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- A pulverização da Igreja
Por Gustavo Corção, publicado n’O Globo em 27-01-1973 QUASE poderíamos, a priori, descrever as fases progressivas do processo de demolição da Igreja empreendido pela Revolução Mundial. A Igreja distingue-se dos protestantismos por sua forma hierárquica, ou pela informe poeira dita ainda cristã deles. Para a Revolução é imprescindível o contínuo e progressivo ataque ao princípio de autoridade que dá forma às sociedades. Para chegar à desejada meta começou de longa data por difundir o termo comunidade que não implica ideia de forma, e por abolir o termo sociedade, quando se fala das estruturas eclesiais. A Igreja, no linguajar dos seus demolidores internos, apresentados nos jornais como teólogos, há muito tempo deixou de ser Sociedade. No seu livro de Le Paysan de Ia Garonne, Maritain frisou bem (p. 81) que a Igreja como sociedade será também uma "comunidade de pessoas humanas", com o primado da pessoa sobre a comunidade. Para a Revolução que se processa em tons diferentes nos dois hemisférios do mundo, é mister dissolver a pessoa dentro da comunidade e liquidificar a sociedade que, sem hierarquia, se desfaz em comunidade. NA FASE seguinte do processo demolidor difundiu-se a ideia de que a Igreja é um povo à custa de uma equívoca interpretação do título do Cap. II da Lumen Gentium. Nesta etapa estão incluídas todas as tentativas de democratizarão da Igreja, desde a potencialização do termo Povo de Deus até à definição ou apresentação oficial da Santa Missa como assembleia dos fiéis, isto é, como estrutura de base. O termo base ressoa nas abóbadas de nosso século com várias conotações que convergem todas para o primado da causa material. Se conspiramos contra uma sociedade, isto é, contra uma forma, devemos, sempre que se apresentar ocasião, lançar no debate o termo base. Sem necessidade de grande argúcia dos demolidores, bastando para isto o descuido ou o sono dos pastores, hão de se encontrar os dois termos para designar a terceira etapa da obra que já agora se pode chamar pulverização da Igreja. E ASSIM chegamos logicamente ao que já temos fisicamente espalhado no mundo católico: as comunidades de base que estão prontas para corroer, como térmitas, todos os grupos e sociedades do direito natural. A comunidade de base é a fórmula atômica da anarquia. A dinâmica de tais comunidades tem duas características principais: a primeira é a indefinida multiplicação de experiências e caprichos. Assim é que em muitas dessas comunidades espalhadas no mundo inteiro celebram-se missas particulares com liturgias que têm já a divertida improvisação dos happenings. O experimentalismo litúrgico lançado em Roma pelo Cardeal Lercaro e seus herdeiros encontra nas "comunidades de base" o seu campo próprio. Estamos em pleno movimento browniano da liturgia empírica, e de base. A segunda característica da dinâmica das comunidades de base está no afrontoso método de primeiro fazer e depois ver o que acontece. Dado que o mundo de hoje padece de uma diminuição planetária do caráter e da coragem, essa imposição da praxis revolucionária produz a figura do "fato consumado” diante da qual toda autoridade tíbia se inclina, ou até esboça uma genuflexão. PARA ilustrar e documentar fartamente o que acima dissemos das "comunidades de base" recomendo vivamente a leitura da Hora Presente novembro/72, nº 13, que dedicou quase todo o número da revista ao exaustivo estudo de mais esta enfermidade que é uma espécie de cupim, ou de herpes que se espalhou na pele da Igreja produzindo em todo o seu corpo pruridos de novidades, pruridos de desobediência, pruridos pornográficos, pruridos litúrgicos, pruridos marxistas. E NÃO se admire o leitor se, à frente de muitos desses movimentos que querem destruir a hierarquia, encontrarmos bispos e cardeais. Não há aí nenhuma contradição lógica, haverá sim a contradição psicológica que leva ao suicídio e que se alastra na Igreja como autodemolição. E a própria hierarquia que destila o veneno que se transforma, se multiplica e se volta contra ela. Todo o mundo hoje sabe que são os bispos, com algumas santas exceções, que estão comandando a destruição da autoridade, a democratização, a comunização, a pulverização da Igreja. CORRENDO os olhos pelo imenso material coletado por Hora Presente, num trabalho de Hércules, nós vemos desfilar fastidiosamente os nomes de personagens conhecidos: Hans Kung, Ivan Illitch, Jean Cardonnel, Jean-Marie Do-menach Rahner, Congar, Suenens, Alfrink, Fesquet, Girardi etc. etc. etc. SE quisermos aqui reproduzir as denominações dos grupos e movimentos que nascem e se multiplicam em sub-sub-legendas teríamos de ocupar todo o jornal. E nessa marcha, dentro de um ano precisaremos de um volume especial da Lista Telefônica para catalogar os pedaços a que se reduziu a Igreja Católica. Eles mesmos já traçaram o programa: A Igreja desierarquizada (seria melhor dizer anarquizada) e reduzida a milhões de pequenas igrejas carismáticas e proféticas. NO mesmo número de Hora Presente é feito um judicioso paralelo entre as Comunidades de Base e os Cursilhos. HÁ evidentemente em todos esses fenômenos uma interpenetração dos dramas da Igreja e das tragédias e comédias da Civilização. Esperamos que a Hierarquia descubra que deixou portas e janelas abertas demais em dias de tempestade e de revolução. Falaram no "ghetto", como os modernistas em "torres de marfim". Resta um dado perene do senso comum: a Igreja, para bem se governar, precisa Casa abrigada do vento e dos vagabundos. Precisa arrumação. Ordem.
- TRADIÇÃO
Por S. Exa. Revma. Dom Tomás de Aquino, O.S.B. 17 de fevereiro de 2024 É preciso ter uma doutrina muito segura para compreender e fazer compreender todo o verdadeiro significado da palavra Tradição, especialmente nesta crise que se abateu sobre a Igreja desde o Vaticano II. O combate de Dom Lefebvre contra os erros do Vaticano II foi chamado de Tradição: "Tradidi quod et accepi”. Esse combate não é, estritamente falando, o combate de Dom Lefebvre, é claro. É o combate da Igreja. É, particularmente, a operação sobrevivência de 1988, sobrevivência de toda a Igreja. Dom Lefebvre não queria ser chamado de chefe dos tradicionalistas. Ele simplesmente se autodenominava um bispo que resiste, o que levou Dom Gérard a acusá-lo de "resistencialismo". Resistir por Fidelidade (nome escolhido na França para designar a oposição ao acordismo de Dom Fellay). Podemos dizer a mesma coisa hoje. Há fiéis que resistem e que querem continuar o combate de Dom Lefebvre como ele o conduziu. Mas não é tão fácil ter a sabedoria de Dom Lefebvre. Que podemos fazer, a não ser implorar ao Deus dos Exércitos que tenha misericórdia de nós? Que ele nos faça lutar de acordo com as regras da prudência. Ele não apenas defendeu o depósito da fé, mas também denunciou os inimigos desse depósito. Há, em Dom Lefebvre, uma prudência superior, um dom de conselho para discernir a verdadeira maneira de combater. A maneira verdadeira não era a de Dom Gérard, nem a do Padre Bisig, fundador da Fraternidade São Pedro, nem a de nenhuma das comunidades Ecclesia Dei (primeiras palavras do documento que excomungou Dom Lefebvre), nem a de todos aqueles que aderiram aos convites de Roma. De que forma a maneira de Dom Gérard desagradava a Dom Lefebvre? Desagradava porque entregava aos inimigos os verdadeiros católicos, a parte escolhida do rebanho. Ele ficou surpreso por não ter havido mais resistência a Dom Gérard no Barroux; era preciso ter lutado mais. Entregar as almas dos monges, de seus padres, quase todos ordenados por Dom Lefebvre, e das freiras beneditinas também... sim, Dom Gérard merecia ser deposto. Dom Lefebvre me disse isso. Ele queria que eu fosse ao Barroux para isso. Confesso que não tive nem a coragem, nem a força, nem a capacidade de fazê-lo. Mas é essa a conduta dos verdadeiros bispos e também dos verdadeiros santos, como São Pio V, que liberou os ingleses da obediência à Rainha Elizabeth. No caso de Dom Gérard, não se tratava diretamente de uma questão de heresia, mas sua conduta levaria os monges aos erros modernos do Vaticano II. Voltemos aos tradicionalistas. Tentemos uma definição: aqueles que, no combate atual, seguiram Dom Lefebvre e continuam a segui-lo. Eis o movimento da Tradição. Tradição doutrinária e tradição prudencial. Essa é a Tradição que aprendemos a amar com Dom Lefebvre, na qual ele repreendeu o erro, reacendeu a coragem, esclareceu as dúvidas e comunicou em abundância as graças dos sacramentos. Sigamo-lo novamente. Com ele, mais do que com qualquer outro, temos a Tradição. Ele é, ainda hoje, o homem capaz de fazer a única reconciliação (ralliement) verdadeira que pode unir todos os tradicionalistas na verdadeira fidelidade.
- Comentários Eleison nº 865
Por Dom Williamson Número DCCCLXV (865) – 10 de fevereiro de 2024 MOTIVO para a “RESISTÊNCIA” Deus nos deu o velho santo sábio que sabia do que precisaríamos. Poderia um jovem pensar que seria capaz de nos liderar? Há menos de um mês, em 24 de janeiro, Dom Tomás de Aquino, o Prior brasileiro do Mosteiro beneditino tradicional da Santa Cruz, situado nas altas montanhas do Brasil, por trás do Rio de Janeiro, publicou uma denúncia grave a respeito de um líder proeminente que atua em todo o mundo no movimento católico tradicional. Mas os tradicionalistas já não têm problemas demais fora da Tradição? Ainda têm de brigar entre eles mesmos também? Normalmente isso é senso comum católico, mas não se a base mesma do catolicismo, a fé católica, estiver em jogo. E, ora, na luta entre Roma e a Fraternidade Sacerdotal São Pio X, ela nunca deixou de estar em jogo. Que os leitores julguem por si mesmos se, como pastor do rebanho de Nosso Senhor, Dom Tomás fez algo diferente do seu dever sagrado ao denunciar aquele lobo em pele de cordeiro. A causa de existir a Resistência não é outra senão Dom Fellay com suas palavras e seus atos. Suas palavras minimizaram a gravidade da crise e do Concílio. Seus atos expuseram a Tradição a ter o mesmo destino que as comunidades Ecclesia Dei. Dom Fellay não falava como Dom Lefebvre. Dom Lefebvre denunciava com força os erros do Concílio bem como os que eram a causa destes erros. Ele advertiu praticamente todos os papas conciliares de suas responsabilidades. Disse a João Paulo II que se ele continuasse no caminho do ecumenismo já não seria o bom pastor, e no desenho sobre Assis, disse, com imagens e palavras, que João Paulo II iria para o inferno, se continuasse ecumenista. Disse ao cardeal Ratzinger que ele, Ratzinger, era contra a cristianização da sociedade. Ele denunciou a apostasia da Roma conciliar (...) Defendeu padres e fiéis do contágio modernista. Expôs-se a uma excomunhão inválida, mas infamante. Não recuou na defesa da França face ao perigo muçulmano. Protegeu-nos contra a tentação acordista de Dom Gérard. Ele foi, em suma, como os antigos bispos: o defensor da cristandade e da base da cristandade, que é a fé. Foi o homem das virtudes teologais, sustentando nossa fé e todas as virtudes. E Dom Fellay? Continuou ele a ação de Dom Lefebvre? Não. Tanto nas palavras como nos atos, Dom Fellay se afastou de Dom Lefebvre. Sobre a Liberdade Religiosa, ele minimizou a gravidade do que disse o Concílio (...) Não atacou os erros como Dom Lefebvre. Não falou das duas igrejas como Dom Lefebvre. Não distinguiu com clareza a Igreja oficial da Igreja Católica, mas falou de uma "igreja concreta", confundindo os fiéis e até os padres. Que igreja concreta é essa? Temos de estar nessa igreja? Nós estamos na Igreja Católica. Reconhecemos o papa, mas não a Igreja conciliar, da qual falava o cardeal Benelli. Reconhecemos o papa, mas não a sua doutrina nem seus atos contra a Tradição. Estes atos não são católicos, mas anticatólicos. Foi sob a influência de Dom Fellay que o capítulo de 2012 modificou o princípio enunciado pelo capítulo de 2006: nada de acordo prático sem acordo doutrinal. Isto não agradava a Dom Fellay e foi mudado. Com certas condições, pode agora a Fraternidade fazer acordo prático sem acordo doutrinal. É uma brecha. Brecha que pode levar a Fraternidade pelo caminho das comunidades Ecclesia Dei. Ela não foi tão longe, mas baixou sua guarda e Roma se aproveitou disso. Dom Fellay reprimiu a resistência interna na Fraternidade, expulsando Dom Williamson e alguns padres; depois puniu outros, como os sete decanos que protestaram, acertadamente, contra o documento de Roma a respeito dos casamentos. Dom Fellay desorganizou a Tradição, afastou-se da linha de Dom Lefebvre e fez outros também se afastarem dela. Esta foi a razão de existir a Resistência: resistir a tal afastamento. Nós queremos seguir Dom Lefebvre em tudo, na doutrina e também nas soluções práticas, pois, como ensinam Aristóteles e Santo Tomás, os exemplos dos antigos servem de princípios de ação. Seguimos Dom Lefebvre na doutrina e na ação, sobretudo em relação à Roma modernista, e isto para sermos fiéis à Roma eterna, mestra de verdade e de santidade. Kyrie eleison.
- XXVIII – Como devemos crer - A Universalidade e a Operosidade
Como devemos crer A Universalidade e a Operosidade I – Como devemos crer 3 – Universalidade Nossa fé deve estender-se a todas as verdades que Deus revelou e que a Igreja ensina. Não se compreendem algumas delas? Que importa? Deve-se crer em todas. Pode correr um trem numa linha em que falte apenas um metro de trilho? Também não se vai à eterna salvação se se falta num único artigo de Fé. Negar uma única verdade é o mesmo que renegar a Fé. “Quem tiver faltado num só ponto, tornou-se réu de todos os demais: Quicumque offendat in uno, factus est omnium reus” (Tg 2,10). São Pedro mártir - Nascido de pais hereges (✝ 1254), ao frequentar a escola elementar, aprendeu o Credo, que recitava amiúde, para não esquecer algum artigo de fé. Um tio dele, herege, um dia o deteve e o perguntou: “Que aprendeste na escola?”. “O Credo”. Indignado, o tio ameaçou-o, dizendo-lhe que não se deve crer em nada que está no Símbolo Apostólico. Não obstante continuava o menino a professar a sua fé inteira. Tornando-se depois religioso dominicano, empregou sua vida combativa na defesa da religião, até que os inimigos da Fé católica juraram matá-lo. Atacado um dia por um sicário, que o feriu na cabeça com uma espada, ainda teve tempo de recitar todo o Credo antes de expirar. E querendo selar a sua Fé com o sangue ainda escreveu a palavra Credo no chão com o dedo molhado do próprio sangue que ele derramava aos borbotões. 4 – Operosidade A Fé deve ser ainda operosa: isto é, deve-se manifestá-la com as obras. Ela se compara a uma árvore que se nutre de seus próprios frutos. Se faltam estes, a árvore também perece. “Que aproveita (escreve S. Tiago) se diz alguém possuir a fé, e não possua as obras? (Tg 2,14). Essa é a fé dos demônios, que também creem (ibid. 19). Vendo os espíritos imundos Jesus Cristo, exclamaram: “Tu és o Filho de Deus” (Mc 3,11-12). É Fé que salva a Fé sem obras? Não: a que salva é a Fé viva e não a sem obras, que é fé morta. “Crê realmente quem pratica com as obras aquilo em que crê” (S. Gregório). Que importa dizer “eu creio em Deus”, se afinal se despreza a sua lei?; dizer “eu creio em Jesus Cristo”, se afinal não se vive de acordo com as suas máximas?; dizer “eu creio no inferno”, se afinal nada se faz para evitá-lo; dizer “eu creio na remissão dos pecados e na presença real de Jesus Cristo na Eucaristia, se afinal se fica afastado da Confissão e da Comunhão? Isso não é fé operosa, mas só de nome. Heroísmo de obras – Na época da Revolução francesa, um soldado da Vandéia, feito prisioneiro com muitos outros, foi levado a seu torrão natal, a fim de ali suportar o derradeiro suplício. Lá estava erecta, na praça, uma Cruz, a pouca distância da qual se achava a casa do soldado. Os republicanos lembraram então ao condenado o velho padre, e lhe perguntaram se o queria ver. “Sim”, respondeu ele. “Pois bem (acrescentaram), vê-lo-ás se abateres aquela Cruz com este machado”. O soldado tomou do machado e foi correndo à Cruz. Seus companheiros de desventura estremeceram, pensando que ele apostasse de sua fé. No entanto, o generoso soldado, abraçando a Cruz, exclamou: “Ai de quem insultar a Cruz de Cristo” É este o sinal da minha redenção, que até aqui venerei! Sempre obrei segundo os ensinamentos de Jesus Cristo que morreu na Cruz por minha salvação, e agora de bom grado morrerei aos pés dela por minha Fé”. Assim, abraçado à Cruz, foi traspassado pelas baionetas daqueles monstros, e ali deixou a vida. Eis o heroísmo de obras de um verdadeiro cristão apegado à sua Fé. Conclusão Expus a vós as qualidades que deve ter a nossa Fé, para que nos possa abrir as portas do Céu. Deve agora cada qual, por sua conta, fazer um pouco de exame e indagar a si mesmo: Tem minha Fé todas as qualidade requeridas? É sobretudo firme? Ou é vacilante? É ela prática de operosa? Ou é como uma árvore sem frutos? Ouçamos o que nos diz S. Paulo: “Experimentai se estais na verdadeira Fé: provai vós mesmos: Vosmetipsos tentate, si estis in fide; ipsi vos probate” (2 Cor 13, 5). Tenhamos diante dos olhos o exemplo de milhões de mártires que morreram pela Fé; olhemos também tão bons cristãos que, firmes na crença de todas as verdades reveladas, procedem de acordo com elas: imitemo-los, e a nossa será a Fé que salva. (Extraído do livro A Palavra de Deus em Exemplos, G. Montarino, riginal La Parole di Dio per la Via d’Esempi)
- DUAS CARTAS, DUAS ORIENTAÇÕES
Por S. Exa. Revma. Dom Tomás de Aquino, OSB 10 de fevereiro de 2024 Três bispos escreveram a seu superior sobre o perigo de um acordo puramente prático com Roma, e fizeram apelo a seu fundador, Dom Lefebvre. — Ele tinha razão, há 25 anos; continua a ter razão hoje — diziam eles. A essa advertência, o superior respondeu que os três bispos estavam desprovidos de espírito sobrenatural e de senso da realidade. Grave acusação, que poderia recair sobre o próprio Dom Lefebvre. Mas será verdadeira? Não seria o contrário: a Dom Fellay é que faltariam essas duas qualidades? Eis aí toda a questão. A quem falta realismo e espírito sobrenatural? A Dom Lefebvre é que não era. Aos três bispos que recorriam ao exemplo de Dom Lefebvre é que não podia ser. Eles afirmavam que a situação de então (2012) não era substancialmente diferente da de 2006, quando fora decidido não fazer acordos práticos sem acordo doutrinal. Eles alertavam sobre o perigo de pôr-se nas mãos dos bispos conciliares e da Roma modernista. Irrealismo? Falta de espírito sobrenatural? Queriam preservar a Fraternidade das profundas divisões que poderiam ocorrer. Falta de senso da realidade? de espírito sobrenatural? Chamavam a atenção do Superior Geral sobre o pensamento modernista de Bento XVl. Notavam, na Fraternidade, sintomas de diminuição na confissão da Fé. Irrealismo? Falta de espírito sobrenatural? Dom Lefebvre falava de AIDS espiritual da Roma modernista. Dom Fellay parece não pensar da mesma maneira ou não tomar as mesmas precauções. Ele minimiza a gravidade dos erros do Concílio. Para ele, a Liberdade Religiosa se torna uma liberdade muito, muito pequena. E o Concílio, algo sobre o qual muitos pensam que disse o que não disse. Quem são esses "muitos"? Os três bispos? Ele os acusa de tratar os erros do Concílio como se fossem super-heresias. Se comparamos Dom Fellay com Dom Lefebvre, a diferença é nítida. Dom Lefebvre falava de apostasia de Roma. Dom Fellay minimiza a situação e procura uma perigosa aproximação com a Roma modernista, com ou sem acordo. Quais foram os frutos dessa suposta superioridade de Dom Fellay, isto é, a de ser mais realista e sobrenatural que Dom Williamson, Dom Tissier e Dom Galarreta? Os frutos foram doces ou amargos? Que cada um julgue por si. Grande comoção na Fraternidade; mudança do princípio que rege as relações com Roma (acordo prático só com acordo doutrinal ou acordo prático sem acordo doutrinal); partida de sacerdotes que deixaram a Fraternidade, incluindo o Padre Faure; expulsão do bispo mais combativo da Fraternidade (Dom Williamson); expulsão de padres; perplexidade de sacerdotes que, mesmo ficando na Fraternidade, não aprovaram a nova política iniciada por Dom Fellay; desorientação entre os fiéis; afastamento de algumas comunidades amigas; reservas da parte de outras; aceitação de medidas comprometedoras que tomou em relação à Fraternidade, indo até a aceitar as novas medidas a respeito dos casamentos, causando a reação e a demissão de sete decanos franceses e a reação de três comunidades amigas; etc. Bons frutos? Não! Que concluir? Há duas orientações na Tradição: a de Dom Lefebvre e a de Dom Fellay, ao menos a de Dom Fellay enquanto Superior Geral. Como Dom Fellay nunca se retratou, podemos supor que ele ainda pensa assim. Nós seguimos a de Dom Lefebvre e agradecemos a Dom Williamson ter resistido a Dom Fellay. Graças a Dom Williamson, a Resistência pode continuar o combate com a santa liberdade dos filhos de Deus para defender a Tradição e transmiti-la conforme o exemplo que nos deu Dom Lefebvre: “Tradidi quod et accepi”. Transmiti o que recebi.
- Ordenação Sacerdotal dos Irmãos Alberto e Lourenço, FBMV - 06/01/2024
+ PAX Disponibilizamos abaixo as imagens da cerimônia de ordenação dos Rev. Pe. Alberto e Lourenço, membros da FBMV em seu Mosteiro de Nossa Senhora da Fé e do Rosário. A cerimônia ocorria no dia 06 de janeiro de 2024, festividade da Epifania do Senhor, e o sacramento foi conferido por S.E.R. Dom Tomás de Aquino. U.I.O.G.D.
- Valha-nos São João da Cruz
Por Gustavo Corção, publicado n’O Globo em 10 – 02 – 1973 PARA descansar da atoarda do século, e da mais estridente algazarra dos "católicos" secularizantes, voltei ontem a dar o melhor de meu tempo à leitura daqueles que penetraram mais profundamente no segredo e no mistério da Cruz, e que nos são propostos pela Igreja como modelos e mestres. Achei-me a reler São João da Cruz, mas, para não andar sozinho em tão ásperas veredas, procurei o Pe. Penido, Itinerário de São João da Cruz, e depois, com uma pungente saudade das mil coisas perdidas, voltei a ler as páginas admiráveis escritas pelo grande Maritain de Les Dégrés du Savoir. A título de amostra ofereço estas meditações sobre a doutrina do vazio (pág. 658) do doutor supremo do saber noturno e incomunicável. Maritain, que passou sua vida de filósofo aos pés de Santo Tomás, o doutor supremo do saber diurno comunicável, nessas páginas preciosas, com que prefaciou o grande livro do Pe. Bruno, revela-se um profundo conhecedor de São João da Cruz: "Sendo desproporcionados à possessão de Deus em sua vida própria todos os meios humanos, quaisquer que sejam, o melhor que pode fazer a criatura é deixar-se de si mesma, é extenuar-se, renunciar a suas próprias operações, esvaziar-se. Esta tese central de São João da Cruz seria absurda se Deus não estivesse presente a querer ocupar totalmente nossa alma." (...) "Eis-nos aí no ponto crucial de aparente antinomia entre a linguagem ontológica da teologia e a linguagens prática e mística de um São João da Cruz ou da Imitação." SIM, não é do ponto de vista de nosso ser e de suas faculdades que o místico se coloca, é do ponto de vista da apropriação de nós mesmos e do livre uso e do exercício moral que fazemos de nossa atividade. E aí ele exige tudo. É preciso nos darmos totalmente. São João da Cruz nos prega a expropriação do eu. "Essa espécie de morte não oblitera a sensibilidade, ao contrário, afina-a, não endurece as fibras do ser, ao contrário, as espiritualiza — essa espécie de morte nos transforma em amor." "LEMBREMO-NOS — continua Maritain — que a graça não se superpõe à natureza, como um teto sobre um edifício; a graça enxerta uma vida divina que penetra e eleva a alma na sua própria essência como nas suas faculdades, capacitando-a para obras divinas que procedem todas da graça, e todas de nossas potências sobrenaturalizadas pela graça. Que quer isto dizer senão que, no termo de nosso crescimento, o princípio essencial de todos os nossos atos, a agente principal, a cabeça de nosso governo interior, não pode ser nosso próprio eu, mas só pode ser o Espírito de Cristo em nós!" E isto não é possível sem uma radical desapropriação. Enquanto formos proprietários de nós mesmos, não chegaremos àquele vazio que é a exigência suprema do amor de Deus que nos quer n'Ele transformados. "E É POR ISSO — diz adiante Maritain — que a realização prática do axioma: ‘a graça é completa e não destrói a natureza’, só se efetua na agonia e na morte mística da natureza. Não na morte ontológica. Morramos a morte dos anjos, dizia São Bernardo. Na natureza humana, ferida pelo primeiro pecado e profundamente mordida pela concupiscência, essa morte não pode realizar-se sem as grandes renúncias e escalpelamentos da noite dos sentidos e da noite do espírito." (...) "PARA que o próprio Deus opere, diz São João da Cruz (livro III, cap. II), a união divina com a alma, a única maneira que convém é aquela que despeja, que exaure, que leva as potências da alma a recusarem sua jurisdição natural, e suas operações, para que ela possa receber a infusão e a iluminação do sobrenatural". MAS a lei do sofrimento depurador vai ainda mais longe, porque a alma já elevada até a união transformante, e que doravante, no dizer dos santos, não pode sofrer senão em razão de Deus e não das criaturas, fica mais do que nunca sedenta de sofrer, diz São João da Cruz. E Maritain: "Assim é porque, na realidade, a própria graça que nos transforma é a graça de nosso chefe crucificado, e é para nos associarmos à sua obra, morrer para e pelo mundo, que nós nos transformamos de claridade em claridade". *** ESTAVA eu neste ponto da leitura, quando o telefone chamou. Era uma carmelita que dizia estar rezando por mim, e que me aconselhava a descansar nas dores de São João da Cruz, para não esmorecer. *** OUTROS telefonemas chamaram-me à ruidosa realidade de um cristianismo (?) secularizado, e como quem acorda diante de uma espantosa realidade, que o sonho maternalmente escondera, senti uma vertigem de dor e de estupor. Como é possível, depois de tantas e tão maravilhosas riquezas, ter chegado o cristianismo ao papel grotesco de um reboque das mais vãs e cruéis doutrinas jamais inventadas pelo enfermiço verme que parece ter nascido na decomposição do planeta gloriosamente habitado? Como pode? Como pode? *** O QUE me inquieta tanto, leitor, não é a sorte que terá a obra escrita de São João da Cruz, nem é a sorte da Igreja que em sua essencial e nuclear santidade já venceu, já triunfou. O que me preocupa é a sorte dos loucos que trocaram todas as grandezas de Deus por uma liberdade de libertinos. Mas também estremeço dos pés à cabeça quando penso nas crianças que estão nascendo, que estão crescendo, e para as quais já se abrem as mandíbulas da Máquina do Mundo. E me perco em vãs e dolorosas sondagens sobre o misterioso consentimento de Deus. Fiquemos hoje aqui, e para despedida ofereço esta opção: se não queres perder-te em Deus, se não queres o Nada para ganhar o Tudo de Deus, a alternativa que brevemente se oferecerá é a de seres nada nas tripas das minhocas.
- Comentários Eleison nº 864
Por Dom Williamson Número DCCCLXIV (864) – 03 de fevereiro de 2024 VALIDADE DAS CONSAGRAÇÕES Quer se trate de bispos ou de mulheres, a sua vida é vazia? Primeiro, acerte as coisas com Deus – muitas graças se seguirão. Entre os católicos tradicionais, voltou-se a disputar recentemente a questão de se as consagrações dos bispos católicos realizadas com o novo rito produzido pelo Papa Paulo VI após o Vaticano II são realmente válidas como consagrações ou não. Em outras palavras, podemos ter a certeza de que um sacerdote que tenha passado pelo novo rito de Consagração é verdadeiramente bispo? A questão é de extrema importância, porque da validade dos bispos depende tanto a própria sobrevivência da Igreja Católica como a possibilidade de as almas chegarem ao Céu, já que elas precisam muito dos sacerdotes e dos sacramentos para morrerem naquele estado de graça santificante sem o qual correm grave risco de cair no Inferno. Em termos gerais, existem duas correntes de pensamento sobre a questão. A grande maioria dos católicos não vê nenhum problema, incluindo aí aquela que passou a ser a Neofraternidade Sacerdotal São Pio X após assumir outra orientação em 2012 levada por sucessores do Arcebispo Lefebvre, líderes da então Fraternidade que o Arcebispo havia guiado desde seus primórdios em 1970 até a sua morte com o objetivo de defender a Fé e a Igreja contra a devastação da revolução conciliar. “É claro que o Vaticano II (1962-1965) não foi um desastre tão grande”, dizem esses sucessores, “a ponto de Deus permitir que os Seus inimigos ganhassem tanto poder dentro da Igreja a ponto de conseguirem interferir seriamente nas próprias fontes do seu futuro, como o rito da consagração de seus líderes. A simples ideia é ridícula! O Vaticano II foi mau, mas não pode ter sido tão mau”. Ora, infelizmente o foi! Basta olhar para os frutos, que mostram infalivelmente o que está acontecendo. Entre 20 anos antes e 20 anos depois do Concílio, várias instituições católicas como hospitais, escolas, conventos, seminários, priorados, mosteiros, foram todas fechadas ou entregues para “armazenar maçãs” (Sl 78, 1). Será que alguma vez já houve tantas vocações abandonadas, ou o surgimento de tão poucas novas vocações como no período posterior ao Vaticano II? Por que será? Certamente porque, por exemplo, a maioria de nossos contemporâneos está convencida de que um assistente social é mais útil do que um sacerdote. E, de fato, onde não há a Fé, pelo menos como se a compreendia antes do Concílio, o bispo e o padre estão em desvantagem pelo que propriamente são, e tudo o que lhes resta é fazer uma má imitação de alguém que eles absolutamente não são, como um assistente social. E quem deveria pregar essa fé? Bispos e padres! Quão astutamente, com o Vaticano II, o diabo revirou as mentes dos clérigos ao avesso e de cabeça para baixo! Talvez o novo rito de consagração tenha sido, afinal, um problema para os bispos... O Pe. Álvaro Calderón é um dos melhores teólogos da Fraternidade, desempenha suas atividades no seminário sacerdotal da Fraternidade na Argentina, e há mais de dez anos, escreveu um tratado sobre essa questão da validade do novo rito de consagração episcopal. Ele conclui que é “muito provavelmente válido”, mas não seguramente. No entanto, uma vez que os bispos válidos são absolutamente essenciais para a vida e a sobrevivência da Igreja, então a sombra de dúvida envolvida ainda é muita dúvida, e todos os bispos católicos consagrados apenas com o rito novo deveriam consentir em ser reconsagrados condicionalmente também com o rito antigo, com sua antiga e seguramente válida forma sacramental. Da mesma forma, diz ele, todos os padres ordenados apenas com o rito conciliar de ordenação devem buscar a reordenação condicional com o rito tradicional para reparar quaisquer defeitos graves no seu sacerdócio conciliar. E onde diz o Padre Calderón que reside esta sombra de dúvida? Ele diz que a intenção do rito novo não é fazer bispos de autoridade real, investidos de autoridade divina imediatamente sobre as ovelhas, verdadeiras nuvens trovejantes de Deus; mas sim um facilitador diocesano, um homem simpático, um administrador democrático, disposto a obedecer à risca a uma religiosa feminista, um tipo de dragão local que tiraniza todos os galos do galinheiro eclesiástico num raio de quilômetros de distância, e que sonha com o dia em que poderá finalmente celebrar os farrapos que sobrarão da Santa Missa. Homens, mantenham as mulheres em seus lugares, porque elas são insuportáveis quando estão fora de controle! Deus em primeiro lugar! Kyrie eleison.
- Comentários Eleison nº 863
Por Dom Williamson Número DCCCLXIII (863) – 27 de janeiro de 2023 SUPLICAR com CONFIANÇA Ao nosso redor, o mal se desenrola sobre o mal. “Não temas”, disse Jesus, “eu venci o mundo” (Jo. XVI, 33). No último dia de 2023, um padre franciscano do convento capuchinho de Morgon, na França, proferiu um sermão sobre aquele recente documento do Papa Francisco, Fiducia Supplicans (“Suplicar com Confiança”), que causou escândalo às almas de todo o mundo. Esse sermão é um resumo notável do motivo pelo qual o documento causou tamanho escândalo, e segue abaixo resumido, em menos da metade de sua extensão original. No relato da Apresentação do Menino Jesus no Evangelho de São Lucas (II, 34), lemos como o velho Simeão profetizou que o recém-nascido que Maria acabava de colocar em seus braços seria um sinal de contradição para o mundo inteiro. Todos os homens teriam de aceitá-Lo ou rejeitá-Lo, porque não podem permanecer neutros. Um exemplo clássico desta contradição são as leis católicas sobre o matrimônio. Se na prática os católicos violam essas leis por fraqueza, isso já é grave, mas se eles negam essas leis em princípio, é um pecado espiritual, ainda muito mais grave. A respeito disso, a recente assinatura do Papa da “Fiducia Supplicans” causará danos incalculáveis à Igreja, porque dará direito a todos os tipos de casais que atualmente vivem em pecado a “suplicar com confiança” por uma bênção de qualquer sacerdote católico, e assim a pensar que eles não estão mais vivendo em pecado. Isto colocará em perigo a sua salvação eterna. Ou teriam sido então João Batista e Thomas More meros tolos por darem suas vidas para defender as leis de Deus sobre o matrimônio? É verdade que Nosso Senhor mesmo não condenou a mulher apanhada em adultério (Jo.VIII, 3-11), porém, também nunca a abençoou, mas disse-lhe para não pecar mais (v. 11). Abençoar os pecadores, sem nenhuma instrução ou repreensão por seus pecados, só pode encorajá-los a continuar em seus pecados. Ao entrar no Ano Novo, devemos rezar por todos aqueles que correm o risco de ser vítimas desse terrível documento. Em primeiro lugar, pelos sacerdotes católicos, a fim de que tenham a coragem de João Batista e de Thomas More para enfrentar a pressão conjunta das más autoridades de hoje da Igreja e do estado, que gostariam de fazer com que os sacerdotes se deixassem levar pelo fluxo do mundo ímpio de hoje, para abandonar a Deus, quebrando Suas claras e rigorosas leis sobre o matrimônio. Em segundo lugar, devemos rezar pelas famílias católicas que lutam contra todas as probabilidades para defender as leis de Deus sobre o matrimônio, especialmente pelos cônjuges abandonados que veem o Papa encorajar aqueles que não guardam, mas violam, a Sua lei. Em terceiro lugar, devemos rezar pelas almas de todo o mundo, ofendidas por tal escândalo vindo do Papa. Com efeito, qualquer escândalo será ainda maior pela altura da autoridade de onde provém, pela obviedade da imoralidade que promove, e pelo número de almas que ofende. Em todos os três aspectos, o escândalo de “Fiducia Supplicans” é incomensurável. Quanto à autoridade que escandaliza, não há autoridade moral mais elevada na terra do que a do (pelo menos aparente) Vigário de Cristo, o Papa. Quanto à imoralidade promovida, o que é mais básico para a sociedade humana do que as leis naturais do matrimônio que Cristo reforçou, mas que até os pagãos compreendem claramente, que abominam o adultério e o homossexualismo? E quanto à extensão das almas escandalizadas, o quanto a sociedade humana não é prejudicada na formação dos seus tijolos, das suas famílias, pelo Vigário de Cristo que usa de toda a sua autoridade na terra para ordenar aos sacerdotes de Cristo que abençoem as almas pecadoras que vivem desafiando as leis naturais de Deus sobre o matrimônio? Pode-se perguntar se alguma vez em todos os 2.000 anos de história da Igreja se viu um escândalo tão grande. Devemos rezar até pelo Papa Bergoglio, para que ele salve a sua alma, pois, neste exato momento, ela está em grave perigo. E, finalmente, devemos rezar para Nosso Divino Senhor, para agradecer-Lhe por ter encarregado-se de resgatar-nos da devastação do pecado que está sendo produzido ao nosso redor, especialmente por clérigos pecadores. Somente Ele pagou por nós a dívida que de outra forma seria impagável para com Seu Pai pelos nossos pecados. Somente Ele nos abre as portas do Céu, que de outra forma estariam fechadas. Só Ele nos permite cantar no final da Missa não o “Miserere”, mas o “Te Deum Laudamus”: nós Vos louvamos, ó Deus, pela Vossa sabedoria em permitirdes que o pecado e a morte sejam vencidos pelo Vosso próprio sofrimento. Nós Vos suplicamos só pela graça da perseverança até o fim. Kyrie eleison.
- Comentários Eleison nº 862
Por Dom Williamson Número DCCCLXII (862) – 20 de janeiro de 2023 LÍDERES AFORTUNADOS Mas tal mensagem os governantes não ouvirão? Talvez, mas a verdade foi dita de maneira clara. “Se o Senhor não edificar a casa, os que a constroem trabalham em vão. Se o Senhor não vigiar a cidade, em vão vigiam as sentinela” (Sl. CXXVI, 1). E que se dirá de quem constrói um Estado! São afortunados os políticos atuais que têm sacerdotes católicos para lembrá-los de como devem servir verdadeiramente a sua terra. Infelizmente, esses mesmos políticos atuais dificilmente têm ouvidos para ouvir essas verdades antigas e importantes. Os líderes da Suíça tiveram recentemente um padre assim, um padre suíço da “Resistência”, o qual lhes pediu que submetessem a direção dos assuntos do seu país ao único e verdadeiro Deus do passado católico da Suíça. A reação deles parece ter sido mínima. Como todos nós, pode ser que tenham que aprender da maneira mais difícil. De qualquer forma, segue abaixo o apelo deste padre, abreviado de modo que caiba em uma página A4: Honorável Senhora Presidente, honoráveis senhores e senhoras recentemente reeleitos Vereadores Federais, Estaduais ou Municipais para os anos de 2023 a 2027, minhas congratulações pela sua reeleição! Permitam-me, como sacerdote católico dos Apóstolos de Jesus e Maria, apresentar-lhes um pedido para que o governo do nosso país retome publicamente a profissão da religião cristã e o respeito por ela. Assim, poderemos esperar a bênção de Deus e a proteção de nosso amado país. Aqui estão quatro reflexões: 1. Na última grande reunião da mais antiga de todas as igrejas cristãs, o Concílio Vaticano II da Igreja Católica Romana, realizado em Roma de 1962 a 1965, muitos líderes católicos, confrontados com os nossos tempos ímpios, consideraram que seria melhor para a Igreja de Deus modernizar-se. Esse era o problema certo, mas a solução equivocada, pois significava, por exemplo, que a religião seria doravante um assunto meramente privado. Erro grave. Desde muito antes da fundação da Suíça em 1291, Jesus Cristo foi Criador e Redentor de todos os homens já vivos, e até o fim do mundo, Senhor, Juiz e Rei, da Suíça e do mundo inteiro. 2. Como resultado de Cristo e da Sua única e verdadeira Igreja terem sido eliminados pelo deísmo, pelo naturalismo e pelo liberalismo, Cristo é rebaixado ao mesmo nível de todas as outras religiões, e qualquer coisa supostamente sobrenatural perde todo o interesse. A humanidade é entregue à tirania dos estados civis agora puramente seculares. Pois onde quer que a Majestade do único Deus verdadeiro seja colocada entre parênteses, algum antideus obrigatoriamente tomará o Seu lugar. 3. Em meados do século XVII, um santo sacerdote alemão, o Venerável Bartolomeu Holzhauser (1613-1658), recebeu do Céu visões de toda a história da Igreja em sete Idades, incluindo a Quinta Idade da Apostasia, que dura desde Lutero até hoje. Mas ficamos demasiado cegos para podermos ver os nossos tempos dessa maneira. 4. O santo padroeiro da Suíça, Nicolau de Flüe (1417–1487), é famoso por ter dito que: “Se Deus é expulso de um Estado, este está condenado à destruição”. Assim, os 700 anos de existência da Suíça como uma democracia cristã estão no fim, a menos que possamos reavivar a profissão de fé em Deus dos nossos antepassados. Honoráveis líderes do nosso governo, somente Jesus Cristo pode levar-nos ao Céu. Testemunhas desse fato são as igrejas, cruzes e capelas espalhadas por todo o nosso país, assim como os valores cristãos ainda enterrados nas profundezas da consciência de muitos suíços. Mas estes valores estão sendo manchados, ou completamente apagados, de modo que o nosso país está no caminho para a sua destruição, como quando há três anos o povo suíço foi enganado para que votasse a favor de uma lei contrária a Deus e à natureza, em favor do “casamento” entre pessoas do mesmo sexo. Se isso passa a ser considerado liberdade de religião e de consciência, levará à perda de toda religião e de toda consciência. Diante de nós está o Cristianismo ou o comunismo. Todos nós fomos feitos para o Céu. Se os nossos governantes criarem condições favoráveis para a Igreja, a Igreja cuidará do nosso povo e da nossa juventude. Senhoras e Senhores, todos os governantes, permitam-me pedir-lhes que respeitem os direitos de Deus e da família católica de promover e professar a religião cristã, e a manter a neutralidade cristã da nossa terra. E que Deus esteja com todos vocês. Rezo por vocês todos os dias, na Missa e com o Santo Rosário. Com o maior respeito, e com todas as bênçãos, Pe. Aloysius Bruehwiler. Kyrie eleison.
- ONDE ESTÁ O REMÉDIO PARA OS MALES DA TRADIÇÃO?
Por S. Exa. Revma. Dom Tomás de Aquino, OSB A Tradição sofre de males diversos, devidos a divisões internas e a ataques externos. Ela sofre da fraqueza de seus membros, o que aumenta a ousadia de seus inimigos. Primeiramente, onde está a Tradição? Está na fidelidade ao depósito da fé. Quem guarda este depósito guarda a Tradição. Podemos dizer: onde está o depósito da fé aí está a Tradição. Mas a Tradição é também o combate pela fé, combate no qual Dom Lefebvre, mais do que ninguém, nos deu o exemplo. Guardar a Tradição será, então, combater como Dom Lefebvre combateu. São Paulo nos fala do combate segundo as regras; regras da prudência não menos que da fé. Ora a prudência de Dom Lefebvre é bem difícil de ser imitada. Quem terá a sua prudência? Dom Lefebvre foi um discípulo e imitador de São Pio X. Ambos são inimitáveis na condução do combate. Quem somos nós para nos dizermos fiéis e perfeitos discípulos destes dois servidores de Deus? Mas uma coisa sabemos. É que são eles os modelos. São eles o remédio doutrinal e prudencial na crise que sempre ameaça a Tradição. Não devemos nos escandalizar ao ver divisões, quer sejam na Fraternidade quer sejam na Resistência. Dom Lefebvre conheceu dificuldades, divisões, oposições de dentro e de fora da Fraternidade. Professores, padres amigos, comunidades amigas, seminaristas, leigos... de toda parte Dom Lefebvre conheceu a contradição. Não devemos nos escandalizar das oposições e divisões. Devemos, sim, amar o bom combate, amar o combate de nossa conversão juntamente com o combate da defesa pública da fé, como são Pio X e Dom Lefebvre. Recolhamos a sua herança, toda a sua herança de combate contra o modernismo, contra os modernistas e contra os liberais. Eles venceram o mundo. Nós o venceremos também, se fizermos como eles, com a humildade da piedade filial, que nos leva a invocá-los, a estudá-los, a compreendê-los e a aplicar seus princípios de ação na situação atual. Aí está o remédio que, com a proteção daquela que venceu todas as heresias e todos os hereges, nos dará a vitória e a verdadeira união entre os que se reclamam da Igreja, una, santa, católica, apostólica e perseguida. 1 º de fevereiro de 2024.
- POR QUE EXISTE A RESISTÊNCIA?
Por S. Exa. Revma. Dom Tomás de Aquino, OSB A causa de existir a Resistência não é outra senão Dom Fellay com suas palavras e seus atos. Suas palavras minimizaram a gravidade da crise e do Concílio. Seus atos expuseram a Tradição a ter o mesmo destino que as comunidades Ecclesia Dei. Dom Fellay não falava como Dom Lefebvre. Dom Lefebvre denunciava com força os erros do Concílio bem como os que eram a causa destes erros. Ele advertiu praticamente todos os papas conciliares de suas responsabilidades. Disse a João Paulo II que se ele continuasse no caminho do ecumenismo já não seria o bom pastor, e no desenho sobre Assis, disse, com imagens e palavras, que João Paulo II iria para o inferno, se continuasse ecumenista. Disse ao cardeal Ratzinger que ele, Ratzinger, era contra a cristianização da sociedade. Ele denunciou a apostasia da Roma conciliar. Denunciava os erros e os fautores de erros, fossem eles quem fossem. Defendeu padres e fiéis do contágio modernista. Expôs-se a uma excomunhão inválida, mas infamante. Não recuou na defesa da França face ao perigo muçulmano. Protegeu-nos contra a tentação acordista de Dom Gérard. Ele foi, em suma, como os antigos bispos: o defensor da cristandade e da base da cristandade, que é a fé. Foi o homem das virtudes teologais, sustentando nossa fé e todas as virtudes. E Dom Fellay? Continuou ele a ação de Dom Lefebvre? Não. Tanto nas palavras como nos atos, Dom Fellay se afastou de Dom Lefebvre. Sobre a Liberdade Religiosa, ele minimizou a gravidade do que disse o Concílio. Ele não disse aos papas o que dissera Dom Lefebvre. Não atacou os erros como Dom Lefebvre. Não falou das duas igrejas como Dom Lefebvre. Não distinguiu com clareza a Igreja oficial da Igreja Católica, mas falou de uma "igreja concreta", confundindo os fiéis e até os padres. Que igreja concreta é essa? Temos de estar nessa igreja? Nós estamos na Igreja Católica. Reconhecemos o papa, mas não a Igreja conciliar, da qual falava o cardeal Benelli. Reconhecemos o papa, mas não a sua doutrina nem seus atos contra a Tradição. Estes atos não são católicos, mas anticatólicos. Foi sob a influência de Dom Fellay que o capítulo de 2012 modificou o princípio enunciado pelo capítulo de 2006: nada de acordo prático sem acordo doutrinal. Isto não agradava a Dom Fellay e foi mudado. Com certas condições, pode agora a Fraternidade fazer acordo prático sem acordo doutrinal. É uma brecha. Brecha que pode levar a Fraternidade pelo caminho das comunidades Ecclesia Dei. Ela não foi tão longe, mas baixou sua guarda e Roma se aproveitou disso. Dom Fellay reprimiu a resistência interna na Fraternidade, expulsando Dom Williamson e alguns padres; depois puniu outros, como os sete decanos que protestaram, acertadamente, contra o documento de Roma a respeito dos casamentos. Dom Fellay desorganizou a Tradição, afastou-se da linha de Dom Lefebvre e fez outros também se afastarem dela. Esta foi a razão de existir a Resistência: resistir a tal afastamento. Nós queremos seguir Dom Lefebvre em tudo, na doutrina e também nas soluções práticas, pois, como ensinam Aristóteles e Santo Tomás, os exemplos dos antigos servem de princípios de ação. Seguimos Dom Lefebvre na doutrina e na ação, sobretudo em relação à Roma modernista, e isto para sermos fiéis à Roma eterna, mestra de verdade e de santidade. 25 de janeiro de 2024





