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- Carta Encíclica Fulgens Radiatur, de S.S. Pio XII
CARTA ENCÍCLICA FULGENS RADIATUR DO SUMO PONTÍFICE PAPA PIO XII AOS VENERÁVEIS IRMÃOS PATRIARCAS, PRIMAZES, ARCEBISPOS E BISPOS E OUTROS ORDINÁRIOS DO LUGAR EM PAZ E COMUNHÃO COM A SÉ APOSTÓLICA SOBRE O XIV CENTENÁRIO DA MORTE DE SÃO BENTO PATRIARCA DOS MONGES DO OCIDENTE INTRODUÇÃO S. BENTO, ASTRO BRILHANTE DA IGREJA E DA CIVILIZAÇÃO 1. Fulgurante de luz, Bento de Núrcia, glória da Itália e de toda a Igreja, resplandece como astro na cerração da noite. Quem pacientemente estudar a sua gloriosa vida e adentrar, à luz da história, o tempestuoso tempo em que viveu, há de sentir, indubitavelmente, a realidade da promessa que o Senhor deixou aos apóstolos e a sociedade que fundara: "Estarei convosco, todos os dias, até a consumação dos tempos" (Mt 27, 20). Sentença e promessa que jamais perderá, por certo, a sua atualidade, porque se envolve no curso dos séculos, que a divina Providência governa e encaminha. Com efeito, quando são mais audazes e agressivos os inimigos da religião e mais temerosos os baixios em que se agita a nau vaticana de Pedro, quando tudo, finalmente, se vai, a desmoronar, e já pereceu de todo a esperança humana, então, precisamente, o amigo que não falta, o divino consolador, dispensador dos tesouros celestiais, Jesus Cristo, aparece para reconstituir as fileiras abaladas, com novos contingentes de atletas, que saiam a defender em campo a república cristã, que a reintegrem como antigamente e que, se puder ser, com o auxílio da graça, a enriqueçam de novas conquistas. 2. Entre esses atletas, refulge com luz particular "Bento, que duplamente o foi: por graça e de nome".(1) Por especialíssimo desígnio da Providência, salientava-se nas trevas do século o santo patriarca, à hora precisa em que a situação da Igreja e dos povos atravessava uma crise profunda. O império romano, que atingira o apogeu da glória, estendendo-se, por efeito duma política justa e moderada, aos povos mais diversos, a ponto de afirmar um dos seus escritores "que melhor que império chamarse-lhe-ia padroado da terra",(2) como tudo que é humano, tinha declinado para o ocaso. Debilitado e corrompido por dentro, esfacelado, por fora, pelas repetidas incursões dos bárbaros que desciam do setentrião, o Ocidente afundava-se na mais completa ruína. Nesta horrível procela, cheia de perigos e destroços, donde surgiria à humanidade a esperança de auxílio, a garantia de salvar da voragem, intactas ao menos, as relíquias do seu patrimônio? Da Igreja católica. Com efeito, todos os empreendimentos e instituições, baseados unicamente no arbítrio dos homens, que reciprocamente se sucedem e engrandecem, no rodar do tempo, vêem, em virtude da própria fragilidade essencial, decair e arruinar-se. A Igreja, porém, possui, derivante do próprio fundador, a propriedade de fruir da vida divina, dum vigor incessante que lhe permite sair da luta com os homens e as coisas sempre vencedora, apta para arrancar, ainda do entulho, uma idade nova e mais feliz e reagregar os povos, com o influxo dos princípios cristãos, numa sociedade rejuvenescida. 3. Por isso, na provável ocorrência do XIV centenário da morte do santo patriarca, em que coroado de méritos e esgotado de trabalhos despendidos em prol de Deus e dos homens, venturosamente passou deste exílio da terra à pátria celeste, houvemos por bem, veneráveis irmãos, salientar, ainda que resumidamente, nesta nossa carta encíclica o momentoso papel que desempenhou na reintegração e reforma das coisas do seu tempo. I. A FIGURA HISTÓRICA DO PATRIARCA 4. Filho de nobres pais e natural da província de Núrcia,(3) "foi plenificado no seu espírito de todas as virtudes"(4) e defendeu a Igreja, admiravelmente, com sua prudência e virtude. Com efeito, enquanto o mundo se atolava e empobrecia no vício, enquanto a Europa e a Itália pareciam um miserável teatro de guerra e de povos em luta, e até as próprias instituições monásticas, manchadas com o pó da terra não dispunham já daquela porção de vitalidade e energia indispensáveis para resistir com vantagem às insinuações da corrupção, Bento estabeleceu na Igreja, com sua obra e vida, uma corrente perene de juventude, renovando a severidade dos costumes e robustecendo, de leis mais santas e vigorosas, a vida claustral. Mas isto não é tudo. Porque, a peso de trabalho e de esforço seu e seus sequazes, converteu aqueles povos rudes e ferozes, incutindo-lhes hábitos civis e cristãos, convertendo-os para a virtude, o trabalho e para as tranqüilas ocupações da arte e da ciência e unindo-os todos por laços de amor fraterno e caridade. 5. Na flor dos anos ainda, foi enviado a Roma para o estudo das disciplinas liberais.(5) Teve ocasião de ver aí, com imensa tristeza, o pulular das heresias, que arrastavam no vórtice subversivo do erro muitos dos espíritos mais belos; o rebaixamento dos costumes públicos e privados; o atoleiro sensual em que se revolvia a mocidade galante e mundana do seu tempo, de tal modo que se podia dizer, em verdade, da sociedade romana: "Está morrendo e ri. E, por isso, em todas as partes do mundo, às nossas gargalhadas se tem seguido as lágrimas".(6) Ele, porém, prevenido da graça de Deus, "guardou-se do contágio... e, ao ver que muitos se perdiam no sorvedouro do vício, puxou atrás o pé que já havia colocado na entrada do mundo. ...E pondo de lado o estudo das letras, desertando da casa e dos bens paternos, demandou, com o desejo só de agradar a Deus, o hábito da vida perfeita".(7) Rejeitando, pois, os encantos duma vida mundana e fácil, renunciando, e com prazer, à perspectiva aliciante duma posição categorizada, a que, não sem motivos, podia aspirar, deixou Roma e foi-se meter em lugar silvestre e apertado onde, com mais liberdade, se pudesse entregar à contemplação das coisas celestiais. Chegou, assim, ao sítio que se chama Subiaco e recolhendo-se aí em estreita gruta, começou a fazer vida mais de anjo que de homem. 6. "Escondido com Cristo em Deus" (cf. Cl 3, 3), todo se deu, por espaço de três anos, a se treinar na perfeição evangélica a que, por uma quase espécie de divino instinto, era chamado. Fugir das coisas da terra e apetecer somente, com sagrado ardor, as do Céu; levar as noites e os dias, em suaves colóquios com Deus e em efusão de incendiadíssimas preces pela salvação da sua alma e do próximo; coibir e pôr freio aos instintos sensuais com castigos e macerações da carne, tal foi a convenção solene que a si mesmo se impôs. Desse novo modo de vida colhia tamanha suavidade e prazer, que entrou, então, em maior asco dos deleites que anteriormente experimentara nas venturas do século. Acometido, certo dia, pelo inimigo do gênero humano, com furiosa tentação da carne, como de ânimo nobre e ousado que era, lhe resistiu com toda a energia de sua vontade, e, rojando-se entre puas de cardos e urtigas que ali cresciam, com este sedativo voluntário aplacou o ardor libidinoso. Triunfou, por este processo, de si mesmo e mereceu ser confirmado em graça, em prêmio de tão grande virtude. "Daí por diante, como depois contava a seus discípulos, de tal modo ficaram nele subjugados os apetites, que jamais lhes sentiu o mínimo desforço. Liberto, assim, dos apuros da tentação, podia, em verdade, tornar-se mestre de virtudes".(8) 7. Nesse refúgio solitário e pacífico, em que por longo tempo viveu, se adestrou Bento na prática da virtude e reformulação dos costumes, lançando com solidez os alicerces sobre os quais havia de erguer, mais tarde, o grandioso edifício da perfeição cristã. E, como sabeis perfeitamente, veneráveis irmãos, toda a obra de apostolado religioso e empresa santa há-de gorar, infalivelmente, se não provier de ânimo dotado daqueles predicados cristãos, únicos que possuem o condão de, com o auxílio da graça, encaminhar os empreendimentos humanos à glória de Deus e à salvação das almas. Dessa verdade estava Bento inteiramente certo e convencido. Pelo que, antes de acometer a realização do grandioso plano a que a divina providência o destinava, todo se empenhou em reproduzir primorosamente em si aquele ideal de vida evangélica de que desejava imbuir os outros, e que perfeitamente alcançou, com aturada oração. 8. E como a fama da sua vida andasse já na boca dos povos vizinhos e se fosse divulgando de dia em dia, não só os monges das redondezas acorriam a alistar-se sob a sua direção, mas os habitantes das redondezas vinham, às turmas, escutá-lo, admirar-lhe as egrégias virtudes e, enfim, presenciar os prodígios que freqüentemente operava mediante a graça do Senhor. Começou, então, aquela vívida luz, que irradiava da sombria gruta de Subiaco, a difundir-se e brilhar por lugares distantes. "De maneira que, já os nobres e religiosos da cidade de Roma afluíam à gruta, a suplicar ao santo que lhes educasse os filhos na escola do Senhor".(9) 9. Compreendeu, então, Bento perfeitamente que eram chegados os tempos, predefinidos nos planos da Providência, de se lançar na fundação duma nova família religiosa e de a modelar, com esmero, nos moldes da perfeição evangélica. Não lhe faltaram, logo de princípio, felizes esperanças. Muitos foram "os que reuniu em sua volta ao serviço de Deus Onipotente, ... a ponto de, com a ajuda de nosso Senhor Jesus Cristo, aí construir doze mosteiros, distribuindo doze monges e um padre espiritual por cada um e retendo consigo os que julgou conveniente preparar ainda melhor".(10) 10. Contudo, enquanto a iniciativa procedia com venturosos prenúncios de futuro, toda se coroando já de copioso fruto e desabrochando em promessas de mais e melhor, Bento sentiu, com profunda tristeza, cair-lhe sobre a tenra e promissora seara o furacão da procela, que a inveja e cupidez humana tinham levantado. Não se guiava Bento do conselho dos homens, mas de Deus e, receando viesse a redundar em dano dos seus o rancor e ciladas que só contra si maquinavam, agregando aos mosteiros, que já havia fundado, novo contingente de irmãos e provendo-os de superiores, foi demandar com alguns religiosos outras paragens.(11) Confiado em Deus e em seu auxílio certo e oportuno, encaminhou-se, pois, para as bandas do sul e chegou ao local "que se chama Cassino, nas abas dum monte do mesmo nome, onde outrora se erguera um templo consagrado, pelos costumes e ignorância dos gentios, ao oráculo de Apolo. Tinha esse, em roda, um bosque dedicado ao demônio, onde, ainda ao tempo do Santo, acorria a dementada multidão dos infiéis com sacrílegos sacrifícios. Chegando aí o homem de Deus, derribou o ídolo, demoliu o altar, pôs fogo ao bosque, e consagrou o templo à honra de S. Martinho e o altar do deus a s. João Batista. Depois, voltou-se à pregação e levava à verdadeira fé as populações que viviam em roda".(12) 11. Foi Cassino, como todos sabem, a casa principal do santo patriarca e o mais glorioso teatro de suas virtudes e santidade. Do alto daquele monte, quando a treva da ignorância e do vício, alastrando, ameaçava tudo subverter, ergueu-se um astro novo que iluminou os povos perdidos por dévios caminhos, conduzindo-os ao culto da verdade e da justiça. De modo que se pode dizer, com razão, que foi o sagrado cenóbio de Cassino refúgio seguro das ciências e da virtude e, para tempos tão calamitosos, "sustentáculo da Igreja e baluarte da fé".(13) 12. Aí elevou Bento a vida monástica àquele ideal de perfeição que, por muito tempo, rezando, meditando, experimentando, tinha procurado alcançar. Parece, com efeito, que estava já predestinado para ele nos planos da Providência o múnus especial de transplantar, do oriente ao ocidente, os hábitos e as regras da vida cenobítica e de os acomodar, com felicidade, à índole e exigências dos povos da Itália e da Europa. À vida puramente ascética, que nos cenóbios do Oriente tanto se havia engrandecido, reuniu um zelo operoso, a vida ativa, que torna possível "comunicar aos outros as coisas contempladas",(14) colher abundantes frutos espirituais no campo do apostolado e não impede de, simultaneamente, dourar a aspereza dos cômoros com a alegria das searas lourejantes. O que esta vida solitária tinha de mais rude, de inconveniente para a maioria e de perigoso, por vezes, para alguns, foi suavizado e polido pela fraternal convivência das casas beneditinas, onde, na oração e no trabalho, no estudo das letras sagradas e profanas, o venturoso repouso da vida claustral não conhece os danos do ócio e da preguiça; onde o trabalho e ação, longe de fatigarem o espírito ou perderem-no em ocupações inúteis, lhe proporcionam uma paz inalterável e o elevam à contemplação das coisas superiores; onde, finalmente, aos excessivos rigores disciplinares, às macerações e prolongadas penitências se antepõe o amor de Deus e uma caridade obsequiosa e fraternal para com todos. Com efeito, "temperou a sua Regra de modo que os fortes desejassem ir mais além e os fracos a não temessem por severa... Empenhava-se mais em governar os seus com amor, que em dominá-los pelo medo". (15) E é assim que se conta que, encontrando, uma vez, certo anacoreta metido numa estreita cova e preso com grilhões, não fosse voltar ao mundo e ao pecado, o censurou benignamente, por estas palavras: "Se és, em verdade, servo de Deus, não te prendas em cadeias de ferro mas nas de Cristo".(16) 13. Deste modo, à legislação particularíssima da vida eremítica, dependente, quase sempre, do arbítrio dos superiores locais e, por conseguinte, vaga e inconstante, sucedeu a Regra beneditina, um monumento luminoso de sabedoria antiga e cristã, onde os direitos e os deveres dos monges, e o seu ministério evangélico, se encontram definidos com inteligência e com amor, e que possuiu e possui ainda o condão de encaminhar muitas almas pelas sendas do bem e da virtude. Na Regra beneditina, com efeito, andam harmonicamente conjugadas a prudência e a simplicidade, a humildade cristã com o exercício das virtudes mais árduas. A severidade e a moderação dão-se de mãos e a própria obediência se enobrece com uma liberdade sã. Uma indulgência sorridente e compreensiva suaviza o rigor dos corretivos, e a recreação elegante e caridosa a austeridade do silêncio. Mantém-se inteiramente de pé a disciplina, mas a obediência infunde nas almas a tranqüilidade e a paz. Numa palavra, a autoridade é exercida e os fracos não carecem de auxílio.(17) 14. Não admira, portanto, que a Regra monástica, "elaborada por S. Bento, singular de elegância e discrição" (18) tenha sido nos nossos dias unanimemente exaltada. Persuadidos de que seremos úteis e agradáveis à numerosa família do santo patriarca, ao clero e ao povo católico achamos por bem, também nós, expor, ainda que resumidamente, as suas características fundamentais. 15. As comunidades monásticas estão organizadas à maneira das famílias cristãs. Têm à frente um abade, o chefe de família, o pai, por assim dizer, de cuja paternal solicitude inteiramente depende a direção total do mosteiro. "Julgamos conveniente - diz Bento - para conservação da caridade da luz e da paz, que todos os negócios relativos à direção do mosteiro estejam dependentes do poder do abade".(19) De modo que todos e cada um em particular têm o dever, em consciência, de se sujeitarem religiosamente à sua direção(20) e de reverência na pessoa dele à autoridade divina. O abade, porém, considere atentamente que há de prestar ao Juiz supremo (21) conta rigorosa do rebanho que recebeu para dirigir e animar no progresso da virtude, de tal sorte se conduza nesta importantíssima tarefa que, no final, quando, na presença temerosa de Deus, se proceder a juízo, venha a ser merecidamente coroado.(22) Além disso, todas as vezes que surgir no mosteiro negócio grave a tratar, o abade, antes de qualquer decisão, convocará a conselho os irmãos, que livremente manifestem a sua opinião.(23) 16. Surgiu aqui, no princípio, uma dificuldade grave e intricada, na questão relativa a escolha dos candidatos. Vinham bater às portas do mosteiro indivíduos de todas as categorias sociais, na mais completa promiscuidade de nacionalidade, raça e classe: romanos e bárbaros, livres e servos, vencidos e vencedores, aristocratas de alta linhagem patrícia e humildes filhos da plebe. Bento resolve o problema, com serenidade de espírito, aplicando-lhe o princípio da caridade fraterna, "porque, quer gire nas nossas veias o sangue orgulhoso dos patrícios, quer o humilde e obscuro do escravo, todos somos um em Cristo, servindo na mesma milícia o mesmo estandarte. Seja igual para todos, portanto, a caridade, respeitando-se em tudo o merecimento e virtude de cada um".(24) Aos que entrarem no seu Instituto exige "que possuam em comum todas as coisas", (25) não contrariadamente ou por força, mas espontaneamente, por amor. Todo religioso deve prender-se, por voto de estabilidade, ao claustro do seu mosteiro. Poderá, desse modo, consagrar-se, com mais eficácia, à oração, ao estudo dos livros; (26) ao cultivo dos campos,(27) às artes manuais, (28) e aos trabalhos de apostolado religioso. Com efeito, "sendo a ociosidade inimiga da alma, convém que o religioso se ocupe, a horas determinadas, no trabalho manual...".(29) Todavia, o que acima de tudo havemos de colocar, sobre o que se deve zelar com todo o cuidado e diligência, "é que nada se prega ao ofício divino".(30) E embora "tenhamos de fé que está Deus presente em todos os lugares, devemos crer com mais firmeza esta verdade no ofício divino. Considerando, pois, as maneiras que devemos guardar na presença da Divindade e dos anjos, salmodiemos de modo que a nossa voz e a nossa alma vibrem a uníssono". (31) 17. Desses princípios e regras que tivemos por bem salientar da Regra beneditina, facilmente se conclui e avalia a sabedoria, a oportunidade, a admirável congruência desta Regra com a natureza humana, a sua importância e gravidade. Com efeito, enquanto nessa escura e convulsionada época da história o cultivo da terra, o amor do trabalho e da arte, o estudo das ciências e das letras, tanto religiosas como profanas, eram lançados, por uma espécie de desdém geral e sintomático, ao abandono, dos mosteiros beneditinos sai uma plêiade luminosa de agricultores, de artistas, de sábios, que nos salvaram incólumes os monumentos da velha literatura, conciliaram os velhos e os novos povos, em guerras constantes, reduzindo-os da barbárie renascente, das correrias, do saque, à moderação da moral humana e cristã, à abnegação do trabalho, à luz da verdade; reconstituíram, enfim, uma civilização enformada nos princípios do Evangelho. 18. Isso, porém, não é tudo. A base, a diretriz, por assim dizer, suprema de toda a vida beneditina, é que todo trabalho, seja ele qual for, intelectual ou manual, seja, antes de mais, para o monge veículo que o eleve a Jesus Cristo e centelha que o inflame no seu amor perfeitíssimo. Não podem, com efeito, as coisas da terra, nem do universo, satisfazer as exigências espirituais do homem, que Deus criou para si. Possuem apenas a propriedade, que o mesmo Deus lhes infundiu ao criá-las, de nos elevarem até ele pela escala ascendente das existências. Por essa razão, é absolutamente necessário "que nada se anteponha ao amor de Cristo",(32) "que nada nos seja mais caro que o seu amor",(33) que, numa palavra, "nada absolutamente se anteponha ao amor de Cristo, que se digne conduzir-nos à posse da vida eterna".(34) 19. A este ardentíssimo amor de Jesus Cristo é necessário que corresponda o amor do próximo, porque a todos, indistintamente, devemos o ósculo fraterno da paz e o tributo solícito do nosso arrimo. Donde, enquanto a intriga e o ódio convulsionavam e lançavam os povos nos campos de batalha e, nessa confusão cósmica dos homens e das coisas, erguiam ao alto o facho sangrento da morte, do roubo, da miséria e das lágrimas, Bento legava a seus filhos este preceito santíssimo: "no recebimento dos pobres e viajantes estrangeiros, ponha-se particular cuidado e solicitude, porque é na pessoa destes que principalmente se recebe a Cristo".(35) E "todos os hóspedes que se apresentarem no mosteiro se recebam como se fossem Cristo, porque ele há de dizer: fui hóspede e recebeste-me".(36) E mais ainda: "antes de tudo, haja o maior cuidado no tratamento dos doentes, sirvam-se com tal diligência como se fossem realmente Cristo, porque ele disse: estive doente e me viestes visitar".(37) Tendo rematado, assim, a sua obra, na mais perfeita caridade de Deus e dos homens, e antevendo já com alegria e coroado de méritos a ventura suprema do Paraíso, "ordenou, seis dias antes de morrer, que lhe cavassem a sepultura. E sendo logo tomado de febre, começou a esgotar-se grandemente com o ardor do mal. Crescendo o cansaço, dia a dia, fez-se, no terceiro, conduzir pelos discípulos ao oratório e, armando-se aí da comunhão do corpo e sangue do Senhor, rendeu de pé, sustentado nos braços dos discípulos, a alma a Deus, entre murmúrios de orações".(38) II. BENEMERÊNCIAS DE S. BENTO E DA SUA ORDEM PARA A IGREJA E A CIVILIZAÇÃO 20. Depois de passar o santo Patriarca desta vida, com trânsito feliz, a Ordem, que fundara, enformada e conduzida pelo exemplo sempre vivo de suas virtudes e encorajada pela sua intercessão paternal, longe de decair e esmorecer, expandiu-se, largamente, nos anos subseqüentes. 21. Qual tenha sido a ação poderosamente reconstrutiva dos monges, na idade média, quais os serviços por eles prestados nos séculos seguintes, todo historiador imparcial, que explore serenamente os fatos, o há de reconhecer. Efetivamente, os beneditinos, além de terem sido como salientamos já - quase os únicos que nessa época tenebrosa, ignorante e dissolvente, se deram ao trabalho de nos conservarem intactos os amarelecidos códices da literatura antiga, transcrevendo-os e comentando-os pacientemente, foram também eles, sobretudo, que pelo exercício das artes, das ciências e do magistério proporcionaram à cultura e ao ensino impulso notável. Assim como se pode dizer que a Igreja católica deve o brilhante desenvolvimento e firmeza dos seus três primeiros séculos ao sagrado sangue dos mártires e que foi devido à ciência e energia dos santos padres, que, no seguinte, conservou intacta do contágio demolidor das heresias a pureza imaculada de seus dogmas, podemos igualmente afirmar que, ao desmoronar-se o império romano e surgirem as invasões dos bárbaros, foi providencial a aparição da ordem beneditina e de seus florentíssimos mosteiros, destinados a indenizar a Igreja das perdas sofridas, pacificando pela pregação do evangelho os novos povos, harmonizando-os fraternalmente entre si num esforço reconstrutivo, enformando-os, enfim, daquele conjunto de virtudes que derivam dos preceitos do Salvador. À marcha das legiões romanas, que rolavam pelas vias consulares a fim de subjugarem ao império de Roma os povos distantes, sucedeu, com efeito, o exército pacífico dos monges, desprovidos de "forças materiais, mas armados do poder que vem de Deus" (2 Cor 10, 4), enviados pelo sumos pontífice a dilatar o reinado de Jesus Cristo até aos confins da terra, não com a espada, o pavor do saque, da carnificina, mas com a cruz e o arado, com o amor e a verdade. 22. Onde quer que chegasse este exército inerme de agricultores, de artistas, de teólogos, de sábios, de pregoeiros do Evangelho, marcava bem fundo o rastro das suas pisadas, em oficinas que se erguiam, alegres de arte e de trabalho, em relhas que se multiplicavam, desabrochando o seio das florestas na promessa verde dos campos, em novos grupos de povos civilizados, arrancados aos costumes da selva pelo exemplo e pregação dos monges. Apóstolos sem-conta calcorrearam, transbordantes de caridade divina, as regiões turbulentas e ignoradas da Europa, regando-as, generosamente, de suor e de sangue, levando às populações pacíficas a luz das verdades e da moral cristã. Podemos realmente dizer que Roma, engrandecida com a extensão de suas conquistas, levando as guerras de seu império à terra e ao mar, "menos deve à braveza dos soldados que a moderação da paz cristã".(39) Com efeito, desde a Inglaterra, a França, a Holanda, a Alemanha, a Dinamarca, a Frísia, a Escandinávia, até a Hungria, nenhum povo há que se não orgulhe do apostolado dos monges, os não considere como glória nacional e ilustres iniciadores da sua cultura. Quantos bispos, saídos do claustro, não governaram sabiamente suas dioceses, ou já constituídas ou por eles criadas, fecundando-as com o seu labor! Quantos mestres, quantos doutores exímios, fundando escolas que ficaram célebres depois, iluminando os espíritos obscurecidos no erro e contribuindo para desenvolvimento e progresso da cultura religiosa e profana! Quantos varões santíssimos, finalmente, que, ingressando na ordem beneditina, se adestraram no exercício da perfeição evangélica e intensamente propagaram o reino de Jesus Cristo, com o exemplo e com admiráveis prodígios que operavam mediante a graça divina. 23. Muitos deles, como perfeitamente sabeis, veneráveis irmãos, ascenderam às honras do episcopado ou se imortalizaram com a tiara dos pontífices. Recordar aqui o nome de tantos apóstolos, bispos, santos e pontífices que a Igreja tem inscritos a letras de ouro em seus anais, seria excessivamente longo e, aliás, inútil, porque a vívida luz que os nimba, a incomparável importância que tiveram na história, bastam por si a patenteá-los. III. ENSINAMENTOS "DA REGRA BENEDITINA" PARA O MUNDO CONTEMPORÂNEO 24. Julgamos, pois, particularmente oportuno que todos, nesta ocorrência centenária, recordem e refletidamente considerem o objeto desta nossa carta, a fim de mais facilmente se prepararem para celebrar e exaltar estes gloriosos fastos da Igreja e abraçar, também, de vontade generosa e eficaz, os ensinamentos que eles encerram. 25. Porque, nem só os velhos tempos tiveram motivos de esperar do santo patriarca e da sua ordem os inumeráveis benefícios da sua ação. Os contemporâneos têm a aprender dele muitas e importantes lições. Em primeiro lugar, os seus próprios filhos, numerosíssimos, aprendam a caminhar corajosamente - o que de resto não duvidamos - na trilha luminosa de seus passos e a assimilar, na prática da vida cotidiana, os princípios de santidade e de virtude que lhes legou. Assim, hão de não só corresponder, por certo com mais rendimento e vontade, ao chamamento divino que seguiram por uma quase espécie de instinto celeste, quando lhes amanheceu na alma a graça da vocação religiosa, mas também, de consciência serena e com tranqüilidade, poderão trabalhar mais eficazmente para a comum utilidade da família cristã. 26. Além disso, qualquer classe social, que se debruce, estudiosa e atentamente, sobre a vida e Regra do santo patriarca, não poderá deixar de lhe sentir o poderoso impulso renovador e de espontaneamente reconhecer que o nosso tempo, oprimido com tantas ruínas e ameaçado de tantos perigos, poderá haurir nessa fonte o preservativo necessário. Antes de mais, recorde-se e maduramente se considere que os princípios augustos da religião, as normas da moral e as bases da sociedade estariam mais seguros e mais firmes; e que, debilitados ou subvertidos estes, tudo o que se prende com a ordem, com a paz, com o progresso dos cidadãos e dos povos, se há de ir, quase necessariamente, desmoronando. Já um espírito pagão, mas culto e inteligente, notou esta verdade, tão belamente demonstrada pela história da Ordem Beneditina: "Vós, pontífices - dizia ele - defendeis mais fortemente a cidade com a religião do que com as muralhas". (40) E ainda: "Se abolirem (a religião e a moral), seguir-se-á a insegurança da vida e a desordem; se vier a extinguir-se a piedade para com os deuses, ignoro se a fé, a sociedade humana e a mais excelente de todas as virtudes, a justiça, poderão ainda subsistir".(41) 27. Portanto, é absolutamente fundamental prestar culto ao Nume supremo e obedecer, pública e particularmente, às suas leis santíssimas. Sem elas, poder algum humano terá jamais freios para coibir e domar o conflito das paixões públicas. Pertence exclusivamente à religião o privilégio de dar estabilidade e firmeza aos princípios do honesto e do justo. 28. Mas há ainda mais, que nos adverte e ensina o Patriarca santíssimo, e de que o nosso tempo anda sobremaneira indigente; e vem a ser que, além do culto de adoração e honra que devemos a Deus, o devemos amar com amor de filhos. E como o estado atual deste amor é realmente de miserável decadência e entorpecimento, não admira que os homens, mais preocupados com o que é da terra do que com o que é do céu, desavenham em contendas, donde se originam guerras e ódios implacáveis. De fato, sendo Deus o autor da nossa vida e provindo-nos dele benefícios sem-conta, é dever de todos nós retribuir-lhe com perfeito amor, e consagrar-lhe integralmente tudo o que somos e possuímos. Deste amor divino há de derivar, como de nascente, a caridade fraterna para com todos os homens, independentemente da raça, nacionalidade ou classe, como se realmente fôssemos todos irmãos em Jesus Cristo. De modo que de todos os povos e classes se forme uma única família cristã, que o egoísmo dos interesses individuais não dissolva, mas a mútua conjugação de esforços confirme e solidarize. Se os princípios de que outrora se valeu Bento para reconstituir e morigerar a sociedade caída e conturbada do seu tempo, fossem hoje largamente aplicados, não temos dúvida de que também o nosso século se havia de reerguer do pavoroso naufrágio, indenizar dos danos que sofreu nos homens e nas coisas, curar-se, enfim, dos imensos males de que está prostrado. 29. Sabeis também, veneráveis irmãos, que o glorioso legislador nos ensina ainda - o que é hoje, afinal, geralmente aceite, mas que nem sempre na prática tem tido a aplicação conveniente - a saber: que o trabalho humano, longe de ser desprovido de dignidade, molesto e odioso, é, pelo contrário, uma fonte de alegria, de felicidade e de nobreza. Uma vida operosa, cheia, como se diz, na lide incessante do campo, da oficina ou do estudo, não deprime o espírito, nobilita-o; não escraviza, dá-nos, pelo contrário, a sensação forte da superioridade, do domínio sobre quanto nos rodeia e em que nos ocupamos. Também Jesus Cristo, adentro das paredes da casa paterna, se dignou trabalhar na oficina de seu pai, santificando, deste modo, com seu divino suor, o esforço do homem. Advirtam, pois, todos os que, para ganhar o pão de cada dia, se entregam a faina rude da oficina ou da fábrica, ao labor da pena ou da cátedra, que é nobilíssima a sua condição, que lhes faculta os cômodos duma vida honrada e contribui para o bem-estar da comunidade civil. Façam-no, todavia, como queria o santo Patriarca Bento, com a mente e o coração elevados para o céu, voluntariamente, amorosamente. Façam-no, ainda quando defendem os seus direitos legítimos, não com pesar do bem alheio, em greves e revoltas, mas com paz, com ordem. Recordem-se da sentença do Senhor: "Comerás o pão no suor do teu rosto" (Gn 3, 19) e pensem que é preceito para todos de expiação e de obediência. 30. Não esqueçamos nunca, sobretudo, que as coisas materiais e transitórias em que nos ocupamos pelo vigor do nosso espírito ou do nosso braço, devem ser incentivo de adiantarmos, todos os dias, mais um passo na conquista das celestes e permanentes, únicas em que poderemos encontrar a paz verdadeira, a quietação imperturbável, a felicidade eterna. IV. RESTAURAÇÃO DO MOSTEIRO DE MONTECASSINO: DÍVIDA DA SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA 31. Tendo o furacão da guerra assolado, como sabeis, veneráveis irmãos, as regiões do Lácio e da Campânia, subiu também ao vértice do sagrado monte de Cassino. E ainda que nada do que estava ao nosso alcance tenhamos omitido para obviar aos irreparáveis estragos infligidos à santíssima religião, à arte e a própria civilização, o grandioso cenóbio, todavia, que tinha chegado até nós, através dos séculos, como farol luminoso vencendo a treva, foi arrasado, totalmente destruído. Ao contemplarmos as cidades, vilas e aldeias circunjacentes, reduzidas a ruínas e destroços, é quase para dizer que o velho Arquicenóbio, berço da ordem beneditina, quis partilhar do luto e da desgraça dos que realmente podia considerar seus filhos; quase nada mais resta de pé a não ser o sagrado hipogeu onde se conservam os restos do santo patriarca. 32. Onde se erguiam magníficos monumentos de arte, apenas restam hoje paredes em ruínas, montões de escombros e de entulho, que a vegetação selvagem vai amortalhando de verde, ao lado da pequena habitação que se levantou, há pouco, para abrigo dos monges. No entanto, não podemos duvidar de que, completando-se, na presente conjuntura, catorze séculos depois que o santíssimo Patriarca passou à bem-aventurança após haver dado início e remate a tão gloriosa obra, não podemos duvidar de que todos os homens de bem, de ânimo generoso e, sobretudo, os que dispõem de maiores possibilidades pecuniárias, hão de colaborar na restituição do antiquíssimo mosteiro a seu passado esplendor. É uma dívida da sociedade contemporânea à ordem beneditina. Porque, se efetivamente nos podemos gloriar do adiantamento da nossa cultura, se ainda sentimos prazer na leitura dos velhos escritores, devemo-lo - necessário confessá-lo - a Bento e a seus filhos. Estamos, pois, persuadidos de que a nossa esperança e os nossos votos vão ter perfeita correspondência. De modo que se não limite, apenas, esta obra a reconstrução material do mosteiro, mas seja augúrio de mais venturosos tempos para a expansão e progresso sempre renovado da Ordem e da oportuníssima Regra beneditina. 33. Animados desta suavíssima esperança, a vós, veneráveis irmãos, a todos os que estão comados ao vosso zelo apostólico, à numerosíssima família dos monges que se gloriam de haver por pai e mestre o santo Patriarca, do mais íntimo da alma concedemos a bênção apostólica, penhor de celestiais graças e testemunho da nossa benevolência. Dado em Roma, junto de São Pedro, na festa de São Bento, no dia 21 de março de 1947, IX ano de nosso pontificado. PIO PP. XII Notas (1) S. Greg. M., Lib. Dial., II, Prol.; PL 66,126. (2) Cf. Cic., De Off., II, 8. (3) S. Greg. M., Lib. Dial., II, Prol.; PL 66,126. (4) S. Greg. M., Lib. Dial., II, Prol.; PL 66,150. (5) S. Greg. M., Lib. Dial., II, Prol.; PL 66,126. (6) Salviano, De Gub. mundi, VIII,1; PL 53,130. (7) S. Greg. M., Lib. Dial., Prol.; PL 66,126. (8) S. Greg. M. Lib. Dial., III, 3; PL 66,132. (9) Ib., PL 66,140. (10) Ib., PL 66,140. (11) Ib., PL 66,148. (12) Ib., PL 66,152. (13) Pio X, Carta Apost. Archicoenobium Cassinense, de 10 de fev. de 1913. (14) S.Tomás, S. theol., II-II, q.188, a. 6. (15) Mabillon, Annales Ord. S. B., Lucae 1739, t. I, p.107. (16) S. Greg., Lib. Dial.,III,16; PL 79, 261. (17) Cf. Bossuet. Panég. de S. Benoit-Oeuvres compl., vol..12, Paris,1863, p.165. (18) S. Greg. M., Lib. Dial., II, 36; PL 66, 200. (19) Reg. S. Bened., c. 65. (20) Ib., c. 3. (21) Ib., c. 2. (22) Ib., c. 2. (23) Ib., c. 3. (24) Ib., c. 2. (25) Ib., c. 33. (26) Ib., c. 48. (27) Ib., c. 48. (28) Ib., c. 57. (29) Ib., c. 48. (30) Ib., c. 43. (31) Ib., c. 19. (32) Ib., c. 4. (33) Ib., c. 5. (34) Ib., c. 72. (35). Ib., c. 53. (36) Ib., c. 53. (37) Ib., c. 36. (38) Greg., M., Lib. Dial., 11, 37; PL 67, 202. (39) S. Leão M., Sermo I in natali Ap. Petri et Pauli; PL 54, 423. (40) CIC De Natura Deor., II, c. 40. (41) Ib., I, c. 2.
- Pelo mundo
Publicado por Gustavo Corção n’O Globo em 1º - 09 – 1973 NA QUINTA-FEIRA atrevi-me a entrar na algazarra do caso Watergate com que a esquerda norte-americana pretende abalar o presidencialismo dos Estados Unidos. Agora tenho diante de mim, espalhados, recortes relativos ao desmoronamento da experiência socialista no Chile. A inflação já ultrapassou de muito o máximo atingido no desgoverno de Goulart no Brasil; as mulheres de todas as classes continuam a bater nas panelas vazias; o Exército começa a desconfiar de que lhe compete a defesa interna do país contra os inimigos de nova espécie que se infiltraram em todas as classes e profissões; e o Congresso, que praticou a tolice de reconhecer o processo eleitoral que elegia um comunista, descobre agora, irritado, que o comunista está exorbitando e fazendo coisas que todo o mundo sabia que o comunista teria de fazer. Só não desconfiam os padres e bispos que no ano passado efetuaram, em Santiago, El Premier Encuentro de Cristianos por el Socialismo. Chegou-me às mãos uma cópia mimeografada do Secretariado General del Episcopado, Ref. nº 301/73, 2 de agosto 1973. No topo da primeira página leio: "NOTA PRÉVIA — Hacemos llegar a los obispos de la CECH este documento interno de la Compañia de Jesus sobre el tema del epígrafe." O DOCUMENTO em questão versa sobre o "Premier Encuentro Latino Americano, de Cristianos por el Socialismo". Na página 3 do Documento lemos de início: "a) El encuentro fue principalmente una llamada a la acción: a una acción nueva por parte de los cristianos." COMO se vê trata-se de um incitamento à acción; mas a uma acción nueva por parte dos cristãos da América Latina. Eu não sei a centena de patetas que se reuniu em Santiago para promover o Socialismo conseguirá inquietar o Exército, ou mesmo as bravas mulheres chilenas, que, nesta altura dos acontecimentos, devem saber distinguir muito bem esses energúmenos dos homens de bom-senso que certamente ainda existem no Chile. SIM, não sei se esses patetas-cristianos conseguirão fazer explodir um espanta-coió ou um busca-pé, mas sei, sem sombra de dúvida, que uma coisa conseguirão: engrossar as fileiras dos que parecem empenhados em provar ao mundo e aos habitantes de outros planetas habitados que não existe na Terra raça mais estúpida que a dos "cristianos". Porque eles têm uma doutrina firmada que, pela voz de papas durante mais de um século, adverte contra essa experiência social de funestíssimas consequências. Deviam possuir, por várias razões, uma instintiva repulsa pelo Socialismo; deviam ser os homens mais prevenidos, mais defendidos, mais imunizados. Ora, se os ditos cristianos reunidos em Santiago ainda resistiram à evidência do fracasso na Rússia, na China, em Cuba, e especialissimamente em Santiago, poderemos concluir, sem exagero nem temeridade, que esses cristianos, que escolhem Santiago de panelas vazias para promover o Socialismo, são os homens mais estúpidos das quatro ou cinco partes do mundo. * * * EFETIVAMENTE, além do pedido de demissão do Ministro da Defesa do Chile, além da passeata das caçarolas vazias, da greve dos transportes, da inquietação do Exército e da inflação galopante, nosso honrado planeta nos exibe no outro hemisfério, onde deveria existir o paraíso dos povos socializados, um espetáculo de desolação que a máquina de desinformação não consegue encobrir: a URSS se debate novamente numa grave crise de produção de cereais. Os comunistas ficarão sem pão, ou deverão pedi-lo aos Estados Unidos, como já mais de uma vez o fizeram. E aí está o aspecto do problema, que seria hilariante, se nele não estivessem envolvidas crianças russas que nada fizeram para socializar a agricultura: faz-se uma revolução para o Pão, pelo Pão, a começar pela Conquista do Pão como apregoava o príncipe revolucionário Kropotkine em 1888, zomba-se de uma religião asiática cujo fundador advertiu que não só de pão vive o homem, perseguem-se, matam-se os seguidores dessa religião antiagrícola e alienante, e ao cabo de um século e pouco acham-se esses revolucionários, na Rússia e no Chile, sem pão. E PROVAVELMENTE sem queijo. Ora, diante dessa evidência, pão-pão, queijo-queijo, ainda se encontra na inteligentíssima França e na modesta América Latina quem acredite no Socialismo, anarquista, marxista, ou qualquer outro. A Argentina se apronta para experimentar o peronista. HOUVE depois da Revolução Russa, e logo depois da Reforma Agrária soviética, a maior hecatombe da história. Maior do que a soma de perdas de todos os países nas duas guerras. A ideia socialista matou perto ou mais de cem milhões de russos e povos sovietizados. Entre 1926 e 1930 morria-se de fome nas ruas de Moscou com uma espantosa naturalidade. * * * ERA TEMPO de desconfiar. Os soviéticos deveriam organizar infiltrações especiais para eliminar todos os esquerdistas da Watergate e dos Estados Unidos em geral, porque, vamos e venhamos, se os Estados Unidos caírem também nessa armadilha do socialismo, quem?, sim, quem então nos produzirá o pão tão apetecido pelos descendentes de Kropotkine? SIM, PARA que três quartas partes do mundo possam se permitir delírios ideológicos é preciso que sobrem pessoas e países inteiros para cuidar do pão: não só de ideologias vive o homem!
- Comentários Eleison nº 773
Por Dom Williamson Número DCCLXXIII (773) – 7 de maio de 2022 RACISMO, O PRETENSO “Vidas negras importam” – sem dúvida, Mas só o Céu satisfará o que agora as faz gemer. Suponhamos, com os dois números anteriores destes “Comentários” (de 23 e 30 de abril), que o “racismo” hoje tenha assumido uma importância tal que viola todo o senso comum, porque o marxismo é uma religião substituta, e a luta contra o “racismo” é uma mera readaptação do marxismo. Mas essa “mera readaptação” se comporta nas ruas como uma verdadeira cruzada, tal como o faz, por exemplo, o “Vidas negras importam”. Por que os comunistas esquentados sempre se comportam como cruzados? É, de fato, uma questão religiosa que merece, pelo bem deles, nossa atenção. (Na verdade, só as almas com algum senso do Deus verdadeiro podem entender adequadamente nosso mundo moderno sem Deus.) O homem é uma criatura espiritual. As duas gradações de entes acima dele, Deus Todo-Poderoso e os anjos, são puramente espirituais; as três gradações de entes abaixo dele, animal, vegetal e mineral, são puramente materiais; só o homem é espiritual por sua alma e material por seu corpo. Sendo espiritual por sua alma, só ele, entre todos os animais materiais, tem inteligência e razão, e, por sua razão, livre-arbítrio. Se não tivesse sua inteligência, ele não poderia dominar todos os demais animais, como lhe disse Deus que fizesse (Gênesis I, 26), e como ele obviamente pode fazer – pois, caso contrário, a grande variedade de animais mais ferozes e mais fortes do que ele já o teria devorado há muito tempo. Mas a própria base do marxismo e do comunismo é o materialismo ateu, ou seja, a negação de que exista algo como Deus, ou o espírito acima da matéria, ou o livre-arbítrio. Veja-se o primeiro erro de nossa época materialista, tal como assinalou Pio IX em 1864, em sua condenação de 80 erros modernos em seu “Sílabo dos erros”. Já que “foi Deus quem nos fez, e não nós mesmos” (Salmo 99, 3), então SOMOS criaturas espirituais, gostemos ou não, vindas de Deus e destinadas por Ele a ir para Deus, com nossas almas espirituais e imortais, capazes por si só, pelo uso correto de nosso livre-arbítrio espiritual, enquanto estão unidas aos nossos corpos materiais aqui na terra, de desfrutar de Seu Céu espiritual pelos séculos dos séculos. Portanto, a verdadeira dignidade do homem está menos em sua mera posse do livre-arbítrio que em seu uso correto. Mas o orgulho do homem o faz recusar seu destino espiritual no Céu, onde terá de estar abaixo de Deus, e por isso ele finge ser um ente puramente material, que não precisa obedecer a nenhum dos Dez Mandamentos de Deus. No entanto, nenhum homem que já tenha vivido projetou sua própria natureza humana (Salmo 99,3), e é por isso que mesmo quando um homem finge ser puramente material, continua sendo espiritual, com um instinto dado por Deus de como será a vida no Céu, sem matrimônio (Mc XII, 25) ou raça (Gal. III, 28) ou qualquer outro tipo de desigualdade nociva, pois “Cristo será tudo em todos” (Col. III, 11), e todas as desigualdades nocivas da vida na terra serão deixadas para trás pela glória da infinita variedade de seres humanos abençoados por Deus que vivem em Sua perfeita harmonia e em perfeita harmonia entre si. Mas aqui surge um problema insolúvel para os homens ímpios, como o somos hoje. Viramos as costas para Deus, mas não podemos deixar de ansiar por essa liberdade, igualdade, fraternidade e imortalidade d’Ele que estão inscritas na natureza espiritual de nossas almas. Portanto, devemos encher nossas breves vidas mortais com a satisfação de nossos anseios imortais, que só podem cumprir-se em Sua vida eterna. Mas isso é como encher uma lata de cerveja com um litro de líquido. Simplesmente não entra. Assim, por toda a vida moderna há exemplos de homens que buscam a satisfação por meios que não podem satisfazê-los. “Tu nos fizeste para ti, ó Senhor, e nosso coração está inquieto até que encontre seu descanso em ti” (Santo Agostinho). Houve um tempo em que os empresários costumavam anunciar que “judeus, negros e mulheres não devem candidatar-se ao emprego”. Os judeus podem ressentir-se de que os brancos tenham liderado o mundo. Os negros podem ressentir-se de que muitas pessoas os desprezam. As mulheres podem ressentir-se de que o homem seja o chefe da família. E de quem é a culpa? Principalmente dos brancos, que foram dotados por Deus para ensinar aos judeus o Novo Testamento; aos negros sua dignidade diante de Deus; às mulheres o seu verdadeiro papel na família. Mas, em vez disso, ao abandonar a Deus, os brancos estão se judaizando, estão vendo os negros destroçarem suas conurbações ímpias, e estão efeminando-se a si mesmos. A verdadeira solução para esses problemas e inúmeros outros é clara: os brancos mesmos devem voltar-se para Deus. Kyrie Eleison.
- Comentários Eleison nº 772
Por Dom Williamson Número DCCLXXII (772) – 30 de abril de 2022 MARXISMO RACIAL Senhor, salvai vosso próprio povo, Perdoai-nos, essas ovelhas supermaterialistas! Em uma tentativa de explicar como as palavras “racista” e “racismo” passaram recentemente a ser usadas de forma tão maldosa quanto o são as palavras “antissemita” e “antissemitismo”, estes “Comentários” apresentaram na semana passada um argumento que mostra como o marxismo poderia passar chamar-se “marxiandade”, já que foi concebido como um substituto para o cristianismo. Se então o antirracismo de hoje é simplesmente uma reedição do marxismo, isso explica por que o “racismo” inspira um horror quase religioso nos liberais que estão quase que em uma cruzada para eliminá-lo. Cruzada? Sim, porque os liberais estão lutando para substituir a ordem de Deus no universo pela ordem do homem, Deus pelo homem. Mas os Papas do século XIX ensinaram que foi o culto à falsa liberdade, o liberalismo, que abriu caminho para o marxismo. Como então o autor e crítico cultural americano apresentado na semana passada, James Lindsay, demonstra que o antirracismo é simplesmente uma reedição do comunismo marxista? (Ver https://www.theepochtimes.com/james-lindsay-the-roots-of-the-new-race-based-marxism-gripping-the-west-part-1_4285075.html.) A base do marxismo é o materialismo ateu, ou seja, Deus não existe, e o homem deve ocupar o lugar que Ele ocupava no cristianismo. A religião é simplesmente “o ópio do povo”. O pecado responsável por tantas misérias na sociedade não é mais o pecado original de Adão e Eva, mas a propriedade privada, pois ao criar uma divisão do trabalho, cria desigualdade entre os homens por meio das relações sociais de dominação, exploração e alienação. Por isso, o comunismo recriará o paraíso, mas na terra, e não no Céu, ao abolir a propriedade privada e restabelecer a igualdade entre todos os homens. “Trabalhadores do mundo, uni-vos”, e juntos aboliremos as diferentes classes de homens. Daí a luta de classes que se segue ao comunismo. Ora, no século XIX, essa leitura da sociedade tinha certa justificação na realidade, na medida em que capital e trabalho estavam muito divididos e havia uma exploração dos trabalhadores por capitalistas que só visavam aos lucros. Mas os Papas, especialmente Leão XIII em sua Encíclica Rerum Novarum de 1891, fizeram os capitalistas perceberem que era do seu próprio interesse cuidar dos trabalhadores, e assim prevaleceram os conselhos mais sábios. A classe operária no Ocidente passou a ser mais bem atendida, e, como resultado, não se podia mais usar os trabalhadores prósperos como alavanca para provocar a Revolução. No entanto, o bem-estar dos trabalhadores nunca foi o verdadeiro objetivo do comunismo, mas simplesmente um meio de derrubar o que restava da ordem cristã para dar lugar ao triunfo da ordem dos homens. Precisava-se, então, encontrar uma nova alavanca. O descobridor foi o filósofo germano-americano Herbert Marcuse (1898-1979), o marxista mais influente do século XX, que tinha em seus ossos o mesmo instinto de revolução anticristã de Karl Marx, filho de um rabino. Marcuse sentia-se traído pela classe operária, uma vez que todos ali estavam passando a pertencer à classe média. Onde, então, ele poderia encontrar uma nova desigualdade com um profundo sentimento de injustiça passível de ser inflamada em um entusiasmo pela Revolução e transformada em uma alavanca para derrubar a atual ordem social e abrir caminho para a Nova Ordem Mundial? Ele, assim, deparou com a raça, e se voltou, em suas próprias palavras, para a “população do gueto”, que deveria ser liderada por estudantes, espiritualmente desnutridos em razão do materialismo de suas “universidades” ocidentais e, portanto, famintos por uma nova religião, uma Nova Ordem Mundial: o comunismo. Daí o marxismo identitário, a política identitária, a mobilização esquerdista de estudantes brancos, o Black Lives Matter (Vidas Negras Importam), para destruir as cidades dos homens brancos, inclusive por meio de um sentimento de culpa por parte destes. Daí o desprezo por todos aqueles que agora são de direita e que traíram o comunismo. Daí o politicamente correto e a sacralização de uma censura para bloquear a possibilidade mesma de haver o pensamento de direita. Daí a atual “cultura do cancelamento”, porque a tolerância democrática não pode mais ser concedida a qualquer resistência contra a esquerda, pois essa resistência não tem o direito de existir. E assim por diante. Essas são as raízes do Admirável Mundo Novo atual! E tudo isso está aí porque a humanidade está virando as costas para o verdadeiro Messias e voltando-se para aqueles especialistas que fabricam um falso messianismo atrás do outro. Ela terá de aprender da maneira mais difícil que a Verdade importa. Kyrie Eleison.
- Comentários Eleison nº 771
Por Dom Williamson Número DCCLXXI (771) – 23 de abril de 2022 MARXISMO = RELIGIÃO O coração mesmo de Marx é Deus sendo desprezado. Quando os pobres homens aprenderão esta lição? “Paus e pedras me quebrarão os ossos, mas as palavras jamais me ferirão” é um velho ditado, que nem sempre é verdadeiro. As palavras podem ter por si só um poder fulminante de destruir um adversário. O primeiro prêmio nesse sentido deve ir para a palavra “antissemita”, mas nos últimos tempos a palavra “racista” vem aproximando-se desta primeira posição. De onde vem essa obsessão pela “raça”, e por que se tornou tão perverso ser “racista”? James Lindsay é um autor e crítico cultural americano de 43 anos, e sobre ele se pode supor que pertence a uma geração que nasceu e cresceu no pensamento de esquerda, mas começa a sair do outro lado, como fizeram em sua época Dostoiévski e Soljenítsin. Lindsay explica claramente em duas partes como a “raça” assumiu a importância desproporcional que lhe é dada hoje. Na primeira parte, Lindsay mostra como o marxismo deveria chamar-se antes “marxiandade”, porque é o mais sofisticado dos substitutos do cristianismo. Lindsay diz que isso fica muito claro nos Cadernos de Marx de 1844, que não são nem de longe tão famosos quanto “Das Kapital” de Marx de 1867, mas que podem ser mais significativos e interessantes. Em uma segunda etapa, Lindsay mostra como o sistema filosófico de Marx, como sucessor do subjetivista Kant e do evolucionista Hegel, está em constante evolução, de modo que a Revolução Comunista não só pode evoluir, mas, como disse Lenin, deve evoluir com as circunstâncias da época. E foi outro pensador judeu, Herbert Marcuse (1898-1979), que em meados do século XX argumentou com êxito que, como alavanca para a Revolução, a classe operária estava defasada e devia ser substituída – pela raça! Daí a importância quase religiosa da raça, como meio para continuar virando o mundo de cabeça para baixo. Uma religião para virar o mundo de cabeça para baixo? Sim, isso é o comunismo, reconhecido por Winston Churchill como “o cristianismo com uma machadinha”, e por Pio XI como o “messianismo do materialismo”. Por volta de 1851, o poeta inglês Matthew Arnold (1822-1888) ouviu nas ondas da praia de Dover “o melancólico e longo rugido da retirada da fé ao redor do mundo”. E à medida que o cristianismo recuava, como a maré vazante, deixava um enorme vazio na mente e na vida dos homens, que precisaria ser novamente preenchido com algo, ou, como disse Chesterton, com qualquer coisa, mas de preferência algo que pelo menos parecesse ser capaz de preencher aquelas necessidades do homem que o cristianismo satisfazia. E é isso que segundo Lindsay fez e ainda faz o marxismo. Assim, Marx estava apresentando muito mais do que apenas uma teoria política e social. Ele estava esboçando uma teologia, uma teoria completa da humanidade e da natureza humana. Enumeremos os vários elementos do cristianismo para ver como Marx os substitui. O cristianismo tem um Deus com um propósito e um final para este mundo, cujo ser é real e estável (ontologia), e cognoscível (epistemologia). Existe um Reino de Deus que pode ser obtido no Céu, mas na terra o Jardim do Éden se perdeu pelo pecado original, com todos os pecados consequentes. No entanto, existe uma salvação celestial do pecado, original e pessoal, por meio de Jesus Cristo, nosso Salvador e Redentor. Vejamos agora como é para Marx. Ele desfaz-se de qualquer Deus real e O substitui pelo homem. A religião é apenas “o ópio do povo”. Na ontologia marxista, o ser pode ser real, mas certamente não é estável, porque está em constante evolução (cf. Hegel), e não é objetivo, mas apenas subjetivamente cognoscível (cf. Kant). No entanto, a vida do homem na terra tem um final e um propósito, que é o triunfo da Revolução socialista pela qual todos os homens viverão em harmonia comunista, recriando na terra o Reino de Deus e o Jardim do Éden. O novo pecado original que vicia todas as sociedades não socialistas da terra é a propriedade privada, porque cria uma divisão do trabalho, criando por sua vez relações sociais de dominação, exploração e alienação. Por isso, o comunismo suprime a propriedade privada (cf. Karl Schwab) e todas as distinções de classe. Haverá redenção universal assim que o mecanismo do Estado não for mais necessário para estabelecer a igualdade universal. Enquanto isso, todos os homens devem estar do lado da Revolução, e trabalhar com ela e para ela, para estabelecer este paraíso na terra, onde o homem será Deus. Leia a primeira parte da entrevista com James Lindsay em https://www.theepochtimes.com/mkt_morningbrief/james-lindsay-the-roots-of-the-new-race-based-marxism-gripping-the-west-part-1_4285075.html. Veja também na edição da próxima semana destes “Comentários” a segunda parte do argumento dele sobre as raízes do atual “racismo”. Kyrie Eleison.
- XVI – Disposição para a Sagrada Comunhão - Limpar-se e mudar a roupa
1 – Limpar-se Para fazer, pois, a Sagrada Comunhão com maior resultado não basta haver tirado da alma o pecado mortal: é preciso ainda limpá-la dos pecados veniais que desgostam o bom Deus. “É uma casa que deve receber o Rei!” – Um gentil homem, ao saber que o rei viria à sua terra a fim de ali se deter alguns dias, pôs a sua casa à disposição do Soberano. Essa casa era bela por si; mas o gentil homem não a limpou muito bem: contentou-se apenas a expulsar os animais imundos que havia dentro dela, e em retirar a sujeira mais repelente, e nada mais fez. Não vendo o rei na casa nenhuma alfaia, mas sim teias de aranha aqui e ali, e muito pó, sentiu desgosto e disse ao dono: “Isso é casa para receber o rei?”. *** O gentil homem, cuja conduta nasce do desdém, representa o cristão que se chega à Sagrada Comunhão satisfeito apenas com haver expulsado da alma os pecados mortais, sem desprender o coração dos pecados veniais. 2 – Mudar a roupa (as virtudes requeridas) Antes de fazer a Sagrada Comunhão é preciso também pensar no que se vai receber, e fazer uma boa preparação, revestindo e adornando a alma das virtudes requeridas. “Vem o imperador!” — Um imperador devia ir visitar uma cidade. Os cidadãos se achavam muito honrados com essa visita e se davam ao trabalho de preparar a cidade do melhor modo possível: limpavam as ruas e ali espargiam flores, erguiam arcos triunfais, içavam bandeiras, ornavam as casas com alfaias, e arranjavam uma grande iluminação para a noite. Os forasteiros indagavam: - Por que todo esse aparato? - Como? Não sabeis? Vem o imperador! *** Na Sagrada Comunhão vem fazer-nos visita o Rei do Céu e da terra; e nós também devemos fazer para Ele grandes preparativos: as virtudes, isto é, uma fé viva, uma grande esperança, um grande amor, uma humildade profunda, depois nos devemos excitar a uma grande contrição, ter, enfim, um ardente desejo de receber Jesus. E estes são ainda os atos que deveis antepor à Sagrada Comunhão. a) Fé viva Deveis crer firmemente que comungando recebeis em vós Jesus Cristo vivo e verdadeiro: justamente aquele Jesus que nasceu da Virgem Maria, padeceu e morreu pela nossa salvação e está agora no Céu à direita do seu divino Pai, e virá um dia a julgar os vivos e os mortos. Essa verdade, que Jesus está presente na Eucaristia, deveis crê-la com maior certeza do que se aparecesse visível aos vossos olhos. b) Grande Esperança Por que vem a vós Jesus? Porque vos quer tornar bons e santos; porque vos quer um dia no Paraíso consigo. Por isso deveis esperar que vos dê grandes coisas; e quanto mais o esperais, mais obtê-lo-eis, porque ele é onipotente. c) Grande amor Dizei-me, não é, porventura, verdade que Jesus vem a vós pelo amor imenso que vos dedica? E seríeis frios com ele? Pelo contrário! Inflamai-vos de uma ardente caridade para com um Deus tão benéfico, um Pai tão bom, um Salvador tão generoso. E como ao vos admitir à sua mesa ele se dá todo a vós, deveis dar-vos a ele inteiramente, sem reservas. d) Humildade profunda Deveis humilhar-vos e aniquilar-vos perante Jesus, enchendo-vos de admiração ao pensar que um Deus de tanta majestade, diante de quem tremem os Anjos, se digna descer do Céu a fim de visitar a vós que sois miseráveis criaturas. e) Grande contrição Não fostes filhos ingratos para com o bom Pai que é Deus? Não o tendes ofendido? Infelizmente é assim. Invocai, afinal, à mente as múltiplas infidelidades vossas, e tantos pecados cometidos... Se é assim, não sois certamente dignos de receber Jesus em vosso coração. Mas se vos mantendes longe dele, onde ireis acabar? Ide, pois, a ele: mas primeiro deplorai ainda os vossos pecados e rogai-lhe perdão. f) Ardente desejo Quanto esperamos em nossa casa a chegada de uma pessoa querida, não é verdade que nos ativamos com o desejo dessa chegada, e esperamos quase com impaciência esse momento? Assim deveis desejar a vinda de Jesus a vós: esperar com ansiedade o feliz momento de unir-vos com ele na Sagrada Comunhão. (Extraído do livro A Palavra de Deus em Exemplos, G. Montarino, Do original La Parole di Dio per la Via d’Esempi)
- CELAM-DEC
Por Gustavo Corção Publicado n’O Globo em 06-09-1973 TENHO diante de mim um grosso volume de folhas tamanho ofício oriundo do DEPARTAMENTO DE EDUCACIÓN DEL CELAM-DEC com este ameaçador subtítulo: PLAN DE ACTIVIDADES PARA 1974. APARENTEMENTE, a julgar pelas siglas que designam comissões episcopais, trata-se, neste grosso volume, do grave problema da educação posto na especial e gravíssima perspectiva da educação sobrenatural, isto é, de ensinamentos da doutrina da salvação e de preceitos para a mais exigente procura da santidade. Uma pessoa pouco atualizada com a evolução do episcopado na América Latina poderia agasalhar a ilusão de encontrar no programa de ação para 1974 um cuidado especial em defesa da sã doutrina, e um zelo continental pela difusão das verdades da Fé, como também um especial trabalho de valorização dos mandamentos de Deus. ORA, em lugar desse amor pelo tesouro de Revelação divina, e pelo Sangue de nosso Salvador, o que lemos no volumoso documento é uma série de relatórios de reuniões e de aprazamento de novas reuniões de Presidentes e Secretários das siglas. Num desses, por exemplo, lemos um título: PRINCIPIOS DOCTRINALES DE UNA EDUCACIÓN LIBERADORA. O que será isto? O texto abaixo esclarece: I. “La Realidad Latinoamericana 1. El anhelo de liberación constituye una característica fundamental de los pueblos latinoamericanos y especialmente de la juventud. Es un signo de los tiempos que hay que interpretar a la luz del Evangelio. 2. Nuestros pueblos van tomando consciencia de su situación de dependência, de presión interna y externa; de la necesidad de sacudir todo tipo de servidumbre y de projectar hacia el futuro su vocación de ser un hombre nuevo que no solo tenga más sino que sea más. 3. Hay una injusticia institucionalizada que incluso adopta formas jurídicas"..., etc., etc. etc. Ou melhor, blá, blá, blá. NESTA pequena amostra notamos uma primeira distorção no sentido atribuído à palavra "liberadora". Ela se aplicaria bem à situação política de países escravizados, como a Estônia, Lituânia, Letônia, Romênia etc.; mas se aplica mal para exprimir deficiências econômicas. Seria de pouca relevância essa impropriedade do termo se nós todos não soubéssemos que ela é usada por todos os revolucionários que, nesta nova linguagem tirada do liberalismo, fazem a mesma colocação dos marxistas. Não digo que os redatores da resma de papel que tenho diante de mim sejam marxistas, e que todos os bispos da infortunada América Latina sejam comunistas ou servidores úteis do comunismo. Digo apenas que o documento que leio é escrito na língua que não é católica e que seu conteúdo, se posso usar esse termo para exprimir o NADA, é particularmente medíocre, penosamente tolo. SE EU IMAGINASSE que todos ou quase todos os bispos da infortunada América Latina conhecem esse documento e com ele se solidarizam, correria a gritar "aqui d'el rey" ou a tocar os sinos de alarme, porque nesse caso o documento me pareceria um perigoso facho incendiário preparado para incendiar o continente. SABENDO com quase certeza que a maioria dos bispos ignora o que fazem os Presidentes e os Secretários das Siglas, e não chegam a se entristecer com o abuso do termo "homem novo" que no documento, longe de significar o homem santificado ou configurado pelo exemplo de Cristo, significa o habitante da nova sociedade sem classes, mesmo assim tenho ímpetos de gritar — porque não só pelo fogo corre o risco de ser destruída uma civilização, mas também por um dilúvio de tolices que apresente a Igreja como uma sociedade de indivíduos hierarquizados pela parvoíce. E EU ME envergonho por todas as páginas nesse documento que insolentemente se apresenta como obra inspirada pela religião de um Deus crucificado por nós. PARA um coração católico é intolerável todo o documento, e especialmente repulsivo nos pouquíssimos tópicos que ainda falam de Deus. Assim é que no sentido Bíblico de Liberación nos diz: "LA INTERPRETACIÓN de esta realidad a la luz del sentido bíblico de la liberación nos enseña que, a partir de la "historia de la salvación", esta liberación se inscribe en el corazón de la historia y culmina en el misterio pascual de Cristo, Señor del Universo. Tal liberación se ordena primariamente a la creação del "hombre nuevo". (Rom. 6,4) E AQUI está, mais uma vez, o abuso intolerável que consiste em confundir dois planos inconfundíveis. Nossa doutrina não nos ensina que Cristo veio liberar os homens das servidões exteriores, políticas ou econômicas, e sim que veio para liberá-lo do pecado, da servidão interior; e é esse homem assim liberado que São Paulo chama de "novo homem". É profundamente lamentável que organizações ditas episcopais, praticando um abuso de poder, publiquem documentos tão afastados da sabedoria, e tão aproximados da subversão que ameaça a civilização cristã. E NÃO diga o leitor que eu esteja aqui exagerando a impropriedade de um termo usado acidentalmente ou por contágio da moda. Não, o termo "liberación" e "educación liberadora", no documento que estou analisando a contragosto, está presente desde as primeiras até as últimas páginas (mais de 100), e reaparece com a frequência obsessiva de un mot d'ordre. E não é por mera coincidência que esse mesmo termo aparece no título de um livro severamente criticado pelo Cardeal Vicente Scherer, Arcebispo de Parto Alegre, e na centena de publicações que nos chegam do Chile e dos demais países da infortunada América Latina que é hoje a meta mais cobiçada da Revolução mundial. PODE-SE então dizer, aos leigos e aos bispos, ao Excelentíssimo Senhor Núncio Apostólico e a Sua Santidade Paulo VI, que há na América Latina e no Brasil uma perseguição religiosa, sim, um peculiar flagelo que o Papa chamaria de auto-perseguição religiosa, muito mais parecida com a de Judas do que com aquela de Saulo de Tarso.
- Comentários Eleison nº 770
Por Dom Williamson Número DCCLXX (770) – 16 de abril de 2022 CITAÇÕES DA RESSURREIÇÃO A fé é um escudo que detém uma multidão de mentiras. Com a fé na Ressurreição, nossa alma voa. Os quatro Evangelhos do Novo Testamento têm muito menos páginas sobre a Ressurreição de Nosso Senhor do que sobre a Sua Paixão, porque a Paixão foi o propósito e o clímax de Sua Encarnação. “Serei batizado em um batismo, e quanta ânsia tenho até que se cumpra!” (Lc. XII, 50) – estas palavras referem-se à Sua Paixão, sem a qual não teria havido Ressurreição. Por Sua Paixão, Ele conquistou Sua vitória sobre a morte; por Sua Ressurreição, Ele manifestou essa vitória. Com Sua Paixão, Ele venceu o mal e obteve a nossa salvação. Com Sua Ressurreição, Ele mostrou o bem que havia conquistado para os homens, e completou a nossa salvação. Ora, os homens caídos estamos inclinados a evitar o sofrimento para chegar aos seus frutos, e assim a Neoigreja substitui na Cruz o sofrimento pelo Cristo ressuscitado; mas os Evangelhos insistem nas raízes para garantir os frutos. No entanto, segue abaixo uma citação de cada um dos quatro Evangelhos sobre a Ressurreição de Nosso Senhor. Mateus, XXVIII, 18, algumas das últimas palavras de Nosso Senhor registradas por Mateus antes de Ele ascender ao Céu: “Toda autoridade no Céu e na terra me foi dada”, e não a Moisés ou a Buda ou a Maomé ou a Marx ou a qualquer um dos outros líderes das muitas religiões falsas que existem entre os homens. Tampouco Cristo está falando aqui como Deus, porque por ser Deus essa autoridade já é Sua. Se a autoridade foi “dada” a Ele, ela só pode ter sido dada a Ele como homem. Uma afirmação tão estupenda só pode ser uma absurdidade ou uma verdade. Mas se Cristo tivesse dito o contrário, seria um mentiroso, tal como os seus inimigos (cf. Jo. VIII, 55). É essa Autoridade que distingue a verdadeira Igreja Católica da Neoigreja e de todas as outras falsas igrejas ou religiões na terra. Essa Autoridade divina única vem de Deus somente através de Seu Vigário na terra, o Papa de Roma. Portanto, é necessariamente Deus quem restaurará o Papa para restaurar a Sua Igreja que possui autoridade. Marcos, XVI, 16, também palavras de Nosso Senhor pouco antes de subir ao Céu: “Quem crer e for batizado será salvo, mas quem não crer se condenará”. Aqui está outra afirmação estupenda que não faz sentido se não for verdadeira. E se é verdadeira, então todo o ecumenismo posterior ao Vaticano II com base em que as almas podem ser salvas fora da Igreja Católica é um absurdo. As almas podem ser salvas por Nosso Senhor NAS falsas religiões, mas nunca POR religiões não-católicas. Palavras duras? A questão não é se são palavras duras, mas se são verdadeiras. Eu nunca salvarei minha alma por meio de desejos ilusórios. E é pura ilusão que eu possa obter o Céu de Cristo negligenciando Cristo, ou a única Igreja que Ele instituiu para continuar Sua Encarnação na terra depois que Ele pessoalmente ascendesse ao Céu. Lucas, XXIV, 25, o Senhor ressuscitado está repreendendo os dois peregrinos de Emaús por sua lentidão em crer: “Não era necessário que o Cristo sofresse essas coisas e entrasse em sua glória?”. Os seres humanos não queremos acreditar que seja necessário sofrer de forma alguma, mas Santo Tomás de Aquino (III 69, 3) dá três razões pelas quais o Batismo não nos tira os sofrimentos nesta vida: em primeiro lugar, para que os cristãos possam participar da Paixão de Cristo; em segundo lugar, para que tenham de lutar para ganhar a vida eterna; em terceiro lugar, para que a vida cristã não se torne apenas uma forma de evitar os sofrimentos terrenos. O sofrimento tem sua utilidade. João, XX, 29, onde o Senhor ressuscitado acaba de curar o desconfiado Apóstolo Tomé de sua incredulidade, deixando-o tocar as feridas da crucificação: “Tu (Tomé) creste porque me viste. Bem-aventurados os que não viram e creram”. Muitas vezes, dois mil anos depois que Cristo viveu na terra, somos tentados a pensar que se pudéssemos vê-lo em carne e osso e viver com ele diariamente, como seus Apóstolos fizeram, seria bem mais fácil crer n’Ele. Mas se fosse assim nossa fé não teria o mesmo valor. Crer n’Ele sem essa evidência diária é muito mais meritório para o Céu, como Nosso Senhor lembra a São Tomé. Crer em Deus não é crer em bobagens, longe disso, mas crer n’Ele apenas com a ajuda de “evidências científicas” é privar nossa crença daquela confiança em Deus que é grande parte do mérito e do valor da fé. E se sofremos e ainda cremos, a crença tem ainda mais mérito. Kyrie Eleison.
- XV – A Sagrada Comunhão - Os Efeitos
A Sagrada Comunhão é alimento da alma: quais serão pois os seus efeitos? Os que produz o alimento material num corpo bem disposto. Ora, que faz o alimento material? 1. Conserva a vida. 2. Aumenta-a, fortalecendo-a. 3. Deleita. Assim opera a Eucaristia na alma. 1 – Conserva a vida A árvore da vida — No paraíso terrestre, em que Deus havia colocado Adão e Eva, dentre muitas árvores havia uma que era denominada a árvore da vida, porque seus frutos, saboreados de vez em quando, serviam para conservar a vida e a manter longe a morte; ao passo que os frutos das outras plantas serviam apenas de alimento (Gên 2,9). Essa árvore figurava a Eucaristia que, com sua virtude, conserva a vida das almas. Dizei-me uma coisa: Poderá um homem que não toma alimento algum manter-se com vida? Não, certamente: se cessa de comer, morre: nem é preciso que venham os inimigos para matá-lo. Também uma lâmpada se extingue, se não lhe acrescentais o alimento que é o óleo. Experimentai afinal deixar sem a comida um passarinho que tendes na gaiola, e vereis o que sucede. — Assim também a alma tem necessidade de alimento: e este é a Sagrada Comunhão, que preserva a alma do pecado e da morte eterna. A morte de Lázaro — Quando morreu Lázaro, Jesus, que era seu amigo, foi à casa dele a fim de o ressuscitar. As duas irmãs de Lázaro, Marta e Maria, uma depois da outra vieram ao encontro do divino Redentor, e disse cada uma delas: "Ó Senhor, se estivésseis aqui, meu irmão não morreria: Domine, si fuisses hic, frater meus non fuisset mortuus" (Jo 11,21,32). Jesus, entretanto, com um milagre estrepitoso ressuscitou Lázaro, embora já fossem passados quatro dias que estava morto. Quantos jovens poderiam repetir a mesma coisa da própria alma: Se Jesus estivesse aqui no meu coração, minha alma não teria morrido no pecado! — Por que têm morrido tantos para a graça, e, cheios de pecados, estão à do inferno? Assim se verifica neles a palavra de Jesus Cristo: "Se não comerdes a carne do Filho do Homem... não tereis em vós a vida: Nisi manducaveritis carnem Filii Hominis - non habetis vitam in vobis" (Jo 6,54). Quanta solicitude entre os homens, para manter vivo e sadio o corpo! Quando o ar é infecto de moléstias contagiosas, todo mundo tem medo de ser colhido pela doença; e, por amor da vida, recorrem a meios de preservar-se: remédios, desinfetantes... — Pois bem: para andar a salvo no meio de tantas infecções que adoecem o mundo com pecados e escândalos, eis o remédio: a Sagrada Eucaristia, alimento e remédio que, como os frutos da árvore da vida, mantém longe as moléstias e a morte da alma. 2 – Dá força e faz crescer Elias no deserto — O Profeta Elias, perseguido pela ímpia rainha Jezabel, fugiu através de um deserto. Cansado de andar, sentou-se sob uma árvore, e desejava a morte. Aí o Senhor lhe enviou um Anjo com um pão e um vaso d'água. Ele comeu aquele pão e bebeu: e readquiriu logo suas forças. Assim fortalecido, pôde andar durante 40 dias e 40 noites, até o monte santo onde o chamava o Senhor (3 Rs 19, 4-8). *** Esse pão que Elias comeu figura a Eucaristia, a qual nos dá a força para podermos andar corajosamente neste deserto que é a vida do homem, e chegarmos ao monte do Senhor, isto é, ao Paraíso. — Também nós, como o Profeta, somos perseguidos: por quem? Por muitos inimigos: e estes são o demônio que tenta, as paixões que trazemos dentro de nós, os maus exemplos e as seduções do mundo. Quem nos dá a força para vencermos estes inimigos? A Eucaristia. Quando temos conosco Jesus, que é forte guerreiro, o demônio não poderá fazer-nos seus, nem o mundo poderá seduzir-nos. Quando se tem Jesus no coração, adquire-se força e coragem nas dores, nas aflições, nas doenças, nos perigos. Somos dois a padecer — Um piedoso sacerdote, numa enfermidade bem tormentosa, sempre foi paciente. Um dia um médico, que devia fazer-lhe uma operação dolorosíssima, não ouvindo do doente nenhum gemido, perguntou-lhe donde tirava tanta força e paciência nas dores. Responde-lhe esse sacerdote: "Sr. doutor, somos aqui dois a sofrer: hoje Deus veio a mim na Sagrada Comunhão, e eu divido com Ele os meus sofrimentos". Eis como a Sagrada Comunhão dá força nas dores e nas moléstias. Avante para a batalha — O rei alemão Ótão I, no dia da batalha de Lechfeld (10 de agosto de 955), recebeu com o seu Estado Maior a Sagrada Comunhão na presença de todo o exército, a fim de adquirir força e coragem para combater. E obteve realmente uma esplêndida vitória sobre os húngaros, que deixaram livre o território alemão. Vede se a Sagrada Comunhão dá força e coragem nos perigos? Para crescer, o homem tem necessidade do alimento: e vós, que sois crianças, certamente não ficareis grandes se não vos alimentardes. Também para crescer nas virtudes, a alma deve ser alimentada com a Sagrada Comunhão. Então ela se torna grande, para superar a todos os obstáculos e alcançar o heroísmo. Os Mártires – Olhai o heroísmo dos mártires do Cristianismo, os quais fizeram assombrar-se até os tiranos. Havia-os de toda idade e condição: até meninos e meninas de vossa idade. Eram ameaçados, mas não cediam às ameaças. Eram jogados em prisões escuras, atados com cadeias de ferro, e beijavam as cadeias. Eram mandados à morte e lá iam alegremente. A quantos suplícios foram eles submetidos! Eram esfolados vivos, dados como pasto aos animais ferozes, jogados no fogo, crucificados... E não tinham medo; até iam ao encontro desses tormentos a sorrir, felizes de sofrer e morrer por Jesus Cristo! Mas qual era o segredo de tanta firmeza e de tanta coragem? A Sagrada Comunhão. Este, e não outro, era o segredo em virtude do qual aqueles mártires, que afinal eram tão débeis, se tornavam heróis! Assim morreram cerca de 18 milhões de mártires entre os mais horríveis suplícios, fortalecidos pela Sagrada Comunhão, denominada por isso o alimento dos fortes. E ainda agora, justamente nesse alimento dos fortes vão buscar seu heroísmo tantos Missionários que têm deixado a pátria, os parentes, os amigos e todas as comodidades, a fim de irem converter os infiéis nas regiões mais inóspitas e selvagens da Ásia, da África e da América, onde sacrificam a sua vida! Assim também é esse Pão da Vida que dá virtude a tantas almas generosas que se sacrificam ao conforto dos infelizes e dos enfermos nos hospitais, nos asilos, nas casas de caridade. Diz por isso, São João Crisóstomo que aqueles que recebem a Sagrada Comunhão “se afastam dessa mesa celestial fortes, invencíveis, como leões que exalam chamas e se tornam terríveis até para os próprios demônios”. 3 – Traz graças e vantagens inumeráveis Dizia Santa Teresa: “A divina Majestade costuma pagar bem a hospedagem àqueles que dão bom acolhimento”. Jesus é aquele Rei que não entra nunca de mãos vazias na casa dos seus súditos, e cuja generosidade é tanto mais profunda quanto maiores são as necessidades. José, o hebreu – Feito vice-rei do Egito, deu a seus irmãos todo o trigo que eles podiam levar em seus sacos. Também Jesus na Sagrada Comunhão nos dá todos os tesouros de graça de que somos capazes; todas as virtudes com as quais nos possamos santificar. Um ano depois - Um Missionário que se achava entre os infiéis numa região da América, a fim de conquistar almas para Jesus Cristo, batizara, entre outros, e dera a comunhão, a um pequeno selvagem, depois de o instruir na religião. Em seguida se foi alhures. De volta àquele lugar um ano depois, viu o mesmo Missionário vir ao seu encontro o pequeno selvagem que muito alegre lhe disse: “Padre, dai-me de novo a Sagrada Comunhão!" — "Sim, filho (responde o Missionário); mas antes deves confessar-te; num ano podes ter cometido pecados... - "Que dizeis, Padre? Pecados?... (responde admirado o rapaz); é possível pecar ainda, depois de ter recebido o Batismo e a Sagrada Comunhão? Graças a Deus, nunca mais pequei”. — Eis que graças traz e que efeitos pode operar uma única Comunhão bem feita: transformar um pobre selvagem num santo! 4. Dá-nos o penhor da vida eterna Disse-o o próprio Jesus Cristo: "Quem de tal pão comer, viverá eternamente (Jo 6, 52). A Sagrada Eucaristia é o viático para o Paraíso. A palavra viático significa provisão de tudo o que é necessário para fazer uma viagem. Por isso se dá esse nome à Comunhão que se faz quando se está na hora da morte; porque ela nos provê de todas as graças e do conforto de que carecemos naquele terrível momento. O piloto a bordo — Um marujo, ao se achar na hora da morte, recebeu os santos Sacramentos. Depois de comungar, todo feliz e tranquilo disse: "Agora estou pronto para a grande viagem". E como o sacerdote lhe perguntasse a causa de sua jucunda tranquilidade, respondeu em linguagem marinhesca: "Agora nada mais tenho a temer, porque o piloto está a bordo". — Queria dizer que tinha consigo o Senhor que o conduziria seguro ao porto da feliz eternidade. Eis quais são os principais efeitos da Sagrada Comunhão Conclusão Agora vede, se devemos todos fazer grande caso desse dom de Deus! — E, no entanto, quantos jovens há que dele nenhum caso fazem. E assim vêm a perecer miseravelmente. Deus lhes preparou, na Eucaristia, uma mesa celestial, um alimento de imortalidade; deu-lhes um remédio que os pode sarar de todos os males espirituais; e eles a descuram, e vão de preferência apascentar-se no lamaçal do vício e do pecado, onde, afinal, não topam senão desilusões e remorso! Caros rapazes, pretendeis também fazer tão pouco caso dos dons de Deus, para vos entregar nos braços das paixões e do demônio? Que desgraça espantosa seria isso para vós! Mas, longe tal pensamento! Vós, ao contrário, apreciais a Sagrada Comunhão. Procurai, pois, recebê-la com frequência e com as devidas disposições, correspondendo ao amor infinito de um Deus que se deu todo a nós. (Extraído do livro A Palavra de Deus em Exemplos, G. Montarino, Do original La Parole di Dio per la Via d’Esempi)
- XV – A Sagrada Comunhão - Instituição
O santo rei Davi, que também era Profeta, louvava certo dia a Deus pelos múltiplos benefícios que fazia aos homens, e exclamava: “Grande são as obras do Senhor” (Sl 110, 2). Pensando depois nos benefícios que Deus ainda teria feito há séculos, deteve-se a considerar um desses benefícios, que lhe parecia extraordinário e tal que fazia pasmar todo o mundo, e disse: - O Senhor, que é benigno e misericordioso, deixou lembrança de suas maravilhas. *** Que pretendia dizer Davi, profetizando? Queria dizer: O Senhor fez aos homens uma dádiva que encerra todas as maravilhas divinas. E que dádiva extraordinária era essa, prova do amor infinito de Deus, acrescenta-o logo: “Ele deu um alimento àqueles que o temem, isto é, aos fiéis. Como vedes, o santo profeta anunciava a instituição da Eucaristia, pela qual não só Jesus estaria conosco no santo Tabernáculo, como ainda se daria a nós como alimento de nossas almas. Eis a Sagrada Comunhão. Esta é realmente a maravilha das maravilhas, na qual jamais ninguém teria pensado. Consideremos um momento, e veremos: Que é a Sagrada Comunhão. Que a Sagrada Comunhão. 1 – A Figura Já sabeis de que modo foi instituída por Jesus Cristo a Sagrada Comunhão, mas é bom recordá-lo. Ela foi anunciada e prometida muito tempo antes. O maná do deserto – Quando o antigo povo hebreu, saído da escravidão do Egito, atravessava o deserto para ir à terra prometida, Deus fazia chover do céu o maná, que era um alimento maravilhoso, com o qual o povo se nutria. Esse alimento prodigioso figurava a alimentação espiritual que o Senhor depois daria aos cristãos na Sagrada Eucaristia. 2 – A Promessa Veio, afinal, Jesus Cristo para redimir o mundo, e fez da Eucaristia a promessa formal. Quando ele doutrinava as turbas, fez um discurso em que disse: - Eu sou o pão da vida. Vossos pais comeram o maná no deserto, e morreram. Esse pão é aquele descido do Céu, a fim de que não morra quem comer dele. Eu sou o pão vivo que desci do Céu: quem de tal pão comer, viverá eternamente. Ao ouvir estas palavras, alguns discípulos se escandalizaram e custaram a crer, porque pensavam ter de despedaçar Jesus para comê-lo; e não conseguiam compreender que Jesus ter-se-ia dado como alimento sob a espécie do pão e do vinho, de modo que não causaria nenhum horror. Por isso o abandonaram. Mas Jesus, em vez de os desenganar, confirmou o que dissera com estas palavras: “Em verdade, em verdade vos digo: Se não comerdes da carne do Filho do Homem e não beberdes o Seu Sangue, não tereis em vós a vida”. “Minha carne é realmente alimento e meu sangue é realmente bebida”. Neste discurso, como é fácil compreender, Jesus fez a promessa clara e precisa do grande Sacramento da Eucaristia, que iria instituir. 3 – A Instituição Passados cerca de 18 meses após esse discurso, Jesus se achava com os apóstolos no cenáculo, poucas horas antes da sua Paixão e Morte. Num gesto de profunda humildade, Ele, então, lavou os pés de cada um dos Apóstolos, como a prepará-los para o grande ato da Comunhão. Depois, quando ceavam, Jesus apanhou o pão, abençoou-o, cortou-o e deu-o aos seus discípulos dizendo: “Tomai e comei, este é o meu corpo” (Mt 26, 26). Como também apanhou o Cálice, e, erguidos os olhos ao Céu, o abençoou e o deu aos mesmos discípulos, dizendo: “Bebei disto todos vós, que este é o meu sangue do novo testamento” (Mt 26, 27-28). Eis de que modo Jesus Cristo instituiu a Sagrada Eucaristia que deve ser o alimento de nossas almas. Trata-se de seu verdadeiro corpo dado a nós como alimento, e de seu verdadeiro sangue a nós dado como bebida. 4 – Que quer dizer, então, comungar? Quer dizer receber o corpo, sangue, a alma e divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo realmente presente na Sagrada Comunhão. Quando comungamos, que acontece? Ocorre entre Deus e nós a mais íntima união que se possa imaginar. S. Cirilo de Jerusalém a explica com esta comparação: “Se se derreterem juntos dois pedaços de cera, de ambos de faz uma coisa só; assim também, participando nós do corpo de Jesus Cristo e de seu sangue precioso, Jesus está nós, e nós estamos em Jesus: nossa alma torna-se com Jesus Cristo uma mesma alma; nosso corpo torna-se com Jesus Cristo um mesmo corpo”. Essa união de nossa alma com Deus pode-se comparar a que ocorre entre nós e o alimento que tomamos; o qual sem que o percebamos, se transforma em carne nossa e em sangue nosso, com esta diferença: que na Sagrada Comunhão não somos nós que transformamos Jesus Cristo em nosso ser, mas é o próprio Jesus Cristo que nos transforma nele, de sorte que, após a Comunhão, podemos dizer com o Apóstolo São Paulo: “Parece que ainda sou eu que vivo; mas não, é Jesus Cristo que vive em mim: Vivo autem, jam non ego; vivit vero in me Christus” (Gál 2, 20). 5 – O amor de Jesus a nós Vedes que amor e que bondade nos demonstrou Jesus Cristo ao instituir esse augustíssimo Sacramento?! Não bastou ao seu amor o ter-nos criado à sua imagem e semelhança; não bastou o se ter feito nosso irmão, ao assumir a humana carne no seio puríssimo da Virgem Maria; não bastou o haverdes redimido, dando o sangue e a vida por nós numa cruz: quis ainda com o Sacramento da Eucaristia fazer-se alimento nosso e bebida nossa; dar-se inteiramente a nós, miseráveis criaturas, para elevar-nos até à divindade! Podíamos nós desejar mais? Afinal, quem algum dia chegaria a imaginar isso? Houve santos que puderam apertar contra o peito o Menino Jesus a eles aparecido milagrosamente. Tiveram essa graça Santa Teresa, S. Caetano de Thiene, S. Antônio de Pádua, S. Francisco de Assis e outros santos. E nós os invejamos, não é verdade? Mas é para os invejarmos? Não temos nós uma sorte maior? A fé nos diz que, ao recebermos a Sagrada Comunhão, recebemos justamente dentro de nós o corpo vivo de Jesus Cristo como agora é no Céu, e o seu sangue, e a sua alma, e a sua divindade. E tal amor, e tal bondade de Jesus Cristo para conosco aparecer-nos-á maior e mais manifesta, se considerarmos os efeitos que produz em nós a Sagrada Eucaristia. (Extraído do livro A Palavra de Deus em Exemplos, G. Montarino, Do original La Parole di Dio per la Via d’Esempi)
- XIV – Confissão – Sinceridade da Confissão
II – Sinceridade da Confissão 1 – Na essência A confissão deve ser sincera na essência. Isto significa que dos pecados se deve dizer a espécie e o número. a) A espécie, isto é, a qualidade do pecado - Suponde neste caso. Marco Antônio, confessando-se, diz: “Tive em mente maus pensamentos, imaginei fazer mal...”. Basta que diga assim? Não. Esses pensamentos eram de vingança? Então deve dizer: “Desejei vingar-me”. Eram de furto? Então deve dizer: “Pensei na maneira de cometer furto”. O desejo de fazer mal, referia-se a coisas desonestas? Então deve especificá-lo. b) O número – Dos pecados mortais, enfim, se deve dizer também o número; isto é, quantas vezes se cometeu esse ou aquele pecado. E se não se sabe o número preciso, diga-se o número aproximado: quantas vezes, mais ou menos, por mês, por semana, por dia. Uma confissão não especificada – Havia uma jovem que não era nada boa. Toda vez que a mãe lhe ordenava alguma coisa, retrucava. E, afinal, palavras feias e maldades de toda espécie. Essa moça um dia vai confessar-se e diz: “Padre, fui má, desobediente... roubei, disse palavrões...”. E o confessor: “Explica-te: que desobediências? Que palavrões dissestes? Que coisas feias dissestes?”. E ela respondia: “Não sei”. “Quantas vezes?”. E ela: “Não sei”. “Faltastes à missa?”. E ela: “Às vezes”. Era bem feita essa confissão? Vós mesmo o dizeis: “Não, não era bem feita”. 2 – Sinceridade no modo Mas há outro laço do demônio, contra o qual é preciso precaver-se. A confissão deve ser sincera no modo, isto é, deve ser feita sem confusões e sem desculpas. a) Sem confusões – Fazem as confusões os que dizem e desdizem; dizem mais ou menos sim e mais ou menos não; dizem um número, e depois outro...; e assim fazem, não uma confissão, mas uma confusão. b) Sem desculpas – Nunca é preciso desculpar os pecados. Muito menos se deve dar a culpa a outrem. De todo pecado se deve dizer: mea culpa! A culpa é toda minha! Uma confissão toda cheia de desculpas – Confessava-se certa vez um rapaz, e enfim, dizia os seus pecados; mas para todo pecado havia pronta a desculpa. “Blasfemei e soltei imprecações seis vezes, mas porque os colegas me atiravam pedras; desobedeci a meus pais, porém me mandam sempre, e nunca estão satisfeitos; conversei e ri na igreja, mesmo na hora da missa, mas era o colega vizinho que me fazia falar e rir. Eu disse à minha avó: ‘velha má!’, porque ela nunca está calada e resmunga sem parar, por força preciso responder...”. E assim por diante. Eis as desculpas. Era essa uma confissão sincera? Quais são os pretextos e os medo que têm alguns, para não dizerem a verdade ao confessor? São ideias falsas que lhe induz o demônio, para os fazer cair nas suas armadilhas. (Extraído do livro A Palavra de Deus em Exemplos, G. Montarino, Do original La Parole di Dio per la Via d’Esempi)
- XIV – Confissão – Os pretextos e o medo
III – Os pretextos e o medo 1 – Tenho vergonha demais Esta é uma tentação terrível que usa amiúde o demônio, e um laço em que prende tantas almas! Uma restituição do demônio – Um dia Sto. Antônio, Arcebispo de Florença (+ 1459), viu o demônio numa igreja, onde havia gente para confessar-se. - Que fazeis aqui? - lhe indagou. E o demônio respondeu: - Faço uma boa ação. - Será possível? - Sim, faço uma restituição. Quando induzi alguns desses cristãos a pecar, tirava-lhes o rubor para que pecassem francamente; agora que eles querem confessar-se, restituo-lhes o que tirei, a fim de que, por vergonha, calem os pecados. *** Deve-se ter vergonha de confessar os pecados? Vergonha de os praticar, sim; mas nunca para os dizer! A vergonha de um discípulo de Socrátes – Um discípulo de Sócrates, filósofo grego (+400 a.C.), entrou numa casa de pecado. Ao sair dali, viu passar o seu mestre Sócrates. Aí recuou imediatamente para dentro e se escondeu atrás da porta. Mas o mestre já o havia percebido, e gritou-lhe: - Por que te escondes? Sai, pois, daí. Sair dessa casa não é vergonha; vergonha é entrar. *** A confissão sincera é um bem; por que, então, se terá vergonha de fazê-la? Só do mal se deve ter vergonha. Diz S. Agostinho: “Que estultícia fazer-se uma chaga na alma, e não ter a coragem de medicá-la e curá-la com o bálsamo da confissão!”. E São João Crisóstomo: “Não te envergonhastes de te tornares pecador, e agora te envergonhas de te tornares justo?”. E, afinal, não se trata absolutamente de manifestar em público os pecados; mas de os dizer a um sacerdote que já conhece todas as misérias e as culpas de que são capazes os rapazes e as mocinhas. Que direis de um enfermo que oculta ao médico o seu mal por vergonha? Não é um estulto? 2 – Os meus pecados são grandes demais E com isto? Há, porventura, pecado que Deus não perdoe? Qualquer pecado, por mais grave, será perdoado se se confessa bem. Por isso, foi instituída por Jesus Cristo a Confissão. Jesus disse: “Não são os sadios que têm precisão do médico, mas os enfermos: Non egent qui sani sunt medico sed qui male habent” (Lc 5,31). 3 – O confessor repreender-me-á E se assim fosse? O confessor deve também fazer admoestações... Mas não é verdade que repreenda; pois Jesus recebia sempre com doçura os pecadores e os perdoava; e assim deve fazer o sacerdote. Também ele receberá o pecador arrependido, como um pai acolhe a seu filho. E rejubilar-se-á o confessor, pois ganha uma alma para Jesus Cristo. Ele faz como os pescadores. Quando um pescador atira a rede e não apanha senão peixinhos, diz: “Oh! Que pesca mesquinha!”. Mas quando na rede caem peixes grandes, rejubila-se com a boa pescaria. O confessor é um pescador de almas, e goza quando a alma de algum rapaz pecador se livra das cadeias do demônio. Um penitente de S. Luís Bertrand – A S. Luís Bertrand (+ 1581) fazia sua confissão um jovem que tinha muitos pecados graves. Este, toda vez que declarava um pecado, encarava o confessor, para ver as impressões; mas, com espanto seu, via sempre sereno aquele semblante. Finda a confissão, disse: - Padre, tenho outro pecado... e o cometi agora. O santo, nada surpreso, falou: - Dizei-o também esse. O penitente acrescentou: -Vendo alegre o seu rosto, julguei mal V. Revma., e pensei: Este confessor deve também ter cometido pecados feios como os meus. Aí o santo: - Meu caro filho, graças a Deus eu jamais cometi os pecados que tu dizes. Sabes por que eu estava alegre? Por ver a tua sinceridade e o teu arrependimento; eu via romperem-se as cadeias com que o demônio te mantinha preso; eu via os anjos a festejar a tua conversão. Eis porque me rejubilava. O jovem depois contou este fato aos companheiros, para os animar a confessar-se com sinceridade. 4 – O confessor admirar-se-á... perderá a estima... Primeiro de tudo: quem vos obriga a confessar-se a um confessor que vos conhece? Podeis procurar o confessor que desejais. E, afinal, admira-se, porventura, o confessor? Mas sabe ele, perfeitamente, que todos podem cometer algum pecado grave; por isso não se admira jamais de coisa alguma. Perderá a estima? Pelo contrário! Torná-la-á até maior, porque vê a vossa firmeza e a vossa humildade ao confessar as culpas. “Qual a estima por mim?” – A S. Francisco de Sales, Bispo de Genebra (+1622), apresentou-se um pecador que tinha na consciência muitos crimes, e a ele fez com muito esforço a sua confissão geral. Ao receber a absolvição, disse ao confessor: - Agradeço-lhe a sua grande caridade: mas agora qual a estima que terá V. Revma. por mim? - Estais errado – responde o santo – após absolvição a vossa alma ficou branca como a neve, e sois caro ao Céu: por isso tenho por vós a estima que se deve ter por um santo. 5 – Mas... não manifestará depois o confessor a outrem os meus pecados? Que estais a dizer?! Sabeis o que é o sigilo sacramental? É o segredo tremendo que o confessor deve manter daquilo que ouviu em confissão; e nunca há perigo de ser violado esse segredo. O confessor é obrigado a deixar-se cortar a cabeça, de preferência a revelar um só pecado que seja ouvido em confissão. Deus nunca permitiu que confessor algum, mesmo tornado louco ou mau, violasse o sigilo sacramental. Houve tiranos que tentaram e forçaram confessores a revelar o que tinham ouvido em confissão; mas nunca o conseguiram; e os confessores assim tentados deixaram-se antes degolar. São João Nepomuceno – Cônego de Praga (+1383), era confessor da mulher de Venceslau, rei da Boêmia. Esse rei malvado queria saber os pecados que a rainha havia confessado. Mas o santo não revelou uma sílaba. O rei, após muitas lisonjas e ameaças, mandou atá-lo e disse: - Se não manifestas os pecados que ouviste em confissão, far-te-ei jogar dentro do rio. E S. João retrucou francamente: - Não posso! Aí o rei fez jogar o santo, amarrado como estava, no rio Moldava, onde ele morreu. O corpo desse santo, reduzido a esqueleto, foi examinado mais de 300 anos depois; e se encontrou a sua língua ainda intacta, como quando era vivo. Com esse milagre, a todos patente, quer Deus glorificar o seu servo, mártir do sigilo sacramental. 6 – Direi o meu pecado mais tarde, ao morrer. Míseros! Indo adiante assim, cometereis novos pecados e novos sacrilégios. Qual a ocasião mais bela do que esta, em que tendes a graça especial dos Exercícios e confessores alheios? Se agora não sois capazes de saltar um fosso, como saltaríeis mais tarde um rio? À morte? E se morrerdes subitamente? E se na morte perderdes a fala? Quem espera a morte para reparar às condições mal feitas, acabará morrendo mal. A morte de uma penitente mentirosa – O Pe. Agostinho de Fusignano conta este fato. Uma senhora, que se confessava amiúde, calava sempre um pecado grave, com a esperança de confessá-lo mais tarde ou ao morrer. Enquanto isso, foi vivendo os sacrilégios por muito tempo, até ficar doente e no fim da vida. Foi, então, chamado o seu confessor. Mas a moribunda quando o viu, lhe disse: - Chegastes a tempo para ver uma mentirosa penitente vossa ir para a casa do diabo. - Confessai-vos bem agora, disse o confessor, e tudo se ajustará. - Agora é tarde demais; não posso! Assim repetiu, impaciente, aquela infeliz, e expirou. Conclusão 1 - Queridos filhos, fazei bem as vossas confissões: dizei todos os vossos pecados, não coisas inúteis, mas só os pecados. Não diminuais o número; não caleis as circunstâncias que alteram a espécie do pecado; não vos acuseis só de pensamentos quando se trata de atos indignos. Dizei tudo. Se a isso não vos resolveis, ai de mim! Não tereis mais paz: tereis sempre uma cobra no coração. E depois? Se ocultais agora os vossos pecados ao confessor, sabê-los-á todo mundo no dia do Juízo. E depois? Quereis levar convosco os vossos pecados para o inferno? Lá não haverá mais tempo para remediar. 2 - Para não cairdes no laço terrível do demônio, fazei assim: o pecado maior dizei-o primeiro, como ensina S. Filipe Neri. Se afinal não vos arriscar a revelar certos pecados feios, dizei ao menos ao confessor: “Tenho um pecado que não tenho coragem de dizer, e não sei como dizê-lo”. Aí pensará o confessor em vo-lo tirar da boca. 3 - O remédio para as confissões mal feitas: a confissão geral. Quando alguém houvesse feito confissões más e sacrílegas, poderá ainda remediá-los? Sim, certamente. E como? Com uma confissão geral, isto é, de todos os pecados cometidos com o uso do raciocínio. São obrigados a fazer a confissão geral aqueles que nunca tiveram o propósito; muito mal aqueles que têm calado propositalmente os pecados; e devem fazê-la pelo menos a começar da última confissão bem feita. Um capote mal abotoado – Tadeu, ao abotoar o seu capote que tinha seis botões, errou a casa do segundo, e assim continuando até o último botão, errou a todas; e o capote ficou mal abotoado. Que teve de fazer? Desabotoar o capote até o botão errado, e depois abotoá-lo de novo. *** Assim é quanto à confissão. Se alguém houvesse, nalguma confissão passada, calado por vergonha algum pecado grave, que seja, essa confissão seria sacrílega, e não valeria coisa alguma; também sacrílegas eram todas as confissões feitas depois. E então, que fazer? Deve-se voltar atrás e renovar a primeira confissão mal feita e todas as seguintes, dizendo todos os pecados confessados e calados, e ainda os sacrilégios. Assim fica tudo remediado. A confissão geral é boa coisa até para os que se confessarem bem, e todos vós deveríeis fazê-la nesta oportunidade dos Exercícios Espirituais. Fazendo um exame de consciência melhor, encontrareis muitas faltas em que talvez nunca pensastes. Vendo, afinal, juntos tantos pecados, concebereis uma dor mais viva e fareis um propósito mais firme de não os cometer mais. Quando, afinal, estiver a vossa alma revestida da graça de Deus, tereis maior vontade de fugir dos perigos e das ocasiões de pecar, para não maculá-la de novo. Assim, começareis uma vida mais santa; garantir-vos-ei o perdão de Deus; tereis a paz da consciência; preparar-vos-ei para fazer bem a Sagrada Comunhão; e, enfim, se tiverdes de morrer, morrereis com o coração cheio de consolações, por estardes certos de ir à posse do Paraíso. (Extraído do livro A Palavra de Deus em Exemplos, G. Montarino, Do original La Parole di Dio per la Via d’Esempi)









