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  • Dez Anos (I)

    Publicado por Gustavo Corção n’O Globo em 04-04-1974 APROVEITEMOS a data aniversária da salvação do Brasil para tecermos algumas considerações em torno dos regimes políticos. Qualquer leitor que nos acompanhe há mais de dez anos já terá percebido que nosso antigo e ingênuo credo democrático não resistiu às últimas experiências deste século. NÃO mudamos, nem podemos submeter aos ventos os princípios fundamentais da lei natural que são a lei de Deus inscrita na natureza das coisas. Ainda nos sentimos obrigados a trazer o melhor de nós mesmos para a edificação da Polis, mas já não sabemos o que fazer da variedade de disparates que se estendem diante de nós neste estuário de erros. O que me parece indiscutível é que época alguma foi tão confortável como esta que temos a honra de viver. Sobejam os instrumentos com que se resolvem as pequenas dificuldades da vida, mas não sabemos o que fazer da vida, e até levamos nossas indecisões para as coisas que julgávamos mais definitivamente assentadas. TODOS sabemos que vivemos um regime político de salvação nacional. Um regime de emergência, que não tenho pressa alguma de mudar porque não vejo outro, e porque não imagino que ninguém, com plena posse do juízo, me venha falar em redemocratização. NA verdade, dos três clássicos regimes políticos possíveis, o que pretendeu devorar as perfeições dos outros dois e tornar-se, em absoluto, o regime político por excelência, o ideal supremo incontestável, foi o grande malogro do século. Foi o grande desmascaramento. Foi a falência fraudulenta e vergonhosa. NA verdade, ainda é em Santo Tomás que encontramos a pista do futuro quando, em vez de considerarmos cada um dos três regimes clássicos em absoluto, consideramos apenas a perfeição de cada um, e a necessidade da integração de todos três num regime composto. ESSAS três perfeições, cada uma limitada pelas outras duas, são: 1) unidade de governo; 2) escolha dos melhores e não dos "representantes do povo"; 3) participação proporcionada do maior número na formação do bem comum. A composição dessas três perfeições, em doses variáveis conforme a índole e a história de um povo, dará o regime político adequado e conveniente, sujeito a variações em torno da mesma invariante procura do bem comum, do bem público, da felicidade possível neste vale de lágrimas. NENHUM desses regimes "pode funcionar sem os outros, mas o pior de todos, quando isolado e absolutizado, é sem dúvida alguma o "democrático" porque sua carência fundamental, a do prestígio da autoridade e a do prestígio das elites verdadeiras, é profundamente explorada pelo mal do século, a anarquia. PARA começar, o liberalismo foi o devastador desse ideal político que passou a espezinhar os ideais da verdade e de bem em favor de um absoluto demente: o da liberdade. O símbolo dessa monstruosidade está no presente que a França deu aos Estados Unidos e que está na foz do Hudson com um solecismo político escrito no pedestal: "A liberdade ilumina o mundo." DESDE o princípio do século vêm as esquerdas corroendo o subsolo da civilização, mas foi na comédia de erros da guerra que os povos de língua inglesa, numa espantosa mistura de heroísmo e asneira, desfraldaram no mundo a bandeira das "Democracias". Sim, durante cinco anos, o termo, a idéia e a imagem de tal coisa se impuseram no mundo ocidental a milhões e milhões de cidadãos que acordavam desejando a vitória da democracia, e dormiam para sonhar com o esmagamento de Hitler. HILLAIRE BELLOC aborrecia-se quando lhe diziam que a Inglaterra, na heroica resistência de Londres, estava defendendo a "democracia". Então não sobrou povo, regimento, canhão para defender a civilização. E foi, por este lapso, por esse esquecimento, que a URSS, ao ser invadida pelos nazistas, tornou-se imediata e instantaneamente irmã, aliada e até principal vencedora. TODOS nós sabemos que essa história de governo do povo, de revolução do povo, de democracia popular, são conhecidíssimas imposturas. Na revolução russa o papel do povo foi sempre o mesmo, desempenhado com mais sangue do que nunca. NO ocidente que se deu ao luxo de criticar nosso 64, todo mundo sabe que o sufrágio universal é um aparelho falsificador, sim, falsificador de candidato. O leitor é identificado, é legítimo, e estampilhado e deixa o dedão em baixo do retrato: mas o candidato, no jogo de espelhos produzido pelo maravilhoso progresso das comunicações, e pelos milagres da propaganda, é uma pessoa falsificada, que ninguém conhece, e que talvez não exista. Já vimos 6.000.000 de eleitores dopados pelo mais puro democratismo, votarem num indivíduo que se chamou Jânio Quadros. Sem falar nos outros. MAS depois das várias experiências feitas no mundo, a minha convicção é que de todas as formas de democracia, a pior foi a dita cristã. Foi ela quem traiu a França. E são seus vapores que agora inebriam e enlouquecem os cristãos inseguros. A falsa Igreja produzida pela revolução desencadeada pelos inovadores e reformadores da Igreja de Cristo, é um dos mais venenosos frutos do democratismo deste século de empulhamentos. Um dos aspectos mais grotescos desse simulacro de cristianismo que enlameia o mundo é o democratismo que põe a missa de pernas para o ar, e faz do "padre" um presidente de clube. TEREMOS de realizar árduo trabalho para purificar a "participação" sem a qual não se pode conceber um corpo político feito à imagem e semelhança do homem e de Deus. Será esse um dos mais difíceis trabalhos que se impõem aos séculos futuros. Para começo temos de combater os empulhamentos saídos dos ralos das revoluções ditas populares. Na América do Sul já temos o Brasil e o Chile como exemplos a seguir: eu tive agora uma alucinação, uma miragem - vi um continente inteiro varrido de toda a imundice do século.

  • Comentários Eleison nº 730

    Por Dom Williamson Número DCCXXX (730) – 10 de julho de 2021 VERDADE E AUTORIDADE – III A própria estrutura da Igreja pode ceder, Se Deus mesmo permitir que ela se extravie. No que diz respeito à crise da Igreja, o diagnóstico da lealdade à Verdade Católica que disputa desde o Vaticano II contra a lealdade à Autoridade Católica (CE 726, 12 de junho) lança bastante luz (EC 728, 26 de junho), mas pode ter ainda mais luz por lançar sobre a questão controversa de até que ponto os defensores da verdadeira Fé católica devem estruturar-se hoje. O que se poderia chamar católicos normais argumentarão que a Autoridade é tão intrínseca à Igreja, que os defensores da Verdade sem nenhuma estrutura de autoridade entre eles não podem ir a lugar nenhum, e só podem acabar dissolvendo-se no ar. Os que se poderia chamar católicos anormais responderão, com estes "Comentários", que, uma vez que a Verdade católica é o propósito mesmo da Autoridade católica (EC 726), então aqueles que realmente possuem a verdade católica não precisam, excepcionalmente, estritamente falando, de nenhuma outra estrutura que os mantenha unidos. Pois se, como diz o ditado, “A verdade é poderosa e prevalecerá”, ela também unirá. Normalmente, desde que Nosso Senhor fundou a Sua Igreja, esta teve de abrir caminho em território hostil, ou seja, um mundo do qual o Diabo é príncipe (Jo. XIV, 30), por causa do pecado original. Neste mundo, Jesus expulsou este príncipe pela Cruz (Jo. XII, 31), mas deixou o homem com as feridas do pecado original, de modo que o homem continuou precisando de toda a Autoridade da Igreja para proteger a Verdade da Igreja (CE 726). Mas depois de dezenove séculos, o Papa Leão XIII recebeu uma visão de Deus na qual Ele permitiria uma vez mais liberdade total a Satanás para atacar a Igreja, de modo que, anormalmente, no Vaticano II, um século mais tarde, Satanás efetivamente subjugou até mesmo a Autoridade da Igreja. O que Deus haveria previsto agora para proteger Sua verdade da anarquia em Sua Igreja? Nunca se questionou se a Igreja sobreviveria ou não (Mt. XXVIII, 20). O que Deus faria para proteger Sua Igreja? Deliberadamente, Ele permitiu que sua Autoridade normal fosse quebrada; então, ao que Ele anormalmente recorreria? Certamente podemos ver isso ao nosso redor. Desde 1965, quando o Vaticano II chegou oficialmente ao fim, os católicos tiveram meio século para acostumar-se com uma Autoridade acima deles que se tornava cada vez mais vazia daquela Verdade Católica que é propósito e justificativa dela ensinar. Os católicos abandonaram a Igreja em consequência disso? Sim, muitos se voltaram para falsas religiões ou abandonaram completamente a religião; mas não todos. As ovelhas que guardam a Fé podem ser encontradas dispersas em todas as direções, porque seu pastor, o Papa, foi ferido, mas ainda podem ser encontradas na Igreja oficial, no que costumavam ser grupos da Ecclesia Dei, na Fraternidade Sacerdotal São Pio X, na Fraternidade São Pedro, na “Resistência”, nos sedevacantistas e assim por diante. Todos eles são susceptíveis de excomungarem-se uns aos outros, mas não é isso o que importa. O que importa é a Verdade Católica, à qual todos eles estão mais ou menos aferrados, a menos e até que se soltem, mas essa Verdade inclui que todos eles devem voltar a estar sob a Autoridade Católica assim que ela voltar a estar sob a Verdade Católica, mas não antes. Qualquer um pode prever que nem todas as ovelhas agora dispersas acharão igualmente fácil submeter-se à Autoridade, mas será igualmente necessário se quiserem continuar sendo católicas. Enquanto isso, quem pode dizer que Deus abandonou Suas ovelhas? A regra de ouro é que Ele nunca abandona uma alma que não O tenha abandonado primeiro. Na verdade, muitos de nós podemos falar das maneiras notáveis ​​pelas quais Ele nos permitiu individualmente manter a Fé, ou mesmo retornar a ela, e isso inclui a crise da própria Igreja. Sem a loucura dos modernistas, alguém poderia ter continuado como um sonâmbulo na Fé até morrer. Pode-se achar difícil agora encontrar um grupo ao qual se possa aderir para viver a Fé, mas se alguém busca e continua buscando até encontrar o que precisa, não é Deus que deixará de provê-lo. Por cerca de 40 anos, a Fraternidade Sacerdotal São Pio X foi um verdadeiro oásis no deserto, e ainda muitas almas encontram refúgio nela. O Arcebispo Viganò insta agora a continuar antepondo a Verdade à Autoridade desorientada, a Fé à “obediência”. Portanto, os manuais de teologia de ontem (cordões de pérolas católicas) estavam certos quando diziam coisas como: "Nenhuma heresia pode vir do Papa, porque então a situação da Igreja seria irremediável". Essa situação é agora humanamente irremediável, mas os manuais devem acrescentar o "humanamente", porque eles haviam esquecido que o que pode realmente ser efetivamente irremediável para os homens pode ser uma brincadeira de criança para Deus. Kyrie eleison.

  • Comentários Eleison nº 729

    Por Dom Williamson Número DCCXXIX (729) – 26 de junho de 2021 DEUS NO CENTRO Que a cada dia mais almas se perguntem, O que esses criminosos estão inoculando em nós! Quando me pergunto como podem zilhões de cidadãos em todo o mundo ter tão pouco bom senso a ponto admitir e aceitar esse absurdo da covid, uma avalanche de mentiras que cativa a mente das pessoas, e então a estupidez tirânica que domina seu comportamento, só consigo chegar a uma resposta: eles deixaram que a “ciência”, e então a tecnologia, e, finalmente, a eletrônica dominarem suas vidas de forma que não tenham mais bom senso suficiente para reconhecer a fraude global e enfrentar os tiranos globais. É uma antecipação do que São Paulo diz sobre a vinda do Anticristo: “E então se manifestará esse iníquo... a vinda dele é por obra de Satanás com todo o poder e com sinais e prodígios mentirosos, e com todas as seduções da iniquidade para aqueles que se perdem, porque por sua culpa não abraçaram o amor da verdade para serem salvos. Por isso Deus lhes enviará o artifício do erro, de tal modo que creiam na mentira, para que sejam condenados todos os que não deram crédito à verdade, mas se comprouveram na iniquidade” (II Tes. II, 8-11). Este é um texto que é válido para todas as épocas e todos os lugares, mas aplica-se mais do que nunca à medida que nos aproximamos do fim do mundo. Observe-se como o problema começa com a falta de amor pela verdade. Amar a verdade e buscá-la é um grande dom de Deus, porque se alguém a busca, a encontrará (Mt. VII, 7–8), e se então continua a buscá-la, Deus conduzirá o que a busca para o Céu e para a felicidade eterna, e nada menos que isso. Mas se por amor ao mundo, à carne ou ao Diabo, esses três grandes inimigos da alma, alguém recusa a verdade ou se recusa a persegui-la, então à falta da verdade na mente necessariamente seguirá o erro na mente, a erosão do bom senso e a corrupção e a imoralidade na vontade. Pois, com efeito, o bom senso é um dom de Deus natural da mente, com sua capacidade de reconhecer a realidade que a rodeia, e com a realidade a verdade, uma capacidade normalmente necessária para sobreviver. Mas se eu coloco minha vontade contra a realidade e a verdade, como me é possível fazer, então Deus permitirá que eu corroa de tal modo meu bom senso que ele já não terá nenhum sentido para mim. Isso é o que está acontecendo agora em escala global, de modo que os mais prestigiosos dos “intelectuais” estão se tornando os mais estúpidos dos seres humanos; pois, por exemplo, para impor seu próprio esquema de igualdade na Criação sobre o desígnio de variedade de Deus por meio da desigualdade, eles se recusarão a dar qualquer reconhecimento à múltipla complementaridade entre o homem e a mulher, e se empenharão em transformar homens em mulheres e mulheres em homens, com resultados desastrosos para ambos, e com operações cirúrgicas catastróficas para os meninos que supostamente se transformem em meninas e as meninas que supostamente se transformem em meninos. Mas por que não, se Deus, a Criação, a Natureza, Adão e Eva, o Céu e o Inferno não são verdadeiros? Então, o mundo inteiro se torna meu brinquedo, e o cercadinho de pessoas como Gates, Soros e Schwab. Eis porque o único e verdadeiro Deus, de quem derivam a Criação, a Natureza, Adão e Eva, o Céu e o Inferno, está no centro mesmo desta fraude-covid global. NÃO porque Ele a tenha causado diretamente, mas porque Ele certamente primeiro a permitiu, "para que sejam condenados todos os que não deram crédito à verdade, mas se comprouveram na iniquidade". Nenhuma mentira pode entrar em Seu Céu, muito menos uma avalanche de mentiras. Mas Ele pretende povoar Seu Céu, por mais que os homens queiram despovoar Seu mundo! Kyrie eleison.

  • VIII - A Misericórdia de Deus - Deus procura o pecador

    1 - Voltemos ao Filho pródigo. Quando ele se pôs longe de sua casa, começou a desperdiçar com uma vida de dissoluto. Dinheiro tinha muito: daí os jantares, ceias, teatros, jogos, bailes, alegrias; e tinha criados e cavalos, e tinha companheiros falantes que faziam farras com ele à sua custa; e, o que é pior, entregou-se a desonesta libertinagem. Assim, em pouco tempo, consumindo todo o seu patrimônio, achou-se na miséria, sem eira nem beira: Dissipavit substantiam suam, vivendo luxuriose... et coepit egere (Lc 15, 13-14). E os amigos todos que haviam gozando à sua custa? Não tendo mais o que filar, abandonaram-no. Que fazer agora para manter a vida? Ainda por cima, no tal lugar, para o tomar como criado. O senhor aceitou-o; mas em que emprego? Mandou-o para uma casa de campo sua para ser guarda de porcos. E a paga? Mas que paga?! Algum pedaço de pão negro e mofado. De sorte que, para não morrer de fome, teve o desgraçado de acostumar-se à comida daqueles sujos animais: comer bolotas; e mesmo disso não podia saciar-se: “E cobiçava (diz o Evangelho) encher a barriga com as glandes que os porcos comiam; e ninguém lhas dava". *** Oh! A que estado é afinal reduzido esse jovem que antes era tão rico! Não vos parece vê-lo sob um carvalho... Melancólico, humilde, maltrapilho e macilento? Deixemo-lo por enquanto ali com sua bela companhia... e façamos agora algumas reflexões. 2 – Esse é o estado dos pecadores que vivem afastados de Deus: e é também a condição de muitos jovens que, após se alimentarem tantas vezes da mesa dos Anjos, alimentam-se da mesa dos demônios e bebem o veneno do pecado; após saborearem as delícias do serviço de Deus, se metem a servir de criados desse grande tirano que é o demônio. E Deus espera que tais pecadores voltem a ele e os procura, e os chama... Escutai como faz. A parábola do pastor e das ovelhas – Um pastor (diz Jesus Cristo no Evangelho) levou ao pasto 100 ovelhas. Quando estava para as reconduzir para casa, percebeu que só havia 99. Aí ficou muito perturbado. - Ai de mim! Falta uma ovelha! – dizia ele. E... já, a procurá-la por montes e vales, deixando as demais. Afinal a encontra! Todo alegre põe-na às costas; e de volta para casa, chama os amigos e vizinhos, dizendo-lhes: - Rejubilai-vos comigo, pois achei a minha ovelha que se extraviara (Lc 15, 4-6). *** Assim faz o Senhor com os pecadores. Corre atrás deles: procura-os e chama-os, pois não o quer que se percam. Não veio porventura Jesus Cristo ao mundo para salvar as almas que andavam perdidas? Venit Filius hominis quaerere et salvum facere quod perierat (Lc 19,10). 3 – E DE QUANTOS MODOS procura o bom Deus o pecador! Procura-o e chama-o com as boas inspirações que lhe manda..., com as prédicas..., com os bons livros..., com os conselhos e censuras dos pais..., com bons exemplos dos companheiros...; e também com os castigos... (desgraças... doenças...). E diz ao coração dele: “Converte-te ao Senhor, e deixa os teus pecados: Convertere ad Dominum, et relinque peccata tua” (Ecl 17,21). Mas por que tanta solicitude? Perde-nos Deus, porventura? Ah! Pensai quanto lhe custam as almas redimidas! Diz-nos S. Paulo: “Fostes comprados por preço alto" (1 Cor 6,20). (Extraído do livro A Palavra de Deus em Exemplos, G. Montarino, Do original La Parole di Dio per la Via d’Esempi)

  • VIII - A Misericórdia de Deus - Deus mantém e espera

    Uma decisão do Senado Romano – No ano de 70, sob Vespasiano imperador, reuniu-se o Senado romano a fim de decidir que denominação se devia dar ao Deus supremo. E um Senador disse: - Deve-se chamar Deus de potência. E um outro disse: - Não, é melhor chamá-Lo de Deus de sabedoria. E um terceiro: - O nome mais adequado seria Deus de justiça. Finalmente se ergueu um Senador velho e venerando disse: - O nome mais próprio é este: Deus de bondade. Depois mostrou uma imagem do Senhor de semblante amável, com estas palavras escritas em torno: “Eu amo a todos vós; perdoo a todos vós, pois sou o Deus da bondade e do amor”. - "Eis o verdadeiro nome” – gritaram então todos os senadores. *** Queridos filhos, também eu estou aqui, para dizer-vos que dentre todos os atributos de Deus (grandeza, potência, sabedoria, justiça), o que mais se manifesta é a bondade e a misericórdia. Se estais apavorados ante as meditações do pecado, do Juízo e do inferno, agora tendes motivo para consolar-vos e esperar, considerando a Misericórdia de Deus. Vereis como esta é grande para com os pecadores: 1- No esperá-los; 2- No procurá-los; 3- No acolhê-los. I – A partida (Deus mantém e espera) Um homem tinha dois filhos. O menor deles um dia se apresentou ao pai e disse com arrogância: - Dai-me parte da herança que me toca: estou cansado de ficar em vossa casa e quero ir para longe daqui. Imaginai a dor desse pobre pai! - Mas por que queres fazer isso? Porventura te falta alguma coisa? Não te tratei sempre bem? – disse o bom velho. E o rapazola: - Não, não. Aqui não quero ficar mais; dai-me a minha parte... Aí o pai dividiu com ele os haveres; e o desgraçado filho voltou-lhe as costas vilmente sem ao menos lhe dizer adeus; e, feito o embrulho do seu quinhão, foi para um lugar distante: Congregatis omnibus, profectus est in regionem longinquam (Lc 15,13). II – Paremos um momento a considerar. Quem é esse Pai bondoso? É Deus. E esse filho desnaturado, quem é? É o pecador que, cansado de gozar a paz, enojado das graças, dos favores e das carícias de seu Deus, quer abandoná-Lo; para entregar-se nos braços do demônio com os pecados. E diz: “Que me importa a mim Deus e sua lei? Quero viver à minha vontade; quero a liberdade”. Oh! Sim! Bela liberdade quando se é escravo do demônio! Ouve bem o pecador a voz de Deus que lhe diz ao coração: “Não, querido filho, não terás felicidade longe de mim, com o pecado se está mal demais!... É uma vida sem a graça....”. Depois vem a consciência e lhe diz: “Essas ideias... essas conversas... essa desonestidade... essa vingança... blasfêmias... desobediências... tornar-te-ão infeliz”... “Mas como? Quero os meus bens: os olhos, o corpo, o coração, para fazer o que me agrada...” – pensa o pecador. E eis a rebeldia do pecador contra Deus. Mas poderia o Senhor fulminá-lo imediatamente? Sim, poderia: basta apenas que dê a permissão às criaturas, à terra, à água, ao fogo, para vingar-se desse pecador. A terra diz: Senhor, se quereis eu escancaro os meus abismos para o engolir. A água diz: Senhor, se o quereis eu o afogo. O fogo diz: Senhor, se o quereis eu com as chamas o incinero... Mas Deus é pai bondoso e misericordioso que mantém e espera os pecadores que se afastam dele. Ele não deseja a morte do ímpio, mas sim que se converta e viva: Nolo mortem impii, sed ut convertatur, et vivat (Ez 33,11). Davi e Absalão – Absalão, filho do rei Davi, rebelou-se contra seu pai. E Davi foi obrigado a mandar contra ele o seu exército. Mas Davi não esqueceu que era seu pai. Por isso, quando os capitães esboçavam enfado e esperavam só o momento de se vingar de Absalão, ele se pôs na porta onde passavam as fileiras de soldados, e gritou aos capitães: - Ide, pois, contra os inimigos e derrotai-os, mas, por caridade, salvai a vida de meu filho Absalão: Servate mihi puerum Absalon (2 Rs 18,5). *** Assim, quando as criaturas querem vingar-se sobre o pecador e destruí-lo, Deus misericordioso lhes diz: “Não! Deixai-o viver ainda; poupai-o, para que possa converter-se: Nolo mortem impii, sed ut convertatur et vivat” (Ez 33,11). (Extraído do livro A Palavra de Deus em Exemplos, G. Montarino, Do original La Parole di Dio per la Via d’Esempi)

  • Comentários Eleison nº 728

    Por Dom Williamson Número DCCXXVIII (728) – 26 de junho de 2021 VERDADE E AUTORIDADE – II Quão cegos estão os homens que governam o mundo! Pelos católicos a verdade deve ser primeiro desfraldada. Pode-se concordar ou não com a afirmação feita duas semanas atrás nestes “Comentários” (n. 726, de 12 de junho) de que no Vaticano II (1962-1965) a Verdade Católica foi separada, em termos gerais, da Autoridade católica; mas ela é, em todo caso, uma posição que explica em grande medida a amplitude e a profundidade da confusão sem precedentes que passou a reinar dentro da Igreja Católica desde então. Pois, com efeito, os católicos que se aferram à Verdade se aferram ferozmente porque sabem que ela é católica, enquanto os católicos leais ao que parece ser Autoridade são ferozmente leais porque também sabem que não há Igreja Católica se não houver Autoridade. Como costumava dizer o Arcebispo Lefebvre, foi a obra-prima do Diabo ter lançado os católicos por meio da “obediência” (à Autoridade) à desobediência (à Verdade). A partir deste diagnóstico, desprendem-se importantes conclusões. 1. Visto que a Verdade católica é imutável em sua essência, então é a Autoridade que terá de retornar à Tradição para que a crise e a confusão causadas pela ruptura entre Verdade e Autoridade cheguem ao fim. Ora, por sua verdadeira definição, a autoridade só pode vir de cima: “Se Deus não existe, não tenho motivo para ser um oficial do exército”, diz um personagem de Os Demônios de Dostoievski. Portanto, só Deus pode colocar o Papa de pé novamente, e Ele nos disse através de Sua Mãe em Fátima como o fará: através da Consagração da Rússia pelo Papa ao Seu Imaculado Coração em união com todos os Bispos católicos do mundo. Mas só quando um número suficiente de católicos estiver rezando por essa Consagração, ela acontecerá. 2. Entretanto, há necessariamente na Igreja de cima a baixo um estado de desordem que, nas palavras do provérbio, “se deve suportar porque não se pode curar”. O Deus Todo-Poderoso não deixou de cuidar de Sua Igreja; na verdade, Ele está usando a crise para sacudir os frutos podres da árvore. Ele sabe exatamente o que faz, de modo que não é hora de deixar de acreditar na Igreja Católica, assim como não seria hora de deixar de crer na divindade de Nosso Senhor se fôssemos espectadores ou transeuntes na primeira Via Sacra em Jerusalém enquanto Nosso Senhor estivesse passando cambaleando diante de nós. E, no entanto, humanamente falando, quantas razões teríamos, diante daquele espetáculo, para não crer! Hoje, divinamente falando, quantas razões temos para acreditar no futuro da Igreja. No fim do mundo, ela será ainda mais abalada do que está sendo hoje, mas o Anticristo trará o maior triunfo da Igreja em toda a sua história. 3. Por isso, os católicos precisam hoje de uma confiança ilimitada na Sabedoria e na Onipotência de Deus, apesar de todas as aparências. Um dia, os pobres desgraçados que agora governam o mundo e planejam completar seu poder sobre toda a humanidade por uma combinação de injeções desde o interior e radiação desde o exterior, derreter-se-ão como cera, como diz o salmista, diante da face de Deus. Eles se tornaram como as máquinas que adoram. Tão pouca noção têm de Deus, ou do espírito que se eleva por cima da matéria, ou do livre arbítrio, que realmente planejam transformar seres humanos em robôs. Deus ri deles, diz novamente o salmista (Salmo 2). Cabe-nos a nós dar a Deus toda a honra, todo amor e toda glória que falta por parte deles, e à sua Mãe todos os Rosários que Ela pede para poder interceder junto a Deus pela conversão e salvação deles, e pelas nossas. 4. E, finalmente, em meio a toda a atual confusão e falta de autoridade, nós católicos precisamos dessa caridade, especialmente para com os nossos colegas católicos, que cobre um grande número de nossos próprios pecados e que prepara a restauração e reunião da Igreja de amanhã. Pode ser que eu conheça a Verdade, mas “o conhecimento incha, enquanto a caridade edifica”, diz São Paulo. Mesmo os globalistas e os banqueiros não são hoje meus verdadeiros inimigos. Estes ainda são “principados e potestades (do inferno)”, “os príncipes deste mundo tenebroso”, “as forças espirituais do mal (espalhadas) nos ares” (Ef. VI, 11). A verdadeira guerra é espiritual, contra os anjos caídos, e ocorre primeiramente em minha própria alma. Kyrie eleison.

  • Mísera sorte, estranha condição!

    Por Gustavo Corção, publicado n’O Globo em 23/05/1974 LEIO a notícia: "Spínola assume e nomeia o Gabinete"; leio os nomes de dois ministros socialistas e de dois ministros comunistas nesse governo dito democrata e liberador — e concluo que o General Antônio de Spínola é hoje o único homem no mundo que ainda não sabe exatamente o que é um comunista. A MESMA notícia anuncia também que o General Spínola exaltou o regime democrático e prometeu entregar o poder aos civis após realização de eleições livres: e esta leitura não me levou à conclusão análoga de que o dito general seja o único e o último homem do mundo a acreditar na viabilidade das eleições livres, na vantagem delas, e nas excelências de um regime democrático que sempre se definirá pelo máximo teor da anarquia. Neste ponto o revolucionário português ainda acompanha a miragem da maioria de uma civilização inebriada de utopias e indigestada de contraverdades. Por toda a parte ainda vejo e ouço a mesma obstinada convicção que a História em vão desmente. Sim, por toda a parte ainda se lê, como resumo de filosofia política, a expressão de um desejo de democracia, de verdadeira democracia, quando já ficou abundantemente provado que a democracia é um erro, um vício ou um mau desejo tanto mais viciado e errado quanto mais fiel procura ser aos seus princípios. Posto nesta altura de tão inditoso século, como o velho do Restelo dos Lusíadas, não me canso de clamar: "mísera sorte, estranha condição!" diante de cada empreendimento em que vejo os homens se armarem e se prepararem para alguma nova aventura no encalço do Nada. Agora é nosso amado Portugal que, à beira dos conhecidíssimos precipícios, anuncia ao mundo uma lusíada às avessas. E O QUE pasma e enfastia é ainda ouvir as mesmas pausadas reflexões esperançosas que explicam a boina e o livro do General Spínola pelos defeitos do governo anterior, que teria sido sufocante, constrangedor, colonialista, fascista e não sei mais o quê. Dizem que o atual movimento abre para Portugal as janelas da democracia e da liberdade sem que ninguém explique cabalmente que benefícios já trouxe para o mundo essa utopia de um governo do povo, pelo povo e para o povo, e sobretudo sem ninguém explicar o mecanismo graças ao qual a liberdade de imprensa e de programas de TV, em combinação com o sufrágio universal e demais peças do jogo democrático produzem a fartura e a felicidade para os povos. O tipo de civilização produzido com tal utopia aí está diante de nós, acintoso, evidente, a nos fazer sua medonha careta de acelerada degradação. E os homens de um ocidente que já foi cristão não aprendem, na vigésima, na trigésima lição, aquilo que Edmond Burke gritava aflito nos dias turvos da Revolução Francesa que, num momento de mundial estupidificação, foi visto como um progresso para o homem. Como hoje na ONU e nos meios dos padres progressistas, falava-se muito de direitos do homem, e observando que todos os direitos apregoados estavam na linha da liberdade e da anarquia, o inglês Edmond Burke reclamou genialmente o "direito ao constrangimento" em On Revolution, para bem assinalar que o homem precisa ser mantido num quadro de constrangimentos regrados pela razão em vez de ser largado à indeterminação e aos caprichos de seus instintos elementares. DAÍ a necessidade fundamental de qualquer regime político que realmente procure enaltecer a dignidade do homem e não a licenciosidade de seus instintos. Assim como as crianças têm um fundamental direito à proteção e a certos constrangimentos, assim também os povos e essa filosofia do bom senso era a que inspirava o governo anterior de Portugal, como inspira os governos do Brasil. Agora, o vento das liberdades anárquicas e hedonistas pretende inculcar, no povo visitado por Nossa Senhora, a idéia de um regime político alegremente escancarado, ébrio e coroado de rosas. Mas por uma humorística contradição do demônio puseram-se ao lado dos festivos libertadores dois socialistas e dois comunistas. A história de Ialta é recente. Viu-se que um dos principais assessores do Presidente Roosevelt, representante da máxima democracia, era um comunista; a história de Willy Brandt é recentíssima — viu-se, que o idealizador de uma Alemanha unificada e democrática, se não era um simples e torpe traidor, era mais um idiota, cujo principal assessor viera do partido comunista com a missão de prostituí-lo e ridicularizá-lo. Nenhuma dessas lições aproveita, porque o orgulho do homem moderno não lhe permite aceitar um regime ordenado, disciplinado e PENITENTE! Todos querem orgias de todos os bens terrestres e de todos os terrestres prazeres: os políticos estão intimados a inventar a máquina que produza essa espécie de felicidade. E O RESULTADO que mais uma vez se observa é esta fastidiosa monotonia: é sempre a revolução ateia, maçônica ou comunista que colhe os proveitos produzidos pelos ideais e pelas desastradas parvoíces dos tolos. E o que nos dói, como na própria pele, é que esse triunfo do comunismo e de Satã seja colhido nas amadas terras de Portugal, onde Nossa Senhora, extremosíssima Mãe de Deus e dos homens, anunciou tudo vertendo lágrimas e agitando os astros, para gravar bem a atenção dos homens pela piedade e pelo espanto. Nem assim gravou.

  • Os Direitos do Homem

    Publicado por Gustavo Corção n’O Globo em 25-05-1974 O NÚMERO 1650 de La Documentation Catholique, a 17 de março de 74, publicou, nas páginas 270 e seguintes, uma Declaração de Bispos Norte-Americanos sobre o Chile e o Brasil. A revista francesa, que pretende oficialmente exprimir o pensamento da Igreja, por sua documentação geralmente objetiva mas sempre escolhida e filtrada pelos critérios da Anti-igreja, de início informa que é o Comitê Executivo da Conferência Episcopal dos Estados Unidos, com 28 membros, representando o Episcopado Norte-Americano, que faz essas duas declarações motivadas pelo fato de serem abertamente violados em dois países os direitos do homem. Esses dois países são o Brasil e o Chile. * * * AGORA nós. E de início, pela quarta ou quinta vez, denuncio eu a abusiva sinédoque, pela qual essa Comissão pretende falar pela Conferência Episcopal, e essa Conferência Episcopal pretende falar pelo Episcopado. Há nesse abuso um amontoado de equívocos sobre as competentes autoridades na hierarquia da Igreja, e uma intolerável mistura de elementos de direito divino, com relações e instituições de invenção humana. O conjunto monstruoso redunda numa diminuição do valor da autoridade de direito divino, e, portanto, num evidente trabalho de demolição da Igreja. O que clama aos céus é a impunidade tranquila em que se processa essa impostura desmoralizante da verdadeira autoridade da Igreja. ORA, são esses falsários que engrossam a voz para apontar à execração mundial dois países que "violam os direitos do homem". Antes de analisarmos a forma de tais violações ponderemos um fato que parece passar despercebido a todo o mundo: a súbita valorização dos "direitos do homem" furiosamente surgida nos meios da Anti-igreja em lugar e muitas vezes em prejuízo do espaço que devia ser ocupado pelos Mandamentos de Deus. Ora, convém lembrar que a história dos direitos do homem corre paralela à da Revolução que quer acabar com a última lembrança do senhorio de Deus. Não me refiro aqui à história do direito que é paralela à da lei natural e, portanto, da lei divina, mas a esta específica noção de "direitos do homem" que surgiu na Revolução Francesa e na Independência Americana como um movimento maçônico, ou como uma rebelião do novo humanismo. Até hoje na ONU e nos pronunciamentos eclesiásticos guardam esses "Direitos do Homem" o mesmo sabor contestatário que quer "a morte do Pai". No mundo que já foi católico, os mais altos personagens que jogam o duplo jogo não escondem o seu entusiasmo pela bandeira da Revolução e não disfarçam seu desprezo pelos Mandamentos de Deus. E é por isso que esses Norte-Americanos, usurpadores da autoridade conjunta do "Episcopado" (que só seria validamente manifestada com assinatura de todos os bispos), dizem que o Chile e o Brasil violam os direitos do homem. Nunca que me conste, disseram nada quando esses dois países eram dirigidos pela infiltração comunista; protestam agora porque esses dois países, dentro da universal e degradante capitulação, ousam combater o comunismo. Essa é a violação dos direitos do homem de que nos acusam esses bispos da Anti-igreja nos Estados Unidos, que não tiveram uma palavra para clamar contra a violação da autoridade em seu próprio país. E por aí se vê sem sombra de dúvida que esse zelo em torno dos Direitos do Homem é um disfarce da impiedade com que alimentam o Desprezo de Deus. E ESSES atrevidos, perversos ou imbecis, não hesitam em se intrometer em problemas sérios de política internacional que podem causar grandes danos a homens concretos, homens de carne, osso e alma feita à imagem e semelhança de Deus, para os quais — diga-se com toda a clareza — estão se lixando. Sim, porque o Homem dos estandartes do "Direito" é uma cruel abstração que serve para anestesiar as inteligências e acionar as máquinas da Revolução comandada por Satã e obedecida pelos Comitês das Conferências Episcopais. CHAMO a atenção do Governo brasileiro para esta passagem da declaração norte-americana: "Nosso governo — dizem os 28 — deve estudar atentamente seu programa de ajuda financeira e militar para estar certo de não estar servindo de reforço aos atentados contra a dignidade humana. Além disso o governo dos Estados Unidos deve examinar sua política comercial e tarifária para se assegurar de que não favorece a repressão dos direitos do homem. Conjuntamente com outros governos deve continuar a vigiar de perto os negócios do Brasil, e exercer uma pressão sobre as autoridades brasileiras de maneira a levá-las a restabelecer os direitos do homem por intermédio, principalmente, dos diferentes organismos intermediários, tais como as Nações Unidas". EIS aí como relincha o Cavalo de Tróia que entrou na Igreja, e agora, com uma evidência ofuscante, a pretexto de servir o homem, querem substituir as pedras dos Mandamentos de Deus pelos cartazes dos Direitos do Homem. É para nós uma excelsa honra esse encarniçado ódio de Satã por nossa Pátria; mas essa honra não nos dispensa de vigilância e zelo cada vez maior na defesa de um regime em que Deus reine. SERÁ preciso explicar, a algum leitor mais obtuso, que "os direitos do homem" que aqui invectivo são os da falsa bandeira anarquista, e não os verdadeiros que não podem incluir o direito de desprezar o senhorio de Deus. Se uma sociedade reconhece esse direito, em nome da liberdade de crença, tornou-se uma indigna aglomeração de idiotas ávidos de prazer.

  • Ainda os ataques ao Brasil

    Publicado por Gustavo Corção n’O Globo em 01-06-1974 NO MESMO NÚMERO de Documentation Catholique citado em meu artigo da semana passada, no de 17 de março do corrente ano, leio outro tópico especialmente empenhado na encarniçada difamação do Brasil. O título desse tópico é: "Bispos defendem os índios da Amazônia". Vejamos o texto: "Seis bispos brasileiros e numerosos missionários católicos desse país (Brasil) publicaram um manifesto de "extrema urgência" denunciando a exterminação dos índios no Brasil. Este documento de trinta e quatro páginas intitulado "O índio, alguém que deve morrer" pressiona o governo brasileiro a fim de modificar as orientações de sua política". ESSE TEXTO que a revista francesa comenta com espantosa puerilidade, e da qual não encontramos até agora o menor vestígio, estaria baseado em estudos de "eminentes antropólogos, etnólogos e especialistas na matéria". Em que matéria estariam especializados os especialistas anônimos invocados pela revista La Documentation Catholique, que anos atrás já foi honesta e católica. Continua dizendo esta asneira fundamental com tom grave de quem enuncia um incontestável princípio: "O documento demonstra que a situação dos índios piorou desde que tentaram lhes impor a cultura e a civilização européia." A ACREDITAR na DC, alguns bispos do Brasil têm por princípio que o atraso paleolítico de sua cultura deve ser mantido e respeitado. Com este princípio seria criminoso, contrário aos direitos do homem, dar-lhes uma enxada ou ensinar-lhes a fazer o sinal da cruz. Sim, a acreditar na obscena enxurrada de mentiras que se revestem de denominações católicas sem nenhum protesto das autoridades realmente católicas, há bispos e missionários "católicos" que erguem a voz em defesa dos índios contra a evangelização. NA CONTINUAÇÃO do mesmo tópico da DC de 17 de março do corrente ano, pág. 286, lemos o desenvolvimento da idéia pela qual não se deve ensinar, não se deve educar, não se deve civilizar. Eis os termos: "A política oficial do governo (brasileiro) visa unicamente a integração, sem respeitar as formas de vida próprias daqueles que compõem as diferentes camadas do país. Esse processo de integração se inspira numa perspectiva puramente econômica que, segundo o manifesto, coloca a produção acima do produtor, a renda nacional acima da renda dos cidadãos, os lucros acima do trabalho". INTERROMPO a citação para lembrar ao leitor que se trata de um texto de DC onde essa revista francesa, julgando prestar bom serviço a não sei que espécie de religião, atribui a bispos do Brasil tão primárias asneiras, como se já não nos bastassem as que tantos deles aqui no Brasil e na própria língua difundem. Continuo a citação: "Nessas condições", frisa o manifesto, "não há para os índios senão uma saída: a volta à miséria, isto é, a morte cultural e biológica das comunidades indígenas". ORA, SE A IMPOSIÇÃO da civilização européia empurra os índios para a miséria e para a morte cultural e biológica, parece-me então que a recíproca nos oferece uma tentadora perspectiva de prosperidade econômica para os pobres que Dom Hélder trocou pelos milhões que diz ter recebido na Noruega. Sim. Eis o caminho que indico ao Governo como sugestão vinda de Paris: indianizar o Nordeste para libertar as massas da opressiva civilização européia. Voltemos ao tacape, ao arco e à flecha, à caça e à pesca. E, onde não houver melhor solução, voltemos à antropofagia. Se os bispos autores desse manifesto espectral, que só a DC conhece, seguirem o itinerário do infortunado Pero Fernandes Sardinha, prestariam à causa que defendem um serviço melhor do que o de escrever manifestos que só a DC publica em pedaços. REFERI-ME ATRÁS a Dom Hélder. Ora, o mesmo número de DC, decididamente empenhado em denegrir o Brasil, exalta esse personagem, e publica o prêmio que teria recebido na Noruega, para compensar, na opinião pública, o que não recebeu da Suécia. Tudo é prêmio, tudo é escandinavo, e sobretudo opinião pública. Na página 289 lemos a própria declaração de Dom Hélder sobre a aplicação que dará aos 350 000 que teria recebido: "esta soma será consagrada ao combate não violento por um mundo melhor". Como certamente mais de um perguntou como se poderá combater sem flecha, espada, tiro ou bomba, Dom Hélder prometeu informar mais tarde, às autoridades brasileiras, a forma que tomará esse combate comandado por Dom Hélder Câmara. Torna-se evidente que Dom Hélder declarou guerra ao Brasil, mas ainda não explicou se seus canhões despejarão inumanas bombas de aço ou atirarão projéteis de manteiga de cacau, como os canhões humanitários do saudoso comunista Barão de Itararé. Naquele tempo o comunismo ainda podia interessar um louco genial como o Barão de Itararé; hoje só desperta interesse na enxurrada de bobos que cobrirá o mundo de uma noosfera teilhardiana com a altura dos pensamentos de Dom Hélder Câmara, padrão do raquitismo mental que se tornou um imperativo da modernidade. E O QUE MAIS entristece nessa pantomima de dimensões planetárias é a passiva indiferença com que as autoridades eclesiásticas permitem que esse declaradíssimo agente subversivo continue a dizer-se Arcebispo do infortunado povo de Olinda e Recife, que merecia um pastor de verdade, em lugar do polichinelo anarquista. FEITO O IRREPRIMÍVEL reparo sobre as autoridades eclesiásticas, dirijo minhas fracas esperanças às autoridades civis: por que não interpela o Governo Brasileiro por seus representantes titulados o Governo que apóia Dom Hélder? Por que não expulsa Dom Hélder do Brasil como declarado inimigo? Se alguma instituição no mundo quer apoiar e enaltecer Dom Hélder, que fique com ele: a nós não faz falta nenhuma. NA VERDADE, eu não acredito no prêmio, nem dou grande valor ao perigo de suas andanças escandinavas ou moscovitas. Não é o receio pela segurança de meu país que me obriga a voltar a essa triste figura. O que me compele a essa monótona campanha é a sensibilidade ao ridículo. Como brasileiro e principalmente como católico tenho vergonha de ver minha Igreja e minha Pátria expostas às cambalhotas de um histrião.

  • VII - O Inferno - A Eternidade das Penas

    1 – É palavra de Deus Por quanto tempo estarão os condenados nesses tormentos? Cem anos, mil anos? Anos?! Séculos então?! Mas que séculos! Então até quando? Para sempre! À porta do inferno está escrito: “Deixai toda esperança, ó vós que entrais!”. Essa é a prisão onde há o sempiterno horror (Jó 10,22). Jesus Cristo diz dos réprobos: “Eles irão para o suplício eterno” (Mt 25,46). De lá então não sairão nunca (Mc 9,45). Durarão sempre as terríveis penas da condenação. Diz o profeta Malaquias: “Os condenados serão por toda a eternidade” (Mal 1,4). Gostariam os condenados de ser aniquilados, e invocarão a segunda morte; a morte fugirá deles para sempre (Apc 9,6). 2 – Como conceber a ideia disso? A eternidade! Como apavora esta palavra! E quem pode fazer uma ideia dela? Quando tiverem passado tantos milhões de anos e de séculos quantas são as estrelas do céu, as areias do mar e as gotas d’água do oceano, começarão os tormentos do inferno. Imaginai um punhado de areia finíssima; contai em seguida todos os grãozinhos. É uma tarefa de fazer ficar louco! E se dessa areia fina se enchesse esta Igreja? E o mundo todo...? Quem pode contar os milhões de grãozinhos? Agora suponde que um pássaro tire um grãozinho cada século... Pois bem, chegará o dia em que o pássaro terá levado a todos, e o inferno estará no começo! Essa ideia fazia tremer o rei Davi que dizia: “Tenho sempre em mente os dias antigos e os anos eternos: Cogitavi dies antiquos et anos aeternos in mente habui” (Sl 76,6). 3 – As coisas que duram muito, cansam Embora agradáveis, tornam-se tormentos. Se uma música durasse demais, não se quereria mais ouvi-la. E as penas que durarão eternamente? Estirado numa cama – Um rapazola de má vida estirava-se moribundo numa cama e dizia para si: “Está-se tão bem aqui!”. Mas depois pensou: “Se eu devesse ficar imóvel aqui uma semana? Um mês? E se essa cama fosse dura? De lâminas cortantes? De fogo? E no inferno? Por uma eternidade???” Ante esse pensamento (que era uma graça do Senhor) ele ficou aterrorizado; mandou chamar o sacerdote, e, após uma boa confissão, converteu-se. “Sempre! Jamais!” – O Ven. João d’Ávila (+1569), desejando converter uma pecadora escandalosa, disse-lhe: - Ide para casa, trancai-vos num quarto, e ali pensai no inferno, repetindo estas palavras: “Sempre! Jamais!”, porém pensai seriamente. A mulher fez como disse o santo homem e mudou de vida. Conclusão Ah! Que coisa terrível será danar-se, e cair nas mãos do Deus vivo! Vede, no entanto, quantos nem pensam nisso, e correm disparados e rindo para o inferno! Di-lo Jesus Cristo: “Larga é a porta, e espaçoso o caminho que conduz à perdição, e muitos são aqueles que ali entram (Mt 7,13). Quantos pecadores estão à beira desse abismo! Se vísseis um rapaz, colega vosso, com o corpo todo de fora a pender da abóbada desta igreja e a manter-se segurando com uma das mãos numa cordinha, que diríeis em vosso coração? “Ai de mim! Agora cai!”. E por ele bater-vos-ia o coração, enquanto alguém com a escada não o pusesse a salvo. Pois bem, o pecador está com o corpo e com a alma suspenso sobre o inferno, e se mantém numa teia de aranha. Sim, é de se dizer dele com pavor: “Agora cai!”. Dizia São João Crisóstomo a uns pecadores: “Se eu soubesse que um de vós está para jogar um cãozinho no fogo de uma pavorosa fornalha, interpor-me-ia para o dissuadir da cruel ideia. Ora, ao ver aqui alguns que, cheios de pecados, se jogam a si próprios no inferno... para trás, por caridade! Ouvi o que diz o Senhor: “Qual de vós poderá morar naquele fogo devorador?” (Is 33,14). Pensai nisso, afinal, e resolvei. Ó Jesus, Divino Redentor, que desejais salvos a todos nós, nós vos pedimos perdão dos nossos pecados com os quais merecemos o inferno. Diremos também nós com Santo Agostinho: “Castigai-nos neste mundo com aflições; mas não nos mandeis para o inferno!”. Querido Jesus, nós queremos servir-vos fielmente, para ao contrário termos o Paraíso que esperamos de vossa bondade infinita. (Extraído do livro A Palavra de Deus em Exemplos, G. Montarino, Do original La Parole di Dio per la Via d’Esempi)

  • Um Caso Singular

    Por Gustavo Corção, publicado n’o Globo, em 18-07-1974 VEIO-ME AGORA À MENTE o caso mais singular de minha longa coleção de polêmicas. Naquele tempo os adversários contra os quais me batia no "Diário de Notícias" e no "Estado de São Paulo" eram os maus governos do Brasil, que além de o arruinarem ainda cometeram o crime maior de abrir as portas aos inimigos da Civilização. O referido caso singular ocorreu no Governo de Juscelino Kubitschek a propósito da instalação da hidrelétrica de Três Marias. Numa demonstração pomposamente feita na televisão, em fotos, gráficos e cifras, o Presidente Juscelino empulhou o respeitável público: não há, aliás, maneira mais fácil de empulhar do que com fotografias e cifras. No caso de uma realização hidrelétrica há várias cifras em jogo com significações aparentemente idênticas. Uma delas é a que exprime a potência total explorável de uma determinada cachoeira: há desde o início um total que a natureza oferece antes do primeiro parafuso colocado por mão de homem. Seja 450 000 kw essa primeira cifra. A última cifra a figurar em qualquer programa de utilização e distribuição de energia será essa capacidade primeira natural tornada finalmente capacidade última realizada. ANTES DISSO PODEM SER PROGRAMADAS instalações progressivas e parciais. Naquela data trabalhava-se para instalar em Três Marias um alternador de 63.000 kw, e era duvidosa a terminação dessa parte da obra por causa da tirania que a Meta-Principal exercia sobre todas as demais. O locutor, adestrado, perguntou então ao Presidente: — Presidente, qual é o potencial total de Três Marias? — 450.000 kilowatts. — E quando estará terminado? — Impreterivelmente em 31 de dezembro deste ano. NO DIA SEGUINTE, na minha coluna eu escrevi o artigo em que, desde o título, dizia: O PRESIDENTE MENTIU, e no qual entrava em explicações técnicas como as que aqui esbocei. No outro dia os jornais publicavam um artigo contra G. C. parecido com o que anda sendo hoje difundido pela Conferência dos Religiosos do Brasil por todas as casas religiosas. Sim, a mesma página inteira do "Jornal do Brasil", que qualquer pessoa de bom senso imaginava ter envergonhado seus infelizes autores, ao contrário dessa suposição, parece tê-los enchido de glória, porque continuam a difundi-la como quem está muito satisfeito com o que escreveu. ORA, A COLUNA LANÇADA CONTRA G. C. naquele tempo era igualmente caluniosa, injuriosa, e até arrematava, se não me falha a memória, com referências à honestidade profissional do engenheiro que nada empreitou em Brasília. Passam-se os meses. Quase no fim do ano estava a terminar meu almoço quando o telefone chamou-me. Era uma voz feminina, secretária, eficiente, que me transmitia o desejo do dr. X se entrevistar comigo. Marquei a hora no Centro Dom Vital onde durante quinze anos fiz plantão às tardes para todos que desejavam conhecer uma pista do Reino de Deus. Que me quereria o dr. X cujo nome trazia-me ressonâncias de prestígios. Às quatro e cinco bateu-me à porta de meu minúsculo e saudoso escritório. — Entre. ENTROU UM CAVALHEIRO DE MEIA IDADE, bem vestido, e visivelmente habituado à afabilidade e ao destaque. Relanceou um rápido olhar com que mediu meu mundo, e instalou-se à vontade na cadeira que lhe oferecia. Num silêncio de alguns segundos entreolhamo-nos e eu senti que meu interlocutor desejava contar com minha simpatia. Encorajei-o com um gesto e ele, pausadamente. pronunciou: — Vim aqui para lhe pedir perdão. DIZIA ISTO COM FIRMEZA e sem perder o ar de comando e importância que lhe assentava bem na cabeça grisalha e leonina. Depois de um silêncio em que hesitou um pouco, explicou-se: - O Sr. se lembra do artigo que escreveu sobre Três Marias depois do programa de Tv do Presidente? LEMBREI-ME, E TOMADO PELO GOSTO DA POLÊMICA começava a explicar minha argumentação, mas o dr. X estendeu a mão espalmada, num gesto fatigado: - Pelo amor de Deus! Eu estou cansado de saber que o Sr. tem razão. - Então não entendo... - Fui eu que escrevi o artigo do dia seguinte, e é isto que me atormenta a consciência há quase um ano. Não o conheço mas sei que é um homem honesto. Devo, todavia, dizer-lhe que as injúrias pessoais das últimas linhas não foram escritas por mim. As outras foram, e é por isto que estou aqui. DETEVE-SE. VI QUE ERA SINCERO e que lhe doía ter escrito contra a consciência e que até seu natural porte fidalgo atestava o esforço que fizera para essa separação, mas... Voltei-me para a janela e vendo que ele acompanhava meu olhar estendi a mão para a gente que passava lá em baixo. O povo. O público. E, então, balbuciei: - Meu caro senhor, nós ambos somos atados, somos ambos homens públicos e nos devemos àqueles desconhecidos. O perdão é Deus que dá; mas a satisfação também não sou eu que a exijo — são eles. A eles nos devemos. VI QUE EMPALIDECIA. E levantando-se respondeu: - Isto eu não posso fazer. Está acima de minhas forças. Agradeço-lhe a acolhida e espero não merecer o seu desprezo. O LEITOR ESTARÁ PERGUNTANDO por que não publiquei eu no dia seguinte tão precioso desmentido. Parece-me claro, leitor, que eu não tinha o direito de completar o ato moral do dr. X. Além disso, se o fizesse, tudo indica que os prestígios do cargo prevaleceriam, e que o meu adversário simplesmente me desmentiria. QUANDO A PORTA FECHOU-SE sobre as imponentes espáduas ligeiramente curvadas, fiz-lhe para o que desse e viesse um sinal da cruz. E rezei três Ave-Marias para que a Santíssima Virgem nos desse, a nós ambos, a coragem de sempre defender a verdade.

  • VII - O Inferno - As penas

    1 – Pena do Sentido O inferno é o lugar de todos os tormentos: Locus tormentorum (Lc 16,28). É uma prisão onde há fogo aceso; e o sopro de Deus, como torrentes de enxofre, a incendeia, para punir os pecadores: Flatus Domini sicut torrens sulphuris succedens eam (Is 30,33). O fogo: vemo-lo sempre, sabemos como é, como esguicha, arde, chia, inflama, destrói, como funde os metais... Quem não tem visto os fornos? E nos incêndios, e nas erupções dos vulcões que ruínas não causa? Mas o fogo do inferno é bem mais terrível. Comparado com ele, o nosso se pode dizer fogo pintado, como o afirmaram S. Agostinho e S. Gregório Magno. Aquele fogo é aceso pela ira de Deus (Dt 32,22). Imaginai com a vossa fantasia o vasto terrível incêndio que lá se enfurece; a procela de chamas que envolve os condenados, e que lhes penetra nas vísceras, nas veias, no cérebro!... O touro de Perilo – Fálaris, tirano de Agrigento (+ 549 a.C.) sentia cruel prazer ao atormentar seus súditos rebeldes. Um dia condenou ao artífice Perilo que lhe fizesse um novo engenho de suplício; e Perilo construiu um touro de bronze com a barriga oca. Dentro desse engenho devia-se pôr o homem a atormentar, acendendo por baixo dele o fogo. Que suplício terrível! Morrer lentamente dentro de um bronze abrasado! Quando ficou pronto o engenho, o tirano, para o experimentar, pôs dentro dele o próprio Perilo. O mísero artífice soltava gemidos e gritos lancinantes que, ressoando naquele bronze, pareciam mugidos de um touro. Um martírio semelhante foi sofrido por S. Estáquio, general romano, sob o imperador Adriano (século II). Mas esses e outros tormentos, que inventavam os tiranos, mesmo reunidos, não são nada comparados ao fogo do inferno. 2 – A pena correspondente aos pecados Mas no inferno não há só o fogo. Diz S. Jerônimo que nesse fogo mesmo todos os condenados sentirão todos os tormentos. E este quem o pode imaginar? E como o homem em vida peca por meio dos sentidos, no inferno terá a pena correspondente aos pecados cometidos, como está dito na Escritura: “Pelas mesmas coisas com as quais alguém peca, é ele atormentado: Per quae peccat quis, per haec et torquetur” (Sab 11,17). Os cabelos de serpentes – Santa Francisca Romana teve uma vez esta visão: certas mulheres que haviam morrido, e em vida tinham sido muito vãs e sempre inclinadas a ajeitar os cabelos, olvidando a alma, lhe apareceram num lugar de castigo e com os cabelos transformados em serpentes que mordiam continuamente o rosto daquelas desgraçadas. Eis o castigo correspondente aos pecados. *** Todos cinco sentidos dos condenados terão seu tormento no inferno. a) A vista – Ali, trevas pavorosas, interrompidas só pelos relâmpagos, por fulgurações sinistras que deixarão ver as caras horríveis dos demônios e dos condenados, as bocas deformadas, os olhos revirados. Santa Catarina e a vista de um demônio – Santa Catarina de Sena, num êxtase, viu o demônio. A essa vista soltou um grito de pavor e desmaiou. Quando despertou, disse que, a ver outra vez um demônio, preferia caminhar de pés descalços sobre brasas até o dia do Juízo. b) O ouvido – Lá se ouvirá choro e ranger de dentes (Mt 13,50); lamentos que dilaceram, acenos de ira, horríveis blasfêmias, execrandas maldições contra Deus e Jesus Redentor. Os cânticos de um condenado – Conta Mendoza que Deus fez por um momento a um servo seu ver as penas de um condenado apenas caído no inferno. Os demônios deitaram-no num leito de chamas, fizeram-no engolir enxofre fervente e lhe disseram: “Agora canta!”. E o infeliz começou assim: “Maldita hora em que nasci! Malditos os meus pais!... os companheiros que me seduziram! Os prazeres que me arruinaram!”. Depois começou a maldizer o Pai Eterno, o Divino Filho, o Espírito Santo... Eis que cânticos e músicas ouvir-se-ão naquela horrenda prisão! (Frassinetti). *** Ó crianças que ouvis certas conversas... pensai nisso! Vós que agora não podeis suportar o choro de um menino, o latido de um cão!... c) O olfato – Que ar fedorento e pestífero entre os corpos dos condenados, amontoados! Isaías diz: “Sairá o fedor de seus cadáveres” (Is 34,3). S. Boaventura chegou a dizer que se um corpo de condenado fosse trazido do inferno e posto nesta terra chegaria para infeccioná-la toda. d) O paladar – Esse sentido será atormentado por fome canina e sede furiosa. “Os condenados padecerão uma fome de cães” (Sl 58,6); e comerão coisas nojentas: “Seu vinho e fel de dragões e veneno incurável de áspides” (Dt 32,33). e) O tato – Nesse fogo torturante há espadas que cortam, fúrias que dilaceram, serpentes que mordem, demônios que flagelam. Todas as dores, todas as dilacerações cairão sobre o condenado: Omnis dolor super eum (Jó 20,22). 3 – Pena do Dano Está dito tudo do inferno? Não! Há outros tormentos, e maiores. Mas quais? Não os compreendemos nem enquanto estamos vivos; mas o condenado os sente. Ei-los: a) A perda de Deus, e por ser Deus maldito e por ele separado (Mt 25,41). “Essa pena é pior que mil infernos”, diz S. João Crisóstomo. Se Deus se mostrasse aos condenados, eles ficariam felizes em seus tormentos. b) A perda do Paraíso – Essa ideia o condenado tê-la-á sempre fixa na mente: Era a minha pátria! Imaginará a torrente de felicidade entre os Anjos e os Santos... e dirá: Perdi uma felicidade tão grande! c) Por tão pouco! – Que remorso haverá sempre para o condenado este pensamento: Estou no inferno por tão pouco! Não por cem anos de delícias, mas por um capricho... um ímpeto de vingança... prezares de um momento... pensamentos e desejos que nem foram satisfeitos... por um pecado sonegado em confissão! d) Custava pouco salvar-se – Outro pensamento de remorso para o condenado. Dirá ele: “Deus fez-se homem por mim. Com pouco podia eu salvar-me: Bastava-me o temor de Deus... Era tão fácil praticar o bem! Mesmo caído em pecado... eu podia ressurgir e salvar-me! Não me faltavam os meios, as graças, o tempo. A culpa é toda minha: fui condenado justamente porque quis!” Mas será arrependimento inútil: por isso, oh! Que raiva! Que desespero! (Extraído do livro A Palavra de Deus em Exemplos, G. Montarino, Do original La Parole di Dio per la Via d’Esempi)

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