso Senhor. Por que mudá-las? Nós não podemos evoluí-las. O Credo, os Mandamentos de Deus, os meios de nos salvar, os Sacramentos, o Santo Sacrifício da Missa e a oração, tudo isso, vem diretamente de Nosso Senhor. Tudo isso, é nosso catecismo, que nos é dado, geralmente, com nosso batismo, que nos é colocado entre nossas mãos. Tudo isso é nosso estatuto, desde o momento que Nosso Senhor desejou que todos fossem batizados, que todos adotassem o Credo, o Decálogo, os Sacramentos que Ele instituiu, bem como o Santo Sacrifício da Missa e as orações. Para eles, não, tudo isso evolui e evoluiu com o Vaticano II. O fim atual da evolução é o Vaticano II. É por isso que nós não podemos nos ligar a Roma. Teria sido possível, se tivéssemos podido nos proteger completamente como, de fato, pedíamos. Mas eles não quiseram. Eles recusaram os membros que pedíamos para a comissão, eles recusaram o número de Bispos que pedíamos, recusaram o número de Bispos que eu lhes apresentei. Estava claro: eles não queriam que estivéssemos protegidos. Eles queriam ter-nos diretamente debaixo de seus golpes e poder, assim, impor-nos esta política anti-Tradição da qual eles estão imbuídos. Roma não mudou Um exemplo mostra-nos que nada mudou no espírito dos que estão em Roma: em 1º de maio (1988), em Veneza realizou-se um importante congresso sobre a liberdade religiosa nas atuais situações políticas. Esse congresso foi dirigido pelo reitor da Universidade de Latrão, Mons. Pierre Rossano, famoso por suas idéias liberais, e Mons. Pavan, que é o autor de, praticamente, todos os documentos sociológicos publicados desde o Papa João XXIII, de todos os documentos que dizem respeito à sociedade. As encíclicas dos Papas João XXIII, Paulo VI e João Paulo II foram praticamente redigidas por ele. É o grande pensador do Vaticano. Foram estes dois prelados que fizeram e dirigiram essa reunião de Veneza sobre a liberdade religiosa dentro das situações políticas. É muito interessante notar o que eles dizem a respeito da liberdade religiosa: “Mudança da concepção da liberdade religiosa”. Eles não se escondem. Eles falam da influência da Segunda Guerra mundial. Eles buscam motivações longínquas: já sob Pio XII realiza-se uma tomada de consciência da liberdade religiosa, realizada na tragédia da Segunda Guerra mundial. Isso permitiu, para utilizar uma frase estereotipada, A PASSAGEM DO DIREITO DA VERDADE AO DIREITO DA PESSOA. Examinemos um pouco melhor essa frase. O direito da verdade nos ensina que existe a liberdade da verdadeira religião, mas que o homem não possui a liberdade de escolher a sua religião, de escolher a verdade. Somos feitos e criados com inteligência e vontade livres, não resta a menor dúvida, mas essa liberdade só deve servir para nos fazer aderir à verdade e não a outra coisa. Pois um laço fundamental, essencial, une a liberdade e a verdade. Romper este laço para dizer: a partir de agora, compreendemos que não se trata mais de ligar liberdade com verdade, mas liberdade e natureza humana, é um erro fundamental. Nossa própria natureza, com a inteligência e a vontade, é feita para aderir à verdade. E, eis que agora (e os autores do congresso de Veneza o escreveram em seus relatórios) suprime-se o direito da verdade (que é o laço que por natureza une o sujeito à verdade) para colocar em seu lugar o direito da pessoa, um direito inteiramente independente. Esse direito estaria fundado sobre a natureza, mas considerada dentro de sua dignidade de sujeito livre, ou seja, autônomo e sem laços. E os ditos autores precisam que isso deve ser particularmente verdadeiro em matéria religiosa, que trata da orientação da vida. É preocupante. Como se pudéssemos mudar coisas tão profundas na natureza. Deus nos criou para a verdade, Ele não nos deu a liberdade para escolhermos o erro. Não é possível. Não temos o direito ao erro. Ora, praticamente, é a isto que conduz a liberdade religiosa: permitir à natureza de escolher livremente a sua verdade, é dar-lhe direito ao erro. E, segundo essa teoria, todos os países deveriam aceitar isso, sem se lhe opor no limite da ordem pública. Mas a ordem pública é muito extensa! Estas sociedades deveriam aceitar o ecumenismo, a laicização dos estados, a liberdade de culto. Elas deveriam reconhecer como diretivas tudo aquilo que o homem pode retirar de si mesmo, as idéias que puderem conceber, os conceitos religiosos forjados por eles mesmos. Depois da afirmação da liberdade religiosa, eles reafirmam o princípio absolutamente revolucionário da Declaração dos Direitos do homem. É verdadeiramente um princípio satânico: “non serviam”, “eu não quero servir”, não quero ser submisso à verdade. Mas se Deus nos impõem uma verdade, assim será. “Aquele que não crer será condenado”. Que exista a tolerância religiosa pelo fato das pessoas enganarem-se, é admissível, mas o princípio da liberdade religiosa não existe e não pode existir. Eu tinha que vos dizer isso, para que vejais bem, que Roma não mudou em nada. Não é uma acusação vazia, mas retirada dos relatórios oficiais da reunião de Veneza, que aconteceu recentemente: 1º de maio. O reitor da universidade de Latrão é a cabeça de toda a formação universitária da Igreja de Roma. São os representantes oficiais de Roma. E eis o que eles reafirmam. Nada mudou. Não podemos seguir pessoas como estas. São erros graves, profundos. Aconteça o que acontecer, devemos continuar, e o bom Deus nos mostra que seguindo esta via nós cumprimos o nosso dever. Não negamos a Igreja Romana. Não negamos a sua existência, mas não podemos seguir suas diretivas. Não podemos seguir os princípios do pós-Concílio. Nós não podemos ligar-nos a eles. Só existe uma Igreja,… a Igreja conciliar! Percebo a vontade de Roma de nos impor suas idéias e suas maneiras de ver. O Cardeal Ratzinger sempre me diz: “Mas Excelência, existe apenas uma Igreja, não se deve fazer uma Igreja paralela”. Qual é esta Igreja, para ele? A Igreja conciliar, é evidente. Quando ele nos disse explicitamente: “Evidentemente, se lhe damos, neste protocolo, alguns privilégios, o senhor deve, também, aceitar o que fazemos; e conseqüentemente, na Igreja São Nicolas-du-Chardonnet deve-se celebrar uma Missa Nova todos os domingos”, vós bem vedes que eles querem nos arrastar para a Igreja conciliar. Isso não é possível, pois, é claro que eles querem nos impor essas novidades para acabar com a Tradição. Eles não concederão nada por estima pela liturgia tradicional, mas, simplesmente, para enganar aqueles a quem eles o oferecem e para diminuir nossa resistência, encontrar uma brecha no bloco tradicional para destruí-lo. É a política deles, sua tática consciente. Eles não se enganam, e vós conheceis a pressão que eles fazem. Entre vós, alguns já foram pressionados pelo Bispo ou por outrem para deixardes a Tradição. Eles fazem esforços consideráveis em todos os lugares. As irmãs de Saint-Pré foram visitadas pelo Pe. Philippe que tentou doutriná-las. Mas vos asseguro que ele não foi recebido de braços abertos. O Bispo de Carcassonne ofereceu amizade e compreensão para com as irmãs de Fanjeaux e ao nosso Pe. Pozzera. E o bispo também foi devidamente convidado a se retirar. Mas eles continuam. Eles voltarão. O Pe. Innocent-Marie telefonou-me recentemente e me disse que ele estava sendo vítima de pressões do Bispo de Angers. Agora eles não cessarão de tentar nos capturar. É verdadeiramente incrível essa guerra movida contra a Tradição. […] Penso que se deve evitar tudo aquilo que puder manifestar, por meio de expressões muito duras, nossa desaprovação àqueles que nos deixam. Não devemos enchê-los de epítetos que podem ser vistos como injuriosos. Isso de nada nos serve, pelo contrário. Pessoalmente, sempre tive essa atitude para com aqueles que nos deixam – e Deus sabe quantas vezes isso aconteceu durante a história da Fraternidade; a história da Fraternidade é quase que a história das separações – Sempre tive como princípio: não mais ter relações, acabou. Eles nos deixaram, eles irão a outros pastores, a outros rebanhos: nenhuma relação mais. Tanto aqueles que partiram como “sedevacantistas” quanto aqueles que nos deixaram por não sermos suficientemente papistas, todos tentaram engolfar-nos em uma polêmica. Eu nunca respondi uma palavra. Rezo por eles, é tudo. […] #DomMarcelLefebvre

  • O papel da FSSPX na Igreja

    Conferência de Dom Lefebvre Buenos Aires – 13 de agosto de 1981 Senhoras e senhores: Sempre sinto grande alegria quando volto a esta formosa República Argentina. Já começo a conhecer o país, mas, infelizmente, não posso falar-lhes em espanhol e terei de recorrer ao padre Michel Faure para fazer-me entender. Sabemos que se formulam muitas perguntas acerca de minha atitude na Igreja, de minha posição na Igreja. Qual é a atitude de Monsenhor Lefebvre na Igreja Católica? Qual é a situação da Fraternidade Sacerdotal São Pio X no seio da Igreja? Quero responder a estas perguntas da maneira mais exata e correta. Para isso, creio que devemos considerar brevemente qual é a situação atual da Igreja e, dessa maneira, explicar as razões de nossa atitude e posição. Penso que me encontrando ante um auditório seleto, ante um auditório profundamente católico, profundamente cristão, não me será necessário insistir sobre qual foi a situação da Igreja até o Concílio Vaticano II. Pode-se dizer que, de modo geral, a Igreja, os homens da Igreja, nos tempos do Papa Pio XII, a quem conheci pessoalmente quando fui Delegado Apostólico para a África Francesa, eram muito diferentes dos atuais. Tive oportunidade de encontrar-me freqüentemente com Pio XII, todos os anos, durante onze anos. Posso dizer que, de maneira geral, nas Congregações Romanas e no Vaticano, existia um sentido muito profundo da fé católica. Trabalhava-se realmente para o reinado da Fé de Nosso Senhor Jesus Cristo, reinado sobre as pessoas, sobre as famílias e sobre a sociedade. Certamente, os senhores sabem que há quatro séculos realizaram-se grandes esforços para lutar contra essa doutrina católica, contra essa Fé na Igreja, mas o certo é que quando alguém ia ao Vaticano, verificava que a Fé Católica estava viva em todas essas Congregações romanas e ali se encontrava um apoio considerável, sobretudo para um bispo missionário como eu era. Naquela época, se necessitássemos esclarecer nossa fé sobre algum ponto da doutrina, era suficiente consultar a Congregação do Santo Ofício para obter resposta clara e precisa, conforme a Fé da Igreja e seu magistério. Não havia vacilação. Do mesmo modo, para conhecer que tipo de relações queria manter o Vaticano entre a Santa Sé e as sociedades civis, era suficiente dirigir-se à Secretaria de Estado que tinha, então, princípios muito claros e precisos em face dos Estados que não eram católicos ou com relação aos Estados inteiramente católicos. Lembro-me, por exemplo, de que no tempo do general Franco, na Espanha, o Papa Pio XII dizia-me que nunca se realizara uma concordata tão conforme com a doutrina católica como a concordata celebrada com o governo espanhol. Da parte do Santo Padre, dizer isso é algo extraordinário. Em todos esses domínios experimentava-se, então, a sabedoria secular da Igreja, de nossa Santa Madre Igreja, como se podem sentir a sabedoria e a proteção da Santíssima Virgem Maria para com os seus filhos. Quando os princípios das relações entre o Vaticano e os Estados estavam imbuídos da Fé Católica, não existiam dificuldades no que se refere às relações dos Estados com a Igreja. Quando os Estados eram católicos, a Santa Sé contava com o apoio dos chefes de estado, no que toca à sua missão de salvar as almas, aos quais pedia que Nosso Senhor Jesus Cristo reinasse na sociedade. Quando os chefes de estado redigiam uma constituição, consignavam no primeiro artigo que “a religião católica é a única reconhecida oficialmente pelo Estado”. Assim, cumpria-se o que desejava a Santa Sé; o reinado de Nosso Senhor Jesus Cristo, para a salvação das almas, não para ter influência temporal nesses Estados. Quando se tratava de Estados que não eram católicos, por exemplo, o Senegal, onde estive durante quinze anos como Arcebispo, para 3.500.000 habitantes havia 3.000.000 de muçulmanos e 500.000 animistas, 100.000 dos quais, felizmente, se converteram à Fé católica. Éramos, por conseguinte, uma pequena minoria, e que fazia a Igreja neste caso? Enviava sacerdotes, bispos, religiosos e religiosas, irmãos das escolas cristãs, irmãos que se dedicavam a ensinar o povo, de maneira que lentamente, seguramente, os que não criam em Nosso Senhor Jesus Cristo, convertiam-se à Igreja, transformavam-se em cristãos, ainda que ao preço do sangue desses pregadores. Quantos desses missionários enviados pela Igreja, no curso dos séculos, foram chacinados, mortos porque diziam que Nosso Senhor Jesus Cristo devia ser o Rei das pessoas, o Rei da sociedade! Esses missionários, a Igreja colocou-os nos altares e considerou-os mártires. Igualmente, a Igreja colocou nos altares muitos santos, santos Papas, santos bispos, santos sacerdotes, religiosos, religiosas, pais de família, mães de família, reis, rainhas, pobres. A Igreja mostrava, assim, o exemplo dessas pessoas que haviam trabalhado, cada uma em seu meio, que haviam trabalhado no curso de sua vida para santificar-se pelo reinado de Nosso Senhor Jesus Cristo e para estabelecer seu reinado nas almas. Todos esses reis e rainhas que foram canonizados nos dão exemplos extraordinários que bem poderiam ser adotados em nossos dias. Quão orgulhosos estaríamos de ter, atualmente, exemplos de reis e rainhas que viveram como santos! Que exemplo para o mundo inteiro! Conservou a Igreja essa postura até os tempos de Pio XII. Mas, infelizmente, devemos reconhecer que algo mudou na Igreja. Certamente, quando digo Igreja, tenho consciência de que a Igreja não pode mudar, já que a Igreja será sempre eterna, santa, universal, católica e apostólica. Destarte, quando falo da Igreja, entenda-se que não quero atacar a Igreja. Tenho imensa veneração pela Igreja e julgo que continuo sempre trabalhando por ela, como o fiz nos tempos de Pio XI e Pio XII. No entanto, não podemos deixar de reconhecer que algo importante se alterou na Igreja. Se procurarmos as primeiras causas da situação atual, se investigarmos quem é o primeiro autor destas modificações encontraremos o primeiro inimigo, o grande inimigo de Nosso Senhor Jesus Cristo, seu inimigo visceral, o próprio Satanás. O demônio lutou sempre contra Nosso Senhor Jesus Cristo e julgou que triunfava no momento da Crucificação, no momento do Calvário, mas ali também foi derrotado, por isso persistiu em atacar o Corpo Místico de Cristo, a Santa Igreja Católica, e então, desde o princípio e durante três séculos houve milhares e milhares de cristãos martirizados que deram testemunho da Fé, de sua Fé em Nosso Senhor Jesus Cristo. Vieram depois as heresias, os cismas, os ataques contra a Fé, as divisões suscitadas pelo demônio e assim, desgraçadamente, milhões de cristãos separaram-se da Igreja. Inventou também Satanás falsas religiões que tornaram impossível a conversão de povos inteiros, dificultando assim o trabalho das missões. Foi essa a obra do demônio durante quinze séculos, podemos dizer que até o momento da Revolução Francesa. Até essa época o demônio trabalhava como inimigo da Igreja, para destruí-la de fora dela mesma e assim subtraiu povos inteiros ao reinado de Nosso Senhor Jesus Cristo e levou-os às portas do inferno. Depois, para atacar com mais segurança a Igreja, que era defendida por seus filhos e governada pelos que se chamavam tenentes de Nosso Senhor Jesus Cristo, pelos príncipes católicos, Satanás atacou os próprios governos dos Estados católicos e desatou uma perseguição contra esses Estados católicos, cuja conseqüência é já não haver Estados católicos. Os Estados ateus, os Estados que não professavam nenhuma religião, perseguiram a Igreja Católica, que foi atacada, então, pelos mesmos Estados leigos que se haviam convertido em Estados anticatólicos. Constituiu isso êxito considerável para Satanás, no interior desses Estados, dessas universidades, dessas escolas, nas quais formou gerações imbuídas de liberalismo, de modernismo, de ateísmo, de sorte que chegou o momento, para Satanás, de apoderar-se desses Estados. Todos os ambientes católicos deixaram-se penetrar por esse clima. O Papa São Pio X, em sua primeira encíclica de 1904, diz textualmente: “Agora o inimigo não está fora da Igreja, mas dentro dela mesma” e São Pio X designa os lugares em que se encontra o inimigo: o inimigo está nos seminários, ele infiltrou-se nos seminários, entre os professores dos seminários. Está claro isso: é São Pio X mesmo quem o diz. Cinqüenta anos antes desse texto de São Pio X, o Papa Pio IX mostrou aos bispos o plano das sociedades secretas e pediu que se publicassem as atas das sociedades secretas italianas. Nesses documentos pode-se ler: de agora em diante penetraremos nas paróquias, nos bispados e nos seminários e teremos assim párocos, bispo e cardeais que serão nossos discípulos e desses cardeais esperamos ter um dia um Papa que estará imbuído de nossa idéia e que não parecerá ter sido eleito pelas sociedades secretas. Assim, o povo cristão crerá seguir a tiara de Pedro, mas estará seguindo a nós. Cinqüenta anos depois, este plano satânico realiza-se segundo as próprias palavras de São Pio X, e desde então não somente as sociedades secretas revelaram este plano e esta atividade, como também a própria Santíssima Maria, em Fátima e em La Salette predisse que um dia o inimigo subiria até os mais altos postos da Igreja. Isto significa algo muito grave: talvez não se tenha de remontar ao próprio Papa, mas até os postos de mando da Igreja. E assim chegamos ao Concílio Vaticano II no qual os que estavam imbuídos destas idéias modernistas acabariam por triunfar. Fui testemunha, particularmente, numa última sessão do Conselho preparatório do Concílio (pois eu era membro da Comissão Central, na qual havia setenta cardeais e vinte bispos, entre os quais eu me incluía como presidente da Conferência Episcopal da África Francesa) de uma violenta discussão entre o Cardeal Bea e o Cardeal Ottaviani sobre o documento da liberdade religiosa. Estes dois cardeais defrontaram-se de tal modo que o Cardeal Ruffini (do Bispado de Palermo) teve de intervir, dizendo que lamentava assistir a uma discussão tão grave entre dois cardeais, membros do Colégio de Cardeais, e que a única solução era apelar para a autoridade superior, isto é, o Papa. Nesta sessão, o cardeal Bea intitulou sua tese: “De libertate religiosa” (Acerca da liberdade religiosa); ao contrário, o Cardeal Ottaviani denominou-a: “Acerca da tolerância religiosa”. Vê-se que o Cardeal Ottaviani defendeu a tese tradicional da Igreja e o Cardeal Bea a tese liberal. Ambas foram submetidas à votação. Os cardeais votaram e comprovamos, de acordo com os resultados, que eles estavam totalmente divididos. Uns eram liberais e apoiavam o Cardeal Bea e outros eram conservadores e tradicionalistas e apoiavam o Cardeal Ottaviani. Ocorreu assim, conforme vimos no Concílio, que os liberais ganharam. Não se pode negar que os liberais dominaram o Concílio Vaticano II, lastimavelmente com o apoio de Sua Santidade Paulo VI. Percebeu-se isso claramente ao conhecer os nomes dos quatro moderadores que o Papa Paulo VI nomeou. Estes moderadores eram os Cardeais Agagianian, Suenens, Dopfner e Lercaro. Destes um só era conservador: era o Cardeal Agagianian. Ele não falava, permanecia silencioso. Era um homem tímido, muito discreto, que falava pouco e não deixava sentir sua influência. O Cardeal Lercaro era bispo de Florença e seu Vigário Geral era membro do Partido Comunista. O Cardeal Suenens, por sua parte, só Deus sabe o que fez antes e depois do Concílio para divulgar suas idéias liberais. Por exemplo: deu conferências no Canadá a favor do casamento dos sacerdotes. O Cardeal Dopfner, de seu lado, mostrava um ecumenismo bem acentuado. Ele mesmo dizia que primeiro era a oração em comum entre protestantes e católicos e depois se poderia falar de doutrina. Isso fez com que a maioria dos bispos que tomavam parte do Concílio seguisse a minoria liberal que se assenhoreou, de fato, do Concílio. Eram estes os três moderadores do Concílio indicados pela Cátedra de São Pedro e isso demonstra que orientação tinha ela. Seriam necessárias várias horas para poder mostrar-lhes como os liberais dominaram os acontecimentos do Concílio Vaticano II. Para que os senhores possam conhecer, por si mesmos, os fatos, parece-me oportuno aconselhar-lhes a leitura de um livro do Padre Ralph Wiltgen, “O Reno deságua no Tibre”, escrito originalmente em inglês e logo traduzido para outros idiomas (francês, italiano e alemão), onde se mostra imparcialmente, já que seu autor não era, falando propriamente, um tradicionalista, a imagem do combate que se travou entre liberais e alguns conservadores que ainda podiam falar. Não podemos esquecer que o Papa João XXIII pediu expressamente aos cardeais da Cúria Romana, que eram sem dúvida os mais tradicionais, que não interviessem nas discussões do Concílio. De fato, os cardeais romanos, ainda que tenham integrado as comissões, não falaram mais. Foi um golpe duríssimo para os grupos conservadores que se mantinham fiéis à tradição da Igreja Católica, que não eram inovadores, que não eram modernistas. Reunimo-nos em um pequeno grupo depois do segundo ano de Concílio: Monsenhor Sigaud, Monsenhor Castro Mayer (Bispo de Campos) e eu, e começamos a trabalhar a fim de reunir os bispos que pudessem opor-se a esse grande perigo que surgia dentro da Igreja. Nunca chegamos a superar o número de duzentos e cinqüenta. Quero dar-lhes apenas um exemplo do que foi o Concílio: fizemos o possível para que o Concílio Vaticano II condenasse o comunismo. Sendo um concílio pastoral (não devemos esquecer que o Concílio Vaticano II foi um concílio pastoral), isto é, um concílio que tem como preocupação principal a salvação das almas, que tem como objetivo destruir os erros que ameaçam as almas, era necessário, sem dúvida, que este Concílio se opusesse ao perigo mais grave da nossa época, como é o comunismo, um perigo que se estende por todo o mundo. Este Concílio, onde se reuniam 2.500 bispos responsáveis pela Igreja Católica, não foi capaz de condenar formalmente o comunismo! Nós, por nossa parte, envidamos todos os esforços possíveis para que se condenasse o comunismo. Conseguimos reunir 450 assinaturas para pedir essa condenação. Monsenhor Sigaud e eu procuramos Monsenhor Felici, Secretário do Concílio, levando as assinaturas que havíamos reunido dentro do tempo fixado pelo regulamento interno, para que se propusesse aos padres conciliares a condenação do comunismo. Quando Monsenhor Garrone, que era o relator do Concílio, fez referência a este documento, disse que apenas um bispo havia apresentado a possibilidade de que se condenasse o comunismo, e nós conseguíramos 450 adesões! Monsenhor Garrone declarou que não tinha ouvido falar disso. Sabemos que Monsenhor Glorieux, que era um dos secretários do Concílio, deu sumiço à lista das assinaturas, de modo que não conseguimos outras para apresentar aos padres conciliares. Ante essa situação, pensamos dirigir-nos aos cardeais e aos bispos da cortina de ferro: o Cardeal Wyszynsky, o Cardeal Beran e o Cardeal Slipyi, que tinham sido perseguidos pelo comunismo e por ele aprisionados. Julgávamos que se lográssemos o apoio destes três cardeais, talvez pudéssemos obter cerca de mil assinaturas. Fomos os dois ver os citados cardeais. Havíamos preparado um projeto, com redação muito cuidada a cargo do Monsenhor Carli, no qual se pedia que os padres conciliares condenassem o comunismo. Em primeiro lugar fomos ver o Cardeal Beran que, no momento, era arcebispo de Praga. Disse-nos: Estou totalmente de acordo com os senhores, quero assinar o documento, mas não sozinho. Se o assinar sozinho, os comunistas vão atacar minha família na Tchecoslováquia. Desejo assinar, mas quero que outros bispos, outros cardeais apóiem também esta posição, porque sendo muitos, lhe será muito mais difícil atacar-me. Finalmente, após sua assinatura e prometendo-lhe que se nenhum outro bispo aceitasse a declaração lhe devolveríamos sua assinatura. Fomos procurar o Cardeal Slipyi que vivia no Vaticano, atrás da sacristia de São Pedro. Quando lhe apresentamos o documento, ele nos disse: Estou totalmente de acordo com os senhores. Se há erro que devemos condenar é o comunismo. Já sabem qual é a minha posição, mas sou hóspede do Vaticano e estou certo de que lá em cima (apontando a cúpula de São Pedro) não querem que se condene o comunismo. Sei disso muito bem. Finalmente, procuramos o Cardeal Wyszynsky e, não o encontrando onde habitava, falei-lhe pelo telefone. Declarou-me: o senhor sabe qual foi minha intervenção no Concílio sobre esse assunto. Pedi que se redigisse um documento completo para condenar o comunismo e ninguém me apoiou; minha proposição foi rejeitada, já não pretendo intervir. Nessa altura vimo-nos obrigados a devolver ao Cardeal Beran sua assinatura. Esta é a verdadeira história do documento de condenação do comunismo que nunca foi aprovado pelo Concílio. Este único exemplo mostra o que foi o Concílio Vaticano II, um concílio em que se reuniram 2.500 padres e que não enfrentou o comunismo, o maior inimigo de Deus, da Igreja, de todo o princípio espiritual. Um Concílio que atua desse modo, condena-se a si próprio. Se lhes desse todos os pormenores dessa coligação e da forma como se perpetrou a condenação de meu seminário e da Fraternidade Sacerdotal São Pio X, os senhores ficariam estupefatos. Dou-lhes simplesmente isso: quando da visita que realizaram ao Seminário de Ecône, Suíça, dois bispos enviados por Roma, fui convidado por três cardeais para fornecer algumas informações complementares. Esta reunião não constituía, de modo algum, um julgamento eclesiástico. Pode dizer-se que era, simplesmente, uma visita de cortesia. No começo da entrevista, a que estavam presentes o Cardeal Garrone e o Cardeal Wright e o Cardeal espanhol Tavera, o Cardeal Garrone perguntou-me: Monsenhor, podemos gravar esta conversação? Disse-lhes que poderiam gravá-la, desde que, posteriormente, me fornecessem uma cópia da gravação. Ele me disse que certamente a cópia me seria dada. No entanto, acabada a conferência, quando pedi a cópia da entrevista, negaram-na. Um segundo exemplo que demonstra o que foi essa conversa com os cardeais romanos: querendo saber quem havia nomeado esses cardeais para entrevistarem-se comigo, se constituíam uma comissão, se se tratava de uma iniciativa particular ou se era algo que o Papa havia ordenado — e que eu de nada sabia, não tinha nenhum documento, nenhuma nota oficial e nunca se havia feito nada parecido no Vaticano — dirigi-me ao Cardeal Staffa que era o presidente da Assinatura Apostólica do Tribunal Romano e apresentei um recurso de queixa. Paguei os emolumentos exigidos por esse tribunal romano para apresentar a queixa e deram-me um recibo. Tendo feito isso, o Cardeal Villot, Secretário de Estado naquela época, escreveu uma carta, de seu próprio punho, ao Cardeal Staffa, proibindo-o de entregar-me qualquer documento e ordenando-lhe encerrar imediatamente o processo. Vemos como o poder executivo imiscuiu-se na esfera do poder judicial. Algo que jamais sucedera na Igreja impediu que o Cardeal Staffa julgasse minha proposição. Assim, a Fraternidade, seus seminários e eu próprio fomos condenados sem processo, sem julgamento, sem documentos e sem que eu pudesse relacionar essa condenação com a visita dos dois monsenhores a Ecône. Eu mesmo tive a oportunidade de dizer ao Papa João Paulo II (já o havia dito ao Papa Paulo VI) que a forma pela qual fora condenado era pior do que a que utilizavam os soviéticos. Eles, pelo menos, criam a farsa de um tribunal. Em meu caso nem isso foi permitido. De fato, eu devia fechar meus seminários, expulsar imediatamente meus seminaristas, no meio do ano, que cursavam seus estudos e depois despedir todos os professores. Os senhores compreendem que uma situação como esta só pode atribuir-se à ocupação da Igreja pelo modernismo, que persegue os tradicionalistas. Recordam os senhores a história do cardeal Mindszenty. A maneira como esse cardeal foi tratado pelo Vaticano pode considerar-se ignóbil. O Cardeal Mindszenty, herói de seu povo, que quis permanecer durante largos anos em sua terra, asilado na embaixada dos Estados Unidos para ficar ao lado de seu povo, foi tratado pelas Congregações Romanas, pela Cúria Romana pior do que fora tratado pelos soviéticos. Outro exemplo é o do Cardeal Slipyi que me disse, ele mesmo, ter sido mais bem tratado na Ucrânia (Soviética) do que em Roma. Mais outro exemplo: o Cardeal Wyszynsky, quando em Roma, era vigiado e não podia circular livremente pela cidade. Tudo isso mostra uma perseguição totalmente ignóbil. Por quê? Porque esses três cardeais eram tradicionalistas. Então, quando nos dizem: deveis obedecer, nós lhes respondemos: não queremos obedecer aos inimigos da Igreja, não quero obedecer àqueles que destroem à Igreja. Não o admito. O que o Papa Paulo VI intitulou “autodemolição da Igreja” nada mais é do que aquilo que fazem os próprios bispos e sacerdotes dentro da Igreja Católica. E eu não pretendo contribuir para a demolição da Igreja. É triste o que acabo de dizer-lhes, mas os cardeais que atualmente estão em Roma, cujos nomes os senhores conhecem bem, continuam essa nova política, essa nova atitude da Igreja, contrária à tradição de Cristo. Quer pela liturgia, quer pelo ensinamento ou pelo catecismo, quer pela política em geral da Igreja em face dos Estados e das sociedades civis, impôs-se uma orientação completamente nova. Tudo mudou na Igreja. Isso é bem claro na liturgia. Alteraram-se, subverteram-se todos os nossos sacramentos, suprimiram-se todos os livros antigos e substituíram-nos por novos livros. Não se trata de uma reforma como a de São Pio V, que teve como objetivo limpar a liturgia da missa das sedimentações acumuladas durante séculos, as quais não estavam muito de acordo com a tradição. A reforma de São Pio X teve o mesmo sentido: podaram-se os elementos que se lhe haviam aderido durante os anos precedentes e que não eram muito conformes com a tradição para que se voltasse ao seio da tradição. Agora, contudo, se trata da supressão da tradição, duma nova concepção da Missa, concepção que é mais protestante do que católica, que foi avalizada pela presença de seis pastores protestantes chamados para transformar nossa Missa… É coisa nova no tratamento da Missa, da Santa Missa de sempre: chamar seis pastores protestantes para que venham mudá-la. Que podiam dizer esses pastores protestantes quando se lhes perguntou: que quereis que mudemos na Missa? Alinhar nossa liturgia com a liturgia protestante. É este o sentido do diálogo de que tanto se fala: uma atitude gravíssima que corresponde a um princípio geral, o de considerar a religião dos outros tão verdadeira quanto a nossa. Conseguintemente, considerar que a religião católica não é a única religião pela qual alguém pode salvar-se, a única religião divina fundada por Deus, fundada por Nosso Senhor Jesus Cristo, com orientação perfeitamente distinta das outras. É inconcebível. A própria Igreja pediu aos Estados que não sejam mais Estados católicos, que suprimam o primeiro artigo de suas Constituições, que diz “A religião católica é a única religião reconhecida pelo Estado”. Foi a própria Santa Sé que pediu isso aos diferentes Estados e por isso já não há Estados católicos. Isso acabou. Porque a Santa Sé deseja que todas as religiões sejam reconhecidas igualmente em todos os Estados, que todas as religiões sejam iguais perante o Estado. É uma orientação completamente nova da Igreja. Jamais a Igreja aceitou, jamais a Igreja tomou esta posição. Jamais aceitou a Igreja que se ponha em pé de igualdade Nosso Senhor Jesus Cristo, Buda, Lutero e todos esses fundadores de falsas religiões. Sob o aspecto político, os senhores sabem perfeitamente que, em quase todo o mundo, os Bispados favorecem positivamente a revolução comunista e o socialismo. Na França, a eleição de Mitterand deveu-se em grande parte aos esforços dos bispos e sacerdotes que pediram que os fiéis votassem no socialismo. Resultado: temos quatro ministros comunistas e isso com o apoio de bispos e clérigos. É inimaginável. Roma não interveio para evitar que na França se constituísse este governo socialista. Um governo que é, de fato e nos fatos, ateu militante; que pretende monopolizar todo o ensino e que, conseqüentemente, porá as mãos em todas as escolas católicas. Quando tive oportunidade de viajar ao México, em janeiro passado, publicou-se um documento do Episcopado mexicano no qual se apoiava expressamente a revolução de El Salvador, a ponto de solicitar aos católicos mexicanos que contribuíssem ora com armas para lutar contra o governo, ora com dinheiro para ajudar a revolução. Aonde vamos? Que Igreja é esta? Dizem-nos: os senhores desobedecem, mas devemos obedecer? Devemos obedecer a esses bispos? Acaso representam a Igreja? Sem dúvida ainda há bons bispos e que por isso são perseguidos. Os senhores têm um exemplo em sua pátria. Monsenhor Tortolo, que jamais chegou a Cardeal e que poderia ter sido Arcebispo de Buenos Aires. Outro exemplo é o do Monsenhor Morcillo, arcebispo de Madri a quem conheci muito bem. Jamais foi cardeal. Diziam-lhe: o senhor não pode ser cardeal, por que a diocese primaz da Espanha é a diocese de Toledo, logo só ao Arcebispo de Toledo corresponde ser cardeal. Imediatamente após a morte do Monsenhor Morcillo, Monsenhor Taracon, que era Arcebispo de Madri, foi elevado ao cardinalato. Todos os secretários do Concílio foram nomeados cardeais, mas Monsenhor Morcillo, que também era secretário, jamais foi nomeado. O Cardeal Siri, que foi presidente da Conferência Episcopal Italiana, um mês após a eleição de Paulo VI foi destituído de seu cargo. Isto significa que se exerceu perseguição constante contra todos os bispos que defendem ou defenderiam a tradição na Igreja. Temos de reconhecer que há inimigos da Igreja que ocuparam a Igreja. A IGREJA ESTÁ OCUPADA. Conhecem muito bem o Cardeal Pironio. Tendo as idéias e as atitudes que tem, foi nomeado Presidente da Congregação dos Religiosos! Outro exemplo é o Cardeal Knox que é, de fato, sacrílego. Durante o Congresso Eucarístico de Melbourne (encontrava-me na Austrália, embora não tenha assistido ao Congresso), realizou-se a chamada missa Kamburu. Que é uma missa Kamburu? Mandou chamar a povoação primitiva, que vive no interior da Austrália, homens vestidos de maneira que os senhores podem imaginar, que dançaram no estrado que se havia preparado para a Missa, junto do altar; bailaram suas danças primitivas, enquanto se pronunciavam as palavras da Consagração. O que fez este homem é um sacrilégio, e este homem foi nomeado Prefeito da Congregação do Culto. Que pode fazer este homem à frente de tal Congregação? O Cardeal Baggio, por exemplo, que foi Núncio Apostólico no Chile e teve de abandonar o país por razões que não o favoreciam (basta que perguntem ao governo do Chile quais foram essas razões) é agora encarregado da nomeação dos bispos. O Cardeal Casaroli, atual Secretário de Estado, encontra-se na lista da loja maçônica P. 2 publicada pelos periódicos. Não sou eu que o digo, são os jornais italianos. Como se pode conceber que a Igreja continue sua tarefa de santificação por meio desses homens? Enquanto tiverem à testa da Igreja, nós, os tradicionalistas, seremos sempre perseguidos e a Igreja continuará sua auto-demolição. Concluo. De nossa parte, nós já escolhemos e dessa escolha não nos afastamos. Queremos continuar na Igreja de sempre. Queremos permanecer fiéis aos 250 Papas que defenderam a Tradição e a Fé Católica. Queremos continuar o sacerdócio da Igreja e é por isso que seguiremos ordenando sacerdotes, malgrado a proibição de Roma. Queremos ordenar verdadeiros sacerdotes para que eles continuem rezando a verdadeira Missa, por todo o mundo e ao longo da história. Isto é indispensável. Todas essas reformas liturgias foram feitas por esse mau espírito de Ecumenismo, de falso ecumenismo. É por isso que a fé desapareceu e não há vocações. Tive a felicidade de ordenar mais de 100 jovens sacerdotes, membros da Fraternidade Sacerdotal São Pio X[1] (em 2005 já são mais de 400) No próximo mês de outubro contaremos com 270 seminaristas que pertencem aos cinco seminários que foram fundados nos últimos dez anos[2]. Os senhores sabem que começamos as obras de um seminário aqui na República Argentina, a 40 km de Buenos Aires, na localidade de La Reja, onde já contamos com 20 vocações, sem citar os seminaristas que, já tendo feito o ano de espiritualidade no Seminário da Argentina, prosseguem hoje os seus estudos em Ecône (Suíça), em Albano (Itália) ou os que têm vocação monástica, que prosseguem os estudos em Bedoin e S. Michel em Brenne (França)[3]. Deste seminário em Buenos Aires ocupa-se, particularmente, o Padre Michel Faure e seu diretor é o Padre Morello. Queremos construir aqui um seminário capaz de albergar 120 seminaristas que virão de todos os países hispano-americanos, para perpetuar esse sacerdócio de que lhes falo, para continuar a fé católica nessas terras. Aonde irão vossos filhos, se já não existem escolas católicas? Nas escolas católicas atuais ensinam-lhes princípios contrários a fé, ensinam-lhes educação sexual… Nós já fizemos nossa eleição, não a mudaremos, porque queremos ser e queremos morrer católicos. [1] Em 2005 já são mais de 450 sacerdotes [2] Hoje são seis seminários: Suiça, França, Alemanha, EUA, Argentina, Nova Zelândia [3] As casas religiosas amigas e próximas da Fraternidade já são incontáveis: 6 carmelos femininos, Irmãs da Fraternidade S. Pio X, 3 mosteiros beneditinos (Bellaigue, na França; Sta Cruz, no Brasil e N.Sra de Guadalupe, EUA); dominicanos de Avrillé (França), dominicanas professoras de Brignolle e de Fanjeaux, as duas casas mães são na França, mas estão em diversos países; Capuchinhos de Morgon (França), os irmãos da Familia Beatae Mariae Virginis, do Pe. Jahir, na Bahia, Brasil e muitos outros. + MARCEL LEFEBVRE, ARCEBISPO. SUPERIOR DA FRATERNIDADE S. PIO X. #DomMarcelLefebvre

  • A Missa de Lutero

    Conferência de Dom Lefebvre Florence – 15 de fevereiro de 1975 Esta noite, falarei da Missa de Lutero e da Missa do novo rito. Por que essa comparação entre a Nova Missa e a Missa de Lutero? Porque a história o diz; a história objetiva não é criação minha. (Sua Excia. mostra então um livro sobre Lutero, publicado em 1911, “DO LUTERANISMO AO PROTESTANTISMO” de Léon Cristiani) Ele fala sobre a reforma litúrgica de Lutero. Trata-se de um livro escrito em um tempo, em que o autor nem conhecia nossa crise, nem o novo rito; portanto não foi escrito com segundas intenções. Primeiramente desejo fazer uma síntese dos princípios fundamentais da Missa, para trazer à nossa memória a beleza, a profunda grandeza espiritual de nossa Missa, o lugar que nossa Missa ocupa na Santa Igreja. Que coisa mais bela Nosso Senhor legou à humanidade, que coisa mais preciosa, mais santa concedeu à Sua Santa Igreja, à Igreja sua Esposa, no Calvário, quando morria na Cruz? Foi o Sacrifício de si mesmo. O Sacrifício de si mesmo. Sua própria Pessoa, que continua seu Sacrifício. Ele o deu à Igreja, quando morreu na Cruz. A partir desse momento, esse Sacrifício estava destinado a continuar, a perseverar através dos séculos, como Ele o havia instituído, juntamente com o Sacerdócio. Quando na Santa Ceia, Jesus instituiu o Sacerdócio, Ele o instituiu para o Sacrifício, o Sacrifício da Cruz, porque esse Sacrifício é a fonte de todos os méritos, de todas as graças, de todos os Sacramentos; a fonte de toda a riqueza da Igreja. Isso devemos recordar, ter sempre presente essa realidade, divina realidade. Portanto, é o Sacrifício da Cruz que se renova sobre nossos altares, e o Sacerdócio está em relação com ele, em relação essencial com esse Sacrifício. Não se compreende o Sacerdócio sem o Sacrifício, porque o Sacerdócio foi feito para o Sacrifício. Poder-se-ia dizer também: é a Encarnação de Jesus Cristo, séculos a fora: usque ad finem temporum (1) , o Sacrifício da Missa será oferecido. Se Jesus Cristo quis esse Sacrifício, quis também ser nele a vítima, uma vez que é o Sacrifício da Cruz que continua, Ele quis que a vítima fosse sempre a mesma, quis ser Ele próprio a vítima. Para ser a vítima, Ele tem que estar presente, verdadeiramente presente nos nossos altares. Se Ele não estiver presente, se não houver a Presença Real nos nossos altares, não haverá vítima, não haverá Sacerdócio. Tudo está ligado: Sacerdócio, Sacrifício, Vítima, Presença Real, portanto TRANSUBSTANCIAÇÃO. Aí está “o coração” do tesouro – o maior, o mais rico – que Nosso Senhor concedeu à Sua Esposa, a Igreja e a toda a humanidade. Assim podemos compreender que, quando Lutero quis transformar, mudar esses princípios, começou por combater o Sacerdócio; como o fazem os modernistas. Pois Lutero bem sabia que se o Sacerdócio desaparecesse, não mais haveria Sacrifício, não mais haveria Vítima, não haveria mais nada na Igreja, não mais haveria a fonte das graças. Como procedeu Lutero para dizer que não haveria mais Sacerdócio? Dizendo: “Não existe diferença entre padres e leigos. O Sacerdócio é universal”. Tais eram as idéias que ele propagava. Ele dizia que há três muros de defesa cercando a Igreja. O primeiro muro é essa diferença entre padres e leigos. (Sua Excia. então lê): “A descoberta de que o Papa, os bispos, os padres, os religiosos compõem o Estado Eclesiástico, ao passo que os príncipes, os senhores, os artesãos, os camponeses formam o estado secular, é pura invenção, uma mentira”. Essa diferença entre padres e leigos é então uma invenção, uma mentira. Eis o que diz Lutero: “Na realidade, todos os cristãos pertencem ao estado eclesiástico”. Não há diferença, a não ser a diferença de funções, de serviço. Todos têm o Sacerdócio a partir do Batismo; têm-no em razão do caráter batismal, todos os cristãos são padres e os padres não têm um caráter especial, não há um sacramento especial para os padres, mas seu caráter sacerdotal lhes vem do caráter do Batismo. Assim também se explica esta laicização dos padres; eles não querem mais ter uma veste particular, não querem mais se distinguir dos fiéis, porque todos são padres; e são os fiéis que devem escolher os padres, eleger os seus padres. Tais foram os princípios de Lutero, que prossegue: “Se um Papa ou um Bispo confere a unção, faz tonsuras, ordena, consagra ou dá uma veste diferente aos leigos ou aos padres, está criando enganadores”. Todos são consagrados padres, a partir do Batismo. Os progressistas do nosso tempo não descobriram novidades. Há um novo livro sobre os Sacramentos, aparecido em janeiro deste ano em Paris, sob a autoridade do Arcebispo, o Cardeal Marty. Saiu há pouco. Seus autores descobriram oito sacramentos, não mais sete, porque o oitavo sacramento é a profissão religiosa. Eles dizem claramente, nesse livro, que todos os fiéis são padres e que o caráter sacerdotal vem do caráter do Batismo. Os autores, por certo, devem ter lido Lutero, transformado para eles em Padre da Igreja. Lutero deu também outro passo à frente, após a supressão do Sacerdócio. Ele não acreditou mais na Transubstanciação, nem no Sacrifício. E disse claramente que a Missa não é um Sacrifício. A Missa é uma Comunhão. Podemos então chamar a Missa de Comunhão, Ceia, Eucaristia, tudo, menos Sacrifício. Não há, portanto, Vítima, nem Presença Real, mas apenas uma presença espiritual, uma recordação ou comunhão. Foi por isso que Lutero sempre combateu as Missas privadas; foi uma das primeiras coisas feitas por ele, porque uma Missa privada não é uma Comunhão. É preciso que os fiéis comunguem. A Missa privada, então, não está conforme a verdade, é preciso suprimir todas as Missas privadas. Ele chamava a Eucaristia de “Sacramento do Pão”. A Eucaristia, (dizia ele), tornou-se uma lamentável maldade. Essa “maldade” da Missa provém de terem feito dela um Sacrifício. Somos forçados a constatar que não se fala mais de Sacrifício da Missa nos boletins diocesanos ou paroquiais, mas de Eucaristia, de Comunhão, de Ceia. Que singular semelhança com as teses de Lutero! Além disso, Lutero faz ainda uma distinção entre os fins do Sacrifício da Missa. Ele diz que um dos fins do Sacrifício da Missa é render graças a Deus. A Eucaristia é um SACRIFICIUM LAUDIS, mas não um SACRIFICIUM EXPIATIONIS, não um Sacrifício de expiação, mas de louvor, de eucaristia. Por isso é que se certos protestantes ainda falam de Sacrifício, nunca o é no sentido de sacrifício expiatório, que remite os pecados. No entanto se trata de um dos principais fins do Sacrifício da Missa, a remissão dos pecados. Por isso é que os protestantes modernos aceitam o novo rito da Missa, porque, dizem eles, (isso saiu publicado em uma revista da Diocese de Estrasburgo, noticiando uma reunião de protestantes da Confissão de Augsburgo), agora, com o novo rito, é possível rezar com os católicos. (L’Eglise en Alsace de 8-12-1973 e 1-1-1974). “De fato, com as atuais formas de celebração eucarística da Igreja Católica, e com as presentes convergências teológicas, muitos obstáculos que podiam impedir que um protestante participasse da celebração eucarística estão desaparecendo e agora vai se tornando possível reconhecer na celebração eucarística católica, a Ceia instituída pelo Senhor. Temos à disposição novas orações eucarísticas, que têm a vantagem de apresentar variações à Teologia do Sacrifício”. Isso é evidente! Há duas semanas atrás, estando eu na Inglaterra, soube que um bispo anglicano adotou, ultimamente, o novo rito católico para toda a sua diocese. E declarou: “Este novo rito é muito conforme com as nossas idéias protestantes.” É pois evidente que para os protestantes, não há mais dificuldades para admitir o novo rito. Por que eles não tomam o antigo rito? Foi o que o Senhor Salleron perguntou aos padres de Taizé: “Por que dizeis que hoje podeis admitir este novo rito e não o antigo?” Portanto há uma diferença entre o novo e o antigo e esta diferença é essencial; não é uma diferença acidental, porque eles não aceitam usar o antigo rito, com todas as orações dotadas de precisão e que esclarecem realmente a finalidade do Sacrifício: propiciatório, expiatório, eucarístico e latrêutico. Esta é a finalidade do Sacrifício da Missa católica que, claro no antigo rito, não o é mais no novo rito, porque não há mais Ofertório. E é também por isso que Lutero não quis Ofertório no rito dele. Vejamos como Lutero inaugurou sua nova Missa, sua reforma. A primeira missa evangélica foi levada a efeito na noite de 24 para 25 de dezembro de 1521. Nessa primeira missa evangélica, depois da pregação sobre a Eucaristia, eles falaram sobre a Comunhão sob as duas espécies como obrigatória e sobre a Confissão como inútil, bastando a fé. A seguir, Karlstadt, seu discípulo, apresentou-se no altar, com vestes seculares, recitou o Confiteor, começou a Missa como era antes, mas somente até o Evangelho; o Ofertório e a Elevação foram supressos (pág.282), o que quer dizer que tudo o que significava idéia de Sacrifício foi retirado. Após a Consagração veio a Comunhão e muitos assistentes haviam bebido e comido e até tomado aguardente, antes de comungar; comungaram sob as duas espécies e o pão consagrado, (dado) nas mãos. Uma das hóstias escapole e cai em cima da roupa de um assistente. Um padre a recolhe. Uma outra cai no chão e Karlstadt diz aos leigos para apanhá-la; e como eles se recusam, por respeito ou temor, ele declara: “Que ela permaneça onde está, pouco importa, contanto que não se pise em cima”. Pouco depois ele próprio a apanhou (pág.282). Muitos leigos, inúmeras pessoas estavam contentes com a novidade e eram muitos os que vinham assistir a essa nova Missa evangélica, porque uma parte era dita em língua alemã, e eles diziam que compreendiam melhor. Então os mosteiros começaram a se esvaziar. Lutero tinha declarado: “Eu conservarei o meu hábito, meu modo de me apresentar como monge”, mas muitos monges saíram; alguns ficaram nos mosteiros, mas a maioria se casou. Reinava grande anarquia entre os padres. Cada um celebrava sua missa como queria. O Concelho não sabia mais o que fazer (pág.285), tomando então a resolução de fixar uma nova liturgia, de não mais deixar a liberdade e de por um pouco de ordem. A maneira de celebrar a Missa deveria ser então a seguinte: Intróito, Glória, Epístola, Evangelho, Sanctus. Depois havia uma pregação; Ofertório e Cânon ficavam supressos; o padre então pronunciava a instituição da Ceia, que ele proferia, em voz alta, em alemão e distribuía a Comunhão sob as duas espécies. Depois vinha o Agnus Dei e o Benedicamus Domino, para terminar. As modificações da Consagração introduzidas no Novus Ordo são semelhantes às que foram introduzidas por Lutero; as palavras essenciais da Consagração não são mais unicamente as palavras da forma, tais como sempre tinham sido conhecidas: “HOC EST CORPUS MEUM. HIC EST CALIX SANGUINIS MEI,” e as palavras que lhe seguem. Não! A partir de então, as palavras essenciais começam nos seguintes termos: “Ele tomou o pão”, até as palavras após a consagração do vinho: “HOC FACITE IN MEAM COMMEMORATIONEM”. Lutero disse a mesma coisa. Por que? Porque se lê a narrativa da Ceia. “É uma narrativa, não uma ação, não um Sacrifício, não uma ação sacrifical, mas um simples memorial”. Por qual razão nossos inovadores o copiaram de Lutero? Lutero diz também: “As Missas e as Vigílias estão encerradas. O Ofício será conservado, assim como as Matinas, as Horas menores, as Vésperas, Completas, mas somente o Ofício ferial. Não se comemorará mais santo algum que não esteja expressamente nomeado na Escritura”. Desse modo, ele mudou completamente o Calendário, exatamente como foi feito atualmente (pág.309). Donde podemos concluir: A atual transformação é idêntica à de Lutero. Um último exemplo, o das palavras da Consagração do pão: “HOC EST CORPUS MEUM, QUOD PRO VOBIS TRADETUR”. Também Lutero acrescentou essas últimas palavras, porque, justamente são palavras da Ceia, pois ele pretendia que a Ceia não fosse um Sacrifício, mas uma refeição. Ora, o Concílio de Trento diz explicitamente: Quem disser que a Ceia não é um Sacrifício seja anátema. A Ceia foi um Sacrifício. E nossa Missa é a continuação da Ceia, porque a Ceia foi um Sacrifício. Isso já se constata na separação prévia do Corpo e do Sangue de Jesus Cristo. O Sacrifício já estava significado por essa separação, no entanto Lutero afirma: “Não. A Ceia não é um Sacrifício”, é por isso que nós devemos repetir todas as palavras que Nosso Senhor disse na Ceia, ou seja: “HOC EST CORPUS MEUM QUOD PRO VOBIS TRADETUR”, que será entregue por vós sobre a Cruz. Por que imitar tão servilmente a Lutero na Nova Missa? A única razão que se pode aduzir é a do Ecumenismo. Pois sem esse motivo, nada se pode compreender dessa reforma. Ela não tem absolutamente vantagem alguma, nem teológica, nem pastoral. Nenhuma vantagem a não ser a de nos aproximar dos protestantes. Podemos legitimamente pensar, que foi por isso que os protestantes foram convidados para a Comissão da Reforma Litúrgica; para ficarmos sabendo se estavam satisfeitos ou não, ou se havia alguma coisa que lhes não agradava, se eles podiam ou não rezar conosco. Eu penso que não pode existir outro motivo para esta presença dos protestantes na Comissão de reforma da Missa. Mas como podemos pensar que protestantes, que não têm nossa fé, possam ser convidados para uma Comissão destinada a fazer uma reforma de nossa Missa, de nosso Sacrifício, daquilo que temos de mais belo, de mais rico em toda a Igreja, o objeto mais perfeito de nossa fé?! Lutero, em janeiro de 1526, promoveu a impressão de um novo ritual para as cerimônias da Missa. No seu pensamento, ele queria a liberdade total. E dizia (pág.314): “Se possível, eu gostaria de dar total liberdade aos padres, para fazerem o rito que quiserem; mas há o perigo de abusos, então é preciso estabelecer regras”. Seu pensamento, porém era de liberdade total. E também de igualdade entre os padres e os fiéis. E assim, todos os fiéis sendo padres, poderiam, também eles, ter idéias de como criar o culto. Então, todos juntos, aqueles que são padres, aqueles que têm uma função especial, aqueles que são escolhidos dentre os fiéis, todos juntos podem demonstrar sua criatividade no culto. Mas como era um pouco difícil, acabaria havendo bastante desordem, então ele escreveu um ritual. Nessa ocasião ele dizia também: “O uso do latim é facultativo”. Ele não era absolutamente contra o latim. Queria até que as crianças aprendessem latim. Mas também dizia: “O desejo dos leigos comuns de ter uma Missa em alemão é perfeitamente legítimo. Contudo há pessoas que vão à Igreja para ver novidade, para ver coisas novas. Esses, no entanto, não são verdadeiros cristãos, são curiosos, como se fossem aos turcos ou aos pagãos. Nos domingos se celebra a Missa. Mas Lutero conserva a palavra Missa com certa repugnância. As vestes sagradas, as velas são ainda mantidas provisoriamente. Começa-se com o Intróito em alemão, depois o Kyrie, depois uma Oração cantada pelo celebrante, ainda voltado para o altar, não para o povo. Mas para a Epístola e para o Evangelho, cantados em alemão, se voltará para o povo, quando então todos cantam o Credo em língua vulgar (pág.316). O celebrante dirá uma paráfrase do Pater, uma exortação à Comunhão, depois vem a Consagração, que será cantada, em alemão, assim: “Na noite em que foi traído, Nosso Senhor Jesus Cristo tomou o pão, rendeu graças e o partiu e apresentou a seus discípulos e disse: Tomai e comei, isto é o meu Corpo que é dado por vós”. – HOC EST CORPUS MEUM QUOD PRO VOBIS TRADETUR; estas são as palavras exatas –. “Fazei isto todas as vezes que o fizerdes, em memória de mim. Do mesmo modo, Ele tomou também o cálice, após a Ceia e disse: Tomai e bebei dele todos, este é o cálice, um novo Testamento em meu Sangue, que é derramado por vós, para a remissão dos pecados”. Não disse PRO VOBIS ET PRO MULTIS, fez desaparecer as palavras PRO MULTIS e também MYSTERIUM FIDEI. (pág. 317) Mysterium fidei e pro multis desapareceram… “Que é derramado por vós, para a remissão dos pecados, fazei isso todas as vezes que beberdes esse cálice em memória de mim”. Essas palavras que Lutero dizia ser a consagração, portanto as palavras essenciais, correspondem exatamente às palavras do documento da Congregração do Culto. A única expressão a mais é pro multis, que restou no documento do Vaticano. Mas todas as palavras, assim como as que são ditas antes: “Na noite em que foi traído, Nosso Senhor tomou o pão”, essas palavras não são da forma; nunca a Igreja disse que as palavras, que precedem a Consagração, fazem parte da forma do Sacramento. Depois da elevação, que Lutero conservou até 1542, vinha a Comunhão na mão. Uma última oração – a coleta – terminava a Missa como a Postcomunio dos católicos (págs.317-318). Evidentemente Lutero não aceitou o celibato e lutou contra os votos dos religiosos. Ele queria o fim desses costumes da Igreja. Mas, coisa bastante curiosa, ele sempre teve certo medo das reformas que ele tinha feito. Seus discípulos iam na vanguarda, mais depressa do que ele; ele sempre estava um pouco ansioso. Dizia a seus discípulos: “Eu condeno a nova prática de dar a Eucaristia de mão em mão, bem como o uso irrefletido da Comunhão sob as duas espécies”. Isso nos primeiros tempos, depois ele aceitou; mas logo de começo lhe parecia que essa Comunhão na mão não era boa coisa. Depois de ter dito que a Confissão não era necessária, mesmo para aqueles que tinham pecados graves, hesitou e disse: “A Confissão é boa, mas se o Papa me pedir para me confessar, eu me recusarei a fazê-lo, eu não me quero confessar. Nem por isso eu aceito que alguém me proíba essa confissão secreta. Eu não a cederei nem por todos os tesouros da terra, porque eu sei o que ela já me proporcionou de força e de consolação…” Lutero estava roído de remorsos, no entanto vivia devorado pela necessidade de fazer novidades, de mudar tudo, de ir contra o Papa, contra a Igreja Romana, contra o dogma. Por isso ele continuou sua reforma. É evidente que a reforma litúrgica atual se inspira na reforma de Lutero. Eu disse isso, em Roma, a muitos Cardeais: “Vossa nova Missa é a Missa de Lutero!” A isso me foi respondido: “Mas então ela é herética!” E eu respondi: “Não, ela não é herética, mas é ambígua, equívoca, pois um pode celebrá-la com a fé católica integral do Sacrifício, da Presença Real, da Transubstanciação e outro pode celebrá-la sem ter essa intenção e, nesse caso, a Missa não será mais válida. As palavras que ele pronuncia e os gestos que ele faz não o contradizem. Ela é equívoca, sim, equívoca. E certamente Lutero, durante muitos anos, a celebrou validamente, quando ele ainda não estava contra o Sacrifício, quando ele era ainda mais ou menos católico. Porém, mais tarde, quando ele recusou o Sacrifício, o Sacerdócio, a Presença Real, então sua Missa passou a não ter mais validade. Mas como uma Missa pode ser assim equívoca? É impossível fazer isso com o antigo rito, porque ele é claro, ele é claro. O Ofertório todo diz com clareza o que nós realizamos. O Ofertório é uma verdadeira definição do Sacrifício da Missa. Por isso é que Lutero era contra o Ofertório, porque ele era por demais claro, e foi por isso que ele fez aquelas mudanças no Cânon para não deixar perceber se é uma narração ou uma ação; mas nós, nós sabemos que a Consagração é uma ação sacrifical. Eles sabem que em nossos antigos Missais, antes do Communicantes, está escrito INFRA ACTIONEM, pois não se trata de uma narração, nem de um memorial, uma simples recordação. É uma ação. Uma ação sacrifical. Todas essas mudanças no novo rito são realmente perigosas, porque, pouco a pouco, sobretudo para os padres novos, que não têm mais a idéia do Sacrifício, da Presença Real, da Transubstanciação, para os quais tudo isso não significa mais nada, esses padres novos perdem a intenção de fazer o que a Igreja faz, e não celebram mais missas válidas; não há mais a Presença Real. Certamente os padres idosos, quando celebram conforme o novo rito, conservam ainda a fé de sempre. Celebraram a Missa no antigo rito, durante tantos anos, que conservam as mesmas intenções; então se pode crer que a Missa deles é válida. Mas na medida em que essas intenções se vão, desaparecem, nessa mesma medida as Missas deixarão de ser válidas. Eles quiseram se aproximar dos protestantes, mas foram os católicos que se tornaram protestantes e não os protestantes que se tornaram católicos. Isso é evidente, ninguém pode dizer o contrário. Quando cinco Cardeais e quinze Bispos compareceram ao “Concílio dos Jovens”, em Taizé, como esses jovens poderiam saber o que é catolicismo e o que é protestantismo? Alguns receberam a Comunhão das mãos dos protestantes, outros dos católicos. Quando o Cardeal Willebrands esteve em Genebra, no Concelho Ecumênico das Igrejas, declarou: “Temos que reabilitar Lutero”.Ele o disse, como enviado da Santa Sé. Vede a Confissão. Em que se transformou a Confissão, o Sacramento da Penitência, com essa absolvição coletiva? É acaso pastoral esse modo de dizer aos fiéis: “Nós demos a absolvição coletiva, os senhores podem comungar; quando tiverem oportunidade, se tiverem pecados graves, confessem-se no prazo de seis meses a um ano…” Quem pode dizer que esse modo de proceder é pastoral? Que idéia se poderá fazer do pecado grave? E a Confirmação. O Sacramento da Confirmação também está numa situação idêntica. Realmente eu penso que as palavras do livro dos Sacramentos da Comissão do Arcebispo de Paris, que constituem a forma, tornam o Sacramento inválido. Por que? Porque não há mais a significação do Sacramento na forma. O Bispo, quando confere o Sacramento da Confirmação, diz: “Signo te, signo Crucis et confirmo te Chrismate salutis, in nomine Patris et Filii et Spiritus Sancti” e “CONFIRMO TE CHRISMATE SALUTIS”. A Confirmação: “CONFIRMO TE.” Agora estão dizendo: “Eu te assinalo com a Cruz e recebe o Espírito Santo”. É obrigatório esclarecer qual a graça especial do Sacramento, no qual se confere o Espírito Santo. Se não se diz esta palavra: “Ego te confirmo in nomine Patris…” Não há o Sacramento! Eu o disse também aos Cardeais, porque eles me declararam: “O senhor confere a Confirmação sem ter o direito de o fazer”. – “Eu o faço, porque os fiéis têm medo que seus filhos fiquem sem a graça da Confirmação, porque eles têm dúvida a respeito da validade do Sacramento, que é conferido atualmente nas igrejas. Não se sabe mais se é verdadeiramente um Sacramento ou não. Então, ao menos para ter essa certeza de ter realmente a graça, me pedem para crismar, e eu o faço porque me parece que eu não posso recusar aos que me pedem a Confirmação válida, pois ao menos eles recebem a graça, mesmo que não seja lícito, porque nós estamos num tempo em que o direito divino natural e sobrenatural passa à frente do direito positivo eclesiástico, já que este se lhe opõe, em vez de lhe servir de canal”. Estamos em uma crise extraordinária. Nós não podemos seguir essas reformas. Onde estão os frutos dessas reformas? Eu, de fato, me pergunto! Reforma litúrgica, reforma dos seminários, reforma das congregações religiosas, todos esses capítulos gerais! Onde eles estão colocando essas pobres congregações atualmente? Tudo se acabando…! Não há mais noviços, não há mais vocações…! Eles próprios reconhecessem que não há mais vocações. O Cardeal Arcebispo de Cincinatti o reconheceu também no Sínodo dos Bispos, em Roma: “Em nossos países (ele representava todos os países de língua inglesa), não há mais vocações, porque não sabem mais o que é o padre”. Nós devemos nos conservar na Tradição. Só a Tradição nos concede realmente a graça, nos proporciona realmente a continuidade na Igreja. Se abandonarmos a Tradição, passaremos a contribuir para a demolição da Igreja. Também isso eu disse àqueles Cardeais! “Não vedes que o Esquema da Liberdade Religiosa do Concílio é um esquema contraditório? Na primeira parte do Esquema está dito: “Nada muda na Tradição”, e , dentro do Esquema, está tudo ao contrário da Tradição. O contrário do que disseram Gregório XVI, Pio IX e Leão XIII”. Portanto é preciso escolher! Ou estamos de acordo com a liberdade religiosa do Concílio e então somos contrários ao que esses Papas disseram, ou então nos conservamos de acordo com esses Papas e então nos recusamos a concordar com o que está contido no Esquema sobre a Liberdade Religiosa. É impossível estar de acordo com os dois. E acrescentei: EU ME ATENHO À TRADIÇÃO, EU SOU PELA TRADIÇÃO, E NÃO POR ESSAS NOVIDADES QUE CONSTITUEM O LIBERALISMO. NÃO É ABSOLUTAMENTE OUTRA COISA SENÃO O LIBERALISMO, QUE FOI CONDENADO POR TODOS OS PONTÍFICES, DURANTE SÉCULO E MEIO. ESSE LIBERALISMO PENETROU NA IGREJA ATRAVÉS DO CONCÍLIO: A LIBERDADE, A IGUALDADE, A FRATERNIDADE. A LIBERDADE: a liberdade religiosa; A FRATERNIDADE: o Ecumenismo. A IGUALDADE: a Colegialidade. E estes SÃO OS TRÊS PRINCÍPIOS DO LIBERALISMO, ORIGINADO DOS FILÓSOFOS DO SÉCULO XVIII, E QUE LEVOU A EFEITO A REVOLUÇÃO FRANCESA. FORAM ESSAS IDÉIAS QUE ENTRARAM NO CONCÍLIO, POR MEIO DE PALAVRAS EQUÍVOCAS. E AGORA VAMOS À RUÍNA, A RUÍNA DA IGREJA, PORQUE ESSAS IDÉIAS SÃO ABSOLUTAMENTE CONTRA A NATUREZA E CONTRA A FÉ. NÃO EXISTE IGUALDADE ENTRE NÓS. NÃO EXISTE VERDADEIRA IGUALDADE. O PAPA LEÃO XIII DISSE ISSO BASTANTE CLARO, EM SUA ENCÍCLICA SOBRE A LIBERDADE. A FRATERNIDADE TAMBÉM! SE NÃO HOUVER UM PAI, COMO ACHAREMOS FRATERNIDADE? SE NÃO HÁ PAI, SE NÃO HÁ DEUS, COMO PODEMOS SER IRMÃOS? COMO SE PODE SER IRMÃO, SE NÃO HOUVER UM PAI COMUM? IMPOSSÍVEL! DEVEMOS ENTÃO ABRAÇAR TODOS OS INIMIGOS DA IGREJA, OS COMUNISTAS, OS BUDISTAS E TODOS OS OUTROS QUE SÃO CONTRA A IGREJA, OS MAÇONS? ESSE DECRETO DE UMA SEMANA ATRÁS, QUE DIZ QUE AGORA NÃO HÁ MAIS EXCOMUNHÃO PARA UM CATÓLICO QUE ENTRE NA MAÇONARIA. MAS ONDE ESTÁ A IGREJA? ISSO É IMPOSSÍVEL! OS MAÇÕES SÃO OS INIMIGOS TRADICIONAIS DA IGREJA, SÃO AQUELES QUE QUEREM DESTRUIR OS PAÍSES CATÓLICOS! QUEM DESTRUIU PORTUGAL? QUEM ESTAVA NO CHILE? E AGORA NO VIETNAM DO SUL! PORQUE ESSES PAÍSES SÃO CATÓLICOS! E QUE SERÁ DA ESPANHA DENTRO DE UM ANO, DA ITÁLIA, ETC…? PORQUE A IGREJA ABRE OS BRAÇOS A TODA ESSA GENTE QUE SÃO INIMIGOS DELA? Na verdade temos que rezar, rezar; é um assalto do demônio contra a Igreja, como jamais se viu igual. Devemos rezar a Nossa Senhora, a Bem-Aventura Virgem Maria, para que Ela venha em nosso socorro, porque realmente nós não sabemos o que será de amanhã. E realmente parece que toda essa ruína trará conseqüências terríveis ao mundo. É impossível que Deus aceite todas essas blasfêmias, sacrilégios que são praticados contra Sua Glória, Sua Majestade! Ele tem muita paciência, mas virá o dia (quando virá, eu não sei), virá o dia do castigo, porque todas essa legalizações, leis sobre o aborto, que vemos em tantos países, o divórcio na Itália, toda essa ruína da lei moral, ruína da verdade, realmente é difícil acreditar que tudo isso se possa fazer, sem que Deus fale um dia! Então temos que pedir a Deus misericórdia por nós e por nossos irmãos. Mas também temos que lutar, combater. Combater para conservar a Tradição e não ter medo. Conservar, acima de tudo, o rito de nossa Santa Missa, porque Ela é o FUNDAMENTO DA IGREJA e da civilização cristã. Quando não houver mais uma verdadeira Missa na Igreja, a Igreja acabará. Portanto temos que conservar esse rito, esse Sacrifício. Todas as nossas igrejas foram construídas para esta Missa, não para uma outra Missa; para o SACRIFÍCIO DA MISSA, não para uma Ceia, para uma Refeição, para um Memorial, para uma Comunhão, não! para o Sacrifício de Nosso Senhor Jesus Cristo, que continua sobre nossos altares! Foi por isso que nossos pais construíram essas belas igrejas, não para uma Ceia, não para um Memorial, não! Conto com vossas orações por meus seminaristas, para fazer de meus seminaristas VERDADEIROS PADRES, que tenham FÉ e que possam assim, ministrar SACRAMENTOS VERDADEIROS e o VERDADEIRO SACRIFÍCIO DA MISSA. Obrigado. + MARCEL LEFEBVRE, ARCEBISPO. SUPERIOR DA FRATERNIDADE S. PIO X. 1. Até o fim dos tempos – (Nota do Tradutor). #DomMarcelLefebvre

  • Rerum Novarum

    CARTA ENCÍCLICA DE SUA SANTIDADE O PAPA LEÃO XIII SOBRE A CONDIÇÃO DOS OPERÁRIOS (15 de maio de 1891) Introdução 1. A sede de inovações, que há muito tempo se apoderou das sociedades e as tem numa agitação febril, devia, tarde ou cedo, passar das regiões da política para a esfera vizinha da economia social. Efetivamente, os progressos incessantes da indústria, os novos caminhos em que entraram as artes, a alteração das relações entre os operários e os patrões, a influência da riqueza nas mãos de um pequeno número ao lado da indigência da multidão, a opinião enfim mais avantajada que os operários formam de si mesmos e a sua união mais compacta, tudo isto, sem falar da corrupção dos costumes, deu em resultado final um temível conflito. Por toda a parte, os espíritos estão apreensivos e numa ansiedade expectante, o que por si só basta para mostrar quantos e quão graves interesses estão em jogo. Esta situação preocupa e põe ao mesmo tempo em exercício o gênio dos doutos, a prudência dos sábios, as deliberações das reuniões populares, a perspicácia dos legisladores e os conselhos dos governantes, e não há, presentemente, outra causa que impressione com tanta veemência o espírito humano. É por isso que, veneráveis irmãos, o que em outras ocasiões temos feito, para bem da Igreja e da salvação comum dos homens, em nossas encíclicas sobre a soberania política, a liberdade humana, a constituição cristã dos Estados (alude-se aqui às Encíclicas «Diuturnum» 1831, «Immortale Dei» 1885, «Libertas» 1888) e outros assuntos análogos, refutando, segundo nos parece oportuno, as opiniões errôneas e falazes, julgamos dever repeti-lo hoje e pelos mesmos motivos, falando-vos da Condição dos Operários. Já temos tocado esta matéria muitas vezes, quando se nos tem proporcionado o ensejo; mas a consciência do nosso cargo apostólico impõe-nos como um dever tratá-la nesta Encíclica mais explicitamente e com maior desenvolvimento, a fim de pôr em evidência os princípios de uma solução, conforme à justiça e à eqüidade. O problema nem é fácil de resolver, nem isento de perigos. É difícil, efetivamente, precisar com exatidão os direitos e os deveres que devem ao mesmo tempo reger a riqueza e o proletariado, o capital e o trabalho. Por outro lado o problema não é sem perigos, porque não poucas vezes homens turbulentos e astuciosos procuram desvirtuar-lhe o sentido e aproveitam-no para excitar as multidões e fomentar desordens. Causas do conflito 2. Em todo o caso, estamos persuadidos, e todos concordam nisto, de que é necessário, com medidas prontas e eficazes, vir em auxílio dos homens das classes inferiores, atendendo a que eles estão, pela maior parte, numa situação de infortúnio e de miséria imerecida. O século passado destruiu, sem as substituir por coisa alguma, as corporações antigas, que eram para eles uma proteção; os princípios e o sentimento religioso desapareceram das leis e das instituições públicas, e assim, pouco a pouco, os trabalhadores, isolados e sem defesa, têm-se visto, com o decorrer do tempo, entregues à mercê de senhores desumanos e à cobiça de uma concorrência desenfreada. A usura voraz veio agravar ainda mais o mal. Condenada muitas vezes pelo julgamento da Igreja, não tem deixado de ser praticada sob outra forma por homens ávidos de ganância, e de insaciável ambição. A tudo isto deve acrescentar-se o monopólio do trabalho e dos papéis de crédito, que se tornaram o quinhão de um pequeno número de ricos e de opulentos, que impõem assim um jugo quase servil à imensa multidão dos proletários. A solução socialista 3. Os socialistas, para curar este mal, instigam nos pobres o ódio invejoso contra os que possuem, e pretendem que toda a propriedade de bens particulares deve ser suprimida, que os bens de um indivíduo qualquer devem ser comuns a todos, e que a sua administração deve voltar para os Municípios ou para o Estado. Mediante esta transladação das propriedades e esta igual repartição das riquezas e das comodidades que elas proporcionam entre os cidadãos, lisonjeiam-se de aplicar um remédio eficaz aos males presentes. Mas semelhante teoria, longe de ser capaz de pôr termo ao conflito, prejudicaria o operário se fosse posta em prática. Outrossim, é sumamente injusta, por violar os direitos legítimos dos proprietários, viciar as funções do Estado e tender para a subversão completa do edifício social. A propriedade particular 4. De fato, como é fácil compreender, a razão intrínseca do trabalho compreendido por quem exerce uma arte lucrativa, o fim imediato visado pelo trabalhador, é conquistar um bem que possuirá como próprio e como lhe pertencendo; porque, se põe à disposição de outrem as suas forças e a sua indústria, não é, evidentemente, por outro motivo senão para conseguir com que possa prover ao seu sustento e às necessidades da vida, e espera do seu trabalho, não só o direito ao salário, mas ainda um direito estrito e rigoroso para usar dele como entender. Portanto, se, reduzindo as suas despesas, chegou a fazer algumas economias, e se, para assegurar a sua conservação, as emprega, por exemplo, num campo, torna-se evidente que esse campo não é outra coisa senão o salário transformado: o terreno, assim adquirido, será propriedade do artista com o mesmo título que a remuneração do seu trabalho. Mas, quem não vê que é precisamente nisso que consiste o direito de propriedade mobiliária e imobiliária? Assim, esta conversão da propriedade particular em propriedade coletiva, tão preconizada pelo socialismo, não teria outro efeito senão tornar a situação dos operários mais precária, retirando-lhes a livre disposição do seu salário e roubando-lhes, por isso mesmo, toda a esperança e toda a possibilidade de engrandecerem o seu patrimônio e melhorarem a sua situação. 5. Mas, e isto parece ainda mais grave, o remédio proposto está em oposição flagrante com a justiça, porque a propriedade particular e pessoal é para o homem, de direito natural. Há, efetivamente, sob este ponto de vista, uma grandíssima diferença entre o homem e os animais destituídos de razão. Estes não se governam a si mesmos; são dirigidos e governados pela natureza, mediante um duplo instinto, que, por um lado, conserva a sua atividade sempre viva e lhes desenvolve as forças, por outro, provoca e circunscreve ao mesmo tempo cada um dos seus movimentos. O primeiro instinto leva-os à conservação e à defesa da sua própria vida; o segundo, à propagação da espécie; e este duplo resultado obtêm-no facilmente pelo uso das coisas presentes e postas ao seu alcance. Por outro lado, seriam incapazes de transpor esses limites, porque apenas são movidos pelos sentidos e por cada objeto particular que os sentidos percebem. Muito diferente é a natureza humana. Primeiramente, no homem reside em sua perfeição, toda a virtude da natureza sensitiva, e desde logo lhe pertence, não menos que a esta, gozar dos objetos físicos e corpóreos. Mas a vida sensitiva ainda mesmo possuída em toda a sua plenitude, não só não abraça toda a natureza humana, mas é-lhe muito inferior e própria para lhe obedecer e ser-lhe sujeita. O que em nós se avantaja, o que nos faz homens e nos distingue essencialmente do animal é a razão ou a inteligência, e em virtude desta prerrogativa deve reconhecer-se ao homem não só a faculdade geral de usar das coisas exteriores, mas ainda o direito estável e perpétuo de as possuir, tanto as que se consomem pelo uso, como as que permanecem depois de nos terem servido. Uso comum dos bens criados e propriedade particular deles 6. Uma consideração mais profunda da natureza humana vai fazer sobressair melhor ainda esta verdade. O homem abrange pela sua inteligência uma infinidade de objetos, e às coisas presentes acrescenta e prende as coisas futuras; além disso, é senhor das suas ações; também sob a direção da lei eterna e sob o governo universal da Providência divina, ele é, de algum modo, para si a sua lei e a sua providência. É por isso que tem o direito de escolher as coisas que julgar mais aptas, não só para prover ao presente, mas ainda ao futuro. De onde se segue que deve ter sob o seu domínio não só os produtos da terra mas ainda a própria terra, que pela sua fecundidade, ele vê estar destinada a ser sua fornecedora no futuro. As necessidades do homem repetem-se perpetuamente: satisfeitas hoje, renascem amanhã com novas exigências. Foi preciso, portanto, para que ele pudesse realizar o seu direito em todo o tempo, que a natureza pusesse à sua disposição um elemento estável e permanente, capaz de lhe fornecer perpetuamente os meios. Ora, esse elemento só podia ser a terra, com os seus recursos sempre fecundos. E não se apele para a providência do Estado, porque o Estado é posterior ao homem, e antes que ele pudesse formar-se, já o homem tinha recebido da natureza o direito de viver e proteger a sua existência. Não se oponha também à legitimidade da propriedade particular o fato de que Deus concedeu a terra a todo o gênero humano para a gozar, porque Deus não a concedeu aos homens para que a dominassem confusamente todos juntos. Tal não é o sentido dessa verdade. Ela significa, unicamente, que Deus não assinou uma parte a nenhum homem em particular, mas quis deixar a limitação das propriedades à indústria humana e às instituições dos povos Aliás, posto que dividida em propriedades particulares, a terra não deixa de servir à utilidade comum de todos, atendendo a que ninguém há entre os mortais que não se alimente dos produtos dos campos. Quem não os tem, supre-os pelo trabalho, de maneira que se pode afirmar, com toda a verdade, que o trabalho é o meio universal de prover às necessidades da vida, quer ele se exerça num terreno próprio, quer em alguma arte lucrativa cuja remuneração, apenas, sai dos produtos múltiplos da terra, com os quais ela se comuta. De tudo isto resulta, mais uma vez, que a propriedade particular é plenamente conforme à natureza. A terra, sem dúvida, fornece ao homem com abundância as coisas necessárias para a conservação da sua vida e ainda para o seu aperfeiçoamento, mas não poderia fornecê-las sem a cultura e sem os cuidados do homem. Ora, que faz o homem, consumindo os recursos do seu espírito e as forças do seu corpo em procurar esses bens da natureza? Aplica, para assim dizer, a si mesmo a porção da natureza corpórea que cultiva e deixa nela como que um certo cunho da sua pessoa, a ponto que, com toda a justiça, esse bem será possuído de futuro como seu, e não será licito a ninguém violar o seu direito de qualquer forma que seja. A propriedade sancionada pelas leis humanas e divinas 7. A força destes raciocínios é de uma evidência tal, que chegamos a admirar como certos partidários de velhas opiniões podem ainda contradizê-los, concedendo sem dúvida ao homem particular o uso do solo e os frutos dos campos, mas recusando-lhe o direito de possuir, na qualidade de proprietário, esse solo em que edificou, a porção da terra que cultivou. Não vêem, pois, que despojam assim esse homem do fruto de seu trabalho; porque, afinal, esse campo amanhado com arte pela mão do cultivador, mudou completamente de natureza: era selvagem, ei-lo arroteado: de infecundo, tornou-se fértil; o que tornou melhor, está inerente ao solo e confunde-se de tal forma com ele, que em grande parte seria impossível separá-lo. Suportaria a justiça que um estranho viesse então atribuir-se esta terra banhada pelo suor de quem a cultivou? Da mesma forma que o efeito segue a causa, assim é justo que o fruto do trabalho pertença ao trabalhador. É, pois, com razão, que a universalidade do gênero humano, sem se deixar mover pelas opiniões contrárias de um pequeno grupo, reconhece, considerando atentamente a natureza, que nas suas leis reside o primeiro fundamento da repartição dos bens e das propriedades particulares; foi com razão que o costume de todos os séculos sancionou uma situação tão conforme à natureza do homem e à vida tranqüila e pacífica das sociedades. Por seu lado, as leis civis, que tiram o seu valor (veja-se Santo Tomás, Sum. Teol. I-II, q. 95, a. 4), quando são justas, da lei natural, confirmam esse mesmo direito e protegem-no pela força. Finalmente, a autoridade das leis divinas vem pôr-lhe o seu selo, proibindo, sob pena gravíssima, até mesmo o desejo do que pertence aos outros: «Não desejarás a mulher do teu próximo, nem a sua casa, nem o seu campo, nem o seu boi, nem a sua serva, nem o seu jumento, nem coisa alguma que lhe pertença» (Dt 5,21). A família e o Estado 8. Entretanto, esses direitos, que são inatos a cada homem considerado isoladamente, apresentam-se mais rigorosos ainda, quando se consideram nas suas relações e na sua conexão com os deveres da vida doméstica. Ninguém põe em dúvida que, na escolha de um gênero de vida, seja lícito cada um seguir o conselho de Jesus Cristo sobre a virgindade, ou contrair um laço conjugal. Nenhuma lei humana poderia apagar de qualquer forma o direito natural e primordial de todo o homem ao casamento, nem circunscrever o fim principal para que ele foi estabelecido desde a origem: «Crescei e multiplicai-vos» (Gn 1,28). Eis, pois, a família, isto é, a sociedade doméstica, sociedade muito pequena certamente, mas real e anterior a toda a sociedade civil, à qual, desde logo, será forçosamente necessário atribuir certos direitos e certos deveres absolutamente independentes do Estado. Assim, este direito de propriedade que nós, em nome da natureza, reivindicamos para o indivíduo, é preciso agora transferi-lo para o homem constituído chefe de família. Isto não basta: passando para a sociedade doméstica, este direito adquire aí tanto maior força quanto mais extensão lá recebe a pessoa humana. A natureza não impõe somente ao pai de família o dever sagrado de alimentar e sustentar seus filhos; vai mais longe. Como os filhos refletem a fisionomia de seu pai e são uma espécie de prolongamento da sua pessoa, a natureza inspira-lhe o cuidado do seu futuro e a criação de um patrimônio que os ajude a defender-se, na perigosa jornada da vida, contra todas as surpresas da má fortuna. Mas, esse patrimônio poderá ele criá-lo sem a aquisição e a posse de bens permanentes e produtivos que possa transmitir-lhes por via de herança? Assim como a sociedade civil, a família, conforme atrás dissemos, é uma sociedade propriamente dita, com a sua autoridade e o seu governo paterno, é por isso que sempre indubitavelmente na esfera que lhe determina o seu fim imediato, ela goza, para a escolha e uso de tudo o que exige a sua conservação e o exercício de uma justa independência, de direitos pelo menos iguais aos da sociedade civil. Pelo menos iguais, dizemos nós, porque a sociedade doméstica tem sobre a sociedade civil uma prioridade lógica e uma prioridade real, de que participam necessariamente os seus direitos e os seus deveres. E se os indivíduos e as famílias, entrando na sociedade, nela achassem, em vez de apoio, um obstáculo, em vez de proteção, uma diminuição de seus direitos, dentro em pouco a sociedade seria mais para evitar do que para procurar. Querer, pois, que o poder civil invada arbitrariamente o santuário da família, é um erro grave e funesto. Certamente, se existe em alguma parte uma família que se encontre numa situação desesperada e que faça esforços vãos para sair dela, é justo que, em tais extremos, o poder público venha em seu auxílio, porque cada família é um membro da sociedade. Da mesma forma, se existe um lar doméstico que seja teatro de graves violações dos direitos mútuos, que o poder público intervenha para restituir a cada um os seus direitos. Não é isto usurpar as atribuições dos cidadãos, mas fortalecer os seus direitos, protegê-los e defendê-los como convém. Todavia, a ação daqueles que presidem ao governo público não deve ir mais além; a natureza proíbe-lhes ultrapassar esses limites. A autoridade paterna não podia ser abolida, nem absorvida pelo Estado, porque ela tem uma origem comum com a vida humana. «Os filhos são alguma coisa de seu pai»; são de certa forma uma extensão da sua pessoa, e, para falar com justiça não é imediatamente por si que eles se agregam e se incorporam na sociedade civil, mas por intermédio da sociedade doméstica em que nasceram. Porque os «filhos são naturalmente alguma coisa de seu pai… devem ficar sob a tutela dos pais até que tenham adquirido o livre arbítrio» (Santo Tomás, Sum. TeoL, II-II, q. -10, a. 12). Assim, substituindo a providência paterna pela providência do Estado, os socialistas vão contra a justiça natural e quebram os laços da família. O comunismo princípio de empobrecimento 9. Mas, além da injustiça do seu sistema, vêem-se bem todas as suas funestas conseqüências, a perturbação em todas as classes da sociedade, uma odiosa e insuportável servidão para todos os cidadãos, porta aberta a todas as invejas, a todos os descontentamentos, a todas as discórdias; o talento e a habilidade privados dos seus estímulos, e, como conseqüência necessária, as riquezas estancadas na sua fonte; enfim em lugar dessa igualdade tão sonhada, a igualdade na nudez, na indigência e na miséria. Por tudo o que nós acabamos de dizer, se compreende que a teoria socialista da propriedade coletiva deve absolutamente repudiar-se como prejudicial àqueles mesmos a que se quer socorrer, contrária aos direitos naturais dos indivíduos, como desnaturando as funções do Estado e perturbando a tranqüilidade pública. Fique, pois, bem assente que o primeiro fundamento a estabelecer para todos aqueles que querem sinceramente o bem do povo, é a inviolabilidade da propriedade particular. Expliquemos agora onde convém procurar o remédio tão desejado. A Igreja e a questão social 10. É com toda a confiança que nós abordamos este assunto, e em toda a plenitude do nosso direito; porque a questão de que se trata é de tal natureza, que, a não se apelar para a religião e para a Igreja, é impossível encontrar-lhe uma solução eficaz. Ora, como é principalmente a nós que estão confiadas a salvaguarda da religião e a dispensação do que é do domínio da Igreja, calarmo-nos seria, aos olhos de todos, trair o nosso dever. Certamente uma questão desta gravidade demanda ainda de outros a sua parte de atividade e de esforços: isto é, dos governantes, dos senhores e dos ricos, e dos próprios operários, de cuja sorte se trata. Mas, o que nós afirmamos sem hesitação, é a inanidade da sua ação fora da Igreja. É a Igreja, efetivamente, que haure no Evangelho doutrinas capazes ou de pôr termo ao conflito ou ao menos de o suavizar, expurgando-o de tudo o que ele tenha de severo e áspero; a Igreja, que não se contenta com esclarecer o espírito de seus ensinos, mas também se esforça em regular, de harmonia com eles a vida e os costumes de cada um; a Igreja, que, por uma multidão de instituições eminentemente benéficas, tende a melhorar a sorte das classes pobres; a Igreja, que quer e deseja ardentemente que todas as classes empreguem em comum as suas luzes e as suas forças para dar à questão operária a melhor solução possível; a Igreja, enfim, que julga que as leis e a autoridade pública devem levar a esta solução, sem dúvida com medida e com prudência, a sua parte do concurso. Não luta, mas concórdia das classes 11. O primeiro princípio a pôr em evidência, é que o homem deve aceitar com paciência a sua condição: é impossível que na sociedade civil todos sejam elevados ao mesmo nível. É, sem dúvida, isto o que desejam os socialistas; mas contra a natureza todos os esforços são vãos. Foi ela, realmente, que estabeleceu entre os homens diferenças tão multíplices como profundas; diferenças de inteligência, de talento, de habilidade, de saúde, de força; diferenças necessárias, de onde nasce espontaneamente a desigualdade das condições. Esta desigualdade, por outro lado, reverte em proveito de todos, tanto da sociedade como dos indivíduos; porque a vida social requer um organismo muito variado e funções muito diversas, e o que leva precisamente os homens a partilharem estas funções é, principalmente, a diferença de suas respectivas condições. Pelo que diz respeito ao trabalho em particular, o homem, mesmo no estado de inocência, não era destinado a viver na ociosidade, mas, ao que a vontade teria abraçado livremente como exercício agradável, a necessidade lhe acrescentou, depois do pecado, o sentimento da dor e o impôs como uma expiação: «A terra será maldita por tua causa; é pelo trabalho que tirarás com que te alimentar todos os dias da vida» (Gn 3,17). O mesmo se dá com todas as outras calamidades que caíram sobre o homem: neste mundo estas calamidades não terão fim nem tréguas, porque os funestos frutos do pecado são amargos, acres, acerbos, e acompanham necessariamente o homem até ao derradeiro suspiro. Sim, a dor e o sofrimento são o apanágio da humanidade, e os homens poderão ensaiar tudo, tudo tentar para os banir; mas não o conseguirão nunca, por mais recursos que empreguem e por maiores forças que para isso desenvolvam. Se há quem, atribuindo-se o poder fazê-lo, prometa ao pobre uma vida isenta de sofrimentos e de trabalhos, toda de repouso e de perpétuos gozos, certamente engana o povo e lhe prepara laços, onde se ocultam, para o futuro, calamidades mais terríveis que as do presente. O melhor partido consiste em ver as coisas tais quais são, e, como dissemos, em procurar um remédio que possa aliviar os nossos males. O erro capital na questão presente é crer que as duas classes são inimigas natas uma da outra, como se a natureza tivesse armado os ricos e os pobres para se combaterem mutuamente num duelo obstinado. Isto é uma aberração tal, que é necessário colocar a verdade numa doutrina contrariamente oposta, porque, assim como no corpo humano os membros, apesar da sua diversidade, se adaptam maravilhosamente uns aos outros, de modo que formam um todo exatamente proporcionado e que se poderá chamar simétrico, assim também, na sociedade, as duas classes estão destinadas pela natureza a unirem-se harmoniosamente e a conservarem-se mutuamente em perfeito equilíbrio. Elas têm imperiosa necessidade uma da outra: não pode haver capital sem trabalho, nem trabalho sem capital. A concórdia traz consigo a ordem e a beleza; ao contrário, de um conflito perpétuo só podem resultar confusão e lutas selvagens. Ora, para dirimir este conflito e cortar o mal na sua raiz, as Instituições possuem uma virtude admirável e múltipla. E, primeiramente, toda a economia das verdades religiosas, de que a Igreja é guarda e intérprete, é de natureza a aproximar e reconciliar os ricos e os pobres, lembrando às duas classes os seus deveres mútuos e, primeiro que todos os outros, os que derivam da justiça. Obrigações dos operários e dos patrões 12. Entre estes deveres, eis os que dizem respeito ao pobre e ao operário: deve fornecer integralmente e fielmente todo o trabalho a que se comprometeu por contrato livre e conforme à eqüidade; não deve lesar o seu patrão, nem nos seus bens, nem na sua pessoa; as suas reivindicações devem ser isentas de violências, e nunca revestirem a forma de sedições; deve fugir dos homens perversos que, nos seus discursos artificiosos, lhe sugerem esperanças exageradas e lhe fazem grandes promessas, as quais só conduzem a estéreis pesares e à ruína das fortunas. Quanto aos ricos e aos patrões, não devem tratar o operário como escravo, mas respeitar nele a dignidade do homem realçada ainda pela do cristão. O trabalho do corpo, pelo testemunho comum da razão e da filosofia cristã, longe de ser um objeto de vergonha, faz honra ao homem, porque lhe fornece um nobre meio de sustentar a sua vida. O que é vergonhoso e desumano é usar dos homens como de vis instrumentos de lucro, e não os estimar senão na proporção do vigor dos seus braços. O cristianismo, além disso, prescreve que se tenham em consideração os interesses espirituais do operário e o bem de sua alma. Aos patrões compete velar para que a isto seja dada plena satisfação, que o operário, não seja entregue à sedução e às solicitações corruptoras, que nada venha enfraquecer o espírito de família nem os hábitos de economia. Proíbe também aos patrões que imponham aos seus subordinados um trabalho superior às suas forças ou em desarmonia com a sua idade ou o seu sexo. Mas, entre os deveres principais do patrão, é necessário colocar, em primeiro lugar, o de dar a cada um o salário que convém. Certamente, para fixar a justa medida do salário, há numerosos pontos de vista a considerar. De uma maneira geral, recordem-se o rico e o patrão de que explorar a pobreza e a miséria, e especular com a indigência são coisas igualmente reprovadas pelas leis divinas e humanas; que cometeria um crime de clamar vingança ao céu quem defraudasse a qualquer pessoa no preço dos seus labores: « Eis que o salário, que tendes extorquido por fraude aos vossos operários, clama contra vós; e o seu clamor subiu até os ouvidos do Deus dos exércitos » (Tg 5,4). Enfim os ricos devem precaver-se religiosamente de todo o ato violento, toda fraude, toda manobra usurária que seja de natureza a atentar contra a economia do pobre, e isto mais ainda, porque este é menos apto para defender-se, e porque os seus haveres, por serem de mínima importância, revestem um caráter mais sagrado. A obediência a estas leis, ? perguntamos nós, ? não bastaria só, de per si, para fazer cessar todo o antagonismo e suprimir-lhe as causas? 13. Todavia a Igreja, instruída e dirigida por Jesus Cristo, eleva as suas vistas ainda mais alto; propõe um corpo de preceitos mais completos, porque ambiciona estreitar a união das duas classes até as unir uma à outra por laços de verdadeira amizade. Ninguém pode ter verdadeira inteligência da vida mortal, nem estimá-la no seu justo valor, se não se eleva à consideração da outra vida que é imortal. Suprimi esta, e imediatamente toda a forma e toda a verdadeira noção de honestidade desaparecerá; mais ainda: todo o universo se tornará um impenetrável mistério. Quando tivermos abandonado esta vida, então somente começaremos a viver: esta verdade, que a mesma natureza nos ensina, é um dogma cristão sobre o qual assenta, como sobre o seu primeiro fundamento, toda a economia da religião. Não, Deus não nos fez para estas coisas frágeis e transitórias, mas para as coisas celestes e eternas; não nos deu esta terra como nossa morada fixa, mas como lugar de exílio. Que abundeis em riquezas ou outros bens, chamados bens de fortuna, ou que estejais privados deles, isto nada importa à eterna beatitude: o uso que fizerdes deles é o que interessa. Pela sua superabundante redenção, Jesus Cristo não suprimiu as aflições que formam quase toda a trama da vida mortal; fez delas estímulos de virtude e fontes de mérito, de sorte que não há homem que possa pretender as recompensas eternas se não caminhar sobre os traços sangüinolentos de Jesus Cristo: « Se sofremos com Ele, com Ele reinaremos» (2Tm 2,12). Por outra parte, escolhendo Ele mesmo a cruz e os tormentos, minorou-lhes singularmente o peso e a amargura e, a fim de nos tornar ainda mais suportável o sofrimento, ao exemplo acrescentou a sua graça e a promessa de uma recompensa sem fim: «Porque o momento tão curto e tão ligeiro das aflições, que sofremos nesta vida, produz em nós o peso eterno de uma glória soberana incomparável» (2Cor 4,17). Assim, os afortunados deste mundo são advertidos de que as riquezas não os isentam da dor; que elas não são de nenhuma utilidade para a vida eterna, mas antes um obstáculo (Mt 19,23-24); que eles devem tremer diante das ameaças severas que Jesus Cristo profere contra os ricos (Lc 6,24-25); que, enfim, virá um dia em que deverão prestar a Deus, seu juiz, rigorosíssimas contas do uso que hajam feito de sua fortuna. Posse e uso das riquezas 14. Sobre o uso das riquezas, já a pura filosofia pode delinear alguns ensinamentos de suma excelência e extrema importância; mas só a Igreja no-los pode dar na sua perfeição, e fazê-los descer do conhecimento à prática. O fundamento dessa doutrina está na distinção entre a justa posse das riquezas e o seu legítimo uso. As propriedades particulares, já o dissemos mais acima, é de direito natural para o homem: o exercício deste direito é coisa não só permitida, sobretudo a quem vive em sociedade, mas ainda absolutamente necessária (Santo Tomás, Sum. Teol., II-II, q. 66, a. 2). Agora, se se pergunta em que é necessário fazer consistir o uso dos bens, a Igreja responderá sem hesitação: «A esse respeito o homem não deve ter as coisas exteriores por particulares, mas sim por comuns, de tal sorte que facilmente dê parte delas aos outros nas suas necessidades. É por isso que o Apóstolo disse: Ordena aos ricos do século…dar facilmente, comunicar as suas riquezas» (Santo Tomás, Sum. Teol., q. 65, a. 2). Ninguém certamente é obrigado a aliviar o próximo privando-se do seu necessário ou de sua família; nem mesmo a nada suprimir de que as conveniências ou decência impõem à sua pessoa: «Ninguém, com efeito, deve viver contrariamente às conveniências» (Santo Tomás, Sum. Teol., II-II, q. 32, a. 6). Mas, desde que haja suficientemente satisfeito à necessidade e ao decoro, é um dever lançar o supérfluo no seio dos pobres: «Do supérfluo dai esmolas» (Lc 11,41). É um dever, não de estrita justiça, exceto nos casos de extrema necessidade, mas de caridade cristã, um dever, por conseqüência, cujo cumprimento não se pode conseguir pelas vias da justiça humana. Mas, acima dos juízos do homem e das leis, há a lei e o juízo de Jesus Cristo nosso Deus, que nos persuade de todas as maneiras a dar habitualmente esmola: «É mais feliz», diz Ele, «aquele que dá, do que aquele que recebe» (At 20,35), e o Senhor terá como dada ou recusada a Si mesmo a esmola que se tenha dado ou recusado aos pobres: «Todas as vezes que tenhais dado esmola a um de meus irmãos é a mim que a haveis dado» (Mt 25,40). Eis, aliás, em algumas palavras, o resumo desta doutrina: Quem quer que tenha recebido da divina bondade maior abundância, quer de bens externos e do corpo, quer de bens de alma, recebeu-os com o fim de os fazer servir ao seu próprio aperfeiçoamento e, ao mesmo tempo, como ministro da Providência, ao alívio dos outros. «É por isso, que quem tiver o talento da palavra tome cuidado em não se calar; quem possuir superabundância de bens, não deixe a misericórdia entumecer-se no fundo do seu coração; quem tiver a arte de governar, aplique-se com cuidado a partilhar dela com seu irmão o exercício e os frutos» (São Gregório Magno, in Evang. Hom. IX, nº 7). Dignidade do trabalho 15. Quanto aos deserdados da fortuna, aprendam da Igreja que, segundo o juízo do próprio Deus, a pobreza não é um opróbrio e que não se deve corar por ter de ganhar o pão com o suor do seu rosto. É o que Jesus Cristo Nosso Senhor confirmou com seu exemplo. Ele, que «de muito rico que era, se fez indigente» (2Cor 8,9) para a salvação dos homens; que, Filho de Deus e Deus ele mesmo, quis passar aos olhos do mundo por filho de um artífice; que chegou até a consumir uma grande parte da sua vida em trabalho mercenário: «Não é ele o carpinteiro, filho de Maria?» (Mc 6,3). Quem tiver em sua frente o modelo divino compreenderá mais facilmente o que nós vamos dizer: que a verdadeira dignidade do homem e a sua excelência residem nos seus costumes, isto é, na sua virtude; que a virtude é o patrimônio comum dos mortais, ao alcance de todos, dos pequenos e dos grandes, dos pobres e dos ricos; só a virtude e os méritos, seja qual for a pessoa em quem se encontrem, obterão a recompensa da eterna felicidade. Mais ainda: é para as classes desafortunadas que o coração de Deus parece inclinar-se mais. Jesus Cristo chama aos pobres bem-aventurados (Mt 5,3): convida com amor a virem a Ele, a fim de consolar a todos os que sofrem e que choram (Mt 11,18); abraça com caridade mais terna os pequenos e os oprimidos. Estas doutrinas foram, sem dúvida alguma, feitas para humilhar a alma altiva do rico e torná-lo mais condescendente, para reanimar a coragem daqueles que sofrem e inspirar-lhes resignação. Com elas se acharia diminuído um abismo procurado pelo orgulho, e se obteria sem dificuldade que as duas classes se dessem as mãos e as vontades se unissem na mesma amizade. Comunhão de bens de natureza e de graça 16. Mas é ainda demasiado pouco a simples amizade: se se obedecer aos preceitos do cristianismo, será no amor fraterno que a união se operará. De uma parte e de outra, se saberá e compreenderá que os homens são todos absolutamente nascidos de Deus, seu Pai comum; que Deus é o seu único e comum fim, que Ele só é capaz de comunicar aos anjos e aos homens uma felicidade perfeita e absoluta; que todos eles foram igualmente resgatados por Jesus Cristo e restabelecidos por Ele na sua dignidade de filhos de Deus, e que assim um verdadeiro laço de fraternidade os une, quer entre si, quer a Cristo, seu Senhor, que é «o primogênito de muitos irmãos» (Rm 8,29). Eles saberão, enfim, que todos os bens da natureza, todos os tesouros da graça, pertencem em comum e indistintamente a todo o gênero humano e que só os indignos é que são deserdados dos bens celestes: «Se vós sois filhos, sois também herdeiros, herdeiros de Deus, co-herdeiros de Jesus Cristo» (Rm 8,17). Tal é a economia dos direitos e dos deveres que ensina a filosofia cristã. Não se veria em breve prazo estabelecer-se a pacificação, se estes ensinamentos pudessem vir a prevalecer nas sociedades? Exemplo e magistério da Igreja 17. Entretanto, a Igreja não se contenta com indicar o caminho que leva à salvação; ela conduz a esta e aplica por sua própria mão ao mal o conveniente remédio. Ela dedica-se toda a instruir e a educar os homens segundo os seus princípios a sua doutrina, cujas águas vivificantes ela tem o cuidado de espalhar, tão longe e tão largamente quanto lhe é possível, pelo ministério dos bispos e do clero. Depois, esforça-se por penetrar nas almas e por obter das vontades que se deixem conduzir e governar pela regra dos preceitos divinos. Este ponto é capital e de grandíssima importância porque encerra como que o resumo de todos os interesses que estão em litígio, e aqui a ação da Igreja é soberana. Os instrumentos de que ela dispõe para tocar as almas, recebeu-os, para este fim, de Jesus Cristo, e traz em si a eficácia de uma virtude divina. São os únicos aptos para penetrar até às profundezas do coração humano, que são capazes de levar o homem a obedecer às imposições do dever, a dominar as suas paixões, a amar a Deus e ao próximo com uma caridade sem limites, a esmagar corajosamente todos os obstáculos que dificultam o seu caminho na estrada da virtude. Neste ponto, basta passar ligeiramente em revista pelo pensamento os exemplos da antigüidade. As coisas e fatos que vamos lembrar estão isentos de controvérsia. Assim, não é duvidoso que a sociedade civil foi essencialmente renovada pelas instituições cristãs, que esta renovação teve por efeito elevar o nível do gênero humano, ou, para melhor dizer, chamá-lo da morte à vida, e guindá-lo a um alto grau de perfeição, como se não viu semelhante nem antes nem depois, e não se verá jamais em todo o decurso dos séculos. Que, enfim, destes benefícios foi Jesus Cristo o princípio e deve ser o seu fim: porque, assim como tudo partiu dEle, assim também tudo Lhe deve ser referido. Quando, pois, o Evangelho raiou no mundo, quando os povos tiveram conhecimento do grande mistério da encarnação do Verbo e da redenção dos homens, a vida de Jesus Cristo, Deus e homem, invadiu as sociedades e impregnou-as inteiramente com a sua fé, com as suas máximas e com as suas leis. É por isso que, se a sociedade humana deve ser curada, não o será senão pelo regresso à vida e às instituições do cristianismo. A quem quer regenerar uma sociedade qualquer em decadência, se prescreve com razão que a reconduza às suas origens. Porque a perfeição de toda sociedade consiste em prosseguir e atingir o fim para o qual foi fundada, de modo que todos os movimentos e todos os atos da vida social nasçam do mesmo princípio de onde nasceu a sociedade. Por isso, afastar-se do fim é caminhar para a morte, e voltar a ele é readquirir a vida. E o que nós dizemos de todo o corpo social aplica-se igualmente a essa classe de cidadãos que vivem do seu trabalho e que formam a grandíssima maioria. Nem se pense que a Igreja se deixa absorver de tal modo pelo cuidado das almas, que põe de parte o que se relaciona com a vida terrestre e mortal. Pelo que em particular diz respeito à classe dos trabalhadores, ela faz todos os esforços para os arrancar à miséria e procurar-lhes uma sorte melhor. E, certamente, não é um fraco apoio que ela dá a esta obra só pelo fato de trabalhar, por palavras e atos, para reconduzir os homens à virtude. Os costumes cristãos desde que entram em ação, exercem naturalmente sobre a prosperidade temporal a sua parte de benéfica influência; porque eles atraem o favor de Deus, princípio e fonte de todo o bem; comprimem o desejo excessivo das riquezas e a sede dos prazeres, esses dois flagelos que freqüentes vezes lançam a amargura e o desgosto no seio mesmo da opulência (1Tm 6,10); contentam-se enfim com uma vida e alimentação frugal, e suprem pela economia a modicidade do rendimento, longe desses vícios que consomem não só as pequenas, mas as grandes fortunas, e dissipam os maiores patrimônios. A Igreja e a caridade durante os séculos 18. A Igreja, além disso, provê também diretamente à felicidade das classes deserdadas, pela fundação e sustentação de instituições que ela julga próprias para aliviar a sua miséria; e, mesmo neste gênero de benefícios, ela tem sobressaído de tal modo, que os seus próprios inimigos lhe fizeram o seu elogio. Assim, entre os primeiros cristãos, era tal a virtude da caridade mútua, que não raro se viam os mais ricos despojarem-se de seu patrimônio em favor dos pobres. Por isso, a indigência não era conhecida entre eles (At 4,34); os apóstolos tinham confiado aos diáconos, cuja ordem fora especialmente instituída para esse fim, a distribuição cotidiana das esmolas, e o próprio São Paulo apesar de absorvido por uma solicitude que abraçava todas as Igrejas, não hesitava em empreender penosas viagens para ir em pessoa levar socorros aos cristãos indigentes. Socorros do mesmo gênero eram espontaneamente oferecidos pelos fiéis em cada uma das suas assembléias: o que Tertuliano chama os «depósitos da piedade», porque eram empregados «em sustentar e inumar as pessoas indigentes, os órfãos pobres de ambos os sexos, os domésticos velhos, as vítimas de naufrágio» (Apol., II, 39). Eis como pouco a pouco se formou esse patrimônio, que a Igreja sempre guardou com religioso cuidado como um bem próprio da família dos pobres. Ela chegou até a assegurar socorros aos infelizes, poupando-lhes a humilhação de estender a mão; porque esta mãe comum dos ricos e dos pobres, aproveitando maravilhosamente rasgos de caridade que ela havia provocado por toda a parte, fundou sociedades religiosas e uma multidão de outras instituições úteis, que, pouco tempo depois, não deviam deixar sem alívio nenhum gênero de miséria. Há hoje, sem dúvida, um certo número de homens que, fiéis ecos dos pagãos de outrora, chegam a fazer, mesmo dessa caridade tão maravilhosa, uma arma para atacar a Igreja; e viu-se uma beneficência estabelecida pelas leis civis substituir-se à caridade cristã; mas esta caridade, que se dedica toda e sem pensamento reservado à utilidade do próximo, não pode ser suprida por nenhuma invenção humana. Só a Igreja possui essa virtude, porque não se pode haurir senão no Sagrado Coração de Jesus Cristo, e é errar longe de Jesus Cristo estar afastado da sua Igreja. O concurso do Estado 19. Todavia não há dúvida de que, para obter o resultado desejado, não é demais recorrer aos meios humanos. Assim, todos aqueles a quem a questão diz respeito, devem visar ao mesmo fim e trabalhar de harmonia cada um na sua esfera. Nisto há como uma imagem da Providência governando o mundo: porque nós vemos de ordinário que os fatos e os acontecimentos que dependem de causas diversas são a resultante da sua ação comum. Ora, que parte de ação e de remédio temos nós o direito de esperar do Estado? Diremos, primeiro, que por Estado entendemos aqui, não tal governo estabelecido entre tal povo em particular, mas todo o governo que corresponde aos preceitos da razão natural e dos ensinamentos divinos, ensinamentos que nós mesmos expusemos, especialmente na nossa carta encíclica sobre a constituição cristã das sociedades (trata-se da Encíclica «Immortale Dei»). Origem da prosperidade nacional 20. O que se pede aos governantes é um curso de ordem geral, que consiste em toda a economia das leis e das instituições; queremos dizer que devem fazer de modo que da mesma organização e do governo da sociedade brote espontaneamente e sem esforço a prosperidade, tanto pública como particular. Tal é, com efeito, o ofício da prudência civil e o dever próprio de todos aqueles que governam. Ora, o que torna uma nação próspera, são os costumes puros, as famílias fundadas sobre bases de ordem e de moralidade, a prática da religião e o respeito da justiça, uma imposição moderada e uma repartição eqüitativa dos encargos públicos, o progresso da indústria e do comércio, uma agricultura florescente e outros elementos, se os há, do mesmo gênero: todas as coisas que se não podem aperfeiçoar, sem fazer subir outro tanto a vida e a felicidade dos cidadãos. Assim como, pois, por todos estes meios, o Estado pode tornar-se útil às outras classes, assim também pode melhorar muitíssima a sorte da classe operária, e isto em todo o rigor do seu direito, e sem ter a temer a censura de ingerência; porque, em virtude mesmo do seu ofício, o Estado deve servir o interesse comum. E é evidente que, quanto mais se multiplicarem as vantagens resultantes desta ação de ordem geral, tanto menos necessidade haverá de recorrer a outros expedientes para remediar a condição dos trabalhadores. Mas há outra consideração que atinge mais profundamente ainda o nosso assunto. A razão formal de toda a sociedade é una e comum a todos os seus membros, grandes e pequenos. Os pobres, com o mesmo título que os ricos são, por direito natural, cidadãos; isto é, do número das partes vivas de que se compõe, por intermédio das famílias, o corpo inteiro da nação, para não dizer que em todas as cidades são o grande número. Como, pois, seria desrazoável prover a uma classe de cidadãos e negligenciar outra, torna-se evidente que a autoridade pública deve também tomar as medidas necessárias para salvaguardar a salvação e os interesses da classe operária. Se ela faltar a isto, viola a estrita justiça que quer que a cada um seja dado o que lhe é devido. A esse respeito Santo Tomás diz muito sabiamente: «Assim como a parte e o todo são em certo modo uma mesma coisa, assim o que pertence ao todo, pertence de alguma sorte a cada parte» (Santo Tomás, Sum. Teol., II-II, q. 61 a. l ad 2). É por isso que entre os graves e numerosos deveres dos governantes que querem prover, como convém, ao público, o principal dever, que domina todos os outros, consiste em cuidar igualmente de todas as classes de cidadãos, observando rigorosamente as leis da justiça, chamada distributiva. Mas, ainda que todos os cidadãos, sem exceção, devam contribuir para a massa dos bens comuns, os quais, aliás, por um giro natural, se repartem de novo entre os indivíduos, todavia, as constituições respectivas não podem ser nem as mesmas, nem de igual medida. Quaisquer que sejam as vicissitudes pelas quais as formas do governo são chamadas a passar, haverá sempre entre os cidadãos essas desigualdades de condições, sem as quais uma sociedade não pode existir nem se conceber. Sem dúvida são necessários homens que governem, que façam leis, que administrem justiça que, enfim, por seus conselhos ou por via da autoridade, administrem os negócios da paz e as coisas da guerra. Que estes homens devem ter a proeminência em toda a sociedade e ocupar nela o primeiro lugar, ninguém o pode duvidar, pois eles trabalham diretamente para o bem comum e de uma maneira tão excelente. Os homens que pelo contrário, se aplicam às coisas da indústria, não podem concorrer para este bem comum nem na mesma medida, nem pelas mesmas vias; mas, entretanto, também eles, ainda que de maneira menos direta, servem muitíssimo os interesses da sociedade. Sem dúvida alguma, o bem comum, cuja aquisição deve ter por efeito aperfeiçoar os homens, é principalmente um bem moral. Mas numa sociedade regularmente constituída deve encontrar-se ainda uma certa abundância de bens exteriores «cujo uso é reclamado para exercício da virtude» (Santo Tomás, De regimine princ. I, 15). Ora, a fonte fecunda e necessária de todos estes bens é principalmente o trabalho do operário, o trabalho dos campos ou da oficina. Mais ainda: nesta ordem de coisas, o trabalho tem uma tal fecundidade e tal eficácia, que se pode afirmar, sem receio de engano, que ele é a fonte única de onde procede a riqueza das nações. A eqüidade manda, pois, que o Estado se preocupe com os trabalhadores, e proceda de modo que, de todos os bens que eles proporcionam à sociedade, lhe seja dada uma parte razoável, como habitação e vestuário, e que possam viver à custa de menos trabalho e privações (veja-se o nº 12 desta encíclica: posse e uso das riquezas). De onde resulta que o Estado deve favorecer tudo o que, de perto ou de longe, pareça de natureza a melhorar-lhes a sorte. Esta solicitude, longe de prejudicar alguém, tornar-se-á, ao contrário, em proveito de todos porque importa soberanamente à nação que homens, que são para ela o princípio de bens tão indispensáveis, não se encontrem continuamente a braços com os horrores da miséria. O governo é para os governados e não vice-versa 21. Dissemos que não é justo que o indivíduo ou a família sejam absorvidos pelo Estado, mas é justo, pelo contrário, que aquele e esta tenham a faculdade de proceder com liberdade, contanto que não atentem contra o bem geral e não prejudiquem ninguém. Entretanto, aos governantes pertence proteger a comunidade e as suas partes: a comunidade, porque a natureza confiou a sua conservação ao poder soberano, de modo que a salvação pública não é somente aqui a lei suprema, mas a causa mesma e a razão de ser do principado; as partes, porque, de direito natural, o governo não deve visar só os interesses daqueles que têm o poder nas mãos, mas ainda o bem dos que lhe estão submetidos. Tal é o ensino da filosofia, não menos que da fé cristã. Por outra parte, a autoridade vem de Deus e é uma participação da sua autoridade suprema; desde então, aqueles que são os depositários dela devem exercê-la à imitação de Deus, cuja paternal solicitude não se estende menos a cada uma das criaturas em particular do que a todo o seu conjunto. Se, pois, os interesses gerais, ou o interesse de uma classe em particular, se encontram ou lesados ou simplesmente ameaçados, e se não for possível remediar ou obviar a isso de outro modo, é de toda a necessidade recorrer à autoridade pública. Obrigações e limites da intervenção do Estado 22. Ora, importa à salvação comum e particular que a ordem e a paz reinem por toda a parte; que toda a economia da vida doméstica seja regulada segundo os mandamentos de Deus e os princípios da lei natural; que a religião seja honrada e observada; que se vejam florescer os costumes públicos e particulares; que a justiça seja religiosamente graduada, e que nunca uma classe possa oprimir impunemente a outra; que cresçam robustas gerações, capazes de ser o sustentáculo, e, se necessário for, o baluarte da Pátria. É por isso que os operários, abandonando o trabalho ou suspendendo-o por greves, ameaçam a tranqüilidade pública; que os laços naturais da família afrouxam entre os trabalhadores; que se calca aos pés a religião dos operários, não lhes facilitando o cumprimento dos seus deveres para com Deus; que a promiscuidade dos sexos e outras excitações ao vício constituem nas oficinas um perigo para a moralidade; que os patrões esmagam os trabalhadores sob o peso de ônus iníquos, ou desonram neles a pessoa humana por condições indignas e degradantes; que atentam, contra a sua saúde por um trabalho excessivo e desproporcionado com a sua idade e sexo: em todos estes casos é absolutamente necessário aplicar em certos limites a força e autoridade das leis. Estes limites serão determinados pelo mesmo fim que reclama o socorro das leis, isto é, que eles não devem avançar nem empreender nada além do que for necessário para reprimir os abusos e afastar os perigos. Os direitos, em que eles se encontram, devem ser religiosamente respeitados e o Estado deve assegurá-los a todos os cidadãos, prevenindo ou vingando a sua violação. Todavia, na proteção dos direitos particulares, deve preocupar-se, de maneira especial, dos fracos e dos indigentes. A classe rica faz das suas riquezas uma espécie de baluarte e tem menos necessidade da tutela pública. A classe indigente, ao contrário, sem riquezas que a ponham a coberto das injustiças, conta principalmente com a proteção do Estado. Que o Estado se faça, pois, sob um particularíssimo título, a providência dos trabalhadores, que em geral pertencem à classe pobre (veja-se o nº 17 ss desta encíclica). O Estado deve proteger a propriedade particular 23. Mas, é conveniente descer expressamente a algumas particularidades. É dever principalíssimo dos governos o assegurar a propriedade particular por meio de leis sábias. Hoje especialmente, no meio de tamanho ardor de cobiças desenfreadas, é preciso que o povo se conserve no seu dever; porque se a justiça lhe concede o direito de empregar os meios de melhorar a sua sorte, nem a justiça nem o bem público consentem que danifiquem alguém na sua fazenda nem que se invadam os direitos alheios sob pretexto de não sei que igualdade. Por certo que a máxima parte dos operários quereriam melhorar de condição por meios honestos sem prejudicar a ninguém; todavia, não poucos há que, embebidos de máximas falsas e desejosos de novidade, procuram a todo o custo excitar e impelir os outros à violência. Intervenha, portanto, a autoridade do Estado, e, reprimindo os agitadores, preserve os bons operários do perigo da sedução e os legítimos patrões de serem despojados do que é seu. Impeça as greves 24. O trabalho muito prolongado e pesado e uma retribuição mesquinha dão, não poucas vezes, aos operários ocasião de greves. É preciso que o Estado ponha cobro a esta desordem grave e freqüente, porque estas greves causam dano não só aos patrões e aos mesmos operários, mas também ao comércio e aos interesses comuns; e em razão das violências e tumultos, a que de ordinário dão ocasião, põem muitas vezes em risco a tranqüilidade pública. O remédio, portanto, nesta parte mais eficaz e salutar é prevenir o mal com a autoridade das leis, e impedir a explosão, removendo a tempo as causas de que se prevê que hão de nascer os conflitos entre os operários e patrões. Proteja os bens da alma 25. Muitas outras coisas devem igualmente o Estado proteger ao operário, e em primeiro lugar os bens da alma. A vida temporal, posto que boa e desejável, não é o fim para que fomos criados; mas é a via e o meio para aperfeiçoar, com o conhecimento da verdade e com a prática do bem, a vida do espírito. O espírito é o que tem em si impressa a semelhança divina, e no qual reside aquele principado em virtude do qual foi dado ao homem o direito de dominar as criaturas inferiores e de fazer servir à sua utilidade toda a terra e todo o mar: «Enchei a terra e submetei-a, dominai sobre os peixes do mar e sobre as aves do céu e sobre todos os animais que se movem sobre a terra» (Gn 1,28). Nisto todos os homens são iguais, e não há diferença alguma entre ricos e pobres, patrões e criados, monarcas e súditos, «porque é o mesmo o Senhor de todos» (Rm 10,12). A ninguém é lícito violar impunemente a dignidade do homem, do qual Deus mesmo dispõe com grande reverência, nem lhe pôr impedimentos, para que ele siga o caminho daquele aperfeiçoamento que é ordenado para o conseguimento da vida eterna; pois, nem ainda por eleição livre, o homem pode renunciar a ser tratado segundo a sua natureza e aceitar a escravidão do espírito; porque não se trata de direitos cujo exercício seja livre, mas de deveres para com Deus que são absolutamente invioláveis. 26. Daqui vem, como conseqüência, a necessidade do repouso festivo. Isto, porém, não quer dizer que se deve estar em ócio por mais largo espaço de tempo, e muito menos significa uma inação total, como muitos desejam, e que é fonte de vícios e ocasião de dissipação; mas um repouso consagrado à religião. Unido à religião, o repouso tira o homem dos trabalhos e das ocupações da vida ordinária para o chamar ao pensamento dos bens celestes e ao culto devido à Majestade divina. Eis aqui a principal natureza e fim do repouso festivo que Deus, com lei especial, prescreveu ao homem no Antigo Testamento, dizendo-lhe: «Recorda-te de santificar o sábado» (Ex 20,8); e que ensinou com o seu exemplo, quando no sétimo dia, depois de criado o homem, repousou: «Repousou no sétimo dia de todas as suas obras que tinha feito» (Gn 2,2). Proteção do trabalho dos operários, das mulheres e das crianças 27. No que diz respeito aos bens naturais e exteriores, primeiro que tudo é um dever da autoridade pública subtrair o pobre operário à desumanidade de ávidos especuladores, que abusam, sem nenhuma discrição, das pessoas como das coisas. Não é justo nem humano exigir do homem tanto trabalho a ponto de fazer pelo excesso da fadiga embrutecer o espírito e enfraquecer o corpo. A atividade do homem, restrita como a sua natureza, tem limites que não se podem ultrapassar. O exercício e o uso aperfeiçoam-na, mas é preciso que de quando em quando se suspenda para dar lugar ao repouso. Não deve, portanto, o trabalho prolongar-se por mais tempo do que as forças permitem. Assim, o número de horas de trabalho diário não deve exceder a força dos trabalhadores, e a quantidade do repouso deve ser proporcionada à qualidade do trabalho, às circunstâncias do tempo e do lugar, à compleição e saúde dos operários. O trabalho, por exemplo, de extrair pedra, ferro, chumbo e outros materiais escondidos debaixo da terra, sendo mais pesado e nocivo à saúde, deve ser compensado com uma duração mais curta. Deve-se também atender às estações, porque não poucas vezes um trabalho que facilmente se suportaria numa estação, noutra é de fato insuportável ou somente se vence com dificuldade. 28. Enfim, o que um homem válido e na força da idade pode fazer, não será eqüitativo exigi-lo de uma mulher ou de uma criança. Especialmente a infância, — e isto deve ser estritamente observado, — não deve entrar na oficina senão quando a sua idade tenha suficientemente desenvolvido nela as forças físicas, intelectuais e morais: do contrário, como uma planta ainda tenra, ver-se-á murchar com um trabalho demasiado precoce, e dar-se-á cabo da sua educação. Trabalhos há também que se não adaptam tanto à mulher, a qual a natureza destina de preferência aos arranjos domésticos que, por outro lado, salvaguardam admiravelmente a honestidade do sexo, e correspondem melhor, pela sua natureza, ao que pede a boa educação dos filhos e a prosperidade da família. Em geral, a duração do descanso deve medir-se pelo dispêndio das forças que ele deve restituir. O direito ao descanso de cada dia assim como à cessação do trabalho no dia do Senhor, deve ser a condição expressa ou tácita de todo o contrato feito entre patrões e operários. Onde esta condição não entrar, o contrato não será probo, pois ninguém pode exigir ou prometer a violação dos deveres do homem para com Deus e para consigo mesmo. O quantitativo do salário dos operários 29. Passemos agora a outro ponto da questão e de não menor importância que, para evitar os extremos, demanda uma definição precisa. Referimo-nos à fixação do salário. Uma vez livremente aceite o salário por uma e outra parte, assim se raciocina, o patrão cumpre todos os seus compromissos desde que o pague e não é obrigado a mais nada. Em tal hipótese, a justiça só seria lesada, se ele se recusasse a saldar a dívida ou o operário a. concluir todo o seu trabalho, e a satisfazer as suas condições; e neste caso, com exclusão de qualquer outro, é que o poder público teria que intervir para fazer valer o direito de qualquer deles. Semelhante raciocínio não encontrará um juiz eqüitativo que consinta em o abraçar sem reserva, pois não abrange todos os lados da questão e omite um, deveras importante. Trabalhar é exercer a atividade com o fim de procurar o que requerem as diversas necessidades do homem, mas principalmente o sustento da própria vida. «Comerás o teu pão com o suor do teu rosto» (Gn 3,19). Eis a razão por que o trabalho recebeu da natureza como um duplo cunho: é pessoal, porque a força ativa é inerente à pessoa, e porque é propriedade daquele que a exerce e a recebeu para a sua utilidade; e é necessário, porque o homem precisa da sua existência, e porque a deve conservar para obedecer às ordens irrefragáveis da natureza. Ora, se não se encarar o trabalho senão pelo seu lado pessoal, não há dúvida de que o operário pode a seu talante restringir a taxa do salário. A mesma vontade que dá o trabalho, pode contentar-se com uma pequena remuneração ou mesmo não exigir nenhuma. Mas já é outra coisa, se ao caráter de personalidade se juntar o de necessidade, que o pensamento pode abstrair, mas que na realidade não se pode separar. Efetivamente, conservar a existência é um dever imposto a todos os homens e ao qual se não podem subtrair sem crime. Deste dever nasce necessariamente o direito de procurar as coisas necessárias à subsistência, e que o pobre não as procure senão mediante o salário do seu trabalho. Façam, pois, o patrão e o operário todas as convenções que lhes aprouver, cheguem inclusive a acordar na cifra do salário: acima da sua livre vontade está uma lei de justiça natural, mais elevada e mais antiga, a saber, que o salário não deve ser insuficiente para assegurar a subsistência do operário sóbrio e honrado. Mas se, constrangido pela necessidade ou forçado pelo receio de um mal maior, aceita condições duras que por outro lado não lhe seria permitido recusar, porque lhe são impostas pelo patrão ou por quem faz oferta do trabalho, então é isto sofrer uma violência contra a qual a justiça protesta. Mas, sendo de temer que nestes casos e em outros análogos, como no que diz respeito às horas diárias de trabalho e à saúde dos operários, a intervenção dos poderes públicos seja importuna, sobretudo por causa da variedade das circunstâncias, dos tempos e dos lugares, será preferível que a solução seja confiada às corporações ou sindicatos de que falaremos mais adiante ou que se recorra a outros meios de defender os interesses dos operários, mesmo com o auxílio e apoio do Estado, se a questão o reclamar (veja-se o nº. 29 e ss). A economia como meio de conciliação das classes 30. O operário que receber um salário suficiente para ocorrer com desafogo às suas necessidades e às da sua família, se for avisado, seguirá o conselho que parece dar-lhe a própria natureza: aplicar-se-á a ser parcimonioso e obrará de forma que, com prudentes economias, vá juntando um pequeno pecúlio, que lhe permita chegar um dia a adquirir um modesto patrimônio. Já vimos que a presente questão não podia receber solução verdadeiramente eficaz, se não se começasse por estabelecer como princípio fundamental a inviolabilidade da propriedade particular. Importa, pois, que as leis favoreçam o espírito de propriedade, o reanimem e desenvolvam, tanto quanto possível, entre as massas populares. Uma vez obtido este resultado, seria ela a fonte dos mais preciosos benefícios, e em primeiro lugar de uma repartição dos bens certamente mais eqüitativa. A violência das revoluções políticas dividiu o corpo social em duas classes e cavou entre elas um imenso abismo. De um lado a onipotência na opulência: uma facção que, senhora absoluta da indústria e do comércio, torce o curso das riquezas e faz correr para o seu lado todos os mananciais; facção que, aliás, tem na sua mão mais de um motor da administração pública. Do outro, a fraqueza na indigência: uma multidão com a alma dilacerada, sempre pronta para a desordem. Estimule-se a industriosa atividade do povo com a perspectiva da sua participação na propriedade do solo, e ver-se-á nivelar pouco a pouco o abismo que separa a opulência da miséria, e operar-se a aproximação das duas classes. Demais, a terra produzirá tudo em maior abundância, pois o homem é assim feito: o pensamento de que trabalha em terreno que é seu redobra o seu ardor e a sua aplicação. Chega a pôr todo o seu amor numa terra que ele mesmo cultivou, que lhe promete a si e aos seus não só o estritamente necessário, mas ainda uma certa abastança. Não há quem não descubra sem esforços os efeitos desta duplicação da atividade sobre a fecundidade da terra e sobre a riqueza das nações. A terceira utilidade será a suspensão do movimento de emigração: ninguém, com efeito, quereria trocar por uma região estrangeira a sua pátria e a sua terra natal, se nesta encontrasse os meios de levar uma vida mais tolerável. Mas uma condição indispensável para que todas estas vantagens se convertam em realidades, é que a propriedade particular não seja esgotada por um excesso de encargos de impostos. Não é das leis humanas, mas da natureza, que emana o direito da propriedade individual; a autoridade pública não o pode, pois, abolir; o que ela pode é regular-lhe o uso e conciliá-lo com o bem comum. É por isso que ela obra contra a justiça e contra a humanidade quando, sob o nome de impostos, sobrecarrega desmedidamente os bens dos particulares. Benefício das corporações 31. Em último lugar, diremos que os próprios patrões e operários podem singularmente auxiliar a solução, por meio de todas as obras próprias a aliviar eficazmente a indigência e a operar uma aproximação entre as duas classes. Deste número são as associações de socorros mútuos; as diversas instituições, devidas à iniciativa particular, que têm por fim socorrer os operários, bem como as suas viúvas e órfãos, em caso de morte, de acidentes ou de enfermidades; os patronatos que exercem uma proteção benéfica para com as crianças dos dois sexos, os adolescentes e os homens feitos. Mas o primeiro lugar pertence às corporações operárias, que abrangem quase todas as outras. Os nossos antepassados experimentaram por muito tempo a benéfica influência destas associações. Ao mesmo tempo em que os artistas encontravam nelas inapreciáveis vantagens, as artes receberam delas novo lustre e nova vida, como o proclama grande quantidade de monumentos. Sendo hoje mais cultas as gerações, mais polidos os costumes, mais numerosas as exigências da vida cotidiana, é fora de dúvida que se não podia deixar de adaptar as associações a estas novas condições. Assim, com prazer vemos nós irem-se formando por toda a parte sociedades deste gênero, quer compostas só de operários, quer mistas, reunindo ao mesmo tempo operários e patrões: é para desejar que aumentem a sua ação. Conquanto nos tenhamos ocupado delas mais de uma vez (veja-se a Encíclica Libertas), queremos expor aqui a sua oportunidade e o seu direito de existência e indicar como devem organizar-se e qual deve ser o seu programa de ação. As associações particulares e o Estado 32. A experiência que o homem adquire todos os dias da exigüidade das suas forças obriga-o e impele-o a agregar-se a uma cooperação estranha. É nas Sagradas Letras que se lê esta máxima: “Mais valem dois juntos que um só, pois tiram vantagens da sua associação. Se um cai, o outro sustenta-o. Desgraçado do homem só, pois, quando cair, não terá ninguém que o levante.” (Ecl 4,9-12). E esta outra: «O irmão que é ajudado por seu irmão, é como uma cidade forte» (Prv 18,19). Desta propensão natural, como de um único germe, nasce primeiro a sociedade civil; depois no próprio seio desta, outras sociedades que, por serem restritas e imperfeitas, não deixam de ser sociedades verdadeiras. Entre as pequenas sociedades e a grande, há profundas diferenças, que resultam do seu fim próximo. O fim da sociedade civil abrange universalmente todos os cidadãos, pois este fim está no bem comum, isto é, num bem do qual todos e cada um têm o direito de participar em medida proporcional. Por isso se chama público, porque reúne os homens para formarem uma nação (Santo Tomás, Contra impug. Dei cultum et relig., II,8). Ao contrário, as sociedades que se constituem no seu seio, são frágeis, porque são particulares, e o são, com efeito, pois a sua razão de ser imediata é a utilidade particular e exclusiva dos seus membros: «A sociedade particular é aquela que se forma com um fim particular, como quando dois ou três indivíduos se associam para exercerem em comum o comércio» (ibidem). Ora, pelo fato de as sociedades particulares não terem existência senão no seio da sociedade civil, da qual são como outras tantas partes, não se segue, falando em geral e considerando apenas a sua natureza, que o Estado possa negar-lhes a existência. O direito de existência foi-lhes outorgado pela própria natureza; e a sociedade civil foi instituída para proteger o direito natural, não para o aniquilar. Por esta razão, uma sociedade civil que proibisse as sociedades públicas e particulares, atacar-se-ia a si mesma, pois todas as sociedades públicas e particulares tiram a sua origem de um mesmo princípio: a natural sociabilidade do homem. Certamente se dão conjunturas que autorizam as leis a opor-se à fundação de uma sociedade deste gênero. Se uma sociedade, em virtude mesmo dos seus estatutos orgânicos, trabalhasse para um fim em oposição flagrante com a probidade, com a justiça, com a segurança do Estado, os poderes públicos teriam o direito de lhe impedir a formação, ou o de a dissolver, se já estivesse formada. Mas deviam em tudo isto proceder com grande circunspeção para evitar usurpação dos direitos dos cidadãos, e para não estatuir, sob a cor de utilidade pública, alguma coisa que a razão houvesse de desaprovar. Pois uma lei não merece obediência, senão enquanto é conforme com a reta razão e a lei eterna de Deus (Santo Tomás, Sum. Teol., I-II, q. 93, a.3 ad 2). 33. Aqui, apresentam-se ao nosso espírito as confrarias, as congregações e as ordens religiosas de todo o gênero nascidas da autoridade da Igreja e da piedade dos fiéis. Quais foram os seus frutos de salvação para o gênero humano até aos nossos dias, a história o diz suficientemente. Considerando simplesmente o ponto de vista da razão, estas sociedades aparecem como fundadas com um fim honesto, e, conseqüentemente, sob os auspícios do direito natural: no que elas têm de relativo à religião, não dependem senão da Igreja. Os poderes públicos não podem, pois, legitimamente, arrogar-se nenhum direito sobre elas, atribuir-se a sua administração; a sua obrigação é antes respeitá-las, protegê-las e, em caso de necessidade, defendê-las. Justamente o contrário é que nós temos sido condenados a ver, principalmente nestes últimos tempos. Em não poucos países, o Estado tem posto mão nestas sociedades, e tem acumulado a este respeito injustiça sobre injustiça; sujeição às leis civis, privações do direito legítimo de personalidade, espoliação dos bens. Sobre estes bens, a Igreja tinha todavia os seus direitos: cada um dos membros tinha os seus; os doadores, que lhe haviam dado uma aplicação, e aqueles enfim, que delas auferiam socorros e alívio, tinham os seus. Assim não podemos deixar de deplorar amargamente espoliações tão iníquas e tão funestas; tanto mais que se ferem de proscrição as sociedades católicas na mesma ocasião em que se afirma a legalidade das sociedades particulares, e que, aquilo que se recusa a homens pacíficos e que não têm em vista senão a utilidade pública, se concede, e por certo muito amplamente, a homens que meditam planos funestos para a religião e também para o Estado. As associações operárias católicas 34. Certamente em nenhuma outra época se viu tão grande multiplicidade de associações de todo o gênero, principalmente de associações operárias. Não é, porém, aqui o lugar para investigar qual é a origem de muitas delas, qual o seu fim e quais os meios com que tendem para esse fim. Mas é uma opinião, confirmada por numerosos indícios, que elas são ordinariamente governadas por chefes ocultos, e que obedecem a uma palavra de ordem igualmente hostil ao nome cristão e à segurança das nações: que, depois de terem açambarcado todas as empresas, se há operários que recusam entrar em seu seio, elas fazem-lhe expiar a sua recusa pela miséria. Neste estado de coisas os operários cristãos não têm remédio senão escolher entre estes dois partidos: ou darem os seus nomes a sociedades de que a religião tem tudo a temer, ou organizarem-se eles próprios e unirem as suas forças para poderem sacudir denodadamente um jugo tão injusto e tão intolerável. Haverá homens, verdadeiramente empenhados em arrancar o supremo bem da humanidade a um perigo iminente, que possam ter a menor dúvida de que é necessário optar por esse último partido? É altamente louvável o zelo de grande número dos nossos, que, conhecendo perfeitamente as necessidades da hora presente, sondam cuidadosamente o terreno, para aí descobrirem uma vereda honesta que conduz à reabilitação da classe operária. Constiuindo-se protetores das pessoas dedicadas ao trabalho, esforcem-se por aumentar a sua prosperidade, tanto doméstica como individual, e regular com eqüidade as relações recíprocas dos patrões e dos operários; por manter e enraizar em uns e outros a lembrança dos seus deveres e a observação dos preceitos que, conduzindo o homem à moderação e condenando todos os excessos, mantêm nas nações, e entre elementos tão diversos de pessoas e de coisas, a concórdia e a harmonia mais perfeita. Sob a inspiração dos mesmos pensamentos, homens de grande mérito se reúnem freqüentemente em congresso, para comunicarem mutuamente as idéias, unirem as suas forças, ordenarem programas de ação. Outros se ocupam em fundar corporações adequadas às diversas profissões e em fazer entrar nelas os artífices: coadjuvam estes com os seus conselhos e a sua fortuna, e providenciam para que lhes não falte nunca um trabalho honrado e proveitoso. Os bispos, por seu lado, animam estes esforços e os colocam sob a sua proteção: por sua autoridade e sob os seus auspícios, membros do clero, tanto secular como regular se dedicam, em grande número, aos interesses espirituais das corporações. Finalmente, não faltam católicos que, possuidores de abundantes riquezas, convertidos de alguma sorte em companheiros voluntários dos trabalhadores, não olham as despesas para fundar e propagar sociedades, onde estes possam encontrar, a par com certa abastança para o presente, a promessa de honroso descanso para o futuro. Tanto zelo, tantos e tão engenhosos esforços têm já feito entre os povos um bem muito considerável, e demasiado conhecido para que seja necessário falar deles mais detidamente. É a nossos olhos feliz prognóstico para o futuro e esperamos destas corporações os mais benéficos frutos, contanto que continuem a desenvolver-se e que a prudência presida à sua organização. Proteja o Estado estas sociedades fundadas segundo o direito; mas não se intrometa no seu governo interior e não toque nas molas íntimas que lhes dão vida; pois o movimento vital procede essencialmente dum principio interno, e extingue-se facilmente sob a ação de uma causa externa. Disciplina e fim destas associações 35. Precisam evidentemente estas corporações, para que nelas haja unidade de ação e acordo de vontades, de uma sábia e prudente disciplina. Se, pois, como é certo, os cidadãos são livres para se associarem, devem sê-lo igualmente para se dotarem com os estatutos e regulamentos que lhes pareçam mais apropriados ao fim que visam. Quais devem ser estes estatutos e regulamentos? Não cremos que se possam dar regras certas e precisas para lhes determinar os pormenores; tudo depende do gênero de cada nação, das tentativas feitas e da experiência adquirida, do gênero de trabalho, da expansão do comércio, e de outras circunstâncias de coisas e de tempos que se devem pesar com ponderação. Tudo quanto se pode dizer em geral é que se deve tomar como regra universal e constante o organizar e governar por tal forma as corporações que proporcionem a cada um dos seus membros os meios aptos para lhes fazerem atingir, pelo caminho mais cômodo e mais curto, o fim que eles se propõem, e que consiste no maior aumento possível dos bens do corpo, do espírito e da fortuna. Mas é evidente que se deve visar antes de tudo o objeto principal, que é o aperfeiçoamento moral e religioso. É principalmente este fim que deve regular toda a economia destas sociedades; de outro modo, elas degenerariam bem depressa e cairiam, por pouco que fosse, na linha das sociedades em que não tem lugar a religião. Ora, de que serviria ao artista ter encontrado no seio da corporação a abundância material se a falta de alimentos espirituais pusesse em perigo a salvação da sua alma? «Que vale ao homem possuir o universo inteiro, se vier a perder a sua alma? » (Mt 16, 26) Eis o caráter com que Nosso Senhor Jesus Cristo quis que se distinguisse o cristão do pagão: «Os pagãos procuram todas estas coisas…procurai primeiro o reino de Deus, e todas estas coisas vos serão dadas por acréscimo» (Mt. 6,32-33). Assim, pois, tomando a Deus por ponto de partida, dê-se amplo lugar à instrução religiosa a fim de que todos conheçam os seus deveres para com Ele; o que é necessário crer, o que é necessário esperar, o que é necessário fazer para obter a salvação eterna, tudo isto lhes deve ser cuidadosamente recomendado; premunam-se com particular solicitude contra as opiniões errôneas e contra todas as variedades do vício. Guie-se o operário ao culto de Deus, incite-se nele o espírito de piedade, faça-se principalmente fiel à observância dos domingos e dias festivos. Aprenda ele a amar e a respeitar a Igreja, mãe comum de todos os cristãos, a aquiescer aos seus preceitos, a freqüentar os seus sacramentos, que são fontes divinas onde a alma se purifica das suas manchas e bebe a santidade. Constituída assim a religião em fundamento de todas as leis sociais, não é difícil determinar as relações mútuas a estabelecer entre os membros para obter a paz e a prosperidade da sociedade. As diversas funções devem ser distribuídas da maneira mais proveitosa aos interesses comuns, e de tal modo, que a desigualdade não prejudique a concórdia. Importa grandemente que os encargos sejam distribuídos com inteligência, e claramente definidos, a fim de que ninguém sofra injustiça. Que a massa comum seja administrada com integridade, e que se determine previamente, pelo grau de indigência de cada um dos membros, a quantidade de socorro que deve ser concedido; que os direitos e os deveres dos patrões sejam perfeitamente conciliados com os direitos e deveres dos operários. A fim de atender ás reclamações eventuais que se levantem numa ou noutra classe a respeito dos direitos lesados, seria muito para desejar que os próprios estatutos encarregassem homens prudentes e íntegros, tirados do seu seio, para regularem o litígio na qualidade de árbitros. Convite para os operários católicos se associarem. 36. É necessário ainda prover de modo especial a que em nenhum tempo falte trabalho ao operário; e que haja um fundo de reserva destinado a fazer face, não somente aos acidentes súbitos e fortuitos inseparáveis do trabalho industrial, mas ainda à doença, à velhice e os reveses da fortuna. Estas leis, contanto que sejam aceitas de boa vontade, bastam para assegurar aos fracos a subsistência e um certo bem-estar; mas as corporações católicas são chamadas ainda a prestar os seus bons serviços à prosperidade geral. Pelo passado podemos sem temeridade julgar o futuro. Uma época cede o lugar à outra; mas o curso das coisas apresenta maravilhosas semelhanças, preparadas por essa Providência que tudo dirige e faz convergir para o fim que Deus se propôs ao criar a humanidade. Sabemos que nas primeiras idades da Igreja lhe imputavam como crime a indigência dos seus membros, condenados a viver de esmolas ou do trabalho. Mas, despidos como estavam de riquezas e de poder, souberam conciliar o favor dos ricos e a proteção dos poderosos. Viam-nos diligentes, laboriosos, modelos de justiça e principalmente de caridade. Com o espetáculo de uma vida tão perfeita e de costumes tão puros, todos os preconceitos se dissiparam, o sarcasmo caiu e as ficções de uma superstição inveterada desvaneceram-se pouco a pouco ante a verdade cristã. A sorte da classe operária, tal é a questão de que hoje se trata, será resolvida pela razão ou sem ela e não pode ser indiferente às nações quer o seja de um modo ou de outro. Os operários cristãos resolvê-la-ão facilmente pela razão, se, unidos em sociedades e obedecendo a uma direção prudente, entrarem no caminho em que os seus antepassados encontraram o seu bem e o dos povos. Qualquer que seja nos homens a força dos preconceitos e das paixões, se uma vontade pervertida não afogou ainda inteiramente o sentido do justo e do honesto, será indispensável que, cedo ou tarde, a benevolência pública se volte para esses operários, que se hajam visto ativos e modestos, pondo a eqüidade acima da ganância, e preferindo a tudo a religião do dever. Daqui resultará esta outra vantagem: que a esperança de salvação e grandes facilidades para a atingir, serão oferecidas a esses operários que vivem no desprezo da fé cristã, ou nos hábitos que ela reprova. Compreendem, geralmente, esses operários que têm sido joguete de esperanças enganosas e de aparências mentirosas. Pois sentem, pelo tratamento desumano que recebem dos seus patrões, que quase não são avaliados senão pelo peso do ouro produzido pelo seu trabalho; quanto às sociedades que os aliciaram, bem vêem eles que, em lugar da caridade e do amor, não encontram nelas senão discórdias intestinas, companheiras inseparáveis da pobreza insolente e incrédula. A alma embotada, o corpo extenuado, quanto não desejariam sacudir um jugo tão humilhante! Mas, ou por causa dos respeitos humanos ou pelo receio da indigência, não ousam fazê-lo. Para todos esses operários podem as sociedades católicas ser de maravilhosa utilidade, se convidarem os hesitantes a vir procurar no seu seio um remédio para todos os males, e acolherem pressurosas os arrependidos e lhes assegurarem defesa e proteção. Solução definitiva: a caridade 37. Vede, veneráveis irmãos, por quem e por que meios esta questão tão difícil demanda ser tratada e resolvida. Tome cada um a tarefa que lhe pertence, e isto sem demora, para que não suceda que, diferindo-se o remédio, se torne incurável o mal, já de si tão grave. Façam os governantes uso da autoridade protetora das leis e das instituições; lembrem-se os ricos e os patrões dos seus deveres; tratem os operários, cuja sorte está em jogo, dos seus interesses pelas vias legítimas; e, visto que só a religião, como dissemos a princípio, é capaz de arrancar o mal pela raiz, lembrem-se todos de que a primeira coisa a fazer é a restauração dos costumes cristãos, sem os quais os meios mais eficazes sugeridos pela prudência humana serão pouco aptos para produzir salutares resultados. Quanto à Igreja, a sua ação jamais faltará por qualquer modo, e será tanto mais fecunda, quanto mais livremente se possa desenvolver. Nós desejamos que compreendam isto, sobretudo aqueles cuja missão é velar pelo bem público. Empreguem neste ponto os ministros do santuário toda a energia da sua alma e generosidade do seu zelo, e guiados pela vossa autoridade e pelo vosso exemplo, veneráveis irmãos, não se cansem de inculcar a todas as classes da sociedade as máximas do Evangelho; façamos tudo quanto estiver ao nosso alcance para salvação dos povos e, sobretudo, alimentem em si e acendam nos outros, nos grandes e nos pequenos a caridade, senhora e rainha de todas as virtudes. Portanto, a salvação desejada deve ser principalmente o fruto de uma grande efusão de caridade, queremos dizer, daquela caridade que compendia em si todo o Evangelho, e que, sempre pronta a sacrificar-se pelo próximo, é o antídoto mais seguro contra o orgulho e o egoísmo do século. Desta virtude, descreveu São Paulo as feições características com as seguintes palavras: «A caridade é paciente, é benigna, não cuida do seu interesse; tudo sofre; a tudo se resigna» (1Cor 13,4-7). Como sinal dos favores celestes e penhor de nossa benevolência, a cada um de vós, veneráveis irmãos, ao vosso clero e ao vosso povo, com grande afeto no Senhor, concedemos a bênção apostólica. Dada em Roma, junto de São Pedro, aos 15 de maio de 1891, no décimo quarto ano do nosso pontificado. #DoutrinadosPapas

  • O golpe de mestre de Satanás

    O GOLPE DE MESTRE DE SATANÁS Nós sabemos pelo Gênesis, e melhor ainda pelo próprio Senhor que Satanás é o pai da mentira. No versículo 44, capítulo 8, do evangelho de São João, Nosso Senhor dirige-se aos Judeus dizendo: “o Diabo é vosso pai e vós quereis cumprir seus desejos. Ele foi homicida desde o princípio, e continua fora da Verdade, porque a Verdade não está nele; sua palavra é mentirosa porque por sua natureza ele mente: pois, com efeito, ele é mentiroso e pai da mentira…” Satanás é homicida nas perseguições sanguinárias, pai da mentira nas heresias, em todas as falsas filosofias e nas palavras equívocas que estão na base das revoluções, das guerras mundiais e das guerras civis. Ele não cessa de atacar Nosso Senhor em seu Corpo místico: a Igreja. No curso da História, empregou todos os meios, sendo um dos últimos e dos mais terríveis o da apostasia oficial das sociedades civis. O laicismo do Estado foi, e será sempre, um imenso escândalo para as almas dos cidadãos. E foi por esse artifício que ele conseguiu, pouco a pouco, laicizar e fazer perder a fé de numerosos membros da Igreja, a tal ponto que os falsos princípios da separação da Igreja e do Estado, da liberdade das religiões, do ateísmo político, da autoridade que apóia sua origem nos indivíduos acabaram por invadir os seminários, as paróquias, os bispados e mesmo o Concílio Vaticano II. Para fazer isso Satanás inventou palavras-chaves que permitiram os erros modernos e modernistas penetrarem no Concílio: a falsa liberdade introduziu-se pela Liberdade religiosa ou liberdade das religiões; a “igualdade” pela Colegialidade que introduziu os princípios do igualitarismo democrático na Igreja, enfim, a “fraternidade” pelo Ecumenismo que abraça todas as heresias, todos erros e estende a mão a todos os inimigos da Igreja. O golpe de mestre de Satanás foi, portanto, o de difundir os princípios revolucionários introduzidos na Igreja pela autoridade da própria Igreja, colocando essa autoridade numa situação de incoerência e contradição permanente. Se esse equívoco não for dissipado, os desastres multiplicar-se-ão na Igreja. A liturgia tornando-se um equívoco, o sacerdócio também se tornará, e o Catecismo o será igualmente. A própria hierarquia da Igreja vive num equívoco permanente entre a autoridade pessoal recebida pelo sacramento da Ordem e pela Missão de Pedro ou dos Bispos e os princípios democráticos. É preciso reconhecer que essa mudança foi bem manejada e a mentira de Satanás maravilhosamente utilizada. A Igreja se destruirá a si mesma pela via da obediência. Ela se converterá ao mundo herético, pagão, por obediência através de uma liturgia equívoca, de um catecismo ambíguo e cheio de omissões e de instituições novas baseadas sobre os princípios democráticos. As ordens, as contra-ordens, as circulares, constituições, prescrições serão tão bem manipuladas, tão bem orquestradas, sustentadas pela onipotência dos meios de comunicação social, e pelo que resta da Ação Católica, que todos os bons fiéis, os bons padres repetirão, com o coração quebrantado, mas consentido: é preciso obedecer ! A quem ? Ao quê ? Não se sabe direito: à Santa Sé, ao Concílio, às Comissões, às Conferências episcopais ? Perde-se a cabeça nos livros litúrgicos, nos ordos diocesanos, na indizível confusão dos catecismos, nas “Orações do Tempo Presente”, etc. É preciso obedecer, até tornar-se protestante, marxista, ateu, budista, indiferentista: pouco importa ! É preciso obedecer mediante as renegações dos padres, do absenteísmo dos Bispos – salvo para condenar aqueles que querem guardar a Fé -, mediante o casamento dos consagrados a Deus, da comunhão dos divorciados, da intercomunhão com os heréticos, etc. É preciso obedecer. Os seminários se esvaziam, assim como os noviciados, as casas religiosas, as escolas. Os tesouros da Igreja são pilhados, os padres se secularizam e se profanam em seu traje, em sua linguagem, em sua alma !…É preciso obedecer: Roma, as Conferências Episcopais, o Sínodo presbiteral o querem ! Eis o que todos os ecos das Igrejas, dos jornais, das revistas repetem: aggiornamento, abertura ao mundo. Infeliz daquele que não consente. Ele tem o direito de ser injuriado, caluniado, privado de tudo o que lhe permitiria viver. É um herético, cismático: que morra. É tudo o que merece. Satanás verdadeiramente desferiu um golpe de mestre: ele conseguiu condenar aqueles que guardam a fé católica por aqueles mesmos que a deveriam defender e propagar. Já é tempo de reencontrar o senso comum da fé, de encontrar a verdadeira obediência à verdadeira Igreja oculta sob a falsa máscara do equívoco e da mentira. A verdadeira Igreja, a verdadeira Sé Apostólica, o Sucessor de Pedro e os Bispos, na medida em que se submetem à Tradição da Igreja, não nos peçam e não podem nos pedir de nos tornar protestantes, marxistas ou comunistas. Poder-se-ia crer, ao ler-se certos documentos, certas constituições, certas circulares, certos catecismos, que se nos solicita a abandonar a verdadeira Fé em nome do Concílio, de Roma, etc. Nós devemos recusar de nos tornarmos protestantes, de perder a Fé, de apostatar como o fez a sociedade política depois dos erros espalhados por Satanás com a Revolução de 1789. Nós recusamos apostatar, fosse isso em nome do Concílio, de Roma ou das Conferências Episcopais. Sobretudo nós permanecemos firmemente ligados aos Concílios dogmáticos que definiram para sempre nossa Fé. Todo católico digno desse nome deve recusar o relativismo, o evolucionismo de sua fé, como se aquilo que foi definido solenemente outrora pelos Concílios não seria mais válido atualmente e pudesse ser modificado por outro Concílio, sobretudo se ele é apenas pastoral. A confusão, a imprecisão, as modificações dos documentos sobre a liturgia, a precipitação na aplicação manifestam, evidentemente, que não se trata de uma reforma inspirada pelo Espírito Santo. Essa maneira de proceder é totalmente contrária aos hábitos romanos que sempre agiram “cum consilio et sapientia”. É impossível que o Espírito Santo tenha inspirado a definição da Missa segundo o artigo VII da Constituição (1) , e ainda mais incrível que se tenha sentido, em seguida, a necessidade de corrigir essa falsa definição, o que é uma confissão de irregularidade na mais importante realidade da Igreja: o Santo Sacrifício da Missa. A presença dos protestantes na reforma litúrgica da Missa, é preciso dizer, representa um dilema que parece difícil de se escapar. Ou tal presença significaria que eles [os protestantes] foram convidados a reajustar seu culto aos dogmas da Santa Missa, ou que se lhes perguntava o quê na Missa católica os desagradava, a fim de não deixar subsistir uma expressão dogmática que eles não pudessem admitir. É evidente que foi a segunda solução que foi adotada, coisa inconcebível e, certamente, não inspirada pelo Espírito Santo. Quando se considera que a concepção da Missa Normativa é aquela do Padre Bugnini e que ele a impôs tanto ao Sínodo como à Comissão Litúrgica, pode pensar-se que há Roma e Roma: a Roma eterna em sua Fé, seus dogmas, sua concepção do Sacrifício da Missa e a Roma temporal influenciada pelas idéias do mundo moderno, influência à qual não escapou o próprio Concílio que, por intenção e por graça do Espírito Santo se quis somente pastoral. Santo Tomás se pergunta, na Questão sobre a correção fraterna, se convém que ela se exerça em relação aos Superiores. Com todas as distinções úteis, o Anjo das Escolas responde que ela deve fazer-se quando se trata da Fé. Ora quem pode com toda consciência dizer que hoje a Fé dos fiéis e de toda Igreja não está gravemente ameaçada na Liturgia, no ensino do catecismo e nas instituições da Igreja ? Que se leia e releia São Francisco de Sales, São Roberto Belarmino, São Pedro Canísio e Bossuet, e se encontrará com perplexidade que eles tiveram que lutar contra os mesmos erros. Mas dessa vez o drama extraordinário é que as desfigurações da Tradição nos vêm de Roma e das Conferências Episcopais. Portanto, quem quiser guardar a Fé, deve admitir que algo de anormal se passa na administração romana. Nós devemos certamente sustentar a infalibilidade da Igreja e do Sucessor de Pedro, mas nós devemos também admitir a situação trágica na qual se encontra nossa Fé católica pelas orientações e documentos que nos vêm da Igreja. Portanto, a conclusão retorna àquilo que dissemos no início: Satanás reina pelo equívoco e pela incoerência, que são os seus meios de combate e que enganam os homens de pouca Fé. Esse equívoco deve ser combatido corajosamente a fim de preparar o dia em que a Providência escolher para a condená-lo oficialmente pelo sucessor de Pedro. Que não nos chamem de rebeldes ou de orgulhosos, posto que não somos nós que julgamos, mas é o próprio Papa que, como Sucessor de Pedro, condena o que ele mesmo encoraja em outras ocasiões, é a Roma eterna que condena a Roma temporal. Nós preferimos obedecer à eterna. Nós pensamos com toda consciência que toda legislação posta em prática depois do Concílio é ao menos duvidosa e por conseguinte nós apelamos para o Cânon 23 que trata desse caso e nos determina de nos manter na lei antiga. Eis as palavras que, para alguns, parecerão ultrajosas à autoridade. Elas são, ao contrário, as únicas que protegem a autoridade e que a reconhecem verdadeiramente, pois a autoridade só pode existir para a Verdade e o Bem, e não para o erro e o vício. No dia 13 de outubro, aniversário das aparições em Fátima – 1974. Que Maria se digne abençoar essas linhas e as faça trazer frutos de Verdade e Santidade. +Marcel Lefebvre (1) Primeira redação da Constituição Apostólica Missale Romanum, de S.S. Paulo VI, que promulga o Novo Ordo da Missa, na qual a missa é definida à maneira protestante. #DomMarcelLefebvre

  • Dom Marcel Lefebvre

    DOM MARCEL LEFEBVRE Em 29 de novembro de 1905, nascia Marcel numa família que contará até oito filhos, dos quais dois serão padres, três religiosas. Depois da formação no Seminário Francês, em Roma, e a aquisição dos doutorados de filosofia (1925) e teologia (1929), foi ordenado sacerdote eternamente, em 21 de setembro de 1929. Celebrou a primeira Missa na sua paróquia de origem, com grande concurso de povo, não menos de cinqüenta coroinhas cercando-o no altar. A sua piedosa Mãe disse: “Eu estava no céu!“. Depois de um ano, como quinto coadjutor duma paróquia na diocese, entrou no noviciado dos Padres do Espírito Santo. Dom Lefebvre na África Pronunciados os primeiros votos, o novo missionário embarcou para o Gabão, em outubro de 1932, ao encontro de seu irmão, Renato, já Padre. Foi sucessivamente missionário, professor de Dogma e Sagrada Escritura, diretor do seminário como do colégio. Amado dos colegas como dos alunos, era também confessor do seu bispo, Dom Tardy. Nas pregações populares, conferências, missões abertas e retiros, catecismos, administração dos sacramentos, atendimento das confissões, contatos com os não-cristãos, lhe dirá seu irmão no dia da consagração episcopal, “vivendo realmente de coração com os indígenas, você se fazia amado de todos, e muito deplorado quando foi transferido“. O Padre dirá simplesmente desta época: “Sempre a obediência é uma coisa boa. Eu estava pensando que não fazia senão meu dever. Nunca me arrependi“. Em 18 de setembro de 1947, ele é sagrado bispo, na cidade natal, Tourcoing, pelo cardeal Liénart. O mês seguinte, estava chegando a Dakar, onde o esperava uma esplêndida missão. Na “História religiosa do Senegal”, escreverá Jean Delcourt: “De 1947 até 1962, Dom LEFEBVRE, apóstolo infatigável, mudou a face do Senegal”; e o “Osservatore Romano”, jornal oficioso do Vaticano, declarará: “Em 1947, um jovem bispo espiritano, Dom Marcel LEFEBVRE, deu um impulso novo à evangelização, abrindo novos centros católicos e mandando novas forças apostólicas… Sua obra criadora deixou pegadas profundas“. Até os muçulmanos grande tinham  respeito e admiração para com o bispo. Durante uns dez anos, quer como primeiro arcebispo de Dakar, quer como delegado apostólico de toda a África francófona, Dom LEFEBVRE criou vinte e uma dioceses, erigiu Seminários maiores, multiplicou o número de sacerdotes indígenas. Mandou vir numerosas congregações religiosas européias, fundou o primeiro Carmelo da África negra, em Sebikhotane, e um mosteiro beneditino da congregação de Solesmes. Principalmente, estabeleceu uma sólida hierarquia indígena. De outro lado, desenvolveu a imprensa católica com máquinas modernas, organizou a Ação Católica. Dotou cada missão de um dispensário, desenvolveu as escolas do primeiro e segundo graus (em 1947, 2000 alunos em nove escolas primárias; dez anos mais tarde, 12000 alunos em cinqüenta escolas, mais 1600 repartidos em 12 estabelecimentos secundários). Delegado apostólico até 1959, se encontrava Dom LEFEBVRE, cada ano, com Sua Santidade o Papa Pio XII: seus relatórios e avisos estão na origem da encíclica “Fidei Donum” que revivificou a obra missionária da santa Igreja. Sobretudo, num país de maioria muçulmana, em que também rivalizavam animismo e superstição como proselitismo protestante, Dom LEFEBVRE se aplicou, com todas as suas forças, à obra doutrinária. As Cartas Pastorais mostram a preocupação sem cessar de edificar a sociedade cristã em bases profundas. Não podemos aqui dar conta de todas, que contudo são notáveis, mencionamos só a primeira carta que trata de um problema essencial: a ignorância religiosa. O arcebispo lembra o dever, para todos, de estudar o catecismo, os Livros Sagrados, e a obrigação dos pais de dar aos filhos o bom ensinamento, quer dizer a transmissão das verdades eternas como a prática das virtudes cristãs, e também o conhecer reto das verdades naturais. Resumindo a ação de Dom Marcel LEFEBVRE na África, um bispo disse dele: “Serviu a causa da Igreja com todo o seu coração e a sua fé“. Dom Lefebvre no Concílio Em julho de 1962, o Capítulo Geral dos Padres do Espírito Santo elegeu-o como Superior Geral. Mas em 1968, será colocado de lado pela mesma Congregação e, então, entregará a demissão. 1962-1965 foi também o período do funesto Concílio Vaticano II. Nesta época ninguém podia saber, ou imaginar, os frutos tão nocivos que seguiriam. Então, foi chamado Dom LEFEBVRE, pelo Papa João XXIII, para fazer parte da Comissão Preparatória do Concílio. Estava entusiasmado: a sua longa experiência missionária, seu caráter dinâmico e o sentido prático mostravam-lhe a necessidade de uma verdadeira reforma. Mas já, nesta comissão, se encontrou a confrontação de duas tendências: uma conservadora e dogmática, representada pelo Cardeal OTTAVIANI, e outra muito progressista, na pessoa do Cardeal BEA. Todos sabem o que foi o Concílio e as conseqüências trágicas: uma verdadeira revolução. Dom LEFEBVRE descobriu pouco a pouco as evoluções dos progressistas, e resistiu, tentando agrupar os bons. Mas os inimigos haviam de muito tempo preparado os seus ataques, e a maioria dos Padres conciliares ficou apática. O Cardeal Lefebvre, próprio primo de Dom LEFEBVRE, escreverá: “Nunca perdoaremos a Dom LEFEBVRE a sua atitude durante o Concílio…” Deste tempo data a feliz amizade sobrenatural que uniu, até a morte, Dom Marcel LEFEBVRE a Dom Antônio de CASTRO MAYER. Depois de ter conhecido a Igreja florescente, que irradiava as sociedades e todas as instituições, encontravam-se ambos os bispos na obrigação de verificar dolorosamente que, com o favor do funesto Concílio, os erros do liberalismo e do modernismo derrubavam até os fundamentos eclesiásticos com os mais graves resultados: feridos os pastores, as ovelhas ficavam dispersas. Com paciência e firmeza resistiram a esta “autodemolição” da Igreja. Dom Lefebvre na Igreja Conduzido pela Providência – isso foi sempre a sua regra de agir –, foi levado Dom LEFEBVRE a fundar uma obra de formação sacerdotal. Pode assim se dizer que a Fraternidade São Pio X é um fruto do Concílio, no sentido que a Igreja perene expressa-se algumas vezes pela boca dos chefes progressistas, do modo que Caifás profetizou durante a Paixão de Cristo. O leitor pode julgar disso, como do caráter profético das declarações seguintes: – “Dados os encorajamentos expressos pelo Concílio Vaticano II, no decreto “Optatam totius” que concerne os seminários internacionais e a repartição do clero; dada a necessidade urgente da formação de padres zelosos e generosos conforme às diretivas do decreto supracitado; constatando que os estatutos da Fraternidade Sacerdotal São Pio X estão correspondendo com estes fins, Nós, Francisco Charrière…” (decreto de ereção canônica, 1/11/1970). – “… a Fraternidade Sacerdotal vai poder harmonizar-se bem com o fim querido pelo Concílio (…) para a distribuição do clero no mundo”. (card. Wright, pref. da Sagr. Congr. para o Clero, carta de aprovação e elogio, 1971). É verdade que Dom Lefebvre sempre teve na intenção unicamente o bem da Igreja. Estando a Igreja enferma principalmente do seu clero, a solução primeira para não contribuir para destruição geral se impunha: renovar a formação sacerdotal, manter intato o Santo Sacrifício da Missa.Tinha 65 anos de idade quando começou esta obra nova, e 83 anos quando, com Dom Antônio, sagrou quatro bispos para a sobrevivência da Tradição, vida da santa Igreja. “Não há maior tesouro na Igreja que um padre santo”. Esta convicção explica a vida própria de Dom Marcel LEFEBVRE, e também toda a sua obra, tanto na África como na sua ação desde o funesto Concílio. #DomMarcelLefebvre

  • O que é um Mosteiro Beneditino?

    O QUE É UM MOSTEIRO BENEDITINO? Dom Emmanuel-Marie André ( † 1903) As poucas páginas que seguem foram publicadas pela primeira vez no Boletim da Obra de Nossa Senhora da Santa Esperança. Tínhamos anunciado a fundação dos Beneditinos e das Beneditinas de Nossa Senhora da Santa Esperança, e as Máximas de São Bento vinham, por assim dizer, responder à pergunta: O que é então um mosteiro beneditino? Desejamos que estas páginas levem a resposta a toda parte em que puder esclarecer um espírito, alegrar uma alma, ajudar talvez uma vocação. Quantas almas sofrem no mundo por não terem encontrado o seu caminho e que renderiam graças a Deus pela sua felicidade se uma mão caridosa lhes mostrasse a porta de um mosteiro beneditino! CAPÍTULO 1 – São Bento e sua obra na igreja CAPÍTULO 2 – O segredo do poder de São Bento CAPÍTULO 3 – A presença de Deus CAPÍTULO 4 – O amor de Nosso Senhor Jesus Cristo CAPÍTULO 5 – A graça de Deus CAPÍTULO 6 – O Mosteiro CAPÍTULO 7 – O Abade CAPÍTULO 8 – Os Irmãos CAPÍTULO 9 – As três colunas do edifício CAPÍTULO 10 – A Oração CAPÍTULO 11 – O Ofício Divino CAPÍTULO 12 – A liberdade de espírito CAPÍTULO 13 – Um testemunho CAPÍTULO 14 – A luz em todas as coisas CAPÍTULO 15 – A Glória de Deus em todas as coisas CAPÍTULO I AS  MÁXIMAS DE   SÃO   BENTO São Bento e a sua obra na Igreja Aprouve muitas vezes a Deus, que falou a Moisés no monte Sinai, falar a seus santos no cume das montanhas, longe do mundo, perto do céu. Monte Cassino é um desses lugares abençoados; lá se ergue, como sobre uma base de granito, a grande imagem de São Bento. A mão de Deus que o tinha arrebatado do mundo, conduziu-o à solidão, e o moldou para ser o pai da maior família monástica que já houve na Igreja. Ele começou, diz Bossuet, por onde os outros acabam, ou seja, pela perfeição. Sua primeira vitória sobre o mundo foi completa, decisiva: a vitória que ele alcançou pouco depois sobre si mesmo, triunfando sobre os atrativos da voluptuosidade, não foi menos completa nem menos decisiva. Em seguida correu com um passo livre e seguro no caminho de Deus, e, como nota o mais ilustre dos seus discípulos, São Gregório Magno, tendo-se tornado eleito de Deus, tornou-se doutor das almas. Electi, doctores animarum fiunt. Era admirável ver São Bento, tão jovem ainda, cercado de discípulos, ensinando-lhes o caminho da perfeição monástica. A humildade do pai foi a medida da multiplicação dos filhos: “De modo que para fazer o seu panegírico em poucas palavras e resumir seus louvores, seria preciso apenas destacar que Deus o julgou bastante digno de ser a cabeça desse grande corpo, dessa ordem tão célebre, tão santa, tão ilustre, tão útil e tão gloriosa para a Igreja; seria preciso apenas dizer que ele teve em grau eminente todas as virtudes, as perfeições, os méritos, as coroas, as auréolas dessa multidão inumerável de santos patriarcas, profetas, homens apostólicos, mártires, pontífices, confessores e virgens que pertenceram à sua ordem e nela permanecerão até a consumação dos séculos, aos quais ele comunicou e comunica continuamente tanto a santidade que eles tiveram na terra como a glória e felicidade que possuem no céu… Quanta glória deram a Deus, quantos sacrifícios Lhe ofereceram, quantas almas Lhe ganharam, quantos infiéis converteram, quantos fiéis santificaram, quantos povos instruíram, quantas paróquias governaram, quantos sacramentos administraram, quantos ofícios divinos cantaram, quantos serviços prestaram à Igreja, quantas orações vocais, quantas orações mentais, quantos jejuns, quantas vigílias, quantas esmolas, quantas penitências, quantas obras de caridade fizeram, quantos atos de virtude praticaram. Depois de Deus, é São Bento o autor de todas essas coisas, ele as desejou ardentemente, pediu-as nas suas orações, obteve-as pelas suas preces, mereceu-as pelas suas boas obras e previu-as por seu espírito profético: portanto tem delas a alegria, a recompensa e a glória acidental, como frutos de seus trabalhos, colheitas de suas sementes, efeitos de suas influências”. Mostrar São Bento em todas as suas grandezas seria uma tarefa muito além de nossas forças: entretanto, querendo prestar-lhe ao menos uma pequena homenagem, nós nos determinamos a publicar algumas de suas máximas. Os antigos concílios testemunham que São Bento foi assistido pelo mesmo espírito de Deus que ditou os cânones dos concílios. São Gregório Magno, esse experimentado apreciador do mérito, diz que ele foi repleto do espírito de todos os justos: que era uma lâmpada colocada sobre o candelabro para iluminar toda a casa de Deus. Será bom para nós desfrutar dessa luz e entrar assim no íntimo do pensamento dum santo que penetrou tanto mais profundamente no pensamento de Deus quanto mais humilde era diante de seu Criador. Pois, se é verdade, como ensina São Gregório, que o orgulho é sempre estranho à verdade, não seria menos verdade dizer que a humildade está sempre na posse e no gozo da verdade de Deus. Ora, São Bento foi humilde: ele o era para com Deus e para com todos. Seus próprios inimigos, os que tentaram envenená-lo, não puderam alterar a sua paz, a sua doçura, a sua invencível humildade. Sempre ele se via sob o olhar de Deus, segundo o testemunho de seu santo biógrafo e, por conseguinte, lia sem cessar no livro da verdade eterna, aprendendo desse modo a desprezar-se a si mesmo e a só fazer caso de Deus. Foi assim que São Bento atraiu para sua alma essas ondas maravilhosas de luz divina que lhe revelava o fundo dos corações, os pensamentos mais secretos, os acontecimentos que ocorriam longe dele, e mesmo aqueles que não deviam suceder senão após longos anos. Deus derramava em abundância a sua luz nessa alma vazia de si mesma e faminta só de Deus. Enriquecido com os tesouros da sabedoria do alto, São Bento escreveu a santa Regra. É o nome que ele mesmo lhe dá e que a tradição conservou e consagrou. É nela que São Bento descreveu a si mesmo, pois só ensinou o que fez. É nela também que estudaremos o seu espírito. Para abarcá-lo na sua plenitude, seria preciso contar, pesar, penetrar todas as palavras da santa Regra; não seríamos capazes de um trabalho tão amplo: vamos nos limitar a colher num campo tão vasto e variado algumas flores cuja cor, odor e perfume possam ser úteis a nossos leitores. Queira Deus que essas flores, ao passarem por nossas mãos, nada percam de sua frescura nativa, de sua graça original, de sua virtude sobrenatural. CAPÍTULO II O segredo do poder de São Bento O que nos surpreende, o que nos maravilha em São Bento, é o poder, a fecundidade, que catorze séculos absolutamente não esgotaram. Se, à vista desses dons tão espantosos, se pergunta qual foi o segredo dum semelhante poder, duma tal fecundidade, encontra-se uma resposta nestas três palavras: a castidade, a humildade, as lágrimas. São Gregório é admirável, quando, no segundo livro dos seus Diálogos, nos descobre o poder incomparável da castidade de São Bento. “Um dia, o santo teve uma tentação da carne tão violenta como nunca havia experimentado uma semelhante… Quase vencido, ele duvidava se não iria deixar o seu deserto, mas uma graça do alto fez subitamente que voltasse a si mesmo. Notando um lugar cheio de urtigas e de espinhos, despojou-se de suas vestes e lançou-se nu sobre as pontas dos espinhos, nesse braseiro de urtigas; aí se revolveu muito tempo e saiu com o corpo coberto de feridas. Estas tinham curado a chaga de sua alma; por seus esforços, a volúpia tinha-se mudado em dor. Por meio desse castigo do fogo, ele extinguiu o fogo impuro; tinha vencido o pecado. Desde esse momento, como ele próprio contava a seus discípulos, a tentação foi subjugada de tal maneira que nunca mais sentiu  o assalto da volúpia. Então começaram muitos a deixar o mundo e apressaram-se em colocar-se sob sua conduta. Isento da tentação, livre do pecado, ele se tornou mestre das virtudes: era justo”. Então, diz São Gregório, para fazer-nos compreender bem o segredo desse poder de atração que admiramos em São Bento: ele tinha vencido a carne, era poderoso no espírito. O Espírito Santo fez escrever estas divinas palavras: “Oh, como é bela a geração dos castos!”. Sim, como é bela a geração de homens castos que, tendo começado em São Bento, durou mais de catorze séculos e, segundo uma promessa divina, durará até o fim dos tempos! À castidade, São Bento acrescentou a humildade, sua companheira inseparável. Conforme o testemunho de seu santo biógrafo, ele preferia antes sofrer as injúrias do mundo do que receber seus louvores: Plus appetens mala mundi perpeti quam laudes. Nessa tão curta frase, São Gregório nos faz perceber, duma só vez, quão sublime era a humildade de São Bento. Sendo quem era, ele não podia deixar de sofrer da parte do mundo. Ora, não podia sofrer da parte do mundo senão duas coisas: ou males ou louvores; ele teve uns e outros. Para ele a coisa mais insuportável não era o que chamamos males, mas o que se lhe atribuía pelos louvores. Iluminado do alto, percebia o mal oculto debaixo desses louvores do mundo, fruto da vaidade naqueles que os dão e armadilha de vaidade para quem os recebe. O louvor enfraquece a alma, torna a oração difícil, a tentação inevitável. Já que se tem que sofrer alguma coisa da parte do mundo, São Bento preferia sofrer os males do que receber os louvores. Sofrer assim não envaidece absolutamente; sofrer assim nos impele para Deus, o soberano, o único bem. Nessa pura luz da humildade, que é a pura verdade, São Bento estava à vontade sob o olhar de Deus e dEle recebia inestimáveis favores, tanto para si mesmo, como para as almas que gravitavam em torno da sua. “O humilde é amado e consolado por Deus. Deus Se abaixa em direção a ele; dá-lhe a Sua graça e o faz em plenitude e grandeza. Revela-lhe os Seus segredos, convida-o e o atrai docemente a Si. O humilde permanece em Deus e não no mundo: Stat in Deo, non in mundo”. Elevado em Deus pelas duas asas da castidade e da humildade, São Bento se tornara um instrumento muito apropriado para as obras de Deus. Ele era, como diz São Paulo, um vaso de honra, um instrumento santificado e útil ao Senhor, disposto para toda a boa obra. Casto, ele podia dirigir as almas: humilde, penetrava os mistérios da vontade de Deus, e se prestava tanto melhor para o seu cumprimento, quanto era mais fiel em reservar somente a Deus a glória de todas as coisas. Non nobis, Domine, non nobis! Não seria de crer que, sendo amigo de Deus, São Bento visse o bem se realizar sob suas mãos, sem ter que beber o cálice do sofrimento. Antes pelo contrário, quanto mais crescia a obra de Deus, tanto mais o incomparável santo tinha lágrimas para derramar. É a lei da providência de Deus. Desde o pecado original, triste fruto do prazer de um instante, o bem não se faz mais neste mundo senão como fruto da dor. Esta verdade não brilha em nenhuma parte com um fulgor mais impressionante do que em Nosso Senhor Jesus Cristo. O grão de trigo, diz o Salvador, não dará fruto nenhum se não morrer, se não for colocado na terra e fecundado pelas chuvas. São Bento também semeou com lágrimas. O sangue de Nosso Senhor caiu sobre a terra, e ele só tem toda a sua fecundidade onde lágrimas que só Deus conhece são derramadas abundantemente. Ele quis, não obstante, que nós conhecêssemos, ao menos em parte, as de São Bento, que chorava freqüentemente. Um padre se havia feito inimigo do santo: Deus o esmagou debaixo das ruínas de sua casa. Anunciou-se o fato a São Bento, não sem certa satisfação. O santo deplorou essa satisfação com tantas lágrimas, quantas derramou pela morte desse desventurado. Um piedoso senhor, que São Bento honrava com sua amizade, entrou um dia na sua cela e o encontrou chorando com soluços. A vista dum tal amigo não estancou de modo nenhum as lágrimas do santo: Deus lhe havia revelado a futura destruição de seu mosteiro pelos lombardos; à força de lágrimas e de gemidos, obtivera de Deus a vida dos religiosos. Os lombardos, com efeito, saquearam tudo, mas não puderam atentar contra a vida deles. As orações ordinárias do santo eram acompanhadas de lágrimas; mas, doces como a graça que as fazia brotar, com o amor que as derramava, elas corriam sem barulho. Que espetáculo mais grandioso, mais comovente, mais encantador do que o incomparável santo, tão casto, tão humilde, chorando, sem fazer ruído, diante de Deus! CAPÍTULO III A Presença de Deus Está escrito no livro da Imitação de Cristo: “O humilde se mantém em Deus”, Stat in Deo… São Bento poderia dizer como os primeiros solitários do Carmelo: Viva o Senhor, em cuja presença me mantenho. Sendo a presença de Deus tão familiar e tão cara a este incomparável pai, ele a ensinava também a seus filhos e não cessava de inculcá-la. Reconhecendo-se, como São Paulo, devedor aos fortes e aos fracos, ele tinha meios proporcionados a cada um para levá-los todos a viver na presença de Deus. Aos mais fracos, São Bento dava este preceito: Saibam que em todo o lugar Deus os olha. E noutro lugar: Cada um considere que Deus o contempla do alto do céu, e que em todo lugar suas ações são vistas pelos olhos de Deus e a toda hora são referidas a Deus pelos anjos. Assim é útil representar-se Deus como nosso soberano senhor, como um grande rei, dominando nos céus, servido pelos anjos, e não se dedignando absolutamente abaixar os seus olhares sobre nós, pobres vermezinhos. Ele faz mais, pois se interessa por tudo o que se refere a nós, por tudo o que fazemos; ele envolve nisto os Seus anjos e os delega para junto de nós a fim de nos guardar e, se for preciso, nos denunciar a Ele. Este meio de praticar a presença de Deus funda-se, como se vê, na imaginação, dirigida entretanto pela fé. E quando a fé é assim a diretriz da imaginação, esta pode prestar-nos grandes serviços. Mas o discípulo de São Bento deve esforçar-se por se elevar acima das imagens e da imaginação, deve aspirar a viver da fé; pois, diz São Paulo, o justo vive da Fé: Justus meus ex fide vivit. Se, pois, o discípulo de São Bento começa por atos da imaginação ajudados pela fé, ele progredirá por meio dos atos de fé auxiliados um pouco pela imaginação, e será perfeito quando, elevado acima dos sentidos, viver puramente da fé, como o justo de São Paulo. Justus meus, o meu justo, diz o apóstolo. Então São Bento ensinar-lhe-á uma nova maneira de entender a presença de Deus. Escutemos este mestre pouco conhecido: Temendo a Deus, diz ele dos verdadeiros servidores de Deus, temendo a Deus, eles não se tornam orgulhosos por causa de sua boa observância, mas reconhecendo que tudo o que tem de bom não procede absolutamente deles mesmos, mas vem de Deus, glorificam o Senhor que neles opera, dizendo com o profeta: Non nobis, domine, non nobis…. Estes felizes discípulos de São Bento não mais consideram Deus como acima deles no céu; nem como em torno deles, à maneira do ar que nos envolve; mas eles O vêem, pela fé, presente neles mesmos pela infinitude de Seu ser, dando-lhes o ser, a vida, o movimento e, por conseguinte, todo o bem que fazem. Reconhecem que Deus é o seu primeiro autor, o seu único inspirador; e então Lhe tributam glória por tudo, cantando com amor e humildade o versículo do salmo: Non nobis, Domine, non nobis! Este “non nobis” é a tradução dos sentimentos dos homens que renunciaram totalmente a si mesmos para seguir a Jesus Cristo. CAPÍTULO IV O Amor de Nosso Senhor Jesus Cristo Jesus Cristo! São Bento quer que Ele seja amado. Mas com que arte sabe ensinar o amor do divino Salvador! Desde as primeiras palavras da santa Regra, ele ensina a renunciar às suas próprias vontades; pois o homem se ama a si mesmo demasiado naturalmente, e este amor se revela pela afeição à vontade própria. Esta afeição deve diminuir para que o amor de Jesus Cristo tenha mais facilidade de entrar na alma: depois, por um esforço generoso, renuncie o discípulo às suas vontades para abraçar a vontade de Deus, ou melhor como diz São Bento, para lutar pelo verdadeiro Rei que é Nosso Senhor, então ele fará o ato de amor e o fará na verdade. Secundando o seu nobre ardor, São Bento lhe ensinará a preferir Jesus Cristo a tudo, a considerar Jesus Cristo como o seu mais caro tesouro. Nihil Christo carius. Sendo a caridade o fim, o coroamento de toda a virtude, São Bento, ao ensinar a humildade, dá-lhe igualmente por termo a caridade. Ele conduz o seu discípulo por doze diferentes graus de humildade e, depois, diz, “chega-se a este amor de Deus que é perfeito. Ele expulsa o temor e o que anteriormente não se observava sem custo, vem-se a observar com alegria por amor de Jesus Cristo, Amore Christi”. Assim, em duas palavrinhas muito curtas, se encontra resumida a doutrina de São Bento sobre o ponto capital da moral cristã. Nihil Christo carius: Nenhum outro tesouro senão Jesus Cristo; eis o que ilumina a inteligência, o que forma o espírito, o que prepara os caminhos da salvação. Depois Amore Christi, agir por amor e para o amor de Jesus Cristo; eis o que leva o coração a Deus e torna a vida presente merecedora da eterna. Vamos lá! CAPÍTULO V A Graça de Deus Do amor de Nosso Senhor à graça de Deus, não há mais que um passo e este não é grande. Em algumas palavras duma limpidez perfeita, São Bento nos entregou o seu pensamento sobre a graça de Deus. No prólogo da santa Regra, ele fala daqueles que, “temendo a Deus, não se exaltam absolutamente por causa de sua boa observância e, reconhecendo que o que eles têm de bom, não lhes é possível absolutamente por si mesmos, mas que é obra do Senhor, glorificam o Senhor que neles opera”. Mais adiante, o santo patriarca exprime a mesma idéia com um desenvolvimento importante; ele dá a seu discípulo este conselho: “Quando vir em si mesmo algum bem, que o atribua a Deus e não a si; saiba contudo que o mal é sempre obra sua e a si o impute”. Aí está perfeitamente a doutrina que São Cipriano exprimia outrora com estas palavras bem conhecidas: “Nós não nos podemos gloriar de nada, visto que nada é nosso: In nullo gloriandum, quando nostrum nihil est”. Mas onde o pensamento de São Bento se revela na sua totalidade, é quando trata do que deve fazer o abade após ter empregado todos os meios de correção para com um religioso que permanece incorrigível. “Se ele vê, diz, que com toda a sua diligência, nada obteve, que empregue no caso, o que é maior: a sua prece e a de todos os irmãos, a fim de que o Senhor, que tudo pode, opere a salvação deste irmão enfermo”. Aqui São Bento tinha em vista esta graça que o coração mais duro não rejeita, uma vez que ela é dada para tirar a dureza do coração. São os mesmos termos de Santo Agostinho, e São Bento é da escola dele. Um monge beneditino, escrevendo um dia a Bossuet, lhe dizia: “Todos nós Beneditinos fomos sempre extremamente apegados aos sentimentos de Santo Agostinho”. Todos! Sempre! Extremamente! Este monge beneditino se chamava Dom Mabillon. CAPÍTULO VI O Mosteiro O mosteiro recebeu de São Bento um nome maravilhosamente belo: é a casa de Deus, Domus Dei; nossos pais amavam este nome e, de bom grado, diziam: a casa de Deus, como hoje ainda se diz Hôtel-Dieu. A casa de Deus está inteiramente submetida ao governo de Deus; Ele a rege pela Sua lei, pelos Seus mandamentos, por Seus conselhos, por Sua graça, por Seu amor. A casa de Deus combate pelo seu rei, e este é Nosso Senhor Jesus Cristo. A casa de Deus é a morada da paz; imagem do céu, o mosteiro tende a libertar-se cada vez mais de tudo o que é terrestre; seus habitantes, êmulos dos santos anjos, devem viver numa tranqüilidade tal que eles estejam ao abrigo de toda a perturbação e de toda a tristeza. Gosta-se de ouvir São Bento dizer estas encantadoras palavras: Que ninguém seja perturbado ou entristecido na casa de Deus. Nemo perturbetur neque contristetur in domo Dei. Não se diria que o santo revelou nesta breve máxima toda a doçura da sua alma, toda a ternura do seu coração paternal? A casa de Deus é também uma escola. Desde as primeiras páginas da Regra, São Bento chama o seu mosteiro de escola do serviço do Senhor. O monge está na escola e sempre deve aprender; a ciência por excelência à qual ele se deve aplicar é o serviço do Senhor. CAPÍTULO VII O Abade Sendo o mosteiro a casa de Deus, o abade deve ser considerado como lugar-tenente de Jesus Cristo. São Bento di-lo expressamente: Christi agere vices in monasterio creditur. Segue-se daí que seu governo deve ser uma imitação do governo de Deus. Escreveu-se outrora um livro sobre esta questão: Qual é o melhor governo, o rigoroso ou o brando? O melhor governo, segundo nós, é aquele que imita mais perfeitamente o de Deus, o qual governa com a autoridade que sabe empregar o melhor possível a doçura, quando esta se requer e o rigor, quando este é exigido. Tal é a autoridade de Deus, tal deve ser o chefe do mosteiro conforme São Bento. São Bento adverte ter o Abade um encargo difícil, o de governar almas e de adaptar-se aos caracteres de muitos. Difficilem et arduam rem regere animas et multorum servire moribus. Servire! Aí está um dos deveres do abade. Seu cargo lhe é dado a fim de ajudar os fracos, não para tiranizar os bons: Noverit se infirmarum curam suscepisse animarum, non super sanas tyrannidem. Deve aplicar-se a ser útil a seus irmãos e não a fazer-se prevalecer: Prodesse magis quam praeesse. Toda a antigüidade repetiu com tanta admiração como complacência esta bela máxima de São Bento. Como cada um encontra em si o poder de amar e o de odiar, o Abade deve saber regular em si mesmo estas afeições de sua alma. Deve odiar todos os vícios e amar todos os seus irmãos. Oderit vitia, diligat fratres. Deus quer ser temido, porém mais ainda quer ser amado: fiel imitador do governo de Deus, o Abade aplicar-se-á, também ele próprio, mais a ser amado do que temido. Studeat plus amari quam timeri. Depois, como o Abade não passa de um lugar-tenente de Nosso Senhor, ele deverá pensar nas contas muito exatas que Lhe dará de sua alma e de todas as que serão a si confiadas. São Bento não se cansa de repetir esta advertência ao Abade; e a propósito de todos os seus deveres, tanto no temporal como no espiritual, a propósito de todas as suas decisões, ele traz à memória do Abade o julgamento de Deus. Enfim, exige dele uma virtude indispensável: a discrição. O Abade deve temperar todas as coisas de tal maneira que os fortes desejem fazer mais e que os fracos não venham a desanimar: Sic omnia temperet, ut sit quod fortes cupiant et quod infirmi non refugiant. CAPÍTULO VIII Os Irmãos São Bento, para reconhecer a vocação de seus noviços, tinha quatro sinais que nos ensinou e que se podem dizer infalíveis. Examinava, portanto, se o noviço procurava a Deus com toda a pureza, o que já não é tão comum: em segundo lugar se ele tinha zelo pelo ofício divino; a seguir se era pronto na obediência; por fim se suportava bem uma reprimenda, um opróbrio. Si vere Deum quaerit, si sollicitus est ad opus Dei, ad obedientiam, ad opprobria. Estas curtas palavrinhas valem ao menos todo um livro que se intitularia: Do discernimento dos espíritos. Comprometido pela profissão religiosa, o discípulo de São Bento não pertence mais a si mesmo; cabe à obediência conduzi-lo em todas as coisas. Seu julgamento está submetido a um julgamento superior, sua vontade a uma vontade mais segura; e com isso um monge deve andar na alegria de ver acima de si o superior que Deus encarregou do cuidado de sua alma: Ambulantes alieno judicio et imperio, Abbatem sibi praeesse desiderant. Uma das coisas que São Bento proíbe com mais insistência é a murmuração. Em todas as ocasiões e por várias vezes, ele volta sobre isso e exclama para todos: Nada de murmurações! A casa de Deus tornar-se-ia a imagem do inferno, se a murmuração ali penetrasse. Há pelo menos sete passagens da Regra nas quais as murmurações são proibidas. Os irmãos devem amar-se uns aos outros até se obedecerem de boa vontade: o amor que devem a seu pai, a seu Abade, tem duas qualidades essenciais: deve ser ao mesmo tempo humilde e sincero: humilde , porque o Abade é a imagem viva de Nosso Senhor; sincero, porque o monge deve ser, em todas as coisas, o homem da verdade: Veritatem ex corde et ore proferre. É assim que, com algumas prescrições muito breves, mas muito substanciais, São Bento regula ao mesmo tempo o homem interior e todo o regime da casa de Deus. Beati qui habitant in domo tua, Domine! CAPÍTULO IX As três colunas do edifício Querendo edificar a casa de Deus, São Bento lhe dá por base três possantes colunas, as quais descreve desde os primeiros capítulos da santa Regra: a obediência, o silêncio e a humildade. “A obediência nos separa do mundo e de toda as suas maneiras de agir; ela nos separa ao mesmo tempo de nós mesmos, uma vez que nos subtrai os corpos e as vontades, a fim de submetê-los à sua lei. O silêncio nos retira as palavras, fecha-nos a boca e, aqui e ali, preserva-nos duma infinidade de males. Enfim, a humildade tira-nos a vaidade; purificando assim o coração e as intenções; ela acaba a obra de nossa conformidade com a vontade de Deus e nos fixa  no caminho de toda a perfeição. Às almas assim despojadas, só resta Deus”. A Primeira Coluna Desde as primeiras palavras da Regra, São Bento, considerando que a desobediência foi o começo da perda do gênero humano, quer que retornemos a Deus pelo trabalho da obediência. O soldado de Cristo, como ele chama ao seu discípulo, deve primeiramente despojar-se de suas próprias vontades depois revestir-se com as armas da obediência. Elas são poderosas, são belas. Obedientiae fortissima atque praeclara arma. “Os mundanos, dizia Bossuet, correm para a escravidão por meio da liberdade; vós, ao contrário, meus Padres, vós ides para a liberdade por meio da dependência. Que é a liberdade dos filhos de Deus, senão uma dilatação e uma distensão do coração que se desembaraça de todo o finito? Por conseguinte, cortai, suprimi. Nossa vontade é finita e, na medida em que se fecha em si mesma, ela se limita. Quereis ser livres, desembaraçai-vos; não tenhais mais vontade a não ser a de Deus; assim entrareis no poder do Senhor; e, esquecendo-vos da vossa vontade própria, não vos lembrareis senão da Sua justiça”. “A obediência, diz ainda Bossuet, é o guia dos costumes, a proteção da humildade, o apoio da perseverança, a vida do espírito e a morte garantida do amor próprio”. São Bento quer que o seu discípulo obedeça em todas as coisas. “Tudo o que se faz sem permissão do Padre espiritual será atribuído à presunção e à vanglória e não à recompensa. Quod sine permissione Patris spiritualis fit praesumptioni deputabitur et vanae gloriae, non mercedi”. A obediência deve ser tão preciosa e tão cara ao discípulo de São Bento que ele, desejoso de praticá-la sem cessar, obedece não apenas ao seu superior, mas a todos os seus irmãos. Obedientiae bonum non solum Abbati exhibendum est, sed etiam sibi invicem. Os irmãos devem obedecer-se assim à porfia. Obedientiam sibi certatim impendant. Todas estas recomendações ainda não bastam a São Bento. Ele quer que a obediência tenha qualidades tais que seja agradável a Deus e suave ao que obedece como ao que manda. Acceptabilis Deo et dulcis hominibus. Ela será tal se for praticada sem medo, sem demora, sem moleza, sem murmuração, sem réplica, mas de boa vontade. Non trepide, non tarde, non tepide, aut cum murmure, vel cum responso nolentis… et cum bono animo. Pois, acrescenta São Bento, segundo o Apóstolo: Quem dá com bom coração é amado por Deus. Após todas estas recomendações, estaria São Bento satisfeito? Não. Resta-lhe ainda dizer até onde se deve estender a obediência. Ora, conforme o santo, ela se estende até o impossível. Eis as próprias palavras de São Bento: “Se se mandam a um irmão coisas duras e impossíveis, que receba a ordem do superior com toda a doçura e obediência. Se ele vê que o fardo excede completamente as suas forças, exponha ao superior com paciência e no momento oportuno as razões de sua impossibilidade, mas isto sem mostras de soberba, resistência ou contradição. Se, depois de ter assim apresentado suas razões, o superior mantiver a ordem dada, saiba o súdito que é para seu bem, e, por amor, confiado na ajuda de Deus, obedeça. Ex charitate, confidens de adjutorio Dei, obediat”. A história monástica está repleta de exemplos desta obediência perfeita que, multiplicando as forças do monge, o faz operar realmente o impossível. Escutemos ainda uma vez a voz de Bossuet: “Vós tendes, meus Padres, um exemplo doméstico da virtude da obediência. Tendo o jovem Plácido caído num lago, quando daí tirava água, estava prestes a se afogar, quando São Bento ordenou a São Mauro, seu fiel discípulo, que corresse prontamente para retirá-lo. Fiado na palavra de seu superior, Mauro parte sem hesitar, sem se deter nas dificuldades da empresa; e cheio de confiança na ordem recebida, caminha sobre as águas com tanta firmeza como sobre a terra e retira Plácido do sorvedouro onde ele ia ser abismado. A quem atribuirei um tão grande milagre: à força da obediência ou à da ordem? Grande questão, diz São Gregório, entre São Bento e São Mauro. Digamos porém para decidir, que a obediência dá graça para cumprir o efeito da ordem; e que esta confere graça para dar eficácia à obediência”. São Bento, um dia, mandou o impossível a um corvo. A história é interessante. Ei-la: um inimigo do santo, querendo dar-lhe a morte, enviou-lhe, a modo de esmola, um pão envenenado. São Bento agradeceu pela esmola e logo percebeu o veneno. Na hora da refeição, estando à mesa, um corvo, que tinha o costume de vir dum bosque vizinho receber pão da mão do santo, aproximou-se como sempre. São Bento atirou-lhe o pão envenenado e lhe disse: Em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo, leva este pão e joga-o onde ninguém o possa encontrar. O corvo então abre o bico desdobra as asas e se põe a voltear em torno do pão, crocitando fortemente; tudo isto para dizer que ele, sem dúvida, queria obedecer mas não podia fazê-lo. O homem de Deus, insistindo em sua ordem, diz: Leva-o, leva-o sem medo e vai lançá-lo onde ninguém o possa achar. O corvo tomou enfim o pão e, levando-o, partiu. Três horas depois ele voltou sem o pão envenenado, que lançara fora, e recebeu da mão do homem de Deus o pedaço de pão habitual. A Segunda Coluna A segunda coluna do edifício é o silêncio. À primeira vista parece bastante estranho que surja uma instituição para disciplinar os homens ensinando-os a se calarem. Naturalmente não se saberia chegar a tanto e, todavia, a graça que criou as instituições monásticas produziu nas almas um tal recolhimento em Deus, que daí resultou sem custo o silêncio. O homem que fala a Deus, o homem que, interiormente, escuta Deus falar-lhe, não tem absolutamente dificuldade em guardar o silêncio. Se parece que ele perde alguma coisa não conversando de modo nenhum com os seus semelhantes, ganha infinitamente mais conversando com Deus. Se pela palavra entramos em comunicação com os homens, pela oração nós nos relacionamos com Deus; e o que se ganha na companhia de Deus é completamente superior ao que nos poderia dar a companhia dos homens. O silêncio se torna então um rico tesouro, e é o pensamento de São Bento quando escreve a expressão gravitas silentii. Se traduzirdes: gravidade, importância, riqueza do silêncio, tereis expresso o pensamento do santo legislador. Depois disto, não se terá dificuldade em compreender esta sentença da Regra: Os monges devem em todo o tempo aplicar-se a guardar o silêncio, mas sobretudo durante a noite: Omni tempore silentio debent studere monachi, maxime tamen nocturnis horis. Silentio studere, aplicar-se a nada dizer, eis aí um tipo de aplicação inteiramente novo. Os antigos monges haviam feito nisto tais progressos que tinham inventado sinais por cujo meio comunicavam os seus pensamentos quando era necessário, sabendo que ganhariam sempre e cada vez mais em não abrir absolutamente a boca. É a doutrina do Espírito Santo que, pela boca do apóstolo S. Tiago Menor, nos diz: “Cometemos todos muitas faltas, mas quem não as comete em palavras, é um homem perfeito”. A Terceira Coluna Humilitas entre os Romanos queria dizer baixeza; humilis domus para Horácio significava uma casa pobre. A Igreja, apoderando-se da língua latina enriqueceu-a singularmente com uma quantidade de expressões, e entre outras a palavra humilitas, com a qual ela designou esta grande e bela virtude que, despojando-nos do orgulho, nos torna tão caros a Deus: a humildade. É a terceira coluna do edifício beneditino. A quem perguntasse a São Bento qual das três colunas ele julgava a mais necessária, o incomparável patriarca teria respondido com Santo Agostinho: a humildade. E a quem perguntasse uma segunda e terceira vez qual a mais necessária, como Santo Agostinho, ele teria respondido sempre: a humildade. É manifesto que São Bento atribuía a esta virtude um valor inestimável. Ele a ensina com uma complacência bem acentuada; faz dela, por assim dizer, um tratado todo especial, o capítulo VII da Regra. A primeira das obras de São Bernardo é precisamente o comentário deste capítulo VII da Regra de São Bento. É neste tratado que o ilustre abade de Claraval deu, da humildade, a definição que todos os mestres adotaram por unanimidade: “A humildade é a virtude que nos faz desprezar-nos em conseqüência de um conhecimento sumamente verdadeiro de nós mesmos”. São Bento enumera doze graus de humildade. Eis aqui seu resumo: 1. Ter continuamente diante dos olhos o temor de Deus e, por conseguinte, manter-se prevenido contra todos os pecados e, notadamente, contra a vontade própria; 2. Renunciar a seus próprios desejos, em conseqüência da renúncia à própria vontade; 3. Submeter-se com toda a obediência a seu superior por amor de Deus; 4. Aceitar em paz as ordens difíceis, até os maus tratos e as injúrias; 5. Descobrir simplesmente ao superior os pensamentos mesmo maus que vêm à mente; 6. Contentar-se com o que há de mais vil e abjeto; 7. Considerar-se, no fundo do coração, como o último de todos; 8. Seguir simplesmente a regra comum e fugir de toda a singularidade; 9. Guardar o silêncio até que seja interrogado; 10. Não ser absolutamente pronto para rir; 11. Falar suavemente, gravemente, com poucas palavras bem razoáveis; 12. Trazer a humildade no coração e em todo o seu exterior, baixando os olhos, como um criminoso que se considera a ponto de ser chamado ao temível tribunal de Deus. Por aí se vê que São Bento, por assim dizer, faz decorrer da humildade toda a perfeição monástica. CAPÍTULO X A Oração O corpo se alimenta em parte pela respiração, e em parte pelo pão de cada dia. A alma tem também necessidade de alimento: o seu pão é a Eucaristia; sua respiração é a oração. Também Nosso Senhor diz: É preciso rezar sempre. E São Bento nada recomenda tanto a seu discípulo como a oração. A prece é o próprio âmago da vida monástica: o ofício divino é a sua expressão mais solene; mas a isto é mister acrescentar uma oração interior que deve, sem cessar, fazer subir para Deus todos os atos da vida religiosa. “Tudo o que empreenderes, diz São Bento, pede a Deus, por uma insistente oração, que Ele mesmo queira levá-lo a cabo. Quidquid agendum inchoas bonum, ab eo perfici instantissima oratione deposcas”. Há, contudo, certas circunstâncias em que São Bento recomenda mais particularmente a oração. Se um religioso se ausenta do mosteiro, ele deve pedir as orações de toda a comunidade; e as pede igualmente quando volta; se se apresentam hóspedes, é preciso rezar ao recebê-los antes mesmo de os cumprimentar. Durante a Quaresma, é preciso juntar as lágrimas à oração: Orationi cum lacrymis operam demus. Se no mosteiro se acha um religioso incorrigível, o Abade, após ter esgotado todos os recursos que lhe podem fornecer a caridade, as reprimendas, as punições, recorrerá, por fim, à oração. – “Se ele vê que, com toda a sua diligência, nada conseguiu, que empregue ainda o que é maior, a saber a sua oração e a de todos os irmãos com ele, a fim de que o Senhor, que tudo pode, opere a salvação deste irmão enfermo. Adhibeat etiam (quod majus est) suam et omnium fratrum pro eo orationem, ut Dominus, qui omnia potest, operetur salutem circa infirmum fratrem”. Outra recomendação de São Bento, a respeito da oração, é a de oferecê-la a Deus pelos nossos inimigos e isto no amor de Jesus Cristo. In Christi amore pro inimicis orare. Enfim, para dar uma idéia mais completa da doutrina de São Bento sobre a oração, citamos o capítulo XX da Regra: Do Respeito que deve acompanhar a Oração “Se, quando queremos pedir algum favor aos poderosos, não ousamos fazê-lo a não ser com humildade e respeito, quanto mais, ao dirigir-nos a Deus, soberano Senhor de todas as coisas, devemos suplicar-lhe com profunda humildade e devoção pura. E saibamos que seremos atendidos não pela multiplicidade de palavras, mas pela pureza do coração e pelas lágrimas da compunção. E para isto a oração deve ser curta e pura, se não for prolongada por uma moção particular, uma inspiração da graça de Deus”. Assim pensava, assim rezava São Bento, cujo coração, segundo o testemunho da própria Virgem Santíssima, era totalmente cheio de Deus, erat cor ejus totum plenum Deo. CAPÍTULO XI O Ofício Divino Há na Igreja da terra uma oração solene e sagrada, que faz eco ao tríplice Sanctus dos Serafins do céu, uma oração que São Bento chama uma obra divina, a obra de Deus: Opus Dei. É a prece das sete horas místicas do dia, desenrolando-se após uma longa oração noturna: é a obra capital dos religiosos beneditinos, a qual não cede a nenhuma outra, aquela à qual devem ceder todas as outras. Nihil operi Dei praeponatur. A cada uma destas horas o filho de São Bento é, pela sua Regra, chamado ao coro para oferecer aí os seus louvores ao seu Criador. His temporibus referamus laudes creatori nostro. Ao primeiro sinal do ofício, é preciso imediatamente deixar tudo e dirigir-se ao coro, com uma religiosa solicitude, uma gravidade modesta e uma alegria incomparável de ser chamado a unir-se ao coro dos anjos, para começar aqui em baixo a oração que se aperfeiçoará, sem jamais terminar, nos céus. Não contente em chamar os seus irmãos ao ofício, São Bento prescreve punições para os que chegarem atrasados ao mesmo. Começado o ofício, é preciso manter-se nele com uma atenção mais intensa à presença de Deus. Sabemos o que São Bento ensina sobre o exercício da presença de Deus, e como ele recomenda a seu discípulo estar sempre atento; nós não nos espantaríamos de que ele dê uma advertência toda especial para o tempo do ofício divino: Ubique credimus divinam esse praesentiam, et oculos Domini in omni loco speculari bonos et malos; maxime tamen hoc credamus, cum ad opus divinum assistimus. Considerando que os religiosos no coro fazem na terra o ofício dos anjos no céu, São Bento quer que eles se tornem atentos à presença dos anjos. Consideremus qualiter oporteat nos in conspectu divinitatis et angelorum esse. O salmista havia dito: “Na presença dos anjos, Senhor, cantar-Vos-ei salmos”. Ainda existe um conselho muito interessante e importante de São Bento relativamente ao ofício divino: “Estejamos na salmodia de tal modo que a nossa mente concorde com a nossa voz. Sic stemus ad psallendum, ut mens nostra concordet voci nostrae”. Bem antes de São Bento, dissera São Paulo: “Rezarei com o coração; cantarei também com a inteligência”. Assim a voz, o coração, a inteligência, tudo o que está em nós, tudo o que nós somos, deve contribuir para o louvor de Deus. A voz canta, o coração ama, o espírito saboreia, anima, vivifica a salmodia e a torna digna de Deus. É bom cantar, é bom amar: mas cantar e amar com inteligência é a perfeição; e esta é exigida quando se trata do ofício divino. O religioso na terra que tem de unir-se ao ofício do anjo no céu, deve esforçar-se em se elevar até o anjo com as duas asas da inteligência e do amor. Portanto, é preciso saber. Quando os irmãos têm tempo livre após o ofício da noite, devem também empregá-lo no estudo dos salmos e das lições. São Bento assim o quer. É preciso saber. Toda a tradição beneditina consiste nisso. Essa também é a razão de tantos trabalhos, comentários, explicações, glosas sobre os salmos e a Escritura, que ocuparam os filhos de São Bento em todos os séculos. Eles queriam compreender, saber, a fim de cantar com inteligência e de glorificar mais Aquele que é ao mesmo tempo luz e amor, verdade e caridade. CAPÍTULO XII A Liberdade de Espírito Ao escrever estas palavras, a liberdade de espírito, sentimos a necessidade de dar a sua definição. Em nossos dias se tem abusado tanto da palavra liberdade que se torna indispensável tomar as maiores precauções para não cair em qualquer um dos preconceitos ou erros modernos, enfeitando-se com o belo nome de liberdade. Ora, por liberdade de espírito entendemos o estado duma alma, a qual nada impede em seu impulso para a perfeição, em seu vôo para Deus. São Bento quer que o seu discípulo tenha a alma bem à vontade, o espírito inteiramente em paz. Se ao homem exterior ele impõe uma disciplina exata e uma regra à primeira vista severa, o homem interior, por sua vez, é posto em liberdade. Aí há um grande trabalho, e São Bento não faz nenhuma dificuldade em reconhecer que os começos são um pouco penosos. Via salutis non nisi angusto initio incipienda. É o trabalho indispensável para desembaraçar a alma dos entraves que ela trouxe consigo ao vir do mundo. O pecado, e sobretudo o hábito do pecado, o desregramento das afeições, as miseráveis exigências duma vida demasiado sensual, são outros tantos obstáculos à santa liberdade de um filho de Deus. Não é sem custo que se se desprende de tantos entraves; mas à medida em que deles alguém se desembaraça, a dificuldade diminui e, depois, ela desaparece rapidamente, e o monge, feito obediente, não encontra mais na Regra nada de pesado, nada de difícil. Nihil asperum, nihil grave. Talvez, ao começar, ele mais se arrastava do que andava; contudo avançava, e isso é que é importante. Desde a primeira hora, São Bento pede que seu discípulo esteja de boa vontade: Admonitionem pii patris libenter excipe. Quer que ele esteja alerta, bem decidido. Se Deus lhe clama: Quem quer a vida eterna? Ele Lhe responde: Eu! Como caminhará aquele que assim começou? Após a dificuldade da primeira hora o caminho de Deus se alarga e, aumentando no discípulo de São Bento a boa vontade, ele antes corre do que anda. São Bento o diz claramente, e só no Prólogo da Regra, encontramos até três vezes este termo correr. “Se queremos chegar ao céu, diz o santo patriarca, não chegamos aí senão correndo: Nisi currendo minime pervenitur”_. E mais adiante: “É preciso correr e fazer agora o que nos deve aproveitar para a eternidade. Currendum et agendum est modo quod in perpetuum nobis expediat”. Pelo fim do mesmo Prólogo, São Bento repete ainda uma vez sua palavra favorita: “Com o coração dilatado, diz ele, por uma inenarrável doçura de amor, corre-se no caminho dos mandamentos de Deus: Dilatato corde, inenarrabili dilectionis dulcedine, curritur via mandatorum Dei”. São Gregório Magno refere um fato extremamente interessante que citamos aqui, pois ele tem a sua significação. Havia na Campânia um solitário chamado Martinho. Morava numa caverna, estava preso a ela por uma cadeia de ferro, duma parte ligada a seu pé e de outra chumbada ao rochedo da caverna. São Bento soube do fato deste solitário e lhe mandou dizer: “Se és servo de Deus, não deves estar retido por uma cadeia de ferro, mas pela cadeia de Cristo: Si servus Dei es, non teneat te catena ferri, sed catena Christi”. O solitário obedeceu logo à palavra de São Bento: com efeito, a cadeia de Jesus Cristo lhe foi suficiente, pois, após ter deixado a sua cadeia de ferro, continuou do mesmo modo prisioneiro em sua caverna. São Bento nos clama a todos a mesma coisa: Non teneat te catena ferri: deixai cair as cadeias de ferro de vossos pecados, de vossas paixões, de vossas vontades; há uma cadeia mais salutar, mais suave, mais leve, é a cadeia de Cristo: Catena Christi. Todas as outras são fardos, ela é porém a própria liberdade; nós não a levamos, ela é que nos leva. Portanto, como ela é desejável! Quando o discípulo de São Bento encontrou este tesouro, todas as observâncias se cumprem sem custo nenhum: Absque ullo labore. O segredo desta facilidade no bem é que se aprendeu a amar o rei pelo qual se combate. Age-se então pelo princípio do amor de Jesus Cristo: Amore Christi. Este novo amor fez nascer um homem novo que, com hábitos novos, caminha livremente para o céu: Consuetudine ipsa bona. Então as virtudes cristãs e monásticas enchem o coração com uma suavidade incomparável: Delectatione ipsa virtutum. Como é fácil, depois disso, correr no caminho: Currendum et agendum est modo quod in perpetuum nobis expediat! O discípulo não corre sozinho; São Bento está com ele, e vela com uma solicitude incomparável para que nada venha perturbar ou contristar o pacífico habitante da casa de Deus. Nemo perturbetur neque contristetur in domo Dei. No exterior nada perturba o monge fiel, pois tudo é muito bem regulado na casa de Deus. No interior nada existe que o possa entristecer: perto dele há um pai sempre vigilante, e um Deus que ama sem jamais interromper o ato divino pelo qual nos ama. Havia saboreado este ensinamento, o autor que escrevia o seguinte: “Ó Senhor meu Deus, livrai-me de minhas paixões e curai o meu coração de todas as suas afeições desordenadas, a fim de que, curado interiormente e bem purificado, eu me torne apto para amar. É uma grande coisa o amor: é um bem inteiramente grande. Só ele torna leve qualquer fardo; à própria amargura ele dá doçura e gosto. O amor quer estar no alto:  quer ser livre. Corre, voa, rejubila-se: é livre, nada o retém. Se alguém ama, este compreende”. CAPÍTULO XIII Um Testemunho A liberdade de espírito é um dos bens que devemos ao Cristianismo; São Paulo ensina-o formalmente: “Onde está o Espírito do Senhor, diz, aí está a liberdade”. E noutra passagem: “Vós fostes chamados para a liberdade, meus irmãos”. Esta mesma liberdade é um dos caracteres do espírito de São Bento. Eis a este respeito um testemunho particularmente interessante. Nós o devemos ao sábio e piedoso Pe. Faber, do Oratório de Londres: “Onde reina a lei de Deus, onde sopra o Espírito de Cristo, aí existe a liberdade. Ninguém pode ler os escritos espirituais da antiga escola de São Bento, sem notar com admiração a liberdade de espírito pela qual a sua alma estava penetrada. É precisamente o que nós temos o direito de esperar de uma Ordem cujas tradições são tão respeitáveis. Seria um grande bem para nós possuir um maior número de exemplares e de traduções de suas obras. Santa Gertrudes é um belo exemplo disso. Ela respira em todo o lugar o espírito de São Bento… O espírito da religião católica é um espírito fácil, um espírito de liberdade; e aí estava sobretudo o apanágio dos ascetas Beneditinos da velha escola. Os escritores modernos procuram circunscrever tudo, e este deplorável método fez mais mal do que bem”. CAPÍTULO XIV A luz em todas as coisas No capítulo XLI da Regra, São Bento, ao tratar da hora das refeições, estabelece que na Quaresma se jantará depois das Vésperas, mas de tal modo que a refeição termine à luz do dia. Após ter disposto todas as coisas para que assim se façam, acrescenta, para terminar todo o capítulo, esta reflexão: Que tudo se faça com luz: Cum luce fiant omnia. Dizíamos num capítulo precedente: É preciso saber! E nós cremos poder aproximar esta palavra da máxima de São Bento: cum luce fiant omnia. Que tudo se faça com luz. O espírito dos santos, formado na escola do Espírito de Deus, é como Este, ao mesmo tempo uno e múltiplo. Lemos no livro da Sabedoria que o Espírito Santo, Espírito de inteligência é uno e múltiplo: Spiritus intelligentiae Sanctus, unicus, multiplex. Igualmente o espírito dos santos é uno, porque se recolhe todo em Deus e na Sua santa vontade; ele é múltiplo, porque na sua unidade abarca a extensão imensa dos caminhos de Deus e todo o conjunto tão harmonioso dos meios de chegar a Ele. Quando São Bento, falando das refeições, diz que tudo se faça com a luz do dia, ele vai muito além. À luz do dia se sobrepõe a luz espiritual que Deus infunde nas almas. Estas também têm a sua luz e a sua refeição. Alimentam-se com a verdade eterna, desalteram-se na fonte da vida. A hora abençoada destas refeições celestes é a da oração, da salmodia, do Sacrifício eucarístico, da comunhão e mais tarde será a da visão de Deus no céu. Ora, em todas estas coisas, há uma luz que São Bento deseja para seus filhos. É preciso saber! As trevas têm algo de entristecedor, de repugnante, de terrificante. Mesmo sob o ponto de vista material, São Bento não quer que haja trevas no mosteiro: uma lâmpada deve iluminar o dormitório até o nascer do dia. Com mais forte razão, é preciso luz para as almas. A meia luz não basta; a fé procura compreender sempre melhor: Fides quaerit intellectum, é a palavra de Santo Anselmo. É preciso luz plena e total. Nosso Senhor o disse numa parábola: Tende na mão uma tocha acesa. E São Paulo dizia e escrevia a seus fiéis: Sois filhos da luz, do dia claro: não filhos da noite nem das trevas. Quando, rodeado de seus irmãos, São Bento cantava o Ambrosiano, o hino de Santo Ambrósio: Splendor paternae gloriae, como deveria saborear Aquele que é a luz, que nesse hino encontra-se denominado Plena aurora; Aurora totus! Para nós plena aurora, para os anjos todo luz no seu zênite. Arrebatado de alegria nos esplendores desta aurora, ele saboreava a doçura das iluminações divinas, e esperando o grande dia da eternidade, ele penetrava já nas profundezas das claridades superiores. “Enquanto os irmãos dormiam, São Bento, de pé junto à janela, estava em oração antes da hora das Matinas. Levantou então os olhos e, de repente, viu descer do alto uma luz tão grande que todas as trevas foram dissipadas por um esplendor bem superior à luz do dia. E neste esplendor, que não era da terra, o santo viu o mundo inteiro ser trazido diante dele e condensado como debaixo de um só raio de sol”. Quando, depois de tais graças, retornava para junto de seus irmãos, a fim de regular até as coisas mais comuns da vida, São Bento dizia com um acento muito profundo: Que tudo se faça com luz: Cum luce fiant omnia. É preciso notar que estas harmonias maravilhosas que enchiam a alma do santo, estendiam-se até à forma com a qual se revestia o seu pensamento. Como trabalhada, poetizada por uma inspiração celeste, a expressão tomava a forma dum verso jâmbico duma beleza perfeita: Cum luce fiant omnia. Verdadeiramente, seria bom, seria agradável ler assim, ler freqüentemente com o espírito dos santos. CAPÍTULO XV A glória de Deus em todas as coisas Leiamos mais uma vez com o espírito de São Bento. Nós o ouvimos prescrevendo a luz em todas as coisas: escutemo-lo cantando a glória de Deus em tudo. No capítulo LVII da Regra, São Bento edita diversas prescrições aos artesãos, aos artistas que se podem encontrar no mosteiro. Ele quer que as obras deles sejam vendidas abaixo do preço fixado entre os seculares e, querendo dar à lei que estabelece um fim inteiramente sobrenatural, termina com esta admirável sentença: “A fim de que em todas as coisas Deus seja glorificado: Ut in omnibus glorificetur Deus”. Certo dia, uma criança sem instrução tinha lido alguns capítulos da Regra de São Bento. Maravilhada com eles, manifestava seus sentimentos com estas palavras: Como isto leva diretamente a Deus! Sim, diretamente a Deus! Aí está todo o ensinamento de São Bento. Diretamente a Deus, e é preciso não somente andar, mas correr para o Senhor. O santo diz isto por três vezes, desde o prólogo da Regra, e o repete ainda no último capítulo. Assim diz: “Correndo em linha reta cheguemos até o nosso Criador: Recto cursu perveniamus ad Creatorem nostrum”. Assim, bem determinado o objetivo: Deus, e o meio bem definido de o atingir: a corrida, compreende-se que São Bento queira que Deus seja em tudo glorificado. Ut in omnibus glorificetur Deus. Nossos pais atribuíam a esta bela máxima um valor inestimável. Eles a tinham no coração, a exemplo de seu Pai: ela lhes era muito familiar, e de bom grado a escreviam somente com as iniciais latinas: U.   I.   O.   G.   D. Portanto, digamos com São Bento: Que em todas as coisas Deus seja glorificado! Com ele corramos! Com ele diretamente para Deus! #DoutrinaMonástica

  • Mosteiro da Santa Cruz

    “Felizes somos nós, Israel, pois o que agrada a Deus nos foi revelado” Baruc, IV,4 U.I.O.G.D. UT IN OMNIBUS GLORIFICETUR DEUS #Artigospáginainicial

  • Regra de São Bento

    REGRA DE SÃO BENTO Prólogo CAPÍTULO 1 – Dos gêneros de monges CAPÍTULO 2 – Como deve ser o Abade CAPÍTULO 3 – Da convocação dos irmãos a conselho CAPÍTULO 4 – Quais são os instrumentos das boas obras CAPÍTULO 5 – Da obediência CAPÍTULO 6 – Do silêncio CAPÍTULO 7 – Da humildade CAPÍTULO 8 – Dos Ofícios Divinos durante a noite CAPÍTULO 9 – Quantos salmos devem ser ditos nas Horas noturnas CAPÍTULO 10 – Como será celebrado no verão o louvor divino CAPÍTULO 11 – Como serão celebradas as Vigílias aos domingos CAPÍTULO 12 – Como será realizada a solenidade das matinas CAPÍTULO 13 – Como serão realizadas as matinas em dia comum CAPÍTULO 14 – Como serão celebradas as Vigílias nos natalícios dos Santos CAPÍTULO 15 – Em quais épocas será dito o Aleluia CAPÍTULO 16 – Como serão celebrados os ofícios durante o dia CAPÍTULO 17 – Quantos salmos deverão ser cantados nessas mesmas horas CAPÍTULO 18 – Em que ordem os mesmos salmos devem ser ditos CAPÍTULO 19 – Da maneira de salmodiar CAPÍTULO 20 – Da reverência na oração CAPÍTULO 21 – Dos decanos do mosteiro CAPÍTULO 22 – Como devem dormir os monges CAPÍTULO 23 – Da excomunhão pelas faltas CAPÍTULO 24 – Qual deve ser o modo de proceder-se à excomunhão CAPÍTULO 25 – Das faltas mais graves CAPÍTULO 26 – Dos que sem autorização se juntam aos excomungados CAPÍTULO 27 – Como deve o Abade ser solícito para com os excomungados CAPÍTULO 28  – Daqueles que muitas vezes corrigidos não quiserem emendar-se CAPÍTULO 29 – Se devem ser novamente recebidos os irmãos que saem do mosteiro CAPÍTULO 30  – De que maneira serão corrigidos os de menor idade CAPÍTULO 31  – Como deve ser o Celeireiro do mosteiro CAPÍTULO 32 – Das ferramentas e objetos do mosteiro CAPÍTULO 33 – Se os monges devem possuir alguma coisa de próprio CAPÍTULO 34  -Se todos devem receber igualmente o necessário CAPÍTULO 35 – Dos semanários da cozinha CAPÍTULO 36 – Dos irmãos enfermos CAPÍTULO 37 – Dos velhos e das crianças CAPÍTULO 38 – Do leitor semanário CAPÍTULO 39 – Da medida da comida CAPÍTULO 40 – Da medida da bebida CAPÍTULO 41 – A que horas convém fazer as refeições CAPÍTULO 42 – Que ninguém fale depois das Completas CAPÍTULO 43 – Dos que chegam tarde ao Ofício Divino ou à mesa CAPÍTULO 44 – Como devem fazer satisfação os que tiverem sido excomungados CAPÍTULO 45  – Dos que erram no oratório CAPÍTULO 46 – Daqueles que cometem faltas em quaisquer outras coisas CAPÍTULO 47 – Como deve ser dado o sinal para o Ofício Divino CAPÍTULO 48 – Do trabalho manual cotidiano CAPÍTULO 49 – Da observância da Quaresma CAPÍTULO 50 – Dos irmãos que trabalham longe do oratório ou estão em viagem CAPÍTULO 51 – Dos irmãos que partem para não muito longe CAPÍTULO 52 – Do oratório do mosteiro CAPÍTULO 53 – Da recepção dos hóspedes CAPÍTULO 54 – Se o monge deve receber cartas ou qualquer outra coisa CAPÍTULO 55  – Do vestuário e do calçado dos irmãos CAPÍTULO 56 – Da mesa do Abade CAPÍTULO 57  – Dos artistas do mosteiro CAPÍTULO 58 – Da maneira de proceder à recepção dos irmãos CAPÍTULO 59 – Dos filhos dos nobres ou dos pobres que são oferecidos CAPÍTULO 60 – Dos sacerdotes que, porventura, quiserem habitar no mosteiro CAPÍTULO 61 – Dos monges peregrinos como devem ser recebidos CAPÍTULO 62 – Dos sacerdotes do mosteiro CAPÍTULO 63 – Da ordem na comunidade CAPÍTULO 64 – Da ordenação do Abade CAPÍTULO 65 – Do Prior do mosteiro CAPÍTULO 66 – Dos porteiros do mosteiro CAPÍTULO 67 – Dos irmãos mandados em viagem CAPÍTULO 68 – Se são ordenadas a um irmão coisas impossíveis CAPÍTULO 69  – No mosteiro não presuma um defender o outro CAPÍTULO 70 – Não presuma alguém bater em outrem a próprio arbítrio CAPÍTULO 71 – Que sejam obedientes uns aos outros CAPÍTULO 72 – Do bom zelo que os monges devem ter CAPÍTULO 73 – De que nem toda a observância da justiça se acha estabelecida nesta Regra PRÓLOGO DA REGRA Escuta, filho, os preceitos do Mestre, e inclina o ouvido do teu coração; recebe de boa vontade e executa eficazmente o conselho de um bom pai, para que voltes, pelo labor da obediência, àquele de quem te afastaste pela desídia da desobediência. A ti, pois, se dirige agora a minha palavra, quem quer que sejas que, renunciando às próprias vontades, empunhas as gloriosas e poderosíssimas armas da obediência para militar sob o Cristo Senhor, verdadeiro Rei. Antes de tudo, quando encetares algo de bom, pede-lhe com oração muito insistente que seja por ele plenamente realizado, a fim de que nunca venha a entristecer-se, por causa das nossas más ações, aquele que já se dignou contar-nos no número de seus filhos; assim, pois, devemos obedecer-lhe em todo tempo, usando de seus dons a nós concedidos para que não só não venha jamais, como pai irado, a deserdar seus filhos, nem tenha também, qual Senhor temível, irritado com nossas más ações, de entregar-nos à pena eterna como péssimos servos que o não quiseram seguir para a glória. Levantemo-nos então finalmente, pois a Escritura nos desperta dizendo: “Já é hora de nos levantarmos do sono”. E, com os olhos abertos para a luz deífica, ouçamos, ouvidos atentos, o que nos adverte a voz divina que clama todos os dias: “Hoje, se ouvirdes a sua voz, não permitais que se endureçam vossos corações”, e de novo: “Quem tem ouvidos para ouvir, ouça o que o Espírito diz às igrejas”. E que diz? – “Vinde, meus filhos, ouvi-me, eu vos ensinarei o temor do Senhor. Correi enquanto tiverdes a luz da vida, para que as trevas da morte não vos envolvam”. E procurando o Senhor o seu operário na multidão do povo, ao qual clama estas coisas, diz ainda: “Qual é o homem que quer a vida e deseja ver dias felizes?” Se, ouvindo, responderes: “Eu”, dir-te-á Deus: “Se queres possuir a verdadeira e perpétua vida, guarda a tua língua de dizer o mal e que teus lábios não profiram a falsidade, afasta-te do mal e faze o bem, procura a paz e segue-a”. E quando tiveres feito isso, estarão meus olhos sobre ti e meus ouvidos junto às tuas preces, e antes que me invoques dir-te-ei: “Eis-me aqui”. Que há de mais doce para nós, caríssimos irmãos, do que esta voz do Senhor a convidar-nos? Eis que pela sua piedade nos mostra o Senhor o caminho da vida. Cingidos, pois, os rins com a fé e a observância das boas ações, guiados pelo Evangelho, trilhemos os seus caminhos para que mereçamos ver aquele que nos chamou para o seu reino. Se queremos habitar na tenda real do acampamento desse reino, é preciso correr pelo caminho das boas obras, de outra forma nunca se há de chegar lá. Mas, com o profeta, interroguemos o Senhor, dizendo-lhe: “Senhor, quem habitará na vossa tenda e descansará na vossa montanha santa?”. Depois dessa pergunta, irmãos, ouçamos o Senhor que responde e nos mostra o caminho dessa mesma tenda, dizendo: “É aquele que caminha sem mancha e realiza a justiça; aquele que fala a verdade no seu coração, que não traz o dolo em sua língua, que não faz o mal ao próximo e não dá acolhida à injúria contra o seu próximo”. É aquele que quando o maligno diabo tenta persuadi-lo de alguma coisa, repelindo-o das vistas do seu coração, a ele e suas sugestões, redu-lo a nada, agarra os seus pensamentos ainda ao nascer e quebra-os de encontro ao Cristo. São aqueles que, temendo o Senhor, não se tornam orgulhosos por causa de sua boa observância, mas, julgando que mesmo as coisas boas que têm em si não as puderam por si, mas foram feitas pelo Senhor, glorificam Aquele que neles opera, dizendo com o profeta: “Não a nós, Senhor, não a nós, mas ao vosso nome dai Glória”. Como, aliás, o Apóstolo Paulo não atribuía a si próprio coisa alguma de sua pregação, quando dizia: “Pela graça de Deus sou o que sou” e ainda: “Quem se glorifica, que se glorifique no Senhor”. Eis porque no Evangelho diz o Senhor: “Àquele que ouve estas minhas palavras e as põe em prática, compará-lo-ei ao homem sábio que edificou sua casa sobre a pedra, cresceram os rios, sopraram os ventos e investiram contra a casa; e ela não ruiu porque estava fundada sobre pedra”. Em conclusão espera o Senhor todos os dias que nos empenhemos em responder com atos às suas santas exortações. Por essa razão, os dias desta vida nos são prolongados como tréguas para a emenda dos nossos vícios, conforme diz o Apóstolo: “Então ignoras que a paciência de Deus te conduz à penitência?”. Pois diz o bom Senhor: “Não quero a morte do pecador, mas sim que se converta e viva”. Como, pois, irmãos, interrogássemos o Senhor a respeito de quem mora em sua tenda, ouvimos em resposta, qual a condição para lá habitar: a nós compete cumprir com a obrigação do morador! Portanto, é preciso preparar nossos corações e nossos corpos para militar na santa obediência dos preceitos; e em tudo aquilo que nossa natureza tiver menores possibilidades, roguemos ao Senhor que ordene a sua graça que nos preste auxílio. E, se, fugindo das penas do inferno, queremos chegar à vida eterna, enquanto é tempo, e ainda estamos neste corpo e é possível realizar todas essas coisas no decorrer desta vida de luz, cumpre correr e agir, agora, de forma que nos aproveite para sempre. Devemos, pois, constituir uma escola de serviço do Senhor. Nesta instituição esperamos nada estabelecer de áspero ou de pesado. Mas se aparecer alguma coisa um pouco mais rigorosa, ditada por motivo de eqüidade, para emenda dos vícios ou conservação da caridade não fujas logo, tomado de pavor, do caminho da salvação, que nunca se abre senão por estreito início. Mas, com o progresso da vida monástica e da fé, dilata-se o coração e com inenarrável doçura de amor é percorrido o caminho dos mandamentos de Deus. De modo que não nos separando jamais do seu magistério e perseverando no mosteiro, sob a sua doutrina, até a morte, participemos, pela paciência, dos sofrimentos do Cristo a fim de também merecermos ser co-herdeiros de seu reino. Amém. [Termina o Prólogo] CAPÍTULO 1 – Dos gêneros de monges É sabido que há quatro gêneros de monges. O primeiro é o dos cenobitas, isto é, o monasterial, dos que militam sob uma Regra e um Abade. O segundo gênero é o dos anacoretas, isto é, dos eremitas, daqueles que, não por um fervor inicial da vida monástica, mas através de provação diuturna no mosteiro, instruídos então na companhia de muitos aprenderam a lutar contra o demônio e, bem adestrados nas fileiras fraternas, já estão seguros para a luta isolada do deserto, sem a consolação de outrem, e aptos para combater com as próprias mãos e braços, ajudando-os Deus, contra os vícios da carne e dos pensamentos. O terceiro gênero de monges, e detestável, é o dos sarabaítas, que, não tendo sido provados, como o ouro na fornalha, por nenhuma regra, mestra pela experiência, mas amolecidos como numa natureza de chumbo, conservam-se por suas obras fiéis ao século, e são conhecidos por mentir a Deus pela tonsura. São aqueles que se encerram dois ou três ou mesmo sozinhos, sem pastor, não nos apriscos do Senhor, mas nos seus próprios; a satisfação dos desejos é para eles lei, visto que tudo quanto julgam dever fazer ou preferem, chamam de santo, e o que não desejam reputam ilícito. O quarto gênero de monges é o chamado dos giróvagos, que por toda a sua vida se hospedam nas diferentes províncias, por três ou quatro dias nas celas de outros monges, sempre vagando e nunca estáveis, escravos das próprias vontades e das seduções da gula, e em tudo piores que os sarabaítas. Sobre o misérrimo modo de vida de todos esses é melhor calar que dizer algo. Deixando-os de parte, vamos dispor, com o auxilio do Senhor, sobre o poderosíssimo gênero dos cenobitas. CAPÍTULO 2 – Como deve ser o Abade O Abade digno de presidir ao mosteiro, deve lembrar-se sempre daquilo que é chamado, e corresponder pelas ações ao nome de superior. Com efeito, crê-se que, no mosteiro ele faz as vezes do Cristo, pois é chamado pelo mesmo cognome que Este, no dizer do Apóstolo: “Recebestes o espírito de adoção de filhos, no qual clamamos: ABBA, Pai.” Por isso o Abade nada deve ensinar, determinar ou ordenar, que seja contrário ao preceito do Senhor, mas que a sua ordem e ensinamento, como o fermento da divina justiça se espalhe na mente dos discípulos; lembre-se sempre o abade de que da sua doutrina e da obediência dos discípulos, de ambas essas coisas, será feita apreciação no tremendo juízo de Deus. E saiba o Abade que é atribuído à culpa do pastor tudo aquilo que o Pai de família puder encontrar de menos no progresso das ovelhas. Em compensação, de outra maneira será, se a um rebanho irrequieto e desobediente tiver sido dispensada toda diligência do pastor e oferecido todo o empenho na cura de seu atos malsãos; absolvido então o pastor no juízo do Senhor, diga ao mesmo com o Profeta: “Não escondi vossa justiça em meu coração, manifestei vossa verdade e a vossa salvação; eles, porém, com desdém desprezaram-me”. E então, finalmente, que prevaleça a própria morte como pena para as ovelhas que desobedeceram aos seus cuidados. Portanto, quando alguém recebe o nome de Abade, deve presidir a seus discípulos usando de uma dupla doutrina, isto é, apresente as coisas boas e santas, mais pelas ações do que pelas palavras, de modo que aos discípulos capazes de entendê-las proponha os mandamentos do Senhor por meio de palavras, e aos duros de coração e aos mais simples mostre os preceitos divinos pelas próprias ações. Assim, tudo quanto ensinar aos discípulos como sendo nocivo, indique pela sua maneira de agir que não se deve praticar, a fim de que. pregando aos outros, não se torne ele próprio réprobo, e Deus não lhe diga um dia como a um pecador: “Por que narras as minhas leis e anuncias o meu testamento pela tua boca? tu que odiaste a disciplina e atiraste para trás de ti as minhas palavras”, e ainda: “Vias o argueiro no olho de teu irmão e não viste a trave no teu próprio”. Que não seja feita por ele distinção de pessoas no mosteiro. Que um não seja mais amado que outro, a não ser aquele que for reconhecido melhor nas boas ações ou na obediência. Não anteponha o nascido livre ao originário de condição servil, a não ser que exista outra causa razoável para isso; pois se parecer ao Abade que deve fazê-lo por questão de justiça, fá-lo-á seja qual for a condição social; caso contrário, mantenham todos seus próprios lugares, porque, servo ou livre, somos todos um em Cristo e sob um só Senhor caminhamos submissos na mesma milícia de servidão: “Porque não há em Deus acepção de pessoas”. Somente num ponto somos por ele distinguidos, isto é, se formos melhores do que os outros nas boas obras e humildes. Seja pois igual a caridade dele para com todos; que uma só disciplina seja proposta a todos, conforme os merecimentos de cada um. Portanto, em sua doutrina deve sempre o Abade observar aquela fórmula do Apóstolo: “Repreende, exorta, admoesta”, isto é, temperando as ocasiões umas com as outras, os carinhos com os rigores, mostre a severidade de um mestre e o pio afeto de um pai, quer dizer: aos indisciplinados e inquietos deve repreender mais duramente, mas aos obedientes, mansos e pacientes, deve exortar a que progridam ainda mais, e quanto aos negligentes e desdenhosos, advertimos que os repreenda e castigue. Não dissimule as faltas dos culpados, mas logo que começarem a brotar ampute-as pela raiz, como lhe for possível, lembrando-se da desgraça de Heli, sacerdote de Silo. Aos mais honestos e de ânimo compreensível, censure por palavras em primeira e segunda advertência; porém aos improbos, duros e soberbos ou desobedientes reprima com varadas ou outro castigo corporal, desde o início da falta, sabendo que está escrito: “O estulto não se corrige com palavras”. E mais: “Bate no teu filho com a vara e livrarás a sua alma da morte”. Deve sempre lembrar-se o Abade daquilo que é; lembrar-se de como é chamado, e saber que daquele a quem mais se confia mais se exige. E saiba que coisa difícil e árdua recebeu: reger as almas e servir aos temperamentos de muitos; a este com carinho, àquele, porém, com repreensões, a outro com persuasões segundo a maneira de ser ou a inteligência de cada um, de tal modo se conforme e se adapte a todos, que não somente não venha a sofrer perdas no rebanho que lhe foi confiado, mas também se alegre com o aumento da boa grei. Antes de tudo, que não trate com mais solicitude das coisas transitórias, terrenas e caducas, negligenciando ou tendo em pouco a salvação das almas que lhe foram confiadas, mas pense sempre que recebeu almas a dirigir, das quais deverá também prestar contas. E para que não venha, porventura, a alegar falta de recursos, lembrar-se-á do que esta escrito: “Buscai primeiro reino de Deus e sua justiça, e todas as coisas vos serão dadas por acréscimo”; e ainda: “Nada falta aos que O temem”. E saiba que quem recebeu almas a dirigir, deve preparar-se para prestar contas. Saiba como certo que de todo o número de irmãos que tiver possuído sob seu cuidado, no dia do juízo, deverá prestar contas ao Senhor das almas de todos eles, e mais, sem dúvida também da sua própria alma. E assim, temendo sempre a futura apreciação do pastor acerca das ovelhas que lhe foram confiadas enquanto cuida das contas alheias, torna-se solícito para com a suas próprias, e enquanto com suas exortações subministra a emenda aos outros, consegue ele próprio emendar-se de seu vícios. CAPÍTULO 3 – Da convocação dos irmãos a conselho Todas as vezes que deverem ser feitas coisas importantes no mosteiro, convoque o Abade toda a comunidade e diga ele próprio de que se trata. Ouvindo o conselho dos irmãos, considere consigo mesmo e faça o que julgar mais útil. Dissemos que todos fossem chamados a conselho porque muitas vezes o Senhor revela ao mais moço o que é melhor. Dêem pois os irmãos o seu conselho com toda a submissão da humildade e não ousem defender arrogantemente o seu parecer, e que a solução dependa antes do arbítrio do Abade, e todos lhe obedeçam no que ele tiver julgado ser mais salutar; mas, assim como convém aos discípulos obedecer ao mestre, também a este convém dispor todas as coisas com prudência e justiça. Em tudo, pois, sigam todos a Regra como mestra, nem dela se desvie alguém temerariamente. Ninguém, no mosteiro, siga a vontade do próprio coração, nem ouse discutir insolentemente com seu abade, nem mesmo discutir com ele fora do mosteiro. E, se ousar fazê-lo, seja submetido à disciplina regular. No entanto, que o próprio abade faça tudo com temor de Deus e observância da Regra, cônscio de que, sem dúvida alguma, de todos os seus juízos deverá dar contas a Deus, justíssimo juiz. Se, porém, for preciso fazer alguma coisa de menor importância dentre os negócios do mosteiro, use o Abade somente do conselho dos mais velhos, conforme o que está escrito: “Faze tudo com conselho e depois de feito não te arrependerás”. CAPÍTULO 4 – Quais são os instrumentos das boas obras Primeiramente, amar ao Senhor Deus de todo o coração, com toda a alma, com todas as forças. Depois, amar ao próximo como a si mesmo. Em seguida, não matar. Não cometer adultério. Não furtar. Não cobiçar. Não levantar falso testemunho. Honrar todos os homens. E não fazer a outrem o que não quer que lhe seja feito. Abnegar-se a si mesmo para seguir o Cristo. Castigar o corpo. Não abraçar as delícias. Amar o jejum. Reconfortar os pobres. Vestir os nus. Visitar os enfermos. Sepultar os mortos. Socorrer na tribulação. Consolar o que sofre. Fazer-se alheio às coisas do mundo. Nada antepor ao amor de Cristo. Não satisfazer a ira. Não reservar tempo para a cólera. Não conservar a falsidade no coração. Não conceder paz simulada. Não se afastar da caridade. Não jurar para não vir a perjurar. Proferir a verdade de coração e de boca. Não retribuir o mal com o mal. Não fazer injustiça, mas suportar pacientemente as que lhe são feitas. Amar os inimigos. Não retribuir com maldição aos que o amaldiçoam, mas antes abençoá-los. Suportar perseguição pela justiça. Não ser soberbo. Não ser dado ao vinho. Não ser guloso. Não ser apegado ao sono. Não ser preguiçoso. Não ser murmurador. Não ser detrator. Colocar toda a esperança em Deus. O que achar de bem em si, atribuí-lo a Deus e não a si mesmo. Mas, quanto ao mal, saber que é sempre obra sua e a si mesmo atribuí-lo. Temer o dia do juízo. Ter pavor do inferno. Desejar a vida eterna com toda a cobiça espiritual. Ter diariamente diante dos olhos a morte a surpreendê-lo. Vigiar a toda hora os atos de sua vida. Saber como certo que Deus o vê em todo lugar. Quebrar imediatamente de encontro ao Cristo os maus pensamentos que lhe advêm ao coração e revelá-los a um conselheiro espiritual. Guardar sua boca da palavra má ou perversa. Não gostar de falar muito. Não falar palavras vãs ou que só sirvam para provocar riso. Não gostar do riso excessivo ou ruidoso. Ouvir de boa vontade as santas leituras. Dar-se freqüentemente à oração. Confessar todos os dias a Deus na oração, com lágrimas e gemidos, as faltas passadas e daí por diante emendar-se delas. Não satisfazer os desejos da carne. Odiar a própria vontade. Obedecer em tudo às ordens do Abade, mesmo que este, o que não aconteça, proceda de outra forma, lembrando-se do preceito do Senhor: “Fazei o que dizem, mas não o que fazem”. Não querer ser tido como santo antes que o seja, mas primeiramente sê-lo para que como tal o tenham com mais fundamento. Pôr em prática diariamente os preceitos de Deus. Amar a castidade. Não odiar a ninguém. Não ter ciúmes. Não exercer a inveja. Não amar a rixa. Fugir da vanglória. Venerar os mais velhos. Amar os mais moços. Orar, no amor de Cristo, pelos inimigos. Voltar à paz, antes do pôr-do-sol, com aqueles com quem teve desavença. E nunca desesperar da misericórdia de Deus. Eis aí os instrumentos da arte espiritual: se forem postos em ação por nós, dia e noite, sem cessar, e devolvidos no dia do juízo, seremos recompensados pelo Senhor com aquele prêmio que Ele mesmo prometeu: “O que olhos não viram nem ouvidos ouviram preparou Deus para aqueles que o amam”. São, porém, os claustros do mosteiro e a estabilidade na comunidade a oficina onde executaremos diligentemente tudo isso. CAPÍTULO 5 – Da obediência O primeiro grau da humildade é a obediência sem demora. É peculiar àqueles que estimam nada haver mais caro que o Cristo; por causa do santo serviço que professaram, por causa do medo do inferno ou por causa da glória da vida eterna, desconhecem o que seja demorar na execução de alguma coisa logo que ordenada pelo superior, como sendo por Deus ordenada. Deles diz o Senhor: “Logo ao ouvir-me, obedeceu-me”. E do mesmo modo diz aos doutores: “Quem vos ouve a mim ouve”. Pois são esses mesmos que, deixando imediatamente as coisas que lhes dizem respeito e abandonando a própria vontade, desocupando logo as mãos e deixando inacabado o que faziam, seguem com seus atos, tendo os passos já dispostos para a obediência, a voz de quem ordena. E, como que num só momento, ambas as coisas – a ordem recém-dada do mestre e a perfeita obediência do discípulo – são realizadas simultânea e rapidamente, na prontidão do temor de Deus. Apodera-se deles o desejo de caminhar para a vida eterna; por isso, lançam-se como que de assalto ao caminho estreito do qual diz o Senhor: “Estreito é o caminho que conduz à vida”, e assim, não tendo, como norma de vida a própria vontade, nem obedecendo aos próprios desejos e prazeres, mas caminhando sob o juízo e domínio de outro e vivendo em comunidade, desejam que um Abade lhes presida. Imitam, sem dúvida, aquela máxima do Senhor que diz: “Não vim fazer minha vontade, mas a d’Aquele que me enviou”. Mas essa mesma obediência somente será digna da aceitação de Deus e doce aos homens, se o que é ordenado for executado sem tremor, sem delongas, não mornamente, não com murmuração, nem com resposta de quem não quer. Porque a obediência prestada aos superiores é tributada a Deus. Ele próprio disse: “Quem vos ouve, a mim me ouve”. E convém que seja prestada de boa vontade pelos discípulos, porque “Deus ama aquele que dá com alegria”. Pois, se o discípulo obedecer de má vontade e se murmurar, mesmo que não com a boca, mas só no coração, ainda que cumpra a ordem, não será mais o seu ato aceito por Deus que vê seu coração a murmurar; e por tal ação não consegue graça alguma, e, ainda mais, incorre no castigo dos murmuradores se não se emendar pela satisfação. CAPÍTULO 6 – Do silêncio Façamos o que diz o profeta: “Eu disse, guardarei os meus caminhos para que não peque pela língua: pus uma guarda à minha boca: emudeci, humilhei-me e calei as coisas boas”. Aqui mostra o Profeta que, se, às vezes, se devem calar mesmo as boas conversas, por causa do silêncio, quanto mais não deverão ser suprimidas as más palavras, por causa do castigo do pecado? Por isso, ainda que se trate de conversas boas, santas e próprias a edificar, raramente seja concedida aos discípulos perfeitos licença de falar, por causa da gravidade do silêncio, pois está escrito: “Falando muito não foges ao pecado”, e em outro lugar: “a morte e a vida estão em poder da língua”. Com efeito, falar e ensinar compete ao mestre; ao discípulo convém calar e ouvir. Por isso, se é preciso pedir alguma coisa ao superior, que se peça com toda a humildade e submissão da reverência. Já quanto às brincadeiras, palavras ociosas e que provocam riso, condenamo-las em todos os lugares a uma eterna clausura, para tais palavras não permitimos ao discípulo abrir a boca. CAPÍTULO 7 – Da humildade Irmãos, a Escritura divina nos clama dizendo: “Todo aquele que se exalta será humilhado e todo aquele que se humilha será exaltado”. Indica-nos com isso que toda elevação é um gênero da soberba, da qual o Profeta mostra precaver-se quando diz: “Senhor, o meu coração não se exaltou, nem foram altivos meus olhos; não andei nas grandezas, nem em maravilhas acima de mim. Mas, que seria de mim se não me tivesse feito humilde, se tivesse exaltado minha alma? Como aquele que é desmamado de sua mãe, assim retribuirias a minha alma. Se, portanto, irmãos, queremos atingir o cume da suma humildade e se queremos chegar rapidamente àquela exaltação celeste para a qual se sobe pela humildade da vida presente, deve ser erguida, pela ascensão de nossos atos, aquela escada que apareceu em sonho a Jacó, na qual lhe eram mostrados anjos que subiam e desciam. Essa descida e subida, sem dúvida, outra coisa não significa, para nós, senão que pela exaltação se desce e pela humildade se sobe. Essa escada ereta é a nossa vida no mundo, a qual é elevada ao céu pelo Senhor, se nosso coração se humilha. Quanto aos lados da escada, dizemos que são o nosso corpo e alma, e nesses lados a vocação divina inseriu, para serem galgados, os diversos graus da humildade e da disciplina. Assim, o primeiro grau da humildade consiste em que, pondo sempre o monge diante dos olhos o temor de Deus, evite, absolutamente, qualquer esquecimento, e esteja, ao contrário, sempre lembrado de tudo o que Deus ordenou, revolva sempre, no espírito, não só que o inferno queima, por causa de seus pecados, os que desprezam a Deus, mas também que a vida eterna está preparada para os que temem a Deus; e, defendendo-se a todo tempo dos pecados e vícios, isto é, dos pecados do pensamento, da língua, das mãos, dos pés e da vontade própria, como também dos desejos da carne, considere-se o homem visto do céu, a todo momento, por Deus, e suas ações vistas em toda parte pelo olhar da divindade e anunciadas a todo instante pelos anjos. Mostra-nos isso o Profeta quando afirma estar Deus sempre presente aos nossos pensamentos: “Deus que perscruta os corações e os rins”. E também: “Deus conhece os pensamentos dos homens”. E ainda: “De longe percebestes os meus pensamentos” e “o pensamento do homem vos será confessado”. Portanto, para que esteja vigilante quanto aos seus pensamentos maus, diga sempre, em seu coração, o irmão empenhado em seu próprio bem: “se me preservar da minha iniqüidade, serei, então, imaculado diante d’Ele”. Assim, é-nos proibido fazer a própria vontade, visto que nos diz a Escritura: “Afasta-te das tuas próprias vontades”. E, também, porque rogamos a Deus na oração que se faça em nós a sua vontade. Aprendemos, pois, com razão, a não fazer a própria vontade, enquanto nos acautelamos com aquilo que diz a Escritura: “Há caminhos considerados retos pelos homens cujo fim mergulha até o fundo do inferno”, e enquanto, também, nos apavoramos com o que foi dito dos negligentes: “Corromperam-se e tornaram-se abomináveis nos seus prazeres”. Por isso, quando nos achamos diante dos desejos da carne, creiamos que Deus está sempre presente junto a nós, pois disse o Profeta ao Senhor: “Diante de vós está todo o meu desejo”. Devemos, portanto, acautelar-nos contra o mau desejo, porque a morte foi colocada junto à porta do prazer. Sobre isso a Escritura preceitua dizendo: “Não andes atrás de tuas concupiscências”. Logo, se os olhos do Senhor “observam os bons e os maus”, e “o Senhor sempre olha do céu os filhos dos homens para ver se há algum inteligente ou que procura a Deus” e se, pelos anjos que nos foram designados, todas as coisas que fazemos são, cotidianamente, dia e noite, anunciadas ao Senhor, devemos ter cuidado, irmãos, a toda hora, como diz o Profeta no salmo, para que não aconteça que Deus nos veja no momento em que caímos no mal, tornando-nos inúteis, e para que, vindo a poupar-nos nessa ocasião porque é Bom e espera sempre que nos tornemos melhores, não venha a dizer-nos no futuro: “Fizeste isto e calei-me”. O segundo grau da humildade consiste em que, não amando a própria vontade, não se deleite o monge em realizar os seus desejos, mas imite nas ações aquela palavra do Senhor: “Não vim fazer a minha vontade, mas a d’Aquele que me enviou”. Do mesmo modo, diz a Escritura: “O prazer traz consigo a pena e a necessidade gera a coroa”. O terceiro grau da humildade consiste em que, por amor de Deus, se submeta o monge, com inteira obediência ao superior, imitando o Senhor, de quem disse o Apóstolo: “Fez-se obediente até a morte”. O quarto grau da humildade consiste em que, no exercício dessa mesma obediência abrace o monge a paciência, de ânimo sereno, nas coisas duras e adversas, ainda mesmo que se lhe tenham dirigido injúrias, e, suportando tudo, não se entregue nem se vá embora, pois diz a Escritura: “Aquele que perseverar até o fim será salvo”. E também: “Que se revigore o teu coração e suporta o Senhor”. E a fim de mostrar que o que é fiel deve suportar todas as coisas, mesmo as adversas, pelo Senhor, diz a Escritura, na pessoa dos que sofrem: “Por vós, somos entregues todos os dias à morte; somos considerados como ovelhas a serem sacrificadas”. Seguros na esperança da retribuição divina, prosseguem alegres dizendo: “Mas superamos tudo por causa daquele que nos amou”. Também, em outro lugar, diz a Escritura: “Ó Deus, provastes-nos, experimentastes-nos no fogo, como no fogo é provada a prata: induzistes-nos a cair no laço, impusestes tribulações sobre os nossos ombros”. E para mostrar que devemos estar submetidos a um superior, continua: “Impusestes homens sobre nossas cabeças”. Cumprindo, além disso, com paciência o preceito do Senhor nas adversidades e injúrias, se lhes batem numa face, oferecem a outra; a quem lhes toma a túnica cedem também o manto; obrigados a uma milha, andam duas; suportam, como Paulo Apóstolo, os falsos irmãos e abençoam aqueles que os amaldiçoam. O quinto grau da humildade consiste em não esconder o monge ao seu Abade todos os maus pensamentos que lhe vêm ao coração, ou o que de mal tenha cometido ocultamente, mas em lho revelar humildemente, exortando-nos a este respeito a Escritura quando diz: “Revela ao Senhor o teu caminho e espera nele”. E quando diz ainda: “Confessai ao Senhor porque ele é bom, porque sua misericórdia é eterna”. Do mesmo modo o Profeta: “Dei a conhecer a Vós a minha falta e não escondi as minhas injustiças. Disse: acusar-me-ei de minhas injustiças diante do Senhor, e perdoastes a maldade de meu coração”. O sexto grau da humildade consiste em que esteja o monge contente com o que há de mais vil e com a situação mais extrema e, em tudo que lhe seja ordenado fazer, se considere mau e indigno operário, dizendo-se a si mesmo com o Profeta: “Fui reduzido a nada e não o sabia; tornei-me como um animal diante de Vós, porém estou sempre convosco”. O sétimo grau da humildade consiste em que o monge se diga inferior e mais vil que todos, não só com a boca, mas que também o creia no íntimo pulsar do coração, humilhando-se e dizendo com o Profeta: “Eu, porém, sou um verme e não um homem, a vergonha dos homens e a abjeção do povo: exaltei-me, mas, depois fui humilhado e confundido”. E ainda: “É bom para mim que me tenhais humilhado, para que aprenda os vossos mandamentos”. O oitavo grau da humildade consiste em que só faça o monge o que lhe exortam a Regra comum do mosteiro e os exemplos de seus maiores. O nono grau da humildade consiste em que o monge negue o falar a sua língua, entregando-se ao silêncio; nada diga, até que seja interrogado, pois mostra a Escritura que “no muito falar não se foge ao pecado” e que “o homem que fala muito não se encaminhará bem sobre a terra”. O décimo grau da humildade consiste em que não seja o monge fácil e pronto ao riso, porque está escrito: “O estulto eleva sua voz quando ri”. O undécimo grau da humildade consiste em, quando falar, fazê-lo o monge suavemente e sem riso, humildemente e com gravidade, com poucas e razoáveis palavras e não em alta voz, conforme o que está escrito: “O sábio manifesta-se com poucas palavras”. O duodécimo grau da humildade consiste em que não só no coração tenha o monge a humildade, mas a deixe transparecer sempre, no próprio corpo, aos que o vêem, isto é, que no ofício divino, no oratório, no mosteiro, na horta, quando em caminho, no campo ou onde quer que esteja, sentado, andando ou em pé, tenha sempre a cabeça inclinada, os olhos fixos no chão, considerando-se a cada momento culpado de seus pecados, tenha-se já como presente diante do tremendo juízo de Deus, dizendo-se a si mesmo, no coração, aquilo que aquele publicano do Evangelho disse, com os olhos pregados no chão: “Senhor, não sou digno, eu pecador, de levantar os olhos aos céus”. E ainda, com o Profeta: “Estou completamente curvado e humilhado”. Tendo, por conseguinte, subido todos esses degraus da humildade, o monge atingirá logo, aquela caridade de Deus, que, quando perfeita, afasta o temor; por meio dela tudo o que observava antes não sem medo começará a realizar sem nenhum labor, como que naturalmente, pelo costume, não mais por temor do inferno, mas por amor de Cristo, pelo próprio costume bom e pela deleitação das virtudes. Eis o que, no seu operário, já purificado dos vícios e pecados, se dignará o Senhor manifestar por meio do Espírito Santo. CAPÍTULO 8 – Dos Ofícios Divinos durante a noite Em tempo de inverno, isto é, de primeiro de novembro até a Páscoa, em consideração ao que é razoável, devem os monges levantar-se à oitava hora da noite de modo que durmam um pouco mais da metade da noite e se levantem tendo já feita a digestão. O tempo que resta depois das Vigílias seja empregado na preparação de algum trecho do saltério ou das lições, por parte dos irmãos que disto necessitarem. Da Páscoa, porém, até o referido dia primeiro de novembro, seja regulada a hora de tal maneira que as Matinas que devem ser celebradas quando começa a clarear, venham em seguida ao ofício das Vigílias, depois de brevíssimo intervalo, durante o qual os irmãos saem para as necessidades naturais. CAPÍTULO 9 – Quantos salmos devem ser ditos nas Horas noturnas No tempo de inverno acima citado, diga-se em primeiro lugar o versículo, repetido três vezes: “Senhor, abrireis os meus lábios e minha boca anunciará vosso louvor”, ao qual deve ser acrescentado o salmo terceiro e o “Glória”. Depois desse, o salmo nonagésimo quarto, com antífona, ou então cantado. Segue-se o Ambrosiano e depois seis salmos com antífonas. Recitados esses e dito o versículo, o Abade dê a bênção; depois, achando-se todos sentados nos bancos sejam lidas pelos irmãos, um de cada vez, três lições do livro que está sobre a estante. Entre elas cantem-se três responsórios. Dois destes responsórios são ditos sem “Glória”, porém, depois da terceira lição, quem está cantando diga o “Glória”. Quando esse começar, levantem-se logo todos de seus assentos em honra e reverência à Santíssima Trindade. Leiam-se, nas Vigílias, os livros de autoria divina, tanto do Antigo como do Novo Testamento, e também as exposições que sobre eles fizeram os Padres católicos conhecidos e ortodoxos. A essas três lições com seus responsórios, sigam-se os seis salmos restantes cantados com “Aleluia”. Vêm, em seguida, a lição do Apóstolo, que deve ser recitada de cor, o versículo e a súplica da litania, isto é, “Kyrie eleison”, e assim terminem as Vigílias noturnas. CAPÍTULO 10 – Como será celebrado no verão o louvor divino De Páscoa até primeiro de novembro, mantenha-se, quanto à salmodia, a mesma medida acima determinada; as lições do livro, porém, por causa da brevidade das noites, não são lidas; em lugar dessas três lições, seja recitada de memória uma do Antigo Testamento, seguida de responsório breve, e cumpram-se todas as outras coisas como ficou dito acima, isto é: que nunca se digam nas Vigílias noturnas, menos de doze salmos além do terceiro e do nonagésimo quarto. CAPÍTULO 11 – Como serão celebradas as Vigílias aos domingos Aos domingos, levante-se mais cedo para as Vigílias, nas quais se mantenha a mesma medida já referida, isto é: modulados, conforme dispusemos acima, seis salmos e o versículo, e estando todos convenientemente e pela ordem assentados nos bancos, leiam-se no livro, como já mencionamos, quatro lições com seus responsórios; só o quarto responsório é dito por quem está cantando o “Gloria”, ao começo do qual se levantem todos com reverência. A essas lições sigam-se, por ordem, outros seis salmos com antífonas, como os anteriores, e o versículo. Terminados esses, voltam-se a ler outras quatro lições com seus responsórios, na mesma ordem que acima. Em seguida, digam-se três cânticos dos Profetas que o Abade determinar, os quais sejam salmodiados com “Aleluia”. Dito também o versículo, sejam lidas com a bênção do Abade outras quatro lições do Novo Testamento, na mesma ordem que acima. Depois do quarto responsório o abade entoa o hino “Te Deum laudamus”. Uma vez terminado, leia o Abade o Evangelho, permanecendo todos de pé com reverência e temor. Quando essa leitura terminar, respondam todos: “Amém”; e o abade prossegue logo com o hino “Te decet laus”, e, dada a bênção, comecem as Matinas. Essa disposição das Vigílias para o domingo deve ser mantida, como está, em todo tempo, tanto no verão quanto no inverno, a não ser que, por acaso, e que tal não aconteça, os monges se levantem mais tarde e se tenha de abreviar algo das lições ou dos responsórios. Haja, porém, todo o cuidado para que isso não venha a suceder; se, porém, acontecer, satisfaça dignamente a Deus no oratório, aquele por cuja culpa veio esse fato a verificar-se. CAPÍTULO 12 – Como será realizada a solenidade das matinas Nas Matinas de domingo, diga-se em primeiro lugar o salmo sexagésimo sexto, sem antífona, em tom direto. Diga-se, depois, o quinquagésimo, com “Aleluia”. Em seguida, o centésimo décimo sétimo e o sexagésimo segundo; seguem-se então os “Benedicite”, e os “Laudate”, uma lição do Apocalipse de cor, o responsório, o ambrosiano, o versículo, o cântico do Evangelho, a litania, e está terminado. CAPÍTULO 13 – Como serão realizadas as matinas em dia comum Nos dias comuns, porém, a solenidade das Matinas seja assim realizada, a saber: recita-se o salmo sexagésimo sexto sem antífona, um tanto lentamente, como no domingo, de modo que todos cheguem para o quinquagésimo, o qual deve ser recitado com antífona. Depois desse, recitem-se outros dois salmos, segundo o costume, isto é, segunda-feira, o quinto e o trigésimo quinto; terça-feira, o quadragésimo segundo e o quinquagésimo sexto; quarta-feira, o sexagésimo terceiro e o sexagésimo quarto; quinta-feira, o octogésimo sétimo e o octogésimo nono; sexta-feira, o septuagésimo quinto e o nonagésimo primeiro; sábado, o centésimo quadragésimo segundo e o cântico do Deuteronômio, que deve ser dividido em dois “Gloria”. Nos outros dias, diga-se um cântico dos Profetas, um para cada dia, como canta a Igreja Romana. A esses seguem-se os “Laudate”, depois uma lição do Apóstolo recitada de memória, o responsório, o ambrosiano, o versículo, o cântico do Evangelho, a litania, e está completo. Não termine, de forma alguma, o ofício da manhã ou da tarde sem que o superior diga, em último lugar, por inteiro e de modo que todos ouçam, a oração dominical, por causa dos espinhos de escândalos que costumam surgir, de maneira que, interpelados os irmãos pela promessa da própria oração que estão rezando: “perdoai-nos assim como nós perdoamos”, se preservem de tais vícios. Nos demais ofícios diga-se a última parte dessa oração, de modo a ser respondido por todos: “Mas livrai-nos do mal”. CAPÍTULO 14 – Como serão celebradas as Vigílias nos natalícios dos Santos Nas festas dos Santos e em todas as solenidades, proceda-se do mesmo modo que indicamos para o domingo exceto que, quanto aos salmos, antífonas e lições, sejam ditos os que pertencem à própria festa; mantenha-se, porém, a mesma disposição acima descrita. CAPÍTULO 15 – Em quais épocas será dito o Aleluia Da Santa Páscoa até Pentecostes, diga-se sem interrupção o “Aleluia” tanto nos salmos como nos responsórios. De Pentecostes até o início da Quaresma, diga-se todas as noites, mas somente com os seis últimos salmos dos noturnos . Em todo domingo, fora da Quaresma, digam-se com “Aleluia” os Cânticos, as Matinas, Prima, Terça, Sexta e Noa; entretanto, as Vésperas sejam ditas com antífona . Quanto aos responsórios, nunca são ditos com “Aleluia”, a não ser de Páscoa até Pentecostes. CAPÍTULO 16 – Como serão celebrados os ofícios durante o dia Diz o Profeta: “Louvei-vos sete vezes por dia”. Assim, também nós realizaremos esse sagrado número, se, por ocasião das Matinas, Prima, Terça, Sexta, Noa, Vésperas e Completas, cumprirmos os deveres da nossa servidão; porque foi destas Horas do dia que ele disse: “Louvei-vos sete vezes por dia”. Quanto às Vigílias noturnas, diz da mesma forma o mesmo profeta: “Levantava-me no meio da noite para louvar-vos”. Rendamos, portanto, nessas horas, louvores ao nosso Criador “sobre os juízos da sua justiça”, isto é, nas Matinas, Prima, Terça, Sexta, Noa, Vésperas e Completas; e à noite, levantemo-nos para louvá-Lo. CAPÍTULO 17 – Quantos salmos deverão ser cantados nessas mesmas horas Já dispusemos a Ordem da Salmodia, dos Noturnos e das Matinas; vejamos agora a das Horas seguintes. À Hora de Prima sejam ditos: três salmos separadamente, não sob um só “Gloria”, e o hino da mesma Hora, que virá depois do versículo ” Ó Deus, vinde em meu auxílio” e antes que sejam começados os salmos. Terminados os três salmos, recitem-se uma lição, o versículo, “Kyrie eleison”, e façam-se as orações finais. Terça, Sexta, e Noa sejam celebradas segundo a mesma ordem, isto é: versículo, hinos de cada uma das Horas, três salmos, lição e versículo, “Kyrie eleison” e as orações finais. Se a comunidade for grande, sejam os salmos cantados com antífona; se for pequena, em tom direto. A sinaxe vespertina consta de quatro salmos com antífonas; depois dos quais deve ser recitada uma lição; em seguida o responsório, o ambrosiano, o versículo, o cântico do Evangelho, a litania, a oração dominical e as orações finais. As Completas compreendem a recitação de três salmos, que devem ser ditos em tom direto, sem antífona; Depois deles, o hino da mesma Hora, uma lição, o versículo, o “Kyrie eleison”, a bênção e as orações finais. CAPÍTULO 18 – Em que ordem os mesmos salmos devem ser ditos Diga-se o versículo: “Ó Deus, vinde em meu auxílio; apressai-vos, Senhor, em socorrer-me”, o Glória, e depois o Hino de cada uma das Horas . Em seguida, na hora de Prima do domingo, devem ser ditas quatro divisões do salmo centésimo décimo oitavo; nas demais Horas, isto é, Terça, Sexta e Noa digam-se três divisões do referido salmo centésimo décimo oitavo. Na Prima da Segunda feira, digam-se três salmos, a saber: o primeiro, o segundo e o sexto. E assim em cada dia, até o domingo, digam-se na Prima, por ordem, três salmos até o décimo nono; de tal modo que sejam divididos em dois o salmo nono e o décimo sétimo. E faça-se assim, para que sempre se comecem as Vigílias do domingo pelo vigésimo. Na Terça, Sexta e Noa da segunda-feira, digam-se as nove divisões que restam do salmo centésimo décimo oitavo, três em cada Hora. Percorrido, portanto, o salmo centésimo décimo oitavo nos dois dias – domingo e segunda-feira, já na Terça, Sexta e Noa da terça-feira, salmodiam-se três salmos de cada vez, do centésimo décimo nono até o centésimo vigésimo sétimo, isto é, nove salmos. Repitam-se sempre esses salmos pelas mesmas Horas até o domingo, conservando-se de maneira uniforme e todos os dias a disposição dos hinos, bem assim como a das lições e versículos; e, assim sendo, comece-se sempre no domingo com o centésimo décimo oitavo. As Vésperas sejam cantadas diariamente pela modulação de quatro salmos. Esses salmos vão do centésimo nono até o centésimo quadragésimo sétimo, excetuados alguns que dentre esses foram tirados para outras Horas, isto é, do centésimo décimo sétimo ao centésimo vigésimo sétimo, mais o centésimo trigésimo terceiro e o centésimo quadragésimo segundo; todos os demais devem ser ditos nas Vésperas. Como, porém, ficam faltando três salmos, devem ser divididos os mais longos dentre os supracitados, isto é, o centésimo trigésimo oitavo, o centésimo quadragésimo terceiro e o centésimo quadragésimo quarto. O centésimo sexto, por ser pequeno, seja unido ao centésimo décimo quinto. Distribuída, pois, a ordem dos salmos vespertinos, quanto ao restante – isto é, a lição, o responsório, o hino, o versículo e o cântico – proceda-se como determinamos acima. Nas Completas, repitam-se todos os dias os mesmos salmos: o quarto, o nonagésimo e o centésimo trigésimo terceiro. Disposta a ordem da salmodia diurna, distribuam-se igualmente todos os salmos que restam, pelas sete Vigílias da noite, partindo-se, naturalmente, os que, dentre eles forem mais longos e estabelecendo-se doze para cada noite. Advertimos de modo especial que, se porventura essa distribuição dos salmos não agradar a alguém, que ordene como achar melhor; mas, seja como for, atenda a que seja salmodiado cada semana, integralmente, o saltério de cento e cinqüenta salmos e que se comece sempre, de novo, nas Vigílias do domingo, porque os monges que, no decurso da semana, recitam menos do que o saltério com os cânticos costumeiros revelam ser por demais frouxo o serviço de sua devoção. Pois lemos que os nossos santos Pais realizavam, corajosamente, em um só dia isso que oxalá nós indolentes, cumprimos no decorrer de toda uma semana. CAPÍTULO 19 – Da maneira de salmodiar Cremos estar em toda parte a presença divina e que “os olho do Senhor vêem em todo lugar os bons e os maus”. Creiamos nisso principalmente e sem dúvida alguma, quando estamos presentes ao Ofício Divino. Lembremo-nos, pois, sempre, do que diz o Profeta: “Servi ao Senhor no temor”. E também: “Salmodiai sabiamente”. E ainda: “Cantar-vos-ei em face dos anjos”. Consideremos, pois, de que maneira cumpre estar na presença da Divindade e de seus anjos; e tal seja a nossa presença na salmodia, que nossa mente concorde com nossa voz. CAPÍTULO 20 – Da reverência na oração Se queremos sugerir alguma coisa aos homens poderosos, não ousamos fazê-lo a não ser com humildade e reverência; quanto mais não se deverá empregar toda a humildade e pureza de devoção para suplicar ao Senhor Deus de todas as coisas? E saibamos que seremos ouvidos, não com o muito falar, mas com a pureza do coração e a compunção das lágrimas. Por isso, a oração deve ser breve e pura, a não ser que, por ventura, venha a prolongar-se por um afeto de inspiração da graça divina. Em comunidade, porém, que a oração seja bastante abreviada e, dado o sinal pelo superior, levantem-se todos ao mesmo tempo. CAPÍTULO 21 – Dos decanos do mosteiro Se a comunidade for numerosa, sejam escolhidos, dentre os seus membros, irmãos de bom testemunho e de vida monástica santa, e constituídos Decanos; empreguem sua solicitude em tudo o que diz respeito às suas decanias, conforme os mandamentos de Deus e os preceitos do seu Abade. Que os Decanos eleitos sejam tais que possa o Abade, com segurança, repartir com eles o seu ônus ; e não sejam escolhidos pela ordem na comunidade, mas segundo o mérito da vida e a doutrina da sabedoria. Se algum dentre os Decanos, acaso inchado por qualquer soberba, for julgado merecedor de repreensão, seja repreendido uma, duas, até três vezes; se não quiser emendar-se seja destituído e ponha-se em seu lugar outro que seja digno. O mesmo determinamos a respeito do Prior. CAPÍTULO 22 – Como devem dormir os monges Durma cada um em uma cama. Tenham seus leitos de acordo com o modo de viver monástico e conforme o abade distribuir. Se for possível, durmam todos num mesmo lugar; se, porém, o número não o permitir, durmam aos grupos de dez ou vinte, em companhia de monges mais velhos que sejam solícitos para com eles. Esteja acesa nesse recinto uma candeia sem interrupção, até o amanhecer. Durmam vestidos e cingidos com cintos ou cordas, mas de forma que não tenham, enquanto dormem, as facas a seu lado, a fim de que não venham elas a ferir, durante o sono, quem está dormindo; e de modo que estejam os monges sempre prontos e, assim, dado o sinal, levantando-se sem demora, apressem-se mutuamente e antecipem-se no Ofício Divino, porém com toda gravidade e modéstia. Que os irmãos mais jovens não tenham leitos juntos, mas intercalados com os dos mais velhos. Levantando-se para o Ofício Divino chamem-se mutuamente, para que não tenham desculpas os sonolentos; façam-no, porém, com moderação. CAPÍTULO 23 – Da excomunhão pelas faltas Se houver algum irmão teimoso ou desobediente, soberbo ou murmurador, ou em algum modo contrário à santa Regra, e desprezador dos preceitos dos seus superiores, seja ele admoestado, conforme o preceito de nosso Senhor, a primeira e a segunda vez, em particular pelos seus superiores. Se não se emendar, seja repreendido publicamente, diante de todos. Se porém, nem assim se corrigir sofra a excomunhão, caso possa compreender o que seja essa pena. Se, entretanto, está de ânimo endurecido, seja submetido a castigo corporal. CAPÍTULO 24 – Qual deve ser o modo de proceder-se à excomunhão A medida tanto da excomunhão como da disciplina, deve regular-se segundo a espécie da falta, e esta espécie das faltas está sob critério do julgamento do abade. Se algum irmão incorrer em faltas mais leves, seja privado da participação à mesa. Será este o proceder de quem está privado da mesa: não entoe salmo, nem antífona no oratório, nem recite lição até que tenha sido dada a devida satisfação. Receba sozinho a sua refeição depois da refeição dos irmãos; de modo que, por exemplo, se os irmãos vão tomar a refeição à hora sexta, aquele irmão o fará à hora nona; se os irmãos à nona, ele à hora de Vésperas, até que tenha obtido o perdão por conveniente satisfação. CAPÍTULO 25 – Das faltas mais graves Que seja suspenso da mesa e também do oratório o irmão culpado de faltas mais graves. Que nenhum irmão se junte a ele em nenhuma espécie de relação, nem para lhe falar. Esteja sozinho no trabalho que lhe for determinado, permanecendo no luto da penitência, ciente daquela terrível sentença do Apóstolo que diz: “Este homem foi assim entregue à morte da carne para que seu espírito se salve no dia do Senhor”. Faça a sós a sua refeição na medida e na hora que o Abade julgar convenientes, não seja abençoado por ninguém que por ele passe, nem também a comida que lhe é dada. CAPÍTULO 26 – Dos que sem autorização se juntam aos excomungados Se algum irmão ousar juntar-se, de qualquer modo, ao irmão excomungado sem ordem do Abade, ou de falar com ele ou mandar-lhe um recado, aplique-se-lhe o mesmo castigo de excomunhão. CAPÍTULO 27 – Como deve o Abade ser solícito para com os excomungados Cuide o Abade com toda a solicitude dos irmãos que caírem em faltas, porque “não é para os sadios que o médico é necessário, mas para os que estão doentes”. Por isso, como sábio médico, deve usar de todos os meios, enviar “simpectas”, isto é, irmãos mais velhos e sábios que, em particular, consolem o irmão flutuante e o induzam a uma humilde satisfação, o consolem “para que não seja absorvido por demasiada tristeza”, mas, como diz ainda o Apóstolo, “confirme-se a caridade para com ele”, e rezem todos por ele. O Abade deve, pois, empregar extraordinária solicitude e deve empenhar-se com toda sagacidade e indústria, para que não perca alguma das ovelhas a si confiadas. Reconhecerá, pois, ter recebido a cura das almas enfermas, e não a tirania sobre as sãs; tema a ameaça do profeta, através da qual Deus nos diz: “o que víeis gordo assumíeis e o que era fraco lançáveis fora”. Imite o pio exemplo do bom pastor que, deixando as noventa e nove ovelhas nos montes, saiu a procurar uma única ovelha que desgarrara, de cuja fraqueza a tal ponto se compadeceu, que se dignou colocá-la em seus sagrados ombros e assim trazê-la de novo ao aprisco. CAPÍTULO 28  – Daqueles que muitas vezes corrigidos não quiserem emendar-se Se algum irmão freqüentes vezes corrigido por qualquer culpa não se emendar, nem mesmo depois de excomungado, que incida sobre ele uma correção mais severa, isto é, use-se o castigo das varas. Se nem assim se corrigir, ou se por acaso, o que não aconteça, exaltado pela soberba, quiser mesmo defender suas ações, faça então o Abade como sábio médico: se aplicou as fomentações, os ungüentos das exortações, os medicamentos das divinas Escrituras e enfim a cauterização da excomunhão e das pancadas de vara e vir que nada obtém com sua indústria, aplique então o que é maior: a sua oração e a de todos os irmãos por ele, para que o Senhor, que tudo pode, opere a salvação do irmão enfermo. Se nem dessa maneira se curar, use já agora o Abade o ferro da amputação, como diz o Apóstolo: “Tirai o mal do meio de vós” e também: “Se o infiel se vai, que se vá”, a fim de que uma ovelha enferma não contagie todo o rebanho. CAPÍTULO 29 – Se devem ser novamente recebidos os irmãos que saem do mosteiro O irmão que sai do mosteiro por culpa própria, se quiser voltar, prometa, antes, uma completa emenda do vício que foi a causa de sua saída, e então seja recebido no último lugar, para que assim se prove a sua humildade. Se de novo sair, seja assim recebido até três vezes, já sabendo que depois lhe será negado todo caminho de volta. CAPÍTULO 30  – De que maneira serão corrigidos os de menor idade Cada idade e cada inteligência deve ser tratada segundo medidas próprias. Por isso, os meninos e adolescentes ou os que não podem compreender que espécie de pena é, na verdade, a excomunhão, quando cometem alguma falta, sejam afligidos com muitos jejuns ou castigados com ásperas varas, para que se curem. CAPÍTULO 31  – Como deve ser o Celeireiro do mosteiro Seja escolhido para Celeireiro do mosteiro, dentre os membros da comunidade, um irmão sábio, maduro de caráter, sóbrio, que não coma muito, não seja orgulhoso, nem turbulento, nem injuriador, nem tardo, nem pródigo, mas temente a Deus; que seja como um pai para toda a comunidade. Tome conta de tudo; nada faça sem ordem do Abade. Cumpra o que for ordenado. Não entristeça seus irmãos. Se algum irmão, por acaso, lhe pedir alguma coisa desarrazoadamente, não o entristeça desprezando-o, mas negue, razoavelmente, com humildade, ao que pede mal. Guarde a sua alma, lembrando-se sempre daquela palavra do Apóstolo: “Quem tiver administrado bem, terá adquirido para si um bom lugar”. Cuide com toda solicitude dos enfermos, das crianças, dos hóspedes e dos pobres, sabendo, sem dúvida alguma, que deverá prestar contas de todos esses, no dia do juízo. Veja todos os objetos do mosteiro e demais utensílios como vasos sagrados do altar. Nada negligencie. Não se entregue à avareza, nem seja pródigo e esbanjador dos bens do mosteiro; mas faça tudo com medida e conforme a ordem do Abade. Tenha antes de tudo humildade e não possuindo a coisa com que atender a alguém, entregue-lhe como resposta uma boa palavra, conforme o que está escrito: “A boa palavra está acima da melhor dádiva”. Mantenha sob seus cuidados tudo o que o Abade determinar, não presuma, porém, a respeito do que lhe tiver proibido. Ofereça aos irmãos a parte estabelecida para cada um, sem arrogância ou demora, a fim de que não se escandalizem, lembrado da palavra divina sobre o que deve merecer “quem escandalizar um destes pequeninos”. Se a comunidade for numerosa, sejam-lhe dados auxiliares com a ajuda dos quais cumpra, com o espírito em paz, o ofício que lhe foi confiado. Às horas convenientes seja dado o que deve ser dado e pedido o que deve ser pedido, para que ninguém se perturbe nem se entristeça na casa de Deus. CAPÍTULO 32 – Das ferramentas e objetos do mosteiro Quanto aos utensílios do mosteiro em ferramentas ou vestuário, ou quaisquer outras coisas, procure o Abade irmãos de cuja vida e costumes esteja seguro e, como julgar útil, consigne-lhes os respectivos objetos para tomar conta e recolher. Mantenha o abade um inventário desses objetos, para que saiba o que dá e o que recebe, à medida que os irmãos se sucedem no desempenho do que lhes for incumbido. Se algum deixar as coisas do mosteiro sujas ou as tratar negligentemente, seja repreendido; se não se emendar, seja submetido à disciplina regular. CAPÍTULO 33 – Se os monges devem possuir alguma coisa de próprio Especialmente este vício deve ser cortado do mosteiro pela raiz; ninguém ouse dar ou receber alguma coisa sem ordem do Abade, nem ter nada de próprio, nada absolutamente, nem livro, nem tabuinhas, nem estilete, absolutamente nada, já que não lhes é lícito ter a seu arbítrio nem o próprio corpo nem a vontade; porém, todas as coisas necessárias devem esperar do pai do mosteiro, e não seja lícito a ninguém possuir o que o Abade não tiver dado ou permitido. Seja tudo comum a todos, como está escrito, nem diga nem tenha alguém a presunção de achar que alguma coisa lhe pertence. Se for surpreendido alguém a deleitar-se com este péssimo vício, seja admoestado primeira e segunda vez, se não se emendar, seja submetido à correção. CAPÍTULO 34  -Se todos devem receber igualmente o necessário Como está escrito, repartia-se para cada um conforme lhe era necessário. Não dizemos, com isso, que deva haver acepção de pessoas, o que não aconteça, mas sim consideração pelas fraquezas, de forma que quem precisar de menos dê graças a Deus e não se entristeça por isso; quem precisar de mais, humilhe-se em sua fraqueza e não se orgulhe por causa da misericórdia que obteve. E, assim, todos os membros da comunidade estarão em paz. Antes de tudo, que não surja o mal da murmuração em qualquer palavra ou atitude, seja qual for a causa. Se alguém for assim surpreendido, seja submetido a castigo mais severo. CAPÍTULO 35 – Dos semanários da cozinha Que os irmãos se sirvam mutuamente e ninguém seja dispensado do ofício da cozinha, a não ser no caso de doença ou se se tratar de alguém ocupado em assunto de grande utilidade; pois por esse meio se adquire maior recompensa e caridade. Para os fracos, arranjem-se auxiliares, a fim de que não o façam com tristeza; ainda conforme o estado da comunidade e a situação do lugar, que todos tenham auxiliares. Se a comunidade for numerosa, seja o Celeireiro dispensado da cozinha, e também, como dissemos, os que estiverem ocupados em assuntos de maior utilidade. Os demais sirvam-se mutuamente na caridade. O que vai terminar sua semana faça, no sábado, a limpeza; lavem as toalhas com que os irmãos enxugam as mãos e os pés; ambos, tanto o que sai como o que entra, lavem os pés de todos. Devolva aquele ao Celeireiro os objetos do seu ofício, limpos e perfeitos; entregue-os outra vez o Celeireiro ao que entra, para que saiba o que dá e o que recebe. Os semanários recebam, uma hora antes da refeição, além da porção estabelecida, um pouco de pão e algo para beber, a fim de que, na hora da refeição, sirvam a seus irmãos sem murmurar e sem grande cansaço; no entanto, nos dias solenes, esperem até depois da Missa. No domingo, logo que acabem as Matinas, os semanários que entram e os que saem prostrem-se no oratório, aos pés de todos, pedindo que orem por eles. Aquele que termina a semana diga o seguinte versículo: “Bendito é o Senhor Deus que me ajudou e consolou”. Dito isso três vezes e recebida a bênção, sai; prossiga o que começa a semana, dizendo: “Ó Deus vinde em meu auxílio; Senhor, apressai-vos em socorrer-me”. Também isso seja repetido três vezes por todos e, recebida a bênção, entre no seu ofício. CAPÍTULO 36 – Dos irmãos enfermos Antes de tudo e acima de tudo deve tratar-se dos enfermos de modo que se lhes sirva como verdadeiramente ao Cristo, pois Ele disse: “Fui enfermo e visitastes-me” e “Aquilo que fizestes a um destes pequeninos, a mim o fizestes”. Mas que os próprios enfermos considerem que são servidos em honra a Deus e não entristeçam com sua superfluidade aos irmãos que lhes servem. No entanto, devem os doentes ser levados pacientemente, porque por meio deles se adquire recompensa mais copiosa. Portanto, tenha o abade o máximo cuidado para que não sofram nenhuma negligência. Haja uma cela destinada especialmente a estes irmãos enfermos, e um servo temente a Deus, diligente e solícito. O uso dos banhos seja oferecido aos doentes sempre que convém; mas aos sãos, e sobretudo aos jovens, seja raramente concedido. Também a alimentação de carnes seja concedida aos enfermos por demais fracos, para que se restabeleçam, mas logo que tiverem melhorado abstenham-se todos de carnes, como de costume. Que tenha, pois, o Abade o máximo cuidado em que os enfermos não sejam negligenciados nem pelos Celeireiros nem pelos que lhes servem, pois sobre ele recai qualquer falta que tenha sido cometida pelos discípulos. CAPÍTULO 37 – Dos velhos e das crianças Ainda que a própria natureza humana seja levada à misericórdia para com estas idades, velhos e crianças, no entanto que a autoridade da Regra olhe também por eles. Considere-se sempre a fraqueza que lhes é própria, e não se mantenha para com eles o rigor da Regra no que diz respeito aos alimentos; haja sim, em relação a eles, uma pia consideração e tenham antecipadas as horas regulares. CAPÍTULO 38 – Do leitor semanário Às mesas dos irmãos não deve faltar a leitura; não deve ler aí quem quer que, por acaso, se apodere do livro, mas sim o que vai ler durante toda a semana, a começar do domingo. Depois da Missa e da Comunhão, peça a todos que orem por ele para que Deus afaste dele o espírito de soberba. No oratório, recitem todos, por três vezes, o seguinte versículo, iniciando-o o próprio leitor: “Abri, Senhor, os meus lábios, e minha boca anunciará vosso louvor”; e tendo assim recebido a bênção, entre a ler. Faça-se o máximo silêncio, de modo que não se ouça nenhum cochicho ou voz, a não ser a do que está lendo. Quanto às coisas que são necessárias aos que estão comendo e bebendo, sirvam-se mutuamente os irmãos, de tal modo que ninguém precise pedir coisa alguma. Se porém se precisar de qualquer coisa, seja antes pedida por algum som ou sinal do que, por palavra. Nem ouse alguém fazer alguma pergunta sobre a leitura, ou outro assunto qualquer, para que se não dê ocasião, a não ser que o superior, porventura, queira dizer, brevemente, alguma coisa, para edificação. O leitor semanário, antes de começar a ler, recebe o “misto” por causa da Comunhão e para que não aconteça ser-lhe pesado suportar o jejum; faça, porém, depois, a refeição com os semanários da cozinha e os serventes. Não leiam nem cantem os irmãos segundo a ordem da comunidade, mas façam-no aqueles que edificam os ouvintes. CAPÍTULO 39 – Da medida da comida Cremos que são suficientes para a refeição cotidiana, quer seja esta à sexta ou à nona hora, em todas as mesas, dois pratos de cozidos, por causa das fraquezas de muitos, a fim de que aquele que não puder, por acaso, comer de um prato, coma do outro. Portanto dois pratos de cozidos bastem a todos os irmãos; e se houver frutas ou legumes frescos, sejam acrescentados em terceiro lugar. Seja suficiente uma libra de pão bem pesada, para o dia todo, quer haja uma só refeição, quer haja jantar e ceia. Se houver ceia, seja guardada pelo Celeireiro a terça parte da libra e entregue aos que vão cear. Mas, se por acaso tiverem feito um trabalho maior, estará ao critério e em poder do Abade acrescentar, se convier, alguma coisa, afastados antes de mais nada excessos de comida, e de modo que nunca sobrevenha ao monge a indigestão, porque nada é tão contrário a tudo o que é cristão como os excessos na comida, conforme diz Nosso Senhor: “Cuidai que os vossos corações não se tornem pesados pela gula”. Aos meninos de pouca idade não se sirva a mesma quantidade, mas sim menos que aos maiores, guardada em tudo a sobriedade. Abstenham-se todos completamente de carnes de quadrúpedes, exceto os doentes demasiadamente fracos. CAPÍTULO 40 – Da medida da bebida Cada um recebe de Deus um dom particular, este de um modo, aquele de outro; por isso, é com algum escrúpulo que estabelecemos nós a medida para a alimentação de outros; no entanto, atendendo à necessidade dos fracos, achamos ser suficiente, para cada um, uma hêmina de vinho por dia. Aqueles, porém, aos quais Deus dá a força de tolerar a abstinência, saibam que receberão recompensa especial. Se a necessidade do lugar, o trabalho ou o rigor do verão exigir mais, fique ao arbítrio do superior, considerando em tudo que não sobrevenha saciedade ou embriaguez. Ainda que leiamos não ser absolutamente próprio dos monges fazer uso do vinho, como em nossos tempos disso não se podem persuadir os monges, ao menos convenhamos em que não bebamos até a saciedade, mas parcamente, porque “o vinho faz apostatar mesmo os sábios”. Onde, porém, a necessidade do lugar exigir que nem a referida medida se possa encontrar, mas muito menos ou absolutamente nada, bendigam a Deus os que ali vivem e não murmurem: antes de tudo exortamo-los a que vivam sem murmurações. CAPÍTULO 41 – A que horas convém fazer as refeições Da Santa Páscoa até Pentecostes, façam os irmãos a refeição à hora sexta e ceiem à tarde. A partir de Pentecostes, entretanto, por todo o verão, se os monges não têm os trabalhos dos campos ou não os perturba o excesso do verão, jejuem quarta e sexta-feira até a hora nona; nos demais dias jantem à hora sexta. Se tiverem trabalho nos campos ou se o rigor do verão for excessivo, o jantar deve ser mantido à hora sexta: ao Abade caiba tomar a providência. E, assim, que tempere e disponha tudo, de modo que as almas se salvem e que façam os irmãos, sem justa murmuração, o que têm de fazer. De 14 de setembro até o início da Quaresma façam a refeição sempre à hora nona. Durante a Quaresma, entretanto, até a Páscoa façam-na à hora de Vésperas. Sejam essas celebradas de tal modo, que os irmãos não precisem, à refeição, da luz de uma lâmpada, mas que tudo esteja terminado com a luz do dia. E mesmo em todas as épocas esteja tanto a hora da Ceia como a do jantar de tal modo disposta, que tudo se faça sob a luz do dia. CAPÍTULO 42 – Que ninguém fale depois das Completas Os monges devem, em todo tempo, esforçar-se por guardar o silêncio, mas principalmente nas horas da noite. Por isso, em qualquer época do ano, seja de jejum, seja a época em que há jantar; se for época em que há jantar, logo que se levantarem da refeição, sentem-se todos juntos e leia um deles as Colações ou as “Vidas dos Pais”, ou mesmo outra coisa que edifique os ouvintes; não, porém, o Heptateuco ou o livro dos Reis, porque não seria útil, às inteligências fracas, ouvir essas partes da Escritura, nesta hora; sejam lidas, porém, em outras horas. Se, entretanto, for dia de jejum, recitadas as Vésperas, depois de pequeno intervalo, dirijam-se logo para a leitura das Colações, conforme dissemos; e, lidas quatro ou cinco folhas ou quanto a hora permitir, reúnam-se todos os que vão chegando no decorrer da leitura, isto no caso de alguém ter ficado ocupado em ofício que lhe fora confiado. Estando, pois, todos juntos, recitem as Completas; saindo das Completas, não haja mais licença para ninguém falar o que quer que seja. Se alguém for encontrado transgredindo esta regra do silêncio, seja submetido a severo castigo; exceto se sobrevier alguma necessidade da parte dos hóspedes ou se, por acaso, o Abade ordenar alguma coisa a alguém. Mas mesmo isso seja feito com suma gravidade e honestíssima moderação. CAPÍTULO 43 – Dos que chegam tarde ao Ofício Divino ou à mesa Na hora do Ofício Divino, logo que for ouvido o sinal, deixando tudo que estiver nas mãos, corra-se com toda a pressa, mas com gravidade, para que a escurrilidade não encontre incentivo. Portanto nada se anteponha ao Ofício Divino. Se alguém chegar às Vigílias noturnas depois do “Glória” do salmo nonagésimo quarto, que, por isso, queremos que seja dito de modo muito prolongado e vagarosamente, não fique no lugar de sua ordem no coro, mas no último de todos ou em lugar à parte determinado pelo Abade para tais negligentes, a fim de que sejam vistos por ele e por todos; até que, terminado o Ofício Divino, faça penitência por pública satisfação. Se achamos que devem ficar no último lugar ou em lugar separado, é para que, vistos por todos, ao menos, pela própria vergonha, se emendem. Pois se permanecessem fora do oratório, haveria talvez algum que ou se acomodaria novamente e dormiria, ou então se assentaria do lado de fora, ou se entregaria a conversas e daria ocasião ao maligno; entrem, pois, no recinto para que nem tudo percam e daí por diante, se emendem. Nas Horas diurnas, o que ainda não tiver chegado ao Ofício Divino depois do versículo e do “Glória” do primeiro salmo que se diz depois do referido versículo, fique no último lugar, conforme a lei que estabelecemos acima: nem presuma associar-se ao coro dos que salmodiam, até que tenha feito satisfação, a não ser que o Abade, pelo seu perdão, dê licença, mas, ainda assim, que o culpado satisfaça por essa falta. Quanto à mesa, quem não tiver chegado antes do versículo, de modo que todos digam o versículo e orem juntos e se sentem ao mesmo tempo à mesa – quem não tiver chegado a tempo, por negligência ou culpa, seja castigado por este motivo até duas vezes; se de novo não se emendar, não lhe seja permitida a participação à mesa comum, mas faça a refeição a sós, separado do consórcio de todos, sendo-lhe tirada a porção de vinho, até que tenha feito satisfação, e se tenha emendado. Seja tratado da mesma forma quem não estiver presente ao versículo que se diz depois da refeição. E ninguém presuma servir-se de algum alimento ou bebida antes ou depois da hora estabelecida. Mas quanto àquele que não quis aceitar alguma coisa que lhe tenha sido oferecida pelo superior, na hora em que desejar aquilo que antes recusou ou outra coisa qualquer, absolutamente nada receba, até conveniente emenda. CAPÍTULO 44 – Como devem fazer satisfação os que tiverem sido excomungados Aquele que por culpas graves tiver sido excomungado do oratório e da mesa, na hora em que no oratório se termina o Ofício Divino, permaneça prostrado diante das portas do oratório, sem nada dizer, com o rosto em terra, estendido e inclinado aos pés de todos os que saem do oratório. E faça isso por tanto tempo, até julgar o Abade que já está feita a satisfação. Quando vier a ordem do Abade, lance-se aos pés do mesmo Abade e depois aos de todos, para que rezem por ele. E, então, se o Abade mandar, seja recebido no coro, no lugar de ordem que o Abade determinar; mas de tal modo que não presuma entoar, no oratório, salmo ou lição ou o que quer que seja, sem que, de novo o Abade ordene. E em todas as Horas, ao terminar o Ofício Divino, prostre-se por terra, no lugar onde estiver; e assim dê satisfação até que, de novo, lhe ordene o Abade que cesse daí por diante essa satisfação. Aqueles que, por culpas leves, são excomungados apenas da mesa, façam satisfação no oratório, até a ordem do Abade. Façam-na até que o Abade os abençoe e diga: Basta. CAPÍTULO 45  – Dos que erram no oratório Se alguém errar quando recitar um salmo, responsório, antífona ou lição, e se não se humilhar, ali mesmo, diante de todos por uma satisfação, sofra castigo maior, de vez que não quis corrigir, pela humildade, a falta que cometeu por negligência. As crianças por tal falta recebam pancadas. CAPÍTULO 46 – Daqueles que cometem faltas em quaisquer outras coisas Se alguém, ocupado em qualquer trabalho na cozinha, no celeiro, no cumprimento de uma ordem, na padaria, na horta, enquanto trabalha em algum ofício e em qualquer lugar que seja, cometer alguma falta, quebrar ou perder qualquer coisa, ou exceder-se em qualquer lugar e não vier imediatamente, diante do abade e da comunidade, espontaneamente, satisfazer e revelar o seu delito, quando a culpa for conhecida por outro, seja submetido a maior castigo. Mas, se a causa de seu pecado estiver escondida na alma, manifeste-o somente ao abade ou aos conselheiros espirituais, a alguém que saiba curar as próprias chagas e as dos outros e não as revela e conta em público. CAPÍTULO 47 – Como deve ser dado o sinal para o Ofício Divino Esteja ao cuidado do Abade o dever de anunciar a hora do Ofício Divino, de dia e de noite; ele próprio dê o sinal ou então encarregue desse cuidado a um irmão de tal modo solícito, que todas as coisas se realizem nas horas competentes. Entoem os salmos e antífonas, depois do Abade, na respectiva ordem, aqueles aos quais for ordenado. Não presuma cantar ou ler, a não ser quem pode desempenhar esse ofício de modo que se edifiquem os ouvintes; e seja feito com humildade, gravidade e tremor por quem o Abade tiver mandado. CAPÍTULO 48 – Do trabalho manual cotidiano A ociosidade é inimiga da alma; por isso, em certas horas devem ocupar-se os irmãos com o trabalho manual, e em outras horas com a leitura espiritual. Pela seguinte disposição, cremos poder ordenar os tempos dessas duas ocupações: isto é, que da Páscoa até o dia 14 de setembro, saindo os irmãos pela manhã, trabalhem da primeira hora até cerca da quarta, naquilo que for necessário. Da hora quarta até mais ou menos o princípio da hora sexta, entreguem-se à leitura. Depois da sexta, levantando-se da mesa, repousem em seus leitos com todo o silêncio; se acaso alguém quiser ler, leia para si, de modo que não incomode a outro. Celebre-se a Noa mais cedo, pelo fim da oitava hora, e de novo trabalhem no que for preciso fazer até a tarde. Se, porém, a necessidade do lugar ou a pobreza exigirem que se ocupem, pessoalmente, em colher os produtos da terra, não se entristeçam por isso, porque então são verdadeiros monges se vivem do trabalho de suas mãos, como também os nossos Pais e os Apóstolos. Tudo, porém, se faça comedidamente por causa dos fracos. De 14 de setembro até o início da Quaresma, entreguem-se à leitura até o fim da hora segunda, no fim da qual se celebre a Terça; e até a hora nona trabalhem todos nos afazeres que lhes forem designados. Dado o primeiro sinal da nona hora, deixem todos os seus respectivos trabalhos e preparem-se para quando tocar o sinal. Depois da refeição, entreguem-se às suas leituras ou aos salmos. Nos dias da Quaresma, porém, da manhã até o fim da hora terceira, entreguem-se às suas leituras, e até o fim da décima hora trabalhem no que lhes for designado. Nesses dias de Quaresma, recebam todos respectivamente livros da biblioteca e leiam-nos pela ordem e por inteiro; esses livros são distribuídos no início da Quaresma. Antes de tudo, porém, designem-se um ou dois dos mais velhos, os quais circulem no mosteiro nas horas em que os irmãos se entregam à leitura e verão se não há, por acaso, algum irmão tomado de acédia, que se entrega ao ócio ou às conversas, e não está aplicado à leitura e não somente é inútil a si próprio como também distrai os outros. Se um tal for encontrado, o que não aconteça, seja castigado primeira e segunda vez: se não se emendar, seja submetido à correção regular de tal modo que os demais temam. Que um irmão não se junte a outro em horas inconvenientes. Também no domingo, entreguem-se todos à leitura, menos aqueles que foram designados para os diversos ofícios. Se, entretanto, alguém for tão negligente ou relaxado, que não queira ou não possa meditar ou ler, determine-se-lhe um trabalho que possa fazer, para que não fique à toa. Aos irmãos enfermos ou delicados designe-se um trabalho ou ofício, de tal sorte que não fiquem ociosos nem sejam oprimidos ou afugentados pela violência do trabalho; a fraqueza desses deve ser levada em consideração pelo Abade. CAPÍTULO 49 – Da observância da Quaresma Se bem que a vida do monge deva ser, em todo tempo, uma observância de Quaresma, como, porém, esta força é de poucos, por isso aconselhamos os monges a guardarem, com toda a pureza, a sua vida nesses dias de Quaresma e também a apagarem, nesses santos dias, todas as negligências dos outros tempos. E isso será feito dignamente, se nos preservamos de todos os vícios e nos entregamos à oração com lágrimas, à leitura, à compunção do coração e à abstinência. Acrescentemos, portanto, nesses dias, alguma coisa ao encargo habitual da nossa servidão: orações especiais, abstinência de comida e bebida; e assim ofereça cada um a Deus, de espontânea vontade, com a alegria do Espírito Santo, alguma coisa além da medida estabelecida para si; isto é: subtraia ao seu corpo algo da comida, da bebida, do sono, da conversa, da escurrilidade, e, na alegria do desejo espiritual, espere a Santa Páscoa. Entretanto, mesmo aquilo que cada um oferece, sugira-o ao seu Abade, e seja realizado com a oração e a vontade dele, pois o que é feito sem a permissão do pai espiritual será reputado como presunção e vanglória e não como digno de recompensa. Portanto, tudo deve ser feito com a vontade do Abade. CAPÍTULO 50 – Dos irmãos que trabalham longe do oratório ou estão em viagem Os irmãos que se encontram em um trabalho tão distante que não podem acorrer na devida hora ao oratório, e tendo o Abade ponderado que assim é, celebrem o Ofício Divino ali mesmo onde trabalham, dobrando os joelhos, com temor divino. Da mesma forma, os que são mandados em viagem não deixem passar as horas estabelecidas, mas celebrem-nas consigo mesmos, como podem e não negligenciem cumprir com o encargo de sua servidão. CAPÍTULO 51 – Dos irmãos que partem para não muito longe Não presuma comer fora o irmão que é mandado a um afazer qualquer e que é esperado no mosteiro no mesmo dia, ainda que seja instantemente convidado por qualquer pessoa; a não ser que, porventura, o Abade lhe tenha dado ordem para isso. Se proceder de outra forma, seja excomungado. CAPÍTULO 52 – Do oratório do mosteiro Que o oratório seja o que o nome indica, nem se faça ou se guarde ali coisa alguma que lhe seja alheio. Terminado o Ofício Divino, saiam todos com sumo silêncio e tenha-se reverência para com Deus; de modo que se acaso um irmão quiser rezar em particular, não seja impedido pela imoderação de outro. Se também outro, porventura, quiser rezar em silêncio, entre simplesmente e ore, não com voz clamorosa, mas com lágrimas e pureza de coração. Quem não procede desta maneira, não tenha, pois, permissão de, terminado o Ofício Divino, permanecer no oratório, como foi dito, para que outro não venha a ser perturbado. CAPÍTULO 53 – Da recepção dos hóspedes Todos os hóspedes que chegarem ao mosteiro sejam recebidos como o Cristo, pois Ele próprio irá dizer: “Fui hóspede e me recebestes”. E se dispense a todos a devida honra, principalmente aos irmãos na fé e aos peregrinos. Logo que um hóspede for anunciado, corra-lhe ao encontro o superior ou os irmãos, com toda a solicitude da caridade; primeiro, rezem em comum e assim se associem na paz. Não seja oferecido esse ósculo da paz sem que, antes, tenha havido a oração, por causa das ilusões diabólicas. Nessa mesma saudação mostre-se toda a humildade. Em todos os hóspedes que chegam e que saem, adore-se, com a cabeça inclinada ou com todo o corpo prostrado por terra, o Cristo que é recebido na pessoa deles. Recebidos os hóspedes, sejam conduzidos para a oração e depois sente-se com eles o superior ou quem esse ordenar. Leia-se diante do hóspede a lei divina para que se edifique e depois disso apresente-se-lhe um tratamento cheio de humanidade. Seja o jejum rompido pelo superior por causa dos hóspedes; a não ser que se trate de um dos dias principais de jejum, que não se possa violar; mas os irmãos continuem a observar as normas de jejum. Que o Abade sirva a água para as mãos dos hóspedes; lave o Abade, bem assim como toda a comunidade, os pés de todos os hóspedes; depois de lavá-los, digam o versículo: “Recebemos, Senhor, vossa misericórdia no meio de vosso templo”. Mostre-se principalmente um cuidado solícito na recepção dos pobres e peregrinos, porque sobretudo na pessoa desses, Cristo é recebido; de resto o poder dos ricos, por si só, já exige que se lhes prestem honras. Seja a cozinha do Abade e dos hóspedes separada, de modo que os irmãos não sejam incomodados, com a chegada, em horas incertas, dos hóspedes, que nunca faltam no mosteiro. Entrem todos os anos para o trabalho dessa cozinha dois irmãos que desempenhem bem esse ofício. Sejam-lhes concedidos auxiliares quando precisarem, para que sirvam sem murmuração; e do mesmo modo, quando têm menos ocupação, deixem esse ofício, para trabalhar no que lhes for ordenado. E não só em relação a esses, mas em todos os ofícios do mosteiro, seja este o critério: se precisarem de auxiliares, sejam-lhes concedidos; por outro lado, quando estão livres, obedeçam ao que lhes for ordenado. Do mesmo modo, cuide do recinto reservado aos hóspedes um irmão cuja alma seja possuída pelo temor de Deus: haja ali leitos suficientemente arrumados e seja a casa de Deus sabiamente administrada por monges sábios. De modo algum se associe ou converse com os hóspedes quem não tiver recebido permissão: se encontrar ou vir algum deles, saúde-o humildemente, como dissemos, e, pedida a bênção, afaste-se, dizendo não lhe ser permitido conversar com os hóspedes. CAPÍTULO 54 – Se o monge deve receber cartas ou qualquer outra coisa Não seja permitido de modo algum o monge receber ou enviar a seus pais ou a qualquer pessoa ou um ao outro cartas, eulógias, ou quaisquer pequenos presentes, sem permissão do abade. E também, se alguma coisa lhe for enviada pelos seus pais, não presuma recebê-la sem que seja mostrada ao Abade. Se ordenar que a receba, esteja ainda no poder do Abade ordenar a quem a coisa deve ser dada: e não se entristeça o irmão a quem, porventura, a coisa fora enviada, a fim de não dar ocasião ao diabo. Quem presumir proceder de outra maneira, seja submetido à disciplina regular. CAPÍTULO 55  – Do vestuário e do calçado dos irmãos Sejam dadas vestes aos irmãos de acordo com as condições e temperatura dos lugares em que habitam porque, nas regiões frias, tem-se necessidade de mais, e nas quentes, de menos. Cabe ao Abade a consideração disso. Cremos, porém, que, para os lugares de temperatura mediana, aos monges são suficientes uma cogula e uma túnica para cada um: a cogula felpuda no inverno, fina ou mais usada no verão, e um escapulário para o trabalho; para os pés: meias e calçado. Não se preocupem os monges com a cor e qualidade de todas essas coisas, mas sejam as que se puderem encontrar no lugar onde moram e as que puderem ser adquiridas mais barato. Providencie o Abade a respeito da medida, para que estas vestes não fiquem curtas para quem as usa, mas de boa medida. Os que recebem novas entreguem sempre, ao mesmo tempo, as velhas, que devem ser recolocadas na rouparia, para os pobres. Basta ao monge possuir duas túnicas e duas cogulas, para a noite e para poder lavá-las; o que houver a mais é supérfluo e deve ser cortado. E devolvam também os calçados e tudo o que está velho, quando recebem os novos. Os que são mandados em viagem recebam calças, da rouparia, e devolvam-nas lavadas, ao mesmo lugar, quando voltarem. Suas cogulas e túnicas sejam um pouco melhores que as de costume; recebam-nas da rouparia e, voltando, restituam-nas. Como peças que guarnecem o leito, bastam uma esteira, uma colcha, um cobertor e um travesseiro. Esses leitos devem ser freqüentemente revistados pelo Abade para que não haja ali coisas particulares. E aquele com quem for encontrada alguma coisa que não recebeu do Abade, seja submetido a pesadíssimo castigo. E para que este vício da propriedade seja amputado pela raiz, seja dado pelo Abade tudo o que é necessário. isto é: cogula, túnica, meias, calçado, cinto, faca, estilete, agulha, lenço, tabuinhas, para que se tire a todos a desculpa de necessidade. No entanto, considere sempre o Abade aquela sentença dos Atos dos Apóstolos que diz: “Era dado a cada um conforme precisava”. Assim, pois, considere o Abade as fraquezas dos que precisam e não a má vontade dos invejosos. Mas, em todas as suas decisões, pense na retribuição de Deus. CAPÍTULO 56 – Da mesa do Abade Tenha sempre o Abade a sua mesa com os hóspedes e peregrinos. Toda vez, porém, que não há hóspedes, esteja em seu poder chamar dentre os irmãos os que quiser; mas um ou dois dos mais velhos devem sempre ser deixados com os irmãos, por causa da disciplina. CAPÍTULO 57  – Dos artistas do mosteiro Se há artistas no mosteiro, que executem suas artes com toda a humildade, se o Abade o permitir. E se algum dentre eles se ensoberbece em vista do conhecimento que tem de sua arte, pois parece-lhe que com isso alguma vantagem traz ao mosteiro, que seja esse tal afastado de sua arte e não volte a ela a não ser que, depois de se ter humilhado, o Abade, porventura, lhe ordene de novo. Se, dentre os trabalhos dos artistas, alguma coisa deve ser vendida, cuidem aqueles por cujas mãos devem passar essas coisas de não ousar cometer alguma fraude. Lembrem-se de Ananias e Safira, para que a mesma morte que esses mereceram no corpo não venham a sofrer na alma aqueles e todos os que cometerem alguma fraude com os bens do mosteiro. Quanto aos próprios preços, que não se insinue o mal da avareza, mas venda-se sempre um pouco mais barato do que pode ser vendido pelos seculares, para que em tudo seja Deus glorificado. CAPÍTULO 58 – Da maneira de proceder à recepção dos irmãos Apresentando-se alguém para a vida monástica, não se lhe conceda fácil ingresso, mas, como diz o Apóstolo: “Provai os espíritos, se são de Deus”. Portanto, se aquele que vem, perseverar batendo à porta e se depois de quatro ou cinco dias, sendo-lhe feitas injúrias e dificuldade para entrar, parece suportar pacientemente e persistir no seu pedido conceda-se-lhe o ingresso, e permaneça alguns dias na cela dos hóspedes. Fique, depois, na cela dos noviços, onde esses se exercitam, comem e dormem. Seja designado para eles um dos mais velhos, que seja apto a obter o progresso das almas e que se dedique a eles com todo o interesse. Que haja solicitude em ver se procura verdadeiramente a Deus, se é solícito para com o Ofício Divino, a obediência e os opróbrios. Sejam-lhe dadas a conhecer, previamente, todas as coisas duras e ásperas pelas quais se vai a Deus. Se prometer a perseverança na sua estabilidade, depois de decorridos dois meses, leia-se-lhe por inteiro esta Regra, e diga-se-lhe: Eis a lei sob a qual queres militar: se podes observá-la entra; mas se não podes, sai livremente. Se ainda ficar, seja então conduzido à referida cela dos noviços e seja de novo provado, em toda paciência. Passados seis meses, leia-se-lhe a Regra, a fim que saiba para o que ingressa. Se ainda permanece, depois de quatro meses, releia-se-lhe novamente a mesma Regra. E se, tendo deliberado consigo mesmo, prometer guardar todas as coisas e observar tudo quanto lhe for ordenado, seja então recebido na comunidade, sabendo estar estabelecido, pela lei da Regra, que a partir daquele dia não lhe é mais lícito sair do mosteiro, nem retirar o pescoço ao jugo da Regra, a qual lhe foi permitido recusar ou aceitar por tão demorada deliberação. No oratório, diante de todos, prometa o que vai ser recebido a sua estabilidade e conversação de seus costumes, e a obediência, diante de Deus e de seus Santos, a fim de que, se alguma vez proceder de outro modo, saiba que será condenado por aquele de quem zomba. Desta sua promessa faça uma petição no nome dos Santos cujas relíquias aí estão e do Abade presente. Escreva tal petição com sua própria mão; ou então, se não souber escrever, escreva outro rogado por ele, e que o noviço faça um sinal e a coloque com sua própria mão sobre o altar. Quando a tiver colocado, comece logo o seguinte versículo: “Suscipe me, Domine, secundum eloquium tuum et vivam, et non confundas me ab expectatione mea”. Responda toda a comunidade este versículo, por três vezes, acrescentando: “Gloria Patri”. Prosterna-se, então, o irmão noviço aos pés de cada um para que orem por ele; e já daquele dia em diante seja considerado na comunidade. Se possui quaisquer bens, ou os distribua antes aos pobres, ou, por solene doação, os confira ao mosteiro, nada reservando para si de todas essas coisas: pois sabe que, deste dia em diante, nem sobre o próprio corpo terá poder. Portanto, seja logo no oratório despojado das roupas seculares com que está vestido, e seja vestido com as roupas do mosteiro. As vestes que despiu sejam colocadas na rouparia, onde devem ser conservadas, para que, se algum dia, por persuasão do demônio, consentir em sair do mosteiro – que isso não aconteça! – seja expulso, despido das roupas do mosteiro. Não lhe seja entregue, porém, aquela sua petição que o Abade tirou de cima do altar, mas fique guardada no mosteiro. CAPÍTULO 59 – Dos filhos dos nobres ou dos pobres que são oferecidos Se porventura, algum nobre oferece o seu filho a Deus no mosteiro, se o jovem é de menor idade façam os seus pais a petição de que falamos acima; e envolvam na toalha do altar essa petição e a mão do menino junto com a oblação, e assim o ofereçam. Prometam na presente petição, sob juramento, que nunca, por si, nem por pessoa interposta, lhe dão coisa alguma, em qualquer tempo, nem lhe proporcionam ocasião de possuir; ou então, se não quiserem fazer isso e, como esmola, desejam oferecer ao mosteiro alguma coisa para a própria recompensa, façam a doação das coisas que querem dar ao mosteiro, reservando o usufruto para si, se assim o desejarem. E dessa forma, todos os caminhos estarão impedidos, de modo que no menino nenhuma esperança permaneça, pela qual – que isso não aconteça – venha a ser enganado e possa perecer; eis o que aprendemos por experiência. Da mesma forma procedam os mais pobres. Aqueles porém, que absolutamente nada possuem, façam simplesmente a petição e ofereçam seu filho, com a sua oblação, diante de testemunhas. CAPÍTULO 60 – Dos sacerdotes que, porventura, quiserem habitar no mosteiro Se alguém da ordem dos sacerdotes pedir para ser recebido no mosteiro, não lhe seja concedido logo; mas, se persistir absolutamente nessa súplica, saiba que deverá observar toda a disciplina da Regra e não se lhe relaxará nada, de modo que lhe seja dito, como está escrito: “Amigo, a que vieste?”. Seja-lhe concedido, entretanto, colocar-se depois do Abade, dar a bênção e celebrar Missa, mas se o Abade mandar. Em caso contrário, não presuma fazer coisa alguma, sabendo que é súdito da disciplina regular; antes, dê a todos exemplos de maior humildade. E se, por acaso, no mosteiro surgir questão de preenchimento de cargo ou outro qualquer assunto, atente para o lugar da sua entrada no mosteiro e não para aquele que lhe foi concedido em reverência para com o sacerdócio. Se algum da ordem dos clérigos, pelo mesmo desejo, quiser associar-se ao mosteiro, sejam colocados em lugar mediano, mas desde que prometam, também eles, a observância da Regra e a própria estabilidade. CAPÍTULO 61 – Dos monges peregrinos como devem ser recebidos Se chegar algum monge peregrino de longínquas províncias e quiser habitar no mosteiro como hóspede, e mostra-se contente com o costume que encontrou neste lugar, e, porventura, não perturba o mosteiro com suas exigências supérfluas, mas simplesmente está contente com o que encontra, seja recebido por quanto tempo quiser. Se repreende ou faz ver alguma coisa razoavelmente e com a humildade da caridade, trate o Abade prudentemente desse caso, pois talvez por causa disto Deus o tenha enviado. Mas, se depois quiser firmar a sua estabilidade, não se rejeite tal desejo, máxime porque se pôde conhecer sua vida durante o tempo da hospedagem. Mas, se durante o tempo da hospedagem for julgado exigente em coisas supérfluas ou vicioso, não somente não deve ser associado ao corpo do mosteiro, como também lhe seja dito honestamente que se vá embora para que também outros não se viciem com sua miséria. Mas, se não for tal que mereça ser expulso, – não somente, se pedir para aderir à comunidade, seja ele recebido, mas também seja persuadido a ficar, para que outros sejam instruídos pelo seu exemplo e porque em todo lugar se serve a um só Senhor, milita-se sob um só Rei. E se o Abade julgar que o merece, seja-lhe lícito estabelecê-lo em lugar um pouco mais alto. Não só para um monge, mas também para os já referidos ordenados sacerdote e clérigos, pode o Abade estabelecer um lugar mais elevado que aquele em que ingressam, se achar ser digna de tal a vida deles. Cuide, porém, o Abade que nunca receba, para ficar, monge de outro mosteiro conhecido, sem o consentimento do respectivo Abade ou carta de recomendação, porque está escrito: “Aquilo que não queres que te seja feito, não o farás a outrem”. CAPÍTULO 62 – Dos sacerdotes do mosteiro Se o Abade quiser pedir que alguém seja ordenado presbítero ou diácono para si, escolha dentre os seus, quem seja digno de desempenhar o sacerdócio. Acautele-se o que tiver sido ordenado contra o orgulho ou soberba e não presuma fazer senão o que for mandado pelo Abade, sabendo que deverá submeter-se muito mais à disciplina regular. E não se esqueça, por causa do sacerdócio, da obediência e da disciplina da Regra, mas progrida mais e mais para Deus. Atente sempre para o lugar em que entrou no mosteiro, exceto no ofício do altar, mesmo que, pelo mérito de sua vida, o quiserem promover a escolha da comunidade e a vontade do Abade. Saiba, no entanto, observar de sua parte a Regra constituída para os Decanos e Priores. E se presumir proceder de outro modo, seja julgado não como sacerdote, mas como rebelde; e se, admoestado muitas vezes, não se corrigir, chame-se também o bispo em testemunho. Se nem assim se emendar, sendo claras as suas faltas, seja expulso do mosteiro, mas isso no caso de ser tal a sua contumácia, que não queira submeter-se ou obedecer à Regra. CAPÍTULO 63 – Da ordem na comunidade Conservem os monges no mosteiro a sua ordem, conforme o tempo que têm de vida monástica, o merecimento da vida e conforme o Abade constituir. Que o Abade não perturbe o rebanho que lhe foi confiado, nem usando como que de livre poder, disponha alguma coisa injustamente: mas lembre-se sempre de que deverá prestar contas a Deus de todos os seus juízos e obras. Portanto, segundo a ordem que ele tiver estabelecido ou que tiverem os irmãos, apresentem-se estes para a Paz, para a comunhão, para entoar os salmos, para estar no coro. Em qualquer lugar que seja, que a idade não distinga ou prejudique aquela ordem, porque Samuel e Daniel, meninos, julgaram anciãos. Portanto, exceto aqueles, que, como dissemos, com superior conselho, o Abade tiver posto à frente ou postergado por determinados motivos, todos os demais estejam segundo a ordem de ingresso, de modo que, por exemplo, aquele que chegar ao mosteiro na segunda hora do dia, se reconhecerá mais moço do que o que chegar na primeira hora do dia, seja qual for a idade ou dignidade; quanto aos meninos, seja a disciplina em tudo conservada por todos. Por isso, honrem os mais moços aos mais velhos que eles e os mais velhos amem aos irmãos mais moços: No próprio modo de chamar pelo nome, a ninguém seja permitido chamar o outro pelo simples nome, mas os mais velhos chamem aos mais moços pelo nome de irmãos e os mais moços chamem aos mais velhos de “nonos”, o que significa reverência paterna. O Abade, que se crê fazer as vezes do Cristo, seja chamado Senhor e Abade, não em virtude de sua própria atribuição, mas em honra e por amor a Cristo. Que ele pense nisso e se mostre de tal forma que seja digno de tal honra. Em qualquer lugar em que se encontrem os irmãos, peça o mais moço a bênção ao mais velho. Passando um mais velho, levante-se o mais moço e ceda-lhe o lugar, e não presuma o mais moço se assentar junto, a não ser que o convide o seu irmão mais velho, a fim de que se faça o que está escrito: “Antecipando-se mutuamente em honra”. Os meninos pequenos e adolescentes conservem com disciplina sua ordem no oratório e na mesa. Fora ou em qualquer lugar, sejam guardados e tenham disciplina até que atinjam a idade da compreensão. CAPÍTULO 64 – Da ordenação do Abade Na ordenação do Abade considere-se sempre a seguinte norma: seja constituído aquele que tiver sido eleito por toda a comunidade concorde no temor de Deus, ou, então, por uma parte, de conselho mais são, ainda que pequena. Aquele que deve ser ordenado seja eleito pelo mérito da vida e pela doutrina da sabedoria, ainda que seja o último na ordem da comunidade. E se toda a comunidade eleger, em conselho comum, o que não aconteça, uma pessoa conivente com seus vícios e estes vícios chegarem de algum modo ao conhecimento do bispo da diocese a que pertence o lugar, ou se tornarem evidentes para os Abades ou cristãos vizinhos, não permitam que prevaleça o consenso dos maus, mas constituam para a casa de Deus um dispensador digno, sabendo que por isso receberão a boa recompensa, se o fizerem castamente e com zelo divino; mas se, pelo contrário negligenciam, cometerão pecado. Pense sempre o Abade ordenado no ônus que recebeu e a quem deverá prestar contas da sua administração, e saiba convir-lhe mais servir que presidir. Deve ser, pois, douto na lei divina para que saiba e tenha de onde tirar as coisas novas e antigas; deve ser casto, sóbrio, misericordioso e faça prevalecer sempre a misericórdia sobre o julgamento, para que obtenha o mesmo para si. Odeie os vícios, ame os irmãos. Na própria correção proceda prudentemente e não com demasia, para que, enquanto quer raspar demais a ferrugem, não se quebre o vaso; e suspeite sempre da própria fragilidade, e lembre-se que não deve esmagar o caniço já rachado. Com isso não dizemos que permita que os vícios sejam nutridos, mas que os ampute prudentemente e com caridade, conforme vê que convém a cada um, como já dissemos; e se esforce por ser mais amado que temido. Não seja turbulento nem inquieto, não seja excessivo nem obstinado, nem ciumento, nem muito desconfiado, pois, nunca terá descanso; seja prudente e refletido nas suas ordens, e quer seja de Deus, quer do século o trabalho que ordenar, faça-o com discernimento e equilíbrio, lembrando-se da discrição do santo Jacó, quando diz: “Se fizer meus rebanhos trabalhar andando demais, morrerão todos num só dia”. Assumindo esse e outros testemunhos da discrição, mãe das virtudes, equilibre tudo de tal modo, que haja o que os fortes desejam e que os fracos não fujam; precipuamente, conserve em tudo a presente Regra para que, depois de ter bem administrado, ouça do Senhor o que disse ao bom servo que distribuiu o trigo a seus conservos no devido tempo: “Na verdade vos digo – diz – estabelece-o sobre todos os seus bens”. CAPÍTULO 65 – Do Prior do mosteiro Muitas vezes acontece que, pela ordenação do Prior, se originam graves escândalos nos mosteiros; quando existem alguns que, inchados por um maligno espírito de soberba e julgando-se segundos Abades, atribuindo a si mesmos um poder tirânico, nutrem escândalos e fazem dissenções nas comunidades principalmente naqueles lugares em que, pelo mesmo sacerdote ou pelos mesmos Abades que ordenam o Abade, é também ordenado o Prior. Facilmente se verifica o quanto isto é absurdo porque, desde o início da ordenação se lhe dá matéria para se orgulhar, enquanto os seus pensamentos lhe sugerem que está livre do poder de seu Abade: “porque és ordenado, também tu, pelos mesmos que o Abade”. Daí são suscitadas invejas, brigas, detrações, rivalidades, dissenções, desordens, pois, enquanto o Abade e o Prior sentem de maneira diferente, necessariamente, sob esta dissensão, perigam suas almas; os que lhes estão subordinados, enquanto adulam as partes, caminham para a perdição. O mal deste perigo recai, em primeiro lugar, sobre aqueles que se fizeram autores de tal desordem. Por isso achamos conveniente, para a defesa da paz e da caridade, que dependa do arbítrio do Abade a organização do seu mosteiro. E, se for possível, seja organizado por meio dos Decanos, como estabelecemos acima, todo o serviço do mosteiro, conforme dispuser o Abade; para que, sendo confiado a muitos um só não se ensoberbeça. E se o lugar o exige ou a comunidade pedir razoavelmente e com humildade, e o Abade julgar conveniente, ordene ele próprio, para si, o Prior, na pessoa de quem quer que, com o conselho dos irmãos tementes a Deus, tiver escolhido. Execute, pois, o Prior, com reverência, aquilo de que for encarregado pelo Abade, nada fazendo contra a vontade ou disposição do Abade; porque quanto mais elevado está acima dos outros, tanto mais solicitamente lhe cumpre observar os preceitos da Regra. Se este Prior for achado com vícios ou se ensoberbecer, enganado pelo orgulho, ou se se tornar desprezador comprovado da Santa Regra, seja admoestado por palavras até a quarta vez; se não se emendar, aplique-se-lhe a correção da disciplina regular. E se nem assim se corrigir, seja então expulso da ordem de Prior e coloque-se, em seu lugar, outro que seja digno. Se depois não permanecer quieto e obediente na comunidade, seja também expulso do mosteiro. Pense, no entanto, o Abade que deve dar contas a Deus de todos os seus juízos, para que não aconteça que a chama da inveja e do ciúme queime a sua alma. CAPÍTULO 66 – Dos porteiros do mosteiro Coloque-se à porta do mosteiro um ancião sábio que saiba receber e transmitir um recado e cuja maturidade não lhe permita vaguear. O porteiro deverá ter a cela junto à porta para que os que chegam o encontrem sempre presente e dele recebam resposta. Logo que alguém bater ou um pobre chamar, responda “Deo gratias” ou “Benedic” e, com toda a mansidão do temor de Deus, responda com presteza e com o fervor da caridade. Se o porteiro precisa de auxiliar, receba um irmão mais moço. Seja, porém, o mosteiro, se possível, construído de tal modo que todas as coisas necessárias, isto é, água, moinho, horta e os diversos ofícios, se exerçam dentro do mosteiro, para que não haja necessidade de os monges vaguearem fora, porque, de nenhum modo convém às suas almas. Queremos que esta Regra seja freqüentemente lida na comunidade para que nenhum irmão se escuse por ignorância. CAPÍTULO 67 – Dos irmãos mandados em viagem Os irmãos que vão partir em viagem recomendem-se às orações de todos os irmãos e do Abade; e sempre, na última oração do Ofício Divino, faça-se a comemoração de todos os ausentes. Os irmãos que voltam de viagem, no mesmo dia em que chegam, em todas as Horas canônicas, quando termina o Ofício Divino, prostrados no chão do oratório, peçam a todos a sua oração por causa dos excessos que, porventura, durante a viagem, se tenham nele insinuado, vendo ou ouvindo coisas más ou em conversas ociosas. E ninguém presuma relatar a outrem qualquer das coisas que tiver visto ou ouvido fora do mosteiro, pois é grande a destruição. E se alguém presumir fazê-lo, seja submetido ao castigo regular, da mesma forma quem presumir sair dos claustros do mosteiro ou ir a qualquer lugar, ou fazer qualquer coisa, por menor que seja, sem ordem do Abade. CAPÍTULO 68 – Se são ordenadas a um irmão coisas impossíveis Se a algum irmão são acaso ordenadas coisas pesadas ou impossíveis, que receba a ordem de quem manda com toda a mansidão e obediência. Se vê que o peso do ônus excede absolutamente a medida de suas forças, sugira paciente e oportunamente ao seu superior as causas de sua impossibilidade, não se enchendo de soberba, nem resistindo ou contradizendo. Se, depois de sua sugestão, a ordem do superior permanecer em sua determinação, saiba o súdito ser-lhe isso conveniente e, confiando pela caridade, no auxílio de Deus, obedeça. CAPÍTULO 69  – No mosteiro não presuma um defender o outro Deve-se tomar precaução para que no mosteiro não presuma um monge defender outro, seja por que motivo for, ou como que protegê-lo, mesmo se ligados por qualquer laço de consangüinidade. De modo algum seja isso presumido pelos monges, pois por este meio pode originar-se gravíssima ocasião de escândalos. Se alguém tiver transgredido isso, seja mais severamente punido. CAPÍTULO 70 – Não presuma alguém bater em outrem a próprio arbítrio Seja vedada no mosteiro toda ocasião de presunção, e determinamos que a ninguém seja lícito excomungar ou bater em qualquer dos seus irmãos, a não ser aquele a quem foi dado o poder pelo Abade. Que os transgressores sejam repreendidos diante de todos para que os demais tenham medo. A diligência da disciplina e guarda das crianças até quinze anos de idade caiba a todos, mas, também isso, com toda medida e inteligência. Quem de qualquer modo o presume, sem ordem do Abade, contra os que já são mais velhos, ou bater sem discrição mesmo nas crianças, seja submetido à disciplina regular, porque está escrito: “Não faças a outrem o que não queres que te façam”. CAPÍTULO 71 – Que sejam obedientes uns aos outros Não só ao Abade deve ser tributado por todos o bem da obediência, mas, da mesma forma, obedeçam também os irmãos uns aos outros, sabendo que por este caminho da obediência irão a Deus. Colocado, pois, antes de tudo o poder do Abade e dos superiores por ele constituídos, ao qual não permitimos que seja antepostos poderes particulares – quanto ao mais, que todos os mais moços obedeçam aos respectivos irmãos mais velhos, com toda a caridade e solicitude. Se se encontrar algum com espírito de contenção, que seja castigado. Se algum irmão, por qualquer motivo, ainda que mínimo, for repreendido, de qualquer modo pelo Abade ou por qualquer superior seu, ou se levemente sentir o ânimo de qualquer superior seu irado ou alterado contra si, ainda que pouco, logo, sem demora, permaneça prostrado em terra, a seus pés, fazendo satisfação, até que pela bênção esteja sanada aquela comoção. Se alguém não o quiser fazer, ou seja submetido a castigo corporal ou, se for contumaz, seja expulso do mosteiro. CAPÍTULO 72 – Do bom zelo que os monges devem ter Assim como há um zelo mau, de amargura, que separa de Deus e conduz ao inferno, assim também há o zelo bom, que separa dos vícios e conduz a Deus e à vida eterna. Exerçam, portanto, os monges este zelo com amor ferventíssimo isto é, antecipem-se uns aos outros em honra. Tolerem pacientissimamente suas fraquezas, quer do corpo quer do caráter; rivalizem em prestar mútua obediência; ninguém procure aquilo que julga útil para si, mas, principalmente, o que o é para o outro; ponham em ação castamente a caridade fraterna; temam a Deus com amor; amem ao seu Abade com sincera e humilde caridade; nada absolutamente anteponham a Cristo – que nos conduza juntos para a vida eterna. CAPÍTULO 73 – De que nem toda a observância da justiça se acha estabelecida nesta Regra Escrevemos esta Regra para demonstrar que os que a observamos nos mosteiros, temos alguma honestidade de costumes ou algum início de vida monástica. Além disso, para aquele que se apressa para a perfeição da vida monástica, há as doutrinas dos Santos Padres, cuja observância conduz o homem ao cume da perfeição. Que página, com efeito, ou que palavra de autoridade divina no Antigo e no Novo Testamento não é uma norma retíssima da vida humana? Ou que livros dos Santos Padres Católicos ressoam outra coisa senão o que nos faça chegar, por caminho direto, ao nosso Criador? E também as Colações dos Padres, as Instituições e suas Vidas, e também a Regra de nosso santo Pai Basílio, que outra coisa são senão instrumentos das virtudes dos monges que vivem bem e são obedientes? Mas para nós, relaxados, que vivemos mal e somos negligentes, são o rubor da confusão. Tu, pois, quem quer que sejas, que te apressas para a pátria celeste, realiza com o auxílio de Cristo esta mínima Regra de iniciação aqui escrita e, então, por fim, chegarás, com a proteção de Deus, aos maiores cumes da doutrina e das virtudes de que falamos acima. Amém. #DoutrinaMonástica

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