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- Um dia o povo Inglês acordou protestante
Por Gustavo Corção, publicado n’O Globo em 23-09-76 TRAGO AINDA HOJE, e ainda motivada pelo affaire Lefebvre uma interessante contribuição de Jean Dutourd publicada em France Soir, no qual a situação do Bispo francês é comparada à do bispo inglês John Fisher, único opositor de Henrique VIII que levou seu testemunho até o martírio. Eis o resumo daquela longa e dolorosa história: “Em 1535 John Fisher, bispo de Rochester, foi executado por ordem de Henrique VIII “defensor da fé”, porque, único entre os prelados ingleses, recusou a transformar a missa, que é a renovação do sacrifício da Cruz num simples “serviço de comunhão”. Em outras palavras, foi ele o único a se opor à protestantização da Igreja da Inglaterra. Protestantização que se estabeleceu sorrateiramente depois da morte do último obstáculo.” “O POVO vendo que as caras eram as mesmas julgou que a religião não mudara.” INTERROMPO JEAN DUTOURD para resumir seu texto num susto aplicável a toda a atualidade católica: amanhã ou depois o povo católico do mundo inteiro, na sua brutal e mole maioria acordará protestante, ou nem sequer acordará. A NOVA RELIGIÃO das Conferências Episcopais ou do Homem que se faz Deus, segundo a lógica interna da mudança perpétua, que os tolos tomam como manifestação de vitalidade quando, na verdade, são sinais de desmoronamento e de morte, essa nova religião em perpétuo devenir depressa atingirá as mais desordenadas formas de protestantismo, não conseguindo sequer manter as formas mais altas e tradicionais da Reforma. No ponto em que se acha o fenômeno, essa Igreja ainda reclama para si o Papa eleito na Religião Católica — um Papa diminuído pela colegialidade que já renunciou ao báculo e já se desfez da tiara. NÃO ESTAMOS EXAGERANDO, nem gracejando, mas observando três fatos de brutal objetividade: a troca do báculo, sinal de autoridade e de governo, por um bastão de peregrino, o desaparecimento da tiara em torno da qual se tecem as mais variadas suposições; e a hipertrofia das conferências episcopais, tudo isto converge para um sombrio prognóstico. TEILHARD DE CHARDIN lançou uma fórmula que não tem sentido nenhum na sua fenomenologia: “Tudo o que sobe converge”. Ao contrário, onde a lei da matéria se sobrepõe à do espírito, é mais acertado dizer que “tudo o que cai converge”. NO CASO VEMOS em todas as tendências da outra igreja uma convergência para baixo: uma naturalização do que era sobrenatural, de uma democratização do que era hierárquico, de uma protestantização do que era católico. E isto tudo se passa sem parecer acordar as consciências do povo adormecido. Amanhã ou depois, as Conferências Episcopais julgarão desnecessária a eleição de um novo Papa. Para que? Caberá aos católicos que permanecem católicos o encargo de restabelecer a continuidade interrompida. O affaire Lefebvre, terá servido para alertar as consciências dos bispos ainda católicos, ou se perderá na tempestade apocalíptica que já se anuncia. O autor do artigo publicado em France Soir continua nestes termos: “Quatrocentos anos mais tarde Fisher foi canonizado. Será que dentro de quatrocentos anos ou até antes D. Lefebvre não estará também canonizado?” “SEU CRIME é exatamente o mesmo que o de Fisher. Ainda não lhe cortaram a cabeça, mas não é impossível que este ancião morra de tristeza depois da decisão tomada pelo Papa. “TUDO É OBSCURO no “affaire” D. Lefebvre que parece mais uma escamoteação. Proibe-se D. Lefebvre de celebrar a missa, de administrar os sacramentos e de pregar.” “MAS POR QUE? Ninguém o esclarece. Será porque ele diz o Pai nosso e o Credo em latim, porque mantém a liturgia tradicional, prepara seminaristas como eram formados há apenas vinte anos atrás?” “NENHUM ATO de acusação foi publicado. Parece que lhe reclamam o não ter aceito as orientações do último Concílio, o qual aliás tinha explicitamente afirmado que não era “doutrinal”, mas “pastoral”. O crime de D. Lefebvre seria então o de se apegar à tradição de Santo Tomás de Aquino, e do Concilio de Trento sobre a qual a Igreja viveu mais de setecentos anos.” “O MÍNIMO QUE SE PODE DIZER desse papa é que é um personagem ondulante e diverso. Um dia declara as coisas mais santamente tradicionalista às quais todos os Lefebvre da cristandade poderiam subscrever; no outro dia afirma que ele mais do que ninguém tem o “culto do homem”. No século XIV, havia um papa e um anti-papa que se excomungavam mutuamente. Hoje tem-se por vezes a impressão que o papa e o anti-papa estão unidos na mesma pessoa, pelo modo com que a dita pessoa sopra o frio e o calor.” “SOMOS SEMPRE mais impiedosos com os irmãos ou parentes próximos. O papa que várias vezes recusou receber D. Lefebvre, que o condenou sem ouvi-lo, recebe acintosamente o Sr. Gromyko que é ateu, representa o Gulag e que pertence a um governo que há sessenta anos persegue os cristãos.” NÃO ACOMPANHO o paralelo traçado por Jean Dutourd, entre o caso Fisher e o caso Lefebvre, porque para imaginar a possibilidade de uma canonização é preciso, previamente confiar na continuidade da Igreja Católica Militante. Não me parece provável a canonização de Dom Lefebvre; mas parece-me certa a idéia de que, desde já, sua mansa e inabalável permanência seja no Céu festejada pela alegria dos santos e dos anjos. Hoje, sem atrevimento, talvez possamos dizer que haverá igual ou maior alegria no céu pelos justos que perseveram até o martírio embora sem efusão de sangue por falta de coragem dos seus perseguidores. #GustavoCorção
- Um Subsídio de T. A.
Por Gustavo Corção, publicado n’O Globo em 23-09-76 CHAMARAM-ME A ATENÇÃO para o artigo de Tristão de Athayde no JB, de 5ª feira última dia 16, no qual o colunista habitualmente moderado, tolerante, otimista e aberto parece especialmente encolerizado contra Dom Lefebvre. Reduzindo sua apreciação sobre o drama de consciência que impressiona o mundo inteiro. Tristão de Athayde desfecha sobre Dom Marcel Lefebvre quatro injúrias gravíssimas: rebelde, cismático, herético e fascista. Adiante acrescenta ainda o termo “integrista” à coleção de vitupérios atirados contra Dom Lefebvre. Disse eu que T. A. injuria o Bispo Francês que resiste ao Papa Paulo VI, e insiste em continuar sua missão anterior ao pontificado de Pio XII. Como, porém, T. A. não explica qual é a desobediência, qual é a heresia, e qual o ato que o separa da Igreja Católica, é mais exato dizer que T. A. atira contra a impressionante figura do Bispo francês, não injúrias moralmente configuradas, mas impropérios coléricos. Por que estará tão zangado Dr. Alceu, que poucos dias atrás declarara que a maior alegria de sua vida fora o alargamento ecumênico recentemente inventado? NÃO TENTAREI, E CREIO que nenhum de meus leitores me cobrará a explicação dos estados de espírito do colunista do J. B.; mas empenhado a fundo no drama que tortura as consciências católicas, e seguindo um método especial de análise histórica, não posso desdenhar a singularidade revelada que sinto debaixo do artigo de T. A. É em outra página sua, mais antiga, que encontro uma primeira explicação para o caso Lefebvre que realmente é hoje um vértice representativo de milhões de sofrimentos católicos. Não sei se o leitor já ouviu falar no livro Violência, Não de Alceu Amoroso Lima, Ed. Vozes. Nesse livro o autor escreve uma página sobre São Pio X que vale a pena reler, e que nos traz um subsídio valioso para melhor compreensão da atual crise que se concentra no caso Lefebvre. EIS A PÁGINA 204: “Fui reler ontem a encíclica Pacendi. (Encíclica de Pio X, 1907, contra os erros e abusos modernistas). Não pude continuar. Parece um documento escrito por um Torquemada! Comparar o que está ali escrito por um santo, e no entanto ressumando ódio, vingança, punições, terror, condenações, expulsões, o que há de mais tipicamente inquisitorial, é confrontar, com o que hoje escreve Paulo VI ou escrevia ontem João XXIII, é como mudar… de planeta!” (e por que não de… religião? perguntamos). “É um documento tipicamente da Igreja policial, sem a mais remota semelhança com o Evangelho, ou mesmo com o Antigo Testamento. É um código de torturas. É a disciplina da chibata, como se aplicava na nossa Marinha, antes de 1910. De cristianismo, nada, nada, nada.” “FIQUEI HORRORIZADO e tive de deixar de ler, para não extravasar no que estava escrevendo, então sim ser acusado de me insurgir contra um Papa, contra um Santo, contra a palavra da Igreja oficial e que continua de pé.” “NUNCA TINHA LIDO esta encíclica senão muito de passagem. Só então compreendi que entre 1907 e 1965 há um abismo na história da Igreja.” AQUI PROPONHO um retoque no abismo que “só então” T. A. viu cavado na história da Igreja. Refiro-me às datas, porque realmente até maio de 1954, data em que Pio XII solenissimamente canonizou o grande Papa Pio X, não havia tal abismo. Para ser mais exato apertemos o intervalo: até 1958 permanece o mesmo o “planeta” de João XXIII e sobretudo louco lembraria a idéia de dizer do novo grande Santo, o que T. A. agora nos proporcionou. O FATO IMPORTANTÍSSIMO, para cuja evidência, nos servimos das reações e dos precipitados de T. A., é o abismo que se cavou entre a Igreja de São Pio X, Bento XV, Pio XI, Pio XII, de um lado… e o “planeta” de João XXIII e sobretudo Paulo VI de outro. O QUE REALMENTE revela esse abismo, anterior ao caso Lefebvre, é o fenômeno consubstanciado no artigo de T. A. como mais tarde o escândalo do Primaz da Bahia na loja maçônica e como tantos outros. A. PUBLICA NESTA PÁGINA a consciência deste abismo no que estamos de acordo. A única coisa infinita que nos separa é a preferência dos bordos de abismo. O colunista T. A., líder católico nos tempos de Dom Leme, hoje recusa com evidente horror o lado da Igreja que, de Pio XII emenda em São Pio X, São Pio V, e em toda a tradição católica caracterizada pelo zelo amoroso com que defendia o Depósito, e pela força da Fé com que daria a vida para guardar a integridade virginal da Santa Igreja. Nós outros, ao contrário, recusamos o outro lado do abismo onde estão os numerosos levitas que se entregaram a todas as cessões em nome de novos princípios teológicos que imputamos falsos e ímpios, como todos os santos papas e santos doutores da Igreja nos ensinaram, como os santos mártires pelo exemplo do Sangue nos mostraram. E a quem nos quiser impor como obrigatória a escolha do outro bordo do abismo, diremos nom nossumus. E a quem insistir na idéia de que, em tais circunstâncias devemos estrita obediência a Paulo ou Pedro, lembraremos o que Jesus disse a Simão Pedro, na estrada da Cesaréa, quando esse primeiro Papa quis ter idéias de sua própria criatividade. O CASO DE MONSENHOR LEFEBVRE difere do caso geral de milhões de consciências católicas pelo maior vulto da obra e do personagem nele envolvido. Em essência, o que ele quer, e não pode deixar de querer, é permanecer na Religião que desde Pio XII a Nosso Senhor Jesus Cristo não apresenta abismos de descontinuidades nas mais diferentes mudanças culturais. #GustavoCorção
- Mundo, Mundo….
Por Gustavo Corção, publicado n’O Globo em 23-04-77 ENTRE OS BELOS CANTOS Eucarísticos do grande poeta místico que foi Santo Tomás de Aquino, vêm-nos à memória estes versos “Solum expertum potest scire quid sit Jesum diligere“. TRADUZIMOS, SEM SABERMOS TRADUZIR o sabor original: “Somente aqueles que o experimentaram podem saber o que seja o amor de Jesus”. Ou, “somente os que por experiência sabem…” TODOS OS MESTRES MÍSTICOS ensinaram que a contemplação infusa é uma “quase experiência de Deus”. Por que “quase?” Este termo que parece restritivo, e, portanto, impróprio para definir a mais alta de todas as aventuras da alma humana, a subida do Carmelo ou do Calvário, nas pegadas de um Deus que por nós se deixou crucificar. E por isso mesmo, aliás, que nunca poderemos encontrar termos próprios para exprimir a sobrenatural aventura. A linguagem dos místicos inevitavelmente hiperbólica, antitética e metafórica; e é aqui, mais do que na poesia, que se aplica o que disse Rimbaud: que tentava dizer o indizível. NO CASO EM QUESTÃO, Santo Tomás ousa empregar o termo “experimentar” quando canta, mas seus discípulos, quando tentam explicar o canto de amor em linguagem especulativa, recuam diante do tempo que traz sobre si uma pesada carga de conotações empíricas e carnais. E até ensinam que na subida do caminho da perfeição o desejo de experiências sensíveis, sejam elas embora feitas do mais piedoso afeto, constituem pedras de tropeço, e até às vezes atrasos e retrocessos, porque nelas a alma se demora e se compraz no sabor e nas consolações de tal afeto. Ora, não foi este o exemplo que Jesus nos deixou na subida do Calvário. A subida mística só se fará se deixarmos para trás o lastro de terra e de carne, e se, corajosamente, aceitarmos a purificação da noite dos sentidos. Daí se explica a reserva dos mestres quando falam mais na pauta especulativa do que naquela da “experiência” ou “superexperiência” vivida na união com Deus. * * * MAS AGORA, CAÍDO EM MIM de tais alturas que tanto desejara ter alcançado, e das quais só ouso falar com ciência de empréstimo e de desejo, imagino o leitor a interpelar-me: —A que vêm todas essas considerações em torno da experiência mística, e dos cantos eucarísticos de Santo Tomás, quando falávamos da agonia da Espanha, e esperávamos comentários das efervescências racionais em torno da denúncia em boa hora levantada por Dom Sigaud sobre a infiltração comunista na CNBB? * * * NA VERDADE, LEITOR, TUDO o que toca nossa Santa Religião tem aquela marca antitética da Cruz. O belo canto eucarístico de Santo Tomás nos veio por antítese da matéria ingrata que se impõe à nossa consciência como dever de testemunho. O fato é que daquele canto de amor (somente quem o provou sabe o sabor que tem o amor de Jesus) veio-nos, num contraste abismal, a idéia horrível da “experiência” que o mundo vem fazendo, e a cujas infinitas conseqüências o mundo dia a dia se entrega com uma apavorante submissão: a experiência do mal erigido em sistema, ou se quiserem, a experiência do ódio de Satã. É verdade que somente no inferno terão as almas perdidas a ciência mais exata do que seja o ódio de Satã. Mas o fato é que aqui, na terra, neste belo planeta azul que talvez seja o único habitado por seres racionais, capazes de louvar a Deus, e capazes de recusar seus dons, a humanidade já teve várias amostras daquele ódio, e várias vezes já assistiu ao espetáculo da maldade erigida em sistema, com bandeiras e hinos que traziam a tal sistema o luxo da glorificação. O mundo encheu-se de saber, de saborear os horrores de que recentemente foram capazes os nazistas em torno de uma Idéia; o mesmo mundo encheu-se de saber, de experimentar os horrores praticados pelos anarquistas e comunistas em torno de uma Idéia. HOUVE TEMPO EM QUE, com raríssimas exceções, o mundo inteiro julgou que Hitler e seus companheiros tinham atingido à máxima crueldade jamais praticada oficialmente e sistematicamente por um regime; atrás da aparatosa e triunfal crueldade do nazismo, seu cúmplice monstruoso esteve agachado, eclipsado, taciturno e ignorado. TENHO PARA MIM QUE TAIS maldades organizadas e coletivas ultrapassam as forças humanas e não são praticáveis sem a ajuda de Satã, não dispondo, porém de um meio de medir, em unidades satanométricas, o grau de satanismo em cada caso, não sei qual dos dois monstros foi em si mesmo o pior, mas hoje não hesito em declarar que, para o mundo, e para o desenrolar do século o comunismo foi e continua a ser a pior das experiências políticas feitas e ainda descaradamente proposta aos homens. Como se explica então que tão hedionda evidência não seja reconhecida universalmente? A razão de tal cegueira, que é cômica numa nação rica, forte e engenhosa, como os Estados Unidos, e que é trágica sem deixar de ser cômica nas hierarquias eclesiásticas, talvez esteja nos quatro ou cinco séculos de humanismo liberal, mais ou menos integral, que afastou de Deus uma humanidade voltada e fechada sobre si mesma. Ora, os homens que se afastam e se tornam insensíveis às “experiências” do amor de Deus, no mesmo passo se tornam insensíveis àquelas do Demônio: e por isso serão capazes de abrir os braços ao comunismo com o entusiasmo que se observa nas Conferências Episcopais, e são capazes de aplaudir o humanismo ateu com a ardorosa e declarada simpatia que, para nossa infinita tristeza, ficou registrada entre os pontos notáveis deste brilhante século em que os homens demonstraram tão extraordinária faculdade nas experiências dos átomos… E é em nome dessa Ciência que dia a dia se acelera a desintegração de um mundo que já foi cristão.
- Rio-me ou Choro?
Por Gustavo Corção, publicado n’O Globo em 1-12-77 NO ULTIMO número da revista chamada Pergunte e Responderemos seu principal e único redator, D. Estevão Bettencourt OSB aventurou-se a escrever sobre D. Marcel Lefebvre, Jean Madiran, e demais defensores da mesma boa causa. E aventurou-se a escrever contra Madiran e D. Lefebvre no mesmo artigo em que volta ao famoso Ponto 7 do novo missal, para defendê-lo. SE O LEITOR imaginou que nestas linhas eu correria a criticar e contestar tal artigo, enganou-se. Desde o início da leitura não senti nenhum desejo de responder ao responderemos de D. Estevão Bettencourt OSB por uma simples e límpida razão: ele está literalmente e rigorosamente abaixo da crítica. NOTE BEM, leitor, que é a própria seriedade da causa, de sua santa e infinita seriedade, que me impede de levar a sério este e outros números da revista onde D. Estevão costuma discorrer sobre todas as coisas discutidas e sabidas, como um atualizadíssimo Pico de Mirandola. E AGORA pondero: se não posso ou não devo levar a sério os artigos de D. Estevão, talvez possa aproveitar o ensejo que me oferece para um fugaz divertimento. Meses atrás Tristão de Athayde, numa página de entrevista sobre o caso de D. Lefebvre, manifestou saudades de meu humorismo. Eu também tenho saudades do riso que Rabelais saudavelmente recomendava: “Mieux est de ris que de larmes écrire, parce que rire est le propre de l’homme“. Creio que não vou ao cinema há mais de dez anos, e pelo que ouço dizer receio que jamais conseguiria rir no cinema de hoje como torci-me de rir, de rir a valer, na minha longínqua e ensolarada mocidade. E o próprio espetáculo do mundo, sempre generoso em seus disparates, é hoje mais lúgubre do que cômico. Todas as manhãs quando, depois do café, me sento no meu laboratório de análises de fezes, sinto cada dia mais opressiva a atmosfera que ainda devo respirar e as notícias que ainda devo engolir. Ouçamos, pois, a nostálgica reclamação de Tristão de Athayde, sigamos o enérgico conselho de Rabelais, e aproveitemos a oportunidade generosa que D. Estevão Bettencourt OSB nos oferece — e riamos, porque o riso é próprio do homem. Os religiosos e hierarcas da novíssima igreja diriam que o riso é um direito humano. * * * ESTRANHA COISA! A efervescência das recordações postas em movimento turbilhonante nos recantos da alma produz aproximações e saltos mais inopinados do que as associações de imagens e de idéias. Por que secretas afinidades, tendo começado pela macilenta e espectral magreza de D. Estevão Bettencourt OSB fui eu parar, sessenta anos atrás, no teatro Recreio a me torcer de rir diante da genial e inesquecível corpulência do português Chabi no segundo ato da peça Conde Barão? A pedido dos comensais interessados no dinheirão do novo rico que comprara castelo, títulos e antepassados, Chabi, isto e, o Conde Barão recitava O Melro de Guerra Junqueiro: “O melro eu conheci-o, Era negro, vibrante, luzidio. Logo de manhã cedo…” MAS TRAIDO pela memória, o Conde Barão intercalava aqui e ali alguns versos tirados de O Fiel, do mesmo Guerra Junqueiro, e dest’arte ora fazia o cão chilrear, ora fazia ladrar o pássaro. Terminada a genial declamação, rubro de modéstia o Conde Barão desculpou-se: — “Parece-me que andei a misturar um pouco o cão com o pássaro…” O moço louro de sessenta anos atrás fartou-se de rir, e durante muitos anos procurou decantar, destilar o bouquet do bom riso que está nos antípodas da moderna pornografia, e da moderníssima estupidez. Queria ainda hoje reviver o gostoso e salgado bom riso. * * * MAS AINDA não atinei com o nexo que me levou de D. Estevão Bettencourt OSB ao genial e corpulentíssimo Chabi de minha mocidade. Terá sido o esguio melro o traço de união? Ou, quem sabe, foi apenas o ritmo do anacoluto que imperativamente me dita esta frase inicial de uma lembrança já antiga e já fatigada: “D. Estevão, eu conheci-o.” E AQUI não misturarei lembranças de O Fiel, porque o D. Estevão, que há mais de quarenta anos conheço, nunca soube ladrar, como os cães mudos do profeta Isaías; e também porque em nossos espaçados desencontros nunca D. Estevão me deixou marcada lembrança que sugerisse o nome do cão de Guerra Junqueiro — Fiel. Ao contrário, estive sempre a reclamar dele alguma infidelidade. A MAIS ANTIGA dessas lembranças remonta a um dos anos quarenta. Naquele tempo Fábio Alves Ribeiro e eu dirigíamos a revista A Ordem, por designação do Doutor Alceu Amoroso Lima, presidente do Centro Dom Vital. Antes da Mediator Dei de Pio XII, Fábio e eu, modéstia à parte, já desconfiávamos do movimento litúrgico. Com a consciência prevenida e delicada, Fábio lia com atenção os artigos que nos vinham de fora. Uma tarde vejo-o chegar preocupado à sala de A Ordem, na Praça Quinze. E logo desabafou: tratava-se de um artigo de D. Estevão Bettencourt que Fábio julgava impublicável. Li-o e concordei com Fabio. Nesse artigo, logo na primeira página, D. Estevão dizia que antigamente os fiéis na igreja eram “eu’s” esparsos, mas hoje formavam um só “nós”. E daí por diante o austero monge beneditino massificava a assembleia dos fiéis num irrespirável comunitarismo. Coube-me a áspera incumbência de procurar. D. Estevão e tentar convencê-lo. Lá fui. No fundo da biblioteca do Mosteiro tive de reunir todas as espécies de coragem para enfrentar a espectral austeridade de D. Estevão. Curiosa cena! Quem acaso passasse e visse o neoconvertido, com pouco mais de dois anos de catecismo, curvado diante do austero religioso, imaginaria que o leigo lá estava a inclinar o ouvido às sábias palavras do monge. Ora, o infeliz e consternado leigo, depois de hora e meia de vãos esforços na tentativa de obter de D. Estevão uma atenuação de seu comunitarismo, em favor da inteireza das pessoas, lamentava-se de ser obrigado a manter sua decisão de não publicar o artigo. CONTAM QUE naquele tempo, se lhe caísse na cabeça uma pedra ou um jambo do claustro, D. Estevão dizia: _ Uma pedra (ou um jambo) caiu em nossa cabeça. NÃO TENDO sido nunca assíduo às concerebrações de D. Estevão, não sei até quando usou esse singular pluralismo de fiéis e de cabeças. Muito mais tarde, em 14 de fevereiro de 1971, recebi uma inacreditável carta de D. Estevão. Publicara eu na véspera um artigo intitulado “Casa de tolerância“, no qual, a propósito dos mil abusos praticados por bispos, sacerdotes e religiosos, expandi minha justa indignação na frase que facilmente viria à consciência de todos os católicos ofendidos na sua fé e no seu amor pela Igreja: “Eles hoje fazem da Casa de Deus uma casa de tolerância”. Ora, em sua espantosa carta D. Estevão me acusa indignado de ter escrito: “A casa de Deus é uma casa de tolerância”. E depois de haver descarrilado na leitura, isto é, depois de ter lido o que ninguém escreveu, se alonga em melífluas reprimendas e em injúrias. A menor que me dirigiu, sem saber o que dizia, era a de simonia. A seu ver eu escrevia assim para fazer sensação, para provocar escândalo e assim ganhar mais dinheiro! Tudo isto entremeado de frases suavíssimas que deveriam atestar sua elevadíssima caridade e suavíssima prudência. DEPOIS DE ALGUMA hesitação escrevi minha última carta a D. Estevão Bettencourt OSB em meia folha de papel: “Rio, 17/2/71 Estevão Bettencourt OSB, RECEBI SUA CARTA de 14 do corrente. Respondo: eu escrevi no meu artigo dia 13: “Eles fizeram da Casa de Deus uma casa de tolerância”. O senhor leu “A casa de Deus é uma casa de tolerância”. Ora, Jesus disse: “Eles fazem da Casa de meu Pai um covil de ladrões” (Luc. XIX, 46). O senhor deverá então dizer que Jesus disse: “A Casa de meu Pai é um covil de ladrões”. Tempus breve est. Ass. G.C.” EM PORTUGUÊS quero dizer que não posso levar a sério neto tenho tempo a perder com quem tão facilmente treslê. E concluo mais triste do que nunca. Decididamente os padres pós-conciliares não se prestam ao riso são mais lúgubres do que cômicos.
- Onde irá parar a Missa?
Por Gustavo Corção, publicado n’O Globo em 9-09-76 OUÇO este grito de espanto e de dor na leitura de um artigo do Ver. Pe. Auvray O.P., em página inteira do hebdomadário Carrefour de 14 de julho de 76, com o título francês mais conciso e sonoro do que nossa tradução: “Où va la messe?”. O PE. AUVRAY começa seu artigo pela descrição espantosa e assustadora da desordem a que chegou na França, na “fille ainé de l’Église”, a nova liturgia da missa. Nova? Velhíssima, porque já em processo de decomposição e anarquia. A reforma em 69 já se gloriava de possuir 4 cânones para a missa. Lembro-me bem do ar puerilmente otimista com que uma religiosa veio me comunicar essa novidade. Perguntei-lhe: – E o Sr. se alegra? ELE SORRIU ainda mais puerilmente. Meu Deus, como dói! Hoje, o pobre dominicano francês nos diz sem nenhum sinal de alegria “que já existem 103!! cânones apresentados em diferentes livros que se acham à venda à disposição do clero francês”. Além dessa amostra do desmoronamento da liturgia esses livros têm títulos sugestivos, como os seguintes: Franchir le Seuil = atravessar o limiar, com 34 sugestões para orações eucarísticas, numa das quais diz “atravessar o limiar das convenções e da linguagem autorizada quando as velhas pipas já não podem conter o vinho novo da criatividade”. Mais adiante o mesmo livro que sugere 34 novas fórmulas onde não se lê uma só vez a palavra “sacrifício” ou a palavra “pecado”, e a fórmula “oração pelos mortos”, em compensação apresenta-nos esta nova ação de graças: “Deus Trindade, Deus do Múltiplo, e de nossas diferenças, Deus de nossas liberdades (sic), bendito sejas de preferir o risco de nossas divisões à uniformidade de nossas palavras e de nossos gestos”. EM OUTRA COLETÂNEA de 19 novas orações eucarísticas intitulada “Sopra o vento”, o Pe. Auvray assinala a seguinte passagem: “este fascículo tem a finalidade de transcrever a expressão viva de uma comunidade cristã (…) não pretende nem imobilizar a expressão da oração em fórmulas nem ter a pretensão de usar uma linguagem universal. Essa comunidade de cristãos desejou apresentar esse livro a fim de ajudar outras comunidades a elaborar e a arriscar ter sua própria linguagem”. EM OUTRO REPOSITÓRIO, contendo 20 novas fórmulas, o Pe. Auvray assinala este comentário: “Createux de vie”, “Avec Toi”, “Um peuple debout”, “Tu te passiones pour la vie des hommes”, “Dieu qui fait bouilloner la vie”, “Un visage nouveau”, “Tu fait éclater la liberation”… E aqui atingimos o nível de depressão mental dos nossos “boffs” e dos bispos que os encorajam e os aplaudem. ABRO AQUI um parêntesis para uma digressão: fique o leitor atento a este sinal contido na palavra “liberação”. Ele é característico do terreno minado da Igreja do Homem que se faz Deus, isto é, da Igreja a serviço da maçonaria ou do comunismo. NÓS, CATÓLICOS, não temos nenhum ideal de “liberação”. Nossas palavras de ordem são purificação, santificação, salvação, e – ao contrário de um ideal de liberdade – nós desejamos como supremo bem a união com Deus, e a submissão de todos nossos desejos, de todos os nossos afetos, de todo o nosso entendimento à Sua santa vontade. Observe-se de passagem que o termo “liberação” empregado em bandeira de inspiração comunista constitui um atingimento máximo de todos os cinismos da história do planeta habitado. Léon Bloy diria que o planisfério da crapulice humana só por esta fórmula é ultrapassado. EM OUTRA coletânea chamada “Palavra e Pão” o colaborador de Carreffour encontra estes comentários no mesmo tom de acelerada perseguição do vento: dirigem-se aos jovens de 13 a 16 anos. “Attention! Não cometais a imprudência grave de dirigi-las a meninos de 12 anos, ou a mocinhas de 17!!” “PENSO QUE HAVERÁ interesse de se guardar a fórmula estável de anamnese (na véspera de sua morte…). Mas ter sempre literalmente a mesma fórmula seria no meu parecer pedagogicamente ruim: o ronronar adormece. Devemos então ressaltar os gestos tanto quanto as palavras” (pg. 40). “Num grupo de jovens todo o mundo concordou no seguinte: passar os pratos e os copinhos de uma ponta à outra da mesma e os que quisessem, comungariam” (pg. 59). NESTE FLORILÉGIO de variadas e progressivas fórmulas litúrgicas, os planisférios ultrapassados são os da impiedade e da estupidez. E não se diga que esses fenômenos são abusos acidentais lamentavelmente praticados por padres irresponsáveis e atrevidos. A coleção de aberrações litúrgicas apontadas a seguir pelo Pe. Auvray, e observadas hoje em toda a parte, não se explica pelos caprichos de insubordinados, explica-se antes pela conjunção de duas causas. A primeira é a “mentalidade contemporânea” marcada pela falsa idéia da prevalência do movimento sobre o ser, ou pela superstição do evolucionismo. Faltando numa civilização o primado do espiritual que tem na mentalidade católica o seu principal baluarte, a civilização poderá ainda algum tempo manter um progresso técnico e material, mas em pouco tempo se transformará num inferno terrestre habitado pelas mais desgraçadas criaturas. O ERRO AINDA MAIS GRAVE e mais funesto ocorrido neste século infeliz foi o da capitulação das hierarquias católicas diante dos erros da mentalidade contemporânea. Em vez de denunciá-los, de combatê-los as hierarquias se acomodaram, e se inebriaram com a idéia de terem descoberto uma espiritualidade que escapara à sagacidade da Igreja, de seus doutores e de seus santos. JÁ VIMOS que o Concílio Vaticano II se encerrou com a consagração de um erro monstruosamente contrário ao catolicismo, do qual resultou a clivagem, e a invenção de outra Igreja, a do homem que se basta. E mais tarde, na desastrosa composição do Novo Ordo, reaparece com assustador realce o claro enunciado dos falsos princípios que explicam o desmoronamento da religião e da missa. NO VOLUME Nuevas Normas de la Missa, organizado por J. Maria Martin Patino, A. Pardo A. Inesta y P. Farnes publicado pela B.A.C. lemos na “Constituition Apostólica Missalae Romanum”, logo às primeiras páginas, a afirmação de que o Nosso Missal se inspirada na idéia de se “acomodar à mentalidade contemporânea”, e mais adiante, página 19, lemos, com retrospectivo e inútil pavor: “Uma atenção particular foi dada às orações cujo número foi aumentado de modo que A NOVAS NECESSIDADES CORRESPONDAM FÓRMULAS NOVAS”. Caberia aqui a pergunta espantada: Que necessidades, depois de uma prova de resistência de vinte séculos? E AGORA PODEMOS responder ao nosso título: “Onde vai parar a Missa?”. Na “Igreja do Homem feito Deus”, ela obedecerá ao princípio que erige o desmoronamento progressivo em sistema. ESSE fenômeno não deve alarmar os católicos, porque ele não ocorre na Igreja do Verbo Encarnado onde a Missa rezada por Dom Marcel Lefebvre e por milhares de outros padres católicos no mundo inteiro permanece a mesma, está intacta e religiosamente definida. ESTAS SINGELAS considerações talvez ajudem os católicos que sinceramente amam a Santa Igreja a compreender que não há nenhuma desobediência nas missas rezadas por Dom Lefebvre: ele obedece ao Espírito de sua Igreja; os padres extravagantes citados pelo Pe. Auvray obedecem materialmente ao espírito que inspirou os falsos princípios. ENTRE ESSES DOIS EXTREMOS há a maioria dos vacilantes, dos tímidos, dos mornos, que obedecem materialmente a papéis marcados com o sinete do Vaticano, e ficam com a consciência em paz enquanto a Religião de Cristo sofre perseguição e as almas se perdem.
- Informativo sobre Ordenação Diaconal.
PAX Informamos que haverá em nosso mosteiro, nesse sábado, dia 12 de Setembro de 2020, Festa do Ssmo Nome de Maria, a Ordenação Diaconal do Sr. June Mark Ligan, do Seminário do Padre Chazal nas Filipinas, às 9h. Todos estão convidados. Aproveitamos para convidar também para a Ordenação Sacerdotal do mesmo clérigo, no dia 20/09, às 9h.
- Pelo Bem Comum – novo periódico do mosteiro
+ PAX Caros amigos e benfeitores, Com alegria anunciamos o nosso novo periódico bimestral “Pelo Bem Comum”. Trata-se de mais um esforço de nosso mosteiro para combater os erros atuais e conduzir os corações à Verdade. Desejamos oferecer textos de nossa autoria, bem como traduções inéditas de artigos importantes em defesa da fé católica. Para tanto, contamos desde já com suas orações e apoio. Ofereceremos nosso jornal de modo impresso ou por via eletrônica, conforme detalhamos abaixo. Assinatura – jornal impresso: por apenas R$ 10,00 por edição, você receberá a cada dois meses, pelos Correios, nosso jornal impresso. Assinatura – jornal eletrônico: por apenas R$6,00 por edição, você receberá a cada dois meses, em seu e-mail, nosso jornal no formato PDF. Segue anexa a primeira edição a título de amostra. Os interessados em assinar as próximas edições deverão entrar em contato através do e-mail pelobemcomum@hotmail.com, informando os dados pessoais e o tipo de assinatura desejada. Mosteiro da Santa Cruz – Nova Friburgo/RJ – Brasil Ut in omnibus glorificetur Deus Clique aqui para abrir o jornalzinho: Pelo Bem Comum #PeloBemComum
- Em Torno do Affaire Lefebvre
Por Gustavo Corção, publicado n’O Globo em 12-09-76 O MOSAICO de testemunhos reunidos pelo Jornal do Brasil em torno de Dom Marcel Lefebvre tem a originalidade de começar pelo depoimento de D. Avelar Brandão que assim mereceu especial destaque. Ouvi-o com toda a atenção. Logo de início, em tom grave de incontestável e ilibada autoridade, Dom Avelar Brandão nos diz: “é cedo para afirmar que a desobediência de Dom Marcel Lefebvre já signifique de fato um cisma, é na verdade um sintoma alarmante, um gesto incompreensível”. Pergunta D. Avelar Brandão: “Lefebvre é somente ele ou passou a ser um instrumento de outros que nada têm a ver com a Igreja?”. Na sua opinião, que Lefebvre possa ter amor ao latim e ao rito da missa anterior ao Concílio, bem assim tendências pessoais de conservadorismo político, entende-se, mas que suas convicções cheguem ao ponto de provocar uma rebelião, uma atitude formal de rejeição da autoridade do papa já não se pode admitir. A MIM, e certamente aos milhares de católicos que leram essas entrevistas, o que certamente parecerá mais difícil admitir e entender é a tranquilidade grave e pausada com que fala em rebelião e desobediência à autoridade do Papa o mesmíssimo personagem que três meses atrás, desobedecendo a mais de dois séculos e de não sei quantos papas, empurrado certamente por forças e interesses contrários aos da Igreja, participou de festividades maçônicas em Salvador. Para mais escandalizar as consciências católicas, Dom Avelar Brandão fez questão de mencionar na loja maçônica o nome do Papa Paulo VI; e fez questão de frisar as boas relações que mantém com o Sumo Pontífice. Como se viu, a seguir, não houve sinal nenhum de reprovação diante do escândalo, da desobediência, da ruptura ostensiva do Cardeal Primaz do Brasil com toda a tradição católica. UM OU DOIS ANOS ATRÁS dificilmente poderia contar a indignação e o fluxo de objetivos e advérbios que essa paixão da alma costuma produzir. HOJE, com o preço de muito estudo e muito sofrimento, creio ter compreendido melhor a largura, a altura e a profundidade do fenômeno que tanto aflige a consciência católica e a distância abismal que nos separa da “Igreja do homem que se faz Deus”. Hoje não me sinto indignado e envergonhado com o desembaraço de Dom Avelar Brandão diante da atitude de Dom Lefebvre. O quadro de valores em que Dom Avelar Brandão se sente à vontade na loja maçônica, e ainda mais à vontade no J.B. para criticar e qualificar severamente o apego de Dom Lefebvre à sua Igreja e à sua obra, é decididamente diverso daquele em que se movem todos os católicos que assistiam assustados ao desmoronamento da santa missa e das santas intransigências da Igreja, e agora assistem com começo de alento sinais de resistência católica, que por toda a parte surgem, e entre os quais Dom Lefebvre se destacou pela grandeza de sua obra, e por que não? Pela grandeza de sua figura de Bispo Católico que deve incomodar muita gente. SIM, são diversos os valores, os critérios, os sentimentos, os afetos, são diversas, para não dizer opostas, a religião do Verbo Incarnado, e a nova religião do Humanismo que tolera tudo, que tem aberturas para todas as aberrações de mentalidade contemporânea, mas só não pode suportar o que ainda lhes venha lembrar a religião dos santos, a religião de um Reino que não é deste mundo que abandonaram. Não há, portanto, o que estranhar nas reações de Dom Avelar Brandão e de Dom Evaristo Arns, cuja explicação é a mesma. O que eles dizem e fazem está na lógica da nova Igreja que ostensivamente se separou da tradição católica, e, portanto, da Igreja de Cristo. NO DEPOIMENTO DE D. EUGÊNIO SALES, as causas mais profundas da desobediência estão no orgulho. Concordamos inteiramente com este enunciado de conhecidíssima verdade, mas devemos lembrar que o amor-próprio, causa da raiz de todos os pecados, não é causa somente dos atos de desobediência; está também na raiz dos que não somente erram, mas perseveram no erro. E isto tanto pode ocorrer com o mais obscuro dos fiéis, como com os Bispos que persistem em erros graves, e por que não com o próprio Papa? ESTAMOS POIS no domínio das idéias gerais aplicáveis a todo o mundo, e não vejo como possa D. Eugênio Sales, à distância, sondar os rins e os corações para saber que o caso particular de Dom Lefebvre e de outros que lutem ardorosamente na defesa do depósito sagrado se expliquem sempre pelo orgulho. O QUE APRENDI com os doutores da Igreja leva-me a concluir, sem hesitação, que os princípios do novo humanismo propalados pelo Concílio são propagadores do orgulho, sob disfarce de exaltação dos valores humanos. Toda nossa civilização está marcada por esse veneno e a CNBB não faz outra coisa senão difundi-lo. Cabe aqui entretanto observar que a principal e mais grave manifestação do orgulho não se observa de homem para homem, ainda que um desses esteja investido de autoridade de direito divino, por cujo uso ou abuso deverá responder, não perante o próximo ou a História, como diz a Gaudium et Spes, 55, mas diante de Deus. MAIS ADIANTE, no seu depoimento, D. Eugênio Sales acrescenta, para procurar o meio termo do problema: “Cabe reconhecer também que a culpa não recai somente em Dom Lefebvre. Todos os que inovam abusivamente na liturgia, na disciplina e na doutrina, também ferem a unidade da Igreja. São seguidores dos princípios que norteiam esse bispo, embora em extremo campo oposto”. SE O EMINENTÍSSIMO CARDEAL Arcebispo do Rio de Janeiro me permite um modesto reparo a esta simetria, eu diria que os inovadores que levam a Missa à sua destruição, como no artigo da 5ª feira gritava o Pe. Auvray, não são desobedientes. São consequentes com os princípios introduzidos pelos reformados conciliares. Quem melhor os qualificou, a nosso ver, foi D. Ivo Lorscheider que, em entrevista concedida há cerca de dois meses declarou que o Papa Paulo VI dirige a Igreja no seu caminho para a frente, com serenidade, sem atender “à estagnação dos conservadores nem à impaciência dos contestadores”. ACHO MUITO FELIZ o termo achado por D. Ivo: “Impacientes” para designar aqueles que não esperam o sinal verde dos bispos ou conferências episcopais para se entregarem aos comunistas, ou para receberem condecorações em lojas maçônicas. Dom Ivo parece dizer-lhes: – Não sejais impacientes, que nós lá chegaremos. Porque a Igreja não pode ficar amarrada, como disse D. Avelar Brandão. E aí está o princípio esparso em toda a moderna civilização. O princípio que envenenou o Concílio. O princípio que Dom Lefebvre recusa. A Igreja foi fundada sobre pedra e não sobre rodas. E Jesus disse claramente: “Passarão o céu e a terra, mas minhas palavras não passarão”. E AGORA DR. ALCEU AMOROSO LIMA, duas palavras. Agradavelmente surpreendido com a menção de meu nome em suas colunas, e especialmente agradecido pelo interesse com que o Sr. Vem acompanhando meu declínio, leio sua declaração: “Gustavo Corção, meu amigo durante vinte anos, que perdeu o estilo e o humor. CONFESSO que o meu primeiro impulso foi o de soltar a frase de Cyrano de Bergerac: “C’est un peu court jaune homme”. A segunda tentação foi a de procurar na página do J.B., ou alhures, quem terá encontrado as prendas literárias que o escritor Gustavo Corção perdeu. PENSANDO MELHOR, achei nas declarações do doutor Alceu matéria de agradecimento, que é muito mais abundante neste vale de lágrimas do que às vezes parece, quando consentimos que a serpente do amor próprio nos dite a conduta e a palavra. Obrigado Dr. Alceu, obrigado pela lembrança da amizade de vinte anos, e pela bondade com que assinalou meu desgaste. Se em todo este inglório batalhar só perdi o estilo e o humor, louvado seja Deus, porque em verdade, nunca me passou pela idéia que todas essas tribulações devem ser suportadas para que na hora de Deus tivesse o direito de clamar: – Combati o bom combate, guardei o estilo e o humor.
- Ninguém é comunista…
Por Gustavo Corção, publicado n’O Globo em 21-05-77. NA SEMANA PASSADA os jornais retomaram o assunto desencadeado pelas denúncias energicamente formuladas pelo Arcebispo de Diamantina, Dom Geraldo Proença Sigaud, nos últimos dias de fevereiro p. p. A rigor não podemos dizer que Dom Sigaud revelou coisa que surpreenderam e assustaram os fiéis católicos de norte a sul do Brasil. Na verdade todos os brasileiros sabem exaustivamente o triste papel desempenhado pela Conferência dos Bispos e pelas Conferências Religiosas na infiltração comunista acelerada nos governos Juscelino Kubitschek e João Goulart, e em boa hora detida pelo movimento de Março de 64. PARECE ENTRETANTO que o Sr. Núncio Apostólico tem rigorosas instruções para dizer que ignora tudo o que os jornais escancaradamente publicam. No caso do escândalo acintosamente provocado por D. Avelar Brandão, na loja maçônica de Salvador, Sua Exma. Revdma. (refiro-me ao Núncio Apostólico) deu uma entrevista lacônica e reticente. No caso presente o Sr. Núncio telefonou para Dom Sigaud pedindo-lhe que não continuasse as entrevistas em que denunciava o Bispo Dom Pedro Casaldaliga, que já foi denunciado por nós e pelo Sr. Plínio Correa de Oliveira no documentadíssimo livro que publicou: “A Igreja ante a escalada da ameaça comunista. Apelo aos Bispos Silenciosos”. NÃO CONHECEMOS O INTEIRO TEOR dos telefonemas do Sr. Núncio, mas sabemos que Dom Sigaud prometeu enviar à Santa Sé farto documentário sobre o assunto, e que prometeu não voltar às entrevistas públicas até poder atender ao pedido de provas. Agora, em princípios de maio, D. Sigaud voltou ao assunto, e enviou a cada Bispo do Brasil uma carta reservada acompanhando o relatório que havia enviado ao Sr. Núncio a seu pedido. EU DISSE ATRÁS que as denúncias de Dom Sigaud, em fevereiro, não trouxeram nenhuma revelação sensacional porque todos nós já estamos tristemente enjoados de saber que bispos, religiosos e padres da Igreja pós-conciliar, na sua maioria, pendem para as esquerdas ou tomam posições francamente favoráveis à política dos países comunistas. Desde o Concílio, a maioria dos Padres recusou-se a aceitar a fórmula de reafirmação das posições e condenações de Pio XI e Pio XII contra o comunismo. No que concerne aos religiosos, foi especialmente escandalosa a participação dos dominicanos no caso que terminou com a morte do chefe comunista Marighela. As famílias que viram seus filhos e filhas transformados em comunistas e até em terroristas nos colégios católicos e nas universidades pontifícias, até hoje choram enquanto Dom Helder aplaude os jovens assassinos ou cúmplices, e os cardeais declaram na CNBB que não há comunistas no episcopado brasileiro. TUDO ISTO JÁ FOI DENUNCIADO por escritores leigos, mas a dimensão nova que Dom Sigaud trouxe ao deplorável consabido da opinião pública brasileira foi o fato de ser agora um Bispo, um Arcebispo, o acusador. Pela primeira vez um Bispo sentiu-se no dever, diante de Deus, de quebrar o silêncio da “unidade” de que se gabava a CNBB. Agora, Dom Sigaud prova que, se unidade existiu não foi de Fé, foi antes na conivência de um silêncio culposo, e o próprio Dom Pedro Casaldaliga, em outro tom e por motivos diversos, e até diria por motivos opostos ao de Dom Sigaud, denuncia com estridência a falsa unidade que classifica de hipócrita. MAS A CNBB, A DESPEITO das injúrias e dos pontapés de Dom Pedro Casaldaliga obstina-se em defendê-lo, e em tapar o sol com uma peneira. Em pronunciamento publicado, em 14 do corrente, em O GLOBO, o presidente da CNBB, que mais uma vez se enculcou como Chefe da Igreja no Brasil, faz declarações que pretendem desmentir Dom Sigaud: “Não existe bispo comunista no Brasil. Conheço bem todos eles, muitos desde quando eram padres, e posso garantir isso. Especialmente com relação a Dom Pedro Casaldaliga, que conheço há muito tempo. “O QUE EXISTE – continua Dom Aloísio – é que ele trabalha em uma região difícil, com muitos problemas. E as atitudes das pessoas têm que ser analisadas com base no meio em que elas atuam”. NA VERDADE, E SEM PRETENDER diminuir o mérito da denúncia de D. Sigaud que, para mim, culminou na lapidar frase que li, se não a tresli: “não tenho satisfações a dar à CNBB”, na verdade, estou inclinado a acreditar que nenhum dos bispos do Brasil, nenhum dos religiosos, nenhum padre seja realmente comunista ortodoxo, autêntico, e realmente disposto a dar a vida pela causa, e ainda mais disposto a dar a vida de milhões de inocentes. Tenho a penosíssima impressão de que nossos bispos de esquerda (ou de regiões difíceis), não são comunistas por incapacidade, serão subcomunistas, fingem que são, para serem alguma coisa. Caíram do alto, alto demais, para poderem ter ainda alguma coisa esborrachada. Mas o fato prático, incontestável, é que sendo ou não sendo, infectam ou corrompem, prestando assim serviço à causa que hoje mais nitidamente reclama a hegemonia de revolução que reduzirá a humanidade a um amontoado de loucos e degradados por mais de um milênio. JÁ EM TODO ESSE RUIDOSO debate espalhado em páginas inteiras dos jornais vê-se que a menor das preocupações de quase todos os bispos é a da salvação das almas com o Sangue que Nosso Senhor Jesus Cristo entregou à sua Santa Igreja para a conversão e a santificação das gentes. Na mesma entrevista publicada em O GLOBO de 14 do corrente, Dom Aloísio diz gravemente que o grande problema que hoje desafia a Igreja é o dos pobres e ricos. Ter ou não ter, eis a questão. Parece-nos ouvir este lema, em tom de escárnio, pronunciado pelo personagem que como tudo indica tomou o governo do Mundo, e da Igreja pós-conciliar de quebra. ATÉ QUANDO, meu Deus?
- SUPLEMENTO Nº 13
BREVES CONSIDERAÇÕES SOBRE O ARCEBISPO CARLO MARIA VIGANÒ O Arcebispo Carlo Maria Viganò, em um texto enviado ao blog Chiesa e post concílio, disse coisas muito importantes e que devem ser objeto de profundas considerações. Ainda que pese nele algo de liberal quanto à sua formação política e filosófica e certa ingenuidade quanto a Bento XVI, o que nos interessa aqui são as verdades que ele disse de maneira corajosa especialmente nesse texto. Ele inicia citando o Bispo auxiliar de Astana, no Cazaquistão, D. Athanasius Schneider, que discorria em um artigo sobre os erros do documento da Fraternidade Universal firmado pelo Papa Francisco e um imã em Abu Dhabi, Emirados Árabes, ano passado. Nesse terrível documento, afirma-se que Deus quis, em sua infinita sabedoria, a pluralidade das religiões como quis as de raça e sexo, afirmação que o Papa Francisco atribuiu à vontade permissiva de Deus. D. Schneider, no referido artigo demonstrou o erro dessa afirmação e não apenas isso, atribuiu a ela uma relação de causa e efeito entre o Concílio Vaticano II e esse documento. Viganò inicia de forma elogiosa a refutação de D. Schneider ao documento de Abu Dhabi, sem deixar de lhe corrigir alguns pontos equivocados de sua argumentação quando, por exemplo, o Bispo de Astana afirma que o documento conciliar (Dignitatis Humanae), no qual se encontra em germe a ideia da fraternidade universal expressa em Abu Dhabi, poderá ser revisto por um outro papa no futuro, porque certos documentos de outros concílios também o foram ao longo da história, dando, como exemplo, certas disposições sobre judeus e muçulmanos. Ora, essas disposições não eram heréticas e visavam a salvaguardar a cidadela cristã, o que é bem diferente de Dignitatis Humanae, que contém elementos que levam à apostasia e à perda de fé. Após esse preâmbulo, Viganò passa, então, ao problema central da questão: o Concílio Vaticano II. Aqui ele destaca a afirmação dos defensores das novidades do Concílio em nome de um dito “espírito do Concílio”: “Nunca se falou de ‘espírito do Concílio de Nicéia’ ou de ‘espírito do Concílio de Ferrara-Florença’, muito menos do ‘espírito do Concílio de Trento’, assim como nunca tivemos uma era ‘pós-conciliar’ depois de Latrão IV ou Vaticano I. A razão é óbvia: esses Concílios eram todos, indiscriminadamente, a expressão em uníssono da voz da Santa Madre Igreja, e por essa mesma razão, a voz de Nosso Senhor Jesus Cristo. Significativamente, aqueles que mantêm a novidade do Vaticano II também aderem à doutrina herética que coloca o Deus do Antigo Testamento em oposição ao Deus do Novo Testamento, como se pudesse haver contradição entre as Pessoas divinas da Santíssima Trindade. Evidentemente essa posição, que é quase gnóstica ou cabalística, é funcional para a legitimação de um novo sujeito voluntariamente diferente e oposto à Igreja Católica”. Nessas breves palavras, Dom Viganò reconhece que há uma oposição entre o Vaticano II e a Igreja Católica, e que quem adere ao Concílio se opõe a Nosso Senhor Jesus Cristo, porque proclama uma voz que não é a de Cristo e sim a de um “espírito do Concílio”. Dom Viganò, em outras ocasiões, já havia assinalado a conspiração maçônica que movera o Concílio pelos bastidores e pela infiltração. No entanto, agora, ele próprio, em um gesto de profunda humildade, admite que também errou, ou por ingenuidade ou por falta de senso da realidade. Ele prossegue: “Também cometemos o erro, entre outros, de considerar nossos interlocutores como pessoas que, apesar das diferenças de ideias e fé, ainda eram motivadas por boas intenções e que estariam dispostas a corrigir seus erros se pudessem abrir-se para a nossa fé. Juntamente com numerosos padres do Concílio, pensamos no ecumenismo como um processo, um convite que chama dissidentes à única Igreja de Cristo; idólatras e pagãos ao único Deus verdadeiro; e o povo judeu ao Messias prometido. Mas a partir do momento em que foi teorizado nas comissões conciliares, o ecumenismo se configurou de uma maneira que estava em oposição direta à doutrina anteriormente expressa pelo Magistério. Pensamos que certos excessos eram apenas exageros daqueles que se deixaram levar pelo entusiasmo, pela novidade: acreditamos sinceramente que ver João Paulo II cercado por encantadores-curandeiros, monges budistas, imãs, rabinos, pastores protestantes e outros hereges, comprovava a capacidade da Igreja de reunir pessoas para pedir paz a Deus. Esta ação como exemplo oficial, iniciou uma sucessão desviante de Panteões que eram mais ou menos oficiais, a ponto de ver Bispos carregando sobre seus ombros o ídolo imundo da Pachamama, escondido de forma sacrílega sob o pretexto de ser uma representação da maternidade sagrada”. Eis aí, nada poderia estar mais de acordo com D. Lefebvre, que não foi tão ingênuo naquela época do panteão de Assis e viu com clarividência profética o desastre que se desenrolava diante de todos. Dom Viganò, embora não cite Dom Lefebvre, ao menos tem a humildade de admitir que errou em não ser capaz de ver que isso era o que estava preparado desde o início pelos inimigos de Deus e que penetrou na Igreja pelo “espírito do Concílio”, como ele corajosamente agora reconhece: “Se a Pachamama pôde ser adorada em uma igreja, devemos isso à Dignitatis Humanae, se temos uma liturgia protestante e às vezes paganizada, devemos isso à ação revolucionária de Dom Bugnini e às reformas pós-conciliares. Se a Declaração de Abu Dhabi foi assinada, é graças à Nostra Aetate. Se chegamos ao ponto de delegar decisões às Conferências Episcopais, mesmo em grave violação da Concordata, como aconteceu na Itália, devemos isso à colegialidade. Graças à sinodalidade, encontramo-nos com Amoris Laetitia tendo de procurar uma maneira de impedir que aparecesse o óbvio para todos: que esse documento, preparado por uma impressionante máquina organizacional, visava a legitimar a comunhão para os divorciados e os concubinários, assim como Querida Amazônia será usada para legitimar mulheres sacerdotes (caso muito recente o de uma “vigária episcopal” em Freiburg) e a abolição do santo celibato”. Como se vê, Viganò não mitiga os danos do Concílio, porque, longe de ser 5% ruim, o Concílio, em bloco, é uma oposição à doutrina de Nosso Senhor Jesus Cristo, e como tal deve ser rejeitado até que a autoridade competente o condene juntamente com seus frutos envenenados. Mas continuemos com Viganò: “O Concílio foi usado para legitimar os desvios doutrinais mais aberrantes, as inovações litúrgicas mais ousadas e os abusos mais inescrupulosos, enquanto a autoridade permanecia calada. Esse Concílio foi tão exaltado que foi apresentado como a única referência legítima para católicos, clérigos e bispos, obscurecendo e conotando com um senso de desprezo a doutrina que a Igreja sempre ensinara com autoridade e proibindo a liturgia perene que, por milênios, nutriu a fé de uma linhagem ininterrupta de fiéis, mártires e santos”. E, finalmente, uma comovente confissão merecedora de todo nosso apoio: “Confesso com serenidade e sem controvérsia: fui uma das muitas pessoas que, apesar de muitas perplexidades e medos que hoje se revelam absolutamente legítimos, confiavam na autoridade da Hierarquia com obediência incondicional. Na realidade, penso que muitas pessoas, incluindo eu mesmo, não consideraram inicialmente a possibilidade de que pudesse haver um conflito entre obediência a uma ordem da Hierarquia e fidelidade à própria Igreja. O que tornou tangível essa separação antinatural, de fato, eu diria perversa, entre a hierarquia e a Igreja, entre a obediência e a fidelidade, foi certamente este mais recente pontificado”. Após diagnosticar o fracasso e engodo de uma tal hermenêutica da continuidade, ele acrescenta: “É inegável que a partir do Vaticano II foi constituída uma igreja paralela, sobreposta e diametralmente oposta à Igreja de Cristo. Essa igreja paralela obscureceu progressivamente a instituição divina fundada por Nosso Senhor, a fim de substituí-la por uma entidade espúria, correspondente à religião universal desejada, que foi primeiramente teorizada pela maçonaria”. Haveria muito mais para dizer sobre as palavras de Dom Viganò, mas deixamos que ele mesmo falasse com a propriedade de quem conhece profundamente bem as motivações reais dos que ocupam, desde mais de meio século, a hierarquia da Igreja. Ele conclui: “Assim como honesta e serenamente obedeci a ordens questionáveis sessenta anos atrás, acreditando que elas representavam a voz amorosa da Igreja, assim também hoje, com igual serenidade e honestidade, reconheço que fui enganado. Ser coerente hoje, mas perseverando no erro, representaria uma escolha miserável e me tornaria cúmplice dessa fraude (…). Todos sabíamos que o Concílio seria mais ou menos uma revolução, mas não poderíamos imaginar que isso seria tão devastador, mesmo para o trabalho daqueles que deveriam impedir isso (…). Domingo passado a Igreja celebrou a Santíssima Trindade, e o breviário nos oferece a recitação do Symbolum Athanasianum, agora proibido pela liturgia conciliar e já reduzido a apenas duas ocasiões na reforma litúrgica de 1962. As primeiras palavras desse Symbolum, agora desaparecido, permanecem inscritas em letras de ouro: “Quicumque vult salvus esse, ante omnia opus est ut teneat Catholicam fidem; quam nisi quisque integram inviolatamque servaverit, absque dubio in aeternum peribit. ” – Todo aquele que quiser salvar-se deve antes de tudo professar a fé católica: porque aquele que não a professar, integral e inviolavelmente, perecerá sem dúvida por toda a eternidade”. Que Deus o proteja, Excelência! Prof. Carlos Bezerra
- BOLETIM DA SANTA CRUZ
JULHO DE 2020 – Nº 55 Caríssimos amigos e benfeitores, Na grave e incerta situação em que se encontra o mundo, é necessário voltar nossos olhares para a Revelação, da qual a Santa Igreja tem a guarda. Aí estará sempre a luz de que necessitamos para nos conduzir neste vale de lágrimas. Vejamos em poucas linhas o que é próprio dos tempos que precedem a grande provação de que falam os profetas. Para nos guiar, tomemos os escritos do Rev. Pe. Emmanuel André, cuja ciência, piedade e fé foram louvados por inúmeros sacerdotes e bispos, inclusive Dom Lefebvre, que fez o prefácio de uma das edições de seu livro “O Drama do Fim dos Tempos”. O mundo só conhecerá o Anticristo após certos acontecimentos, entre os quais, a apostasia e a remoção de um misterioso obstáculo, do qual fala São Paulo, que impede a aparição do Anticristo e que os Padres da Igreja identificaram com o Império Romano. Enquanto subsistisse o Império Romano, o Anticristo não apareceria. Mas o Império Romano desapareceu e o Anticristo não fez seu advento entre nós. Enganaram-se os Padres da Igreja? Não, diz o Padre Emmanuel. O que fazia o Império Romano as nações católicas continuaram a fazer. O grande obstáculo que impedia a aparição do Anticristo eram as nações católicas. A apostasia oficial das nações católicas marcará a hora do homem de pecado, pois essas nações deixarão de ser católicas e de se opor ao Anticristo. Ainda sobre a apostasia, eis o que diz o Padre Emmanuel: “De que apostasia fala São Paulo? Não se trata de uma defecção parcial; ele diz de uma maneira absoluta, a apostasia. Só se pode entender a apostasia em massa das sociedades cristãs, que socialmente e civilmente renegarão seu batismo; a defecção dessas nações que Jesus Cristo, segundo a enérgica expressão de São Paulo, tornou membros do corpo de sua Igreja (Ef III, 6). Somente esta apostasia tornará possível a manifestação e a dominação do inimigo pessoal de Jesus Cristo, em uma palavra, o Anticristo.” Recomendamos vivamente a leitura deste livro, “O Drama do Fim dos Tempos”, do Pe. Emmanuel. Há nessas páginas grandes ensinamentos e grandes consolações. Que nossos leitores aí encontrem um e outro. Que Nossa Senhora de Fátima estenda seu manto sobre nossos leitores e os proteja abrigando-os no Seu Imaculado Coração nestes tempos em que o inferno parece se preparar para uma investida final contra a Santa Igreja. † Tomás de Aquino Doutrina Voltemos ainda nossa atenção para o Anticristo, já que os tempos modernos nos parecem ser uma preparação (próxima ou longínqua) de sua vinda. Nos tempos em que vivemos surge então a pergunta: o Anticristo está perto? Para responder, lembremo-nos que São Pio X pensou que, já no seu tempo, era de se indagar se o homem de pecado já não estaria entre nós. E por que São Pio X pensava assim? Por causa dos sinais que anunciam o Anticristo, dentre os quais o mais decisivo parece ser a apostasia das nações católicas, apostasia que é obra da maçonaria, cuja doutrina nega todo dogma, toda revelação e, portanto, nega que a religião católica seja a verdadeira, a única. Daí o apoio dado pela maçonaria aos erros do Concílio Vaticano II: colegialidade, liberdade religiosa e ecumenismo. Diante das nações ele (o Anticristo) se apresentará primeiro como um amigo de todas as religiões, como o Papa Francisco, aliás. Escutemos o Padre Emmanuel André: “É muito crível também que o Anticristo disporá, para subir, de todos os partidários das falsas religiões. Ele se anunciará como cheio de respeito pela liberdade dos cultos, uma das máximas e uma das mentiras da besta revolucionária. Dirá aos budistas que é um Buda; aos muçulmanos, que Maomé é um grande profeta. Nada impede que o mundo muçulmano aceite o falso messias dos judeus como um novo Maomé. “O que sabemos? Talvez irá até dizer, em sua hipocrisia, como Herodes seu precursor, que quer adorar Jesus Cristo. Mas isto não passará de uma zombaria amarga. Malditos os cristãos que suportam sem indignação que seu adorável Salvador seja posto lado a lado com Buda e Maomé, em não sei que panteão de falsos deuses!” Eis aí o atual ecumenismo. Depois o Anticristo mudará de tática: abolirá todas as religiões e se fará adorar como Deus. Mas a Igreja Católica subsistirá pela graça de Deus. E desde já ela subsiste combatendo o ecumenismo do Vaticano II, de João Paulo II, de Bento XVI e do Papa Francisco. Continuaremos, sobre este assunto, convictos de que ele encerra, como diz o Padre Emmanuel André, grandes ensinamentos e grandes consolações. Crônica Ano de 2019 Dezembro 22 – Batizado de Vicente Pinto, filho de Sr. Edivaldo Pinto e da Srª. Letícia Pinto. O batismo deu-se na festa de São Flaviano, Mártir, e teve como padrinhos o Sr. Carlos Bezerra e a Srª. Eliane Bezerra. Ano de 2020 Fevereiro 11 – Batizado de Bernadette Maria de Sousa, filha do Sr. Getúlio de Sousa e da Srª. Maiane de Sousa. O batismo deu-se na Festa de Nossa Senhora de Lourdes e teve como padrinhos o Sr. Pedro Monteiro e a Srª. Nilce Monteiro. 23 – Chegada do Sr. Paulo Jocimar Gerei para iniciar uma vida de postulante em nosso mosteiro. Abril 14 – Chegada do Reverendo Padre Tarcísio, da comunidade religiosa “saletianos”. 19 – Conferência do Pe. Tarcísio. Por volta das 18h00, logo após a bênção do Santíssimo, o padre prestigiou a todos com uma conferência na qual narrou o caminho que percorreu até chegar à Tradição, e por fim, à Resistência. O Pe. Tarcísio nos provou, mais uma vez, como a graça de Deus pode chegar a todo lugar, a todas as almas. E como é fundamental buscar a verdade e nela manter-se firmemente. Maio 1 – Batizado de Heloísa Monteiro, filha do Sr. Reginaldo Monteiro e da Srª. Yara do Couto. O batismo deu-se na festa de São José Operário e os padrinhos foram o Sr. Getúlio de Sousa e a Srª. Maiane de Sousa. 2 – Chegada do Seminarista Deivid Nass, do Seminário São Luís Maria Grignion de Montfort, de Dom Faure, na França. 2 – Ordenação sob condição do Rev. Padre Tarcísio. 3 – Festa da Invenção da Santa Cruz e primeira missa do Pe. Tarcísio após o recebimento da ordenação sob condição. 4 – Grande Passeio dos monges, como ocorre anualmente, mas neste dia uniram-se a eles alguns fiéis (pais de famílias da Resistência com seus filhos) para esta grande recreação dos religiosos. Iniciou-se pela manhã, logo após a missa, indo até ao entardecer, finalizando com o futebol. 4 – Partida do Rev. Padre Tarcísio para São Paulo levando consigo o Sr. Maciel, que generosamente estivera-nos ajudando durante vários meses, de maneira particular, na ornamentação das cerimônias litúrgicas e na escolinha. Ele tentará, doravante, viver uma vida de “saletiano”. 7 – Este dia sensibilizou a todos os fiéis do mosteiro. Faleceu Dona Maria Tereza Ferreira da Costa, a nossa querida “Vó”, mãe de Dom Prior. No mesmo dia da notícia, o corpo chegou ao mosteiro, no início da tarde, e logo houve uma missa de corpo presente nesse dia, às 16h00. Todos os fiéis compareceram à missa e velaram o corpo dessa tão amável senhora que tanto contribuiu, por seus ensinamentos, conselhos, cultura, aulas de literatura e inglês, com cada um daqueles que puderam, pela graça de Deus, participar da sua vida. 8 – Às 11h00 deste dia, uma sexta-feira, iniciou-se a missa de corpo presente, que foi seguida do enterro da mãe de Dom Tomás de Aquino, Dona Tereza (Vó). A missa contou com a presença dos monges, familiares, fiéis do mosteiro, amigos da família e até de pessoas de outras cidades, as quais vieram dar o seu adeus à Vó Tereza e um pouco de consolo aos familiares pela perda desta amiga de todos que foi a Vó. A missa ocorreu no galpão, devido à quantidade de pessoas. O sermão – traçando os passos de Dona Tereza nos seus 96 anos de vida – foi feito por seu filho, Dom Tomás de Aquino, que ela batizara de Miguel. Terminada a missa, todos se aproximaram do caixão para se despedir da Dona Tereza, que, sem dúvida, deixou muitas saudades. Após isso, seguiu-se o cortejo fúnebre até o cemitério nas dependências do mosteiro beneditino, ordem da qual a Dona Tereza fora oblata fiel. Há quem diga que não pode haver beleza num enterro, mas nesse, em particular, houve algo de belo. Todos acompanharam o seu corpo, rezando o terço e cantando piedosamente; os seus netos levaram o caixão, abriram a sepultura, arrumaram o local, levaram as flores, e por fim, despediram-se da bela vida que Dona Tereza levara! Que ela descanse em paz! 9 – Chegada do Sr. Maurício Donati e da Srª. Kelly Donati, de Salvador – BA. O casal veio também para melhor conhecer a comunidade, onde futuramente pretende morar. 12 – Chegada do seminarista Daniel Duarte, do Seminário São Luís Maria Grignion de Montfort, de Dom Faure, na França. 13 – Neste dia tão belo, festa de Nossa Senhora de Fátima, ocorreu a missa de sétimo dia da Dona Tereza, a Vó. Todos compareceram para rezar ainda mais por essa alma tão querida. 21 – Conferência de Dom Tomás de Aquino sobre a situação atual da Igreja Conciliar, os posicionamentos do Papa Francisco e a posição atual da Fraternidade Sacerdotal São Pio X acerca dos casamentos. 24 – Conferência com Dom Tomás de Aquino sobre os hábitos e as virtudes. 30 – Coroação de Nossa Senhora Rainha do Céu e da Terra realizada pelos alunos do Colégio São Bento e Santa Escolástica, na festa da Vigília de Pentecostes. Infelizmente neste dia não foi possível realizar a peregrinação da vigília de Pentecostes, como é de costume, devido à situação atual provocada pelo covid-19. 31 – Solenidade de Pentecostes – Realização de crismas de alguns fiéis do Mosteiro da Santa Cruz, feitas por S. Ex.ª Revma. Dom Tomás de Aquino. Junho 5 – Exposição do Santíssimo Sacramento para que monges e fiéis pudessem adorar Nosso Senhor e receber a Sua bênção na primeira sexta-feira do mês. 11 – Solenidade de Corpus Christi com santa missa seguida de procissão e finalizada com a bênção do Santíssimo Sacramento. 11 – Falecimento do Sr. Ronald Ferreira da Costa, pai de Dom Anjo. Nossas condolências aos familiares e orações pela alma daquele que foi pai de um monge exemplar. 13 – Festividade de Santo Antônio de Pádua. Missa na Capela São Miguel e Santo Antônio, seguida da entrega dos pães bentos. O Comunismo Há uma certa confusão entre as pessoas acerca da natureza mesma do comunismo e, consequentemente, de uma boa definição sua, e isso porque, neste assunto, confundem-se os meios – pelos quais se busca a consumação do comunismo – com os fins deste ou o com o próprio comunismo, posto que este é mais uma ideia ou doutrina do que propriamente uma realidade objetiva. E como tal, pode-se dizer que há comunistas, em certo sentido, mais pelo que aspiram do que pela sua vida prática. Da mesma forma, pode-se dizer também que há governos comunistas mais pelo que têm de ideologia do que propriamente pelo que têm de efetivo, enquanto realidade política. Em outras palavras: aquilo que se toma como comunismo tendo como referência a URSS, a China, Cuba, a Coréia do Norte, etc., em realidade, é o que se pode chamar mais propriamente de socialismo real, ou seja, um modelo efetivo de Estado cujo viés vital é a economia planificada e o controle dos bens e meios de produção bem como da vida social posta como um todo orgânico a serviço desse mesmo Estado. Ocorre que, para a mentalidade comunista, haveria sempre um período intermediário entre o fim da opressão liberal capitalista e o comunismo, uma transição necessária, mas que, em realidade, nunca se efetiva. Ou seja, o socialismo real nunca se torna o socialismo ideal, assim como a democracia moderna real nunca chega ao seu fim, que seria a democracia ideal. Por isso, pode-se bem dizer que ambos os sistemas, socialista ou demo-liberal, visam ao mesmo fim ou utopia comunista. Mas o que seria então o comunismo? Em síntese, podemos defini-lo como a manifestação da velha tentação dos homens de querer reestabelecer na terra, pelas suas próprias forças naturais, o paraíso perdido, a idade de ouro, o jardim do Éden. Para isso os socialismos vão valer-se de diversos sistemas, e haverá os utópicos, os científicos, os positivistas, os socialdemocratas, os anarquistas, etc. Enquanto caminham com os olhos fixos no futuro quimérico, pisam os cadáveres de suas vítimas, como admitiu o pretenso historiador comunista (e esses são sempre os mais perigosos), Eric Hobsbawm, em 1994, durante uma entrevista à BBC a Michael Ignatieff, onde ele afirma que o grande terror de Stalin teria valido a pena, caso tivesse resultado na revolução mundial. Ignatieff replicou essa afirmação com a seguinte pergunta: “Então a morte de 15,20 milhões de pessoas estaria justificada caso fizesse nascer o amanhã radiante?” Hobsbawm respondeu com uma só palavra: “Sim”. O comunismo, então, só existe na imaginação dos homens que se negam a aceitar a história como ela é, e é por isso que o comunismo é intrinsecamente perverso, como bem disse o Papa Pio XI, pois a história é o plano de Deus para nos salvar; negando-se isso, como pode-se reconhecer a realidade sobrenatural da vida da graça à qual todo homem é chamado? Sem isso, só nos resta o materialismo de uma vida sem fé, sem esperança e sem caridade. Assim sendo, o comunismo só pode ter por adversário, não o capitalismo (do qual ele se apropria para se apresentar como a antítese e assim enganar os incautos que sonham com a felicidade neste mundo, oferecendo-lhes o fausto dos bens terrenos que o capitalismo demo-liberal lhes nega), mas o catolicismo, pois o católico compreende a vida pelos Mistérios divinos que Deus mesmo revelou, ou seja, a Redenção do homem pelo sangue de Cristo, pelo qual podemos ser merecedores da vida sobrenatural já neste mundo, enquanto nos unimos com nosso Salvador crucificado, através dos sofrimentos desta vida, aceitando-os com resignação e suportando-os no presente, mas com o olhar fixo no Céu, nossa verdadeira pátria no futuro. Sim, para o católico, o comunismo não passa da velha fábula de satanás: “Sereis como deuses”. Prof. Carlos Bezerra Dom Viganò Exa. Revma. Dom Carlo Maria Viganò acaba de escrever um texto onde afirma com coragem que os males dos quais sofre a Igreja têm por causa o Concílio Vaticano II; mais ainda: que esses males vêm de uma igreja distinta da Igreja Católica. “É inegável, diz ele, que a partir do Vaticano II se formou uma igreja paralela, sobreposta e diametralmente oposta à verdadeira Igreja de Cristo.” Ele afirma, além disso, que o ideal dessa nova igreja é instituir uma religião universal segundo as aspirações dos ideais maçônicos. Nada mais mortal para a Igreja do que esses assaltos conduzidos há séculos contra Ela para investi-la desde seu interior, como havia predito Leão XIII em seu exorcismo de São Miguel, em sua primeira edição: “Onde foi estabelecida a sede do bem-aventurado Pedro e a Cátedra da verdade, aí eles puseram o trono de sua abominação na impiedade, de modo que feridos os pastores, o rebanho possa ser disperso.” (Cf. texto original publicado em 1903). Os inimigos conceberam um ecumenismo que seria a formação de uma religião universal, “triunfo do plano maçônico em preparação para o reino do anticristo”, como diz Dom Viganò. “Sabemos muito bem, escreve ainda o prelado, que o objetivo dessas iniciativas ecumênicas e inter-religiosas não é converter ao Cristo aqueles que estão longe da única Igreja, mas enganar e corromper aqueles que ainda conservam a Fé Católica, conduzindo-os a considerar como desejável uma grande religião universal que una em ‘uma só casa’ as três grandes religiões abraâmicas. Seguindo os Papas antiliberais, Dom Lefebvre e Dom Antônio de Castro Mayer combateram o ecumenismo, erro central do Concílio Vaticano II. De Pio VI a Pio XII os erros modernos foram repetidas vezes condenados, mas os liberais que triunfaram no Concílio graças ao apoio dos Papas João XIII e Paulo VI procuraram impô-lo a toda a Igreja. O mérito de Dom Viganò consiste em ter denunciado o plano dos inimigos da Fé Católica e tê-lo feito com boa fundamentação doutrinal. Ele teve a humildade de reconhecer que outrora se havia enganado a respeito do Concílio, da hermenêutica da continuidade e da conduta que se deve ter em relação àqueles que se servem de seus cargos para destruir a Igreja, fazendo da obediência uma arma contra a obediência devida a Deus e à Igreja. Possa ele levar a bom termo o seu combate e concorrer para a vitória final do Imaculado Coração de Maria. Nova Friburgo, 24 de junho de 2020, Natividade de São João Batista + Tomás de Aquino, OSB “Tu que descanso buscas com cuidado, Neste mar do mundo tempestuoso Não espere de achar nenhum repouso, Senão em Cristo Jesus Crucificado.” Camões Nota do Celeireiro Apesar da crise econômica pela qual tem passado não apenas o Brasil, mas todo o mundo, nossos benfeitores não deixaram de contribuir generosamente conosco. Nossa escolinha, o Colégio São Bento e Santa Escolástica, continua a funcionar com as aulas “online”. Conseguimos também terminar uma nova ala de celas e estamos reformando uma outra. Gostaríamos de agradecer a todos os nossos benfeitores, assegurando-lhes nossas orações. Que Deus os recompense em dobro. Ir. Celeireiro Para nos ajudar Mosteiro da Santa Cruz – CNPJ 30.177.471/0001-30 Banco do Brasil (001) – Ag. 0335-2 – C/C. 73512-4 SWIFT (BIC): BRASBRRJRJO IBAN: BR42 0000 0000 0033 5000 0735 124C 1 Doações para a manutenção de nossa escolinha Soc. C. Mant. do Mosteiro da S. Cruz CNPJ 30.171.417/0001-88 Banco Itaú S.A. Agência 0222 C/C. 29186-6 Endereço de correspondência Mosteiro da Santa Cruz Caixa Postal 96582 Nova Friburgo – RJ 28610-974 mostsantacruz@gmail.com
- Duas palavras a Tristão de Athayde
Por Gustavo Corção, publicado n’O Globo em 18-06-77; NÃO FOSSE A GRAVIDADE dos valores envolvidos, eu não voltaria a interpelar o velho escritor que anos atrás (cem? mil?) tive por companheiro de luta e por correligionário, e que hoje se coloca decididamente e obstinadamente no quadrante de idéias e valores opostos aos mais altos interesses da Pátria e da Igreja. O artigo publicado com o título Mocidade em Ação no J.B. de 27 de maio constitui uma verdadeira provocação, e se presta a reparos que tentarei colocar em termos do mais sereno senso comum. Eis como se exprime Tristão de Athayde: “A PRESENTE AGITAÇÃO da mocidade universitária, longe de ser, como querem fazer crer as autoridades políticas ou educativas, uma consequência da “infiltração comunista” em nossa mocidade, é principalmente o fruto do regime de mordaça que um falso autoritarismo vem impondo à nossa juventude. Por isso mesmo considero essa agitação, para mim surpreendente, como um sinal de vitalidade e de esperança, de que, confesso, já começava a descrer”. ATÉ AQUI FALOU Tristão de Athayde na sua coluna do J.B. AGORA NOSSO PRIMEIRO REPARO: Observe bem o leitor que não é nossa a qualificação do movimento estudantil, evidentemente provocado por líderes menos jovens: é o próprio Tristão de Athayde que, no trecho citado, mais de uma vez o chama de “agitação”. Ora, aqui entre nós, profissionais da palavra escrita, e já beneficiados por prêmios que se supõem motivados pelo bom uso que fizemos de nossos dons, a propriedade do termo é um ponto de honra. Não podemos começar nosso testemunho cívico pelo mau uso da palavra, e ainda menos pelo involuntário bom uso do termo próprio em chocante contraste com a intenção geral expressa no contexto. O escritor Tristão de Athayde está gostosamente surpreendido com o movimento estudantil de que já desesperançava, aplaude-o, elogia-o, mas dá-lhe o nome de “agitação da mocidade universitária”. Ora, o termo agitação – que nós escolheríamos cuidadosamente para bem caracterizar o fenômeno – conota imediatamente as idéias de desordem e de irracionalidade. Aplicado ao caso, o termo diz que os pobres moços se entregaram a um vai e vem desordenado sem nenhum deles saber aonde vai e o que quer. Agitam-se, falam frases entrecruzadas, vão e vêm, marcam encontros que melhor se chamariam desencontros. Ou agitações. SE EU QUISESSE ELOGIAR um movimento coletivo de jovens ou velhos jamais diria que esse movimento, levante, alzamiento, protesto ou lá o que fosse, era uma agitação. Esse termo depreciativo bem realça a imaturidade dos participantes de tal movimento. E se acaso o termo se impusesse em razão da imaturidade dos “agitados”, jamais me ocorreria a idéia de colocar minhas esperanças humanas, primeiras ou últimas em tão irracional desordem de imaturos. NO SEU ARTIGO JÁ VELHÍSSIMO (duas ou três semanas!) e já caído no esquecimento de um mundo apressado e desmemoriado, Tristão de Athayde prossegue mais adiante: “E POR ISSO QUE SAÚDO essas agitações universitárias em todo o país como um sintoma de que nem tudo está perdido e a mocidade brasileira de hoje é fiel às tradições da mocidade de outrora. Na esperança de que continuemos a crer, não propriamente em uma revolução etária, que seria inócua e contraproducente, mas na pressão sadia e constante que essas manifestações generalizadas possam exercer sobre as forças capazes, no âmbito da própria estrutura dominante, de abrir os olhos dos cegos e os ouvidos dos surdos. Se essa agitação, porém, for reprimida pela força, então só há um dilema para o futuro das novas gerações. Ou o conformismo apático, em que os jovens serão velhos cada vez mais cedo. Ou uma clandestinidade de sacrifício improfícuos, que só retardarão a saída do túnel”. ESSE ESTRANHO DILEMA servido à la minute torna ainda mais obscuras do que nunca as idéias do escritor Tristão de Athayde. Sinceramente, não consigo entender a sombria obstinação que o leva a não deixar para os moços universitários outra alternativa senão a da agitação; e para nosso pobre Brasil outra saída fora da capitulação diante da revolução anarco-socialista.
