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Os graus do escândalo



Por Gustavo Corção,

publicado n’O Globo em 05-04-1973


O PRÓPRIO Santo Tomás, o Doutor Comum da Igreja, quem nos diz isto: "É preciso, entretanto saber que, se se tratar de um perigo para a fé, os superiores devem ser advertidos por seus inferiores, até publicamente" (IIª IIae qu XXXIII, a.4, ad.2).


MAIS adiante Santo Tomás ensina "que o súdito que presume ser em todos os pontos melhor que seu superior corre o risco do orgulho; como, porém, neste mundo ninguém está isento de defeitos, não é mau presumir a superioridade num ponto particular. E é preciso observar também que aquele que exerce este ato de caridade para com seu superior de modo algum rebaixa o seu superior, antes ajuda-o, e "quanto mais elevado é o cargo maior é o perigo".


A ARGUIÇÃO dos superiores, em razão do perigo da fé, que está em toda a tradição católica, ganha mais força do que nunca nos tempos em que os escândalos vêm de cima. Todo o mundo já disse em todos os tons que a atual calamidade da Igreja consiste nos escândalos dos bispos, dos provinciais, dos superiores. Eu apenas repito, ora com mais ênfase, ora com sinais de fadiga. Não tem, por conseguinte, nenhum cabimento o espanto escandalizado das autoridades quando eu torno a dizer o que já se escreveu no mundo milhares de vezes. A nota recentemente publicada pela Cúria Metropolitana do Rio de Janeiro é por conseguinte descabida e extemporânea. Eu sou censurado indiretamente por dizer o que todo mundo já disse; há até quem fale em Cavalo de Tróia, e outros que aludam a autodemolição da Igreja. Por quem?


MINHA frase, no artigo extemporaneamente censurado (mas de modo indireto porque a mim mesmo não foi feita nenhuma advertência particular ou pública) estava longe de ser original. Eu jamais disse que a maioria dos bispos é "progressista", e portanto inimiga da Igreja, mas tenho dito e repito que nas infelizes Assembleias e Conferências episcopais, deixando-se os bons arrastar pelos mais ativos, resulta uma lamentável aparência em desfavor da maioria dos bispos.


VOLTO ao assunto da nota da Cúria porque até hoje permanece o escândalo das demissões dos 3 professores da PUC de São Paulo, e mais uma vez volto à carga do recente purpurado que em São Paulo parece querer demonstrar acintosamente que não é católico, embora seja cardeal. Esta afirmação parece audaciosa, e por isso passo a demonstrá-la.


TOMEMOS um Arcebispo Dom Radamanto, de alguma arquidiocese do Reino da Pasárgada. Suponhamos que se trate de homem disposto a tentações e fraco. Anuncia-se nessa arquidiocese um espetáculo teatral onde se diz com todos os recursos cênicos e verbais que Jesus é amante de Madalena, e um homem como um outro qualquer. Dom Radamanto ouve falar na peça e sente em diversas partes do corpo, dos ouvidos aos pés, a cócega da curiosidade. Não resiste, e os pés o levam, o ouvido e o resto, ao espetáculo. Até aqui, se Dom Radamanto fosse esquivo e discreto, poderíamos dizer: fez escândalo público, coitado, mas esforçou-se por ir disfarçado e esquivo. Primeiro grau de escândalo.


IMAGINEMOS agora o caso em que Dom Radamanto não toma precaução nenhuma, e tranquilamente se instala de camarote, sem, todavia, aplaudir o espetáculo. Segundo grau do escândalo, que todavia ainda paga, na fingida austeridade do semblante, o tributo que a hipocrisia deve à virtude.


IMAGINEMOS agora o caso de Dom Radamanto não se conter e aplaudir o sacrilégio e a blasfêmia. Terceiro grau de escândalo onde já parece que o personagem se compraz nele. Com mais um passo estamos no quarto grau: Dom Radamanto faz questão de descer do camarote para abraçar o Jesus amante de Madalena. Os católicos já podem sentir esse exagero como uma bofetada. Mas Dom Radamanto fez mais. Pousou para os fotógrafos das revistas de maior difusão no Reino da Pasárgada. Chegou ao quinto grau que, em nossa opinião, consiste em querer publicar seu total desdém pelos critérios da fé e da moral católica, e seu completo desprezo pela fé de seu rebanho. Neste quinto grau o prelado faz uma profissão de Fé anticatólica. E é essa "'autoridade", ostensivamente anticatólica, que manda expulsar da Pontifícia Universidade do Reino da Pasárgada três honrados professores católicos que apoiaram outro professor católico contra quem outra autoridade advertia seus fiéis, porque este outro professor ousara escrever que a calamidade católica é promovida de cima para baixo.

PERGUNTARÁ o leitor: e depois?


DEPOIS, os três professores do Reino da Pasárgada continuam suspensos, e Dom Radamanto recebeu o chapéu de Cardeal. E a moral dessa história qual é? Nenhuma. Esta história não tem moral.

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