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  • XI – Confissão – Como se faz o exame

    Como se faz o exame 1 – Orar antes Ficai sabendo que sem a ajuda de Deus não podemos fazer nada bem. E o Senhor nos dará sua ajuda se lha pedirmos. Devemos, pois, suplicar o Senhor para que nos ilumine a mente, a fim de que possamos conhecer o estado de nossa consciência. Por nossa conta, somente somo capazes de cometer os pecados, e não de os conhecer. O cego do Evangelho, a quem urgia a vista, exclamava, suplicando a Jesus: “Senhor, fazei que eu veja” (Lc 18,41). Dizei, assim, também vós: Senhor fazei que eu conheça os meus pecados! Invocai ainda a ajuda de Maria Santíssima, Mãe dos pecadores, e a assistência do Anjo da Guarda. 2 – Procurar diligentemente Fareis, pois, o exame usando de toda diligência ao procurar os pecados. O comerciante que deve fechar qualquer negócio de importância, com que diligência faz suas contas! Ora, há negócio mais importante que a salvação da alma? Meus caros filhos, na confissão se trata ou de salvar ou de arruinar a alma! Por isso se deve usar de toda diligência possível, a começar pelo exame de consciência. Quantos, no entanto, fazem um exame apressado! Uma olhadela de passagem... e basta! E que acharam? Alguma mentira..., alguma desobediência... e nada mais! A este se pode dizer o que por Deus foi dito a Ezequiel numa visão sua. Uma visão de Ezequiel – O Profeta Ezequiel teve um dia uma visão. Foi erguido pelos cabelos entre o céu e a terra, e levado em espírito a Jerusalém, defronte da porta do templo, dentro do qual se cometiam coisas abomináveis. E o Senhor disse: - Profeta, olhai... Que vês? - Vejo um buraco na parede, disse o profeta. - Escava a parede (continuou o Senhor), vai lá dentro e verás péssimas abominações (Ez 8, 9-10). O Profeta abriu a parede... Ai de mim! Quantos ídolos e quanta imundície oculta viu lá dentro! *** Meus filhos, escavai também a parede de vossas consciências... Olhai lá dentro e talvez acheis tantas coisas más e ocultas: pensamentos... desejos... escândalos... dos quais nunca fizestes caso! 3 – Não acabaremos nunca de examinar-nos? Quem diz isso? Não é preciso ir ao excesso. Santa Margarida Maria Alacoque quando devia confessar-se, examinava-se excessivamente, e temia sempre não se ter examinado bastante. Um dia em que ela estava inquieta e perturbada por causa de seu exame, apareceu-lhe o Senhor e lhe disse: “Por que te atormentares? Faze o que podes. Eu amo os corações contritos que se acusam sinceramente dos pecados que conheçam, com a vontade de não mais desagradar-me” (Shouppe). O exame de consciência feito num livro - Uma moça, querendo fazer o exame para a confissão geral, tomou entre as mãos um livro de piedade, e todos os pecados que achou indicados nesse livro, ela os copiou numa folha de papel. Lia-os depois ao confessor, sem mesmo os compreender. O confessor, ao ouvir certas iniquidades, impossíveis de cometer por uma menina, perguntou-lhe: “São teus estes pecados?”, responde a menina: “Deus me livre deles! Estes pecados jamais os cometi. Achei-os no livro”. Podeis valer-vos do livro, mas anotando só os pecados que cometestes realmente. Aliás, o mais belo livro é a própria consciência. Se fazeis passar ante a consciência os Mandamentos de Deus um por um, dir-vos-á ela quais são os que transgredistes, e por conseguinte, quais são os vossos pecados. 4 – Número e circunstâncias Como, afinal, se devem confessar todos os pecados mortais, é necessário no exame procurar o número deles. Se um pecado, por exemplo, foi cometido 10 vezes, não bastará dizer “cometi tal pecado”, mas deverá também dizer que esse pecado foi cometido 10 vezes. E se não se sabe o número exato? Bastará então encontrar o número aproximado: por exemplo, cerca de 4 vezes, cerca de 10 vezes... E se nem isso se pudesse determinar? Procure-se, então, quantas vezes, aproximadamente, por mês, por semana... se cometeu esse pecado mortal. Além do número de pecados, deve-se ainda pesquisar as circunstâncias que alteram a espécie, e tornam o pecado muito diferente. Explicarei isso com um exemplo. O exame e a confissão de Gervasino – Gervasino espancou a mãe, cometeu um pecado horrível com seu irmão; foi imodesto, mostrando-se aos demais e dando escândalo; blasfemou a Deus, dando-lhe nomes feios; roubou na igreja... Depois, devendo confessar-se, faz o exame de consciência a seu jeito, e se prepara para dizer assim os seus pecados ao confessor: “Eu dei pancadas; cometi um pecado horrível, fui imodesto, blasfemei, roubei...” Dizei-me: confessar-se-ia bem? Não! Porque não disse que espancou a mãe, que pecou com o irmão, que com as imodéstias deu escândalo, que deu nomes feios a Deus, que roubou na igreja. Eis as circunstâncias que alteram a espécie do pecado, e de um pecado fazem dois diferentes. Também sobre tais circunstâncias deveis examinar-vos. Conclusão Começai a fazer bem o exame de consciência, se quereis confessar-vos bem. Pensai que qualquer dia far-vos-á o Senhor um severo exame: e será quando comparecerdes perante Ele. Aí Ele iluminar-vos-á a alma com a luz divina: Illuminabit abscondita tenebrarum (1 Cor 4,5), e ficarão manifestas todas as vossas culpas. Escutai o conselho que nos dá São Paulo: “Se nos julgássemos por nós próprios, certamente não seríamos julgados (1 Cor 11,31). E antes mesmo de comparecer ao juízo de Deus os pecadores que nas confissões negligenciam o exame, verão alinhados diante dos olhos os seus pecados. Uma série de pecados – Narra um piedoso escritor que um jovem de vida muito desordenada e de consciência frouxa, ao se ver próximo da morte, mandou chamar um confessor. Mas antes de o confessor chegar, pareceu ao moribundo ver um demônio, o qual lhe mostrava uma longa lista de pecados que ele havia esquecido em suas confissões, por falta de exame. Apavorado a essa lista, o pobre jovem desesperou de sua salvação, e morreu sem confessar-se. Isto não acontecerá a vós se, toda vez que vos confessardes, fizerdes um bom exame de consciência. (Extraído do livro A Palavra de Deus em Exemplos, G. Montarino, Do original La Parole di Dio per la Via d’Esempi)

  • Vejamos a tolice, por Gustavo Corção

    Publicado por Gustavo Corção n’O Globo em 10–12–1973 NA QUINTA-FEIRA aludi à poluição religiosa cujo principal sintoma é a alvoroçada atração que os meios católicos inovadores fazem questão de evidenciar: a atração pela torpeza e atração ainda mais incontida pela tolice. Vamos hoje ao exemplo de hiperbólica tolice que tenho diante dos olhos. É um artigo intitulado Teologia numa Universidade Latino-Americana publicado numa revista universitária brasileira. PARA começar, o autor divide seu trabalho em "teologia na universidade e a teologia da libertação". A divisão é bizarra e de novíssima invenção, mas não é clara a começar pela diversidade de regência: no primeiro termo, temos Teologia NA Universidade; no segundo temos Teologia DA Libertação. Não formam bom binômio duas perspectivas tão heterogêneas, mas admitamos que todos entenderam o que quis dizer o autor com sua Teologia na Universidade, e agora procuremos entender o outro termo que me parece mais moderno e especificamente latino-americano. Que quererá dizer "Teologia da Libertação"? Há a vencer aqui um preconceito inicial. Como vários dos novos "teólogos" da América Latina já usaram essa expressão e já a empregaram em títulos de livros, ficou entre eles tacitamente admitido que existe uma "teologia da libertação" e que sua definição se tornou claríssima. Ora, nem uma coisa nem outra são admissíveis. Chega a ser obscuro o sentido de cada palavra tomada isoladamente. Há já alguns anos sei o que é teologia e o que pode significar "libertação", mas leio no folheto universitário que os bispos latino-americanos, em 1988, chegaram a conceitos originais em Medelin. DELA primeira vez falou-se oficialmente em pastoral para o desenvolvimento, para a integração e para a libertação do homem. O conceito de libertação tornou-se um conceito-chave dessa conferência (Medelin). Os bispos compreenderam a libertação como desenvolvimento integral, significando não apenas a libertação do homem do pecado, mas de toda a espécie de escravidão, miséria e opressão. Deste modo, o processo do desenvolvimento pode ser definido como processo de libertação. ORA, SE FOI dessa maneira que os senhores bispos, em Medelin entenderam o cristianismo, ou julgaram fazer teologia pastoral colocando no mesmo saco, ou na mesma perspectiva formal o pecado e o padrão de vida de suas ovelhas, tremo de pensar que mudaram de religião, deixando-me para trás a ter por base os mesmos textos escritos há dois mil anos por um povo muito menos "libertado" do que a América Latina, e nos quais não vejo nada que de longe se pareça com o mau ensaio de economia política escrito em Medelin. O AUTOR da "teologia da libertação" que tenho diante dos olhos, diz: "A Igreja na América Latina decidiu-se pela práxis na defesa dos oprimidos aqui e agora." ORA, se a Igreja na América Latina decidiu-se pela práxis na defesa dos oprimidos aqui e agora, isto quer dizer que, na sua doutrina, tornou-se dogma a idéia de que só existe pobreza por injustiça e opressão, ora essa idéia jamais foi sustentada pelo Magistério. Além disso, se a Igreja decidiu-se na América Latina pela práxis em defesa dos pobres, isto quer dizer que a Igreja resolveu assumir as rédeas dos governos dos países latino-americanos. Mas isso é mais fácil dizer do que fazer, porque nem os governos nem os povos, ricos e pobres, chegaram a tal loucura. Mas então, se bem entendi meu autor, e se ele bem entendeu os bispos que se decidiram pela práxis em favor dos pobres, temos uma revolução de Bispos a percorrer o infeliz continente em cavalgadas de práxis libertadora. E às crianças na beira da estrada as mamães dirão: — Lá vai Dom Anacleto a fazer Teologia de la Liberación. OU ENTÃO, se os signatários do novo Evangelho em Mendelin se convencerem de seus poucos recursos bélicos para a efetivação da Justiça Social que resolverá por decreto a incompetência dos incompetentes, a preguiça dos preguiçosos, a burrice dos burros, só terão outra alternativa: atrelar os aparelhos das conferências episcopais à Revolução que já está em marcha e que, pela estupidez de dez papas, entre os quais um Santo, foi condenada como ímpia, monstruosa, desumana e intrinsecamente perversa. FOI, aliás, esse o itinerário dos mendelinenses na desventura do Chile. Para vergonha dos católicos do mundo inteiro vimos os "teólogos da libertação" apoiarem no Chile o infeliz Allende, talvez induzidos em erro por seu nome de Salvador. O FATO é que a asneira foi praticada, que o documento base ainda é lembrado, e que mais uma vez essa nova raça que ousa falar em teologia ainda insiste em não perder uma oportunidade mínima de prestar serviços à Revolução inimiga da Igreja e do Homem. NO FOLHETO que me chegou às mãos, logo abaixo daquela frase "A Igreja na América Latina decidiu-se pela práxis na defesa dos oprimidos aqui e agora lê-se o toque de reunir: "Nos últimos tempos surgiu um grupo de teólogos-profetas como Hugo Arsmann, Segundo Galilea, José Comblin, Gustavo Gutierrez e outros..." E AÍ ESTÁ mais um exemplo da poluição de tolices que Satã espalhou por cima do cristianismo para cobrir toda a beleza da verdade guardada no regaço da Santa Igreja. De todas essas experiências, só nos resta a vergonha da aventura.

  • XI – Confissão - Necessidade do Exame de Consciência

    Necessidade do Exame Como é bom o Senhor! Ofendido por suas criaturas, embora tenham estas praticado pecados gravíssimos e inúmeros, faz ele triunfar a sua misericórdia, e no Sacramento da Penitência perdoa tudo. É verdade: mas Deus é também justo. Por isso na Confissão exige condições, sem as quais esse Sacramento não serviria para nada; e tornar-se-ia nocivo: seria o remédio que se converte em veneno. E quais são essas condições? São as cinco coisas, que o Catecismo diz necessárias para fazer uma boa confissão, isto é: 1) O exame de consciência; 2) A dor dos pecados; 3) O propósito de não os cometer mais; 4) A confissão ou acusação; 5) A satisfação ou penitência. Eis as condições para fazer bem a confissão. Dizia Sto. Afonso: “Quem sabe confessar-se bem, sabe ir para o Paraíso; muitos vão para o inferno porque se confessam mal”. Muito importa, pois, conhecer essas cinco coisas; e eu vo-las explicarei, começando pela primeira: o exame de consciência. Direi: 1) Da sua necessidade; 2) Do modo com que deve ser feito. I – Necessidade do exame I.I – Que é o exame de consciência É reclamar diligente à memória os pecados cometidos, começando da última confissão bem feita. Por que se diz da ultima confissão bem feita? Porque só nas confissões bem feitas são perdoados os pecados. Por isso se alguém nalguma confissão deixasse para trás de proposito um único pecado mortal, ou por malícia ou por vergonha, as confissões que haja feito depois não seriam boas; e ainda teria na alma todos os seus pecados. Que deve fazer então? Deve fazer o exame de todos os seus pecados, partindo da confissão que sabe haver sido bem feita. Eis um exemplo: As confissões de Tônio – Tônio até a idade de 10 anos se confessou bem: depois numa confissão deixou de dizer, por vergonha, um pecado mortal; e continuou a ocultá-lo até agora que tem 13 anos. As confissões feitas por Tônio nestes últimos 3 anos, eram boas? Não. Agora para confessar-se bem deve fazer o exame dos pecados desses três anos; depois confessar o pecado sonegado e todos os outros pecados que cometeu nos 3 anos; porque tais pecados não estavam perdoados. Pôr-vos-ei diante dos olhos uma comparação. Uma meia mal feita – Uma jovem, fazendo uma meia, erra um ponto, e vai adiante sem corrigir o erro. Pouco depois, vê que toda a meia está mal feita. Que faz para remediar isso? Desfaz todo o trabalho até o ponto errado; em seguida corrige o erro e refaz o trabalho todo de novo. Assim quem se confessou mal: deve tornar atrás até a confissão mal feita; refazer esta e ainda todas as outras feitas depois. I.II – É necessário esse exame? E por quê? Mais que necessário! Para conhecer os pecados e em seguida lamentá-los e confessá-los, é preciso primeiro procurá-los; e se não se pensa neles, não se acham. Se eu vos dissesse: Que fizestes ou dissestes há cinco dias, em tal hora... Responderíeis: Deixa-me pensar! Deus se queixava um dia do povo hebreu, dizendo pela boca de Jeremias: “Esse povo me virou as costas, e não há ninguém que faça penitência do seu pecado e diga: Que fiz eu?” (Jer 8,6). Esse povo não se voltava para si mesmo. Não fazia o exame de consciência, por isso não se arrependia. Davi comete dois grandes pecados e nem pensava neles. E Deus mandou a ele o Profeta Natã que lhe fez o exame de consciência, mostrando-lhe os seus pecados. Aí Davi os conheceu, e se arrependeu e os lamentou (2 Rs 12, 7-13). O Filho Pródigo, fugido da casa paterna, passou a vida na pândega e nos pecados. Por fim, se converteu. Mas quando? Quando fez o exame de consciência. “Tendo entrado em si (diz o Evangelho), disse: Erguer-me-ei e voltarei a meu pai” (Lc 15, 17-18). Vedes, pois? Se não se faz o exame de consciência, não se poderá conhecer os pecados: por conseguinte, não se poderá detestá-los, nem confessá-los, nem cancelá-los. Uma confissão mal feita sem o exame prévio – Foi uma vez confessar-se um rapazinho que se confessava bem raramente, e ao confessor disse: - Blasfemei! - Quantas vezes? – perguntou-lhe o confessor. - Duas ou três. - Serão duas ou três por ano? – indagou o confessor? - Sim, padre. - Pensa um pouco: porventura serão duas ou três vezes por mês? - Sim, isto. – continuou o rapaz. - Ou quisestes mesmo dizer duas ou três vezes por dia? - Padre, V. Reverendíssima adivinha tudo: eu digo blasfêmias todos os dias. - Mas, então, por que não te explicas logo? - Não tinha pensado nisso! – respondeu o rapaz. Eis o que acontece quando alguém se confessa sem ter feito o exame de consciência. I.III – “O confessor interrogará” Assim diz alguém. E eu respondo: E se fosse um confessor que não interroga? O confessor não é obrigado a interrogar: não é ele que deve fazer a confissão. Os que fazem assim, imitam o rei Nabucodonosor. O sonho de Nabucodonosor – Este rei teve uma noite um sonho que o deixou muito espantado. Despertando pela manhã, sabia ter tido um sonho terrível, mas não lembrava qual fosse. Pensa e repensa: não havia jeito de lhe vir à memória. Aí mandou chamar todos os sábios do reino e ordenou-lhes que lhe adivinhasse o sonho, e desse a explicação. Eles deram de ombros e retrucaram: Majestade, contai-nos o sonho, e nós o explicaremos”. “Sois uns impostores, acrescentou o rei enfurecido: far-vos-ei enforcar a todos”. Chega, nesse momento, o profeta Daniel que, inspirado por Deus, revelou e explicou o sonho (Dn 2, 1-31). Como esse rei, fazem certos penitentes: pretendem que o confessor se faça adivinho, e eles se dispõem somente a dizer sim ou não. Mas isso é uma pretensão má. O confessor poderá com algumas interrogações: mas quem deve fazer o exame não é o confessor, e sim o penitente. I.IV – Deve-se procurar o inimigo Diz S. Bernardo: “Se um rei soubesse que em seu reino se escondem inimigos, que faria? Faria primeiro procurá-los e depois exterminá-los. Ora, sabeis que dentro de vós estão inimigos: estes são os pecados. Procurai-os, se os quereis exterminar”. Os antigos anacoretas (como refere S. João Clímaco) – Eles traziam pendurados à cintura um pequeno livro, no qual anotavam todos os maus pensamentos tidos, para depois se recordarem deles quando iam confessar-se. Até certos filósofos pagãos viam a necessidade do exame de consciência para poder emendar-se de seus defeitos. Sêneca diz que ele examinava a sua consciência toda noite: e achando que havia cometido qualquer culpa, dizia a si mesmo: “Olha o que fiz! Desta vez eu ta perdoo, mas cuida de não recaíres nisso!”. Assim conhecia a si mesmo e melhorava a sua conduta. (Extraído do livro A Palavra de Deus em Exemplos, G. Montarino, Do original La Parole di Dio per la Via d’Esempi)

  • Implicações do Evolucionismo

    Publicado por Gustavo Corção n’O Globo em 12-01-1974 O SÉCULO XIV foi o sombrio e tumultuoso século da peste de cem anos e da fragorosa ruína da civilização cristã. Nosso bravo século XX, em lugar da sombria nuvem pestífera que pairou cem anos sobre a cristandade agonizante, está sendo flagelado por uma outra nuvem, não menos sombria: a da estupidez satisfeita e otimista. Os físicos, matemáticos, biólogos e astrônomos que operam no nível de saber mais accessível e mais próprio para os trabalhos coletivos, e também para o efeito acumulativo dos resultados, por seus sucessos dificultam a exata apreciação do imenso progresso da burrice humana nas coisas que concernem à vida espiritual. A MULTIPLICAÇÃO dos meios de informação em prejuízo dos meios de formação permite uma ilusão de saber, que é uma das formas mais impertinentes da tolice. Todo mundo pensa que sabe o que leu nas notícias ou viu na TV. Lendo a ida do homem à Lua, engolindo o fato, o farelo, a cinza, qualquer um se sente participante do saber dos vinte e tantos físicos que resolveram os problemas, e participantes da coragem dos astronautas, quando, na verdade, ele não passa de um espectador, que de chinelo e pijama engole voluptuosamente a informação que em nada eleva a sua inteligência nem purifica a sua vontade. NESSA categoria de ineptos satisfeitos estão os milhões de pessoas que usam palavras filosóficas ou tecnológicas com a tranquila convicção de que entendeu, e até esgotou todos os meandros do conceito designado por aquele termo. Ontem, por exemplo, ouvi no barbeiro a conversa entre um oficial e um barbeado. Dizia o oficial barbeiro que era evolucionista, provavelmente para com isto dizer que acolhe com sábia benevolência todas as transformações federais, municipais, militares ou religiosas. Porque tudo evolui. O barbeado, ou porque partilhasse a mesma fé, ou porque preferisse não discutir com quem tinha uma navalha à altura de sua carótida, grunhia de tempos em tempos em sinal de aprovação. Mas no termo de sua submissão, sacudindo o casaco e erguendo a cabeça com um olhar satisfeito de soslaio para o espelho, o nosso homem abriu-se: ele também era evolucionista. E ia desenvolver suas convicções quando o barbeiro desdobrou sua toalha ou alva no novo freguês que queria cabelo aparado. Eu também terminava minha dose de tranquilizante, que é o barbeiro, principalmente quando ele arremata, com uma tesoura carinhosa, os pelos subversivos do pescoço e das orelhas. NA RUA voltou-me a idéia do evolucionismo professada em dois tons por dois bravos habitantes do século XX. E pus-me a interpelar barbeiros e barbeados invisíveis e evolucionistas. Saberão vocês todas as implicações, todas as consequências, todos os corolários e todas as decorrências da fé tão imprudentemente afiançada e concentrada num vocábulo? Provavelmente o que todos vocês já observaram, com admiração e veneração, é o comecinho e antiquíssimo fenômeno da transmutação das coisas: abertura do grão de semente, surgimento de um caule entre dois cotilédones, alongamento do dito caule e mais tarde a flor, o fruto e em torno desse digno mundo vegetal que se move com a vagareza recomendada por Aristóteles aos reis, o mais inquieto e trepidante mundo animal empenhado no entre-devoramento. No céu o Sol e a Lua, para os observadores superficiais que não prestam atenção às estrelas também se movem. A Lua muda de fase, mas o movimento dos corpos celestes mais convida a pensar na regularidade do que na evolução. Mas vejam os homens. Ah! Ah! e vejam as mulheres, porque a elas é que se bem se aplica o verbo ver, já que, enquanto nós homens perdemos tempo em catar palavras sábias, elas, na maioria dos casos, contentam-se em serem vistas. E os padres? Em resumo: tudo muda. Será que os evolucionistas do salão de barbeiro imaginam que todas essas variações passam despercebidas ao resto da humanidade? Saberão eles que o evolucionismo, levado às últimas consequências, incide não somente sobre as variações de vestidos e penteados de suas esposas, mas também traz uma suspeita sobre a existência delas. Saberão eles que nunca, duas noites seguidas, se deitam ao lado da mesma mulher, como dizia Heráclito, ou, o que ainda é mais inquietante, nunca elas se deitam duas noites ao lado do mesmo homem? Saberá o evolucionista de rua que, a rigor, se quiser ser coerente, deverá deixar sua religião, se é católico, e abordar qualquer outra mais vaporosa? E Deus? E a origem da vida? Nesse ponto bem sei que eles dizem tranquilamente que os seres vivos surgiram por evolução. Pronto, que mais é preciso dizer? Mas em que consiste esse processo? Suponhamos a pergunta formulada. A resposta será imediata: o negócio passou-se devagarzinho, devagarzinho, imperceptivelmente, de pai para filho. Com o tempo, o que era terra úmida, virou minhoca. Ou então foi no fundo do mar que aconteceu o primeiro surgimento da vida. Estava eu neste ponto quando uma lembrança obsessiva começou a perseguir-me. Quem foi a pessoa que ainda ontem me dizia quase aos gritos: sou evolucionista! sou evolucionista! sou evolucionista! O invisível locutor escondia-se, talvez pela astúcia da memória que queria poupar-me o dissabor de mais uma controvérsia nesta idade. Idade. Ah! Já sei! Foi o professor Alceu Amoroso Lima no seu livro Memórias Improvisadas recentemente publicado. Na página 183 diz o seguinte: "A importância do catecismo holandês, tão mal recebido pelos conservadores, reside nas novas perspectivas que abre. Quaisquer que sejam as restrições ou condenações que lhe sejam impostas, continuarei a achá-lo digno de admiração e de estudo. O catecismo tradicional era baseado no ponto final. O holandês é baseado muitas vezes num ponto de interrogação (sic). Há uma série de coisas que ele deixa em aberto, fora do que é tido como dogmático. Mas o que é o dogma? É apenas uma verdade que está para lá de nossa compreensão puramente racional. Ninguém pode discutir o Mistério da Santíssima Trindade, porque ninguém sabe o que é, está além de nossa compreensão. Então é dogma. E depois dessa algaravia que está além de minha compreensão, sem ser dogma, o Professor Alceu aventura-se a falar na sua evolução: "A minha evolução se processou através da passagem do evolucionismo espiritualista tipo bergsoniano à aceitação das bases fixistas antievolucionistas. Mais tarde, por influência da leitura da obra de Teilhard de Chardin, deu-se a minha volta ao evolucionismo, mas já não de tipo naturalista nem de tipo espiritualista vago, mas de tipo teocêntrico." O PROFESSOR Amoroso Lima não explica que evolucionismo é esse, e tudo me leva a crer, pela leviandade com que apregoa sua nova religião, não mais católica, sem talvez se aperceber disso, que, também como o barbeiro, o professor Alceu Amoroso Lima ignora todas as implicações de seu evolucionismo. Saberá ele que já não pode crer na origem do homem a partir de Adão? Saberá ele que não pode admitir para o homem o que os teólogos chamam geração unívoca, já que cada alma humana é criada por Deus e não pelos pais? Saberá o professor Alceu que a origem da vida pelo evolucionismo biológico implica problemas de improbabilidades expressas por números tão fantásticos que um Borel e um Boltzman não hesitaram em usar os termos de improbabilidades extra-cósmicas? Saberá o doutor Alceu que a obra científica de Teilhard de Chardin é de quinta ou sexta classe e não aparece em nenhum tratado sério de Antropologia, a não ser no grupo organizado para explorar editorialmente a obra do jesuíta que morreu em desobediência, já que deixou para uma Senhorita a obra que a Companhia interditava? Saberá o professor Alceu o que é a lei de Clausius? Lembrar-se-á que Pio XII, numa alocução, recomendava a difusão do conceito de entropia que mostra a evolução do Universo físico num sentido oposto à dos evolucionistas que pensam na ortogênese. Imagina o doutor Alceu que poderá manter razoavelmente a sua convicção na imortalidade da alma dentro da salada filosófica e teológica do fantasioso jesuíta? Esquece o doutor Alceu que Teilhard foi condecorado como pioneiro do diálogo com os comunistas pelo infortunado Roger Garaudy? Conhecerá o doutor Alceu o princípio metafísico: "nada passa de potência ao ato por algo que não esteja em ato" que se opõe ao evolucionismo? VOLTO à minha convicção. Se o doutor Alceu ainda tem fé, será a do carvoeiro; e seu evolucionismo não é muito melhor que o do meu barbeiro.

  • Novena aos Santos Anjos, por São João Bosco - Dia 10

    DÉCIMA CONSIDERAÇÃO para o dia da festa Afeto que devemos ao Anjo que tanto nos ama Se descobríssemos que um personagem importante da alta política, sem estarmos a par de nada, tivesse favorecido nossos interesses diante do Presidente e promovido com grande empenho nossa vantagem, nem nossa língua, nem nossas mãos, nem nosso afeto nos pareceriam suficientes para corresponder a tanto amor. E no entanto que importância tem tal proteção se comparada a de nosso Anjo da Guarda? Mal tendo entrado neste mundo e ainda quando não conhecíamos nem sabíamos nada, nosso amantíssimo Custódio já estava constantemente de vigia em torno de nós. Sem cessar rezava ao Altíssimo a fim de que não prevalecessem sobre nós todos os perigos que nos ameaçavam naquela tenra idade. Enquanto crescíamos nós, com o passar dos anos, crescia igualmente o empenho e o cuidado de nosso zeloso Guardião. Mal começou a brilhar em nós a luz da razão, redobrou ele seus cuidados no intuito de guiar-nos para uma vida mais sublime, a vida sobrenatural e da graça divina. Esteve muito atento em dirigir nossos passos no caminho da salvação e em nos acostumar enquanto era tempo a uma vida de bom cristão. Quantas inspirações não nos concedeu nosso Bom Anjo desde o frescor de nossa idade, no florescer da adolescência e em nossa maturidade? Agora, ao experimentarmos continuamente seus favores para conosco, mesmo depois de tantas e tão notáveis ingratidões de nossa parte, como não se há de acender uma vez por todas nosso amor por tão constante e digno protetor? Moisés certamente mereceu para sempre o amor daquele povo insolente ao qual serviu de guia no deserto segundo as ordens de Deus, visto o cuidado amantíssimo que nunca deixou de ter. Mas muito mais o mereceu quando Deus, justamente indignado e já pronto para fazer geral extermínio daquele povo horrivelmente sacrílego que se tinha posto a adorar um bezerro de ouro, voltou atrás e deteve-se diante das ardentes preces do bom Moisés. E nós, quantas vezes pecamos ao nos termos revoltado contra Deus e contra nosso amoroso Anjo, querendo seguir nossos loucos caprichos ? Deus então, indignado conosco, já estava com muita razão disposto a fulminar sobre nós a sentença de eterna morte. Mas nosso amável Custódio interveio por nós, ingratos, falando a Deus em nossa defesa, e com suas valiosas preces desarmou a ira divina, obtendo-nos tempo e graça para converter-nos. Se não fosse nosso Anjo, o que seria de nós? Já estaríamos ardendo naquelas labaredas inextinguíveis, por nós bem merecidas, sem esperança de alívio ou de salvação. E se por ventura alguém pudesse ainda se dizer inocente, a quem deveria ele agradecer este tão raro mérito de ter mantido até agora a primeira graça recebida no Batismo? A quem senão a seu Bom Anjo, que com sua maravilhosa conduta livrou-o de todos os perigos em que se encontrou? E se é certo, enfim, que quem aprendeu a fazer o bem encontrou a arte de unir os corações, quão fortes e afetuosos não devem ser os vínculos que nos unem ao nosso Anjo da Guarda, já que recebemos dele a todo momento tantos e tão numerosos benefícios da natureza e da graça? Meu amabilíssimo Anjo, eu bem reconheço que, não somente pelos vossos excelsos méritos mas também para meu maior proveito, devo dia e noite ocupar-me em vos louvar e vos bendizer. E se até agora o tenho feito tão raras vezes e com tão lânguido afeto, fazei com que doravante, impelido por um vivo sentimento de gratidão, eu vos dedique para sempre o mais terno amor e a mais fervente e reconhecida homenagem. PRÁTICA Se temos em nossa companhia um amigo, a boa educação exige que de vez em quando lhe demos nossa atenção, falando-lhe com gentileza e tratando-o como amigo. Reavivai com frequência a fé na presença de vosso Anjo da Guarda, que vos acompanha onde quer que estejais. Santa Francisca Romana via-o sempre junto a si, com as mãos cruzadas sobre o peito e os olhos fixos no céu. Mas ante a mais leve falta o Anjo cobria seu rosto com as mãos e às vezes virava-se de costas. Recorrei pois ao vosso Bom Anjo com preces afetuosas e cheias de santa confiança, a fim de que ele não permita que alguma culpa vos manche a alma. Celebrai hoje sua festa recebendo fervorosamente os sacramentos da Confissão e da Comunhão. EXEMPLO Ao assistir a uma aula de catecismo, um rapaz foi estimulado a recorrer a seu Anjo da Guarda e a encomendar-se a ele em toda ocasião de perigo. Aconteceu um dia que, estando ele a ajudar uns pedreiros, de repente quebrou-se o andaime sobre o qual trabalhava com outros dois companheiros e desabaram os três desgraçadamente do quarto andar, sem que nada lhes refreasse a queda. Naquele terrível momento em que caíam sem se poder segurar em nada, o bom rapaz pôs-se a gritar a plenos pulmões: "Meu Anjo da Guarda, ajudai-me!" Coisa realmente maravilhosa! Caíram os três: um perdeu a vida, outro foi levado aos pedaços para o hospital e em pouco tempo também faleceu; somente aquele que se tinha recomendado ao seu Anjo saiu-se completamente ileso, de modo que pôde continuar desempenhando seu trabalho cotidiano. Se tal é a prontidão de nosso Custódio em favorecer-nos no que concerne os bens temporais, quais não serão os favores que ele nos há de alcançar para a alma, que é o principal objeto de seu cuidado e vigilância?

  • Novena aos Santos Anjos, por São João Bosco - Dia 09

    NONA CONSIDERAÇÃO O santo Anjo da Guarda conforta as almas do Purgatório Todo o cuidado e toda a solicitude que o Anjo da Guarda manifesta por nossa alma durante a vida tem por finalidade poder um dia levá-la consigo ao Paraíso. Se a alma, por causa das dívidas contraídas durante a vida, deve por algum tempo purificar-se nas penas do Purgatório, que ansiedade não sente o Anjo em vê-la consolada e logo liberada? Com frequência acode para consolá-la, na esperança de que logo se terminem aquelas penas e a alma possa entrar na Jerusalém celeste. Assim se expressa Santo Agostinho: "Não duvidamos de que as almas, durante sua purificação, sejam visitadas e consoladas por seus Anjos, que lhes prometem a Jerusalém celeste".¹ De lá descem à terra estes mesmos Anjos a fim de solicitar orações, esmolas, sacrifícios e indulgências da parte dos fiéis a fim de mitigar aquelas atrozes chamas ou para lhes acelerar o fim. A que se deve, com efeito, o fato de que entre nós se mantenha viva e constante uma terna compaixão para com as almas do Purgatório, senão à incessante solicitude do Anjo da Guarda? Enquanto aquelas pobres almas veem o paraíso aberto sem todavia poder lá entrar, buscam uma consolação que ninguém lhes pode dar a não ser as almas peregrinas da terra. Não podem contudo informá-las a respeito de seu doloroso estado, e é por isso que o Anjo da Guarda não se cansa de convidar os mortais a rezarem por elas. É ainda o Anjo quem oferece a Deus estas orações ou sufrágios, e também, por sua vez, suplica a Deus que se digne abreviar as penas destas pobres almas. Então volta-se para elas, a quem tanto ama, e conforta-as do melhor modo possível: "Serão aliviadas por uma consolação inefável", diz São Lourenço Giustiniani. Quando o Anjo desce pela última vez para visitar uma alma e levar-lhe a feliz notícia do final de suas penas e do começo de sua bem aventurança, que festa para ambos, que alegria, que contentamento! Renovam-se então as vozes festivas que escutou São João: "Agora foi estabelecida a salvação!" (Apocalipse 12, 10) Eis que é chegado para esta alma o ditoso momento da salvação, momento de misericórdia onipotente, momento em que Deus estende um novo reino sobre um novo eleito. Entre tais transportes de gozo, entre os mais jubilosos hinos de alegria, aquela venturosa alma é conduzida para tomar posse da feliz eternidade, onde unida a todos os outros santos e bem-aventurados, a todos os triunfantes coros dos anjos, recebe a coroa de glória, gozando junto a seu Anjo de todas as delícias celestes por toda a eternidade. Oh meu amantíssimo custódio, dignar-vos-eis buscar-me dentre os horrores deste penoso cárcere, a fim de aliviar meus apuros com vossa amável presença e doces consolos? Para proporcionar-me o suspirado socorro que espero dos fiéis ainda militantes na terra? Oh, meu Anjo, fazei que eu vos possa honrar e obedecer durante a vida para que também seja digno de vosso favor após a morte, naquele lugar de dura expiação. Será então recíproca a nossa alegria, vivos e incessantes serão meus agradecimentos quando me conduzirdes para tomar posse daquela inefável felicidade do paraíso. PRÁTICA Aplicai-vos o mais que podeis a socorrer as almas dos defuntos que no meio daquelas chamas imploram vosso socorro e compaixão. Na mesma medida em que fizerdes o bem Deus há de inspirar outras almas a fazerem o mesmo em vosso favor. Oferecei hoje as orações do Santo Anjo e do Ângelus, com as indulgências anexas, em sufrágio pelas almas do Purgatório. EXEMPLO Nas revelações de Santa Brígida, que foram aprovadas pelos Padres do Concílio de Constância, lê-se que ela viu muitas almas conduzidas ao paraíso pelo Anjo da Guarda. "Eu vi, diz ela, a alma de um soldado que durante quarenta anos sofreu as dolorosas penas do purgatório e que de vez em quando era visitada por seu Santo Anjo. Vi também a alma de um rei, condenado do mesmo modo àquela prisão de fogo. O próprio Salvador disse-lhe que veria seu Anjo, o qual lhe aplicaria, através dos sufrágios da Igreja Militante, os frutos de seu divino sangue." Nós também seremos favorecidos por estes mesmos consolos e sufrágios se correspondermos durante a vida presente às inspirações de nosso Anjo em prol das almas que sofrem no Purgatório. ______ 1 - Santo Agostinho, Sermões, Sermão 46.

  • Novena aos Santos Anjos, por São João Bosco - Dia 08

    OITAVA CONSIDERAÇÃO A especial assistência do Anjo da Guarda na hora da morte Visto que os cuidados a nós dispensados por nosso Anjo durante a vida não têm outro fim senão o de preparar-nos uma morte preciosa, quanto mais percebe ele estar chegando nossa hora, mais redobra a vigilância para alcançar o sucesso. O Anjo trata de preparar com muita antecedência este grande passo da alma que ele ama tanto. Constantemente vê-se o fato de que são especialmente as almas retas e dóceis à voz de seu Anjo que têm certo pressentimento ou segurança da proximidade de sua morte, e por isso buscam levar uma vida de maior recolhimento e com mais ardor dedicam-se às boas obras, a fim de melhor terminarem a vida. Isto é sem dúvida efeito das inspirações interiores que elas recebem de seu Anjo. É também verdade que algumas almas particularmente favorecidas conheceram com maior exatidão, graças a comunicações angélicas, a chegada desta hora, e assim puderam aumentar ainda mais seus tesouros de boas obras durante o breve tempo de vida que lhes restava. "Tu hás de morrer no primeiro dia do ano", disse o Anjo ao abade São Marcelo. "Tu morrerás no primeiro dia de março", comunicou também o Anjo ao príncipe David, da família real inglesa. "Dentro de um ano virei para levar-te comigo para a glória", disse igualmente o Anjo a Santo Huberto. No entanto é certo também que, embora de maneira menos precisa, o Anjo habitualmente não deixa de prevenir a alma a si confiada, através de internas inspirações mais ou menos explícitas, se a alma em questão quiser ouvi-lo. "Pensas tu, infeliz, que hás de viver para sempre ? E se morreres daqui a pouco?" Assim ouviu em seu coração uma pessoa que se dispunha a pecar e, arrependendo-se logo sinceramente emendou-se, restando-lhe pouco tempo de vida. "Ah, pobre homem, dentro de pouco morrerás!", ouviu claramente em seu interior um indivíduo parecido ao mencionado acima -- com uma vantagem a mais, pois morreu pouco depois de se ter confessado. Oxalá fossem sempre assim correspondidos os avisos do Anjo; não veríamos tantas mortes desventuradas. Nas angústias das últimas horas da vida mostra-se o Anjo mais do que nunca protetor eficaz e amoroso consolador. Ele opõe-se aos últimos ataques do inferno, reprimindo seus assaltos e solapando suas forças, de maneira que seu protegido fique tranquilo e seguro em meio às amarguras da morte. Ele conhece, de fato, melhor do que qualquer um, o modo mais conveniente de aliviar as angústias da agonia, seja sugerindo suaves pensamentos de resignação amorosa, seja suscitando confiança nas mãos paternas de seu Senhor ou em suas chagas, ou ainda despertando no moribundo um vivo desejo de gozar da divina beleza no céu. E, para alcançar-lhe socorros mais vigorosos, o Anjo intercede amorosamente com suas orações junto a Jesus Salvador das almas e a Maria, Mãe piedosa e grande protetora dos agonizantes. Tampouco deixa ele de implorar o auxílio dos outros anjos e santos, especialmente de São Miguel, que preside às agonias, e de São José, que nestes momentos há de prestar singular assistência. Além disso o Anjo estimula o fervor das almas mais agradáveis a Deus e o zelo dos sacerdotes, aos quais São Filipe Neri considerava que em tais ocasiões os anjos sugerem as palavras mais apropriadas, de modo que sejam como bálsamo celeste para a alma naquelas poucas horas de vida que lhe restam, durante as quais nos encaminhamos para a eternidade. Um moribundo, de fato, assim falou: "Oh, que grande conforto me dá meu bom Anjo, ele me dá o ósculo da paz e com ele vou para Deus". Um outro, pouco antes de expirar, disse: "Oh, como combate o Anjo em prol de seus devotos, como os consola! Já podeis vê-lo aqui, e em sua companhia vou-me embora. Santa Teresa, ao morrer o filho de uma distinta mulher, exclamou: "Oh, senhora, quantos anjos estão vindo receber a alma deste pequeno anjo da terra. Feliz quem morre desta maneira!" Santo e amabilíssimo Anjo da Guarda, fiel e constante amigo mesmo de quem o ultrajou e ofendeu, contanto que se tenha arrependido, recomendo-vos minha derradeira agonia e seus angustiantes momentos, decisivos para minha salvação eterna. Feliz de mim se vos tornardes favoráveis, de modo que sejam o princípio de uma melhor e eterna amizade convosco. Ah, querido Anjo, na hora de minha morte, iluminai-me, dirigi-me e governai-me. PRÁTICA Todos os dias, de manhã e de noite, recomendai ao vosso Anjo da Guarda de todo o coração as últimas horas de vossa vida e assegurai-lhe de que confiais em suas mãos vossa salvação eterna. "Em vossas mãos está o meu destino" (Salmo 30, 16). Visitai hoje um doente ou dai uma esmola. EXEMPLO Dentre os inumeráveis casos que se poderiam mencionar como confirmação do solícito cuidado que têm para conosco nossos Anjos da Guarda ao terminarmos a vida, parece-me muito ilustrativo o que conta o Venerável Pedro de Cluny¹. Escreve ele que um jovem, já próximo do fim de seus dias devido a uma grave doença, ao confessar-se deixou de dizer certo pecado por vergonha. Na noite seguinte, seu Anjo da Guarda, pesaroso em extremo ante o infeliz estado daquela alma, deu-lhe a entender por uma terrível visão que se não manifestasse o pecado que havia calado à confissão, o Paraíso lhe seria proibido e ele seria eternamente condenado. O doente, tendo voltado a si, confuso e arrependido chamou imediatamente o confessor e derramando lágrimas confessou tudo o que por vergonha havia calado. Recebeu devotamente o Viático e a Extrema Unção, morrendo placidamente com sinais evidentes de eterna salvação agradecendo sem cessar seu Anjo tutelar. _______ 1 - Pedro o Venerável, Livro dos Milagres, II. Mesmo em vida já se dava a este abade de Cluny o título de "Venerável". Foi um dos personagens mais marcantes do século XII. Morreu aos 25 de dezembro de 1156, depois de ter pregado o sermão da noite de Natal, e tendo pedido a Deus para morrer em tal data.

  • Novena aos Santos Anjos, por São João Bosco - Dia 07

    SÉTIMA CONSIDERAÇÃO Ternura do santo Anjo da Guarda para com o pecador A bondade de nosso amoroso custódio não cessa nem mesmo quando caímos em algum pecado. É verdade que naquele infeliz momento em que pecamos nosso bom Anjo de certa maneira afasta-se de nós com indignação, prorrompendo em altos gemidos de dor. E apesar de estar ele, em razão de seu estado beatifico, vogando num delicioso oceano de paz, sua aversão pela culpa o faz parecer submergido num mar de lágrimas: "Os anjos da paz chorarão amargamente" (Isaías 33, 7). No entanto, mesmo grosseiramente ofendido por quem peca sob seu puríssimo olhar, mesmo desprezado em favor do espírito maligno, nem assim se retira nem abandona aquele que o ultrajou. Sofre, dissimula e não deixa passar nenhuma ocasião de recuperar esta alma infeliz que ainda lhe é querida. "Que grande coisa," exclama São Pedro Damião, "todos os dias e de tantas maneiras nós afrontamos estes tão amantes protetores, e seu amor continua a suportar-nos! Mais ainda, como se tal não bastasse, eles perseveram em assistir-nos, crescendo neles e tornando-se mais piedosa sua solicitude para conosco, já que nos veem mais miseráveis e mesquinhos. Assim como um coração de mãe torna-se mais terno quando a doença de um filho querido se agrava, assim também nosso amoroso custódio, vendo nossa alma num estado tão deplorável, fica por ela todo enternecido e envia em seu favor, aos pés do divino trono, seus primeiros atos de piedade, intercedendo com estas palavras: "Oh, Senhor, tende misericórdia desta alma a mim confiada, somente Vós podeis liberá-la e sem Vós ela está perdida. Livrai-a para que ela não seja rebaixada à corrupção" (Jó 33, 24). Tais são as súplicas que faz o Anjo ante o trono de Jesus Redentor, e também ante o trono de Maria, refúgio dos pecadores. Graças a tão poderosos intercessores, como não se haveria de aplacar a justiça divina? Ah, se não fosse tão obstinada nossa resistência a tantos e tão amorosos impulsos de nosso Anjo da Guarda, ninguém deixaria que o sol se pusesse sobre sua culpa sem tê-la antes chorado e espiado com frutuosa penitência. Mas nem mesmo quando nos vê desdenhosos aos seus chamados o Anjo deixa de nos amar. Em tais ocasiões ele se vê forçado a servir-se da vara de correção, enviando infortúnios ou revezes, vistos por nós como desgraças mas que em realidade são delicadezas de nosso Anjo, que sabe amar e corrigir, sabe mudar um castigo em bem. Em que abismo de culpas não se afundava Balaão, que queria amaldiçoar o de Deus? Mas o Anjo, tendo-o primeiro conduzido a um estreitamento do caminho, apareceu-lhe com uma espada de fogo na mão dizendo-lhe ter vindo justamente para estacar lhe o passo, porque estes mesmos passos eram iníquos e perversos [Cf. Números 22, 31-32]. Desta maneira viu-se Balaão transformado pelo Anjo. Assim também, a cada dia, são mudados muitos corações, antes rebeldes e agora arrependidos de seus erros e de volta ao reto caminho da virtude depois de terem sido colocados no aperto de algum transtorno ou de terem ouvido as censuras de seu Anjo da Guarda. E qual não é então a alegria do Santo Anjo! Em júbilo voa ele para o céu e lá convida todas as hierarquias angélicas a festejarem consigo, conforme as palavras do Redentor a propósito da ovelha perdida e felizmente tornada ao redil: "Haverá mais alegria no céu por um só pecador convertido do que por noventa e nove justos que não precisam converter-se" (Lucas 15, 7). Oh, meu pacientíssimo Custódio, há quanto tempo já vos esforçais para reconduzir ao aprisco esta ovelha extraviada que é minha alma! Ouço as vozes a chamar-me e no entanto escapo-me de vós, como fazia Caim fugindo da face de Deus [Cf. Gênesis 4, 6-16]. Ah, não quero mais cansar vossa paciência! Coloco novamente minha alma em vossas mãos para que a coloqueis nos braços de Jesus, o Bom Pastor. Ele prometeu fazer grande festa com todos os seus anjos por causa deste retorno. Que para mim hoje seja o dia desta festa; dar-vos-ei a ocasião oferecendo-vos minhas lágrimas por meus pecados e que vosso júbilo seja prolongado pelo meu arrependimento. PRÁTICA Fazei todo o possível para fugir, como se fosse peste, das más companhias e das conversas suspeitas, durante as quais vosso Bom Anjo não pode deixar de vos olhar com desgosto, porque vossa alma está em perigo. Somente se evitais estes perigos podereis estar seguros da assistência do Anjo e da ação da divina graça. EXEMPLO A história que Cesari¹ nos conta a respeito do famoso Linfardo manifesta claramente os sentimentos que despertamos em nossos amorosos Anjos ao cairmos em pecado, e com que urgência esforçam-se eles para fazer-nos voltar ao estado de graça. Nascido de nobre família, Linfardo fez-se religioso e, no intuito de exercitar-lhe a humildade, foram-lhe impostos pelos superiores os mais baixos cargos. Durante alguns anos manteve-se ele nestas ocupações dando grande exemplo de virtude, até que um dia o espírito maligno enviou-lhe uma tentação de soberba, sugerindo que o exercício de tarefas demasiado modestas desprestigiava seu nobre nascimento. Esta tentação chegou a ser tão violenta que o pobre monge já estava quase decidido a deixar o hábito religioso e a abandonar o claustro. Mas enquanto tais pensamentos o agitavam seu Anjo da Guarda apareceu-lhe de noite sob forma humana e disse-lhe: "Vem e segue-me". Linfardo obedeceu e foi levado para visitar alguns sepulcros. Andando por aqueles lugares, vendo uns esqueletos e sentindo o mau cheiro da putrefação, ele não demorou a aterrorizar-se e a pedir ao Anjo que o deixasse ir embora. Então o celeste guia conduziu-o a um lugar afastado e com voz autoritária reprovou-lhe a inconstância, dizendo-lhe: "Tu dentro em pouco não serás mais que um viveiro de vermes, um monte de cinzas. Veja pois se te convém dar entrada à soberba, voltando as costas a Deus por não querer suportar uma humilhação que te valeria uma coroa de glória eterna". Ante tal bronca Linfardo pôs-se a chorar, pediu perdão por sua falha e prometeu ser mais fiel à sua vocação. O Anjo então reconduziu-o ao seu quarto e desapareceu, tendo o monge permanecido fiel até a morte aos seus sinceros propósitos. ______ ¹ - Domingos CESARI, Panegíricos dos Santos, livro 4, 54.

  • Novena aos Santos Anjos, por São João Bosco - Dia 06

    SEXTA CONSIDERAÇÃO A especial assistência dos anjos nas tribulações É no fogo que o ouro purifica-se e adquire seu brilho. As manchas das tribulações cobrem a terra inteira, e cada um de nós tem a sua consigo. Todos os eleitos têm de passar por este forno de purificação, e nele podem penetrar corajosamente se tomarem a precaução de não entrarem sozinhos, mas acompanhados por seu Anjo da Guarda. Na fornalha de Babilônia somente os três jovens pareceram entrar, mas lá se encontraram em companhia de um anjo bom, que fez com que o fogo só queimasse as cordas que os amarravam, ao passo que eles livremente passeavam por meio das chamas, das quais saíram com as roupas e o corpo absolutamente intactos (Cf. Daniel 3). Assim procede também o bom Anjo para conosco em nossas aflições. Faz com que se consumam somente as amarras dos vícios, que nos manteriam apegados à terra, enquanto as vestes das virtudes nada sofrem; ao contrário, saem mais preciosas e apuradas. Além disso ele infunde em nosso coração um doce consolo, para que ofereçamos com amor nossas penas a Deus, derramemos lágrimas sobre nossas faltas passadas, ou ainda para que tomemos a firme resolução de levar uma vida mais santa e menos desordenada. Oh! quantas almas aperfeiçoam-se no fogo das tribulações! E em seguida o Anjo bom apresenta estas almas já purificadas a Deus, fazendo-as exclamar cheias de júbilo com o Profeta: "Vós quereis, Senhor, submeter-me à prova do fogo e eu Vos agradeço, porque depois de tal prova não encontrarei mais em mim a iniquidade de antanho" (Cf. Salmo 16, 3). Feliz e bem-aventurado aquele que com doce confiança conversa assim com seu Anjo, escutando sua voz e seguindo seus conselhos! Oh! que grande feito de virtude e de mérito! Oh! que belo triunfo do Santo Custódio sobre o inimigo! O espírito maligno não pode deixar de se queimar de raiva ao ver nossas lágrimas transformadas pelo Anjo da Guarda em pérolas preciosas, e também seu rancor convertido em instrumento nosso para a felicidade eterna. Oh! meu querido Anjo da Guarda, Vós que sabeis tão bem fazer com que toda tribulação termine em vossa alegria e meu bem, para o furor do infernal inimigo, dignai-Vos não me abandonar nas horas de maior necessidade. Fazei que minha paciência nunca se deixe vencer pela dor, dissipai minhas trevas com vossas luzes e abrandai minhas angústias com vossas consolações, de modo que eu saiba bendizer as cruzes que Deus me envia e possa gozar de perfeita felicidade no céu pelos séculos dos séculos. PRÁTICA Nos aborrecimentos que necessariamente se encontram no trato com os demais, especial mente se são pessoas de índole e de costume diferentes dos vossos, animai-vos a suportá-los, pensando que depois podereis gozar sem fim da companhia dos santos no céu. EXEMPLO É uma grande lição para nós o consolo que o Anjo da Guarda proporcionou à santa virgem Liduvina durante sua longa e grave doença, contraída aos dez anos de idade. Febres muito altas, dores agudíssimas, chagas por toda a parte, úlceras e até mesmo a putrefação fizeram dela um verdadeiro retrato de Jó. No início ela parecia um tanto desalentada, mas recorrendo ao seu Anjo da Guarda encontrou toda sorte de consolos, mesmo com frequentes aparições. "Não há nada tão amargo, dizia, que não se torne doce quando contemplo meu Anjo e penso em suas palavras. Ele é tão lindo que se Deus não me conservasse viva a fim de padecer por seu amor, eu morreria de felicidade simplesmente ao vê-lo. Um simples olhar seu me arrancaria alma e o coração do peito". A doença de Liduvina durou mais de trinta e oito anos, com um corpo roído por vermes que a desfiguravam, mas encorajada por seu Anjo da Guarda, que sem cessar lhe colocava ante os olhos a dolorosa paixão do Salvador e o prêmio eterno que por tais tormentos haveria de receber, ela tudo sofria corajosamente. Todas as suas tribulações e dores contribuíram para aumentar constantemente sua pureza e santidade.

  • Novena aos Santos Anjos, por São João Bosco - Dia 05

    QUINTA CONSIDERAÇÃO Especial assistência dos anjos em tempo de tentação Nós precisamos particularmente de ajuda nos momentos de tentação, durante os quais, se formos vitoriosos, estaremos esculpindo a coroa de nossos triunfos, "a coroa da vida" (Tiago 1, 12), e em tal combate a ajuda e a assistência do Santo Anjo é-nos muito necessária. Não parece estar equilibrada, diz São Tomás, a condição dos combatentes, se um homem tão débil tiver que vencer um inimigo tão forte, se um homem desprevenido tiver que neutralizar as artimanhas de um inimigo tão astuto. Mas todos foram muito bem providos pelo Senhor, continua o santo, que nos deu como amparo um anjo, do qual nos vem copiosa compensação de forças, luzes e graças, de modo que se alguém covardemente cede ante o maligno tentador, não o fará sem uma nova afronta ao seu Bom Anjo, que vê ter-se tornado inútil sua poderosa assistência. Mas se não nos afastarmos daquele que se coloca ao nosso lado como nosso custódio, ele saberá manter quieto o inferno inteiro, que há de se irritar sobremaneira contra nós. E nenhum dano sofreremos: pelo contrário, seremos firmemente sustentados por mãos angélicas a fim de que nosso pé não tropece nas insídias do inimigo (Salmo 90, 12).¹ Duas são as mãos que nos sustentam, diz São Bernardo, pois são duas as admiráveis luzes angélicas com as quais, como se fossem mãos, nossos Anjos da Guarda levantam durante as tentações nossas mentes e nossos corações: uma das luzes a que nos faz descobrir a brevidade do esforço, e a outra é a que nos faz vislumbrar a eternidade da recompensa. Feliz quem guarda estas duas luzes que conduzem tantas almas à bem-aventurança celeste. Está seguro porque encontra-se em mãos de seu Anjo da Guarda, que dá cabo da luta quase sem que nos demos conta de termos lutado, e ainda por cima merecendo-nos gloriosa vitória. Tal alma passará com gozo inefável do combate à vitória e ouvirá seu Anjo entoar novamente aqueles antigos hinos da vitória, que Ele cantara ao derrotar Lúcifer no céu: "Já está salvo o meu protegido, alegrem-se os céus e todos os seus habitantes" (Apocalipse 12, 12). Oh! meu amado Anjo, de quantas coroas estaria eu adornado se sempre me tivesse deixado levar por vossas mãos ! Quanto me arrependo por não Vos ter correspondido! Mas agora ponho-me de novo inteiramente em vossas mãos e nelas desejo viver e morrer. PRÁTICA Em momento de tentação voltai-vos imediatamente para o vosso Anjo da Guarda. Pedi-lhe ajuda, dizendo-lhe com o mais vivo afeto do coração: Meu Anjo da Guarda, assisti-me neste momento, não permitais que eu caia numa ofensa a Deus. Ou ainda com as palavras dos discípulos quando perigavam no meio do mar, dizei-lhe: Meu Santo Anjo, se não me salvais perecerei! (Cf. Mateus 8, 25). Se um amigo vosso ao ver-vos em perigo logo se comoveria, quanto mais o vosso bom Anjo da Guarda. EXEMPLO Os inapreciáveis socorros que os Santos Anjos nos prestam manifestam-se na admirável penitente Santa Margarida de Cortona. Esta santa, depois de sua maravilhosa conversão, manteve frequentes colóquios com o Anjo da Guarda, que a ensinou a rezar, a evitar os enganos do demônio, a afastar de seu coração as coisas do mundo e a consagrá-lo inteiramente ao seu celeste esposo Jesus. Ela por sua vez procurava ser plenamente agradecida ao seu angélico benfeitor, evitando a menor sombra de erro que pudesse desgostá-lo. Cada dia, manhã e tarde, ela lhe oferecia uma homenagem, especialmente com a reza diária e fervorosa de cem Pai-Nossos. Entretanto o demônio fremia de furor e por todos os meios procurava inquietá-la, ora acusando-a da multidão de seus pecados anteriores, ora sugerindo-lhe que Deus não a perdoaria, tudo tentando para induzi-la em desconfiança e desespero. Mas sempre o Anjo bom acudia pressuroso para reconfortar Margarida, fazendo-lhe ver que tudo aquilo não passavam de insídias do inimigo infernal, mostrando-lhe também como sair vitoriosa, e isto até o fim de sua vida.³ _______ 1 - Este parágrafo apresenta-nos resumida a doutrina de São Tomás de Aquino a respeito da ação dos Anjos da Guarda sobre os homens. Cf. Suma Teológica I. q. 113. 2 - São Bernardo, Sermões, Sermão 12 sobre o Salmo 90. nº 10. 3 - Margarida de Cortona, nascida em 1247 numa família camponesa de Laviano, na Itália, conviveu quando jovem durante nove anos com um nobre sem ter-se casado, e desta união teve um filho. A morte do homem com quem vivia impressionou-a fortemente fazendo-a converter-se com sinceridade. Afiliou-se então às terciárias franciscanas de Cortona, onde levou vida muito austera e de heroica santidade. Fundou um hospital para pobres e morreu cheia de virtudes em 1297. Foi canonizada em 1728.

  • Papéis velhos

    Por Gustavo Corção publicado n’O Globo em 17-01-1974 ONTEM, para descansar do hoje opressivo e tirânico que se nos impõe com brutalidade para vingar-se de sua fugacidade, fui remexer papéis velhos, e lá me encontrei num antiquíssimo 1968 em situações de nostalgias e doçuras perdidas. Não resisti ao desejo de revivê-las na companhia do leitor de hoje. Se esse fiel leitor acaso ainda se lembra dessas páginas antigas, gostará talvez de relembrá-las; se não se lembra, gostará talvez de recordá-las. * * * LOGO às primeiras linhas recebo a deslumbrante visita de um Fernando Carneiro ressuscitado e acompanhado de um moço discreto e modesto que já me fora apresentado como um sábio matemático. Na semana passada eu recebera um boletim mimeografado do Instituto de Matemática Pura e Aplicada, organizado pelos professores Nachbin, Lindolfo de Carvalho Dias e Luís Adauto Medeiros. Pobre de mim! Corri os olhos pelas folhas do boletim e mal me encontrei, ou talvez seja melhor confessar, logo que me perdi. Minha matemática de engenheiro ficou para trás, mas assim mesmo senti uma saudade enorme de sua modéstia e de sua claridade. SIM, o referido boletim despertou-me a nostalgia das demonstrações exatas e comunicáveis sem perigos de extravios ou contestações. Quem vive a mover-se e a lutar no mundo das ideias filosóficas e das verdades teológicas não consegue descansar as pernas, a garganta, o gesto, no tranquilo patamar de uma cabal demonstração, de onde se avista, ordenada e harmoniosa, a paisagem das ideias concatenadas e das conclusões irrefutáveis. VERDADE que o matemático se move num mundo de entes de razão que é quase um jogo. Provavelmente, é outra a angústia deles; e será talvez por isso que o moço matemático, que tem dois nomes de santo, João Bosco, e um nome muito conveniente para um cientista, Prolla, será por isso, dizia eu, que ele ouvia fascinado a borbulhaste e cintilante explanação, que Fernando Carneiro improvisava sobre os momentos da História, e outros problemas carregados da mesma essencial morrinha humana. SEJA como for, tive saudade de minhas equações, dos teoremas e das demonstrações que alegraram a minha juventude. Ah! Se pudéssemos provar a um Yves Congar que a soma dos ângulos internos de um triângulo é dois retos, supostos os postulados da geometria euclidiana, ou se pudéssemos provar cabalmente que os Bultzman e os Teilhards ou Schillebeeckx estão errados no nível da tabuada! O LEITOR maldoso certamente imagina que tenho um requintado prazer de andar todos os dias zangado com o que andam a dizer do Reino de Deus, ou do que chamam evolucionismo sem clara consciência de suas implicações. Não. Não tenho prazer nenhum. E estou pronto a ceder este posto de lixeiro a quem quiser me revezar. Teria algum gosto se, ao menos, as pessoas vencidas na esgrima do raciocínio se tornassem convencidas. Seria uma beleza se nesta luta ingrata pudessem os lutadores claramente descobrir quem ganhara e quem perdera, sim, pudessem saber que há o errado e o certo, e não apenas o antigo e o novo, e que, como os bons esgrimistas passassem a acusar a própria derrota: touché! apontando o coração. Tenho também saudades quando me lembro da esgrima que pratiquei meio século atrás com o professor de ginástica do Colégio Corção. E ontem, reencontrando um parceiro de xadrez, veio-me uma onda mais forte ainda de nostalgia e frustração. Ah! Se pudéssemos dar xeque-mate num progressista ou num padre inebriado pela descoberta dos "jovens"! Tempos atrás, quando o comunismo ainda não se apossara de nossas universidades, fui convidado, pelos estudantes (!) a fazer uma palestra na Faculdade de Direito. Lá percebi que nas primeiras filas estavam eles para se levantarem em sinal de protesto, logo que eu começasse a falar. Prevenido, apostrofei-os antes que se levantassem: — Vi ali no pátio algumas mesas com jogos de xadrez, desafio-os todos para uma simultânea, depois da conferência, e até, se quiserem, desafio-os também para uma queda de braços. Levantaram-se debaixo de uma vaia da maioria. O XADREZ é realmente um jogo translúcido e incomparável. Você poderá alegar má digestão, dor de cabeça, mas não pode alegar os caprichos da sorte. Estão ali as peças arrumadas numa implacável simetria, as regras numa perfeita igualdade para brancas e pretas. Ganha quem melhor proveito tira das regras, das normas, quem jogar o certo; perde quem jogar o errado. Não importa se é jovem, se tem ideias largas, se é evolucionista: ganha quem jogar bem, perde quem joga mal. E as regras de movimento de cavalos e bispos não sofreram nenhuma alteração com o Concílio Vaticano II. Além disso o xadrez é o jogo mais conservador do mundo: tudo gira em torno de um rei cuja coroa é encimada por uma cruz. Queiram ou não queiram, os soviéticos ainda se apegam com obscura inconsciência a esta última cruzada. LEMBRO-ME com saudades de Walter Cruz, que tinha a paixão do xadrez, e que, no período de nossa fulgurante amizade, costumava reduzir todas as categorias às enxadrísticas. Lendo algum mau artigo sobre hematologia ou sobre sociologia, rosnava cofiando o bigode: mau xadrez, mau xadrez... Para ele o mundo estava apinhado de bípedes implumes jogando uns péssimo xadrez. MAS A grande, a avassaladora nostalgia, que até em sonhos me persegue não é a da demonstração cabal nem a do xeque-mate. É a nostalgia de outra ainda mais rara, mais maravilhosa, diria até milagrosa, que entretanto tive a felicidade de desfrutar algumas vezes, muitas vezes, entre os solavancos da vida. REFIRO-ME à nostalgia violenta, apaixonada, devorante, tudo o que quiserem, de um pouco de concórdia, de amizade, de fraternidade, de entendimento, meu Deus! De um momento de doce paz como a da noite de ontem, enquanto Fernando Carneiro, vivo, supervivo, diante de mim e do João Bosco Prolla, dava uma demonstração das riquezas e belezas de uma alma racional. Como é bom, meu Deus, acamparem três irmãos num recanto do Reino de Deus.

  • Novena aos Santos Anjos, por São João Bosco - Dia 04

    QUARTA CONSIDERAÇÃO Especial assistência dos anjos em tempo de oração Uma vez sendo preciosíssimo o tempo em que passamos em oração, visto que tantos bens podem ser alcançados, o demônio esforça-se com empenho em distrair-nos, de modo a impedir os frutos destes preciosos momentos. E tal certamente aconteceria se nosso Anjo da Guarda não nos acudisse para suprir com sua ajuda o que falta em nossa fraqueza. O santo rei David dizia: Apenas elevo meu coração a Vós, oh! meu Deus, e eis que vossos anjos postam-se em torno de mim: "Em presença dos anjos cantar-te-ei salmos" (Salmo 137, 2). Isto acontece porque durante o tempo de oração os anjos nos veem como imitadores da vida angélica, que consiste inteira numa vida de união a Deus, por amor de Deus. Da Sagrada Escritura deduz-se que os anjos nos convidam à oração, são nela nossos mestres e oferecem-na a Deus. São eles os primeiros a estimular amorosamente nossos corações para que nos afastemos progressivamente das coisas terrenas e corramos com fé aos pés do trono de Deus, não somente em horas fixas do dia mas também nos momentos de dúvida e de necessidade. São eles que com uma voz secreta convidam-nos aos Sacramentos, às igrejas, aos oratórios, aos altares de Maria e dos santos, e particularmente aos lugares onde, como em pública audiência, Jesus sacramentado encontra-Se exposto. Nunca vi alguém que, apesar da tibieza, não pudesse dizer com o Profeta que de vez em quando se tenha sentido incitado a despertar-se do sono culpável e a voltar-se para Deus: "O Anjo retornou e despertou-me como homem sacudido do sono" (Zacarias 4, 1). Sendo atento companheiro de nossa alma, diz São Bernardo, nosso Anjo escolhe os momentos mais adaptados para apresentar-nos o puro prazer que se experimenta no trato com Deus. Quando Ele nos vê piedosamente recolhidos, faz-se logo nosso querido mestre de oração, dizendo com o Profeta Daniel: "Eu vim para instruí-lo e para fazê-lo entender os desígnios de Deus" (Daniel 9, 22). Nosso Anjo fala-nos ao pensamento através de excelsas e vivas iluminações, ao coração fala-nos com ternos e incendidos afetos 1. Diz Santo Agostinho² que, sendo nossos Anjos sempre nossos custódios, ficam junto de nós durante a oração muito contentes e exultantes. São João Crisóstomo também afirma que os anjos estão à nossa volta formando um coro. Eles não somente se regozijam mas também unem suas vozes às nossas com harmonia e afeto, tendo isto ocorrido sensivelmente não poucas vezes. Foi o que aconteceu com o bispo São Sabino³, que foi ouvido recitando o ofício em coro com os anjos. Também São Gustavo ao fazer a entoação, ouviu que lhe respondiam os anjos, e com eles rezou até o fim. Além disso a Sagra da Escritura nos ensina que nossos Anjos da Guarda apresentam nossas orações ante o trono do Senhor, como fizeram com as de Tobias: "Eu apresentei tuas orações ao Senhor" (Tobias 12, 12). Oh! amoroso mestre, que Vos fazeis presente a todas as minhas preces, sacudi-me de minha preguiçosa sonolência, incendei, inflamai meu coração e fazei que, colocando-o em Vossas mãos, eu delas obtenha a força que provém "de manu Angeli" (Apocalipse 8, 4). PRÁTICA Acostumai-vos a oferecer a Deus vossas orações pelas mãos do Santo Anjo, pois assim adquirem elas maior mérito e valor. Durante a Missa, a Igreja suplica que o Santo Sacrifício seja apresentado pelas mãos do Anjo. Assim também vós, quando assistis à Santa Missa, apresentai à divina majestade a Hóstia Santa e o Cálice pelas mãos de vosso Anjo. Hoje, ao assistir à Santa Missa, exercitai-vos a uma especial devoção 5. EXEMPLO Como confirmação da verdade que hoje consideramos, leiamos um luminoso fato narrado na Sagrada Escritura, no livro de Tobias. Depois da destruição do reino de Israel, este venerável patriarca foi levado para Ninive, junto a outros prisioneiros. Em meio à geral prevaricação de seu povo ele permaneceu sempre fiel. Levando uma vida pura e irrepreensível, ocupava-se em consolar os aflitos, em vestir os nus e principalmente em dar sepultura aos mortos. Mas entre tantas ocupações ele não cessava de oferecer fervorosas preces ao Senhor, que eram apresentadas ante o trono de Deus por seu Anjo da Guarda: "Eu apresentei tuas orações ao Senhor" (Tobias 12, 12). Oferecidas desta maneira a Deus pelo Anjo, tais orações valeram a Tobias muitos favores. Ele obteve assim a liberação de uma sobrinha que estava possuída pelo demônio, seu filho viu-se preservado de muitos perigos durante uma viagem e foi copiosamente enriquecido. O próprio Tobias recuperou milagrosamente a vista. De semelhantes favores seremos nós também cumulados se formos fiéis ao nosso Anjo da Guarda e apresentarmos a Deus nossas orações por suas mãos. ______ 1 - São Francisco de Sales, em seu livro Introdução à vida devota, diz: "Juntemos nossos corações, Filotéia, aos espíritos celestes e às almas bem-aventuradas; e assim como os rouxinóis, quando pequenos, aprendem a cantar com os que já são grandes, assim também nós, pelo convívio espiritual que devemos ter com os santos, aprenderemos a rezar e a cantar com maior perfeição os louvores divinos, e por isso dizia Davi: "Cantarei salmos em Vossa honra, oh meu Deus, em presença dos anjos". (Introdução à vida devota, 2ª parte, cap. 16). 2 - Muitas vezes nesta novena São João Bosco traz os testemunhos dos Santos Padres de forma geral e resumida, sem citações concretas e literais. É possível que ele estivesse indo buscar estas alusões nalgum sermonário ou livro piedoso que procedia da mesma maneira. Numa de suas cartas, Santo Agostinho, a respeito de uma passagem de Tobias (Tobias 12, 12), diz o seguinte: "Visto conhecerem os anjos o que se deve cumprir por ordem divina, nô-lo inspiram de maneira distinta ou velada, de acordo com o que recebem pela ordem divina." (Carta 130,9, 18/BAC 99, 69). 3 - São Sabino, bispo de Canosa, grande amigo de São Bento de Núrsia. Faleceu em torno do ano 566. 4 - São Gustavo foi abade de um mosteiro por ele fundado em Brives, na França. Diz-se ter sido milagrosa mente curado de uma doença por São Martinho de Tours. Sua festa comemora-se no dia 3 de Agosto. 5 - Referência à oração Supplices te rogamus, do Cânon romano, na qual se diz: "Pedimo-Vos humildemente, Deus todo-poderoso, que esta oferenda seja levada à Vossa presença, até o altar do céu, pelas mãos de Vosso Anjo, para que nós que, ao participarmos deste altar, recebemos o Corpo e o Sangue de Vosso Filho, abençoados por Vossa graça tenhamos também parte na plenitude de Vosso reino."

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