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Agruras e doçuras do ofício



Por Gustavo Corção,

publicado n’O Globo em 28-03-1973


ANDEI escrevendo alguns artigos sobre os ofícios alheios; deixem-me hoje gemer sobre o meu próprio como gemeu Machado de Assis: "Arre! É preciso explicar tudo!" E gemo quase desesperado porque, além de ser preciso "explicar tudo" começo a desconfiar que em certos casos seja inútil exaurir-se o pobre escritor em mil explicações. Ingrato ofício este de espalhar tristes palavras ao vento, e receber o eco da mais espantosa incompreensão.


VAMOS ao exemplo que está a pedir um bisturi. Na semana atrasada escrevi um artigo para apontar a falta de lógica com que o Cardeal Danielou tentava explicar a espantosa calamidade que flagela a Igreja. Terminei o artigo referindo-me à onda de defecções e de falsificações que leva o pobre fiel desnorteado a perder as tranquilas certezas morais que sempre tivera nos sinais da Igreja. Hoje, em muitas missas dominicais o fiel consciente e alfabetizado em seu catecismo muitas vezes se levanta no meio da cerimônia, escandalizado, e justamente desconfiado das intenções do celebrante e da validez da missa. Será aquilo um padre? Estará consagrada aquela hóstia? Na dúvida, o pobre fiel sai à procura de outra igreja onde possa tranquilamente cumprir o preceito. Já ouvi centenas de queixas desse tipo, e dezenas de conversas angustiadas sobre tão infeliz situação. E não adianta dizer; vá queixar-se ao Bispo; porque às vezes a Incerteza se estende até o Pastor que bem pode ser um mercenário como o próprio Jesus Cristo advertiu. E aqui cabe uma distinção muito atual. Bem sei que o padre pode estar em pecado mortal sem que a missa perca a sua validez; bem sei que o Bispo pode ser medíocre sem deixar de ser Bispo e merecer o respeito devido à plenitude do sacerdócio. Mas hoje, em tempo de apostasia em massa, acontece muitas vezes que o padre, com a marca do sacerdócio que terá até no Inferno, torna-se alheio e inimigo da Igreja sem, todavia, deixar o seu cargo, onde melhor pode esbofeteá-la.


E NESSE caso, faltando-lhe a intenção de consagrar, não há missa, como não há ação pastoral no caso do mercenário que não tem a intenção de guardar e salvar suas ovelhas.


NESSA ordem de ideias, abordada por milhares de escritores católicos aflitos, escrevi eu mais uma vez o seguinte, no fim de meu artigo de 15 do corrente: "Se a missa é missa, se o padre é padre, não admira que também não saibamos distinguir se o bispo é bispo ou inimigo da Igreja (mercenário) vestido de bispo."


ORA, PARA meu estupor, e para meu supremíssimo cansaço, recebo mais uma longa carta do Dr. Sobral Pinto que começa por dizer que leu o meu artigo "com a necessária atenção", e adiante acrescenta estas inacreditáveis palavras: "Nestas afirmações, impressionantes pelo caráter geral de negação total, Você põe em dúvida, fraternal amigo, tudo o que constitui a essência mesma da Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo!"


MEU PRIMEIRO impulso foi o de não dar maior atenção a tão disparatada interpretação e o de não lhe dar nenhuma resposta. Como, porém, o missivista me diz que sua carta "não é um documento (sic) particular" dando a entender que enviou cópias aos que se norteiem por seus conselhos, achei que devia escrever uma resposta que o Dr. Sobral Pinto lealmente deverá copiar e enviar às mesmas pessoas. Aí vai a resposta.


"ARRE! é preciso explicar tudo!" Expliquemos.


NÃO, Dr. Sobral Pinto, eu não estou pondo em dúvida o sacerdócio, nem estou negando o valor latrêutico, eucarístico, propiciatório e impetratório do Santo Sacrifício do Altar, mesmo porque, se a minha dúvida e as minhas negações chegassem a esta horrível impiedade que me atribui o Dr. Sobral Pinto, então seria inexplicável a cólera que me acomete quando vejo alguém desvirtuar tais coisas. Não sei se o Dr. Sobral Pinto compreendeu bem o que acabo de dizer, ou se devo explicar melhor.


TENTAREI abordar o problema por outra ponta. O Dr. Sobral Pinto, com fulgurante evidência, tresleu o que escrevi; mas também tresleu o seu catecismo se pensa, como dá a entender, que a essência do cristianismo consiste em crer com Fé divina, que D. Evaristo Arns, por exemplo, está efetivamente in sino Ecelesiae, e de modo algum pode estar longe da Casa do Pai "comendo bolotas com os porcos" (Luc. XV, 16). Tomo este exemplo porque é o próprio D. Evaristo quem se esforça por inculcar nos seus súditos esta suposição.


E MAIS não digo. Se o Dr. Sobral Pinto, como diz na mesma carta, reserva sua indignação [...] professores da PUC de São Paulo, punidos por um prelado escandaloso, e se prefere guardar seus "beaux gestes" para a defesa dos comunistas, não vejo a necessidade de me esforçar para tê-lo como leitor, nem me parece adequado o tratamento de "fraternal amigo" que me dá nas mesmas linhas em que me acusa da mais hedionda impiedade; se o Dr. Sobral Pinto não consegue entender o que escrevo além de não partilhar de minhas aflições, não vejo porque se obstina tanto em querer estorvar meu trabalho, como em outras circunstâncias já estorvou bastante, e ao mesmo tempo se obstina em pensar que podemos ser fraternais amigos. Deixemos para outros essas convenções de envelope e de fim de carta. A vida é breve. E o trabalho que tenho é pesado demais para ainda me permitir o luxo dessas esgrimagens laterais e inócuas, já que falamos línguas desencontradas, como provou o Dr. Sobral Pinto. Tendo assim provado que não entende, ou não quer entender o que escrevo com bastante clareza, o Dr. Sobral Pinto está desobrigado da tarefa heroica que empreendeu de me esclarecer; e não podendo eu evitar que espalhe as cópias das cartas que me escreverá nem podendo evitar que as escreva, suplico ao Dr. Sobral Pinto que doravante me considere desobrigado de as ler.


* * *


NO mesmo dia em que recebi a carta, recebi também um telefonema:


— É da casa do professor Gustavo Corção? perguntava uma velha portuguesa com a graciosíssima pronúncia de além-mar.

— Sou eu mesmo, senhora.

— Ai Jesus! eu não sou digna de tomar o seu rico tempo. Sou uma velha doméstica que desejava há muito ir à sua casa dizer-lhe certas coisas que trago ao peito. Mas já que estou a abusar de seu tempo, o professor há de permitir-me o desabafo. Olhe. Todas as manhãs, na Santa Missa, suplico o bom Deus que disponha de meu resto de anos para acréscimo dos seus...


* * *


DISSE-ME ainda outras coisas a velhinha que chorava na mesma bela língua que chorou Camões. E aqui confesso ao leitor um segredo. Não foi o Dr. Sobral quem nesse dia mais me perturbou e mais me afligiu, foi antes essa voz da santa velhinha que me deixou imóvel, curvado, esmagado a fitar longamente a ponta do botim, como lá diz o mesmo Machado de quem já neste artigo imitei a impaciência.

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