Carta aberta a D. Sebastião Baggio
- 22 de mai.
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Por Gustavo Corção,
publicado n’O Globo em 14 de setembro de 1968
Recebi a seguinte carta aberta de alguns amigos que pedem sua publicação. E não somente publico como também subscrevo a carta seguinte:
“Nós leigos católicos, atentos ao que em torno de nós se passa, vimos manifestar a V. Ex.ª a estranheza que sentimos diante da atuação da Sra. Branca Melo Franco Alves, nomeada para integrar o Conselho dos Leigos do Vaticano. Por muitos lados, essa senhora mostrou sua incompetência para representar o laicato brasileiro. Os vários pronunciamentos que têm feito na imprensa, depois de sua nomeação, provocam com evidência que nos constrange e penaliza”.
“Logo depois de publicada a Humanae Vitae, a Sra. Branca Melo Franco Alves deu-se ao desplante de declarar que o uso das drogas anovulatórias era uma questão a ser resolvida. Roma por enquanto locuta, concluía ela”.
“Vem a público novamente e com uma carta aberta ao Sr. Presidente da República que, pelo desconchavo das ideias, pela grosseria de expressões e, enfim, pela insolência do facciosismo não pode ser passada em silêncio”.
“É justamente sobre esse facciosismo que queremos chamar a atenção de V. Ex.ª e das demais autoridades. Ninguém ignora que a Igreja está assaltada por uma super-heresia, o chamado progressismo, cujos tristes frutos são as apostasias, a desordem, a indisciplina, a obsessão sexual, a ânsia de sucesso e a vontade de poder. Sob a influência constante desses fatores, o descalabro da educação nos colégios religiosos do nosso país é um fato que qualificaríamos de escabroso e chocante, se para a nossa vergonha já ele não entrasse no folclore da vida cotidiana”.
“Os mais eminentes teólogos e escritores há muito não escondem a apreensão diante do cataclismo que assola a nossa Igreja. O próprio Pe. De Lubac, um dos responsáveis pela difusão do teilhardismo, que foi um dos líderes da ala liberal do Concílio, e antes disso um dos expoentes da chamada Nova Teologia, sem mais conter a inquietação e o assombro diante dos escândalos que dia a dia se sucedem, escreve: ‘É inútil pretender ignorá-lo. Em toda parte, de alguns anos para cá, multiplicam-se os sinais de uma crise espiritual como raramente sacudiu a Igreja. A crise modernista do princípio do século não passou de uma diminuta ondulação que a prenunciava. Pois o modernismo não afetava o conjunto da consciência cristã. Sem que se deva ao Concílio, a crise presente acarreta o risco de falseá-lo e de fazê-lo abortar. Já aqui e ali, sob o nome de Igreja pós-conciliar, ou de Igreja nova, ou de Igreja do Vaticano II, é outra igreja, não a de Jesus Cristo, que se procura iniciar, se é que se pode falar de iniciação para designar um fenômeno que antes de tudo é de desintegração...’”
“Hoje mesmo noticiam os jornais uma nova forma de opróbrio: a missa com debates. Eis a notícia: um grupo de rapazes, querendo ‘tornar a missa mais comunicativa’, contando nisto com a ‘compreensão’ de alguns sacerdotes e afrontando a reprovação de outros, faz liturgia improvisada, a ponto de admitir no grupo, sem prévio ensaio, quem quer que venha e tenha vontade de participar. O grupo, misturando-se com o povo, canta sambas e iê-iê-iês, ao sabor da inspiração do momento. Ontem, prossegue a notícia, houve outra inovação. No momento de explicação do Evangelho, o que há muito tempo, explica o repórter, não cabe mais aos sacerdotes celebrantes, mas a uma pessoa do grupo (o fato se passa na Matriz do Sagrado Coração de Maria, no Méier), houve um bate-papo... Os componentes do Grupo provocaram debates dentro do templo (informou uma das jovens do grupo), para fazer que todos os assistentes se sentissem em casa. (O GLOBO, 02-09-1968, p. 19).”
“Na mesma ocasião (e a relação entre os fatos só escapa aos imbecis) concedia D. Branca Alves uma entrevista ao ‘Correio da Manhã’, 01-09-1968, p. 24, na qual manifestava que ‘a vida do povo de Deus é construída no dia a dia e que, quando se luta por algo em que se acredita, se faz até coisas que Deus duvida’”.
“A propósito da invasão da Tchecoslováquia revelava a mesma senhora que o mundo está dividido entre duas superpotências e cada uma faz opressão onde lhe parece mais fácil”. Citou (acrescenta o jornal) a crise de maio na França como exemplo da paciência do povo brasileiro”.
“Mais uma vez estranhamos a pretensão dessa figura social de assumir a posição e o papel de intelectual. E novamente, alto e bom tom proclamamos, não está a esforçada senhora, por mais que ornamenta a nossa sociedade, apta a falar em nome do laicato brasileiro. Outras formas de atividades lhe estão, sem dúvida, franqueadas, onde poderá desempenhar-se a contento, deixando às pessoas capazes a dolorosa e árdua tarefa de pensar.”
Assinado: Alfredo Lage, Júlio Fleishman, Eduardo Borgerth, Cármen Lydia Albano, Ildefonso Albano Filho, Cléa Ballarini, Lúcio Goulart, Vicente Araújo Rodriguez, Maria Elizabeth Moura, Lygia Antunes de Oliveira, Maria Tereza Ferreira da Costa, Sileno Ferreira da Costa, Gil Barroca, Graça Pierotti, Álvaro Tavares, Sofia Tavares, José Lôbo Farias, Gustavo Corção e outras assinaturas.




